No segundo dia do Ovar em Jazz, o quarteto liderado por Carlos Bica trouxe à Caixa de Palco do Centro de Artes de Ovar a matéria subtil e inquieta de “11:11”, reafirmando ao vivo aquilo que tem sido a minha percepção de incontáveis horas de escuta de um trabalho de 2024: uma música como que suspensa entre a serenidade e a turbulência, no limiar da tempestade. Neste seu regresso a Ovar, mais do que apontar direcções, o genial compositor e instrumentista insinuou-as com um contrabaixo de timbre profundo e contido, conduzindo sem impor, deixando que o discurso emergisse de uma escuta atenta entre os pares. A ausência da bateria - opção formal que poderia sugerir rarefacção - revelou-se antes um campo aberto de respiração colectiva, oferecendo espaço ao tempo para que se dilatasse e reinventasse. Entre “Blue in Grey” e “A Place You will Never See”, o alfa e o ómega de um momento de raro brilhantismo, percebeu-se que a pressa não seria para aqui chamada, a música a avançar pacientemente, a marcar a sua própria cadência, como quem tateia um labirinto e confia que cada desvio contém já o seu próprio sentido.
Esta lógica de deriva controlada encontrou expressão particularmente rica no diálogo entre José Soares, Eduardo Cardinho e Gonçalo Neto, três vozes distintas que recusam protagonismos fáceis em favor de uma construção orgânica do som. Ora espectral, ora incisivo, o saxofone alto de Soares desenhou linhas que pareceram dissolver-se no éter antes de se fixarem plenamente; movido pelo gozo da improvisação, o vibrafone de Cardinho impôs-se com uma luminosidade difusa, quase táctil, enquanto a guitarra de Neto oscilou entre a delicadeza folk, um baixo contínuo sussurrado e poderosas inflexões de natureza angular. Estas interacções alcançaram uma dimensão física de enorme fôlego, uma organicidade feita de imaginação e rigor, cada gesto sonoro como que nascido de um silêncio partilhado, a sublinhanr a ideia de que ninguém força nada e tudo acontece no tempo certo. O resultado foi um concerto de um magnetismo lento, hipnotizante, capaz de envolver o público numa teia de subtilezas e paixões.
Se em disco “11:11” já se afirmava como um dos trabalhos mais marcantes do jazz português recente, em Ovar revelou-se ainda mais como um objecto vivo, em permanente mutação. A dramaturgia das composições - esse encadeamento quase invisível de atmosferas - ganhou uma clareza particular em palco, temas como “Lucky”, “Pentimenti”, “Paris” ou os formidáveis “Roots” e “11:11” a sucederem-se numa lógica de sofisticação e bom gosto, como anéis de crescimento numa árvore milenar, imagem tantas vezes associada ao percurso de Bica. Houve momentos de maior densidade, mas nunca explosivos; houve picos de intensidade emocional que se insinuaram para depois recuar, deixando um rasto luminoso e persistente. No final, ficou a sensação de termos assistido não tanto a um concerto, mas a um processo: uma música capaz de se construir enquanto acontece, fiel a uma estética de equilíbrio entre o individual e o colectivo, entre o rigor composicional e a liberdade improvisada. Nesse espaço intermédio, raro e exigente, o quarteto de Carlos Bica foi estrela fulgurante no firmamento do Ovar em Jazz 2026. Só faltou “A Noite” para que a noite fosse absolutamente perfeita; mas isso já são outros “quinhentos”.
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