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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 5



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Ágata Pereira, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Carlos Nuno Granja, Cristiana Rodrigues, Hélder Bruno, Iuri Oliveira, João Pedro Vala, Jorry, José J. Cabral, Mara Domingues, Maria Martins, Marisa Lemos, Miguel Gouveia, Rafael Gallo, Rui Guedes, Surma, Teresa Carvalho, Zetho Cunha
Parque Urbano de Ovar, Bar do CAO e Centro de Artes de Ovar
20 Set 2026 | dom | 10:00 e 15:00


Há sempre uma espécie de melancolia no último dia de um Festival. Em Ovar, no passado domingo, ela foi-se insinuando devagar, entre livros, desenhos, histórias e conversas, como se ninguém se atrevesse a dar por adquirido que a festa estava a chegar ao fim. O Parque Urbano recebeu as primeiras palavras do dia, com a apresentação de “Sr. Loisas - A biblioteca itinerante é bastante extravagante”, de Carlos Nuno Granja, ilustrado por Yana Marques. Seguiu-se uma oficina de ilustração de Cristiana Rodrigues e uma conversa moderada por Rui Guedes e dedicada à mediação da leitura. Marisa Lemos, Ágata Pereira e Mara Domingues, as convidadas desta penúltima mesa do FLO, falaram da escrita como lugar de humildade, da leitura como encontro e das histórias como instrumentos capazes de nos tocar antes mesmo de sabermos exactamente porquê. “A criança lê pelos ouvidos”, lembrou Marisa Lemos. Ágata Pereira haveria de dizer que, mesmo se tivesse escrito vinte livros, não abdicaria nunca de ser professora. E Mara Domingues deixou uma ideia particularmente bonita: um livro pode ser apenas uma história que nos soube bem; não tem necessariamente de carregar consigo uma moral. Depois, os contos de Miguel Gouveia prolongaram essa manhã em que as palavras ainda hesitavam em despedir-se.

À tarde, já no Bar do CAO, a literatura ganhou outros contornos. “Cinzas & Sudário”, de Aurelino Costa, abriu caminho para uma “Poesia A Meias”, partilhada pelo próprio autor, com Zetho Cunha Gonçalves e Aurora Gaia, num encontro em que a palavra poética encontrou uma particular dimensão de voz, respiração e presença. Mas seria na última mesa do Festival, moderada por Teresa Carvalho, que a conversa haveria de se deter sobre esse território onde a literatura respira entre o íntimo e o colectivo. João Pedro Vala falou de uma literatura mais próxima da vírgula do que do ponto de exclamação, um espaço de respiração e não de exaltação. Rafael Gallo lembrou o perigo dos pontos de exclamação quando se pretende dar demasiado peso às frases e falou do medo de perder a casa ou o emprego de que se alimentam as narrativas neofascistas. José J. Cabral reclamou para os escritores a responsabilidade de reflectirem a verdade dos seus países e contrariarem as narrativas institucionais: nem tudo o que vemos, disse, é postal ilustrado. Entre o manguito e a vírgula, entre a História que herdámos e aquilo que ainda precisamos de reinventar, ficou a literatura como lugar de confronto, mas também de conforto e transformação.

A música reservava uma surpresa para o final de um programa que, ao longo de cinco dias, teve tudo para agradar a todos. “Ether Sculptures”, de Hélder Bruno, encerrou o Festival Literário de Ovar como se o fim pudesse, afinal, ser uma outra forma de começo. No palco, piano, baixo eléctrico, teclados, guitarra, sintetizadores, bateria, percussões e violoncelo construíram uma matéria narcadamente sensorial. Hélder Bruno, acompanhado por Jorri, Surma, Iúri Oliveira e Maria Redes Martins, levou o público para esse território onde o som deixa de ser apenas som e passa a ser paisagem, memória, emoção. Foi, em grande medida, a despedida perfeita para um Festival feito de palavras: depois de tantos livros, autores, leitores, perguntas e respostas, restava aquilo que talvez seja mais difícil de nomear. Uma atmosfera. Uma vibração. Qualquer coisa que permaneceu dentro de nós quando as cadeiras começaram a esvaziar-se e as luzes se apagaram. Se uma imagem vale mil palavras, como dizia a apresentação do espectáculo, talvez uma música possa valer mil imagens. E naquela última hora, Ovar pareceu guardar dentro de si todas elas.

Foi assim que terminou a XII edição do Festival Literário de Ovar: sem um verdadeiro ponto final, porque os livros não sabem terminar assim, nem as histórias, nem as conversas que ficam a trabalhar dentro de quem as ouviu ou nelas participou. Escritores e leitores despediram-se da cidade, guardando consigo aquilo que os festivais verdadeiramente deixam: frases impossíveis de esquecer, outras tantas perguntas, encontros que continuam para lá destes dias inesquecíveis e a sensação rara de ter pertencido, por instantes, a uma comunidade reunida em torno da palavra. Depois, começa o silêncio. A cidade regressa ao seu ritmo habitual, os lugares onde durante dias se ouviram vozes ficam novamente à espera, instala-se aquele vazio agridoce que acompanha todas as despedidas felizes. O festival acaba, mas Ovar fica com a memória do que aconteceu e com a longa, quase insuportável espera pelo dia em que os livros voltarão a ocupar a cidade, as palavras tornarão a atravessar praças e ruas e alguém voltará a dizer que é hora de recomeçar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Alberto Pereira, Alice Brito, Ana Rute Elias Lopes, Ana Zorrinho, Andreia Baptista, António Cabrita, Caius, Carlos Nuno Granja, Carlos Querido, Celina Lopes, Cláudia Pena, Cristina Carvalho, Cristina Marques, Daniel Completo, Elisa Costa Pinto, Filipa Mota Nesbitt, Francisco Mota Saraiva, Gonçalo Serras, Katya Delimbeuf, Luís Filipe Sarmento, Helena Ribeiro, José Fanha, Manuella Bezerra de Melo, Marco Neves, Maria Cláudia Rodrigues, Miguel Bonneville, O Poeta da Cidade, Paola d’Agostino, Rute Campanha, Sara Dias de Oliveira, Wake Up Sleep
Parque Urbano de Ovar, Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, Centro de Artes de Ovar
19 Set 2026 | sab | 09:30, 14:30 e 21:00


Por tradição o dia mais preenchido do Festival Literário de Ovar, o passado sábado voltou a servir de teste à vontade e persistência dos muitos adeptos do Festival e a fazê-los sentir os mais variados momentos não como um programa, mas como uma viagem. O quarto dia do FLO foi, assim, uma longa viagem entre livros, vozes, rostos, memórias, perguntas e reflexões, começada por volta das nove da manhã e só finalizada quando no relógio da torre da Matriz se escutaram as doze badaladas. Entre o Parque Urbano, o Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense e o Centro de Artes de Ovar, escritores, leitores ou simples curiosos foram-se movendo entre uma palavra e outra, uma mesa e outra, como quem muda de sala no interior da sua própria casa. Apresentações de livros, oficinas, contos, poesia e cinco mesas de conversas constituíram, mais do que uma autêntica maratona, um exercício de resistência à voracidade dos dias. Porque se há coisa que a literatura nos pede é, justamente, que paremos. Que olhemos. Que abramos uma porta, mesmo não sabendo onde ela nos irá levar. E, por uma vez, que não tenhamos pressa de chegar ao outro lado.

