Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Ovar em Jazz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ovar em Jazz. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de abril de 2026

CONCERTO: Fourward | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Fourward
Com | Simão Duque (fliscorne), José João Viana (guitarra eléctrica), Gonçalo Cravinho Lopes (contrabaixo), Tomás Alvarenga (bateria)
Ovar em Jazz 2026
Bar do Centro de Artes de Ovar
11 Abr 2026 | sab | 17:00


No espaço informal do Bar do Centro de Artes de Ovar, a abertura do último dia do Ovar em Jazz 2026 esteve a cargo dos bracarenses Fourward, quarteto que tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais inquietas da nova cena jazzística nacional. Longe de qualquer ortodoxia, o grupo apresentou-se com a confiança de quem já encontrou um léxico próprio, ainda que permanentemente aberto a novas ideias e conceitos. A música de “Freedom”, o seu trabalho de estreia, serviu de eixo ao concerto, permitindo perceber diferentes formas de deriva, expansão e confronto de linguagens em temas como “Colmeia”, “Assobio”, Gruta”, “Deicida” ou o tema que dá nome ao álbum. Desde o primeiro instante, foi evidente que a promessa de “reinvenção” do jazz não seria aqui um mero artifício promocional, antes uma prática concreta de desconstrução, sustentada numa recusa deliberada do academismo e numa escuta atenta do presente. Próximo, ruidoso, por vezes disperso, o ambiente do Bar do CAO acabou por favorecer essa abordagem, permitindo que o som se infiltrasse de forma orgânica no espaço, sem a solenidade que tantas vezes cristaliza o género.

A instrumentação clássica - fliscorne, guitarra eléctrica, contrabaixo e bateria - funciona, no caso dos Fourward, como ponto de partida e não como limite. Simão Duque explorou o fliscorne com um fraseado que oscila entre o lirismo contido e um conjunto de incisões rítmicas, enquanto José João Viana, sem fugir à tentação de um virtuosismo que lhe é inato - o futuro abre-se, luminoso, a este enorme guitarrista -, pôs no ar uma delicada teia de texturas e camadas, em diálogos profícuos com o pulso colectivo. Gonçalo Cravinho Lopes assegurou um contrabaixo simultaneamente estruturante e maleável, muitas vezes ancorado em padrões repetitivos a evocar tanto o hip-hop como certas linguagens electrónicas. Já Tomás Alvarenga revelou-se peça-chave na arquitectura sonora, graças a uma bateria precisa e inventiva, criando um campo expandido onde as composições tiveram espaço para respirar. Houve, no modo como o quarteto soube trabalhar o groove e a repetição, uma clara filiação geracional: o loop deixou de ser vício para se tornar dispositivo expressivo, abrindo espaço a uma escuta mais dilatada.

O concerto em Ovar confirmou os Fourward como parte de um movimento mais amplo, mas também como entidade autónoma, difícil de encaixar em categorias estanques. Se há algo que se afirma como marca distintiva do projecto é a recusa em escolher entre tradição e modernidade. Percebe-se que o repertório nasce tanto de uma urgência de palco como de um trabalho mais reflectido em residência, e essa dualidade traduz-se numa música que alterna entre momentos de grande coesão e outros de risco calculado. Nem todas as passagens atingiram o mesmo grau de intensidade - houve secções onde a exploração tímbrica se prolongou além do necessário -, mas mesmo aí persistiu a sensação de procura genuína. Os Fourward estão ainda a mapear o seu território, fazendo-o com uma clareza de intenções rara, firmes no propósito de avançar, sempre, sem olhar em demasia para trás. Enquanto lá fora o vento fez questão de soprar rijo, parecendo querer levar consigo a novidade que começa a pintar de verde as árvores e os campos, foi no coração do Bar do CAO que a verdadeira “revoada” se fez sentir, num misto de intensidade, emoção e liberdade.

terça-feira, 14 de abril de 2026

CONCERTO: Oxímoro | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Oxímoro
Com | João Martins (bateria, sintetizador, caixa de ritmos), Gabriel Neves (saxofone soprano), Daniel Dias (trombone), Nuno Trocado (guitarra eléctrica), Fernando Rodrigues (sintetizador), Laura Rui (voz e sintetizador)
Ovar em Jazz 2026
Bar do Centro de Artes de Ovar
10 Abr 2026 | sex | 23:00


Foi no cair da noite que o terceiro dia do Ovar em Jazz encontrou o seu momento mais desassombrado, com a apresentação de “Oxímoro”, projecto de João Martins, compositor e instrumentista que tem sido um dos grandes motores deste festival desde a primeira hora. Misto de lucidez e ousadia, o concerto afirmou-se como um laboratório vivo de tensões instáveis e equilíbrios precários, à altura do que de melhor podemos usufruir em matéria de jazz. Se, na tertúlia / escuta comentada de Maio de 2025 [AQUI], o músico havia exposto ao detalhe a arquitectura conceptual do álbum, aqui foi o corpo sonoro que tomou a dianteira, libertando-se de explicações para se afirmar numa linguagem de permanente risco e reinvenção. Desde os primeiros instantes, tornou-se claro que este sexteto não vinha para fazer concessões. Ora pulsante ora fragmentária, a bateria de João Martins assumiu-se como eixo catalisador de um discurso onde o inesperado recusou ser excepção, abrindo caminho a um fluxo sonoro que oscilou entre momentos de suspensão rarefeita e uma densidade quase caótica.

A instrumentação alargada revelou-se determinante na construção desta narrativa. Gabriel Neves, no saxofone soprano, desenhou linhas com tanto de abrasivo como de insinuante, enquanto Daniel Dias trouxe ao trombone uma fisicalidade rugosa, frequentemente em confronto directo com a guitarra eléctrica de Nuno Trocado, cujo registo oscilou entre texturas saturadas e subtis incursões atmosféricas. Dividida entre a voz e o sintetizador, Laura Rui evitou qualquer lirismo óbvio, optando antes por vocalizações fragmentadas, quase espectrais, integradas num tecido electrónico que Fernando Rodrigues ajudou a expandir com camadas de síntese ora envolventes, ora dissonantes. O resultado foi um contínuo em mutação, onde ritmos quebrados, loops insinuados e explosões súbitas coexistiram numa espécie de improvisação guiada, mais próxima de um “acto de fé” colectivo do que de uma execução estritamente planeada.

Não sendo música para todos os gostos e públicos - e ainda bem que assim é -, “Oxímoro” afirma-se como uma experiência estética exigente, que se impõe pela negação de uma certa linearidade e lança o desafio ao público a que abdique de todas e quaisquer referências estáveis. Momentos há em que a turbulência sonora parece roçar o colapso, com a bateria a disparar rajadas em doses industriais e os sintetizadores a distorcerem o espaço auditivo até ao limite, mas é precisamente nessa vertigem que o projecto encontra a sua coerência interna. Tal como nas melhores expressões do “free jazz”, o concerto não buscou sustentação na desobstrução por mero efeito ou acaso, antes partiu ao encontro de novas formas de articulação entre som, silêncio e gesto. No final, ficou a certeza de termos assistido a algo irrepetível, um objecto artístico em permanente devir que, fiel ao seu título, fez da contradição não um obstáculo, mas o seu mais fértil princípio criativo.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

CONCERTO: Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal com John O'Gallagher | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal
Com | John O’Gallagher (saxofone)
Direcção | Pedro Moreira
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar
11 Abr 2026 | sab | 21:30


O concerto de encerramento do Ovar em Jazz 2026 confirmou, uma vez mais, a vitalidade e pertinência artística da Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal, uma formação que soube, ao longo das últimas décadas, consolidar um lugar singular no panorama nacional. Sob a direcção segura de Pedro Moreira, a Orquestra apresentou-se com uma coesão assinalável, revelando um trabalho rigoroso de preparação e uma escuta interna rara, que permitiu explorar dinâmicas subtis e contrastes expressivos com naturalidade. Ao longo do concerto, foi evidente a intenção de dar a ouvir as novas linguagens da música para orquestra, bem como de as tensionar à luz de uma sensibilidade contemporânea. Feito de nomes como Frank Carlberg, Hans Koller, Allan Ferber, Christine Jensen, Luís Cunha e Pedro Moreira, o alinhamento do concerto mostrou formas de escrita orquestral simultaneamente densas e permeáveis à improvisação, funcionando como terreno fértil para a afirmação de vozes individuais, sem nunca comprometer o equilíbrio colectivo.

