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segunda-feira, 22 de julho de 2024

CINEMA: “Histórias de Bondade”



CINEMA: “Histórias de Bondade” / “Kinds of Kindness”
Realização | Yorgos Lanthimos
Argumento | Yorgos Lanthimos, Efthimidis Filippou
Fotografia | Robbie Ryan
Montagem | Yorgos Mavropsaridis
Interpretação | Emma Stone, Jesse Plemons, Willem Dafoe, Yorgos Stefanakos, Margaret Qualley, Hong Chau, Tessa Bourgeois, Mamadou Athie, Joe Alwyn, Lindsey G. Smith, Ja’Quan Monroe-Henderson, Susan Elle, Nathan Mulligan, Hunter Schafer, Merah Benoit
Produção | Ed Guiney, Yorgos Lanthimos, Andrew Lowe, Kasia Malipan
Reino Unido, Estados Unidos | 2024 | Comédia, Drama | 164 Minutos | Maiores de 16 Anos
Cinema Trindade - Sala 1
21 Jul 2024 | dom | 16:00


Com a diversidade de géneros e sub-géneros em que se desmultiplica o cinema nos dias de hoje, experimentar algo de novo e estranho no grande ecrã é tudo menos frequente. Num mundo de filmes de super-heróis, remakes, reboots, sequelas, prequelas e tudo o mais, é inegavelmente emocionante ver um filme cujo final não se deixa contaminar por obras anteriores. Vindo de ganhar o Óscar com “Pobres Criaturas”, o realizador grego Yorgos Lanthimos mostra-se de novo com um filme que não tem qualquer ligação com a sua obra prévia. “Histórias de Bondade” é a sua própria besta estranha, uma fábula tríptica com um elenco rotativo - alguns habituais de Lanthimos, outros recém-chegados. Na primeira parte, um homem de negócios sente-se frustrado com o seu patrão controlador e a sua mulher. A parte intermédia centra-se num agente da polícia cuja mulher desaparecida regressa subitamente, embora ele esteja convencido de que ela é, na verdade, uma espécie de clone. A última história segue dois membros de uma seita em busca de uma mulher que detém o poder de resgatar as pessoas do reino dos mortos.

“Histórias de Bondade” é um filme estranho! E mostra o seu entusiasmo precisamente por reconhecer em si essa estranheza. É um filme difícil de categorizar, visto que cada fábula representa um novo estilo e traz consigo uma nova sensibilidade. No seu todo, tem para oferecer um bom número de planos deslumbrantes - Plemons a aparecer no seu escritório de esquina, Stone a dançar ao lado do carro num parque de estacionamento, os cães a beberem refrigerante numa praia e a conduzir um carro. Todas as personagens falam num monótono ritmo acelerado, que cativa tanto quanto irrita. Tematicamente, cada história lida com ideias de abuso, poder e crença, embora algumas delas consigam exprimir-se melhor do que outras. Todas elas, mesmo quando carecem de solidez estrutural, são reforçadas por actuações brilhantes dos protagonistas. Plemons merece ser destacado pela sua desempenho em cada uma das três fábulas. É a primeira vez que trabalha com Lanthimos e é óbvio que as suas sensibilidades se conjugam na perfeição. Stone e Dafoe são refrescantemente bizarros em cada um dos seus papéis e parecem sentir-se em casa nos mundos que Lanthimos cria.

A experiência de ver o filme assemelha-se a um sonho, um exercício sobre as formas como se pode esticar uma metáfora e devolvê-la como algo de surpreendente. Onde “Histórias de Bondade” vacila é na narrativa. Nos seus trabalhos anteriores, nunca houve a sensação de que Lanthimos tivesse perdido o fio à meada. Por mais estranho que fosse, ele e os seus vários co-escritores de trabalhos anteriores sabiam sempre quando e onde acabar o filme. Cada fábula de “Histórias de Bondade” tem uma premissa atraente e intrigante, mas quando os créditos de cada uma delas são lançados, há a sensação de que a história não chegou a ser totalmente contada. Já se percebeu que este não é um filme para todos os públicos. Todavia, mesmo com a falta de rigor de alguma matéria narrativa, há algo de excitante no facto de um filme como este estar disponível para uma franja de espectadores que não pertence ao lote dos que alimentam o sucesso dos “blockbusters”. É um filme recheado de particularidades, a exigir reflexão sobre as suas propostas. Só por si, esta prerrogativa faz de “Histórias de Bondade” um excitante raio de luz sobre o atual estado do cinema.

sábado, 20 de julho de 2024

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #85



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #85
Festa dos Premiados 2023
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
19 Jul 2024 | sex | 21:30


Em plena pausa estival, o Shortcutz Ovar voltou ao habitual espaço da Escola de Artes e Ofícios para mais uma Festa dos Premiados. Sessão sempre especial e particularmente concorrida, nela se recordou a temporada de 2023 e se deram a conhecer os grandes vencedores do certame nas várias categorias a concurso. Uma temporada - a sétima - recheada de muito e bom cinema curto, onde avultaram vinte e quatro filmes na selecção oficial, dos quais cinco de imagem animada e dez primeiras obras. O nível qualitativo dos filmes a concurso foi particularmente elevado, colocando à prova o júri constituído pela programadora e realizadora Ana Castro, pela cantora Laura Rui e pelo dramaturgo e actor Leandro Ribeiro, a quem coube a espinhosa tarefa de escolher os melhores entre os melhores. Fiel, conhecedor e fortemente interventivo, o público marcou presença firme sessão após sessão, sendo, também ele, chamado a pronunciar-se sobre os méritos de cada um dos filmes e a eleger o seu premiado.

Com uma plateia recheada de caras conhecidas e a apresentação da cerimónia a cargo de Tiago Alves, a Festa dos Premiados foi, sobretudo, uma festa de todos e para todos. Um concerto de Laura Rui com as Suspiro e o “after session” com DJ set de Mr. Wolf foram o culminar de momentos únicos de confraternização e partilha, nos quais subiram ao palco os vencedores da melhor curta do ano, primeira obra, animação, prémio do júri e prémio do público. Primeira figura em foco, João Gonzalez foi galardoado com o Prémio do Público graças ao filme de imagem animada “Ice Merchants”, uma fábula universal a lembrar aquilo que julgávamos perdido, mas que, no momento certo, está lá para nos amparar. Não foi uma surpresa, já que o público, ao longo da temporada, conferiu a primazia ao cinema de animação em cinco das oito sessões realizadas, com “Ice Merchants” a elevar-se acima dos restantes candidatos e a conquistar um dos prémios mais desejados da noite.

