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quarta-feira, 15 de abril de 2026

CONCERTO: Fourward | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Fourward
Com | Simão Duque (fliscorne), José João Viana (guitarra eléctrica), Gonçalo Cravinho Lopes (contrabaixo), Tomás Alvarenga (bateria)
Ovar em Jazz 2026
Bar do Centro de Artes de Ovar
11 Abr 2026 | sab | 17:00


No espaço informal do Bar do Centro de Artes de Ovar, a abertura do último dia do Ovar em Jazz 2026 esteve a cargo dos bracarenses Fourward, quarteto que tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais inquietas da nova cena jazzística nacional. Longe de qualquer ortodoxia, o grupo apresentou-se com a confiança de quem já encontrou um léxico próprio, ainda que permanentemente aberto a novas ideias e conceitos. A música de “Freedom”, o seu trabalho de estreia, serviu de eixo ao concerto, permitindo perceber diferentes formas de deriva, expansão e confronto de linguagens em temas como “Colmeia”, “Assobio”, Gruta”, “Deicida” ou o tema que dá nome ao álbum. Desde o primeiro instante, foi evidente que a promessa de “reinvenção” do jazz não seria aqui um mero artifício promocional, antes uma prática concreta de desconstrução, sustentada numa recusa deliberada do academismo e numa escuta atenta do presente. Próximo, ruidoso, por vezes disperso, o ambiente do Bar do CAO acabou por favorecer essa abordagem, permitindo que o som se infiltrasse de forma orgânica no espaço, sem a solenidade que tantas vezes cristaliza o género.

A instrumentação clássica - fliscorne, guitarra eléctrica, contrabaixo e bateria - funciona, no caso dos Fourward, como ponto de partida e não como limite. Simão Duque explorou o fliscorne com um fraseado que oscila entre o lirismo contido e um conjunto de incisões rítmicas, enquanto José João Viana, sem fugir à tentação de um virtuosismo que lhe é inato - o futuro abre-se, luminoso, a este enorme guitarrista -, pôs no ar uma delicada teia de texturas e camadas, em diálogos profícuos com o pulso colectivo. Gonçalo Cravinho Lopes assegurou um contrabaixo simultaneamente estruturante e maleável, muitas vezes ancorado em padrões repetitivos a evocar tanto o hip-hop como certas linguagens electrónicas. Já Tomás Alvarenga revelou-se peça-chave na arquitectura sonora, graças a uma bateria precisa e inventiva, criando um campo expandido onde as composições tiveram espaço para respirar. Houve, no modo como o quarteto soube trabalhar o groove e a repetição, uma clara filiação geracional: o loop deixou de ser vício para se tornar dispositivo expressivo, abrindo espaço a uma escuta mais dilatada.

O concerto em Ovar confirmou os Fourward como parte de um movimento mais amplo, mas também como entidade autónoma, difícil de encaixar em categorias estanques. Se há algo que se afirma como marca distintiva do projecto é a recusa em escolher entre tradição e modernidade. Percebe-se que o repertório nasce tanto de uma urgência de palco como de um trabalho mais reflectido em residência, e essa dualidade traduz-se numa música que alterna entre momentos de grande coesão e outros de risco calculado. Nem todas as passagens atingiram o mesmo grau de intensidade - houve secções onde a exploração tímbrica se prolongou além do necessário -, mas mesmo aí persistiu a sensação de procura genuína. Os Fourward estão ainda a mapear o seu território, fazendo-o com uma clareza de intenções rara, firmes no propósito de avançar, sempre, sem olhar em demasia para trás. Enquanto lá fora o vento fez questão de soprar rijo, parecendo querer levar consigo a novidade que começa a pintar de verde as árvores e os campos, foi no coração do Bar do CAO que a verdadeira “revoada” se fez sentir, num misto de intensidade, emoção e liberdade.

terça-feira, 7 de abril de 2026

CERTAME: Ovar em Jazz 2026



CERTAME: Ovar em Jazz 2026
Com | Anna Setton Quartet, Carlos Bica Quarteto, Marius Preda, Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal com John O'Gallagher
Centro de Artes de Ovar
08 > 11 Abr 2026


A partir de amanhã, e até ao próximo sábado, a cidade de Ovar volta a ser o epicentro do jazz nacional com a chegada do Ovar em Jazz, este ano a cumprir a sua oitava edição. Capaz de projectar a cidade no circuito internacional e de atrair tanto nomes consagrados como novas propostas artísticas, o festival recebeu, ao longo das suas anteriores edições, nomes como os de Amaro Freitas, Ricardo Toscano, Mário Costa, Marc Ribot, João Lencastre, Carmen Souza, Abe Rábade, Hugo Carvalhais, Carlos Bica, Andy Sheppard, Stefano Battaglia, Maria João, Danilo Pérez ou Tigran Hamasyan, entre muitos outros. Espelhando a sua consistência e ambição artística, prepara-se agora para mais quatro dias do melhor jazz, afirmando-se como um espaço de encontro entre a tradição e a vanguarda. Sob o lema “Jazz sem Fronteiras”, o certame volta a apostar no cruzamento de linguagens, geografias e gerações musicais, propondo, mais do que uma sucessão de concertos, uma experiência imersiva que se irá desdobrar entre Auditório, Caixa de Palco e Bar do Centro de Artes, envolvendo o público numa vivência plural e contínua.

À semelhança dos anos anteriores, a edição de 2026 mantém uma elevada linha de exigência, apresentando um cartaz que cruza nomes nacionais e internacionais de reconhecido mérito. Entre os destaques encontra-se o virtuoso romeno Marius Preda, que vamos poder ouvir na noite de sexta feira e que traz ao festival o projecto “Phenomenon”, síntese de mais de três décadas de carreira, onde o címbalo ganha protagonismo num diálogo entre tradição clássica, influências folk e improvisação contemporânea. A abrir o certame, já esta quarta feira, a cantora brasileira Anna Setton marca presença com um quarteto que funde jazz com bossa nova e MPB, num registo sofisticado e luminoso. Carlos Bica regressa ao festival com “11:11”, projecto de forte identidade melódica e intensidade expressiva, reafirmando o seu lugar como uma das figuras maiores do jazz português. Também a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal regressa ao festival, desta vez na companhia do saxofonista nova-iorquino John O’Gallagher, num encontro que cruza tradição e contemporaneidade e que promete encerrar em beleza esta edição do certame.

Para além dos concertos em sala, o Ovar em Jazz expande-se pelos mais diversos espaços do Centro de Artes, incorporando a gravação ao vivo do programa “Notas Azuis”, da Antena 3, com curadoria de Rui Miguel Abreu, bem como DJ sets, mostras de vinil e projectos emergentes. Iniciativas como o Ovar Jazz Collective, orientado por João Martins, reforçam a aposta na criação e valorização do talento local, estabelecendo pontes entre formação e performance. Ao mesmo tempo, propostas como Mantis, Fourward ou Oxímoro evidenciam a vitalidade de uma cena que recusa fronteiras estilísticas e procura novas formas de expressão. Neste equilíbrio entre memória e experimentação, o festival prossegue o seu trajecto de afirmação como espaço singular de liberdade criativa e de encontro cultural, entendendo o jazz não apenas como género musical, mas como linguagem aberta e em permanente transformação. O programa completo pode ser consultado na página Ovar/Cultura, em https://cultura.cm-ovar.pt/pt/menu/734/ovar-em-jazz.aspx. Até jazz!