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segunda-feira, 18 de maio de 2026

CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2026



CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Curadoria | Pereira Lopes
Organização | iNstantes - Associação Cultural
Vários Locais
08 Mai > 31 Mai 2026


A 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes confirma aquilo que, desde 2014, se foi sedimentando longe dos centros de legitimação cultural habituais e que faz dele um dos mais consistentes encontros internacionais de fotografia realizados em Portugal. Entre 08 e 31 de Maio, o Festival reúne quarenta e oito fotógrafos de doze países e espalha vinte e quatro exposições por Avintes, Valadares, Lourosa, Vila do Conde e Braga, transformando o território num mapa visual de urgências humanas, memórias políticas, geografias íntimas e inquietações contemporâneas. A visita começa inevitavelmente em Avintes, vila operária e ribeirinha onde o Festival mantém o seu centro nevrálgico e onde a fotografia parece ocupar os espaços com uma naturalidade rara: a Casa da Cultura, os Bombeiros Voluntários, a Junta de Freguesia, o Centro de Fotografia iNstantes ou os Plebeus Avintenses deixam de ser apenas edifícios para se tornarem estações de uma deriva visual. Há qualquer coisa de profundamente democrático nesta ocupação do espaço público e comunitário. O visitante percorre ruas, atravessa portas improváveis, descobre imagens no coração da vida quotidiana. É precisamente aí que o Festival encontra a sua maior força, numa ideia de proximidade que devolve a fotografia às pessoas e as pessoas à fotografia.

Ao longo desta edição, o iNstantes constrói um itinerário marcado por deslocamentos físicos, políticos e emocionais. Em “Migrantes climáticos no Bangladesh – Uma história global de humanidade partilhada”, Abir Abdullah transforma a devastação ambiental numa narrativa profundamente humana, recusando o distanciamento estatístico das catástrofes climáticas para mostrar rostos, perdas e deslocações forçadas. Já José Luís Santos, em “Caderno Afegão”, desmonta os clichés ocidentais sobre o Afeganistão através de um olhar que procura dignidade, hospitalidade e quotidiano num território frequentemente reduzido à guerra. Também Sara Ruiz, em “Cicatrizes”, trabalha a violência patriarcal como memória íntima e colectiva, cruzando dor, afecto e sobrevivência num ensaio duro e sensível. Em paralelo, Radilson Gomes e José Medeiros levam-nos às questões indígenas do Brasil, não como exotismo etnográfico, mas como reflexão urgente sobre território, apagamento e resistência cultural. Em “No Sul da Macaronésia”, Ana Roque de Oliveira encontra em Cabo Verde uma convivência entre aridez e humanidade que escapa à simples sedução turística. E em “Equilíbrios Instáveis”, Lesley Mattuchio lembra-nos a fragilidade dos ecossistemas através de imagens de vida selvagem onde a beleza nunca apaga a ameaça. O resultado é um corpo expositivo que evita o espectáculo vazio da imagem perfeita e prefere uma fotografia que pensa, questiona e convoca.

Mas esta edição do iNstantes também encontra espaço para uma reflexão mais formal sobre o acto fotográfico, o olhar e a construção visual. Em “Entre luz e forma”, Adelino Marques transforma o Multiusos de Gondomar, de Siza Vieira, num laboratório de luz e sombra, onde a arquitectura deixa de ser objecto estático para se tornar matéria viva. A preto e branco, as superfícies respiram, os volumes deslocam-se, o tempo entra literalmente na imagem. Hélder Vinagre, em “Dualidades urbanas”, trabalha igualmente o preto e branco como linguagem de suspensão, procurando na rua pequenas fricções entre solidão e multidão, velocidade e permanência. Já Jim Bostick, com “Arcanum”, encena o universo do tarot como teatro fotográfico, cruzando narrativa, simbolismo e uma elaborada construção cénica que aproxima a fotografia das artes performativas. Impossível não destacar “Passos em volta”, dedicada ao espólio de Eduardo Gageiro, figura maior do fotojornalismo português recentemente desaparecida. A exposição funciona simultaneamente como homenagem e redescoberta, revelando imagens onde o documento histórico convive com uma impressionante densidade humana. O festival demonstra assim uma notável elasticidade curatorial ao acolher fotografia documental, experimental, antropológica, poética ou conceptual, sem perder coerência nem cair na dispersão temática.

Há, finalmente, algo de particularmente significativo na forma como o iNstantes continua a afirmar-se a partir da periferia. Num país excessivamente concentrado em Lisboa, este Festival ergueu, ao longo de treze edições, uma rede internacional de cumplicidades artísticas a partir de Avintes, recusando a ideia de que a centralidade cultural depende da geografia. Pelo contrário: o iNstantes vive ancorado na relação afectiva com os seus lugares, sejam eles colectividades, teatros, quartéis de bombeiros, escolas ou instituições de saúde. Essa dimensão territorial dá-lhe uma autenticidade rara no panorama dos Festivais de fotografia, muitas vezes excessivamente formatados ou dependentes de circuitos institucionais fechados. No iNstantes, sente-se essa possibilidade do encontro inesperado entre autores consagrados e visitantes ocasionais, entre linguagens distintas, entre comunidades locais e olhares vindos da Coreia do Sul ou do Bangladesh, da Colômbia ou da Finlândia. O Festival constrói-se como cartografia do mundo contemporâneo vista a partir de uma vila do concelho de Gaia. E talvez essa seja a sua marca mais vincada: a de uma fotografia que não procura apenas mostrar o mundo, antes aproximá-lo. Mais informações em https://www.instantesffa.com/.

domingo, 21 de dezembro de 2025

CERTAME: 20.º MIRA Mobile Prize | B&W Street Photography



CERTAME: 20.º MIRA Mobile Prize | B&W Street Photography
Vários artistas
Curadoria | Manuela Matos Monteiro, João Lafuente
MIRA Galerias | MIRA FORUM
08 Nov 2025 > 10 Jan 2026


Num tempo em que se partilham diariamente biliões de imagens e centenas de milhares de horas de vídeo, a ubiquidade do telemóvel transformou a fotografia num gesto quotidiano e global. A equipa do MIRA — Manuela Matos Monteiro e João Lafuente, com o apoio de Beatriz Vital — tem sabido ler esta mudança e desde há uma década que vem celebrando a fotografia mobile com um entusiasmo que se renova a cada edição. À open call do 20.º MIRA Mobile Prize | B&W Street Photography, chegaram imagens de todos os continentes, revelando não só a vitalidade do género como a capacidade do dispositivo móvel em captar o inesperado. A shortlist de cinquenta artistas, que pode ser vista por estes dias no MIRA Galerias | MIRA FORUM, confirma essa amplitude: uma multiplicidade de olhares sobre o espaço público, onde a vida acontece em movimento ou suspensão. O júri — Armineh Hovanesian, Emir Bozkurt, Marco Prado, Nelson Marmelo e Sukru Omar — distinguiu a norte-americana Renee Zanone com o prémio principal, destacando igualmente a portuense Raquel Lamares como a portuguesa mais bem classificada. À volta destes nomes orbitam Adelino Marques, Andrea Seligman, Filipa Scarpa, Marc Devriese, Augusto Lemos e muitos outros, numa mostra que afirma a fotografia mobile como território artístico pleno e não mera derivação tecnológica.

A exposição convida o visitante a abraçar, pela lente dos autores, fragmentos de vida colhidos nos cenários urbanos onde a humanidade se desloca, repousa ou simplesmente respira. É esse quotidiano plural, atravessado por personagens que vestem, celebram e sofrem de formas distintas, que ano após ano surpreende o júri e o público, desmentindo qualquer ideia de rotina num prémio que se vai tornando uma referência em Portugal. Nos trabalhos seleccionados, as ruas transformam-se em palco de narrativas silenciosas: da grande avenida cosmopolita à estreita rua de aldeia, dos átrios de estações ao rumor de cafés e museus. A luz molda arquiteturas, desenha sombras, enquadra corpos; por vezes, aproxima-se do minimalismo abstracto, noutras exalta a exuberância humana. O preto e branco, escolhido como território desta edição, concentra o olhar na textura, na forma e na estrutura, permitindo que os gestos ganhem força e as histórias se insinuem entre o envergonhado e o despudorado. A discrição do smartphone, a sua quase inviabilidade, torna-se decisiva para captar instantes irrepetíveis, preservando a espontaneidade da vida tal como acontece. Sem ensaios, sem anúncio, apenas presença.

