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segunda-feira, 13 de julho de 2026

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia
Com | OSSN, Daniel Pereira Cristo + Comunidade, Carla Castelhano, Bárbara Bandeira, Blaya, Lucas Santtana, Cheny Wa Gune, Do Cabo Do Mundo, Expresso Transatlântico, António Zambujo e Stereossauro + Convidados
Parque Urbano de Ovar
10 e 11 Jul 2025 | sex e sab | 18:00 às 00:30


Com uma forte adesão do público, o FESTA voltou a transformar o Parque Urbano de Ovar num amplo espaço de encontro entre a música de expressão lusófona, a natureza e a comunidade. Afirmando-se como uma das mais sólidas marcas identitárias da cultura ovarense, a 11.ª edição do festival reuniu milhares de pessoas em torno de uma programação que cruzou diferentes geografias, gerações e linguagens musicais, distribuída por três palcos e complementada por iniciativas que reforçaram a dimensão participativa do evento. Para além dos doze concertos, o “Lugar das Infâncias” voltou a afirmar-se como um espaço para todos, com oficinas, teatro, jogos e histórias, enquanto o “Espaço Conversas”, dinamizado pelo jornalista Rui Miguel Abreu, promoveu encontros informais entre artistas e público. A componente comunitária ganhou especial expressão no espectáculo de Daniela Pereira Cristo, desenvolvido com elementos dos coros Canto Décimo, Cáster Antiqua e Suspiro, bem como com o grupo de cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar, num projecto que reforçou a ligação do festival ao território e às colectividades locais. Mais do que uma sucessão de concertos, o FESTA voltou, assim, a afirmar-se como uma celebração da cultura em língua portuguesa, da partilha e da participação, proporcionando uma experiência vivida em família ou entre amigos, onde palco e plateia se encontraram num ambiente de proximidade e convivialidade.

A jornada inaugural abriu ao final da tarde de sexta-feira com OSSN, que apresentou um “live act” inspirado nas memórias e sonoridades cabo-verdianas, cruzando electrónica, ritmos hipnóticos e ambientes de forte carga evocativa. Seguiu-se um dos momentos mais marcantes desta edição, com Daniela Pereira Cristo a revisitar a música de raiz portuguesa num espectáculo construído em conjunto com dezenas de participantes locais, sublinhando a vocação comunitária do FESTA. Um pôr-do-sol exuberante viu Carla Castelhano assumir a banda sonora do recinto com um “dj set” que percorreu influências do jazz, da folk e das músicas do mundo e preparando o ambiente para os concertos da noite. Bárbara Bandeira foi a primeira cabeça-de-cartaz do FESTA, apresentando “Lusa: Acto II”, novíssimo trabalho que assinala uma nova etapa do seu percurso artístico e que conciliou os temas mais recentes com alguns dos maiores êxitos da cantora. O encerramento da primeira noite pertenceu a Blaya que, com “ARRAIÁ.L”, trouxe ao Parque Urbano um espectáculo marcado pela energia contagiante, cruzando o espírito dos arraiais portugueses com as festas juninas brasileiras, numa actuação de forte interacção com o público e que colocou milhares de pessoas a dançar pela noite fora.

O segundo dia evidenciou de forma ainda mais clara a matriz lusófona do festival, iniciando-se com Lucas Santtana, que apresentou os temas de “Brasiliano”, trabalho onde celebra a riqueza da língua portuguesa. Cheny Wa Gune prosseguiu a viagem musical através da fusão entre a tradição da timbila moçambicana e o afro-pop contemporâneo, antecedendo Do Cabo do Mundo, projecto que recria a obra de Fausto Bordalo Dias através da participação de músicos imigrantes residentes em Portugal e que se cotou como um dos pontos altos do certame. Expresso Transatlântico encerrou a programação da tarde com a energia do álbum “Trópico Paranóia”, voltando Carla Castelhano a assumir, ao início da noite, o habitual momento de transição entre os concertos. António Zambujo protagonizou o espectáculo mais aguardado do festival, percorrendo canções do seu mais recente disco, “Oração ao Tempo”, sem esquecer um vasto conjunto de temas que marcam a sua carreira e fizeram as delícias do público. O encerramento ficou entregue a Stereossauro que, acompanhado por um conjunto de convidados especiais, apresentou um espectáculo onde a electrónica dialogou com o património musical português. Foi o ponto final festivo numa edição que voltou a afirmar o FESTA como uma referência cultural da região e um espaço privilegiado de encontro entre artistas, público e comunidade.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2026



CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Curadoria | Pereira Lopes
Organização | iNstantes - Associação Cultural
Vários Locais
08 Mai > 31 Mai 2026


A 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes confirma aquilo que, desde 2014, se foi sedimentando longe dos centros de legitimação cultural habituais e que faz dele um dos mais consistentes encontros internacionais de fotografia realizados em Portugal. Entre 08 e 31 de Maio, o Festival reúne quarenta e oito fotógrafos de doze países e espalha vinte e quatro exposições por Avintes, Valadares, Lourosa, Vila do Conde e Braga, transformando o território num mapa visual de urgências humanas, memórias políticas, geografias íntimas e inquietações contemporâneas. A visita começa inevitavelmente em Avintes, vila operária e ribeirinha onde o Festival mantém o seu centro nevrálgico e onde a fotografia parece ocupar os espaços com uma naturalidade rara: a Casa da Cultura, os Bombeiros Voluntários, a Junta de Freguesia, o Centro de Fotografia iNstantes ou os Plebeus Avintenses deixam de ser apenas edifícios para se tornarem estações de uma deriva visual. Há qualquer coisa de profundamente democrático nesta ocupação do espaço público e comunitário. O visitante percorre ruas, atravessa portas improváveis, descobre imagens no coração da vida quotidiana. É precisamente aí que o Festival encontra a sua maior força, numa ideia de proximidade que devolve a fotografia às pessoas e as pessoas à fotografia.

Ao longo desta edição, o iNstantes constrói um itinerário marcado por deslocamentos físicos, políticos e emocionais. Em “Migrantes climáticos no Bangladesh – Uma história global de humanidade partilhada”, Abir Abdullah transforma a devastação ambiental numa narrativa profundamente humana, recusando o distanciamento estatístico das catástrofes climáticas para mostrar rostos, perdas e deslocações forçadas. Já José Luís Santos, em “Caderno Afegão”, desmonta os clichés ocidentais sobre o Afeganistão através de um olhar que procura dignidade, hospitalidade e quotidiano num território frequentemente reduzido à guerra. Também Sara Ruiz, em “Cicatrizes”, trabalha a violência patriarcal como memória íntima e colectiva, cruzando dor, afecto e sobrevivência num ensaio duro e sensível. Em paralelo, Radilson Gomes e José Medeiros levam-nos às questões indígenas do Brasil, não como exotismo etnográfico, mas como reflexão urgente sobre território, apagamento e resistência cultural. Em “No Sul da Macaronésia”, Ana Roque de Oliveira encontra em Cabo Verde uma convivência entre aridez e humanidade que escapa à simples sedução turística. E em “Equilíbrios Instáveis”, Lesley Mattuchio lembra-nos a fragilidade dos ecossistemas através de imagens de vida selvagem onde a beleza nunca apaga a ameaça. O resultado é um corpo expositivo que evita o espectáculo vazio da imagem perfeita e prefere uma fotografia que pensa, questiona e convoca.