Houve um sentido de continuidade a ligar este concerto à memória da actuação de 2021, na altura com o saxofonista Julian Argüelles a título de convidado. Mas houve também uma clara vontade de ir mais longe, recusando qualquer acomodação à fórmula já testada. A presença de John O’Gallagher veio acentuar essa dimensão de risco e abertura. O saxofonista nova-iorquino trouxe consigo um discurso firme, intelectualmente exigente e fortemente vinculado à pulsação física do jazz. O seu som, incisivo e por vezes quase abrasivo, contrastou com a maleabilidade da massa orquestral, criando momentos de fricção particularmente estimulantes. Longe de procurar um protagonismo fácil, O’Gallagher integrou-se na lógica do ensemble, dialogando com os naipes e desafiando-os a sair das suas zonas de conforto. Construídos com um sentido arquitectónico apurado, os seus solos revelaram uma imaginação rítmica e harmónica que elevou o concerto a um patamar de enorme densidade artística. Houve instantes em que a música pareceu suspender-se, como se todos os músicos procurassem, em simultâneo, uma nova direcção possível. A orquestra respondeu com maturidade, acompanhando e, por vezes, contrariando o solista, num jogo de forças que manteve o público em permanente expectativa.

Entre os músicos da casa, destacou-se novamente a solidez do colectivo, com intervenções individuais que, sem exibicionismos, contribuíram decisivamente para o resultado global. Uma parte dos aplausos vai, naturalmente, para a secção rítmica, onde pontuaram o contrabaixo de Emanuel Inácio e a bateria de Pedro Felgar, mas sobretudo a guitarra de Bruno Santos e o piano de Óscar Marcelino da Graça, funcionando como elementos agregadores, ora sublinhando tensões, ora abrindo espaços de respiração. O aplauso estende-se aos metais, reveladores de uma grande precisão e de um fraseado elegante e responsáveis por um conjunto de inspirados solos com assinatura de Johannes Krieger, Luís Cunha, Tomás Marques, Gonçalo Marques e Guilherme Fradinho. A Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal fecha em grade o Ovar em Jazz 2026 com a certeza de que não se limita a preservar uma herança, antes a transformá-la, projectando-a no presente com uma lucidez rara. O concerto foi, assim, um exercício de renovação e modernidade, memória e invenção, disciplina e liberdade. Um encerramento à altura da história do Ovar em Jazz: exigente, emotivo e profundamente vivo.

domingo, 12 de abril de 2026

CONCERTO: "Phenomenon" Marius Preda | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: “Phenomenon” Marius Preda
Com | Marius Preda (címbalo, acordeão e violino), Taco Gorter (bateria), Kiba Dachi (baixo)
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar
10 Abr 2026 | sex | 21:30


À semelhança do que sucedera na edição anterior com Tigran Hamasyan, o terceiro e penúltimo dia do Ovar em Jazz 2026 extravasou as fronteiras do mero concerto para se afirmar, tanto de um ponto de vista estético como filosófico, como um momento de reflexão sobre o lugar do jazz no universo da música. Não haverá, na verdade, género em cujo “saco” caibam mais estilos, modos, tempos ou conceitos, mas aquilo que Marius Preda mostrou foi algo de completamente diferente: um estilhaçar das convenções sobre a forma de “fazer jazz”. No centro das atenções esteve o címbalo - instrumento milenar, de ressonâncias que nos fazem recuar a Marco Polo e às caravanas que atravessavam a Rota da Seda -, reinventado com uma ousadia rara. Multi-instrumentista de recursos inesgotáveis, Preda abordou o instrumento, não como curiosidade étnica, mas como veículo principal de uma linguagem própria, híbrida e em permanente mutação. Estendendo o seu virtuosismo ao piano e ao acordeão, aquilo que o músico mostrou foi algo de difícil classificação, o concerto a orbitar o fascinante mundo dos “fenómenos” e a deixar o público mais preso à actuação do que à música em si.

Com “Mission Cimbalon”, o tema que abriu a noite, rapidamente se percebeu que Marius Preda não veio a Ovar apenas para apresentar um instrumento pouco habitual no léxico jazzístico, antes para reconfigurá-lo enquanto eixo narrativo, capaz de sustentar composições densas, ritmicamente incisivas e emocionalmente expansivas. E isso foi evidente ao longo de um concerto de curta duração mas de enorme intensidade, capaz de roubar o fôlego até aos mais habituados a estas andanças do jazz. Assente num trio que contou com os contributos do baterista Taco Gorter e do baixista Kiba Dachi, o concerto evoluiu através de um discurso sonoro que soube tirar partido da enorme fluidez entre géneros. Particularmente marcante foi a forma como o címbalo, com o seu timbre percussivo e metálico, se integrou na malha rítmica, ora funcionando como motor, ora como elemento melódico de grande subtileza. Envoltos numa energia febril e num rigoroso sentido formal, apontamentos de jazz latino, sugestões de música árabe, inflexões de blues e ecos da vibrante tradição cigana entrelaçaram-se com naturalidade nas homenagens que o músico entendeu prestar a Arturo Sandoval, Astor Piazzolla ou Stevie Wonder.

Aliando virtuosismo - que em doses generosas se espalhou pelos quatro cantos de um pouco preenchido Auditório do Centro de Artes de Ovar -, a uma clareza de intenções no aproximar de culturas, dissolver fronteiras estilísticas e propor uma escuta aberta e inclusiva, o concerto fez da travessia de territórios o motor de construção de uma identidade musical própria. Marius Preda não se limitou a exibir perícia técnica, antes procurou instaurar uma experiência colectiva, cada tema a afirmar-se como ponto de encontro entre o passado e o presente, a tradição e a modernidade. Percebeu-se, em “Phenomenon”, essa dimensão quase utópica, mas que em palco pareceu diluída nos muitos momentos de enorme exuberância instrumental que acabaram por se sobrepor à substância, embora se aceite que é precisamente nesse excesso controlado que reside a singularidade do projecto. Ainda que a performance tenha estado quase sempre um passo à frente da música, o fulgor do “fogo de artifício” a abafar os ecos raros e subtis da própria festa, fica a sensação de termos assistido a algo único, não apenas no que teve de afirmação de um singularíssimo músico, mas também na recriação das possibilidades de um instrumento peculiar.

sábado, 11 de abril de 2026

CONCERTO: "11:11" Carlos Bica Quarteto | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: “11:11” | Carlos Bica Quarteto
Com | Carlos Bica (contrabaixo), José Soares (saxofone), Eduardo Cardinho (vibrafone), Gonçalo Neto (guitarra)
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar – Caixa de Palco
09 Abr 2026 | qui | 21:30


No segundo dia do Ovar em Jazz, o quarteto liderado por Carlos Bica trouxe à Caixa de Palco do Centro de Artes de Ovar a matéria subtil e inquieta de “11:11”, reafirmando ao vivo aquilo que tem sido a minha percepção de incontáveis horas de escuta de um trabalho de 2024: uma música como que suspensa entre a serenidade e a turbulência, no limiar da tempestade. Neste seu regresso a Ovar, mais do que apontar direcções, o genial compositor e instrumentista insinuou-as com um contrabaixo de timbre profundo e contido, conduzindo sem impor, deixando que o discurso emergisse de uma escuta atenta entre os pares. A ausência da bateria - opção formal que poderia sugerir rarefacção - revelou-se antes um campo aberto de respiração colectiva, oferecendo espaço ao tempo para que se dilatasse e reinventasse. Entre “Blue in Grey” e “A Place You will Never See”, o alfa e o ómega de um momento de raro brilhantismo, percebeu-se que a pressa não seria para aqui chamada, a música a avançar pacientemente, a marcar a sua própria cadência, como quem tateia um labirinto e confia que cada desvio contém já o seu próprio sentido.