A tradição da fotografia de rua - de Robert Frank a Vivian Maier, de Diane Arbus a Elliot Erwitt ou ao recentemente falecido Martin Parr, para citar apenas alguns nomes - ecoa nas imagens agora apresentadas, compartilhando com esses mestres a vocação documental de registar o humano em espaços públicos. Cada autor, porém, expande esse legado com nuances próprias: Se uns procuram a teatralidade das multidões, outros revelam a intimidade de um gesto solitário. Há olhares irónicos, empáticos, contemplativos. A diversidade expressiva reitera que a rua continua a ser um laboratório de emoções, onde a banalidade quotidiana convive com momentos de potencial histórico. E é precisamente aí que a fotografia mobile se afirma como instrumento contemporâneo: leve, silenciosa, acessível, capaz de captar o instante antes que ele se dissolva. A mostra do MIRA, patente até ao próximo dia 10 de janeiro, reúne esse caleidoscópio de sensibilidades num conjunto coeso que reafirma o poder da imagem a preto e branco para suspender o tempo e revelar a Humanidade no seu estado mais cru e mais luminoso. Entre profundidade poética e observação crítica, o espectador encontra aqui não apenas fotografias, mas encontros breves e intensos com o mundo, tal qual ele pulsa.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

CERTAME: MIRA Pinhole Photography - 11.ª edição



CERTAME: MIRA Pinhole Photography - 11.ª edição
Vários Artistas
Curadoria | Adelino Marques, António M. Teixeira, Augusto Lemos e Rui Apolinário
Ciclo de Fotografia LESTA e LENTA
MIRA Galerias | MIRA artes performativas
08 Nov > 20 Dez 2025


Ao entrar no espaço acolhedor do MIRA artes performativas para a 11.ª edição do MIRA Pinhole Photography, a sensação dominante é a de atravessar um portal temporal onde a fotografia se despede dos automatismos e recupera o seu grau zero, feita de luz, matéria e tempo. O texto inaugural de Rui Apolinário funciona como uma bússola crítica, lembrando que esta prática - tão primitiva quanto actual - remonta a Brewster e aos experimentalistas do século XIX, mas repousa sobre um saber ainda mais antigo, conhecido pelo menos desde o século V a.C. Essa arqueologia do olhar não é evocada como exercício nostálgico, antes opera como consciência histórica num espaço que aposta, entre o lesto e o lento, na fricção entre velocidades. A inauguração simultânea da mostra pinhole e da fotografia mobile no MIRA Galerias reforça essa tensão produtiva: uma celebra a volatilidade tecnológica, outra resiste-lhe através da lentidão que devolve ao gesto fotográfico a espessura do tempo. O visitante percebe que este diálogo não é forçado, tratando-se apenas de colocar em confronto dois modos distintos de captura para pensar o significado de fixar o mundo nos dias de hoje.

Diante das imagens, a imprevisibilidade evocada por Apolinário revela-se como princípio estético estruturante. Cada fotografia parece carregar o silêncio de uma operação sem visores, sem lentes, sem pré-visualização — uma espécie de pacto com o desconhecido que, ao materializar-se, convoca o imaginário do visitante. Esta suspensão entre intenção e acaso produz um regime visual distinto do habitual consumo digital de imagens: aqui há falhas, derivas, difusões, zonas onde a luz hesitou e deixou marcas que são tanto ópticas quanto emocionais. No contexto do Ciclo LESTA e LENTA, a pinhole apresenta-se quase como um antídoto contra a aceleração permanente, não como rejeição do presente, mas como contraponto crítico. O que surpreende, no entanto, é perceber que essa lentidão não significa menos intensidade. Pelo contrário, há uma vibração particular nestas imagens, como se cada uma trouxesse consigo a memória da sua própria formação. A experiência de visita é, por isso, também uma experiência de reeducação do olhar: aprende-se a demorar, a observar a respiração da luz, a aceitar que ver pode ser um acto radicalmente lento.

No seu conjunto, o certame reafirma o papel do MIRA como espaço de experimentação e de confronto crítico entre práticas fotográficas. Este “funcionamento em espelho” entre duas open calls internacionais é revelador do espectro expandido da fotografia contemporânea. Se a fotografia mobile responde ao mundo com a rapidez que as sociedades actuais lhe imprimem, a fotografia estenopeica devolve a esse mesmo mundo uma imagem que parece emergir de um sonho, como bem refere Apolinário. O visitante sente essa dimensão onírica não como fuga, mas como outra forma de verdade: a verdade do tempo dilatado, da imagem que se forma devagar e que, por isso, resiste melhor ao esquecimento. Ao circular pela sala, ou vendo as imagens que vão sendo projectadas, percebe-se que cada fotografia é também um gesto de resistência a uma cultura visual saturada. Ao expor lado a lado duas formas extremas de produzir imagens, o MIRA não escolhe um caminho: convida-nos a pensar o intervalo entre ambos. E é nesse intervalo, onde a urgência e a contemplação convivem, que esta 11.ª edição encontra a sua força crítica e a sua relevância cultural.

sábado, 6 de dezembro de 2025

CERTAME: XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025



CERTAME: XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025
Vários locais
18 Out 2025 > 18 Jan 2026


Com um percurso iniciado em 1989, a Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro tem sabido afirmar-se como uma referência mundial na criação contemporânea, ao mesmo tempo que demonstra a sua vocação enquanto pilar estratégico da política cultural da cidade. A presente edição confirma a projecção global do evento, traduzida na recepção de 488 candidaturas e 782 obras provenientes de 62 países, implicando um processo de escolha que se pautou pelo rigor e diversidade. Composto por especialistas nacionais e internacionais, o júri desta edição da Bienal seleccionou 110 peças de 96 artistas e atribuiu três prémios e seis menções honrosas, reflectindo a amplitude estética e geográfica dos participantes. Como corolário deste processo, entre outubro de 2025 e janeiro de 2026 Aveiro transforma-se num palco internacional da cerâmica contemporânea, com doze exposições distribuídas por museus, galerias e espaços urbanos, onde propostas conceptuais, experimentações vanguardistas e revisitações técnicas enraizadas na tradição dialogam entre si. Esta dimensão é sustentada por uma vasta rede de parceiros institucionais, bem como pelo trabalho especializado das equipas municipais, que muito têm contribuído para revitalizar um certame que, há pouco mais de uma década, se encontrava deveras fragilizado.

As obras seleccionadas para esta edição da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro dão prova da sua qualidade, mas são também reveladoras da maturidade institucional do processo, marcado por debates intensos e por uma dinâmica de diálogo que reflectiu a pluralidade cultural dos jurados. O debate aberto entre os jurados reforçou a legitimidade das decisões e espelhou o carácter democrático do concurso, sublinhando o nível de profissionalismo que hoje distingue a Bienal. Para organizadores e participantes, o evento já não é apenas uma competição, mas um espaço de encontro global que promove inovação, capacitação e partilha de conhecimento, afirmando Aveiro como plataforma internacional de criação contemporânea. O consenso alcançado pelo júri permitiu apurar os resultados com confiança, consolidando uma edição considerada exemplar pela diversidade e pelo rigor técnico apresentados. Com o reconhecimento crescente e com uma estratégia cultural que encara a cerâmica como motor de desenvolvimento territorial, a Bienal prepara-se para continuar a fortalecer redes, atrair artistas de todos os continentes e afirmar, ano após ano, o seu contributo para a celebração da arte cerâmica e da diversidade cultural.

É no Museu de Aveiro Santa Joana que o visitante pode encontrar a Exposição do Concurso Internacional desta edição da Bienal, mostra incontornável das tendências da cerâmica artística contemporânea. Cor, forma, textura, conceito e expressão são o mote para uma exposição que reúne os trabalhos escolhidos pelo júri, com destaque para os premiados “Rainy Day”, da polaca Hanna Miadzvedzeva, “White Flowers Still Life”, do espanhol Fernando Garcés, e “Hybrid #9”, do chinês Shiyuan Xu. O Museu de Aveiro Santa Joana acolhe ainda “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo, do ceramista peruano Carlos Olivera, trazendo-nos um vislumbre das culturas peruanas pré-incas. Paula Bastiaansen, a grande vencedora da anterior edição da Bienal, mostra-nos a sua “Fragilidade” no espaço superior do Museu Arte Nova. Quase paredes meias com este espaço, o Museu da Cidade acolhe outra exposição imperdível, na qual os membros da Academia Internacional de Cerâmica, sediados na Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, mostram à sua arte. É lá que podemos reencontrar Ellen van der Woude, grande vencedora do Concurso Internacional em 2021 e que na anterior edição da Bienal nos brindou com o seu “Paraíso Frágil”, contendo peças de rara beleza que estiveram patentes ao público no Museu Arte Nova.

“Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo”, magnífica instalação de Lisa Barbosa, justifica bem a subida da Lourenço Peixinho, ao encontro da Estação de Aveiro e desse “campo negro” como ideia de comunidade e pertença através de um grupo de girassóis que coabitam. Outra exposição que merece observação cuidada e atenta, porquanto mergulha o visitante numa autêntica “casa das estórias” tem a assinatura de Heitor Figueiredo, intitula-se “Do Vermelho ao Vermelho” e está patente na Galeria da Antiga Capitânia. A participação activa das escolas dos Municípios da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro traduziu-se no trabalho “Poesia da Forma. Sonhos”, de Núria Figueiredo, e que pode ser vista no espaço Atlas. O périplo pela Bienal deste ano termina em beleza na Praça do Rossio com a exposição “Múltiplos”, que reúne os trabalhos de alunos da Escola de Arquitectura, Arte e Design da Universidade do Minho, da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e do Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Mas a Bienal não de fica por aqui. Da colecção Bienal nos Hotéis de Aveiro, com o título “Atmosfera Distinta!” aos objectos chineses em barro da colecção Carlos Xavier Reis, patente no Instituto Confúcio da Universidade de Aveiro, muito há ainda para ver. Uma última nota para a programação cultural, rica e variada - performances, concertos, visitas guiadas, poesia e dança - e que culminará com o concerto de encerramento da Bienal pela Orquestra das Beiras no próximo 18 de Janeiro.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

FESTIVAL: Encontros da Imagem Braga 2025



FESTIVAL: Encontros da Imagem - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais Braga 2025
Direcção | Manuel da Cunha Santos, Carla Bacelar Ferreira
Direcção artística | Vítor Nieves
Equipa Curatorial | Alexia Alexandropoulou, Daniel Bastos, Elina Heikka, José Bacelar, Manuel Sendón & Xosé Lois Suárez Canal, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, Rui Prata, Xosé Lois Vázquez
Artistas | Alfredo Cunha, Carlos Folgoso, Elisa Freitas, Gérald Bloncourt, Gil Raro, José Cruzio, Matevž Čebašek, Miguel De, Pierpaolo Mittica, Roberto de la Torre, Sergio Marey, Stefanos Paikos, Vari Caramés e outros
Avintes, Barcelos, Braga, Guimarães, Porto e Vila Verde
18 Set > 02 Nov 2025


Os Encontros da Imagem constituem o maior festival de fotografia existente no país e emparceira os grandes festivais de fotografia europeus. Com inicio em 1987, o certame tem constituído, nestes últimos trinta anos, uma esteira essencial para a divulgação e a criação fotográfica. As primeiras edições centraram-se na apresentação de autores clássicos essenciais para a compreensão da história da fotografia e, simultaneamente, autores contemporâneos que apresentavam as linhas mais recentes de representação. Paulatinamente, os Encontros foram alargando os seus objetivos, chegando em 2025 à sua 35.ª edição e fazendo dela uma forma de apresentar uma verdadeira “manifestação de interesses”. Mais do que um mote, este título funciona como um gesto público, um manifesto de interesses renovados que o festival adquire e partilha, consolidando o seu legado e lançando novos compromissos para o futuro. Este mote reflete também a intenção de olhar criticamente para o seu percurso. Na sua meia-idade — 35 edições ao longo de 38 anos — os Encontros da Imagem assumem a necessidade de uma pausa reflexiva que questiona a função deste e, por extensão, de outros festivais de primeira geração: repensar as conquistas alcançadas e avaliar a sua pertinência na actualidade.

O visitante ocasional não terá esta percepção, mas os “habitués” dos Encontros da Imagem perceberão muito facilmente uma, digamos, “reconfiguração” em relação a anteriores edições. Os limites entre as disciplinas artísticas mostram-se mais diluídos, com o festival a expandir-se para além da fotografia. Embora esta continue a ser o seu foco central, o programa integra de forma decisiva a performance, a instalação, a escultura e a videoarte, explorando territórios que enriquecem a experiência estética do público. Para reforçar a ligação com a comunidade e atrair novos públicos, a edição de 2025 inclui mais exposições de rua, expandindo a presença do festival para além dos espaços convencionais. Numa assumida “Manifestação de Interesse”, esta edição do Festival estrutura-se em três núcleos expositivos, cada um com a sua abordagem única e complementar. Estes núcleos — “Dissidências”, “Argumentários” e “Transições” — foram concebidos para explorar o tema central sob diferentes perspectivas, gerando diálogos, tensões e conexões. Cada programa aponta para aspectos cruciais da fotografia contemporânea e das artes visuais, desde a celebração da inovação e diversidade até à reflexão sobre o percurso e identidade do próprio festival, culminando na exploração das conexões regionais e identidades divergentes.

Braga continua a ser o fulcro dos Encontros da Imagem, com os pólos expositivos a estenderem-se a Avintes, Barcelos, Vila Verde, Porto e Guimarães. Daquilo que me foi possível ver num dia sempre preenchido, destacaria as exposições “Lebensborn”, de Angeniet Berkers, no Museu Nogueira da Silva, e que aborda o “Lebensborn”, programa fundado na Alemanha em 1935 e que foi concebido para proporcionar ao Terceiro Reich uma nova geração de líderes e oficiais da SS, e “Reaching for Dusk”, de Stefanos Paikos, em plena Avenida da Liberdade, e que documenta o quotidiano em Mbeubeuss, o maior aterro sanitário a céu aberto da África Ocidental, localizado nos arredores de Dakar, no Senegal, uma frente negligenciada na história da migração. Patente na Galeria da Estação, “Cinematica”, de Teresa Freitas, tem a curiosidade de confrontar o visitante com uma estética cromática específica, levando-o a questionar a autenticidade das cenas apresentadas. Na sua dimensão foto-documental, “Photographo”, de Alfredo Cunha, e “A Emigração Portuguesa a Salto”, de Gérald Bloncourt, são duas exposições a não perder. A primeira pode ser vista na Zet Gallery, enquanto a segundo está patente no Arquivo Municipal. Os Encontros da Imagem prolongam-se até ao dia 02 de Novembro.

sábado, 4 de outubro de 2025

CERTAME: 12.ª Bienal Internacional de Gravura do Douro 2025



CERTAME: 12.ª Bienal Internacional de Gravura do Douro 2025
Vários Artistas
Alijó, Peso da Régua e Vila Nova de Foz Côa
10 Ago > 31 Out 2025


Nascida em 2001 com a ambição de descentralizar a cultura e promover a arte da gravura, a Bienal de Gravura do Douro regressa em 2025 num formato mais reduzido, porquanto limitado a três Municípios apenas: Alijó, Peso da Régua e Vila Nova de Foz Côa. A aposta numa programação de qualidade, essa mantém-se, com mais de cinquenta países presentes na presente edição da Bienal, e uma plêiade de artistas de renome internacional, ao nível da gravura contemporânea. Alicerçada na mais antiga região vinícola demarcada do mundo, região laureada por dois patrimónios da humanidade atribuídos pela UNESCO e mundialmente reconhecidos quer pela sua paisagem vinhateira, quer pelo património arqueológico do Vale do Côa (o maior santuário de gravura paleolítica do mundo), o Douro é palco, também na contemporaneidade, de um dos maiores eventos de arte gráfica do mundo, reunindo dentro de si, uma força e dimensão que ultrapassa as fronteiras do país e se projecta para horizontes infinitos.

Perseguindo este propósito e ambição alcançada, a Bienal do Douro tem vencido os desafios da interioridade, da crise económica, da crise cultural, da própria crise da gravura e tem sabido manter vivos os pressupostos da arte e a autonomia da gravura no contexto da arte contemporânea. Para tal, muito têm contribuído os tributos da gravura tradicional e as suas alquimias seculares, mas não menos importantes, das renovadas tendências da gravura digital e dos novos media ao seu dispor, no sentido de lhe conferir a autonomia que ela necessita para subsistir. O campo aberto à gravura pelas novas linguagens híbridas e técnicas não tóxicas, têm projectado o seu impacto de uma forma inovadora e com a vitalidade há muito desejada nos seus domínios.