A manhã começou com os livros a falarem para aqueles que estão ainda a descobrir o mundo, mas rapidamente se percebeu que falar de literatura infantil é falar de todos nós. Ana Rute Elias Lopes lembrou que, quando conta a história de um livro, conta também a sua própria história, fazendo com que essa humanidade aproxime o pequeno leitor daquilo que tem diante de si. Celina Lopes falou de uma ferida antiga transformada em livro. Andreia Baptista lembrou que mediar a leitura não é simplesmente contar uma história, mas criar condições para que ela seja descoberta com prazer, fruição e surpresa. Talvez seja por isso que a literatura para os mais novos tenha uma responsabilidade tão grande: porque pode ser o primeiro lugar onde alguém percebe que as palavras não servem apenas para dizer o mundo, mas também para inventar outros mundos, quiçá mais maravilhosos e fantásticos. Entre a oficina de ilustração de Cláudia Pena e os contos de Daniel Completo e José Fanha, a manhã foi deixando essa impressão bonita de que um livro começa muito antes de ser aberto e continua muito depois de dobrada a última página.

À tarde, no Museu Júlio Dinis, a conversa tornou-se mais densa, como se a literatura tivesse tirado o casaco leve da manhã e entrado noutra estação. Carlos Querido, Marco Neves e Elisa Costa Pinto falaram da complexidade e da simplificação, dessa tendência contemporânea para tornar tudo imediatamente compreensível, arrumado, consumível. Mas a literatura, talvez porque conhece demasiado bem a vida, desconfia das respostas fáceis. “Quem conhece a aldeia, conhece o mundo”, disse Carlos Querido, e ficou-me a frase. Porque é exactamente isso que os livros fazem, ao abrirem para nós um pequeno postigo e mostrarem-nos uma paisagem que não sabíamos que pudesse estar ali. Marco Neves lembrou que reduzir a língua à oposição entre simples e complexo é diminuir aquilo que ela nos oferece. Elisa Costa Pinto falou de uma Escola que não deve simplificar o mundo, mas dar-nos ferramentas para entrar no que ele tem de mais difícil. E ficou a sensação de que, num tempo que tantas vezes nos pede atalhos, a literatura continua a preferir o caminho menos fácil e menos óbvio. O caminho mais longo.

Foi também no Museu Júlio Dinis que Samuel Beckett apareceu, não como estátua literária, mas como homem. Alberto Pereira apresentou um livro que procura imaginar esse Beckett que poderia ter sido outra coisa, ter encontrado outras pessoas, vivido outra vida. Um homem entre a lucidez e o desequilíbrio, acompanhado pelo absurdo, pela espera, por Shakespeare, Joyce, Nietzsche, Hélia Correia, Dante, Saramago. Foram ideias através das quais se assistiu a uma das mais bonitas reflexões do dia, já que “falar de Beckett é falar de nós”. Porque também nós esperamos. Por um amor, por uma mudança, por alguma coisa que ainda não chegou, pela morte. Esperamos enquanto corremos. E corremos tanto que já quase não vemos os lugares por onde passamos. “A palavra fulcral é a velocidade”, ouviu-se. Talvez seja. Mas nessa tarde, em Ovar, tentou-se contrariá-la. Na mesa moderada por Ana Zorrinho, António Cabrita falou da paixão como força capaz de incendiar a escrita, para o bem e para o mal. Luís Filipe Sarmento encontrou na obscuridade da notícia o gatilho para escrever e a literatura apareceu, uma vez mais, como o lugar possível para chegar ao ponto cego, a esse cruzamento improvável entre diferentes maneiras de olhar.

Depois veio a memória, e com ela tudo aquilo que ainda não passou inteiramente. A última mesa da tarde trouxe para o centro da conversa os cinquenta anos da nossa democracia e os vestígios de um país que não se evaporam só porque o calendário avança. Paola d’Agostino falou de uma censura que pode terminar depressa, mas de uma auto-censura cujo desaparecimento é muito mais lento. Francisco Mota Saraiva evocou a reverência antiga ao patriarcado, à autoridade, ao “senhor”, e falou de um país onde ainda permanecem formas de desconfiança e desamor. Miguel Bonneville deixou uma pergunta difícil: nascer depois de Abril significa necessariamente ter nascido em liberdade? Talvez a literatura seja também isto: não deixar que as perguntas envelheçam. À noite, Cristina Carvalho e Alice Brito voltaram a essa memória através de “Perdeu-se Relógio de Senhora”, romance que olha para o fascismo no quotidiano, para aquilo que pode parecer pequeno, doméstico, quase invisível, e que, justamente por isso, se torna tão perigoso. “Esquecer”, disse Alice Brito, “é compactuar com um passado que não queremos que volte”.

Quando a última mesa começou, já o dia pesava no corpo, mas não na conversa tão habilmente moderada por Cristina Marques. Maria Cláudia Rodrigues falou da escrita como uma tentativa de iluminar aquilo que permanece na obscuridade. Filipa Mota Nesbitt lembrou a literatura como algo que resiste ao tempo, da leitura como lugar de encontro com o outro e da necessidade de escrever porque não basta viver: é preciso testemunhar. Katya Delimbeuf lembrou a força quase inexplicável desse acto que é escrever, essa tentação de deixar alguma coisa para além de nós. O verdadeiro fio de todo o dia estava encontrado: deixar. Deixar uma frase, uma imagem, uma pergunta, uma memória. Deixar qualquer coisa no outro. Na voz d'O Poeta da Cidade, “Metafisicamente d’Outro Mundo” veio fechar a noite com poesia. E assim se chegou ao final do quarto e penúltimo dia do FLO, após quase quinze horas de literatura, com a sensação paradoxal de cansaço e de fome. Cansaço no corpo, certamente. Mas fome de continuar. Porque estamos à beira do último dia e há viagens que, quando estão quase a terminar, nos dizem que não queremos realmente que cheguem ao fim. O Festival Literário de Ovar é uma dessas viagens.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
Com | António Zambujo (voz e viola), João Salcedo (piano), João Moreira (trompete), José Miguel Conde (clarinete) e Francisco Brito (contrabaixo)
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2026 | sab | 21:30


António Zambujo foi o nome maior da última noite do FESTA – Sons da Lusofonia, chamando ao Parque Urbano de Ovar uma multidão que respondeu à chamada da organização com expectativa e entusiasmo. O recinto encheu-se para receber um dos mais populares e consensuais intérpretes da música portuguesa contemporânea, dono de um percurso singular que soube cruzar o fado, o cante alentejano, a música popular brasileira e a canção de autor, construindo uma identidade artística imediatamente reconhecível. Desde os primeiros passos, em Beja, passando pela consagração nacional e internacional, Zambujo é hoje uma referência incontornável da música de expressão portuguesa, acumulando distinções e uma legião de admiradores dos dois lados do Atlântico. Em Ovar, essa popularidade fez-se sentir desde o primeiro instante, perante uma assistência numerosa e calorosa, que ergueu a voz em praticamente todas as canções e respondeu com entusiasmo permanente a um concerto pensado para equilibrar memória e novidade. É que o músico aproveitou a ocasião para apresentar uma parte substancial de “Oração ao Tempo”, o seu mais recente trabalho discográfico, sem nunca perder de vista os temas que marcaram diferentes fases da sua carreira e que continuam a ocupar um lugar privilegiado nos corações do seu público.