Esta lógica de deriva controlada encontrou expressão particularmente rica no diálogo entre José Soares, Eduardo Cardinho e Gonçalo Neto, três vozes distintas que recusam protagonismos fáceis em favor de uma construção orgânica do som. Ora espectral, ora incisivo, o saxofone alto de Soares desenhou linhas que pareceram dissolver-se no éter antes de se fixarem plenamente; movido pelo gozo da improvisação, o vibrafone de Cardinho impôs-se com uma luminosidade difusa, quase táctil, enquanto a guitarra de Neto oscilou entre a delicadeza folk, um baixo contínuo sussurrado e poderosas inflexões de natureza angular. Estas interacções alcançaram uma dimensão física de enorme fôlego, uma organicidade feita de imaginação e rigor, cada gesto sonoro como que nascido de um silêncio partilhado, a sublinhanr a ideia de que ninguém força nada e tudo acontece no tempo certo. O resultado foi um concerto de um magnetismo lento, hipnotizante, capaz de envolver o público numa teia de subtilezas e paixões.

Se em disco “11:11” já se afirmava como um dos trabalhos mais marcantes do jazz português recente, em Ovar revelou-se ainda mais como um objecto vivo, em permanente mutação. A dramaturgia das composições - esse encadeamento quase invisível de atmosferas - ganhou uma clareza particular em palco, temas como “Lucky”, “Pentimenti”, “Paris” ou os formidáveis “Roots” e “11:11” a sucederem-se numa lógica de sofisticação e bom gosto, como anéis de crescimento numa árvore milenar, imagem tantas vezes associada ao percurso de Bica. Houve momentos de maior densidade, mas nunca explosivos; houve picos de intensidade emocional que se insinuaram para depois recuar, deixando um rasto luminoso e persistente. No final, ficou a sensação de termos assistido não tanto a um concerto, mas a um processo: uma música capaz de se construir enquanto acontece, fiel a uma estética de equilíbrio entre o individual e o colectivo, entre o rigor composicional e a liberdade improvisada. Nesse espaço intermédio, raro e exigente, o quarteto de Carlos Bica foi estrela fulgurante no firmamento do Ovar em Jazz 2026. Só faltou “A Noite” para que a noite fosse absolutamente perfeita; mas isso já são outros “quinhentos”.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

CONCERTO: Anna Setton | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Anna Setton
Com | Anna Setton (voz e guitarra), Edu Sangirardi (piano), Pedro Santos (bateria)
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar – Caixa de Palco
08 Abr 2026 | qua | 21:30


A abertura do Ovar em Jazz 2026 ficou marcada por um concerto de assinalável coerência estética e rara delicadeza expressiva, protagonizado por Anna Setton. A viver há três anos no nosso país, a cantora e compositora brasileira apresentou-se no ambiente intimista da Caixa de Palco do Centro de Artes de Ovar exibindo uma maturidade artística consolidada ao longo de mais de uma década e meia de um percurso que cruza o jazz, a bossa nova e a MPB. Desde “Sim”, sugestivo tema de abertura de um concerto afirmativo a muitos títulos, tornou-se evidente a solidez de uma linguagem própria, construída tanto na vivência dos clubes de São Paulo como na experiência internacional ao lado de nomes maiores da música brasileira. A sua voz timbrada, aconchegante e calorosa, revelou uma capacidade invulgar de transmitir emoções sem recorrer a excessos, privilegiando antes uma contenção expressiva que se traduziu numa proximidade quase confidencial com o público. Num ambiente descontraído, o concerto desenrolou-se com uma fluidez narrativa notável, cada tema como prolongamento natural do anterior, num equilíbrio subtil entre originalidade e tradição.

Acompanhada ao piano por Edu Sangirardi e com Pedro Santos na bateria, Anna Setton tirou o maior partido de um suporte instrumental simples, mas de uma enorme versatilidade e cumplicidade. O trio destacou-se pela forma como soube trabalhar o espaço e o silêncio, evitando qualquer tentação de virtuosismo gratuito em favor de uma construção sonora coesa, feita de elegância e bom gosto. Depurados e minuciosos, os arranjos permitiram evidenciar tanto a sofisticação harmónica como a riqueza rítmica de temas como “Morena Bonita”, “Ponta de Areia”, “Canto de Aruanda” ou “Revoada”, vertidos com naturalidade numa linguagem jazzística contaminada, no melhor sentido, pelos ecos do xote e do choro, do forró e do baião. Parceiro criativo de longa data, Sangirardi revelou-se peça central na arquitectura do concerto, oferecendo intervenções de grande musicalidade, enquanto o diálogo rítmico com a bateria sustentou com discrição e firmeza a dinâmica do grupo. Nos momentos em que Anna Setton tocou a solo ou pousou a guitarra, a sua presença cénica ganhou uma nova dimensão, mais solta e corporal, aprofundando ainda mais a ligação com o público.

Num registo de elegância discreta e profunda consistência artística, o trio ofereceu um espectáculo que, mais do que impressionar, soube permanecer, prendendo o público pela qualidade e sensibilidade das interpretações. Cuidadosamente escolhido, o repertório percorreu temas originais dos três álbuns anteriores da cantora (e do próximo que está quase a chegar), para além de revisitar clássicos como “É Preciso Perdoar”, “Carinhoso”, “Chega de Saudade” ou “Chovendo na Roseira”. No balanço entre temas originais de Anna Setton e Edu Sangirardi, o calor das composições de João Gilberto, António Carlos Jobim ou Pixinguinha e a sugestão doce e delicada de vozes como as de Chico Buarque, Elis Regina ou Ivan Lins, o público foi conduzido por uma experiência sensorial onde a emoção se impôs pela via do tom e do ritmo, da nuance e da interpretação. Mais do que revisitar a tradição, Anna Setton soube inscrevê-la numa contemporaneidade subtil, memória e reinvenção de mãos dadas numa clara afirmação de identidade. Um belo momento inaugural do Ovar em Jazz, a confirmar a pertinência da inclusão da artista no cartaz do festival e a colocar bem alto a fasquia para as noites seguintes.

terça-feira, 7 de abril de 2026

CERTAME: Ovar em Jazz 2026



CERTAME: Ovar em Jazz 2026
Com | Anna Setton Quartet, Carlos Bica Quarteto, Marius Preda, Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal com John O'Gallagher
Centro de Artes de Ovar
08 > 11 Abr 2026


A partir de amanhã, e até ao próximo sábado, a cidade de Ovar volta a ser o epicentro do jazz nacional com a chegada do Ovar em Jazz, este ano a cumprir a sua oitava edição. Capaz de projectar a cidade no circuito internacional e de atrair tanto nomes consagrados como novas propostas artísticas, o festival recebeu, ao longo das suas anteriores edições, nomes como os de Amaro Freitas, Ricardo Toscano, Mário Costa, Marc Ribot, João Lencastre, Carmen Souza, Abe Rábade, Hugo Carvalhais, Carlos Bica, Andy Sheppard, Stefano Battaglia, Maria João, Danilo Pérez ou Tigran Hamasyan, entre muitos outros. Espelhando a sua consistência e ambição artística, prepara-se agora para mais quatro dias do melhor jazz, afirmando-se como um espaço de encontro entre a tradição e a vanguarda. Sob o lema “Jazz sem Fronteiras”, o certame volta a apostar no cruzamento de linguagens, geografias e gerações musicais, propondo, mais do que uma sucessão de concertos, uma experiência imersiva que se irá desdobrar entre Auditório, Caixa de Palco e Bar do Centro de Artes, envolvendo o público numa vivência plural e contínua.

