LUGARES: Sacra Capilla del Salvador
Plaza Vásquez de Molina, Úbeda
Horários | De segunda-feira a sábado, das 09h30 às 14h30 e das 16h30 às 20h00; domingos, das 12h00 às 14h30 e das 16h30 às 20h00
Ingressos | € 7,00, bilhete normal
Perante a magnífica Capela do Salvador, em Úbeda, é inevitável que o visitante se interrogue sobre o monumental edifício que tem à sua frente. Não se trata apenas de uma jóia renascentista, antes de uma igreja através da qual Francisco de los Cobos quis contar a sua própria história. Façamos o exercício de imaginar a cidade medieval que foi a Úbeda do século XVI, apertada entre ruas e casas erguidas de forma desordenada e, entre os seus habitantes, este homem que, vindo de uma família fidalga mas sem grande fortuna, irá ascender ao lugar de secretário principal de Carlos V, seu conselheiro e homem da maior confiança. Quando viaja com o Imperador por Itália, Cobos descobre uma arquitectura nova, inspirada na Antiguidade clássica, e percebe que o poder também se demonstra através da pedra. Começa então a transformar uma zona da cidade que lhe é particularmente querida: amplia o palácio familiar, intervém no hospital e decide erguer aqui o seu enorme panteão. Se repararmos na posição da Capela, vemos que está isolada, diante de uma grande praça, como se de um palco se tratasse. Mais do que ser sepultado, Cobos queria ser lembrado. Queria que a sua família, o seu poder e a sua ligação ao Imperador ficassem inscritos na paisagem de Úbeda. É com essa ideia em mente que nos propomos franquear a portada lateral. Tudo o que veremos daqui em diante - a arquitectura, as esculturas, os símbolos, a própria forma como o olhar é conduzido - é parte decisiva de uma enorme encenação da memória.
Entremos, pois, e deixemos o espaço falar. Ao atravessarmos a nave, sentimo-nos atraídos para um grande abertura que domina o fundo. Trata-se da rotonda, o espaço funerário dos fundadores, e é aqui que o arquitecto Diego de Siloé nos prepara uma das grandes surpresas da Capela do Salvador. A planta junta dois modelos muito antigos: a basílica, representada pela nave onde estão os fiéis, e a construção circular, associada ao mundo funerário e ao Panteão de Roma. Siloé conhecia a arquitectura italiana e trouxe para Úbeda esse gosto pela geometria, pela proporção e pelos grandes espaços clássicos. Reparemos nas colunas coríntias e nos arcos que percorrem a igreja. Tudo parece muito ordenado, muito racional. Mas, ao mesmo tempo, há aqui um certo sentido de espectáculo. A nave parece estreitar-se e, depois, a rotonda abre-se diante de nós. É quase um efeito teatral do século XVI. E se olharmos para cima, veremos como a grande cúpula de caixotões reforça essa sensação. Estamos, de certa forma, perante uma versão ubetense do Panteão de Roma. Mas há ainda outro detalhe curioso: aquele entablamento que percorre as paredes não servia apenas para criar beleza. Tinha uma função prática, permitindo a circulação no alto e até a instalação de músicos. Ou seja, esta arquitectura magnífica era também uma máquina muito bem pensada para funcionar.