O alinhamento começou precisamente por afirmar essa vontade de olhar para o presente, abrindo com “Palma da Mão”, seguindo-se “Prescrição”, “Nossa Alma é Siamesa”, “Regresso à Infância” e a faixa-título “Oração ao Tempo”, numa sequência onde sobressaíram a habitual contenção interpretativa e o rigor de uma banda que privilegia o detalhe e a subtileza dos arranjos. A partir daí, o cantor foi convocando sucessivos momentos de reconhecimento imediato, revisitando “Guia”, “Catavento da Sé”, “Zorro”, “Apelo”, “Reader’s Digest”, “O Tiro pela Culatra”, “Lote B”, “Algo Estranho Acontece” e “Visita de Estudo”, compondo uma verdadeira viagem pela evolução do seu repertório. Entre canções houve espaço para a boa disposição, para o humor despretensioso que caracteriza a sua presença em palco e até para interromper o concerto e cantar os parabéns a uma espectadora muito especial, gesto espontâneo que conquistou de imediato a plateia. A proximidade com o público voltou a revelar-se uma das maiores virtudes do cantor alentejano, cuja simplicidade reforça a enorme qualidade musical de um espectáculo construído sobre interpretações elegantes, uma voz de timbre inconfundível e uma naturalidade que dispensa qualquer gesto cénico.

“Pica do 7”, um dos momentos mais aguardados da noite, encerrou o alinhamento principal sob uma prolongada ovação, mas o público não permitiu que a despedida fosse definitiva. No “encore”, António Zambujo regressou para prestar a já habitual homenagem a Max, interpretando “Rosinha dos Limões” e recordando um dos artistas que mais influenciaram a sua carreira. Seguiu-se “Gota de Água”, evocação das suas raízes alentejanas e da profunda ligação ao cante, património que continua a atravessar discretamente grande parte da sua obra. O fecho aconteceu com “No Rancho Fundo”, numa leitura simultaneamente emotiva e festiva que funcionou como perfeita celebração da lusofonia, tema agregador de um festival que, desde a sua criação, tem feito da diversidade cultural do espaço lusófono a sua principal razão de existir. Foi um final de enorme simbolismo para um concerto sólido, coerente e musicalmente irrepreensível, que confirmou António Zambujo como um dos grandes embaixadores da canção portuguesa contemporânea e constituiu, sem surpresa, o ponto mais alto desta edição do FESTA – Sons da Lusofonia, correspondendo plenamente às expectativas de um público que encheu o Parque Urbano de Ovar para testemunhar mais uma noite memorável.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

CONCERTO: Do Cabo do Mundo



CONCERTO: Do Cabo do Mundo
Com | Carlos César Motta (direcção musical e percussão), Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse (vozes), Pablo Marques e Kito Siqueira (sopros), João Pitta (violão), Pri Azevedo (teclados e acordeão), Rolando Semedo (baixo), Lizz Marchi e Daniel Félix (percussão)
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2026 | sab | 18:00


“Arrepia, arrepia
E arrepia sim senhor”
Fausto Bordalo Dias, in “O Barco Vai De Saída”

“Um sonho lindo”, daqueles que permanecem para lá da festa no palco, assim foi o concerto do projecto Do Cabo do Mundo, ao final da tarde de sábado, no derradeiro dia do FESTA – Sons da Lusofonia. Entre o rio e a cidade, a partida e o encontro, a viagem e o sonho, o espectáculo resultou numa única travessia “por este rio acima”, feita de palavras e sons que transportaram o público muito além das margens da memória. “Isto que é de uns / também é de outros” fez da partilha o fundamento de um concerto de homenagem a Fausto Bordalo Dias, interpretado com emoção por artistas de diferentes latitudes, todos eles imigrantes, unidos pela mesma língua da música e pelo mesmo desejo de celebrar um dos maiores cantautores portugueses “do passado, do presente e do futuro”. O público percebeu isso desde o primeiro instante. Cantou, dançou e respondeu a cada refrão como se as canções lhe pertencessem desde sempre, confirmando que as obras verdadeiramente universais não conhecem tempos nem fronteiras. Quando “Meu sonho / quanto eu te quero” ecoou entre vozes e percussões, o rio desembocou naturalmente na cidade. “Ali está a cidade”, cantou-se, uma cidade que já não era apenas Lisboa, mas também Maputo, Praia, Rio de Janeiro, Luanda, Ovar ou qualquer outra onde alguém tenha chegado, carregando consigo saudades, sonhos e esperança.

“Mas sobretudo a cidade é um som”, escreveu Fausto, e nunca um verso pareceu tão exacto. Durante pouco mais de uma hora, o Parque Urbano foi esse lugar improvável onde todas as geografias se reconhecem numa mesma melodia. Idealizado pelos músicos Carlos Cesar Motta e Fred Martins, com a participação de criadores oriundos de diferentes geografias, Do Cabo do Mundo reinterpreta o legado de Fausto, acrescentando uma nova vida às suas obras e enriquecendo-as com o pulsar de ritmos africanos e brasileiros que parece sempre terem estado ali, à espera de serem revelados. “Foi Por Ela”, o momento mais luminoso do concerto, é disso a prova provada. A canção renasce envolta numa cadência afro-brasileira de irresistível elegância, como se as águas do Atlântico finalmente fechassem o círculo iniciado na infância angolana de Fausto, ele que nasceu no meio do oceano, a bordo do navio “Pátria”. O público sentiu ali “o tropical sentido na lapela”, mas houve sobretudo uma compreensão profunda da canção, dessa declaração de entrega absoluta - “foi por ela que eu deixei de ser quem era” -, agora cantada por vozes que conhecem na pele o significado da travessia. Também “Namoro”, com a sua irresistível leveza mestiça, prolongou esse encontro entre continentes, celebrando o amor como território onde todas as fronteiras se esbatem.

Esta ideia encontrou a sua mais clara tradução nas palavras breves, mas profundamente significativas, de Selma Uamusse: “Os imigrantes amam Portugal e esperam que Portugal os ame.” Nada poderia resumir melhor o espírito de Do Cabo do Mundo. Fausto sempre escreveu sobre viagens, encontros e desencontros, sobre os esplendores e as misérias da aventura humana, e este colectivo mostrou como essas canções continuam extraordinariamente actuais. Talvez por isso “Rosalinda” tenha adquirido uma força avassaladora. Ouvir que “os que mandam no mundo / só vivem querendo ganhar”, é perceber que o tempo pouco alterou as injustiças denunciadas por Fausto. A resposta luminosa a esse desencanto veio do palco, com as vozes de Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse, as percussões de Carlos César Motta, Lizz Marchi e Daniel Félix, os metais de Pablo Marques e Kito Siqueira, o violão de sete cordas de João Pitta, os teclados e acordeão de Pri Azevedo e o baixo de Rolando Semedo a mostrarem a música como lugar de encontro, resistência e esperança. O público voltou a responder em uníssono, transformando cada refrão numa afirmação colectiva de pertença. Não foi nostalgia, tão pouco tributo. Foi o provar que estas canções continuam vivas porque continuam a encontrar novos corpos, novas vozes e novas histórias para as habitar.