Assumindo a responsabilidade de ser a única Bienal de obra gráfica do país, a sua evolução desde a sua origem em 2001, colocam-na hoje num patamar inimaginável a par das mais importantes Bienais do mundo. A comprovar tal fasquia, salientam-se os artistas homenageados mundialmente reconhecidos como Antoni Tàpies, Paula Rego, Vieira da Silva, Júlio Pomar, José de Guimarães, Júlio Resende, Graça Morais, Cruzeiro Seixas e outros. O núcleo de Vila Nova de Foz Côa, instalado no magnífico Museu do Côa - o único que me foi possível visitar - tem muitos e bons motivos a justificar uma deslocação. Desde logo, pelo diálogo inédito que é possível estabelecer entre gravura rupestre e gravura contemporânea, transformando-a numa coisa única do ponto de vista artístico. Mas também pela qualidade dos trabalhos apresentados, de autores de diversas latitudes, e que não deixam ninguém indiferente. Para ver até ao último dia deste mês.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

CERTAME: WOOL | Festival de Arte Urbana da Covilhã 2025



CERTAME: WOOL | Festival de Arte Urbana da Covilhã 2025
Vários locais, Covilhã
21 > 29 Jun 2025


Criado em 2011, o WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã foi o primeiro do género em Portugal, surgindo com o objetivo de revitalizar o centro histórico da cidade através da arte urbana. O nome “WOOL” remete directamente para as histórias e memórias ligadas à Covilhã — outrora um dos grandes centros nacionais da indústria de Lanifícios —, simbolizando a relação entre a memória colectiva e a renovação do espaço urbano. Ao longo das suas doze edições, o certame tem acolhido dezenas de artistas nacionais e estrangeiros, muitos dos quais deixaram intervenções que continuam a pontuar as ruas da Covilhã, naquilo que constitui um roteiro permanente de arte urbana. A iniciativa tem vindo a posicionar a cidade como uma referência incontornável no panorama artístico português, integrando-a em redes internacionais e destacando a sua originalidade ao trabalhar directamente com o património, seja ele material ou imaterial. A distinção com o Selo de Qualidade EFFE e a classificação, em 2023, como Projecto de Interesse Cultural pelo Ministério da Cultura – que o integra no Regime do Mecenato Cultural –, são o reflexo, não apenas da qualidade artística do projecto, mas também do seu impacto social, económico e turístico para a região.

Não tendo podido acompanhar a edição deste ano do Festival durante o seu curso, no último terço do passado mês de Junho, aproveitei agora para rumar à Covilhã com o propósito exclusivo de revisitar a cidade e apreciar o que de bom o WOOL nos deixou. Perdi, claro está, uma parte importante da essência de um festival que se faz de conversas e concertos, exposições e visitas guiadas, filmes e acções comunitárias, masterclasses e workshops, residências artísticas e instalações. Pude, isso sim, visitar um conjunto de murais que, à semelhança dos anteriores, preenchem de cor e vida fachadas até então esquecidas, transformando-as em peças de arte acessíveis a todos. Mas não só murais, porquanto nesta edição o WOOL reforçou o seu carácter comunitário com uma Acção Artística orientada pela A Avó Veio Trabalhar e designada “Todos Somos o Outro”. Nele, várias dezenas de participantes construíram colectivamente uma instalação têxtil de grandes dimensões, evocando as tradições da cidade e promovendo a empatia e o encontro intergeracional. O resultado voltou a poder ser visto no decurso da FIADA – Feira Internacional de Artesanato, Design e outras Artes, que decorreu no passado fim de semana, constituindo um momento particularmente relevante pela sensibilidade, engenho e dedicação que cada um daqueles quase seiscentos retalhos encerra.

Em busca do legado do WOOL 2025, subimos a Calçada de S. Martinho, ao encontro da espanhola Lídia Cao e do seu “O Velo de Ouro”, graças ao qual a artista traz para dentro da Arte Urbana a sua faceta de ilustradora. Uma das grandes revelações deste WOOL foi a portuguesa Lígia Fernandes, pela forma sensível como abordou a infância de outros tempos, feita de tropelias e correrias, de jogos às escondidas ou ao arco, ao berlinde ou ao trinca-cevada (que era assim que se dizia quando eu era miúdo). “Verde memória” e “Naranjo para calle” são duas intervenções no espaço urbano com a assinatura do duo espanhol Ampparito, simples na aparência, mas abertas a narrativas onde predominam temas como a memória, a opressão ou a resiliência. O grego Stelios Pupet prestou tributo aos lanifícios da Covilhã com a obra “Portrait of a woven memory”, a qual pode ser vista na Rua António Augusto Aguiar. Enfim, num espaço de grandes dimensões entre dois prédios, o colectivo espanhol Boa Mistura fez nascer um mural com o título “Amor”, o qual, em si mesmo, é um abraço ao WOOL e à sua “missão de transformar pela Arte e de fazer comunidade, no cuidado e no encontro”. Para ver na Covilhã, a qualquer hora do dia... ou da noite!

domingo, 20 de julho de 2025

CERTAME: 8.ª Bienal Internacional de Arte de Espinho



CERTAME: 8ª. Bienal Internacional de Arte de Espinho
Vários artistas
Museu Municipal de Espinho
16 Jun > 30 ago 2025


O Museu Municipal de Espinho acolhe, até 30 de Agosto, o seu evento de referência no âmbito das grandes exposições de artes plásticas nacionais e internacionais - a Bienal Internacional de Arte de Espinho. Mostra de expressões artísticas que se realiza a cada dois anos, a Bienal deu o pontapé de saída no ano de 2011 e vai já na sua 8.ª edição, assumindo-se como a grande “imagem de marca” do Museu. Ao mesmo tempo, constitui-se cada vez mais como plataforma alargada de divulgação e promoção das artes plásticas, bem como de reconhecimento das respectivas criadoras e criadores. O desígnio volta a repetir-se na edição deste ano, com um conjunto de cerca de duas centenas de obras a merecerem um lugar de destaque nas Galerias Amadeo de Souza-Cardoso, a valência do Museu dedicada a exposições de Arte. São essas obras que o visitante vai poder apreciar, percebendo a grande variedade de géneros, estilos e suportes que as distinguem entre si e tornam a mostra extraordinariamente eclética, abrangente, desafiante e emotiva.

Com a obra “Caminhos: Arquivo de experiências urbanas”, lápis de pastel sobre papel, 2024, Alejandra Pardo conquistou o Grande Prémio Cidade de Espinho. Nela, a artista traça um conjunto de momentos que mimetizam, com engenho e imaginação, aquilo que podemos interpretar como um conjunto de negativos de um rolo fotográfico, testemunho de particulares vivências. O segundo prémio, “Bienal Internacional de Arte de Espinho”, foi entregue a Diana Costa, com a obra “Além do Conflito: A Mão que Une e Constrói”, acrílico e colagem sobre tela de 2024. Através dela, a artista oferece-nos o seu olhar pleno de simbolismo sobre os memórias doces de um tempo que se saboreava com deleite, em contraciclo com o mundo de hoje, a correr a mil à hora. O terceiro prémio, “Prémio Especial do Júri”, distinguiu a obra “Objetos Pesados, 2024/25”, de Cecília Lima, uma instalação dada a múltiplas interpretações e que representa, em última análise, uma cidade imaginária com um conjunto de edifícios unidos por aquilo que os separa.

O júri decidiu atribuir menções honrosas a Maria Meijide, com “Memórias, blá, blá… 2023”, Nicoleta Sandulescu, com “Habitar o Corpo, 2022/2023”, Susana Bravo, com “Joint Present, 2023”, Benedita Kendall, com “Esforços Construtivos, 2024”, Rita Paupério, com “Where the Wind, 2025”, José João, com “CUM LAUDE, 2023”, Mariana Laginha, com “Colchões, 2024” e Carlos Trindade, com “Em Tempos de Guerra (Ucrânia) II, 2023”. É bom cruzar o olhar com as obras enunciadas, mas a Bienal não se esgota nelas e há todo um conjunto de outros trabalhos igualmente dignos de nota. Ao contrário de anos anteriores, há menos “caras conhecidas” este ano, o que é sinónimo de vitalidade e renovação. Destacaria a presença de Mariana Duarte Santos e da Inês Pargana, duas extraordinárias artistas que nos oferecem a excelência do seu trabalho. Vale a pena, ainda, espreitar a explosão de cor de “Setênios”, de Joana Antunes, a geometria de “Desconstrução dos Cristais”, de Ari Vicentini, um excelente “N.1 (Piedade pela Carniça)”, de Luís Rodrigues ou o trabalho têxtil de Marita Setas Ferro. Boas visitas!

domingo, 13 de julho de 2025

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia (I)



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia
Com | A Garota Não, Cara de Espelho, Cacique 97
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2025 | sex | 18:00 às 00:30