À semelhança dos anos anteriores, a edição de 2026 mantém uma elevada linha de exigência, apresentando um cartaz que cruza nomes nacionais e internacionais de reconhecido mérito. Entre os destaques encontra-se o virtuoso romeno Marius Preda, que vamos poder ouvir na noite de sexta feira e que traz ao festival o projecto “Phenomenon”, síntese de mais de três décadas de carreira, onde o címbalo ganha protagonismo num diálogo entre tradição clássica, influências folk e improvisação contemporânea. A abrir o certame, já esta quarta feira, a cantora brasileira Anna Setton marca presença com um quarteto que funde jazz com bossa nova e MPB, num registo sofisticado e luminoso. Carlos Bica regressa ao festival com “11:11”, projecto de forte identidade melódica e intensidade expressiva, reafirmando o seu lugar como uma das figuras maiores do jazz português. Também a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal regressa ao festival, desta vez na companhia do saxofonista nova-iorquino John O’Gallagher, num encontro que cruza tradição e contemporaneidade e que promete encerrar em beleza esta edição do certame.

Para além dos concertos em sala, o Ovar em Jazz expande-se pelos mais diversos espaços do Centro de Artes, incorporando a gravação ao vivo do programa “Notas Azuis”, da Antena 3, com curadoria de Rui Miguel Abreu, bem como DJ sets, mostras de vinil e projectos emergentes. Iniciativas como o Ovar Jazz Collective, orientado por João Martins, reforçam a aposta na criação e valorização do talento local, estabelecendo pontes entre formação e performance. Ao mesmo tempo, propostas como Mantis, Fourward ou Oxímoro evidenciam a vitalidade de uma cena que recusa fronteiras estilísticas e procura novas formas de expressão. Neste equilíbrio entre memória e experimentação, o festival prossegue o seu trajecto de afirmação como espaço singular de liberdade criativa e de encontro cultural, entendendo o jazz não apenas como género musical, mas como linguagem aberta e em permanente transformação. O programa completo pode ser consultado na página Ovar/Cultura, em https://cultura.cm-ovar.pt/pt/menu/734/ovar-em-jazz.aspx. Até jazz!

domingo, 13 de abril de 2025

CONCERTO: "Abundância" | Maria João



CONCERTO: “Abundância” | Maria João
Com | Maria João (voz), João Farinha (teclados), André Nascimento (sintetizadores), Texito Langa (bateria), Mariana Brissos (voz), Inês Almeida (voz), Mariana Silveira Ramos (voz)
Ovar em Jazz 2025
Centro de Artes de Ovar
12 Abr 2025 | sab | 21:30


O Ovar em Jazz 2025 fechou as contas sob o signo da abundância. Abundância de momentos musicais únicos e irrepetíveis, de sonoridades novas e fascinantes, de encontros ricos em conhecimento e partilha. Abundância de emoções, sorrisos e abraços num público que cresce ano após ano e se mostra grato pelo valor de uma programação com tudo para agradar a todos. Abundância na qualidade e competência de uma organização dedicada e que, nos quatro dias do evento, dá o seu melhor para que a festa aconteça dentro e fora dos palcos. Abundância, enfim, porque assim se chama o último trabalho de Maria João, estrela maior da nossa música, e cuja apresentação teve honras de encerrar o Festival, em estreia mundial e com gravação pela televisão pública. Com uma proposta destas, não é de estranhar que o Centro de Artes de Ovar voltasse a esgotar a sua lotação, em mais uma noite memorável, no convite à viagem por paragens meridionais, os sons e tons de Moçambique a oferecerem-se na voz e no gesto por Maria João, nas suas mais variadas dimensões: fortes, quentes, densos, intensos, impressivos!

Antes mesmo de iniciar a apresentação do seu novíssimo trabalho, ao lado de João Farinha e André Nascimento, Maria João interpretou o lindíssimo “Parrots and Lions”, exaltante abraço à natureza e aos valores da tolerância, do respeito e da amizade. Na sua forma única de (en)cantar, Maria João tem neste tema o exemplo acabado da sua extraordinária técnica vocal, à qual acrescenta uma natural expressividade, capazes de transformar o diálogo improvável entre um leão e um papagaio numa obra de arte doce e carinhosa. Depois deste momento imersivo no universo da cantora, tudo o que viesse a seguir era lucro. Já com o baterista Texito Langa e um coro composto por Mariana Brissos, Inês Almeida e Mariana Silveira Ramos em palco, “Abundância” fez-se de temas como “Esperança” e “Maputo Jive”, “O Amor é Verdadeiro” e “Beatriz” (incursão simbólica no universo de Edu Lobo e Chico Buarque), “Dário” e “Papalaty”, cânticos de amor aos frutos da terra e ao labor das gentes, ao valor dos ensinamentos que se transmitem de pais para filhos, ao sentimento de pertença e à beleza que reside nas coisas mais simples, a um coração que pulsa entre dois continentes, dois países, Moçambique e Portugal ligados no corpo e na alma.

O mais belo momento da noite surgiu de forma inesperada na voz de Texito Langa, com as sonoridades etéreas de “As tuas Tranças” em pano de fundo. “O amor, uma das palavras mais usadas e pouco compreendidas. Principalmente nestes tempos, em que objectos são amados e pessoas são usadas, quando deviam ser os objectos usados e as pessoas amadas”. O manto de espiritualidade que se vinha estendendo sobre músicos e público desde o início do concerto torna-se denso e macio, aquece e conforta. Rendido ao valor e significado do momento, o público está por tudo. Escuta com devoção cada tema e aplaude intensamente, ri com as provocações de Maria João e embarca em enérgicos exercícios de percussão, acompanhando os ritmos propostos por Texito e agradecendo com um milhão de palmas e sorrisos. “Fiona”, “Ao Sol” e “Dia” são as propostas finais daquilo que constituiu, no seu todo, um abraço à cultura e à tradição de Moçambique, em poemas de José Craveirinha, Dullmea, José Mucavele ou Stewart Sukuma. É tarde e um novo dia irá nascer, trazendo consigo vida nova, renovada esperança. “Near the village, the quiet village, the lion sleeps tonight”.

sábado, 12 de abril de 2025

CONCERTO: "The Bird of a Thousand Voices" | Tigran Hamasyan



CONCERTO: “The Bird of a Thousand Voices” | Tigran Hamasyan
Com | Tigran Hamasyan (piano e voz), Yessaï Karapetian (teclados), Marc Karapetian (baixo e voz) e Matt Garstka (bateria)
Ovar em Jazz 2025
Centro de Artes de Ovar
11 Abr 2025 | sex | 21:30


Sem desprimor para com todos os nomes que integram a programação do Ovar em Jazz 2025, é inegável que a grande figura de cartaz desta sétima edição é, desde a primeira hora, o pianista arménio Tigran Hamasyan. Foi por ele, pelo reconhecido talento, pelo vigor das suas abordagens musicais, pela exploração dos sons contrastantes da rica tradição do folclore arménio e pela mistura explosiva de um jazz dinâmico com um rock progressivo, que o Centro de Artes de Ovar esgotou a sua lotação para uma noite de festa e de celebração verdadeiramente única. Inspirado num conto ancestral arménio, “The Bird of a Thousand Voices” é uma viagem através de um mundo corrosivo, tumultuoso e ameaçador, nessa busca incessante pela paz e pela harmonia. Longa e difícil, a jornada surge recheada de conflitos, desigualdades e cataclismos, os quais, como se dos níveis de um jogo se tratasse, importa ultrapassar. Envolta pela extraordinária música de Tigran Hamasyan, a história é desvendada graças a um conjunto de melodias e ritmos exóticos, deixando perceber, nas muitas camadas que encerra, todo um substrato de novos mundos que importa explorar.