Mas esta edição do iNstantes também encontra espaço para uma reflexão mais formal sobre o acto fotográfico, o olhar e a construção visual. Em “Entre luz e forma”, Adelino Marques transforma o Multiusos de Gondomar, de Siza Vieira, num laboratório de luz e sombra, onde a arquitectura deixa de ser objecto estático para se tornar matéria viva. A preto e branco, as superfícies respiram, os volumes deslocam-se, o tempo entra literalmente na imagem. Hélder Vinagre, em “Dualidades urbanas”, trabalha igualmente o preto e branco como linguagem de suspensão, procurando na rua pequenas fricções entre solidão e multidão, velocidade e permanência. Já Jim Bostick, com “Arcanum”, encena o universo do tarot como teatro fotográfico, cruzando narrativa, simbolismo e uma elaborada construção cénica que aproxima a fotografia das artes performativas. Impossível não destacar “Passos em volta”, dedicada ao espólio de Eduardo Gageiro, figura maior do fotojornalismo português recentemente desaparecida. A exposição funciona simultaneamente como homenagem e redescoberta, revelando imagens onde o documento histórico convive com uma impressionante densidade humana. O festival demonstra assim uma notável elasticidade curatorial ao acolher fotografia documental, experimental, antropológica, poética ou conceptual, sem perder coerência nem cair na dispersão temática.

Há, finalmente, algo de particularmente significativo na forma como o iNstantes continua a afirmar-se a partir da periferia. Num país excessivamente concentrado em Lisboa, este Festival ergueu, ao longo de treze edições, uma rede internacional de cumplicidades artísticas a partir de Avintes, recusando a ideia de que a centralidade cultural depende da geografia. Pelo contrário: o iNstantes vive ancorado na relação afectiva com os seus lugares, sejam eles colectividades, teatros, quartéis de bombeiros, escolas ou instituições de saúde. Essa dimensão territorial dá-lhe uma autenticidade rara no panorama dos Festivais de fotografia, muitas vezes excessivamente formatados ou dependentes de circuitos institucionais fechados. No iNstantes, sente-se essa possibilidade do encontro inesperado entre autores consagrados e visitantes ocasionais, entre linguagens distintas, entre comunidades locais e olhares vindos da Coreia do Sul ou do Bangladesh, da Colômbia ou da Finlândia. O Festival constrói-se como cartografia do mundo contemporâneo vista a partir de uma vila do concelho de Gaia. E talvez essa seja a sua marca mais vincada: a de uma fotografia que não procura apenas mostrar o mundo, antes aproximá-lo. Mais informações em https://www.instantesffa.com/.

terça-feira, 7 de abril de 2026

CERTAME: Ovar em Jazz 2026



CERTAME: Ovar em Jazz 2026
Com | Anna Setton Quartet, Carlos Bica Quarteto, Marius Preda, Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal com John O'Gallagher
Centro de Artes de Ovar
08 > 11 Abr 2026


A partir de amanhã, e até ao próximo sábado, a cidade de Ovar volta a ser o epicentro do jazz nacional com a chegada do Ovar em Jazz, este ano a cumprir a sua oitava edição. Capaz de projectar a cidade no circuito internacional e de atrair tanto nomes consagrados como novas propostas artísticas, o festival recebeu, ao longo das suas anteriores edições, nomes como os de Amaro Freitas, Ricardo Toscano, Mário Costa, Marc Ribot, João Lencastre, Carmen Souza, Abe Rábade, Hugo Carvalhais, Carlos Bica, Andy Sheppard, Stefano Battaglia, Maria João, Danilo Pérez ou Tigran Hamasyan, entre muitos outros. Espelhando a sua consistência e ambição artística, prepara-se agora para mais quatro dias do melhor jazz, afirmando-se como um espaço de encontro entre a tradição e a vanguarda. Sob o lema “Jazz sem Fronteiras”, o certame volta a apostar no cruzamento de linguagens, geografias e gerações musicais, propondo, mais do que uma sucessão de concertos, uma experiência imersiva que se irá desdobrar entre Auditório, Caixa de Palco e Bar do Centro de Artes, envolvendo o público numa vivência plural e contínua.

À semelhança dos anos anteriores, a edição de 2026 mantém uma elevada linha de exigência, apresentando um cartaz que cruza nomes nacionais e internacionais de reconhecido mérito. Entre os destaques encontra-se o virtuoso romeno Marius Preda, que vamos poder ouvir na noite de sexta feira e que traz ao festival o projecto “Phenomenon”, síntese de mais de três décadas de carreira, onde o címbalo ganha protagonismo num diálogo entre tradição clássica, influências folk e improvisação contemporânea. A abrir o certame, já esta quarta feira, a cantora brasileira Anna Setton marca presença com um quarteto que funde jazz com bossa nova e MPB, num registo sofisticado e luminoso. Carlos Bica regressa ao festival com “11:11”, projecto de forte identidade melódica e intensidade expressiva, reafirmando o seu lugar como uma das figuras maiores do jazz português. Também a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal regressa ao festival, desta vez na companhia do saxofonista nova-iorquino John O’Gallagher, num encontro que cruza tradição e contemporaneidade e que promete encerrar em beleza esta edição do certame.

Para além dos concertos em sala, o Ovar em Jazz expande-se pelos mais diversos espaços do Centro de Artes, incorporando a gravação ao vivo do programa “Notas Azuis”, da Antena 3, com curadoria de Rui Miguel Abreu, bem como DJ sets, mostras de vinil e projectos emergentes. Iniciativas como o Ovar Jazz Collective, orientado por João Martins, reforçam a aposta na criação e valorização do talento local, estabelecendo pontes entre formação e performance. Ao mesmo tempo, propostas como Mantis, Fourward ou Oxímoro evidenciam a vitalidade de uma cena que recusa fronteiras estilísticas e procura novas formas de expressão. Neste equilíbrio entre memória e experimentação, o festival prossegue o seu trajecto de afirmação como espaço singular de liberdade criativa e de encontro cultural, entendendo o jazz não apenas como género musical, mas como linguagem aberta e em permanente transformação. O programa completo pode ser consultado na página Ovar/Cultura, em https://cultura.cm-ovar.pt/pt/menu/734/ovar-em-jazz.aspxAté jazz!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar



CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Musurgia Ensemble, Ensemble Med, New Collegium, William Carter, Ensemble Allettamento, Duo Suzanne e Coro CásterAntiqua
Direcção artística | João Francisco Távora, Hélder Sousa
Igreja Matriz, Bar do Centro de Artes de Ovar, Capela da Misericórdia, Capela do Calvário, Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, Centro de Artes de Ovar
27 e 28 de Fevereiro, 01, 05, 06, 07 e 08 de Março de 2026 


Arranca hoje a segunda edição do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, pelo que importa espreitar um programa que, ao longo das próximas duas semanas, promete fazer voltar a atenção dos melómanos para o fascinante mundo da música dos séculos XVI, XVII e XVIII. Como um rio subterrâneo que regressa à superfície, a música antiga reencontra abrigo em alguns dos mais emblemáticos lugares do património ovarense, convocando histórias de sonho e magia e memórias que não cessam de vibrar. Apresentado ao público no passado dia 20 de Fevereiro, o Festival traz com ele uma renovada promessa de qualidade e variedade, cruzando artistas e agrupamentos nacionais como o Musurgia Ensemble e o Ensemble Med, com os neerlandeses do New Collegium ou os espanhóis do Ensemble Allettamento, entre outros. Numa cidade comprometida com o sopro da história e aberta à respiração funda dos instrumentos de antanho, o público vai poder fazer de cada concerto uma travessia, de cada espaço um eco ampliado do tempo. E, tal como sucedeu na primeira edição do CásterAntiqua, vai poder fruir da música antiga não como peça de museu, mas como chama viva que ilumina o nosso próprio tempo, interrogando-o e completando-o.

Como quem franqueia uma porta há muito fechada, o Festival tem o seu início na Igreja Matriz com “Um Outro Café Zimmermann”, pelo Musurgia Ensemble. Sediado em Ovar, o agrupamento promete recriar o fervor musical da Leipzig setecentista, onde pairam, cúmplices, sobre a partilha sonora, os espíritos de Georg Philipp Telemann e de Johann Sebastian Bach. No sábado à noite o Bar do Centro de Artes de Ovar acolhe um “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”, evocando a confluência das religiões cristã, judaica e árabe, numa geografia onde a música é ponte e memória. O fim de semana termina na Capela da Misericórdia, ao final da tarde de domingo, com o concerto do New Collegium a dar a ver um Telemann camaleónico, de múltiplas máscaras e afectos. Entrando na segunda semana do Festival, o consagrado alaudista britânico William Carter convida-nos a imaginar um serão íntimo “no salão musical de Bach”, a prometer transformar a Capela do Calvário num espaço de intimidade e confidência. Será na quinta-feira, dia 05 de Março, pelas 21h00.