Ainda no campo da animação, o Prémio para a Melhor Animação foi para David Doutel e Vasco Sá com “Garrano”, um filme nascido da necessidade de refletir sobre o grave e endémico problema dos incêndios florestais em Portugal, mas que estende as suas preocupações à precariedade e à falta de expectativas num interior cada vez mais desertificado, onde os atentados ambientais que se adivinham com a exploração do lítio conduzem ao desaparecimento de um modo de vida que deu forma e sustento a comunidades inteiras ao longo de séculos. Depois de “Agouro”, a dupla de realizadores volta a receber este prémio no Shortcutz Ovar, graças a um filme de enorme beleza que cruza animação 2D tradicional com pintura a óleo e pintura digital. “Azul”, de Ágata de Pinho, recebeu muito justamente o galardão de Melhor Primeira Obra, premiando uma jovem realizadora e actriz que respira cinema e nos oferece um filme revelador de uma maturidade incomum, que coloca o dedo em muitas feridas, da maternidade compulsória à rejeição filial. À força da narrativa juntam-se efeitos belíssimos e uma interpretação incrível de Ágata de Pinho no seu próprio papel.

Antes de ser conhecido o grande vencedor da noite, o Júri deu conta da decisão de atribuir o seu Prémio Especial a “Palma”, de Mónica Santos. Apoiado num texto marcadamente romântico, quase “camiliano”, o filme tira partido do requinte dos espaços, da beleza dos planos, da subtileza dos pormenores, de uma estética apurada e de uma extraordinária interpretação de Mafalda Banquart, para prender o espectador numa trama onde vida e morte se combinam em doses iguais. Enfim, no momento mais esperado da noite, o público viu subir ao palco João Niza Ribeiro para receber o Prémio Melhor Curta pelo seu “Raticida”, um filme que assume os ambientes do Porto e as figuras que os povoam como elementos decisivos desta verdadeira fábula urbana. Do trabalho admirável com não actores ao lado documental que se imiscui na mais pura e dura das ficções, “Raticida” coloca em perspectiva o Porto turistificado e gentrificado, com o Porto dos marginalizados e excluídos, como que saídos da pena de John Steinbeck nesse notável “Ratos e Homens”.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

CINEMA: "A Ama de Cabo Verde"



CINEMA: “A Ama de Cabo Verde” / “Àma Gloria”
Realização | Marie Amachoukeli-Barsacq
Argumento | Marie Amachoukeli-Barsacq
Fotografia | Inès Tabarin
Montagem | Suzana Pedro
Interpretação | Louise Mauroy-Panzani, Ilça Moreno Zego, Abnara Gomes Varela, Fredy Gomes Tavares, Arnaud Rebotini, Marc Lafont, Domingos Borges Almeida, Bastien Ehouzan, Delfi Rodrigues Dos Sanches, Manuel José Sovares, Denis Ortega Acevedo, Sidney Cardoso
Produção | Bénédicte Couvreur
França | 2023 | Drama | 83 Minutos | Maiores de 12 anos
UCI Arrábida 20 – Sala 5
19 Jul 2024 | sex | 14:35

Está certo quem diz que é nas coisas simples que reside a maior beleza. “A Ama de Cabo Verde” é uma história cheia de inocência e ternura que enquadra a relação entre as duas personagens centrais, uma menina que busca desesperadamente encontrar uma figura materna, e uma mulher cujos filhos moram a milhares de quilómetros e que são quase uns estranhos para ela. De forma delicada, o filme narra a história de Cléo (Louise Mauroy-Panzani), órfã de mãe e que, desde tenra idade, foi criada em França por uma emigrante cabo-verdiana chamada Glória. Com o pai frequentemente ausente por razões profissionais, Cléo tem em Glória a sua verdadeira família. Mas a notícia da morte da mãe de Glória, até então a cuidadora dos seus dois filhos, vai precipitar o regresso a Cabo Verde e obrigar à separação de Cléo. Fica a promessa de a menina poder visitar a ilha onde vive a família da ama, o que poderá acontecer já nas férias de Verão que se aproximam.

É nos pequenos detalhes, nos olhares, nos gestos, nas canções de embalar, que Marie Amachoukeli-Barsacq encontra os ingredientes que conferem ao filme a devida espessura. Num mundo que obriga a pequena protagonista a ter de lidar com a perda da mãe, a ama passa a ser a única pessoa no mundo capaz de a entender e proteger. Perdê-la tão abruptamente fará com que o caminho não seja fácil e Cléo vai ter de encontrar o passo certo que a ajudará a crescer. Por esse motivo, quando tudo está prestes a mudar, entendemos a relutância da criança em aceitar a separação e o seu empenho em forçar a situação para poder passar uns últimos dias com Glória. Marie Amachoukeli-Barsacq aproxima intencionalmente a câmera das suas personagens, fazendo com que as suas emoções não passem em claro. Jogar com a luz e com os espaços é outra forma de criar ambientes propícios à partilha de confidências… e medos.

Não será fácil encontrar um actor de tenra idade que aborde a sua personagem com tanta espontaneidade e credibilidade. Neste particular aspecto, a pequena Louise Mauroy-Panzani é prodigiosa, fazendo com que o seu papel pareça fácil sem o ser. Na sua ingenuidade, egoísmo, inocência e, até, alguma crueldade, ela mostra-se expressiva e verdadeira, como qualquer criança da sua idade na vida real. O seu papel é essencial para o filme porque é através do seu olhar que descobrimos o mundo que a rodeia e as pessoas que o habitam. A atenção incide sobre ela durante grande parte da história e a menina mais não faz do que embelezá-la, contando com a contribuição de Ilça Moreno Zego na criação de um sólido universo emocional que ambas partilham e no carinho que desenvolvem uma pela outra. Apesar das evidentes fragilidades do argumento, “A Ama de Cabo Verde” é capaz de transmitir emoção e sinceridade em apenas 80 minutos, o que muitos outros filmes não alcançam em duas e três horas.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

CINEMA: “Horizon: Uma Saga Americana – Capítulo 1”



CINEMA: “Horizon: Uma Saga Americana – Capítulo 1” / “Horizon: An American Saga – Chapter 1”
Realização | Kevin Costner
Argumento | Jon Baird, Kevin Costner
Fotografia | J. Michael Muro
Montagem | Miklos Wright
Interpretação | Kevin Costner, Sienna Miller, Sam Worthington, Jena Malone, Owen Crow Shoe, Tatanka Means, Ella Hunt, Tim Guinee, Giovanni Ribisi, Danny Huston, Colin Cunningham, Scott Haze, Tom Payne, Abbey Lee, Michael Rooker, Will Patton, Georgia MacPhail
Produção | Kevin Costner, Mark Gillard, Howard Kaplan
Estados Unidos | 2023 | Drama, Western | 181 Minutos | Maiores de 14 anos
UCI Arrábida 20 – Sala 10
17 Jul 2024 | qua | 14:15