Um pássaro, mil vozes. É na jóia do Cáucaso, onde culturas milenares se cruzam e os conflitos parecem não ter fim, que encontramos este pássaro mítico, o único capaz de pôr fim à maldição que pesa sobre um Rei cuja generosidade deu a ver a maldade e a ganância do seu povo. O filho mais novo do Rei acabará por trazer consigo o tão ansiado pássaro, fazendo com que a maldição seja quebrada, mas muita coisa acabará por se perder pelo do caminho. Tigran Hamasyan socorre-se de uma história muito bela para, de forma metafórica, alertar para a crise que assola a humanidade e apelar à construção de um mundo melhor e mais justo. Debruçado sobre as teclas do piano, fundido com as sonoridades que dele extrai, o músico constrói delicados motivos de filigrana que se repetem e evoluem, ao mesmo tempo emprestando a voz a um conjunto de frases musicais que parecem fazer parte da tradição oral, como se de uma canção de embalar se tratasse. O efeito sobre o público é imediato, cativando pela beleza envolvente das melodias, emocionando pelos interlúdios contrastantes que se elevam do piano.

Entre a apreensão e o medo, o desembaraço e a audácia, a coragem e a amizade, a persistência e o amor, nem tudo serão rosas ao longo da caminhada. É espantosa a técnica de Hamasyan, criando momentos dissonantes que mimetizam as emoções e instalam a inquietação e a dúvida. O mesmo sucede com os restantes elementos da banda, em total concordância com a música e o desenrolar da história. Temas como “The Curse”, “The Quest Begins”, “Areg's Calling” e “Areg and Manushak” abrem-nos esse mundo pós-apocalíptico, no qual nos movemos pesadamente à procura de salvação. “Red, White and Black Worlds”, “Prophecy of Sacrifice, “He Refuses to be Immortal”e “Forty Days in the Realm of the Bottomless Eye” são a afirmação de uma obra de arte total. De forma épica, o conto de fadas chegará ao fim com “Flaming Horse”, “Only the One who Brought the Bird can make it Sing” e “The Kingdom”, o derradeiro “The Well of Death and Resurrection” como um mais que merecido “repouso do guerreiro”. Não demasiadamente explícita, a mensagem política está lá. Graças aos Putins e aos Trumps deste mundo, importa dizer que ninguém está a salvo e disto nos fala Tigran Hamasyan. Disto e da necessidade urgente de quebrar todas as maldições que pesam sobre a Humanidade.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

CONCERTO: "Concavexo" | NoA (trio)



CONCERTO: "Concavexo" | NoA (trio)
Com | Nuno Costa (guitarra), Óscar Marcelino da Graça (piano), André Sousa Machado (bateria) e Rão Kyao (flauta)
Ovar em Jazz 2025
Centro de Artes de Ovar
10 Abr 2025 | qui | 21:30


Surfar uma onda na Nazaré ou dar umas braçadas nas cálidas águas do Barril ou da Manta Rota? Ele há momentos para tudo, mas a questão não pode deixar de se colocar a propósito dos concertos que preencheram a primeira metade do Ovar em Jazz 2025. Se “Free Celebration”, de João Lencastre, foi essa descida vertiginosa de uma parede líquida, a onda a crescer e a rugir atrás de nós com a força de um milhão de cavalos, “Concavexo”, do NoA (trio) é aquela banhoca relaxada entre dois dedos de conversa ou o levantar os olhos de um livro da Bonnie Garmus. É tudo uma questão de adrenalina. Não é que a banhoca seja um contratempo ou um frete, mas pouco diz, pouco acrescenta, a uma tarde morna. Da mesma forma que dos NoA (trio) e da sua passagem por Ovar, daquilo que puderam (ou souberam) acrescentar a este particular festival de Jazz, não ficará para a história grande coisa. “Agora vamos tocar Jazz”, disse Nuno Costa, guitarrista da banda e cicerone de serviço, no momento que antecedeu um forçado segundo “encore”, já com o público a abandonar a sala. Mas agora, caro Nuno, “agora é tarde, Inês é morta”. Ainda assim, louve-se a franqueza. Afinal, “quem diz a verdade não merece castigo”.

Não foi, portanto, um concerto ao qual possamos chamar “de jazz”, por muito amplo que possa ser um “saco” onde (quase) tudo parece caber. Se nos conseguirmos abstrair deste facto, forçoso será reconhecer que também não foi um mau concerto. Acompanhadas de um atabalhoado trocar de guitarras, as palavras iniciais de Nuno Costa serviram para apresentar a banda - do Óscar (Marcelino da Graça), o senhor do piano, ao André (Sousa Machado), o senhor da bateria -, falar das suas origens e de uma carreira onde se incluem dois trabalhos discográficos, “Evidentualmente” (2020) e “Concavexo” (2022). Deste último escutou-se “Zás Trás!!”, a abrir o concerto, seguido de “Batista” e “Inquieto”, com “Valéria”, do primeiro álbum, de permeio. Com quase meia hora de concerto, as primeiras impressões levam a música dos NoA (trio) para um universo que se alimenta da pop e do rock em partes iguais. Elegante, a música não se furta a assumir a matriz inicial de uma banda que começou como um grupo de amigos, há treze anos, “a tocar nuns sunsets de praia, para nos divertirmos”. Se vista pela óptica da harmonia de conjunto, parece haver ali André Sousa Machado a mais e Óscar Marcelino da Graça a menos. Pelo menos a julgar pelo que deles conhecemos (e que tanto apreciamos) de outros projectos.

O grande momento da noite impõe-se com a chegada de Rão Kyao, um amigo que emprestou a sua colaboração à feitura de “Concavexo”. Que não restem dúvidas que foi por ele que a casa se apresentou tão bem composta, o público a fazer questão de mostrar o seu apreço a quem tanto vem acrescentado ao panorama musical português nos últimos cinquenta anos. Não defraudando os fãs, foi ele que soube impor a sua enorme técnica e virtuosismo em “Dança Ritual do Zambeze” e Passadas do Daitya”, dois temas da sua autoria que fazem parte do álbum “Aventuras da Alma” (2021) e também em “Por Shankar”, outro tema seu de “Coisas que a gente sente”, trabalho discográfico de 2012. Torna-se evidente a enorme afinidade que a sua música tem com sonoridades que remetem para a Índia, ponto fulcral de uma obra quase inteiramente dedicada à redescoberta do elo perdido entre a música portuguesa e a música do oriente. “Circo do Oriente”, um tema dos NoA (trio) de tributo a Rão Kyao surge neste contexto, acabando por se assumir como o mais belo momento do concerto. Em jeito de homenagem a Zeca Afonso, escutámos “Os Índios da Meia-Praia”, sendo justo reconhecer a genialidade de Rão Kyao, com uns breves apontamentos finais, a acrescentar-lhe vida e colorido. Enfim, “All the things you are”, standard com a assinatura de Jerome Kern, foi aquele momento de jazz fora de horas, que já nada veio acrescentar.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