E como toda a viagem exige uma partida para justificar o regresso, “O Barco Vai de Saída” abriu a derradeira etapa deste percurso. As palavras de Fausto – “levo-te comigo”, “pra lá do Equador”, “no espantoso trono das águas”, “vou “ — ganharam um peso renovado nas vozes de quem conhece intimamente o significado de atravessar oceanos em busca de melhor vida. A tempestade, os medos, a esperança e a coragem, como tão bem “cantou” Ana Luísa Amaral, confundiram-se com as muitas histórias de migração que continuam a escrever-se todos os dias. Depois veio o “encore” inevitável, a transformar “Navegar, Navegar” numa autêntica “profissão de fé”. “Quem conquista sempre rouba, quem cobiça nunca dá”, advertiu Fausto, antes de lembrar que também foi “mercadoria” e que trouxe “um olhar peregrino”. Foi impossível não escutar nesses versos um apelo à dignidade de todos os que atravessam fronteiras, ontem como hoje. Quando o concerto terminou, o público continuou a cantar, prolongando “Navegar, Navegar” para lá dos derradeiros aplausos. Porque todos sabemos que a viagem está longe de chegar ao fim. Continua rio acima, mar adentro, do cabo do mundo até onde valer a pena chegar, até onde a música de Fausto nos levar.

terça-feira, 14 de julho de 2026

CONCERTO: Daniel Pereira Cristo + Comunidade



CONCERTO: Daniel Pereira Cristo + Comunidade
Com | Daniel Pereira Cristo (voz, cavaquinho), Tiago Simães (piano), João Dantas Ferreira (acordeão), Carolina Gomes (percussões) e elementos dos coros CásterAntiqua, Canto Décimo e Suspiro e do grupo de cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar – Palco Verde
10 Jun 2026 | sex | 19:00


Há concertos que se esgotam nos seus pressupostos e facilmente se apagam da memória. E depois há aqueles que permanecem, pela forma como se transformam em lugar de presença, dádiva e partilha. Está neste último caso o concerto de “Daniel Pereira Cristo + Comunidade”, não apenas pela qualidade da execução ou pelo simbolismo do repertório, mas porque conseguiu suspender, ainda que por instantes, a ilusão de que a cultura é um território de consumo, devolvendo-a à sua condição primordial enquanto lugar de pensamento, encontro e afecto. Entre todas as propostas que deram forma ao primeiro dia do FESTA - Sons da Lusofonia, e sem desprimor para com as demais, esta é aquela que quero destacar. Sem procurar impressionar pela dimensão da produção ou pela exuberância cénica, o concerto optou pelo caminho menos óbvio e, por isso mesmo, mais raro: o de fazer da música um espaço de pertença, no qual tradição, criação e comunidade encontram espaço numa mesma vivência. Num festival que, entre todos os seus pressupostos, faz da “música que toca, [da] palavra que voa, [do] tempo que vive, [da] diversidade que se encontra” a sua maior razão de ser, dificilmente imaginaríamos tradução mais consequente dessa autêntica carta de intenções.

Foi significativo que tudo tivesse começado muito antes de qualquer ideia de espectáculo. Saída do universo das Cantigas de Santa Maria, “Santa Maria, Strela do Dia” não emergiu como simples evocação do cancioneiro medieval, mas como afirmação de uma linhagem. Através dela, a tradição mostrou-se como raiz viva de uma música que, transformando-se incessantemente, continua a reconhecer-se na mesma seiva. Esta subtil ligação ao Festival de Música Antiga de Ovar fez, por isso, todo o sentido, como se ambos os festivais partilhassem, num mesmo arco temporal, oito séculos de criação musical e de diálogo entre géneros. A passagem para os cantares populares extraídos da banda sonora do filme “Mudar de Vida”, do realizador Paulo Rocha, aconteceu sem rupturas, como se Ovar e o Furadouro, os pescadores, as vozes religiosas, os cantos de trabalho e as melodias festivas fossem apenas diferentes rostos de uma mesma memória colectiva. Abraço caloroso à nossa terra e às nossas gentes, “Bendito”, “Encadeia”, “Aperta, Amor”, “Vareira” ou “Malhão” puderam ser escutados como matéria ainda habitada, capaz de reconhecer nas vozes de hoje a continuidade das vozes de ontem.

Quando Daniel Pereira Cristo assumiu plenamente a condução do concerto, acompanhado por Tiago Simães (piano), João Dantas Ferreira (acordeão) e Carolina Gomes (percussões), tornou-se claro que a comunidade nunca deixaria de ocupar o centro da narrativa. Mais polido ou mais regateiro, o coro foi a imagem visível de uma ideia de criação onde o individual encontra sentido na força do colectivo. Talvez possamos ver nesta forma de ser e de estar a maior singularidade do músico bracarense. A sua biografia fala de instrumentos tradicionais, de composição, de pesquisa e de uma permanente tensão entre passado e presente. Tudo isso é verdade, mas não chega. O que realmente o distingue é uma rara generosidade artística, uma disponibilidade para partilhar o palco, o saber e a responsabilidade da criação que reforçam a sua identidade autoral. Com apenas um workshop e três ensaios, Daniel Pereira Cristo conseguiu transformar mais de meia centena de participantes num organismo musical coeso, em cujo miolo soube cada voz encontrar o seu lugar de forma natural. E esta é uma qualidade que não se aprende nas escolas de música nem se escreve nos currículos: nasce da escuta, da empatia, da confiança e da capacidade de reconhecer talento nos outros, antes de procurar evidenciar o seu próprio talento. Obrigado, Daniel.

Por isso mesmo, o momento mais importante deste concerto não recaiu sobre uma canção em particular, embora “Saúde e Liberdade”, “Que Força É Essa”, “Confederação”, “Navegar, Navegar”, “Arriba o Monte” ou “Tens de Aprender a Dizer Não” tenham encontrado novas camadas de sentido nesta leitura colectiva. O essencial, contudo, aconteceu num plano menos visível. Uma vez mais o FESTA abriu espaço a um coro comunitário, levando-o a integrar de forma orgânica a programação do festival. Reunindo elementos do CásterAntiqua, do Canto Décimo, das Suspiro e dos cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar, o coro comunitário prolongou uma quase declaração de princípios que vem fazendo escola no nosso Município. Num tempo em que tantas instituições culturais confundem participação com representação simbólica, projectos como este são a demonstração de que a comunidade pode ser muito mais do que simples destinatária da programação, sendo ela própria matéria de criação artística. Nisto residiu a maior virtude de “Daniel Pereira Cristo + Comunidade”, ao recordar-nos que a tradição só permanece viva quando deixa de ser património para voltar a ser prática, quando deixa de ser memória para voltar a ser gesto partilhado.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia
Com | OSSN, Daniel Pereira Cristo + Comunidade, Carla Castelhano, Bárbara Bandeira, Blaya, Lucas Santtana, Cheny Wa Gune, Do Cabo Do Mundo, Expresso Transatlântico, António Zambujo e Stereossauro + Convidados
Parque Urbano de Ovar
10 e 11 Jul 2025 | sex e sab | 18:00 às 00:30