A ideia de filmar “Horizon” acompanhou Kevin Costner desde 1988. Na altura, o projecto não tinha a dimensão daquilo em que se foi tornando, mas acabou por gozar de uma ambiciosa visão do faroeste do seu mentor, acabando por se desdobrar numa saga épica distribuída em quatro partes. Até nós chega agora o primeiro capítulo que merece, antes de tudo o mais que possa ser dito sobre ele, um alerta veemente: Este capítulo não pode ser entendido como um filme acabado. Assim, ou se é um grande fã de coboiadas (ou de Kevin Costner) e se está na disposição de levar a “série” até ao fim, mesmo sabendo que os dois últimos capítulos só lá para o Verão de 2025 chegarão às salas de cinema, ou então o melhor será desistir da ideia. É que o capítulo inaugural é um enorme mosaico de situações as mais variadas, que mais não faz do que preparar o terreno para a grande história. Como que a aliciar o espectador para aquilo que está para vir, os últimos minutos são uma espécie de trailer onde passado e futuro se misturam e confundem. Lançado o isco ao cabo de três horas de filme sem que se possa concluir o que quer que seja, as opiniões tenderão a dividir-se: Uns dar-lhe-ão o benefício da dúvida e aguardarão pelo próximo capítulo; outros falarão em “truque”, mesmo admitindo regressar para o capítulo seguinte.

Tal como deixei implícito, o capítulo de abertura tem por objectivo preparar o cenário para o desmedido conto de Costner sobre a expansão da América para o oeste, entre 1859 e 1860, através de territórios que viriam a tornar-se no Wyoming, no Colorado ou no Kansas. O filme faz autênticos malabarismos ao entrelaçar enredos e personagens, dando a ver o avanço das caravanas em “terra de ninguém”, as árduas jornadas ao longo de trilhos recheados de perigos, os ataques dos índios que legitimamente protegem territórios ancestrais, a violência e o crime organizado que se vão instalando, a esperança dos colonos em chegarem à “terra prometida” e levantarem uma cidade chamada “Horizon”. Com meios de produção impressionantes, cenários exuberantes e sólidas interpretações, Kevin Costner coloca-nos face a uma paisagem ameaçadora, mas marcante, de fronteira inaugural. Mas com tanto terreno para cobrir em três horas desafiadoras, este primeiro capítulo não consegue alcançar a envolvência que dele se esperaria. Por enquanto, não vai além de uma vasta introdução, a sugerir recompensas maiores caso a saga consiga chegar a bom porto.

Que consequências terá para os Apaches a desavença entre os seus líderes, os irmãos Pionsenay e Taklishim? De que forma irá crescer o amor de Frances Kittredge pelo tenente Trent Gephardt? Como espera o jovem Russell vingar a morte dos pais? Será que Marigold vai voltar? Poderá o enigmático e solitário Hayes Ellison colocar alguma ordem na turbulenta fronteira? Conseguirá o capitão Matthew Van Weyden levar a vasta caravana de colonos até ao seu destino? Tarefa ambiciosa a de Kevin Costner, procurando tornar compreensível e coerente cada pedaço de história, à medida que se vão aproximando uns dos outros. Oscilando entre os destinos de colonos, soldados, pioneiros e indígenas, o filme nem sempre consegue consumar as histórias de cada um, deixando-as pela metade. Restam episódios esparsos que documentam um período de grande coragem e heroísmo, determinante na construção de uma América tal como a conhecemos hoje e fulcral na definição daquilo que se entende por “sonho americano”. Ainda que mantendo uma certa relutância em chamar “filme” a este primeiro capítulo, pertenço ao grupo daqueles que pretendem levar a saga até ao fim. Daqui a um mês voltamos a falar.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

CONCERTO: “Pítia – Vasos de carne, palavras do Céu” | Ensemble Irini



CONCERTO: “Pítia – Vasos de carne, palavras do Céu”
Ensemble Irini
Direcção musical | Lila Hajosi
Com | Lila Hajosi (mezzo-soprano), Laura Lopes (mezzo-soprano), Julie Azoulay (contralto), Olivier Merlin (tenor), Jean-Marc Vié (baixo), Sébastien Brohier (baixo)
Co-produção | Festival Jordi Savall
Cistermusica – 32º Festival de Música de Alcobaça 2024
Mosteiro de Alcobaça – Refeitório
14 Jul 2024 | dom | 18:00


A culminar um fim-de-semana repleto da melhor música, o Ensemble Irini trouxe ao Cistermusica a sonoridade distinta de um coro polifónico, abrindo “diálogos entre o sagrado Oriente e Ocidente, entre a sabedoria de ontem e as convulsões de hoje, fiel ao seu nome que significa ‘Paz’ em grego.” Reconhecido internacionalmente pelos seus elevados padrões e pelas propostas únicas, extraordinárias e ousadas, o ensemble fez incidir o programa em excertos das “Profecias das Sibilas (Prophetiae Sybillarum)”, pondo em perspectiva a música de Roland de Lassus (1532 – 1594) com algumas das mais significativas peças do repertório bizantino. Koukouzélis, São Nectário de Egina, a Divina Liturgia de São João Crisóstomo (“Cheruvikon”), Excerto do Acatisto à Mãe de Deus e os Salmos 134-135 da Liturgia de Constantinopla, para além dos já referidos excertos da “Profecia das Sibilas”, constituíram momentos de forte e intensa espiritualidade, marcados de forma singular pela beleza e harmonia das vozes do ensemble e pela energia apaixonada de Lila Hajosi, a sua directora musical.

É no Refeitório, a última sala medieval das dependências do Mosteiro de Alcobaça que tem lugar o concerto. Abóbadas de arestas e colunas de capitéis decorados com motivos vegetalistas preenchem um espaço simples e austero, dominado pelo Púlpito do Leitor, uma das mais belas peças arquitectónicas de todo o conjunto. Em palco, o Ensemble Irini começa por nos oferecer “Audi benigna conditor”, um Hino de celebração da Quaresma que mergulha os presentes num êxtase difícil de descrever. Suportadas pelas vozes masculinas, Laura Lopes e Julie Azoulay encetam um diálogo melódico rico de nuances: de um lado a limpidez do timbre da mezzo-soprano portuguesa, do outro, a voz da contralto francesa a arrebatar-nos, fazendo-nos viajar por paragens do Oriente. A música sobe e preenche o espaço com uma forte respiração, expandindo e contraindo-se como que a querer reforçar a beleza das palavras ditas - “Escuta, ó bondoso Criador, / a nossa oração com as nossas lágrimas, / que em sacrifício Te oferecemos / no tempo abençoado desta Quaresma.”