O FESTA – Sons da Lusofonia regressou a Ovar para a sua décima edição. Ponto de encontro de toda a comunidade, ao longo de dois emotivos e intensos dias o Parque Urbano da cidade transformou-se num espaço de celebração da diversidade, inclusão e participação activa, através de um conjunto de actividades voltadas para os mais diversos públicos. Ponto alto da FESTA, os concertos viram-se repartidos por três palcos, reunindo artistas brasileiros, cabo-verdianos, moçambicanos e portugueses, para dez momentos musicais a trazerem consigo a promessa de comunhão em torno da melhor música. Novidade nesta edição do FESTA foi o “Lugar das Infâncias”, uma aldeia para brincar e descobrir um mundo plural e tolerante, onde os mais novos e suas famílias se sentiram convidados a explorar a diversidade cultural através de histórias, brincadeiras, gestos, sons e silêncios. O jornalista Rui Miguel Abreu repetiu a presença no FESTA, moderando um vasto conjunto de conversas que se abriram em criação, memória, liberdade e futuro, num “Dar à Língua” que aproximou artistas e público. E foi justamente por aqui que o FESTA teve o seu início, com os Cara de Espelho a fazerem a antevisão do primeiro de dois concertos previstos para a noite do primeiro dia e com a apresentação do Livro “Festa - Sons da Lusofonia: Da Revolução ao Ritmo - 50 anos do 25 de Abril em Sons Lusófonos”, um trabalho que reúne todos aqueles que passaram pelas conversas em 2024, edição muito especial a assinalar o cinquentenário do dia inicial inteiro e limpo.

Depois de um dia cinzento e chuvisquento, o Sol disse “olá” à tarde de sexta feira e foram muitos aqueles que responderam à chamada para o concerto de abertura do FESTA. No fantástico anfiteatro natural em frente ao Palco Verde, uma numerosa assistência dispôs-se a ouvir A garota não, a sua música, as palavras sempre incisivas e mordazes apontadas a uma certa classe dirigente que teima em negar os valores da liberdade, igualdade, justiça e democracia, afirmando o seu poder pela opressão e exploração dos mais fracos e vulneráveis. Com Sérgio Miendes e João Mota nas guitarras e Diogo Sousa na bateria, A garota não fez questão de mostrar que “não é não”, na denúncia de “um país que não é para mães”, onde “toda a gente aceita o saque” e “há bestas no lugar de deputados”. Do novíssimo “Ferry Gold”, os temas são “disparados” com força e raiva, penetrando as consciências do público e arrancando-lhe aplausos vigorosos. Seguiu-se um “medley” com cinco temas do segundo álbum de estúdio da artista, “2 de Abril”, e de novo o retomar de “Ferry Gold”, no “train a curtir Coltrane” para se concluir que “a vida é uma roleta com cinco balas no tambor”. A terminar, pois que se privatize o mar e o céu, a justiça e a lei, a nuvem que passa, o sonho (sobretudo se for diurno e de olhos abertos). “E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos”. A mim parece-me bem!

Os Cara de Espelho abriram as hostilidades do segundo momento deste dia inaugural, alinhando pelo diapasão da música de denúncia e protesto, tão necessária nos dias que correm. Banda revelação no ano passado com o lançamento do álbum homónimo, os Cara de Espelho começaram por assumir a sua condição, sendo o reflexo do numeroso público que fez questão de os aplaudir. Reflexo, afinal, de quem olha para si e não gosta do que vê, que tem na banda uma via aberta à reivindicação e ao murro na mesa. Na voz de Maria Antónia Mendes, “Mitó para os amigos”, “Tratado de Paz” foi o primeiro tema da noite, ao qual se seguiram “Cara Que é Tua” e um poderoso “Corridinho Português”, “a juntar a malta numa boa”, porque “triste é quem fica a ver dançar”. Animado, o concerto prosseguiu quase em forma de comício. Na plateia, “livres criaturas” gritavam “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, enquanto no palco se louvavam as benesses dos paraísos fiscais e se rogava a S. Pedro que “[nos] receba no seu Portal das Finanças”. Com as letras e músicas de Pedro da Silva Martins e a magia dos instrumentos de Carlos Guerreiro, Nuno Prata e Sérgio Nascimento, entre outros, o concerto levou-nos do “Fadistão” ao “Ministério do Anonimato”, até parar no “Dr. Coisinho” e na sua “coisificação do dedo”, a plateia com os dedos médios de ambas as mãos espetados no ar, numa coreografia impressiva que as luzes amplificaram. Na despedida, um alerta para as varejeiras - “[que] anseiam pobreza, fomentam o asco, a náusea e o nojo” - e uma pergunta: “Em qual de vós é que ela vai poisar?”

A fechar a noite, os Cacique 97, banda pioneira do Afrobeat, ofereceram um magnífico momento, feito de ritmo, história e força coletiva. Espécie de “Best of” dos seus dois álbuns de estúdio - “Cacique 97” (2009) e “We Used to be Africans” (2016) -, o concerto mostrou uns “caciques” em grande forma, pondo em palco um género popularizado em África na década de 1970 e que se espalhou ao mundo. Fiel ao conceito musical do género e ao seu cunho político de denúncia e protesto, esta big band não esqueceu o papel criador do multi-instrumentista e nigeriano Fela Kuti, num impactante e revelador “Come from Nigeria”. Liderada pelo guitarrista e vocalista Milton Gulli, a banda manteve em diálogo constante, livre e rico, uma poderosa secção rítmica, onde pontificou Marisa Gulli (que dá também apoio nas vozes), com um naipe de metais firme e assertivo, cruzando o groove africano com a alma lusófona, num som de combate e celebração. Ritmos quentes, letras de intervenção e uma energia contagiante era tudo o que o público esperava, reagindo com o embalar dos corpos e algumas coreografias improvisadas sobre o anfiteatro verde de um Parque Urbano em ebulição. “American Cop”, “Jorge de Capadocia”, “Get no Stronger”, “13”, “Dragão” ou “Letter to the Martyrs”, novíssimo single da banda e que denuncia a ocupação, a colonização e o genocídio do povo da Palestina, foram temas trazidos a palco com enorme força, numa despedida em grande do FESTA, ao final do seu primeiro dia.

domingo, 1 de junho de 2025

CERTAME: Bienal’ 25 Fotografia do Porto



CERTAME: Bienal’ 25 Fotografia do Porto
Direcção geral | Virgílio Ferreira
Co-direcção artística | Jayne Dyer, Virgílio Ferreira
Porto, vários locais
15 Mai > 29 Jun 2025


Porque o futuro se constrói no presente, a Bienal’25 Fotografia do Porto parte do mote “Amanhã Hoje” para propor um programa de pensamento e acção que se inscreve no agora. Nesta quarta edição do certame, cinquenta e um artistas nacionais e estrangeiros procuram imaginar um mundo mais regenerativo e interdependente, convocando práticas artísticas e colaborativas que interrogam o tempo presente e ensaiam futuros possíveis. Com dezasseis exposições e quarenta e oito actividades a decorrer em diversos espaços da cidade, a Bienal afirma-se, assim, como uma plataforma de estudo e experimentação, no cruzamento entre investigação artística, prática curatorial e acção pública. O programa organiza-se em torno de quatro plataformas interligadas — “Conectar”, “Sustentar”, “Vivificar” e “Expandir” — através das quais a Bienal acolhe práticas que atravessam os mais diversos territórios e comunidades, promovendo modos plurais de relação entre imagem, ecologia, tecnologia, afeto e memória. Entre gestos de escuta, dispositivos especulativos e pedagogias situadas, a Bienal’25 constrói um presente atento, consciente e comprometido com o que ainda está por vir.

“Conectar” abre um diálogo e promove parcerias que aproximam ecossistemas artísticos diversos. Inscreve-se nesta plataforma, entre outros, “Luminófilos”, de Claudia Andujar, Pariacaca, Hoda Afshar, Christo Geoghegan e Smith, um projecto através do qual o colectivo se debruça sobre histórias apagadas, gestos de resistência aos legados coloniais e práticas visionárias ou rituais. “Peles de Imagens, Espelhos Luminosos”, de Sofia Borges, propõe uma leitura crítica e poética do tempo, da memória e da representação, materializada em formatos expositivos e performativos. O espaço “Sustentar” propõe uma reflexão sobre a sustentabilidade ecológica e social graças aos trabalhos de Carlos Trancoso, Joana Dionísio, Catarina Braga e Gonçalo C. Silva, em territórios distintos de Portugal como o Porto BioLab, o Geoparque Algarvensis, a Casa de Mateus e a região do Alqueva. O projeto “Vivificar” estabelece ligações entre artistas em residência e comunidades rurais da região do Douro através de processos participativos de criação, convocando temas como as relações entre humanos e natureza, sustentabilidade do território, migração e identidade. Estão neste caso os trabalhos de Lara Jacinto em Sabrosa, de Augusto Brázio em Torre de Moncorvo e de James Newitt em Meda.