Com uma forte adesão do público, o FESTA voltou a transformar o Parque Urbano de Ovar num amplo espaço de encontro entre a música de expressão lusófona, a natureza e a comunidade. Afirmando-se como uma das mais sólidas marcas identitárias da cultura ovarense, a 11.ª edição do festival reuniu milhares de pessoas em torno de uma programação que cruzou diferentes geografias, gerações e linguagens musicais, distribuída por três palcos e complementada por iniciativas que reforçaram a dimensão participativa do evento. Para além dos doze concertos, o “Lugar das Infâncias” voltou a afirmar-se como um espaço para todos, com oficinas, teatro, jogos e histórias, enquanto o “Espaço Conversas”, dinamizado pelo jornalista Rui Miguel Abreu, promoveu encontros informais entre artistas e público. A componente comunitária ganhou especial expressão no espectáculo de Daniela Pereira Cristo, desenvolvido com elementos dos coros Canto Décimo, Cáster Antiqua e Suspiro, bem como com o grupo de cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar, num projecto que reforçou a ligação do festival ao território e às colectividades locais. Mais do que uma sucessão de concertos, o FESTA voltou, assim, a afirmar-se como uma celebração da cultura em língua portuguesa, da partilha e da participação, proporcionando uma experiência vivida em família ou entre amigos, onde palco e plateia se encontraram num ambiente de proximidade e convivialidade.

A jornada inaugural abriu ao final da tarde de sexta-feira com OSSN, que apresentou um “live act” inspirado nas memórias e sonoridades cabo-verdianas, cruzando electrónica, ritmos hipnóticos e ambientes de forte carga evocativa. Seguiu-se um dos momentos mais marcantes desta edição, com Daniela Pereira Cristo a revisitar a música de raiz portuguesa num espectáculo construído em conjunto com dezenas de participantes locais, sublinhando a vocação comunitária do FESTA. Um pôr-do-sol exuberante viu Carla Castelhano assumir a banda sonora do recinto com um “dj set” que percorreu influências do jazz, da folk e das músicas do mundo e preparando o ambiente para os concertos da noite. Bárbara Bandeira foi a primeira cabeça-de-cartaz do FESTA, apresentando “Lusa: Acto II”, novíssimo trabalho que assinala uma nova etapa do seu percurso artístico e que conciliou os temas mais recentes com alguns dos maiores êxitos da cantora. O encerramento da primeira noite pertenceu a Blaya que, com “ARRAIÁ.L”, trouxe ao Parque Urbano um espectáculo marcado pela energia contagiante, cruzando o espírito dos arraiais portugueses com as festas juninas brasileiras, numa actuação de forte interacção com o público e que colocou milhares de pessoas a dançar pela noite fora.

O segundo dia evidenciou de forma ainda mais clara a matriz lusófona do festival, iniciando-se com Lucas Santtana, que apresentou os temas de “Brasiliano”, trabalho onde celebra a riqueza da língua portuguesa. Cheny Wa Gune prosseguiu a viagem musical através da fusão entre a tradição da timbila moçambicana e o afro-pop contemporâneo, antecedendo Do Cabo do Mundo, projecto que recria a obra de Fausto Bordalo Dias através da participação de músicos imigrantes residentes em Portugal e que se cotou como um dos pontos altos do certame. Expresso Transatlântico encerrou a programação da tarde com a energia do álbum “Trópico Paranóia”, voltando Carla Castelhano a assumir, ao início da noite, o habitual momento de transição entre os concertos. António Zambujo protagonizou o espectáculo mais aguardado do festival, percorrendo canções do seu mais recente disco, “Oração ao Tempo”, sem esquecer um vasto conjunto de temas que marcam a sua carreira e fizeram as delícias do público. O encerramento ficou entregue a Stereossauro que, acompanhado por um conjunto de convidados especiais, apresentou um espectáculo onde a electrónica dialogou com o património musical português. Foi o ponto final festivo numa edição que voltou a afirmar o FESTA como uma referência cultural da região e um espaço privilegiado de encontro entre artistas, público e comunidade.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia (II)



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia (II)
Com | CRUA, Juliana Linhares, Fogo Fogo e Mário Lúcio
Parque Urbano de Ovar
12 Jul 2025 | sob | 16:00 às 00:00


Tal como havia começado, chegou ao fim em festa o FESTA - Sons da Lusofonia, que este ano viu cumprida a sua décima edição. E se ontem trouxe aqui as impressões do primeiro dia, no qual pontificaram A garota não, os Cara de Espelho e os Cacique 97, hoje falo dos concertos das CRUA, de Juliana Linhares, dos Fogo Fogo e de Mário Lúcio. De fora, porque não tive oportunidade de os apreciar, ficam Asa Cobra e os Sétima Legião. Mas comecemos pelas CRUA, belíssimo conjunto de cinco vozes no feminino, que se apresentaram com a proposta de uma viagem pela música tradicional, do Minho à Galiza, de Monsanto ao Paúl. De adufe na mão (ou de peneira, vá, que é uma prova de diversidade democrática), Diana Ferreira Martins, Liliana Abreu, Rita Só, Silvana Dias e Rita Sá puxaram pelas vozes e mostraram o quanto de belo pode haver na tradição, ao mesmo tempo que trocaram ideias “sobre este mundo que anda bem louco, mas se calhar consegue estar aqui um bocadinho melhor”. “Moleira”, “Meninas” e “Burriña” abriram o concerto, tornando mais quente a tarde e mais próximos os amigos. Amigos que se se fizeram presentes no bombo de Tiago Sami ou na (maravilhosa) voz de Sara Yasmine, ou que, mesmo ausentes, estiveram na FESTA, casos da Barcia de Mera, Maria Teresa Horta ou uma comunidade sénior do Porto, nesse muito belo “Em Casa”. “Eu hei-de morrer cantando, já que chorando nasci” deu o tom à “Moda da Tosquia”, o concerto fechando com “Ceifeira” e muitos amigos em palco, de longe e de aqui, de agora e de sempre.

Juliana Linhares preencheu o segundo concerto da tarde e foi, garantidamente, uma das maiores surpresas do Festival. Cantora, compositora e actriz, foi mulher e foi coragem nas músicas que interpretou, carregando-as de beleza e de uma alegria incontidas. Tirando partido de uma voz potente e de uma presença em palco fortemente teatral, a artista soube cruzar os ritmos tradicionais nordestinos com a grandeza melódica e poética de compositores como Alceu Valença, Zé Ramalho, Chico César, Zeca Baleiro ou Tom Zé, condimentando-os com um conjunto de notas operáticas e vaudevilescas. Mas nem só de música e performance se fez o concerto, visto Juliana Linhares ter na sua poesia outro ponto forte, com muitos dedos apontados ao preconceito e às diferenças que a sociedade teima em estabelecer no seu seio. Fazendo incidir o alinhamento no seu álbum “Nordeste Ficção” - um Hino ao Nordeste e à afirmação do seu lugar na imensa nação que é o Brasil -, a cantora ofereceu-nos verdadeiras pérolas em “Meu Amor Afinal de Contas” e “Embrulho” - duas parcerias com Zeca Baleiro e Chico César, respectivamente -, “Armadilha” (extraordinário o intróito instrumental do guitarrista Elísio Freitas) e “Tareco e Mariola”. Piscando o olho ao próximo trabalho de estúdio, Juliana Linhares mostrou “Emaranhado”, para logo “regressar ao passado” com “Aburguesar”, “Nordeste Ficção” e “É Mais em Baixo / Lambada da Lambida”. “Frivião” fechou o concerto, mas não termino sem falar de “Bolero de Isabel”, com poemas pintalgados do linguajar nordestino, em rimas verdadeiramente deliciosas.