Na sexta-feira o Festival regressa à Igreja Matriz com as cordas dedilhadas do Ensemble Allettamento a conduzirem os presentes por “Folias, Chaconas e Fandangos”, danças que se espalharam por praças e palácios, moldando-se ao engenho de compositores que souberam fazer do ostinato uma arte de infinita metamorfose. Mas o CásterAntiqua não é apenas evocação: é também criação e promessa. A residência artística acolhida no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, atribuída por concurso internacional, dará palco, na tarde de sábado, ao Duo Suzanne, um jovem agrupamento emergente disposto a revelar-se entre a experiência e a ousadia. Também a comunidade encontra o seu lugar neste desígnio, o Coro CásterAntiqua, as sessões educativas e as visitas guiadas ao património a convergirem para que a música antiga não seja relíquia, mas pertença.

Ao Coro CásterAntiqua, sob a direcção do maestro Jorge Luís Castro, caberá a responsabilidade de encerrar o Festival, chamando ao Centro de Arte de Ovar, pelas 16h00 de domingo, Dia Internacional da Mulher, a música da compositora italiana Maddalena Casulana e várias outras vozes femininas que a História, por desatenção ou preconceito, deixou na penumbra. Fruto de dois meses de trabalho com a comunidade ovarense, o alinhamento do concerto irá estender-se entre madrigais e palavras, no que pode ser visto como uma homenagem, mas também uma reparação simbólica, devolvendo luz à criação feminina no Renascimento europeu e convidando o público a escutar com outros ouvidos, quiçá mais atentos e mais justos, alguns exemplares notáveis de uma realidade escondida. Assim se cumpre o desígnio maior desta segunda edição do CásterAntiqua: fazer do passado um horizonte habitável, onde tradição e contemporaneidade prometem entrelaçar-se num mesmo fôlego. Não se tratará apenas de revisitar repertórios antigos, mas de os reinscrever na vida presente da cidade, fazendo de cada igreja, de cada museu, de cada sala um lugar de encontro e comunhão, de dádiva e partilha.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

FESTIVAL: Encontros da Imagem Braga 2025



FESTIVAL: Encontros da Imagem - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais Braga 2025
Direcção | Manuel da Cunha Santos, Carla Bacelar Ferreira
Direcção artística | Vítor Nieves
Equipa Curatorial | Alexia Alexandropoulou, Daniel Bastos, Elina Heikka, José Bacelar, Manuel Sendón & Xosé Lois Suárez Canal, Daniel Moreira e Rita Castro Neves, Rui Prata, Xosé Lois Vázquez
Artistas | Alfredo Cunha, Carlos Folgoso, Elisa Freitas, Gérald Bloncourt, Gil Raro, José Cruzio, Matevž Čebašek, Miguel De, Pierpaolo Mittica, Roberto de la Torre, Sergio Marey, Stefanos Paikos, Vari Caramés e outros
Avintes, Barcelos, Braga, Guimarães, Porto e Vila Verde
18 Set > 02 Nov 2025


Os Encontros da Imagem constituem o maior festival de fotografia existente no país e emparceira os grandes festivais de fotografia europeus. Com inicio em 1987, o certame tem constituído, nestes últimos trinta anos, uma esteira essencial para a divulgação e a criação fotográfica. As primeiras edições centraram-se na apresentação de autores clássicos essenciais para a compreensão da história da fotografia e, simultaneamente, autores contemporâneos que apresentavam as linhas mais recentes de representação. Paulatinamente, os Encontros foram alargando os seus objetivos, chegando em 2025 à sua 35.ª edição e fazendo dela uma forma de apresentar uma verdadeira “manifestação de interesses”. Mais do que um mote, este título funciona como um gesto público, um manifesto de interesses renovados que o festival adquire e partilha, consolidando o seu legado e lançando novos compromissos para o futuro. Este mote reflete também a intenção de olhar criticamente para o seu percurso. Na sua meia-idade — 35 edições ao longo de 38 anos — os Encontros da Imagem assumem a necessidade de uma pausa reflexiva que questiona a função deste e, por extensão, de outros festivais de primeira geração: repensar as conquistas alcançadas e avaliar a sua pertinência na actualidade.

O visitante ocasional não terá esta percepção, mas os “habitués” dos Encontros da Imagem perceberão muito facilmente uma, digamos, “reconfiguração” em relação a anteriores edições. Os limites entre as disciplinas artísticas mostram-se mais diluídos, com o festival a expandir-se para além da fotografia. Embora esta continue a ser o seu foco central, o programa integra de forma decisiva a performance, a instalação, a escultura e a videoarte, explorando territórios que enriquecem a experiência estética do público. Para reforçar a ligação com a comunidade e atrair novos públicos, a edição de 2025 inclui mais exposições de rua, expandindo a presença do festival para além dos espaços convencionais. Numa assumida “Manifestação de Interesse”, esta edição do Festival estrutura-se em três núcleos expositivos, cada um com a sua abordagem única e complementar. Estes núcleos — “Dissidências”, “Argumentários” e “Transições” — foram concebidos para explorar o tema central sob diferentes perspectivas, gerando diálogos, tensões e conexões. Cada programa aponta para aspectos cruciais da fotografia contemporânea e das artes visuais, desde a celebração da inovação e diversidade até à reflexão sobre o percurso e identidade do próprio festival, culminando na exploração das conexões regionais e identidades divergentes.

Braga continua a ser o fulcro dos Encontros da Imagem, com os pólos expositivos a estenderem-se a Avintes, Barcelos, Vila Verde, Porto e Guimarães. Daquilo que me foi possível ver num dia sempre preenchido, destacaria as exposições “Lebensborn”, de Angeniet Berkers, no Museu Nogueira da Silva, e que aborda o “Lebensborn”, programa fundado na Alemanha em 1935 e que foi concebido para proporcionar ao Terceiro Reich uma nova geração de líderes e oficiais da SS, e “Reaching for Dusk”, de Stefanos Paikos, em plena Avenida da Liberdade, e que documenta o quotidiano em Mbeubeuss, o maior aterro sanitário a céu aberto da África Ocidental, localizado nos arredores de Dakar, no Senegal, uma frente negligenciada na história da migração. Patente na Galeria da Estação, “Cinematica”, de Teresa Freitas, tem a curiosidade de confrontar o visitante com uma estética cromática específica, levando-o a questionar a autenticidade das cenas apresentadas. Na sua dimensão foto-documental, “Photographo”, de Alfredo Cunha, e “A Emigração Portuguesa a Salto”, de Gérald Bloncourt, são duas exposições a não perder. A primeira pode ser vista na Zet Gallery, enquanto a segundo está patente no Arquivo Municipal. Os Encontros da Imagem prolongam-se até ao dia 02 de Novembro.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

CERTAME: WOOL | Festival de Arte Urbana da Covilhã 2025



CERTAME: WOOL | Festival de Arte Urbana da Covilhã 2025
Vários locais, Covilhã
21 > 29 Jun 2025


Criado em 2011, o WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã foi o primeiro do género em Portugal, surgindo com o objetivo de revitalizar o centro histórico da cidade através da arte urbana. O nome “WOOL” remete directamente para as histórias e memórias ligadas à Covilhã — outrora um dos grandes centros nacionais da indústria de Lanifícios —, simbolizando a relação entre a memória colectiva e a renovação do espaço urbano. Ao longo das suas doze edições, o certame tem acolhido dezenas de artistas nacionais e estrangeiros, muitos dos quais deixaram intervenções que continuam a pontuar as ruas da Covilhã, naquilo que constitui um roteiro permanente de arte urbana. A iniciativa tem vindo a posicionar a cidade como uma referência incontornável no panorama artístico português, integrando-a em redes internacionais e destacando a sua originalidade ao trabalhar directamente com o património, seja ele material ou imaterial. A distinção com o Selo de Qualidade EFFE e a classificação, em 2023, como Projecto de Interesse Cultural pelo Ministério da Cultura – que o integra no Regime do Mecenato Cultural –, são o reflexo, não apenas da qualidade artística do projecto, mas também do seu impacto social, económico e turístico para a região.