“Expandir” apoia o desenvolvimento de projectos e produções expositivas de artistas emergentes cujas práticas entrelaçam estruturas sociais e ecológicas, interrogando as intersecções entre tecnologia, ecologia e resiliência humana. Insere-se neste contexto o projecto “A Extraterritorialidade da Toxicidade”, no qual estudantes do Royal College of Art investigam o impacto da toxicidade artificial em corpos humanos e não humanos, tomando o rio Douro como arquivo fluido de relações pós-naturais. Também nesta plataforma, estudantes do programa de Mestrado em Fotografia Documental da University of South Wales contribuem com a exposição “In Your Head: Obras–Conceitos–Processos”, que adopta uma abordagem lúdica e aberta à fotografia — por vezes introspectiva e íntima, por vezes monumental e expansiva. Em cocriação com um grupo de jovens do bairro da Pasteleira, Paula Preto desenvolveu o projeto “Com as Imagens Bonitas do que Desapareceu”, centrado numa ecologia dos afectos e das emoções, integrado no programa público de mediação da Bienal’25 Fotografia do Porto. Centro Português de Fotografia, Museu Nacional Soares dos Reis, Galeria Municipal do Porto, Galeria da Biodiversidade, Fundação Marques da Silva e Estação de Metro do Porto são alguns dos lugares que acolhem estas exposições. A entrada é gratuita.

terça-feira, 6 de maio de 2025

CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2025



CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2025
Vários artistas
Curadoria | Pereira Lopes
Organização | iNstantes - Associação Cultural
Avintes, Braga, Lourosa, Valadares e Vila Nova de Gaia
02 Mai > 31 Mai 2024


Inaugurado no passado dia 02 de Maio, o iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes volta a atrair as atenções dos amantes e curiosos da fotografia, trazendo a doze espaços dos concelhos de Vila Nova de Gaia, Santa Maria da Feira e Braga os olhares de 55 fotógrafos de onze países. Como vem sendo hábito, o dia de sábado foi dedicado à visita às exposições, reunindo quase uma centena de interessados que tiveram, assim, a oportunidade de juntar ao lado artístico a dimensão social, transformando o dia num momento especial de aprendizagem e convívio. O dia começou com a visita à exposição intitulada “Sal da Terra”, do egípcio Loai Zedan, patente na Casa da Cultura de Lourosa, e que documenta o trabalho agrícola em torno do trigo, do algodão ou da vinha nas férteis regiões banhadas pelo rio Nilo. Estreia muito saudada enquanto espaço expositivo do iNstantes, a Biblioteca Municipal de Gaia acolhe o trabalho de quatro fotógrafos, com propostas muito distintas entre si. Natural de Barcelona mas há muito radicado na cidade do Porto, Eduardo Perez Sanchez mostra-nos a sua “Fotografia de Cena”, conjunto de imagens captadas entre o início dos anos de 1980 e o presente, representativas de diferentes formas de expressão teatral, dança ou, de uma forma mais geral, manifestações de Arte Cénica.

Da série “sente-se (sentar-se e sentir-se num banco de assento)”, Miguel Louro apresenta, também na Biblioteca Municipal de Gaia, uma das suas quatro exposições de “Platinotipias”, expoente máximo da impressão fotográfica a preto e branco. No mesmo local, a fotógrafa brasileira Paula Sampaio traz-nos o projecto “O Lago do Esquecimento”, conjunto de imagens captadas desde 2011 na região do lago de Tucuruí (PA), verdadeiro cemitério de árvores vítimas da retenção das águas do rio Tocantins para a construção de uma central hidroeléctrica. Também na Biblioteca, Sérgio Santos mostra o porquê do mar ser “o último sítio livre do mundo” (Ernest Hemingway), ao apresentar “Abismos de cor: a magia subaquática”, magnífico conjunto de imagens que documentam ecossistemas marinhos e exploram a beleza que se abriga em várias áreas do Atlântico, Caraíbas, Mediterrâneo, mar Vermelho e oceano Índico. Fugindo ao itinerário da visita, uma rápida incursão no bonito e bem cuidado espaço do Centro de Reabilitação do Norte, outra novidade no mapa das exposições, permite apreciar um muito inspirador “Curar Feridas”, trabalho do fotógrafo galego Xacobe Meléndrez Fassbender, através do qual reflecte sobre o tempo recente, vivido durante a pandemia de COVID-19.

A Junta de Freguesia de Avintes volta a abrir as suas portas ao Festival e à parceria entre fotógrafos de Portugal e da Finlândia. Subordinada ao tema “Ambiente Digital”, a exposição colectiva abrange o olhar de dezanove fotógrafos e pretende assinalar o Ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital, conforme declaração do Conselho Europeu. Na Fundação Joaquim Oliveira Lopes, Hélder Luís mostra “Atlântico”, conjunto soberbo de imagens que documentam duas viagens a bordo do Íris do Mar, barco de pesca registado em Ponta Delgada. Do mesmo fotógrafo, na Pérgula do Largo do Palheirinho, “Rumo à Pesca” segue a linha do projecto anterior, olhando um barco da pesca do cerco dos mais antigos (e eficazes) a operar em Portugal. Num dos espaços dos Plebeus Avintenses, a espanhola Nati Esmel expõe “Analógica / Digital”, série de registos feitos ao longo do seu percurso fotográfico, entre 1977 e 2023, representativos de uma maneira singular de sentir e fazer fotografia. Noutro novo espaço desta décima segunda edição do iNstantes, o CCDR Adriano Correia de Oliveira, Leonor de Blas, fotógrafa documental independente radicada no Paraguai, mostra “Memórias do Corpo”, cartografia de histórias íntimas que provam que não existe corpo que não contenha beleza.

Os Bombeiros Voluntários de Avintes acolhem sete das vinte e três exposições que compõem o certame. “A terra dos filhos do sol - Desafio do povo Xokleng”, do brasileiro Anderson Coelho, fala da luta do povo Laklãnõ-Xokleng que, como todos os povos indígenas do Brasil, procura preservar a sua identidade cultural e defender o território. “Carmela”, do uruguaio Fede Ruiz Santesteban, reconstrói uma história familiar atravessada pela migração e pelo cultivo da terra como evocação, memória e legado. Em “Artistas de Rua”, o norte-americano Joe Votano mostra o trabalho daqueles que fornecem entretenimento aos transeuntes, animando as ruas e praças das nossas cidades. Jorge Alves apresenta “Entre Cidades”, conjunto de imagens que mostram como “luz e trevas coexistem para criar profundidade e emoção, tanto na fotografia quanto na vida”. Do norte-americano Ken Carlson podemos ver “Sombras no Deserto”, conjunto de imagens que destacam o valor das sombras como ferramenta para fotografar, mas também como forma de expressão da própria fotografia. O brasileiro Paulo Heise faz de “Luzes Líquidas” a sua maneira de contar histórias. Finalmente, o macaense Tang Kuok Hou apresenta “Here we go again”, projecto que procura redefinir a imagem monótona da cidade, integrando todos os seus elementos numa representação visual coesa que abrange pessoas, comunidade, cultura local, natureza e memórias pessoais.