Se Juliana Linhares navegou nas asas da surpresa, os Fogo Fogo vieram com a certeza de um concerto inesquecível. Primeira banda a repetir a presença no FESTA (depois de uma participação memorável em 2022), os Fogo Fogo puseram a carne toda no assador, mostrando o porquê de serem lídimos representantes do funaná, mas não só. Cultores da lusorritmía, na sua música confluem o samba e o semba, a morna e a marrabenta, o carimbó e o fado. Mas, ainda que o ritmo seja o pai de tudo, a palavra traduz o ritmo e daí que a música dos Fogo Fogo, sendo para dançar, seja igualmente para cantar. E foi isso que pudemos apreciar ao final da tarde de sábado, num concerto que encerrou um conjunto de momentos inesquecíveis. Voltar ao baile, voltar à pista, ser ponto de encontro de corpos que se dão em gesto e partilha, foi esta a proposta da banda à qual o público aderiu de forma incondicional. Dançou, dançou, dançou, cantou e voltou a dançar, levantou o pó do chão e, depois de tanta comunhão e partilha, concluiu que “isto já ninguém nos tira”. Francisco Rebelo no baixo, João Gomes nos teclados, Danilo Lopes e David Pessoa nas guitarras e voz e Edu Mundo na bateria foram incríveis no compromisso com a sua música e com o seu público, elevando a FESTA a um patamar de grandeza superior. Para que conste, “Shaft” abriu o concerto e “Sentimento” colocou-lhe um ponto final. Pelo meio ficaram “Nhô Buli”, “Ca Ta Da”, “Nha Riqueza” (tema que dá nome ao último álbum da banda), “Pomba”, Terra Bufa” ou “Oh Minina”. E ainda “É Si Propi”, o palco invadido pelos fãs, numa demonstração única de festa e amizade.

Falo, enfim, do concerto de Mário Lúcio, cantautor, pintor, poeta e político cabo-verdiano, que praticamente encerrou esta edição do FESTA - Sons da Lusofonia. Natural do Tarrafal, na Ilha de Santiago, Mário Lúcio trouxe a Ovar os sons de “Independance”, o seu novíssimo trabalho, num regresso às danças folclóricas anteriormente proibidas e à abertura do país às músicas populares urbanas de Angola, Congo, Guiné, Nigéria, Gana e Senegal. Foi um concerto decididamente festivo, através do qual Mário Lúcio teve o prazer de recordar os primórdios da independência, uma época da sua infância cheia de alegria e de música. No preciso dia em que S. Tomé e Principe festejou os 50 anos da sua independência, os países lusófonos não ficaram esquecidos, Cabo Verde à cabeça, “Cabo Verde, a casa do Mundo”. Com Jery Bidan na guitarra, Dilson Groove na bateria e Ricardo Campos no baixo, o artista trouxe-nos o tema que dá nome ao novo álbum logo a abrir o concerto, ao qual se seguiram “Rabidante”, “Maka Maka” e “Mati Mati”. “Tema de Minis”, “Tabankabé”, “Nha Bio” e “Doce Guerra” aqueceram ainda mais os ânimos e foram muitos aqueles que, na mole imensa de público, fizeram questão de entregar os corpos à dança. “Ilha de Santiago”, talvez o tema mais conhecido do cantor, fez as delícias de todos, o concerto a fechar com a interpretação de “Tabankamor”, “Goré” e “Amo Xintadu”. Uma despedida do FESTA em grande, com a organização a merecer um forte aplauso pela forma como soube levar avante dois dias de grande animação, muita música e comunhão entre todos. Para o ano há mais!

domingo, 13 de julho de 2025

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia (I)



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia
Com | A Garota Não, Cara de Espelho, Cacique 97
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2025 | sex | 18:00 às 00:30


O FESTA – Sons da Lusofonia regressou a Ovar para a sua décima edição. Ponto de encontro de toda a comunidade, ao longo de dois emotivos e intensos dias o Parque Urbano da cidade transformou-se num espaço de celebração da diversidade, inclusão e participação activa, através de um conjunto de actividades voltadas para os mais diversos públicos. Ponto alto da FESTA, os concertos viram-se repartidos por três palcos, reunindo artistas brasileiros, cabo-verdianos, moçambicanos e portugueses, para dez momentos musicais a trazerem consigo a promessa de comunhão em torno da melhor música. Novidade nesta edição do FESTA foi o “Lugar das Infâncias”, uma aldeia para brincar e descobrir um mundo plural e tolerante, onde os mais novos e suas famílias se sentiram convidados a explorar a diversidade cultural através de histórias, brincadeiras, gestos, sons e silêncios. O jornalista Rui Miguel Abreu repetiu a presença no FESTA, moderando um vasto conjunto de conversas que se abriram em criação, memória, liberdade e futuro, num “Dar à Língua” que aproximou artistas e público. E foi justamente por aqui que o FESTA teve o seu início, com os Cara de Espelho a fazerem a antevisão do primeiro de dois concertos previstos para a noite do primeiro dia e com a apresentação do Livro “Festa - Sons da Lusofonia: Da Revolução ao Ritmo - 50 anos do 25 de Abril em Sons Lusófonos”, um trabalho que reúne todos aqueles que passaram pelas conversas em 2024, edição muito especial a assinalar o cinquentenário do dia inicial inteiro e limpo.

Depois de um dia cinzento e chuvisquento, o Sol disse “olá” à tarde de sexta feira e foram muitos aqueles que responderam à chamada para o concerto de abertura do FESTA. No fantástico anfiteatro natural em frente ao Palco Verde, uma numerosa assistência dispôs-se a ouvir A garota não, a sua música, as palavras sempre incisivas e mordazes apontadas a uma certa classe dirigente que teima em negar os valores da liberdade, igualdade, justiça e democracia, afirmando o seu poder pela opressão e exploração dos mais fracos e vulneráveis. Com Sérgio Miendes e João Mota nas guitarras e Diogo Sousa na bateria, A garota não fez questão de mostrar que “não é não”, na denúncia de “um país que não é para mães”, onde “toda a gente aceita o saque” e “há bestas no lugar de deputados”. Do novíssimo “Ferry Gold”, os temas são “disparados” com força e raiva, penetrando as consciências do público e arrancando-lhe aplausos vigorosos. Seguiu-se um “medley” com cinco temas do segundo álbum de estúdio da artista, “2 de Abril”, e de novo o retomar de “Ferry Gold”, no “train a curtir Coltrane” para se concluir que “a vida é uma roleta com cinco balas no tambor”. A terminar, pois que se privatize o mar e o céu, a justiça e a lei, a nuvem que passa, o sonho (sobretudo se for diurno e de olhos abertos). “E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos”. A mim parece-me bem!