CONCERTO: "Free Celebration" | João Lencastre



CONCERTO: “Free Celebration” | João Lencastre
Com | João Lencastre (bateria), Ricardo Toscano (saxofone alto), Pedro Branco (guitarra), João Bernardo (teclados e sintetizadores), Nelson Cascais (contrabaixo) e João Pereira (bateria)
Ovar em Jazz 2025
Centro de Artes de Ovar - Caixa de Palco
09 Abr 2025 | qua | 21:30


Depois de ter ousado revelar-se ao mundo em 2018, o Ovar em Jazz é hoje uma história de sucesso. Sete anos volvidos sobre esse momento inaugural, percebe-se que são muitas as apostas ganhas e reconhece-se o trabalho consistente que foi sendo desenvolvido e que faz com que ele seja hoje um dos mais apelativos e bem organizados Festivais de Jazz do país. Agora que está de volta, trazendo consigo, ao longo de quatro intensos dias, uma nova rodada de concertos, encontros, conversas, escuta e partilha, o certame abre-se de novo aos mais diversificados públicos, oferecendo a possibilidade de experimentar e vivenciar momentos únicos de gozo e fruição da melhor música. O pontapé de saída desta sétima edição teve lugar na noite de ontem com o projecto “Free Celebration”, do baterista João Lencastre, e que juntou em palco, para além do seu mentor, algumas das mais importantes figuras da cena jazzística nacional: Ricardo Toscano (saxofone alto), Pedro Branco (guitarra), João Bernardo (teclados e sintetizadores), Nelson Cascais (contrabaixo) e João Pereira (bateria). Foram eles que, no ambiente intimista da caixa de palco do Centro de Artes de Ovar, fizeram desta uma noite inesquecível, de liberdade e celebração.

Liberdade e celebração. Na força dos pressupostos que se abrigam nos dois conceitos reside a força do projecto de João Lencastre. Celebração, porque se trata de abraçar a música do saxofonista Ornette Coleman e dos pianistas Herbie Nichols e Thelonious Monk, estrelas maiores do firmamento do Jazz, no respeito pela verdadeira identidade das várias composições. A liberdade vem da abordagem a alguns dos temas referenciais deste trio de gigantes, fundada na veia criativa do sexteto, na capacidade de improvisação que a todos une, nas constantes mudanças de ritmo que sabem imprimir à música, no bom gosto dos arranjos coloridos e vibrantes. Se dúvidas restassem, o momento inteiramente livre que preencheu o início do concerto bastaria para as dissipar. Em modo dissonante, a combinação de solos foi-se “arrumando” num todo harmonioso, mostrando o quanto de intensidade e emoção pode estar contida numa peça de Jazz, sobretudo se é uma daquelas que, ao seu jeito, possui um carácter único e irrepetível. A levar com todo aquele “free” em cima, o público tinha aqui a possibilidade de tomar uma decisão. Entre o “ama-o ou deixa-o”, não se consta que alguém tivesse saído da sala.

Plástica, orgânica e íntegra, a música tomava conta de público e músicos, Ricardo Toscano a mostrar-se em grande forma ao arrancar do seu saxofone alto as mais sedutoras frases com “Giggin’ ” e “Congeniality”, de Ornette Coleman, enquanto João Bernardo a fazer magia com os teclados em “The gig”, de Herbie Nichols. Seguiram-se “Shuffle boil” e “Skippy”, dois temas tão deslumbrantes quanto desafiantes assinados no original por Thelonious Monk, para logo se regressar a Ornette Coleman com “Kathelyn Gray”, uma balada cuja dolência o saxofone de Toscano sublinhou na perfeição, oferecendo o mais delicado, pausado e distendido momento da sessão. Herbie Nichols fez-se de novo ouvir em “The Third World”, mas o melhor estava guardado para o final, com dois temas de Ornette Coleman, “Toy Dance” e “Forerunner”, sublinhados pelo diálogo contrastante entre as baterias de Lencastre e João Pereira e pelo trabalho empolgante de Pedro Branco em cima (e em baixo) da sua guitarra. Sem que os músicos abandonassem o palco, o “encore” trouxe-nos “Humph” de Thelonious Monk, fazendo dos “descontos” um dos momentos capitais do “jogo”. Jubilatório, exaltante, arrebatador, vivo e livre, o concerto coloca a fasquia do Ovar em Jazz 2025 a um nível muito alto. A coisa promete.

domingo, 21 de abril de 2024

CONCERTO: Amaro Freitas



CONCERTO: Amaro Freitas
Ovar em Jazz 2024
Centro de Arte de Ovar
20 Abr 2024 | sab | 21:30


Não podia ter terminado da melhor forma a sétima edição do Ovar em Jazz. Sozinho em palco com o seu piano, Amaro Freitas ofereceu ao público uma noite inesquecível, fortemente espiritual, num despertar constante de emoções e sensações ao encontro da floresta amazónica e da sua biodiversidade. É lá longe, entre a estridência da vida animal e o cheiro intenso a terra molhada, o brilho da lua nas várzeas e a delicadeza da flor do aguapé, o encontro das águas e o poder incandescente dos espíritos encantados, que o compositor e pianista parte à descoberta de um novo reino de criação musical. Da impressiva exuberância da vida selvagem e do forte sentimento de pertença que as comunidades indígenas nutrem pela terra, nasce “Y’Y” (pronuncia-se “eey-eh, eey-eh”), o seu mais recente trabalho discográfico, no qual o artista rende homenagem à floresta e aos rios, num convite a “viver, sentir, respeitar e cuidar da natureza, reconhecendo-a como nosso ancestral”. Um disco que é também “um alerta para a necessidade de estarmos conscientes do impacto que causamos, a partir dos conceitos de civilização e modernidade que nos afastam dessa conexão, e da sua importância para o equilíbrio da vida no planeta”.

Fazem-se ouvir as primeiras notas e já os sentidos se apuram na certeza de esta poder vir a ser uma experiência única e irrepetível. Buscamos o Jazz, mas ele mostra-se esquivo, percebendo-se a espaços uma pitada de avant-jazz ou uma frase com ritmos do Caribe. Procuramos o Contemporâneo, mas é o Clássico que se impõe, em rigor e delicadeza. Julgamos abraçar o experimental, numa dimensão minimalista, mas é na música de raíz étnica, feita de magia e encanto, que desaguamos. Uma música que quebra os preconceitos e questiona as noções daquilo que o Jazz pode (ou deve) ser. Qualquer tentativa de classificar a música de Amaro Freitas esbarra na multiplicidade de texturas que a compõem, nos sons que são ecos, num piano preparado que se transforma em tamborim ou berimbau, numa kalimba que é gota de chuva ou grito da selva. Deixarmo-nos levar nas asas do sonho e do encanto é a solução. Fechemos, pois, os olhos e aceitemos os espíritos poderosos que voam ao nosso encontro. Sucedem-se os ritmos e harmonias complexas e é natural perguntarmo-nos como é possível tocar em dois compassos diferentes, um em cada mão. Terá Amaro Freitas dois cérebros?

Se com o anterior “Sankofa”, o pianista apostava na recuperação de um mundo ancestral, usando as lições do passado como farol no esforço de seguir em frente, agora, com “Y’Y” (uma palavra do dialeto Sateré Mawé, um código indígena ancestral que significa “água” ou “rio”), é possível ver temas que não são falados em português ou inglês, mas que fazem parte da construção de um conceito social solidamente entrosado. Daí que não espante a sua opção de entrelaçar neste projecto, tão significativamente, os conhecimentos mais antigos. Isto torna-se particularmente evidente no tema que dá nome ao concerto e que procura traduzir a força ancestral do encontro das águas dos rios Negro e Solimões em dois movimentos opostos, as vocalizações carregadas de eco a soarem como cânticos do passado. Tema final do alinhamento, “Gloriosa” - uma homenagem a Rosilda, a mãe de Amaro Freitas, suporte e fonte de inspiração musical desde a infância - teve o condão de juntar ao piano as vozes do público, num momento de espiritualidade e cumplicidade maior. Público que, com as gargantas afinadas, reclamou um “encore” no qual as vozes voltaram a ser postas à prova. O final perfeito de um Ovar em Jazz mais consolidado, mais forte, mais livre e vivo. Um Ovar em Jazz maior!