Não tendo podido acompanhar a edição deste ano do Festival durante o seu curso, no último terço do passado mês de Junho, aproveitei agora para rumar à Covilhã com o propósito exclusivo de revisitar a cidade e apreciar o que de bom o WOOL nos deixou. Perdi, claro está, uma parte importante da essência de um festival que se faz de conversas e concertos, exposições e visitas guiadas, filmes e acções comunitárias, masterclasses e workshops, residências artísticas e instalações. Pude, isso sim, visitar um conjunto de murais que, à semelhança dos anteriores, preenchem de cor e vida fachadas até então esquecidas, transformando-as em peças de arte acessíveis a todos. Mas não só murais, porquanto nesta edição o WOOL reforçou o seu carácter comunitário com uma Acção Artística orientada pela A Avó Veio Trabalhar e designada “Todos Somos o Outro”. Nele, várias dezenas de participantes construíram colectivamente uma instalação têxtil de grandes dimensões, evocando as tradições da cidade e promovendo a empatia e o encontro intergeracional. O resultado voltou a poder ser visto no decurso da FIADA – Feira Internacional de Artesanato, Design e outras Artes, que decorreu no passado fim de semana, constituindo um momento particularmente relevante pela sensibilidade, engenho e dedicação que cada um daqueles quase seiscentos retalhos encerra.

Em busca do legado do WOOL 2025, subimos a Calçada de S. Martinho, ao encontro da espanhola Lídia Cao e do seu “O Velo de Ouro”, graças ao qual a artista traz para dentro da Arte Urbana a sua faceta de ilustradora. Uma das grandes revelações deste WOOL foi a portuguesa Lígia Fernandes, pela forma sensível como abordou a infância de outros tempos, feita de tropelias e correrias, de jogos às escondidas ou ao arco, ao berlinde ou ao trinca-cevada (que era assim que se dizia quando eu era miúdo). “Verde memória” e “Naranjo para calle” são duas intervenções no espaço urbano com a assinatura do duo espanhol Ampparito, simples na aparência, mas abertas a narrativas onde predominam temas como a memória, a opressão ou a resiliência. O grego Stelios Pupet prestou tributo aos lanifícios da Covilhã com a obra “Portrait of a woven memory”, a qual pode ser vista na Rua António Augusto Aguiar. Enfim, num espaço de grandes dimensões entre dois prédios, o colectivo espanhol Boa Mistura fez nascer um mural com o título “Amor”, o qual, em si mesmo, é um abraço ao WOOL e à sua “missão de transformar pela Arte e de fazer comunidade, no cuidado e no encontro”. Para ver na Covilhã, a qualquer hora do dia... ou da noite!

domingo, 29 de junho de 2025

ARTE URBANA: MurArcos 2025



ARTE URBANA: MurArcos 2025
Com | Daniela Guerreiro, Helen Bur, Jorge Charrua, Mariana Duarte Santos, Regg Salgado
Arcos de Valdevez, vários locais
25 Jun > 29 Jun 2025


Portentosa sinfonia de sol e de brisas, de luz e de cores, a Terra de Valdevez tem num verde viçoso sem par a sua nota dominante. E isto tanto é válido no Inverno como no Verão, o que a transforma numa pequena caixa de sedução. Franjeada pelo poético Lima, sulcada ao meio, e de ponta a ponta, pelo idílico Vez que lhe dá o nome, esta é uma terra caprichosamente moldada pela natureza, ora em montanhas empinadas e altivas, ora em preguiçosas encostas onde amadura o vinho e sonolentas várzeas onde cresce o pão. É neste quadro natural do mais belo recorte que vamos encontrar os Arcos de Valdevez, cujos habitantes sabem aliar um vasto e rico património à História e à Tradição. Guardiães de um legado milenar, os arcuenses primam em defender as suas matrizes identitárias, sem fechar as portas à modernidade que se oferece em Arte e Cultura. Deste “casamento de interesses” nasce o MurArcos, Festival de Arte Urbana voltado para a dinamização cultural e a reabilitação do espaço público. Desde 2023 que um conjunto de artistas, influenciados pela tradição local, as histórias da população e o contexto histórico e natural de Arcos de Valdevez, tem sido chamado a modernizar o aspecto rústico das casas locais, a impulsionar diálogos intergeracionais e a trazer um novo brilho à zona histórica dos Arcos de Valdevez.

À vista de todos, o resultado de três edições do Festival salda-se em treze intervenções de grandes dimensões e um número de peças de pequeno formato que, até ao início desta edição, era de três, mas que irá certamente crescer graças à criatividade e labor da artista britânica Helen Bur. Os amantes da Arte Urbana conhecem Helen Bur das suas muitas miniaturas espalhadas pela vila de Figueiró dos Vinhos, ou desse extraordinário mural na Covilhã que homenageia as mulheres trabalhadoras da indústria têxtil. Na edição deste ano do MurArcos, a artista oferece-nos uma peça de grandes dimensões, a qual pode ser apreciada na Rua Dr. Joaquim Carlos da Cunha Cerqueira e que representa um muito apetecido mergulho nas águas do Vez. Particularmente chamativo, o trabalho encerra uma dimensão marcadamente impressionista, tirando um extraordinário partido do jogo natural de luz e sombra que o entorno acrescenta. Mas Helen Bur não se fica por aqui e, no Largo da Valeta, já fez nascer duas peças miniaturais, de cunho realista, inspiradas em personagens com as quais a artista se vem cruzando nesta sua passagem pelos Arcos. A ver vamos quantas mais peças poderão surgir nas últimas vinte e quatro horas do evento.

Caminhando em direcção ao centro da vila, vamos encontrar na Rua Dr. António José Pimenta Ribeiro um mural em progresso com a assinatura de Jorge Charrua. Numa fase ainda precoce da sua execução, a peça não dá a ver aquilo no que se irá tornar, mas pela dimensão e colorido que se adivinha em esboços mais adiantados promete vir a ser algo de muito impactante. Certamente impactante e também em progresso está o trabalho conjunto das artistas Daniela Guerreiro e Mariana Duarte Santos. Com provas dadas no panorama da Arte Urbana, quer no plano nacional como internacionalmente, as artistas propõe-se oferecer-nos a figuração daquilo que parece ser o momento de pausa de alguém que, à hora do café, passa o olhar por uma fotografia antiga e reaviva memórias de um tempo outro. Vamos ter de aguardar pela conclusão da peça, mas o resultado final promete ser deslumbrante e pleno de significado. A concluir a breve apreciação dos trabalhos desta terceira edição do MurArcos, falo de Manolo Mesa e do mural que está a desenvolver na Rua 25 de Abril e que, em distintas narrativas, funde a ponte dos Arcos, réplica da anterior ponte medieval e um dos ex-libris da vila, com um conjunto de belas peças de cerâmica, de inspiração autoral, mas que lembram a tradicional loiça de Viana do Castelo.