Os Cara de Espelho abriram as hostilidades do segundo momento deste dia inaugural, alinhando pelo diapasão da música de denúncia e protesto, tão necessária nos dias que correm. Banda revelação no ano passado com o lançamento do álbum homónimo, os Cara de Espelho começaram por assumir a sua condição, sendo o reflexo do numeroso público que fez questão de os aplaudir. Reflexo, afinal, de quem olha para si e não gosta do que vê, que tem na banda uma via aberta à reivindicação e ao murro na mesa. Na voz de Maria Antónia Mendes, “Mitó para os amigos”, “Tratado de Paz” foi o primeiro tema da noite, ao qual se seguiram “Cara Que é Tua” e um poderoso “Corridinho Português”, “a juntar a malta numa boa”, porque “triste é quem fica a ver dançar”. Animado, o concerto prosseguiu quase em forma de comício. Na plateia, “livres criaturas” gritavam “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, enquanto no palco se louvavam as benesses dos paraísos fiscais e se rogava a S. Pedro que “[nos] receba no seu Portal das Finanças”. Com as letras e músicas de Pedro da Silva Martins e a magia dos instrumentos de Carlos Guerreiro, Nuno Prata e Sérgio Nascimento, entre outros, o concerto levou-nos do “Fadistão” ao “Ministério do Anonimato”, até parar no “Dr. Coisinho” e na sua “coisificação do dedo”, a plateia com os dedos médios de ambas as mãos espetados no ar, numa coreografia impressiva que as luzes amplificaram. Na despedida, um alerta para as varejeiras - “[que] anseiam pobreza, fomentam o asco, a náusea e o nojo” - e uma pergunta: “Em qual de vós é que ela vai poisar?”

A fechar a noite, os Cacique 97, banda pioneira do Afrobeat, ofereceram um magnífico momento, feito de ritmo, história e força coletiva. Espécie de “Best of” dos seus dois álbuns de estúdio - “Cacique 97” (2009) e “We Used to be Africans” (2016) -, o concerto mostrou uns “caciques” em grande forma, pondo em palco um género popularizado em África na década de 1970 e que se espalhou ao mundo. Fiel ao conceito musical do género e ao seu cunho político de denúncia e protesto, esta big band não esqueceu o papel criador do multi-instrumentista e nigeriano Fela Kuti, num impactante e revelador “Come from Nigeria”. Liderada pelo guitarrista e vocalista Milton Gulli, a banda manteve em diálogo constante, livre e rico, uma poderosa secção rítmica, onde pontificou Marisa Gulli (que dá também apoio nas vozes), com um naipe de metais firme e assertivo, cruzando o groove africano com a alma lusófona, num som de combate e celebração. Ritmos quentes, letras de intervenção e uma energia contagiante era tudo o que o público esperava, reagindo com o embalar dos corpos e algumas coreografias improvisadas sobre o anfiteatro verde de um Parque Urbano em ebulição. “American Cop”, “Jorge de Capadocia”, “Get no Stronger”, “13”, “Dragão” ou “Letter to the Martyrs”, novíssimo single da banda e que denuncia a ocupação, a colonização e o genocídio do povo da Palestina, foram temas trazidos a palco com enorme força, numa despedida em grande do FESTA, ao final do seu primeiro dia.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (V)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Adriano Cerqueira, Alexandre Rosas, Ana Isabel Gonçalves, Carlos Nuno Granja, Dénis Conceição, Elisabete Pinho, Eltânia André, Jorge Reis-Sá, José Pereira Pinto, José Vaz Nunes, Luísa Sobral, Mafalda Mota, Mantraste, Marcelo Teixeira, Maria Saraiva de Menezes, Miguel Marques, Ozías Filho, Patrícia Furtado, Paula Pina, Pedro Guilherme-Moreira, Rosário Alçada Araújo, Teresa Carvalho
Parque Urbano de Ovar, Centro de Artes de Ovar
22 Set 2024 | dom | 10:00 e 14:30


“Esta décima edição do FLO foi a melhor de sempre”. Proferida no discurso de encerramento do Festival Literário de Ovar, a afirmação é de Carlos Nunos Granja, a alma (e uma boa parte do corpo) do FLO. Uma afirmação que exprime o sentimento geral de quem acompanhou o Festival ao longo de cinco longos dias, deliciando-se com uma oferta rica, variada e de enorme qualidade, apreciando a sua dinâmica, vivendo as histórias de Ozías Filho, a poesia de Lauren Mendinueta, os contos de Marta Hugon, os livros infantis de Rosário Alçada Araújo ou a música de Jorge Névoa, da mesma forma que se emocionou com Camões, Pessoa ou Agostinho da Silva, no sentir e nas palavras de António Manuel Ribeiro e Maria José Quintela, Ana Isabel Marques e José Emílio-Nelson, Aurora Gaia e Jorge Reis-Sá, entre tantos outros. Numa altura em que se começa a construir a edição que assinalará uma década de Festival Literário de Ovar, o sucesso destes dias constitui o maior estímulo para quem vem pugnando, ano após ano, por mais e melhor FLO. Numa óptica de crescimento do Festival, a tão falada internacionalização já no próximo ano encerra enormes desafios, mas é uma aposta ganha à partida dada a forma como a marca FLO se soube afirmar e consolidar no circuito dos grandes festivais literários do país.

No último dia do Festival, o Parque Urbano de Ovar abriu-se aos mais pequenos “com sol entre os dedos, com estrelas nos olhos, e o vento aos segredos”. Histórias de encantar, desenhos mil, apresentações de livros e uma mesa temática preencheram um tempo de reflexão e partilha sobre aquilo que a literatura dita infantil pode significar no crescimento e desenvolvimento da pessoa e na sua forma de ver o mundo. José Vaz Nunes, Mafalda Mota e Luísa Sobral tiveram oportunidade de falar dos seus livros, com esta última a referir-se ao peso esmagador de certas palavras quando dirigidas a alguém de forma pejorativa ou maldosa. São as “palavras-elefante” que tantos estragos provocam na concepção que temos de nós próprios e do mundo e que muitos acabam por carregar toda uma vida. Com moderação de Carlos Nuno Granja, a mesa temática juntou Dénis Conceição, Rosário Alçada Araújo, Patrícia Furtado e Maria Saraiva de Menezes, quatro escritores dedicados à literatura infantil que, muito generosamente, partilharam a sua visão de um mundo particular no qual as palavras e as ilustrações se passeiam de mãos dadas. Um mundo de livros, reunido numa só frase por Rosário Alçada Araújo: “Um livro para crianças é um livro para todas as idades.”

