Há uma ideia particularmente feliz neste “Por um Fio”, tema da oitava edição da Contextile: a de que é preciso aproximarmo-nos da matéria para perceber aquilo que a sustenta. É também uma boa maneira de entrar numa Bienal que, até 29 de Novembro, se espalha pela cidade-berço e pede ao visitante mais do que a deslocação entre os espaços. Comecemos pelo Centro Cultural Vila Flor, onde a Exposição Internacional constitui o núcleo mais imediato desta edição. Chegaram 2.036 obras de 1.604 artistas de 81 países; ficaram cinquenta e quatro trabalhos de cinquenta e um artistas, numa selecção que confirma a dimensão internacional alcançada pela Contextile. Mas é na matéria, mais do que na geografia dos participantes, que a exposição encontra a sua força. A lona de polietileno desgastada de Daniel Fernández Carrillo, distinguida com o Prémio Aquisição, transforma um material banal numa superfície de memória e conflito; Salima Hakim usa a costura para desmontar uma narrativa da evolução humana construída sem as mulheres; Raul Martinez faz do tapete um mapa da circulação mundial das armas. O têxtil surge, assim, menos como categoria estética do que como campo de fricção entre indústria e memória, entre intimidade e violência, entre aquilo que se mostra e aquilo que se procura tornar visível.
É preciso sair do Vila Flor para perceber até onde esta ideia pode ir. A Contextile espalha-se pela cidade e, nesse movimento, encontra a sua dimensão mais consequente. No Palacete de Santiago, na Sociedade Martins Sarmento e na Garagem Avenida, “Uma Mudança no Tempo?”, com curadoria de Janis Jefferies, coloca cinco artistas perante a crise ecológica e as narrativas de um presente que insiste em adiar o futuro. O risco, aqui, seria o da arte contemporânea se limitar a ilustrar uma agenda ambiental já conhecida; a exposição interessa justamente quando o têxtil deixa de ser decoração de um discurso sobre sustentabilidade e passa a interrogar os sistemas que a tornam urgente. Essa questão prolonga-se em “Tecer o Verde”, onde residências artísticas ocupam o Mercado Municipal, o Convento de Santo António dos Capuchos, a Praça do Conde Arnoso, o Museu de Alberto Sampaio e o Arquivo Municipal, cruzando criação contemporânea, indústria e tradições locais. E é ainda possível passar pelo Curtir Ciência para entrar na “Growing House”, uma arquitectura precária de fios, tecidos, nós e andaimes. Entre abrigo e labirinto, a casa torna-se uma imagem do presente: lugar onde procuramos segurança, mas também estrutura que permanentemente precisa de ser refeita.
O itinerário poderia terminar no IDEGUI, com “Emergências”, porque uma Bienal que pretende pensar o futuro não pode dispensar quem o irá construir. Os trabalhos de estudantes de oito escolas de arte e design introduzem uma dimensão pedagógica e experimental que impede a Contextile de se fechar no circuito das obras consagradas. Depois, no Vila Flor, as Textile Talks levam a discussão para o campo da sustentabilidade, enquanto os workshops devolvem a reflexão às mãos: tingir, estampar, desfiar, tecer, produzir tecido. E há ainda Ai Weiwei, presença incontornável desta edição, com intervenções no Centro Internacional das Artes José de Guimarães, na Praça das Artes e da Criatividade e nos Tanques de Couros, acrescentando ao percurso questões de vigilância, património, memória e vulnerabilidade. É um programa vasto, que exige do visitante disponibilidade e tempo, mas esse “excesso” corresponde também à ambição de uma Bienal que prefere contaminar a cidade a instalar-se num único lugar. “Por um Fio” é, no fundo, uma proposta de leitura do presente através da matéria. Com ele, percebemos onde a trama se rompe, quem a segura e que outras formas de a tecer ainda são possíveis. Em Guimarães, a resposta não está numa única exposição, mas no próprio acto de percorrer a cidade.