Sacerdotisas dos templos de Delfos e de Cuma, profetisas do mundo antigo e arautos dos conselhos dos deuses, as doze Sibilas fascinaram Roland de Lassus com as suas figuras oníricas e evocadoras de lugares maravilhosos e longínquos (Sibila Pérsica, Líbica, Cumana, Helespontíaca, Délfica…). São elas que voltam a encantar com os seus cantos delicados, que nos mergulham num transe harmonioso e enigmático. No seu cantar, a enorme riqueza cromática reveste uma música plena de significados, convidando a visitar lugares de mistério e despojamento, numa viagem sensorial única e irrepetível. “Cheruvikon” é mais um momento de graça, o olhar a voltar-se para o alto nesse desejo de apaziguamento de todas as dúvidas e medos. “Polyeleos”, peça de enorme importância da liturgia bizantina, foi o culminar perfeito de um momento único. A alegria vibrante que se desprende daquela sequência de “aleluias” tocou cada célula do nosso corpo e deu a ver a marcação dos ritmos do mundo: das eras geológicas à força das marés, das idades do Homem ao bater cadenciado dos nossos próprios corações.

domingo, 14 de julho de 2024

CONCERTO: "Mongrel" | Mário Laginha Trio e Vasco Dantas



CONCERTO: "Mongrel"
Mário Laginha Trio e Vasco Dantas
Cistermusica - 32º Festival de Música de Alcobaça 2024
Mosteiro de Alcobaça - Claustro D. Dinis
13 Jul 2024 | sab | 21:30


Há mais de três décadas - e sob o lema “Um clássico para todos” - que o Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça vem acolhendo públicos particularmente ligados à música erudita, sem deixar de “piscar o olho” a outros géneros musicais que dela derivam. Mas não terão sido muitas as vezes que, como ontem, a música clássica e, neste caso, o jazz, tão irmanados estiveram num programa de um concerto, colocando lado a lado o piano de Vasco Dantas, numa interpretação imaculada de algumas das mais emblemáticas peças de Chopin, e o trio de Mário Laginha, apostado num exercício de reformulação do compositor clássico, com recurso à improvisação. Entre o surpreendente e o fascinante, o programa mostrou o quão ampla pode ser a abertura aos clássicos, sem que daí advenha qualquer desvirtuamento da grande música. Rejeitando a colagem aos originais de músicos consagrados, embrulhados em roupagens “jazzísticas” ou “pop” que brotam espontaneamente com inusitada frequência, Mário Laginha soube criar espaço para a improvisação numa arrojada aproximação ao universo musical de Chopin, daí resultando “Mongrel”, álbum de 2010 agora revisitado e mostrado ontem ao público, numa noite única no Claustro D. Dinis do Mosteiro de Alcobaça.

Embora a fonte que inspirou “Mongrel” permaneça reconhecível e claramente identificada nos nomes das cinco propostas musicais do concerto, Mário Laginha é claro ao explicitar a forma como se inspirou e transformou a música do compositor polaco, definindo-a como “uma espécie de heresia a transbordar respeito pelo compositor”. São suas as seguintes palavras: “Enquanto procurava escolher as peças de Chopin sobre as quais trabalhar, fui relembrando que a profusão de melodias e a riqueza harmónica são uma constante em toda a sua música. No Scherzo, na Balada, na Fantasia e até nos Nocturnos, só utilizei parte dessas melodias (por vezes uma só). Tomei muitas liberdades. Mudei compassos, tempos, modifiquei algumas harmonias - até mesmo melodias - criei espaço para a improvisação, enfim, nunca me abstive de alterar aquilo que me pareceu necessário para aproximar a música de Chopin do meu universo musical. (…) Quis deixar reconhecível a fonte musical, mas fiz os possíveis por não ter uma deferência tal que me inibisse de transformar o que quer que fosse. Este concerto é uma espécie de heresia a transbordar respeito pelo compositor. E parece-me quase um dever homenagear um dos maiores improvisadores de todos os tempos com uma música que tem na sua matriz a improvisação.”

“Prelude” foi a primeira peça a ser interpretada, com Vasco Dantas a acentuar o dramatismo que a enforma e a colocar a fasquia muito alta no momento de “passar a bola” para o trio. Se comparada com as seguintes, a abordagem ao tema de Mário Laginha e seus pares - Bernardo Moreira no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria - foi bastante “soft”, com alguns apontamentos subtis a darem o tom de um lamento, próximo, se assim o quisermos, da matriz do fado. A “Valsa” foi a segunda peça a ser tocada e, aqui sim, as diferenças surgiram de forma evidente. Até porque Laginha fez tábua rasa do tempo “três por quatro” próprio da Valsa e avançou por caminhos tão misteriosos quanto inóspitos, que acabaram por desaguar nessa inexpugnável praça-forte à qual damos o nome de “rock” (admirável Alexandre Frazão na forma como fez crescer a música). Os dois “Noturnos” foram peças de “demarcação de território”, a afirmação da música e erudita e do jazz naquilo que os afasta ou os pode tornar próximos. Finalmente, a “Balada” foi um momento arrepiante de virtuosismo e classe interpretativa de Vasco Dantas, para o qual a resposta de Mário Laginha, por excepcional que pudesse ser, ficaria sempre aquém. O “encore” trouxe essa enorme surpresa de vermos Vasco Dantas a lançar o repto ao trio na forma da “Fantasia e Variações sobre o Carnaval de Veneza”, de Jean-Baptiste Arban. Um “chapéu de três bicos” que Laginha, Moreira e Frazão souberam envergar com elegância, pondo uma nota de boa disposição e humor no final de um inesquecível serão.

sábado, 13 de julho de 2024

EXPOSIÇÃO: “Portugal Ano Zero: Livros de Fotografia da Revolução”



EXPOSIÇÃO: “Portugal Ano Zero: Livros de Fotografia da Revolução”
Vários Artistas
Curadoria | José Luís Neves, Luís Pinto Nunes, Susana Lourenço Marques
Centro de Arte Oliva
28 Jun > 15 set 2024


“Portugal Ano Zero: Livros de Fotografia da Revolução” reúne uma extensa e inédita selecção de livros com trabalho de fotógrafos portugueses e estrangeiros, provenientes de diversas colecções privadas e públicas, nacionais e internacionais. Revelando a efervescente prática editorial que se desenvolveu no pós 25 de Abril de 1974, trata-se de uma perspectiva histórica abrangente deste período, que vai dos primeiros manifestos na denominada “small press” às apropriações contemporâneas, experimentadas por exemplo por Alexandre Estrela em “Merda” (2006). O núcleo central da exposição é composto por livros que — a par de fotografias e filmes como o “Portugiesischer Frühling” [“Primavera Portuguesa”], de 1975, da cineasta alemã Sabine Katins — percorrem os diversos momentos da revolução, as movimentações contra-revolucionárias que emergiram durante este período, a documentação recorrente de práticas de arte de rua e protesto, o processo da reforma agrária e o papel da mulher nos primeiros anos da revolução.