Passemos agora um olhar pelo legado das duas primeiras edições do Festival. Desta “herança” artística, importa destacar os trabalhos das já referidas Daniela Guerreiro e Mariana Duarte Santos, quer em peças individuais, quer em colaboração artística entre si e com a participação de Regg Salgado, curador do MurArcos e também ele um extraordinário artista - impressionante o seu “Fio Condutor”, na Covilhã. Deste último podemos apreciar um mural muito belo intitulado “O Guarda do Vez” e, numa caixa de electricidade, junto a um mimoso recanto próximo do Largo da Valeta, “Jogo das Caricas”. Num registo muito próximo da ilustração, Mutes oferece-nos as obras “O Major e a Raposa” e “Sem Título”, esta última remetendo para o Recontro do Vez, decisivo episódio da História de Portugal ligado à fundação da nacionalidade. Pintora e muralista reconhecida internacionalmente, a argentina Milu Correch tira partido de duas faces de um posto de transformação de electricidade para, numa peça sem título, nos levar ao encontro do universo infantil e do brincar aos fantasmas. Em mais um extraordinário mural, Pantonio convida-nos a espraiar o olhar pelo Vez ao encontro de uma flora e de uma fauna que, na sua pintura, se fundem em graça, cor e movimento. Olhamos, enfim, para aquela que será a mais apreciada peça de um espólio que não cessa de crescer e que representa, na deslumbrante arte de Bordallo II, a Cachena, o maior bovino autóctone da Península Ibérica. Hoje termina o MurArcos, mas as peças vão estar lá pelo tempo fora e, em qualquer altura, são merecedoras de uma visita.

terça-feira, 27 de maio de 2025

FESTIVAL: CIRC-UN-FLEX



FESTIVAL: CIRC-UN-FLEX
Festival de Circo Contemporâneo
Ovar, vários espaços
23 Mai > 25 Mai 2025


Nos últimos anos, as artes circenses têm sabido reinventar-se com base em abordagens pluridisciplinares, assegurando o surgimento e a afirmação de novas estéticas e mantendo esse desígnio maior de levar o circo a todos os públicos. A variedade da oferta e a sua qualidade intrínseca – e aqui importa relevar o trabalho do INAC – Instituto Nacional de Artes do Circo, sediado em Famalicão – têm feito com que o circo contemporâneo seja chamado, com frequência crescente, a integrar os mais variados programas culturais, quer através de espectáculos isolados, quer de forma conjugada com outras propostas, complementares entre si, sob a forma de um festival. Está neste caso o CIRC-UN-FLEX, evento promovido pelo Município de Ovar e que, no passado fim-de-semana, espalhou pela cidade a magia desta arte milenar no seu poder de contar histórias e explorar novos universos. Em cinco momentos distintos, entre espaços ao ar livre e o palco do Centro de Artes de Ovar, esta primeira edição deu a ver o trabalho de um conjunto de artistas que, das mais variadas formas, desafiaram os limites da arte circense, cruzando a acrobacia, o malabarismo ou a pantomina com o teatro, a dança ou a música.

Não falarei aqui dos espectáculos da dupla “Ferrer & Weidman” (Espanha) e de “Tatsuya” (Japão), grandes protagonistas da noite de estreia do Festival, uma vez que não tive oportunidade de os ver. Já na tarde de sábado, o Largo do Tribunal foi palco de “Les Poids des Nuages”, da companhia “Hors Surface” (França), uma peça que explora a relação entre duas personagens em busca da perfeição. Um enorme trampolim e uma escada erguida aos céus serviram de adereços a uma série de acrobacias de enorme efeito visual e valia técnica, graças ao trabalho coordenado do português Diogo Santos e do marroquino Mohamed Nahhas, dois extraordinários executantes da companhia fundada em 2010 por Damien Droin. Entre o sonho de Ícaro e o desafio das leis da gravidade, os “Hors Surface” foram merecedores do aplauso entusiástico do público neste seu esforço de pôr em cena a capacidade da pessoa em compreender o outro e saber aproximar-se dele, em relativizar entre o que é e o que parece (o “peso das nuvens” funciona como uma bela metáfora) e, através da união de esforços, entregar-se num abraço a um ideal maior.

“Furo Lento”, de Rui Paixão (Portugal), fechou o segundo dia do Festival com um espectáculo de grande efeito, convidando o espectador a olhar um mundo pós apocalíptico, habitado por entidades cibernéticas como que saídas de jogos de computador, dispostas a subjugar e a humilhar os humanos (leia-se “o público”) de forma autoritária e arrogante. Num cenário evocativo de “2001: Odisseia no Espaço”, Rui Paixão, Pedro Matias e Alan Sencades deram nota de uma extraordinária coordenação e destreza física, juntando à apurada linguagem corporal a componente de expressividade “clownesca” capaz de arrancar saborosas gargalhadas à plateia. “Lost in Translation”, uma criação de Anna Kristin McCarthy, com interpretação de Ireen Peegel, Jaakko Repola e Aleksey Smolov, fechou o Festival na tarde de domingo, lançando para cima da mesa uma série de questões que falam de compreensão, empatia, união. Com um conjunto de adereços simples e muito humor e criatividade, o colectivo da Estónia, Finlândia e Letónia explorou um mundo povoado de muros e fronteiras e no qual as palavras, como os gestos, se reduzem cada vez mais a meros estereótipos. “Alguma dúvida?”

domingo, 23 de março de 2025

CONCERTO: “A tre: Música para trio nas cortes europeias do séc. XVIII” | Ensemble Navis



CONCERTO: “A tre: Música para trio nas cortes europeias do séc. XVIII”
Ensemble Navis
Com | Beatriz Soares (traverso), Paola Troiano (traverso), Claudia Cecchinato (violoncelo), Sayaka Matsunaga (cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense
22 Mar 2025 | sab | 16:00


Quando falta apenas o concerto de encerramento do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, já começa a apossar-se de nós como que uma nostalgia, uma saudade, pelo vazio tão próximo. Um balanço preliminar desta primeira edição do Festival permite concluir que o objectivo de divulgar a Música Antiga e dar a ver as particularidades de um universo vasto, que se estende no tempo e abraça uma multiplicidade de géneros e estilos, foi claramente atingido. Ao longo de dois fins de semana, assistimos ao desenvolvimento de um programa rico e variado, graças às prestações de altíssimo nível, em distintos palcos, de um apreciável número de agrupamentos de renome. Mas o CásterAntiqua fez questão de não descurar as novas correntes, lançando uma Open Call internacional com o intuito de proporcionar a um grupo de jovens músicos a oportunidade de desenvolver uma residência artística. Ao longo de seis dias, o agrupamento seleccionado, o Ensemble Navis, trabalhou um programa musical original, com a mentoria de intérpretes que integraram a agenda musical do Festival. O resultado pôde ser apreciado na tarde de ontem, no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense.

Centrando a sua atenção no ambiente das cortes europeias do século XVIII, o Ensemble Navis - Beatriz Soares, Paola Troiano, Claudia Cecchinato e Sayaka Matsunaga - propôs uma viagem pelo centro da Europa, visitando as cortes de Luís XIV e Luís XV em França, da princesa Guilhermina, irmã de Frederico o Grande, na Prússia, de Augusto, o Forte, na Polónia ou de Nicolau Esterházy, na Hungria. Mas não apenas as cortes, também os locais de culto foram alvo da atenção do Ensemble, penetrando na intimidade de conventos e igrejas como as de S. Tomás ou de S. Nicolau em Leipzig, de Santa Catarina em Frankfurt ou da Neue Kirche (Igreja Nova) em Arnstadt. “Triosonata No.1 em sol menor, da cravista parisiense Élisabeth Jacquet de La Guerre (1665-1729), e “Pièces pour la flûte traversière op.2”, do flautista “romano” Jacques-Martin Hotteterre (1673-1763), foram as duas peças de abertura do concerto, nelas se evidenciando uma forte noção de movimento a par de uma enorme delicadeza e frescura. O quarteto deu provas da necessária qualidade interpretativa, capaz de transmitir as emoções que se desprendem de ambas as peças, sabendo pôr em diálogo os instrumentos e criando grandes expectativas quanto ao restante programa.