Agora que já percebemos o espaço, comecemos a ler as paredes. E digo “ler” de propósito, porque esta capela está cheia de mensagens. O homem que ajudou a definir este grande programa foi o deão Fernando Ortega, e o seu pensamento estava profundamente marcado pelo humanismo do Renascimento. Aqui encontramos uma tentativa fascinante de aproximar o mundo clássico, a tradição judaica e o cristianismo. Veja-se, por exemplo, a porta que conduz à sacristia. É uma das grandes obras-primas da arte do corte da pedra de Andrés de Vandelvira. Nas portadas encontramos referências à Lei, aos Profetas, à religião judaica e à fé cristã. Na sacristia, sibilas e figuras da Antiguidade misturam-se com anjos e imagens do fim dos tempos, formando um enorme puzzle teológico, político e cultural. E olhemos depois para o conjunto superior: César Augusto, a Virgem e a Sibila Cumana. A história contada é curiosa: Augusto, depois de conquistar o mundo, pergunta à Sibila se poderá existir alguém superior a ele. E a resposta é uma visão da Virgem com o Menino. A mensagem é clara: até o imperador romano deve reconhecer a superioridade de Cristo. Mas há aqui uma pequena provocação visual. Se olharmos para Augusto com atenção, perceberemos que a coroa, o manto e o colar do Tosão de Ouro fazem lembrar Carlos V. É como se o primeiro grande imperador de Roma tivesse encontrado o seu sucessor ideal no Imperador do século XVI.
É chegado o momento em que toda esta história converge: o altar-mor, obra concebida por Alonso Berruguete que nos fala de Cristo e da Transfiguração no Monte Tabor. A escolha do tema é absolutamente fundamental. Segundo o Evangelho, Cristo sobe ao monte acompanhado por Pedro, Tiago e João e, diante deles, revela a sua natureza divina. Surgem Moisés e Elias, representantes da Lei e dos Profetas, e uma voz proclama a identidade de Jesus. Percebemos então a lógica de toda a Capela: Cristo é o Salvador anunciado desde o Antigo Testamento e a Transfiguração é o momento em que essa verdade se revela. Berruguete, que conhecera em Itália a arte de mestres como Miguel Ângelo, não imaginou uma cena tranquila. Pelo contrário: as figuras parecem agitar-se, torcer-se, quase saltar para fora do retábulo. Infelizmente, quando olhamos hoje para o conjunto, estamos também a olhar para uma história de destruição e reconstrução. Durante a Guerra Civil, o retábulo foi praticamente arrasado. Apenas a figura de Cristo sobreviveu. Décadas depois, entre 1955 e 1969, Juan Luis Vassallo reconstruiu as figuras desaparecidas, estudando fotografias e documentos e tentando recuperar o espírito da obra original. E há ainda uma última camada: a decoração barroca do século XVIII. As paredes ganharam dourados, pinturas e esculturas, os caixotões foram pintados e o espaço tornou-se muito mais exuberante. Hoje vemos, portanto, várias épocas sobrepostas - e é precisamente isso que torna esta capela tão interessante.
Antes de sairmos, façamos uma derradeira pausa. Fixemos novamente o olhar na rotonda, na cúpula, nos arcos, na cena da Transfiguração e pensemos no homem que imaginou tudo isto. Francisco de los Cobos morreu em 1547, antes de ver a sua capela concluída. Foi a sua mulher, María de Mendoza, quem continuou a obra e levou o projecto até à consagração, em 1559. Os fundadores acabaram por ser sepultados numa discreta cripta sob o presbitério, o que não deixa de ser curioso. Depois de tanta arquitectura, tanto mármore, tanta escultura e tantos símbolos, os restos mortais de Cobos e María estão depositados debaixo dos nossos pés. O verdadeiro túmulo de Cobos é, afinal, a própria cidade. Basta sairmos para a Praça Vázquez de Molina para percebermos como tudo se articula: a capela, o palácio, o espaço urbano. Cobos quis transformar a sua memória numa paisagem. E conseguiu. Cinco séculos depois, continuamos a entrar aqui, a elevar os olhos para a cúpula, a perguntar quem foram aquelas figuras e porque se encontram ali colocadas. Era exactamente isso que Francisco de los Cobos desejava quando escreveu que os homens procuram perpetuar a sua existência através da memória. Portanto, ao abandonarmos o espaço, não estamos simplesmente a deixar para trás uma igreja. Estamos a sair de dentro de uma ideia - uma ideia muito renascentista, muito ambiciosa e, sobretudo, muito humana: a de que um dia desapareceremos, mas aquilo que construirmos poderá continuar a falar por nós.