Uma especial atenção é dada aos fotógrafos internacionais que visitaram o país e que realizaram livros, zines e jornais sobre este período e contexto, como Jochen Moll (“Grândola: Reportagen aus Portugal”, 1976), Guy Le Querrec (“Portugal 1974-1975: Regards sur une tentative de pouvoir populaire”, 1979), Tano D'Amico (“Ombre Rosse”, 1975) ou Jason Lauré (“Jovem Portugal After The Revolution”, 1977), entre outros. Partindo do idealismo e da turbulência política da fase inicial da revolução, a exposição retrata também o desvanecimento do sonho revolucionário e a adaptação gradual da sociedade civil, culminando numa nova fase da vida democrática em Portugal. Destacam-se, nomeadamente, trabalhos como a foto-novela “Iberische Idylle” [Idílio Ibérico], realizada por Bart Sorgedrager, em 1985, publicada na revista portuguesa “Crónica Feminina” um ano depois.

A este conjunto de imagens da segunda metade do século XX, juntam-se obras de autores portugueses que desenvolvem o seu trabalho a partir da seleção dos livros expostos, como o trabalho de Pedro Augusto sobre o livro/ vinil “Uma Certa Maneira de Cantar” (1977), as fotografias de Dinis Santos sobre a série de calendários das “Casas Clandestinas” (1994), do Partido Comunista Português, assim como a obra de Tiago Madaleno, com base no documentário da BBC sobre Portugal: “White wall in Alentejo” (1977). Destaca-se a interacção da obra de Lisa Santos Silva, “A cabra não é cega” (1976), que participa na Alternativa Zero (1977) e das fotomontagens no livro “Revolução e Mulheres”, 1976 de Maria Velho da Costa. “Portugal Ano Zero” é um dos 45 projetos apoiados pelo programa Arte pela Democracia, uma iniciativa da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril em parceria com a Direcção-Geral das Artes.

[Texto extraído da Folha de Sala da exposição]

sexta-feira, 12 de julho de 2024

CONCERTO: Avi Avital & Omer Klein



CONCERTO: Avi Avital & Omer Klein
FIME - 50º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
07 Jul 2024 | dom | 18:00


A programação desta edição “redonda” do Festival Internacional de Música de Espinho tem dedicado particular atenção aos espaços subversivos e transformadores onde a música erudita, o jazz e a pop global se misturam e confundem. São espaços de criação em liberdade, nos quais se evidenciam o virtuosismo dos músicos e as suas enormes qualidades de improvisadores, a par com esse desejo de “escavar” as peças clássicas, de lhes "sugar o tutano" e ir além do que é dado por adquirido. Foi assim com a recombinação das "Quatro Estações" de Vivaldi", por Max Richter, trazida por Daniel Rowland e a Camerata OCE, com a revisitação da obra de Mahler por Uri Caine e o FIMEnsemble ou com o abraço a Chopin e a Mozart pelo genial Paquito d’Rivera (isto para falar apenas dos concertos aos quais assisti nesta edição do Festival). Voltou a ser assim com este dupla improvável que juntou o bandolinista Avi Avital e o pianista Omer Klein, e que “ousou” oferecer uma releitura inovadora e livre de obras de Johann Sebastian Bach.

Primeiro solista de bandolim a ser indicado para um Grammy clássico, Avi Avital foi comparado a Andres Segovia pela excelência do seu instrumento e a Jascha Heifitz pelo seu virtuosismo. Apaixonado e “explosivamente carismático” (New York Times) na performance ao vivo, ele é a força motriz que preside actualmente à consolidação do repertório de bandolim. Nascido em Be'er Sheva, no sul de Israel, Avital começou a praticar bandolim aos oito anos de idade “por influência dos seus vizinhos” e logo se juntou à florescente orquestra jovem de bandolins fundada e dirigida pelo violinista russo Simcha Nathanson. Estudou na Academia de Música de Jerusalém e no Conservatório Cesare Pollini em Pádua com Ugo Orlandi, sendo por estes tempos que travou conhecimento com Omer Klein e com a sua forma original de abordar a música, “empurrando os principais conceitos do Jazz para o futuro”. Se, para Avital, o horror estava em falhar uma nota, Klein via na pauta uma imensidão de oportunidades para “falhar”, ou seja, “para fazer diferente”. Estava aberto um caminho de comunhão de ideias e interesses que não mais cessou de dar frutos.

Aquilo que o público pode perceber na tarde do passado domingo foi o quanto o virtuosismo e a imaginação barrocos e contemporâneos podem iluminar um recital sem barreiras geográficas e estilísticas. Alinhando o programa com um conjunto de peças maioritariamente de sua autoria, Avi Avital e Omer Klein convidaram a uma viagem em que as sonoridades das músicas tradicionais e populares da Ásia Ocidental e do norte de África se cruzaram com as músicas escritas da Europa Central. Com um tom marcadamente jazzístico, “Niggun” resgatou-nos dos ambientes de “souks” e bazares impostos por “Zanzama”, o tema inicial do concerto. Num contínuo expressivo e de permanente surpresa, “Après un Rêve” foi uma incursão no universo idílico de Fauré e “Avi’s Song” levou-nos até uma Jerusalém em festa. A “Partita nº2, em Ré menor, BWV 1004”, de Johann Sebastian Bach, foi tocada na íntegra por Avi Avital, mas viu os seus andamentos intervalados por peças exclusivas de Omer Klein, fruto da sua extraordinária capacidade de improvisação. Foi o momento alto do concerto, aquele que mais desafiou os espectadores através da abertura de novos horizontes sobre a música do compositor mais influente de sempre. “Espagna” e “Yemen”, temas de Omer Klein, fizeram do “encore” um tempo de júbilo, fechando da melhor forma um concerto inolvidável.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