“Triosonata em sol maior para duas flautas e baixo contínuo”, de Johann Sebastian Bach (1685-1750), foi, na sua complexidade e rigor meditativo, um dos momentos altos do concerto, tal como a peça seguinte, bem mais viva e alegre, “Musique de table: Trio em ré maior TWV 42:D5, de Georg Philipp Telemann (1681-1767), espécie de “banda sonora para um jantar”, assim ilustrada por Beatriz Soares, que fez as honras do agrupamento, com uma breve introdução inicial a cada uma das peças. Ainda que indirectamente, voltaríamos a Telemann, já que a peça que escutámos serviu de inspiração a Wilhelm Friedemann Bach, filho de Johann Sebastian Bach, para compor o seu “Trio em ré maior Fk 47”, com o qual se completou o alinhamento do concerto. Antes disso, porém, viveu-se outro momento feliz com a interpretação do “Divertimento Op.3 No.3 em ré menor”, de Anna Bon, peça de uma alegria contagiante escrita por uma compositora que foi uma “menina-prodígio” e que, aos quatro anos de idade, já estudava música no Ospedalle della Pièta, de Veneza. Os fortes e prolongados aplausos finais trouxeram com eles a recompensa de um “miminho”, “Pourquoy doux rossignol”, de Jean-Baptiste Drouart de Bousset, numa versão ornamentada por Michel Blavet, uma canção de amor e de mágoa muito bela e que se constituiu na melhor das despedidas.

sábado, 28 de setembro de 2024

FESTIVAL: ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2024



FESTIVAL: ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2024
Vários Locais
14 > 22 Set 2024

“É a primeira vez que venho a Portugal e estou a gostar muito. Tenho encontrado aqui muitos amigos.” As palavras são de Tellas, talentoso artista de Cagliari, na Sardenha, com quem troquei algumas palavras no decurso da visita que fiz a Estarreja e à sexta edição do ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2024. A palavra “amigos” tem aqui um valor real, já que Tellas se referia a um conjunto de artistas que, tal como ele, têm passado por Estarreja, deixando a sua marca em peças de enorme beleza e significado. Amigos de outras paragens, de outros festivais, de quem se guarda o convívio, a troca de saberes e experiências, o nome e o traço nas peças que assinam, a partilha da paixão pela Arte Urbana. Amigos que se podem “rever” numa parede, num muro, num posto de transformação eléctrico ou num depósito de água. Não em Stavanger ou Grenoble, Montreal ou Brisbane, mas aqui bem perto, em Estarreja. E é isto, o ESTAU: Um ponto de convergência entre a arte e a cultura, uma forma de juntar a comunidade em torno das suas histórias e memórias, enfim, uma oportunidade única de ver ao vivo o trabalho dos artistas que vêm visitando Estarreja desde 2016, que fazem da rua o seu atelier e tornam a arte acessível a todos, difundindo-a e democratizando-a.

À semelhança das edições anteriores, também este ano o primeiro fim de semana do ESTAU foi dedicado ao conhecimento do território, permitindo aos artistas perceber melhor a realidade desta magnífica região do Baixo Vouga Lagunar. Nesse contacto inicial reside a força inspiradora que permite, nos dias seguintes, partir para o terreno com ideias bem assentes e trabalhar peças que, nos seus mais diversos estilos, são evocativas da identidade estarrejense e prestam homenagem à terra e às suas gentes. Parto ao encontro do trabalho acabado ou por acabar e, com a preciosa ajuda de Lara Seixo Rodrigues, traço o meu próprio roteiro. Começo pelo centro da cidade onde, no Mercado Municipal de Estarreja, a ilustradora e artista visual Barbara R. põe em prática “Exquis”, resultado de uma acção comunitária com alunos da turma de Artes do 12º ano da Escola Secundária de Estarreja. Rumando a Sul, a próxima paragem é Salreu, onde o argentino Facio presta homenagem ao Visconde de Salreu. De regresso a Estarreja, é tempo de apreciar o mural de Tellas que faz do depósito de água junto à Estação de Comboios um espaço viçoso e verdejante, que mescla a realidade com a abstracção.

Preparo-me para seguir rumo ao Bairro da Teixugueira quando, ao fazer a manobra, vejo pelo retrovisor, mesmo atrás de mim, uma estranha personagem a passear-se com um carrinho de compras do supermercado. É Jaune, artista de nacionalidade belga, que tem como protagonistas das suas humorísticas instalações e quadros, funcionários de limpeza urbana, trabalho que o próprio exerceu durante algum tempo. No caso de Estarreja, o alvo da sua homenagem foram os bombeiros, verdadeiros heróis no combate aos incêndios que devastaram áreas enormes dos concelhos vizinhos de Oliveira de Azeméis e Albergaria-a-Velha, e que se podem encontrar um pouco por toda a cidade, em muros e bancos, em portas e caixas eléctricas. No Bairro da Teixugueira, por fim, vejo como o espanhol Sojo interpreta, de forma singular, o Carnaval de Estarreja. A viagem de regresso faz-se pela EN 109 onde, num dos muros que delimitam os terrenos da Bondalti, se abre ao nosso olhar a “missão impossível” de Bigod, jovem artista de Benfica do Ribatejo que evoca os que (ainda) trabalham a terra. E digo “missão impossível” porque o multicolorido mural, onde não faltam os tractores, tem só 540 metros. De fora ficou Tiago Hesp e o trabalho que desenvolveu numa casa isolada nas margens do Esteiro de Salreu, praticamente inacessível num período que coincidiu com as marés vivas na Ria de Aveiro.

Mas não acaba aqui o ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2024. Rico e variado, o programa integrou um vasto conjunto de oficinas, visitas guiadas, cinema, exposições, instalações e concertos. E é justamente de duas destas iniciativas que quero dar nota, visto ter participado em ambas (e me ter deixado encantar). A primeira é “O Som da Fábrica”, oficina desenvolvida pela Frenesim Cooperativa Cultural, com a Rita Campos Costa e o José Figueiredo como formadores. Dividida em três fases, a oficina convidou os participantes a viver e sentir os ambientes do recém inaugurado Museu Fábrica da História - Arroz. O resultado foi uma peça sonora inspirada e animada, feita de nomes, frases, sons, cantares e ambientes únicos. A segunda trata-se do “Gamelão de Porcelana e Cristal”, instalação sonora desenvolvida pela Companhia de Música Teatral, na pessoa de Mariana Miguel. “Instrumento musical coletivo” constituído por centenas de peças de porcelana, faiança, grés, vidro e cristal, o gamelão reuniu à sua volta um numeroso grupo de pequenos artistas, fascinados com o som extraído de tão exótico instrumento, cientes de estarem a fazer música. Fascínio que me invadiu, igualmente, não só pela competência da Mariana, pela sua mímica coontagiante e pel forma como soube cativar a plateia, mas também por ter podido experimentar um objeto visual versátil e de tanto encanto.

domingo, 12 de maio de 2024

CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2024



CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2024
Curadoria | Pereira Lopes
Organização | iNstantes - Associação Cultural
Vários Locais
10 Mai > 26 Mai 2024 


Numa altura em que se encontra a decorrer o iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2024, é tempo de olhar as propostas desta 11ª edição, distribuídas por doze espaços distintos dos concelhos de Vila Nova de Gaia, Santa Maria da Feira, Castelo de Paiva e Braga, e que reúne trabalhos de quase meia centena de fotógrafos de onze países. Ao encontro da enorme variedade de géneros e estilos que voltam a oferecer-se ao visitante, seguimos os passos da visita promovida pela organização do Festival ao longo do dia de ontem, começando por Lourosa onde, na Casa da Cultura, Nuno Feliz expõe “Máscaras & Cencerros”, uma mostra que pretende dar a ver as celebrações do solstício de Inverno em Portugal e Espanha, através dos seus representantes mais significativos: Caretos e Peliqueiros, Pantallas e Momotxorros, Boteiros e Cardadores. No Parque Biológico de Gaia, a brasileira Maria Lucila Horn mostra “Proibido Subir ao Altar”, propondo um olhar sobre as muitas camadas que medeiam o real e o etéreo, o profano e o espiritual. Com uma temática aproximada, Valter Vinagre apresenta na Fundação Joaquim Oliveira Lopes “Do Amor-Clausura”, conjunto de imagens através das quais o artista nos fala “do amor aprisionado, do amor que se entranha mal nascemos e nos transcende na morte, dos fragmentos que se perpetuam, sem que dependa de nós.”

