A abertura do Ovar em Jazz 2026 ficou marcada por um concerto de assinalável coerência estética e rara delicadeza expressiva, protagonizado por Anna Setton. A viver há três anos no nosso país, a cantora e compositora brasileira apresentou-se no ambiente intimista da Caixa de Palco do Centro de Artes de Ovar exibindo uma maturidade artística consolidada ao longo de mais de uma década e meia de um percurso que cruza o jazz, a bossa nova e a MPB. Desde “Sim”, sugestivo tema de abertura de um concerto afirmativo a muitos títulos, tornou-se evidente a solidez de uma linguagem própria, construída tanto na vivência dos clubes de São Paulo como na experiência internacional ao lado de nomes maiores da música brasileira. A sua voz timbrada, aconchegante e calorosa, revelou uma capacidade invulgar de transmitir emoções sem recorrer a excessos, privilegiando antes uma contenção expressiva que se traduziu numa proximidade quase confidencial com o público. Num ambiente descontraído, o concerto desenrolou-se com uma fluidez narrativa notável, cada tema como prolongamento natural do anterior, num equilíbrio subtil entre originalidade e tradição.
Acompanhada ao piano por Edu Sangirardi e com Pedro Santos na bateria, Anna Setton tirou o maior partido de um suporte instrumental simples, mas de uma enorme versatilidade e cumplicidade. O trio destacou-se pela forma como soube trabalhar o espaço e o silêncio, evitando qualquer tentação de virtuosismo gratuito em favor de uma construção sonora coesa, feita de elegância e bom gosto. Depurados e minuciosos, os arranjos permitiram evidenciar tanto a sofisticação harmónica como a riqueza rítmica de temas como “Morena Bonita”, “Ponta de Areia”, “Canto de Aruanda” ou “Revoada”, vertidos com naturalidade numa linguagem jazzística contaminada, no melhor sentido, pelos ecos do xote e do choro, do forró e do baião. Parceiro criativo de longa data, Sangirardi revelou-se peça central na arquitectura do concerto, oferecendo intervenções de grande musicalidade, enquanto o diálogo rítmico com a bateria sustentou com discrição e firmeza a dinâmica do grupo. Nos momentos em que Anna Setton tocou a solo ou pousou a guitarra, a sua presença cénica ganhou uma nova dimensão, mais solta e corporal, aprofundando ainda mais a ligação com o público.
Num registo de elegância discreta e profunda consistência artística, o trio ofereceu um espectáculo que, mais do que impressionar, soube permanecer, prendendo o público pela qualidade e sensibilidade das interpretações. Cuidadosamente escolhido, o repertório percorreu temas originais dos três álbuns anteriores da cantora (e do próximo que está quase a chegar), para além de revisitar clássicos como “É Preciso Perdoar”, “Carinhoso”, “Chega de Saudade” ou “Chovendo na Roseira”. No balanço entre temas originais de Anna Setton e Edu Sangirardi, o calor das composições de João Gilberto, António Carlos Jobim ou Pixinguinha e a sugestão doce e delicada de vozes como as de Chico Buarque, Elis Regina ou Ivan Lins, o público foi conduzido por uma experiência sensorial onde a emoção se impôs pela via do tom e do ritmo, da nuance e da interpretação. Mais do que revisitar a tradição, Anna Setton soube inscrevê-la numa contemporaneidade subtil, memória e reinvenção de mãos dadas numa clara afirmação de identidade. Um belo momento inaugural do Ovar em Jazz, a confirmar a pertinência da inclusão da artista no cartaz do festival e a colocar bem alto a fasquia para as noites seguintes.
Sem comentários:
Enviar um comentário