LIVRO: "Um Dia na Vida de Abed Salama: Anatomia de uma Tragédia em Jerusalém"




LIVRO: “Um Dia na Vida de Abed Salama: Anatomia de uma Tragédia em Jerusalém”,
de Nathan Thrall
Título Original | "A Day in the Life of Abed Salama: Anatomy of a Jerusalem Tragedy" (©2023 Nathan Thrall)
Tradução | Sara Veiga
Ed. Livros Zigurate, Outubro de 2023


“O juiz das FDI gritou-lhe para que se calasse e se sentasse. Huda recusou, exigindo que Hadi levantasse a camisa e baixasse as calças para que o tribunal pudesse ver que a sua confissão fora obtida sob tortura. O juiz permitiu-o. O corpo de Hadi estava coberto de nódoas negras, como se tivesse sido espancado com bastões. Huda gritou que os soldados que o torturaram deviam ser julgados. Quando o juiz suspendeu a audiência, Huda correu para o filho, ignorando os gritos dos guardas, e deu a Hadi o abraço que reprimira na noite da detenção. Imaginou-se a acalentá-lo com o seu abraço antes da estadia na fria cela da prisão. O juiz bradou: aquela seria a última vez que ela tocaria no filho até ele ser libertado.”

Um acidente com um autocarro que transportava crianças de uma escola abala a manhã chuvosa e fria junto ao posto de controlo de Jaba, num dos muitos enclaves da Cisjordânia. O número de mortos e feridos é elevado e entre eles está Milad Salama, de 5 anos, filho de Abed Salama. Este é o ponto de partida de uma angustiante jornada contra o tempo, ao longo da qual o progenitor corre em busca do pequeno Milad. Entre hospitais, centros médicos e bases militares, de um e outro lado da fronteira com Israel, o leitor vai tomando conta dos constrangimentos que advém da situação política no Médio Oriente e do tratamento arbitrário e desumano a que os habitantes árabes da Cisjordânia se veem sujeitos no dia-a-dia. Sem respeitar uma linha cronológica, o livro aborda também os aspectos mais íntimos da vida de Abed Salama: um amor de infância rompido por intrigas familiares, um casamento falhado e um divórcio movido pela necessidade de garantir os documentos necessários para passar pelos postos de controlo israelitas.

“Um Dia na Vida de Abed Salama” começou por ser um texto lançado em 2021 no New York Review of Books, publicação com a qual o jornalista Nathan Thrall mantém uma colaboração regular. Profundo conhecedor das causas e consequências do conflito israelo-árabe, Thrall decidiu expandir a peça inicial, colocando uma maior atenção na figura de Abed Salama e daqueles que o rodeiam, contornando assim as questões meramente políticas e abrindo-se à cultura e à vida em sociedade do povo palestiniano. Com uma clareza cortante, este judeu americano a residir em Jerusalém olha o eterno conflito entre Israel e a Palestina a partir da dor de uma família. A sensação de sobressalto faz-se presença constante ao longo da leitura do livro, tornando-se chocante a tomada de consciência da política de ingerência de Israel nos enclaves palestinianos e do impacto que isso produz. O velho autocarro, as estradas esburacadas e a inconsciência de um condutor, funcionam como metáforas de uma “viagem” trágica a qual, com melhores actores e pequenos ajustes na história, teria certamente outro desfecho.

Num momento em que a guerra entre Israel e o Hamas, desencadeada na sequência dos ataques de 7 de Outubro, não cessa de escalar, e em que os factos se tornaram armas num conflito sem fim à vista, um livro como “Um Dia Na Vida de Abed Salama” adquire uma força inusitada e pede que seja lido. Sem ser exaustivo, Nathan Thrall tem o cuidado de abordar o diferendo de um ponto de vista histórico, tornando um pouco menos incompreensível aquilo que tão difícil é de entender. Ao falar de forma autêntica sobre vidas comuns presas nas garras da história, o autor aponta caminhos de compaixão e compreensão tão necessários no actual contexto. Nos áridos enclaves da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, o medo e a indignação são aceites com um encolher de ombros resignado e o horror é inerente ao simples facto de se estar vivo. A tragédia com o autocarro está lá, como estão os momentos imediatamente seguintes, a ferir as nossas consciências e a trazer a dor e a revolta às nossas próprias vidas.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

LUGARES: Ala Álvaro Siza do Museu de Serralves



LUGARES: Ala Álvaro Siza do Museu de Serralves
Open House Porto 2024
Visita comentada por António Choupina
06 Jul 2024 | sab | 11:30


A nova ala do Museu de Arte Contemporânea de Serralves abriu ao público em Outubro passado, e recebeu o nome Ala Álvaro Siza em homenagem ao arquitecto, embora “Ala Poente” fosse uma designação que colhia mais a sua simpatia. Em Serralves, Álvaro Siza desenhou o Museu de Arte Contemporânea, em 1999; a Casa do Cinema Manoel de Oliveira, em 2019; a Casa dos Jardineiros, em 2021; foi responsável pela recuperação da Casa de Serralves, em 2021; e desenhou a nova ampliação do Museu, em 2023. A nova ala tem três pisos e cerca de 4.200 m2 de construção, o que representa um aumento da área expositiva em 44% e um aumento de 75% da área de arquivo. Esta ampliação é tanto mais oportuna quanto é sabido que o museu colhe cada vez mais o interesse de um publico diversificado e interessado, tendo sido visitado por mais de um milhão e cem mil pessoas no ano passado, ao passo que em 1999, o ano da sua abertura, o número de visitantes se quedara nos oitenta mil.

Organizada através de um percurso desde o jardim até à nova ala, de forma a promover uma leitura da notável integração do edifício no Parque de Serralves, a visita constituiu-se parte integrante da 9ª edição do Open House Porto e foi comentada por uma personalidade muito próxima de Álvaro Siza, o Arquitecto António Choupina. Através da sua perspetiva, a Ala Álvaro Siza do Museu de Serralves revelou-se como uma espécie de passado futuro, com o visitante a investir-se no papel de arqueólogo e a partir em busca de vestígios no tempo, de evidências (i)materiais, de (re)imaginar o evidente. Fundando, de novo, uma qualquer “porta para o inacessível jardim do Éden” na floresta primordial do Parque de Serralves, Choupina teve o mérito de, numa linguagem simples, saber lançar luz sobre essas ligações latentes e subconscientes através dos padrões geométricos e conceitos espaciais de Siza, onde se cruzam, entre outras, noções de Antiguidade, Barroco e Construtivismo.