A visita terminou na Casa da Cultura de Avintes, onde está instalada a sede do iNstantes - Associação Cultural. São quatro as exposições que aqui podem ser vistas, mas antes falarei de dois projectos que, integrando o Festival em espaços distintos dos mencionados, merecem igualmente uma referência. Um denomina-se “Metamorphosis” e contempla uma oportuna reflexão sobre as tensões entre tradição e modernidade em três comunidades rurais do concelho de Góis, pelo olhar atento de António Luís Moreira (filme) e Carmen Serejo (livro). O outro direcciona-nos para a Universidade do Minho, em Braga, onde a paraguaia Jessica Isfrán Perez mostra “Quantas recordações guarda a memória?”, ensaio fotográfico sobre a vida de Liz Paola Cortaza, uma mulher trans de 64 anos que viveu a maior parte da sua vida e início da sua transição de género durante a Ditadura Militar no Paraguai. Da espanhola Beni Pons Villalonga podemos ver, na Casa da Cultura de Avintes, “Arquitecturas subjectivas”, narrativa visual a partir de elementos objetivos, onde a arquitetura se transforma num inesperado jogo de linhas, cores, contrastes e composições. “A presença da matriz portuguesa em Macau, nas imagens entre tempos” é outra das exposições patentes neste espaço, através da qual o colectivo Halftone - Macau Photographic Association olha o território de Macau, “o dragão aparentemente tranquilo, mas sempre acordado”. Iván Castiblanco Ramirez, fotógrafo colombiano, traz-nos “Corpo (des)medido / Corpo perdido” e a ideia do corpo como um novo objecto de consumo. Enfim, “Aos olhos de Eduardo” encerra esta visita guiada com um conjunto de imagens a preto e branco de Eduardo Teixeira Pinto, representativas do percurso do autor amarantino que nos deixou no início de 2009.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

CERTAME: Encontros da Imagem de Braga (II)



CERTAME: Encontros da Imagem - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais 2024
Braga, Barcelos, Guimarães, Porto e Avintes (vários locais)
20 Set > 03 Nov 2024


Neste regresso à 34ª edição dos Encontros da Imagem, deixamos para trás a cidade de Braga e dirijimos os passos até Avintes e ao Porto, ao encontro de um conjunto de exposições espalhadas por espaços que são já familiares àqueles que acompanham o certame. Na Leica Gallery Porto, Kit Young apresenta “Rêverie”, belíssima série fotográfica que desafia a percepção e memória de quem as vê, deixando no ar a dúvida se seremos meros espectadores de uma realidade vivida por outrem, ou se fazemos, nós próprios, parte daquelas imagens. “De repente é como se estivéssemos lá, com o nosso subconsciente a experimentar memórias alheias apropriando-nos delas, inebriados pela atmosfera de sonho para a qual somos transportados”, pode ler-se na folha de sala da exposição. Descendo a Campanhã, o muito dinâmico Mira Forum dá a ver “Sem Passado”, projecto de Felícia Pinho Oliveira que se debruça sobre o arquivo da Casa da Roda do Porto e as memórias de quem por lá passou. Baseado num imenso espólio de mais de cento e oitenta metros de documentação, patente nos livros da Roda e no Arquivo Distrital do Porto, “Sem Passado” propõe retratar a estética de abandono do século XIX e recuperar a memória de crianças duplamente negligenciadas: Pela Sociedade e pela História.

O IPCI - Instituto de Produção Cultural e Imagem acolhe “Woman Go No’Gree”, de Gloria Oyarzabal. Trata-se de uma reexposição da obra da fotógrafa espanhola num ano em que os Encontros da Imagem se centram nos “Legados do Colonialismo”. Vencedora dos Discovery Awards em 2018, a presença da artista naquele caloroso percurso inaugural marcou de forma indelével essa edição. Volta a fazê-lo este ano, emergindo com grande impacto, trazendo-nos uma narrativa e imagens impossíveis de esquecer. Potente e provocadora, a sua obra é um renovado desafio às convenções, lançando luz sobre questões urgentes e que não podem continuar a ser negligenciadas. Não muito longe do IPCI, a galeria Salut au Monde! é palco de “Loucos por Regressar ao Paraíso”, projecto documental de Cecília de Fátima centrado no movimento sazonal de visita dos emigrantes portugueses às aldeias de origem em Agosto. Um retrato cru e sensível das tensões culturais e emocionais que resultam de quotidianos divididos entre diferentes países. “Sem Princípio Nem Fim”, de Cristiana Ortiga, pode ser visto no Blues Photography Studio e parte do desejo profundo de partilhar um olhar que a artista sempre acalentou. Intensos e vivos, os olhares carregados e profundos das pessoas retratadas dão a ver, por inteiro, uma artista particularmente sensível, apaixonada pela vida e pelos ideais de Liberdade.

“Arqueologia do Presente” é a exposição que toma conta do espaço Adorna e nela Marco Rocha responde a uma clara vontade de realizar um levantamento topográfico do seu quotidiano. Adoptando uma metodologia de extremo rigor na definição das paisagens e artefactos estéticos enquanto apropriação cultural do território, o fotógrafo oferece-nos um conjunto de imagens dúbias que nos deixam em suspenso, com a sensação que aconteceu algo, de que não identificamos o tempo nem o propósito. Uma opção de Marco Rocha carregada de intencionalidade, optando por uma linha discursiva que arrisca exigir ao observador uma atenção extrema e a capacidade de poder pensar imageticamente e unicamente com ferramentas próprias da fotografia. Já na margem sul do rio Douro, na simpática Vila de Avintes, a Casa da Cultura Francisco Marques Rodrigues Júnior é o palco de “Finding Home”, de Gonçalo Fonseca. Trata-se, também, da reexposição de uma obra que é parte integrante da coleção dos Encontros da Imagem e que chegou à coleção através da Galeria da Estação, um espaço gerido pela Associação Encontros da Imagem e dedicado à promoção de novos artistas portugueses, onde foi exposta no ano passado. Uma oportunidade única para ver ou rever o conjunto de imagens que documenta o quotidiano dos elementos da Orquestra Zhora, constituída unicamente por refugiadas afegãs que encontraram em Portugal um novo lar.

sábado, 5 de outubro de 2024

CERTAME: Encontros da Imagem Braga 2024 (I)



CERTAME: Encontros da Imagem - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais 2024
Braga, Barcelos, Guimarães, Porto e Avintes (vários locais)
20 Set > 03 Nov 2024

Os Encontros da Imagem de Braga estão de regresso ao convívio dos amantes da Fotografia e das Artes Visuais, com mais de 40 exposições de artistas dos quatro cantos do mundo. Omar Victor Diop, D. M. Terblanche, Augusto Brázio, Amilton Neves e Sofia Yala são alguns dos nomes que compõem o programa expositivo da edição de 2024 do mais antigo festival de fotografia de Portugal e um dos mais antigos da Europa. No ano em que celebramos o 50º aniversário da queda da ditadura portuguesa, uma parte do programa expositivo do festival propõe uma reflexão sobre a história e interroga o que é o colonialismo actualmente, vendo como se manifesta de forma transversal na sociedade e de que novas formas se reveste. Está dado o mote para a 34ª edição dos Encontros da Imagem, certame cujo programa, para além das exposições de fotografia, tem para oferecer projeções, conversas, apresentações de livros, leitura de portfólios e sessões de cinema, formando um verdadeiro roteiro turístico da cidade de Braga e estendendo-se às cidades vizinhas de Barcelos e Guimarães e, ainda, ao Porto e a Avintes.

À semelhança dos anos anteriores, o dia dedicado a Braga tem início no Mosteiro de Tibães. É aí que está patente a colectiva “Do Antropoceno: Antes, Ainda e Amanhã”, na qual Ana Rodríguez Heinlein, Luca Rotondo e Martin Tscholl repensam a relação do Homem com o ambiente e a paisagem, reflectindo sobre os fenómenos de intervenção, destruição, adaptação e sobrevivência. Ponto de paragem obrigatório na visita aos Encontros, a Galeria do Paço UMinho apresenta o trabalho de oito artistas que, numa perspectiva geográfica e historicamente alargada, partilham o seu olhar sobre a expansão imperialista e colonial europeia. “Legados do Colonialismo” é uma oportunidade única de apreciar um conjunto de exposições de enorme valor e interesse, das quais destacaria “Oran” de Margot Wallard, “Inglória” de Marques Valentim, “Memória & A Ordem do Rei” de Sammy Baloji e “Digitar Aqui para procurar & O corpo como arquivo” de Sofia Yala, esta última verdadeiramente preciosa. “Legados do Colonialismo” leva-nos ainda ao Museu Nogueira da Silva, onde Ayrson Heráclito e Ofir Berman apresentam, respectivamente, “O Sacudimento da Maison das Esclaves & O Sacudimento da Casa da Torre” e “Along the Separation Wall”. Enfim, no Teatro Circo pode ver-se “Diaspora”, de Omar Victor Diop, uma visão muito particular de um conjunto de personalidades negras que souberam impor-se ao preconceito e discriminação das sociedade colonialistas dos séc. XVII a XIX.