[Foto: Ovar/Cultura]

sábado, 20 de abril de 2024

CONCERTO: Abe Rábade



CONCERTO: Abe Rábade
Ovar em Jazz 2024
Centro de Arte de Ovar
19 Abr 2024 | sex | 21:30


A preencher a terceira noite do Ovar em Jazz, Abe Rábade trouxe ao Centro de Artes os sons da Galiza. Entre a magia de uma música de raiz celta e a versatilidade e originalidade que caracterizam o próprio Jazz, o músico e a sua banda abriram clareiras por entre as árvores que povoam os bosques do Noroeste peninsular, apontando aos espaços onde se fundem a ancestralidade e o presente, o místico e o pragmático, o rural e o urbano. Colhendo a inspiração na vegetação autóctone da Galiza, “como um prolongamento das nossas emoções e intuições”, o pianista e compositor de Santiago de Compostela abraçou o projecto “Botánica” e fez questão de presentear o público com um conjunto de temas extraídos deste que é o seu décimo quinto álbum de estúdio em nome próprio. Sobre o palco, além de Rábade, estiveram Davide Salvado na voz e percussões, Daniel Juárez no saxofone tenor, Virxilio da Silva na guitarra, Ton Risco no vibrafone, Jimena Andión no violoncelo, Alejandra López no contrabaixo, Naíma Acuña na bateria e ainda o bailador Miguel Pardo de Castro. Foi este grupo artístico heterogéneo que fez do tempo do concerto um tempo de integração de estéticas musicais e de exploração rítmica e melódica descomplexada e livre. O público gostou.

Um “díptico” inspirado na bétula, ou vidoeiro - árvore cujo tronco é de “um branco quase espectral e com uma folha muito pequenina, muito cantarina” -, abriu o concerto, funcionando como uma espécie de resumo daquilo que iríamos escutar. Mas se a árvore que servia de ponto de partida era a mesma, as músicas mostraram-se tão diferentes entre si como o Inverno do Verão. “Menciñeira Nua” é um tema intimamente ligado à chamada música celta, um género inscrito na world music, ao passo que “Vestida de Bop” vai beber a sua essência às fontes clássicas do Jazz. Este último tema, o mais longo do concerto com os seus doze minutos, teve ainda o condão de “apresentar” os músicos e a sua qualidade instrumental, em solos onde a classe e o virtuosismo de Daniel Juárez, Ton Risco e Virxilio da Silva, sobretudo estes, veio ao de cima. No seu todo, o concerto viria a alternar entre os dois géneros, ora mostrados na sua forma mais genuína e pura, ora correndo ao longo de uma linha de fronteira nem sempre distinguível, misturando-os e confundindo em composições com tanto de refrescante como de vivo e livre.

Firmados os pressupostos, prosseguimos a viagem sobrevoando um bosque de freixos - “cantarei pola túa vida / tu que bailas con bo xeito / de meniño que me miras / entre as poliñas do freixo” - rumo à Serra do Courel e à Devesa da Rogueira. É desse lugar mágico e da sua vegetação que Abe Rábade extrai uma espécie de “suite” onde cabem o Narciso e a Faia, o Castanheiro e o Teixo, numa alusão clara ao ciclo da vida e ao conhecimento que vamos adquirindo com o passar do tempo. Entre os ramos do salgueiro e as folhas do sobreiro, o concerto prosseguiu numa espécie de adoração aos quatro elementos, com a mensagem implícita de uma natureza ameaçada que cabe a todos defender e preservar. Termino dizendo que é legítimo que cada um queira para si o melhor de dois mundos, mesmo sabendo que, as mais das vezes, isso é impossível. A abordagem conjunta a dois géneros que, embora próximos entre si, têm características próprias e fortemente vincadas, faz com que este projecto corra o risco de não agradar “nem a gregos nem a troianos”. Por mim, grego ou troiano que seja, gostaria de ter visto mais Jazz na noite de ontem. Mas não me posso queixar, já que os momentos ligados ao género de forma mais íntima foram preciosos.

[Foto: Ovar/Cultura]

sexta-feira, 19 de abril de 2024

CONCERTO: L. U. M. E.



CONCERTO: L. U. M. E.
Ovar em Jazz 2024
Centro de Arte de Ovar
18 Abr 2024 | qui | 21:30


Nascido em 2006 da vontade e do crer de Marco Barroso, o projecto L.U.M.E. (Lisbon Underground Music Ensemble) preencheu o programa da segunda noite do Ovar em Jazz 2024. Atendendo à presença em palco de quinze instrumentistas, é legitimo pensar que esta foi “a noite da big band”, o que não deixa de ser verdade. Mas aquilo que o público pôde escutar foi um agrupamento que ostenta a particularidade de saber distanciar-se dos padrões convencionais do “bigbandismo”, reformulando-lhe o património natural e alargando os seus horizontes ao acrescentar-lhe estéticas novas, assentes na irreverência da abordagem e nos ritmos não lineares. Original, provocadora e desafiante, a música do L. U. M. E. revelou-se um deslocar constante entre a dramatização, muitas vezes irónica, das práticas e vocabulários do jazz, e o experimentalismo, numa espécie de caleidoscópio onde se percebe a efervescência criativa do ensemble nessa tensão constante entre a composição e o improviso.

A surpresa foi a nota dominante nos momentos iniciais do concerto. Sobretudo para aqueles que tiveram o privilégio de assistir à primeira noite do Ovar em Jazz, a “mudança de chip” foi tudo menos fácil. Passar da caixa de palco para [uma música] “fora da caixa” levou a que a adesão não fosse imediata – Mário Barroso chegou mesmo a dizer, não sem uma pontinha de ironia, que “este público não vai lá com duas cantigas” – e entre o estranhamento o entranhamento, o concerto terá merecido as mais diversas apreciações. Já com algum distanciamento, a avaliação que se faz acaba por ser muito positiva e, se falei de estranhamento, a conclusão é que foi um estranhamento bom. “L.U.M.E. que arde sem se ver”, a música soube assentar, acabando por se impor e deixar a certeza de que o tempo do concerto não foi perdido. Enérgica e atrevida, foi direita aos sentidos, num apelo ao sinesteta que há em cada um de nós. E desfez-se em gosto e em gesto, em raios de luz e pele de galinha.

A apresentar “Las Californias”, o seu mais recente trabalho discográfico, o projecto L. U. M. E. fez incidir no novo disco os três primeiros temas interpretados. Impulsionados pela bateria de Diogo Alexandre, os músicos impuseram a sua individualidade, chegando a ser desconcertante a forma como cada um contribui com a sua autonomia e rigor para um resultado de conjunto refrescante e livre. O solo inaugural de Tomás Marques, um prolongado grito do seu saxofone alto, pode servir de mote aos vários solos que se lhe seguiram em temas posteriores, com destaque para as prestações de João Silva (trompete), Rúben da Luz (trombone), Gonçalo Prazeres (saxofone tenor), Paulo Gaspar (clarinete) e, claro, Marco Barroso (piano). Sequência de pequenas peças, “AM fantasies” trouxe-nos os primórdios do jazz, Dr. Tulp ofereceu-nos (a “violência gráfica” de) uma aula de anatomia e “Freestyle boogie” e “Lux”, recuperados do extraordinário álbum de estreia, foram momentos de ritmo e energia contagiantes. “Bugalu”, já no encore, fechou da melhor forma uma noite que não deixou ninguém indiferente.