A Ala Álvaro Siza é um edifício simples na sua aparência, que não se impõe, que não pretende ser um gesto arquitectónico imponente, mas sim uma expressão de crescimento natural, como um novo ramo que cresce a partir de uma árvore. Percorrendo o espaço recém-inaugurado, o visitante começa por observar um trecho do Parque através de uma enorme janela que se abre na ponte de ligação entre o edifício primitivo e a nova ala. O respeito pela natureza é o primeiro grande ensinamento desta verdadeira aula de arquitectura, ficando o visitante a saber que o edifício “se torce ligeiramente”, precisamente para não tocar em nenhuma das árvores. A própria ponte é uma solução que segue nesta linha, evitando-se assim a necessidade de fundações que feririam as raízes de duas árvores centenárias e levariam à sua morte (o custo final da obra foi 20% superior ao previsto devido a medidas de protecção da natureza e paisagem envolvente ao novo edifício).

À medida que se avança ao longo dos vários “módulos”, os pormenores arquitectónicos não cessam de desafiar o visitante, destacando-se como “peças admiráveis” em diálogo com as muitas obras que integram as duas exposições ali patentes: “Anagramas improváveis. Obras da Coleção de Serralves” e “C.A.S.A. - Coleção Álvaro Siza. Arquivo”. A sequência de passagens estreitas que se abrem para salas enormes convoca efeitos de contração e expansão geradores de surpresa e espanto no visitante. A diferença entre pisos de madeira e de pedra definem confluências num jogo de chegadas e partidas. Os espaços que devem permanecer vazios, para que neles se percebam conceitos como o de “simetria invertida”, tão caro a Álvaro Siza. As lógicas do centro presente, do centro ausente, do centro desfasado, tão presentes em todo o projecto. A espacialidade oblíqua que nos obriga a ver tudo em perspectiva. A iluminação que, para além de ser um factor de sustentabilidade, se preocupa com a criação de ilusões de óptica que põem em relevo os elementos geométricos do conjunto.

Desce-se ao piso inferior por uma escada com iguais dimensões à daquela existente no corpo nascente do Museu de Serralves e, contudo, tão “diferente” para quem teve já a possibilidade de percorrer as duas. Estamos, então, no piso térreo da Ala Siza Vieira, no qual está patente ao público a maior concentração global de projetos sizianos e que incluem um amplo espectro de projetos para lá dos muros de Serralves. Estão neste caso as Casas de Cultura, do Conhecimento, de Fé, de Lazer, de Comércio, de Família, do Povo e de Trabalho. Com curadoria de António Choupina e coordenação de Sónia Oliveira, a mostra dá a ver desenhos, maquetes e fotografias de edifícios tão emblemáticos como as Quatro Casas ou o Bairro de S. Vitor, a Cooperativa de Lordelo do Ouro ou a Piscina da Quinta da Conceição, os edifícios da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto ou a Casa Armanda Passos. E há ainda os desenhos com o seu traço inconfundível, pinturas ilustrativas de vários momentos da sua carreira, esculturas minimalistas, objectos particulares e projectos (muitos) que nunca chegaram a ver a luz do dia. Uma visita aberta à descoberta e que importa repetir.

terça-feira, 9 de julho de 2024

CONCERTO: Paquito d'Rivera



CONCERTO: Paquito d’Rivera
Com | Paquito d’Rivera (saxofone e clarinete), Pepe Rivero (piano), Sebastián Valverde (vibrafone), Gastón Joya (contrabaixo), Georvis Pico (percussão)
Convidado | Alexei León (flauta)
FIME - 50º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
06 Jul 2024 | sab | 22:00


A fazer fé nas suas palavras, há demasiado tempo que Paquito d’Rivera não visitava o nosso país. Daí que esta sua presença fosse aguardada com enorme expectativa e os bilhetes para o concerto no Auditório de Espinho tenham esgotado muito rapidamente. Afinal, não é todos os dias que há a possibilidade de escutar uma referência do jazz, cuja longa e premiada carreira internacional faz dele “uma instituição no mundo global da música”. Desde criança que Paquito d’Rivera parecia destinado a tornar-se numa figura icónica, quer porque a riqueza musical do caribe lhe corre nas veias, quer porque a sua família cultivava a música (o pai praticava saxofone “vinte e seis horas por dia”) e desde muito novo o incentivou a tocar. O futuro acabaria por confirmá-lo, numa carreira de mais de seis décadas ao longo da qual acabaria por garantir, por direito próprio, o estatuto de estrela maior no firmamento do jazz.

Foi esta enorme personalidade da cena jazzística mundial que o público teve a oportunidade de escutar na noite do passado sábado, começando por ouvi-lo falar das saudades que já tinha do nosso vinho verde e do bacalhau e percebendo nas suas palavras o lamento por ter esperado tanto tempo pelo regresso a Portugal. Alternando entre o saxofone e o clarinete, Paquito d’Rivera fez assentar na improvisação uma música que atravessa as barreiras estilísticas do jazz de inspiração latina e a música erudita. Numa noite de ritmos quentes e festivos, essa plasticidade fez-se sentir de forma intensa, reforçada pela qualidade e cumplicidade de um quarteto onde pontificaram o pianista Pepe Rivero, o vibrafonista Sebastián Valverde, o contrabaixista Gastón Joya e o baterista Georvis Pico, reforçado em dois momentos (um deles já no encore) pelo flautista Alexei León, a título de convidado.

Com um alinhamento variado e versátil, esta foi uma noite em que o jazz e a música clássica quiseram dar-se as mãos. O primeiro momento desta ligação surgiu com “Nocturno en la Celda”, uma composição de Pepe Rivero a partir do Noturno em Mi-bemol maior, de Chopin. Mas foi com Mozart e o segundo andamento do concerto para Clarinete e Orquestra, que essa união se impôs de forma intensa e viva, primeiro com a “descoberta” de que “se trata de um blues”, e depois pondo os presentes na sala a trautear algumas das mais emblemáticas peças do “Joãozinho”. Temas como “El Basstronauta”, “Fantasia Impromptu”, que Rivero escreveu em memória de Ernesto Lecuona, “Miriam”, de Bebo Valdés, “I Missed You Too”, a celebrar o reencontro de Paquito d’Rivera e Chucho Valdés, ou “Mambo Influenciado”, do próprio Chucho, mesclaram um concerto “clássico” com o melhor do jazz. A rematar, dois temas “do maior compositor de jazz do século XX”, Dizzy Gillespie, foram “a cereja no topo do bolo”, a sala inteira a cantar e a celebrar a fraternidade em torno da música. Memorável!