Para quem tem limitações de tempo numa sortida a Braga e não quer passar ao lado do que de melhor os Encontros têm para oferecer, deixo duas propostas incontornáveis e outras tantas a merecer, igualmente, uma visita. Começo pelo edifício que abriga a SOMA - Plataforma Cultural, onde se mostram os projectos de Aaryan Tinha, Amina Kadous e Olga Sokal, finalistas do Emergentes 2023. “As Veias Abertas” parte das histórias pessoais e familiares dos artistas, revelando a persistência das cicatrizes coloniais e a forma como, em nome do progresso, se perpetuam as desigualdades e a exploração de recursos. Também aqui pode ser visto “Holyday”, de D. M. Terblanche. Na Zet Gallery, Inês d’Orey toma como ponto de partida para esta exposição o trabalho fotográfico desenvolvido para o livro “Paisagens Construídas - O passado e o presente da arquitetura portuguesa em 16 obras +1”, de Valdemar Cruz. Mais do que simples registos formais, a artista desenvolve um audacioso trabalho de investigação sobre os edifícios e os seus contextos, construindo ela própria um discurso sobre as obras fotografadas que abre novas possibilidades de leitura. Resultado de duas residências artísticas, Augusto Brázio e Maria Oliveira mostram, na Casa Rolão, “O Pecado Mora ao Lado” e “Ensaio em Voo e Apneia”. Finalmente, o Palácio do Raio acolhe “Orixe”, de Glorianna Ximendaz, projecto vencedor do Prémio Galiza de Fotografia Contemporânea.

sábado, 9 de dezembro de 2023

CERTAME: XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2023



CERTAME: XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2023
Vários locais
28 Out 2023 > 28 Jan 2024


No reino do génio, do engenho e da criatividade. É desta forma que podemos classificar a Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, evento a cumprir a sua décima sexta edição e que serve de prólogo ao Aveiro 2024 - Capital Portuguesa da Cultura. Repartido por onze pólos distintos, o Programa da Bienal oferece, para além do Concurso Internacional cuja exposição reúne 98 trabalhos de 80 artistas, várias exposições individuais e colectivas, uma das quais “Corrente Báltica”, resulta de uma parceria com a Bienal de Cerâmica da Letónia. A ligação à comunidade escolar exprime-se através do projecto “Bienal vai à Escola. A Poesia da Forma”, com a proposta de trabalhar o tema “A Viagem da Palavra”. Masterclasses, workshops, actividades participativas, programas para as famílias, visitas orientadas, oficinas, conferências e jornadas técnicas, acrescentam qualidade e diversidade ao programa, tornando-o rico e apelativo. Acrescente-se um conjunto de eventos culturais que incluem visitas encenadas, dança, novo circo, conversas, poesia e muita música e torna-se claro que esta Bienal tem tudo para agradar a todos.

Falando da minha própria experiência, direi que a imersão na Bienal tomou-me praticamente uma tarde inteira (as visitas terminam às 18h00), oferecendo a possibilidade de visitar sete polos expositivos. A aquisição do Passaporte para visita aos vários núcleos é mandatária e tem o custo de € 2,00. Começando pelo Museu de Aveiro / Santa Joana, é lá que se encontram expostos os trabalhos do Concurso Internacional, seleccionados de um universo de 915 peças, de 565 artistas representando 63 nacionalidades, naquela que constitui a maior participação de sempre. No seu conjunto reflectem a diversidade nas abordagens dos artistas ao nível das técnicas, dos materiais, das formas e dos conceitos e, simultaneamente, expressam as diferentes geografias resultando num exercício de experimentação, inovação e criatividade em cerâmica. Para além da obra vencedora, “Balance in Red”, da neerlandesa Paula Bastiaansen, e de outras obras premiadas, como “Grow”, da nipónica Hidemi Tokutake, “Ming-Miao Ko”, do artista de Taiwan com o mesmo nome ou “Que nasçam flores”, da portuguesa Lisa Barbosa, é possível apreciar interessantes trabalhos de artistas de países tão diversos como a Itália ou os Estados Unidos, a Argentina ou a Turquia, a Suíça ou o Irão.

Paragem seguinte, a Galeria Morgados da Pedricosa, a dois passos do Museu Santa Joana, alberga uma exposição colectiva de ceramistas portugueses onde se incluem Carlos Enxuto, João Carqueijeiro e Sofia Beça, entre outros. A mostra é imperdível e tem a particularidade de reunir pela primeira vez, numa exposição única, artistas / ceramistas portugueses com o carimbo AIC - Academia Internacional de Cerâmica. No caminho para a baixa da cidade, paragem nos Claustros da Igreja da Misericórdia para apreciar “Binómio”, colectiva da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, com obras cujo diálogo assenta nas ideias de interioridade, exterioridade, verticalidade ou horizontalidade. Segue-se a Galeria da Antiga Capitania e a obra cerâmica de Cecília de Sousa, subordinada ao título “A Poética da Erosão”, exposição que, pelo seu valor, será alvo de um apontamento individualizado aqui no blogue. O mesmo acontecerá com o extraordinário trabalho “Paraísos Frágeis”, de Ellen Van Der Woude, patente no Museu Arte Nova. O Museu da Cidade acolhe “Corrente Báltica”, onde se mostra a corrente criativa dos países bálticos, à boleia da Bienal de Cerâmica da Letónia. Percorrer a Avenida Lourenço Peixinho em toda a sua extensão, ao encontro da Estação de Caminhos de Ferro. pode ser desmotivador, mas “Paisagens Entrelaçadas”, de Juana Fernández, vale mesmo a pena.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

CERTAME: 11ª Bienal Internacional de Gravura do Douro 2023


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CERTAME: 11.ª Bienal Internacional de Gravura do Douro 2023
Curadoria | Nuno Canelas
Alijó, Celeirós, Chaves, Favaios, Vila Nova de Foz Côa, Peso da Régua, S. Martinho de Anta e Vila Real
10 Ago > 31 Out 2023


Alicerçado na mais antiga região vinícola demarcada do mundo - laureado por dois patrimónios da humanidade atribuídos pela UNESCO e mundialmente reconhecido quer pela sua paisagem vinhateira, quer pelo património arqueológico do Vale do Côa (o maior santuário de gravura paleolítica do mundo) -, o Douro é palco, também na contemporaneidade, de um dos maiores eventos de arte gráfica do mundo. Falo da Bienal Internacional de Gravura do Douro, certame que reune dentro de si uma força e dimensão que ultrapassa as fronteiras do país e se projecta para horizontes infinitos. Fundado em 2001, o certame tem sobrevivido aos desafios da interioridade, das sucessivas crises económicas e da própria crise da gravura, mantendo vivos os pressupostos da arte e a autonomia da gravura no contexto da arte contemporânea. Para tal, muito têm contribuído os tributos da gravura tradicional e suas alquimias seculares, bem como as renovadas tendências da gravura digital e dos novos media ao seu dispor, garantindo-lhe a autonomia de que necessita para subsistir.

Assumindo a responsabilidade de ser única no género no nosso país, a Bienal Internacional de Gravura do Douro ombreia, hoje em dia, com as mais importantes Bienais do mundo. A comprovar tal fasquia, salientam-se as exposições de homenagem a artistas mundialmente reconhecidos como Antoni Tàpies, Paula Rego, Vieira da Silva, Octave Landuyt, Gil Teixeira Lopes, Nadir Afonso, David de Almeida, Bartolomeu do Santos, Júlio Pomar, José de Guimarães e agora Silvestre Pestana, mas também pela abrangência e internacionalidade alcançada ao longo de onze edições, registando a presença de mais de mil artistas de uma centena de países. Para que se perceba a dimensão do certame, atente-se nos números da presente edição: sessenta e cinco países, quinhentos artistas, oitocentas gravuras, e oito exposições distribuídos por vários núcleos centrados em Alijó, Celeirós, Chaves, Favaios, Foz Côa, Peso da Régua, São Martinho de Anta, eVila Real.

Atentando naquilo que me foi possível ver nesta edição da Bienal, começaria por referir os trabalhos que se encontram no Museu do Côa, onde se concentram as instalações. No Espaço Miguel Torga, em S. Martinho de Anta, pode o visitante encontrar uma vasto número de trabalhos, onde qualidade e variedade se combinam na perfeição (pessoalmente, foi aqui que encontrei os trabalhos mais desafiantes e imaginativos). Em Alijó, é na Biblioteca Municipal e no Complexo de Piscinas que se concentram os trabalhos mais interessantes ou, pelo menos, aqueles que se dão a ver em melhores condições, já que as condições de luminosidade no Auditório Municipal prejudicam grandemente a visualização da maior parte das obras. O mesmo acontece no Núcleo Museológico de Favaios, onde muitas das obras sofrem o efeito de múltiplos reflexos e deixam de poder ser apreciadas com detalhe. Finalmente, Celeirós e Vila Real reúnem um número interessante de obras com qualidade, merecendo também eles a visita. A Bienal de Gravura do Douro encerra já no próximo dia 31.