Pólo maior desta edição do Festival iNstantes, a Casa da Cultura de Avintes acolhe sete exposições de fotógrafos de cinco países. Ana Sabiá, do Brasil, expõe “Correspondências 2020-21”, composições através das quais a artista, com extrema sensibilidade, procura respostas para as clássicas questões filosóficas: “Quem sou? De onde vim? Para onde vou?”. Falecido em 2022 na cidade de Ponta Delgada, Benjamim Leandro Medeiros é lembrado em “Homenagem” através de uma selecção de trabalhos seus que abraçam as ilhas dos Açores. “The Aviary”, do norte-americano CJ Karch, é um curioso trabalho que tem como objectivo influenciar emoções, despertar a imaginação e alterar a percepção da realidade, através da criação de um mundo fantasioso. Com “Red - Prazer Sexual Feminino”, a portuguesa Filomena Paulo reflecte sobre aquilo que para muitas mulheres é ainda tabu. Da Finlândia, Jorma Ojama traz-nos “A Delícia de Descobrir”, conjunto de imagens que devem ser vistas sequencialmente, espécie de jogo em busca do elemento comum à imagem anterior. Composto por sete fotógrafos espanhóis, o colectivo Streetosphera apresenta “Streetosphera”, exposição feita de espontâneos colhidos na rua através do olhar atento de quem se esforça por congelar momentos únicos e irrepetíveis. Por fim, a exposição “Memórias” é o resultado da digitalização de fotografias a partir de placas de vidro, na sua maioria com mais de cem anos de existência, algumas das quais reconhecidas como sendo da autoria de Emilio Biel. A colecção é propriedade do avintense Américo Santos e resulta na mais surpreendente e valiosa exposição desta edição do Festival iNstantes.

O Salão dos Bombeiros Voluntários de Avintes é o segundo grande pólo do Festival iNstantes, ao acolher trabalhos de enorme qualidade da autoria de oito fotógrafos, o que faz dele um local de visita obrigatória. A curadoria do certame teve o cuidado de fazer da qualidade e variedade das propostas a imagem de marca deste núcleo, com trabalhos que vão do fotojornalismo à fotografia assente na intencionalidade do movimento da câmera, da ficção fotográfica à manipulação digital com recurso a programas de edição. Está neste último caso “Inspirações”, da fotógrafa iraniana Sherry Akrami, conjunto absolutamente fabuloso de imagens místicas e mágicas, intensamente trabalhadas num preto e branco saturado, ponto de partida para o desenvolvimento de histórias oníricas e surreais. Filipa Scarpa traz-nos, entre o impressionismo e o abstracto, “Intencional”, série de fotografias colhidas através da técnica ICM - Intencional Camera Movement. Com “Angola…”, António Pinto leva-nos numa viagem pela riqueza de cores, cheiros e sabores, sorrisos, alegrias e vidas, de um país que nos é particularmente querido. “Homens e Mulheres de Sal e Ferro”, do espanhol Xesús Búa, fala-nos dos “percebeiros”, homens e mulheres que arriscam diariamente a vida na apanha do tão cobiçado marisco.

As quatro restantes exposições que podem ser vistas no Salão dos Bombeiros Voluntários de Avintes, cruzam olhares de dois fotógrafos portugueses e dois brasileiros. “À Meia-Noite Voltarei”, de Paloma Gomide, convida à releitura da história da Cinderela, transferida para a periferia de Florianópolis, uma grande cidade do sul do Brasil. “Diálogos em Foco”, de Raúl Silva Pereira, fala-nos essencialmente dos pequenos-nadas de que a vida é feita, momentos encontrados na trivialidade dos dias e nos momentos mais vulgares, expressão da sensibilidade e emoções vividas pelo fotógrafo. Numa terra mundialmente conhecida pela sua broa, Ana Soukef traz-nos leituras da sua matéria prima através de um conjunto de imagens intituladas “Milho, coração da América”. Viajante incansável, José Luís Santos está de regresso ao iNstantes, depois de aqui ter mostrado, na edição de 2019 do Festival, um conjunto de belíssimas imagens da “Rota da Seda”. Desta vez, o artista tem para oferecer “Diários do Cáucaso” e, com eles, o difícil exercício da sobrevivência numa terra de fronteira onde se chocam os legados dos impérios russo, persa e otomano.

Rumando à Junta de Freguesia de Avintes, é possível apreciar “Refugiados na Europa”, exposição colectiva que devolve o olhar de nove fotógrafos portugueses, oito finlandeses e um turco, sobre o drama dos refugiados e suas implicações, económicas, sociais e políticas. Não longe dali, no Clube Recreativo de Avintes, Francisco Ricarte expõe “EmCasa”, “evocação emocional e visual introspectiva de territórios que têm sido redescobertos pelo autor em diversas viagens de retorno ao nosso país, previamente à sua fixação em Macau. Por último, dentro daquilo que foi possível ver, a fotógrafa norte-americana Patricia Scialo expõe no edifício-sede dos Plebeus Avintenses “Pela Janela dos Olhos Dela”, trabalho de 2019 que documenta a ligação entre duas irmãs sob o olhar da sua mãe. O iNstantes completa-se com as exposições da colombiana Kata Garcés, “Rede Cósmica”, na Associação Cultural e Musical de Avintes; do argentino Guillermo Franco, “Ai Meus Pequenos Olhos”, na Capela da Póvoa, em Pedorido (Castelo de Paiva); e do romeno Vlad Dumitrescu, “Dentro”, que conta com curadoria de Adriana e Henriques e vai poder ser vista até ao dia 26 de Junho no passadiço Piso 1 da Escola de Medicina da Universidade do Minho, Campus de Gualtar, em Braga.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

CERTAME: Festival Literário Correntes d'Escritas



CERTAME: Festival Literário Correntes d’Escritas
Póvoa de Varzim e Lisboa, vários locais
17 Fev > 26 Fev 2024


Cumprindo um hábito que começa a cristalizar-se em vício, regressei este sábado à Póvoa de Varzim e às Correntes d’Escritas. Sabia que tinha à minha espera duas mesas literárias, várias apresentações de livros, duas exposições e, quem sabe, uma peça de teatro. Haveria a oportunidade de comprar alguns livros e de ver alguns deles com as dedicatórias dos respectivos autores. Teria, sobretudo, a possibilidade de mergulhar nesse ambiente fantástico de celebração do gesto e da palavra, rodeado de amigos e de gente que tanto admiro. E assim foi, o programa cumprido na íntegra (teatro incluído), com pausa breve para uma francesinha no Ritz e o “bónus” de ter sido fotografado pelo Daniel Mordzinski e pela Maria do Rosário Pedreira (!).

Sonhado como plataforma de diálogo entre autores de várias geografias das línguas portuguesas e castelhanas, o Festival Literário Correntes d’Escritas conheceu a sua primeira edição em 2000, ano do centenário da morte de um dos filhos mais diletos da Póvoa de Varzim, Eça de Queirós. De Abdulai Silva a Xavier Queipo, ano após ano por aqui foram passando cerca de mil autores, fazendo da Póvoa o centro do debate da Cultura e do pensamento das Letras no país. Ao completar 25 edições, o tempo é de celebração, irmanando na festa e na alegria os 50 anos de elevação da Póvoa de Varzim a cidade e do 25 de Abril. Daí que a liberdade e a escrita enquanto veículo de resistência e luta tenham sido o denominador comum de um vasto programa que reuniu mais de 120 personalidades ligadas às letras, distribuindo-se por mesas literárias, lançamentos de livros, residências, performances, concertos, exposições, um 1º Encontro de Tradutores, a habitual Feira do Livro e muito mais.