A tarde dividiu-se pelo espaço exterior do Centro de Artes de Ovar, o Bar do CAO e o seu Auditório. Lá fora, as actividades continuaram a visar um público mais jovem com a apresentação do livro “Eureka! As descobertas que mudaram a ciência”, de Adriano Cerqueira, mas também uma sessão de contos com Ana Isabel Gonçalves e Paula Pina e ainda uma oficina de ilustração por Mantraste, artista visual com uma ligação estreita à Arte Urbana. Enquanto isso, o espaço do Bar mostrava-se pequeno para escutar a conversa com os escritores Ozías Filho e Eltânia André, na qual o moderador, Marcelo Teixeira, fez questão de manifestar o seu apreço por um festival que consegue reunir autores consagrados e muitos outros que dão os primeiros passos nas letras, sem esquecer “o apoio à actividade local”. E mais pequeno ainda ficou com o público que acorreu em grande número para ouvir José Pereira Pinto falar do segundo volume do livro “Associação Desportiva Ovarense - Clube Centenário: Uma Chama que Resiste”. Moderada por Teresa Carvalho, a última mesa do Festival juntou os escritores Pedro Guilherme-Moreira e Jorge Reis-Sá, voltando a chamar Camões para falar de vida e morte. Por fim, os “Sangue Suor”, projecto musical que junta as baterias de Ricardo Martins, Rui Rodrigues e Susie Filipe e que carregou de energia o Auditório do Centro de Artes. Um final em grande, sincopado e bem batido, feito de música que soube passear-se entre a alucinação da prosa e o fulgor da poesia.

domingo, 14 de julho de 2019

CERTAME: FESTA 2019


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CERTAME: FESTA 2019
Parque Urbano de Ovar
13 Jul 2019 | sab | 16:00


Ovar voltou a viver um dia diferente com a 6ª edição do FESTA. Um cartaz de luxo chamou ao bonito e bem cuidado espaço do Parque Urbano de Ovar uma mole imensa de gente alegre e divertida, para um conjunto de concertos de enorme qualidade que se estenderam por largas horas, até à madrugada do dia seguinte. A celebrar 20 anos de carreira, com muita loucura de permeio, o sexteto Be-Dom, um dos mais mediáticos grupos de percussão em Portugal, deu o pontapé de saída nesta tarde de festa. Feito de energia, animação e muito ritmo, o espectáculo mostrou como extrair sons de latas, bidões, garrafas e tudo o mais que se possa imaginar, juntando aos conceitos de brincadeira, ritmo e partilha, uma mensagem ecológica sobre a importância da separação, da reciclagem e da reutilização.

De Angola, Aline Frazão trouxe-nos a doçura da sua voz e a harmonia das suas composições, num concerto intimista que deu a conhecer algumas canções do seu quarto álbum de originais, “Dentro da Chuva”. Ao despojamento e introspecção de temas como “Sumaúma”, “Ces Petits Riens”, ou “Um Corpo Sobre o Mapa”, juntou a cantora “Crónica de um (Des)Encontro”, “Cacimbo” ou esse poderoso “Langidila”, construindo um concerto sem artifícios, as memórias familiares de mãos dadas com a crónica social, o todo imensamente belo e envolvente. Unindo músicos portugueses e brasileiros, o Projecto Ferver prometeu e cumpriu, pondo toda a gente a dançar. Dirigido por Ivo Pinho, o colectivo de nove elementos interpretou temas de alguns dos grande nomes do Frevo, deixando no ar um cheirinho a Carnaval pernambucano e a certeza dum enorme virtuosismo e qualidade. A fechar a tarde, o cabo-verdiano Julinho da Concertina trouxe-nos a genuinidade do funaná em temas como “Casamento”, “Na Estrada” ou “Diabo Tocador”, mas também um inesperado “Vira” minhoto, irmanando o mundo lusófono no espaço de um muito aclamado concerto.

A metade nocturna do FESTA abriu com a brasileira Elza Soares, num concerto com tanto de música e de ritmo, como de activismo político. “Mil nações / Moldaram minha cara / Minha voz / Uso pra dizer o que se cala / O meu país / É meu lugar de fala” dava o mote para uma noite de celebração da negritude, do orgulho LGBT e sobretudo, das mulheres. Apoiada num fabuloso septeto de músicos e vozes, Elza Soares mostrou que a idade não conta no momento de denunciar que o negro é “a carne mais barata do mercado”. “Banho”, “Eu Quero Comer Você”, “Deus é Mulher”, “Hienas na TV”, “Clareza”, “Maria da Vila Matilde” ou “Luz Vermelha” foram hinos feministas gritados por esta rainha de 82 anos, vibrantemente acompanhada por uma mole imensa de súbditos que com ela gritaram do início ao fim do concerto. Coube aos cabo-verdianos Ferro Gaita encerrar a noite da melhor maneira, fazendo-o em jeito de festa. Funaná, batuque ou tabanka, tudo serviu para pôr a mexer as muitas centenas de pessoas que povoavam o espaço ao início da madrugada de domingo. O FESTA chegava ao fim mas os seus ecos perdurarão nos corações de todos quantos fizeram a festa.

sábado, 14 de julho de 2018

CONCERTO: Sopa de Pedra


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CONCERTO: Sopa de Pedra
FESTA 2018
Parque Urbano de Ovar
14 Jul 2018 | sab | 18:00


Garantia-se que era um dos segredos mais bem guardados da música portuguesa e isso só fazia crescer a minha ansiedade à medida que o tempo se arrastava. A verdade é que nunca antes se tinha proporcionado ouvi-las e a oportunidade surgiu hoje mesmo, pela tardinha, no verde espaço do Parque Urbano de Ovar e no âmbito do FESTA 2018. Embora sem a “receita” original de dez elementos, as Sopa de Pedra subiram ao Palco Rio com um septeto de vozes para um concerto envolvente, a sua música interpretada de forma imaculada ao encontro das sonoridades do Alentejo ou de Trás os Montes, da Beira Baixa ou dos Açores.

Espalhando o alinhamento do concerto ao longo de dezasseis temas (um deles repetido no encore final), o grupo fez incidir a sua atenção nas músicas que compõem o álbum “Ao Longe Já Se Ouvia”, recuperando um conjunto de pérolas da música popular portuguesa e acrescentando-lhe adornos e harmonias com a doçura das suas incríveis vozes. A temas que nos são tão queridos como “Os Bravos”, “Ó Minha Amora Madura”, “Adeus Ó Serra da Lapa”, “Cantiga da Ceifa”, “Cantiga de La Segada” ou “Maçadeiras do Meu Linho”, acrescentaram as Sopa de Pedra “Cantiga Sem Maneiras”, “À Nave” ou “É Hora do Sol Pôr”, desta forma rendendo homenagem aos intemporais Zeca Afonso, José Mário Branco, Amélia Muge, Grupo de Acção Cultural, João Lóio, Capagrilos ou Almanaque e ainda a Michel Giacometti, Fernando Lopes Graça ou Ti Chitas.

“O Maria / vem cá ver o céu de madrugada / vem cá ver o sol de manhãzinha // não ponhas o lenço à cabeça / desta fonte bebemos água fria // subiremos descalços este monte / dançaremos os dois até ser dia”. À construção poética e ao imaginário popular das músicas assim cantadas a capella, juntam as Sopa de Pedra as suas vozes poderosas, com um fôlego espantoso e uma harmonia de cortar a respiração. Foi uma hora de concerto que passou num ápice, a música a fluir livremente, tal como as águas do Cáster onde o palco assentava. É imperioso continuar a seguir este grupo e o seu trabalho. Batida, ritmada, efusiva ou mais recatada e intimista, a sua música é um manancial de água fresca que purifica os sentidos e conforta a alma.