[Foto: Ovar/Cultura]

quinta-feira, 18 de abril de 2024

CONCERTO: Mário Costa Quarteto



CONCERTO: Mário Costa Quarteto
Ovar em Jazz 2024
Centro de Arte de Ovar
17 Abr 2024 | qua | 21:30


O Ovar em Jazz está de regresso com a sua sétima edição. Assente numa programação diversificada e de enorme qualidade, que o vem consolidando como um dos grandes eventos do género no nosso país, o Festival volta a oferecer, ao longo de quatro dias, um conjunto de momentos fortemente alicerçados no melhor que o Jazz pode oferecer, combinando a aprendizagem com a experimentação, a escuta com a festa e a celebração. O “pontapé de saída” foi dado na noite de ontem, cabendo ao Mário Costa Quarteto o momento inaugural com a chamada para primeiro plano de “Chromosome”, o mais recente trabalho discográfico do agrupamento. Depois dos merecidos elogios ao seu álbum de estreia “Oxy Patina” – considerado pela Jazz.pt como o “melhor disco de jazz nacional” em 2018 –, e da recente nomeação de “Chromosome” para os Prémios Play na categoria de Melhor Álbum de Jazz, este concerto era aguardado com natural expectativa e o mínimo que se pode dizer é que não defraudou os presentes, saldando-se por uma extraordinária noite.

Partilhando com os músicos o intimismo da caixa de palco do Centro de Arte de Ovar, o público teve a oportunidade, desde os momentos iniciais, de perceber a noção de “cromossoma” que subjaz ao título do concerto e do álbum. Gileno Santana no trompete, Benoît Delbecq no piano, sintetizadores e samplers, Bruno Chevillon no contrabaixo e Mário Costa na bateria, fizeram questão de mostrar as formas e cores do material genético que incorpora a sua música, dissecando, nas componentes estruturais, o ritmo e a harmonia, pondo em evidência a “tetraploidia” que é, neles, sinónimo de cumplicidade, e fazendo dos emparelhamentos, translocações e crossovers entre si, momentos de intimidade e liberdade, prazer e fruição. Ao rigor e talento da sua escrita, junta Mário Costa o cuidado pelas particularidades de cada um dos músicos, o respeito pela sua individualidade, o valor do seu ADN, material genético onde a ousadia se combina com a irreverência, a subtileza com a elegância, a versatilidade com a espontaneidade e a genialidade.

Sem território definido, entre o clássico e a vanguarda, o swing e o experimental, com uma não desprezível componente electrónica e um piscar de olho ao rock, o concerto começou por propor uma viagem em águas abertas ao encontro de um tremendo “Adamastor”. Com Mário Costa ao leme, dobrada a tormenta, foi o Pacífico que se abriu à nossa frente, numa subversão geográfica, uma daquelas excentricidades metafóricas que fazem parte do ADN do próprio Jazz. O trompete de Santana conduziu-nos às ilhas “Moluccas” e daí seguimos até à Lua, experimentando a gravidade zero de “Moonwalk”, impulsionados por Chevillon e pelo seu contrabaixo em registo minimalista. Descemos então à terra, ao corpo, ao núcleo do núcleo da célula e percebemos a maravilhosa diversidade de “Chromosome”. Enfim, tocados pelo melodrama, contemplámos a tenda de circo remendada, os palhaços tristes e o amor impossível do trapezista por “Victoria”, a rapariga de tranças que vende bilhetes, chupa-chupas e batatas fritas. Fazendo a ponte com o ábum anterior, “Erosion” fechou a noite da melhor forma. Um concerto memorável, que podemos classificar numa palavra apenas: Perfeição!

[Foto: Ovar/Cultura]

domingo, 23 de abril de 2023

CONCERTO: Maria Mendes & Orquestra Filarmonia das Beiras



CONCERTO: Maria Mendes & Orquestra Filarmonia das Beiras
Direcção | António Vassalo Lourenço
Ovar em Jazz 2023
Centro de Arte de Ovar
22 Abr 2023 | sab | 21:30


Em ambiente de grande festa e celebração da música, chegou ao fim a quinta edição do Ovar em Jazz. Uma edição que, à semelhança das anteriores, fica marcada pelo ecletismo das suas propostas, pela variedade de abordagens ao jazz e pela qualidade intrínseca dos momentos vividos entre o palco do Centro de Arte de Ovar, o bar do CAO e a Escola de Artes e Ofícios. Na mente fica, em jeito de balanço, uma forte aposta na fusão de géneros e expressões artísticas como elemento comum aos vários concertos, o jazz como pólo aglutinador de interesses e vontades, a sua enorme plasticidade como campo fértil ao experimentalismo e à inovação. A aposta em nomes como Carmen Souza, Marc Ribot, Maria Mendes, Nuno Trocado & Jorge Louraço Figueira, João Mortágua, Maria João e projecto Fuzzo revelou-se acertada e o público soube corresponder ao esforço da organização, preenchendo os espaços de forma bastante consistente e mostrando-se incansável no momento de aplaudir. O nome do Ovar em Jazz sai reforçado desta edição, as expectativas para 2024 mais elevadas que nunca.

Aclamada pela prestigiada Downbeat como “uma cantora de jazz da mais alta ordem”, única artista portuguesa no feminino a receber uma nomeação para um Grammy americano até à data, Maria Mendes subiu ao palco do Centro de Arte para apresentar “Saudade, Colour of Love”, o seu mais recente trabalho. A acompanhá-la teve os seus músicos habituais - Cédric Hanriot no piano, Jasper Somsen no contrabaixo e Mário Costa na bateria - e ainda a Orquestra Filarmonia das Beiras, dirigida pelo maestro António Vassalo Lourenço. Extraindo do Fado uma quota maior de singularidade e riqueza, bebendo-lhe no mais fundo da alma, a cantora propôs uma abordagem jazzística e sinfónica do género que resultou surpreendente. Uma surpresa que só não foi maior porque “Close To Me”, o seu álbum anterior, já explorava este universo de fusão e dera ensejo a um momento inesquecível na Casa da Criatividade, em S. João da Madeira, em Novembro de 2021. Todavia, a solidez dos arranjos para orquestra, que partilha com o pianista, produtor e orquestrador americano John Beasley, empresta aos temas um inesperado tom de frescura e liberdade, “encorpando-os” com interlúdios sinfónicos de grande harmonia e solos virtuosos e enormemente criativos.

“Há Uma Música do Povo” foi o tema de abertura do concerto e teve o condão de pôr os pontos nos ii desde o primeiro instante. Aqui, o Fado e o Jazz encontram-se para lá das suas próprias fronteiras. Mesmo os puristas do Jazz não desdenharão das propostas, sabendo encontrar nelas méritos firmados nas qualidades vocais de Maria Mendes e na intensidade e emoção que coloca na interpretação de cada tema. Já os amantes do fado, seguramente mais conservadores, mostrar-se-ão renitentes a uma adesão incondicional. De uma coisa estou certo: Ninguém fica indiferente ao cuidado e empenho da cantora em ser veículo da “canção das emoções” e em ampliar o conhecimento dos nossos maiores poetas, de Fernando Pessoa a Luís Vaz de Camões. “Com Que Voz”, “Asas Fechadas” ou “E Se Não For Fado”, juntaram-se a uma composição da própria Maria Mendes, “Fado da Invejosa” e a uma outra de Hermeto Paschoal, “Hermeto’s Fado For Maria”, reafirmando o que atrás foi dito. Entre todas, ficam na memória a primorosa interpretação de “Barco Negro”, num diálogo exclusivo entre voz e piano e “Verdes Anos”, sobre música de Carlos Paredes, peça instrumental cantada em scat e cujo acompanhamento orquestral raiou o sublime. Até já, Ovar em Jazz.