Inspirada no verso de um poema da “desobediente” Maria Teresa Horta – “deu-nos abril o gesto e a palavra” –, a mesa da manhã convocou o melhor dos seis participantes e do seu moderador, João Gobern. António Mota partilhou memórias de infância na casa do Adrianinho e com a Senhora do Padre. Vera dos Reis Valente trouxe-nos um poema magnífico – “[Abril] Deu-nos paz / deu-nos mais alegria / (…) mas não nos deu a garantia / de que outros ditadores / armados em bons senhores / dizendo-se salvadores / não ganhem a próxima eleição”. Joaquim Arena mostrou a sua estranheza por o 25 de Abril não ser celebrado nas antigas colónias e, com ele, o gesto e a palavra liberdade. Convocando a sua faceta de leitora – “acima de tudo sou uma leitora” - Pilar Adón falou da importância de poder participar nas obras que lê, acrescentando que é isso que procura oferecer enquanto autora. Rui Zink falou dos vários privilégios de ter vivido o 25 de Abril, um dos quais foi ter participado no primeiro 1º de Maio “de mãos dadas com a minha mãe”. Enfim, Anabela Mota Ribeiro, “filha desse dia inicial”, trouxe-nos “a inscrição da ditadura sobre o corpo das mulheres” e a revolta de, 50 anos passados, persistir a diferença entre homens e mulheres, vertida em injustiça e desigualdade.

Passa pouco das duas da tarde e o espaço fronteiro ao Cine-Teatro Garrett fervilha de gente que aguarda pela reabertura de portas. As Correntes são “o lugar onde vivos e mortos se encontram”, como bem observou Luís Osório. É nisto que pensamos quando cruzamos o olhar com o daqueles que nos rodeiam e percebemos que Luis Sepúlveda ou Ana Luísa Amaral, Nélida Piñon ou José Saramago, ainda se passeiam por aqui.

Sérgio Godinho, Fausto Bordalo Dias e José Mário Branco deram o mote para a primeira mesa da tarde, a única à qual pude assistir. Uma mesa em “maré alta”, iluminada pelo verso “a liberdade está a passar por aqui” e moderada por Henrique Cayatte. Francisca Camelo agradeceu a Celeste Caeiro “pelas flores a calar o sangue”, mas interrogou-se se “conseguiria hoje a Celeste distribuir cravos nesse arrebatador gesto de alegria sem falir o negócio de um ano num dia só.” Luís Osório homenageou Fernando Giesteira, José Barneto, Fernando dos Reis e José Arruda, “os quatro que há quase 50 anos saíram para a rua sem saber que aquele seria o último dia das suas vidas, os que não chegaram a saber o que era a liberdade.” Rosa Alice Branco lembrou “tantos anos a falar pela calada” e exortou a estarmos atentos às mãos alheias que trabalham na sombra: “E se adormecerem, deixem os vossos ouvidos à escuta, porque a liberdade é a única melodia do amanhecer.” Estreante nas Correntes, Telma Tvon fechou a mesa com uma intervenção inflamada, falou dos seus medos, das suas vontades, das suas verdades, dos seus sonhos de mulher, “escuramente empoderada, mais forte, mais resiliente, mais comunidade, mais poder, mais preta.” São assim as minhas Correntes, minha liberdade, meu Abril.

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

CONCERTO: Vanguard Jazz Orchestra - Thad Jones 100



CONCERTO: Vanguard Jazz Orchestra - Thad Jones 100
Guimarães Jazz 2023
Centro Cultural Vila Flor
09 Nov 2023 | qui | 21:30


Está em marcha a trigésima segunda edição do Guimarães Jazz. Para o concerto de abertura, a organização do Festival convidou para subir ao palco do Centro Cultural Vila Flor uma das mais icónicas orquestras de jazz norte-americanas, a Vanguard Jazz Orchestra. Fundada no já distante ano de 1966 pelo trompetista e compositor Thad Jones e pelo baterista Mel Lewis, responsável pela direção musical, a orquestra toma a sua designação actual do mítico clube de jazz de Nova Iorque - Village Vanguard -, onde se estreou com enorme impacto na cena musical da época e onde continua a actuar, abrilhantando os serões de segunda-feira. Foi a segunda vez que esta orquestra visitou a cidade-berço, depois de aqui ter estado na edição de 1999, assegurando então o concerto de encerramento. A título de curiosidade, refira-se que a comparação entre as duas formações permite constatar que há nomes que se repetem, dos saxofonistas Ralph Lalama, Billy Drewes e Dick Oatts - o seu director musical -, ao trompetista Scott Wendholt, ao trombonista Douglas Purviance e ao baterista John Riley. O compositor residente da orquestra é o conceituado Jim McNeely, que este ano não marcou presença em Guimarães, mas que aqui tivemos o prazer de apreciar há dois anos atrás, à frente da Frankfurt Radio Big Band, na altura com a saxofonista Melissa Aldana.

Celebrando o centenário do nascimento de Thad Jones, a Vanguard Jazz Orchestra teve para oferecer um conjunto de standards do fundador e compositor residente durante a primeira década de atividade deste ensemble. Assim, ao longo de uma hora e meia de concerto, foi possível cruzar a inspirada veia artística deste membro de uma das famílias mais distintas do jazz (de lembrar que dois dos seus irmãos são os lendários Hank e Elvin Jones) com a classe e virtuosismo de uma orquestra que respira jazz por todos os poros. “Mean What You Say” abriu as hostilidades e o piano de Adam Birnbaum deu a primeira nota de mestria e savoir-faire. Mas não esteve só e os solos de grande qualidade do saxofonista Ralph Lalama e do trompetista Scott Wendholt foram apenas os primeiros de uma série que se prolongou no tempo e galvanizou o público, recebendo dele, a cada momento, os maiores incentivos e aplausos. “My Centennial” foi o senhor que se seguiu e o seu ritmo festivo, com um leve toque carnavalesco, incendiou a sala. Aqui brilharam o saxofone barítono de Frank Basile e a bateria de John Riley.

Se alguém entre o público não se havia rendido ainda à magia da orquestra, as dúvidas dissiparam-se com a sensibilidade e dolência de “Kids Are Pretty People”, um dos temas maiores do legado de Jones e que constituiu um dos momentos inesquecíveis da noite, o trombone de Dion Tucker a brilhar ao mais alto nível. Pleno de vivacidade, “Blues in a Minute” começou por confirmar a excelência do diálogo a três da secção rítmica, com destaque para o contrabaixo de Mike Karn e para o piano de Adam Birnbaum, a que se seguiram solos inspirados de Brandon Lee (trompete), Rob Edwards (trombone) e do incontornável saxofone tenor de Ralph Lalama. Os dois temas seguintes foram arranjos de Jim McNeely, o primeiro dos quais, “In The Wee Small Hours of The Morning” nos trouxe o veteraníssimo Dick Oatts e o seu saxofone alto num solo de sonho. Composto por McNeely, “Extra Credit” foi outro enorme momento, aqui com o combo de saxofones a elevar-se num todo, dele se destacando Chris Lewis. Para tema final do alinhamento, a escolha recaiu sobre “Fingers”, extraordinária obra-prima do mestre e que, nos seus quase dezoito minutos de duração, ofereceu a possibilidade a praticamente todos os membros da orquestra de usufruirem de um tempo a solo e de mostrarem mais-valias que passaram por momentos únicos de inspirada improvisação. Muito reclamado, o “encore” trouxe com ele outro dos temas maiores de Thad Jones e foi com “Don’t Get Sassy” que a Vanguard Jazz Orchestra se despediu do público numa noite de boa memória. O final perfeito a colocar muito alta a fasquia desta edição do Guimarães Jazz.

[Foto: Município de Guimarães | https://www.facebook.com/Municipio.Guimaraes]