segunda-feira, 8 de julho de 2024

EXPOSIÇÃO: "Mutantes"



EXPOSIÇÃO: “Mutantes”
Vários Artistas
Colecção Treger Saint Silvestre
Curadoria | Andreia Magalhães
Centro de Arte Oliva
28 Jun 2024 > 27 Abr 2025


A Colecção de Arte Bruta –Treger Saint Silvestre, em depósito no Centro de Arte Oliva, é um manancial inesgotável de surpresa e fascínio. Independentemente dos ângulos sob os quais possam ser observadas, as cerca de mil e quinhentas obras de mais de trezentos e cinquenta artistas que nela se reúnem congregam princípios e valores que as ligam entre si e as tornam atractivas de um ponto de vista artístico e humano. Com curadoria de Andreia Magalhães, “Mutantes” volta a impressionar pela forma como aborda a colecção, reunindo animais, plantas e seres orgânicos imaginários que se abrem em mistério e sedução ao olhar do visitante. Rãs com asas, dragões, sereias, criaturas dançantes, policéfalas e híbridas, animais-camuflagem e metamorfoses botânicas, são espécies de um outro mundo que agora habitam o Centro de Arte Oliva. Neste “mundo natural” psicadélico e ficcionado, com entes saídos de fábulas, mitos e visões mágicas, é-nos apresentada uma ecologia alternativa que nos faz pensar sobre a nossa própria condição de seres vivos.

“Porquê Olhar os Animais?”, o ensaio que dá título a uma reunião de textos de John Berger, reflete sobre a degradação da nossa relação com a natureza. Em particular, fala-nos sobre a redução dos animais — outrora centrais e não separados da existência humana — à categoria de espectáculo ou produto de consumo, relembrando-nos de como, no passado, “os animais entraram na nossa imaginação como mensageiros e promessas”. Ainda mantemos espécies de estimação e visitamos jardins zoológicos, mas “o olhar entre o animal e o homem, que possivelmente teve um papel crucial no desenvolvimento da sociedade humana, e com o qual, em todo caso, todo ser humano convivia até um século atrás, extinguiu-se”. Este foi o ponto de partida para “Mutantes”, que se expandiu naturalmente para incluir a botânica imaginária. “Sopa Primordial”, “Casulos e Metamorfoses”, “Voadores e Flutuantes”, “Outros Mundos” ou “Formas de Vida Interligadas”, são apenas alguns núcleos onde se abrigam trabalhos, alguns deles sobejamente conhecidos, de artistas como Guo Fengyi, Jaber, Moset, Johann Garber ou Anna Zemánková.

A percepção deriva, sem se fixar, muda. Também fala e não está garantida que sejam as nossas vozes que se ouvem. Dado o tema – o da mutação – importa entrar no jogo das variações, do tornar-se isto e aquilo, no “sem nome”, no curioso, no estranho, no trânsito das formas. Durante a permanência da exposição, decorre a instalação no espaço do projecto “As Sementes Discordantes de Coisas Desconexas”, que funciona como um laboratório que abrange um diversificado programa de actividades públicas. O motivo certo para o acto criativo no seu momento caótico, em formação, onde as sementes discordam dos reinos, das classes e das ordens. Que a natureza, se é dela que falamos, tenha ocupado na história da representação a posição de fundo, desconhecida, indiferente, outra, justificada pela figura, sempre humana, durante “Mutantes”, nas ações de mediação, entra-se no ciclo das metamorfoses: passar aquele fundo a figura, seguindo as pistas que as criaturas de “Mutantes” nos deixam, indícios das zonas de risco e do perigar da imaginação que abre caminho para a imprevisibilidade dos encontros e dos processos.

[Texto baseado na Folha de Sala da exposição]

domingo, 7 de julho de 2024

CONCERTO: Sissoko Segal Parisien Peirani



CONCERTO: Sissoko Segal Parisien Peirani
FIME – 50º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
05 Jul 2024 | sex | 21:30


Entrados na segunda metade do FIME - 50º Festival Internacional de Música de Espinho, o fim de semana não poderia ter tido um melhor começo. No palco da Academia, quatro músicos “perdidos” encontraram-se para tocarem músicas que são, ao mesmo tempo, reflexo de proximidade e de distância. Com a kora de Ballaké Sissoko, o violoncelo de Vincent Segal, o acordeão de Vincent Peirani e o saxofone de Émile Parisien, o grupo subiu ao palco com a proposta de uma viagem musical tão vasta quanto surpreendente, fazendo transitar o público entre a Europa e o Oriente, a África e a América Latina. Uma viagem épica à qual os presentes aderiram de forma incondicional, navegando por mares da tradição erudita e popular, pintados das cores e influências que cada músico quis acrescentar da sua própria experiência. Unidos pela espontaneidade e pela improvisação, o jazz e a cumbia, os blues e o tango, mostraram-se breves e livres, elevando a qualidade e capacidades de quatro músicos de excelência que têm no ouvido o instrumento rei e cujo virtuosismo se exprime, antes de mais, através da sua cumplicidade.

Começando pelo violoncelista Vincent Segal, vale a pena referir que é um daqueles músicos versáteis que tanto encontramos num álbum de Sting ou de Cesária Évora, como na banda sonora de um filme ou num tema para um espectáculo de dança. A sua mais importante colaboração, contudo, é aquela que o liga ao mestre da kora, o maliano Ballaké Sissoko, numa sedutora fusão neoclássica das tradições de África e da Europa. Por outro lado, há o saxofonista soprano francês Émile Parisien e o virtuoso do acordeão Vincent Peirani, maravilhosamente expressivos, que há muito tempo embarcam juntos em longas digressões e revelam uma empatia mútua altamente desenvolvida que os torna ágeis e auto-suficientes. Juntar as duas duplas resulta num verdadeiro acontecimento, nem jazz nem tradição, nem clássico nem vanguardista, mas um pouco de tudo isso, fundando um território poético autónomo onde o simples mas poderoso desejo de se ouvirem uns aos outros resulta no nascimento de uma singular canção a oito mãos.

A verdadeira magia é, como facilmente se percebe, do foro do colectivo. Ambos os duos atingem uma rara intimidade criativa, aquela sensação de dois instrumentos a entrelaçar-se, como se governados por uma mente musical. Em grande medida, isto é devido a um rigoroso equilíbrio entre virtuosismo e contenção. Cada um dos músicos é mestre em conter-se e em deixar a música fluir. Olhando o alinhamento do concerto, “Ta Nyé”, o tema de abertura, revelou-se uma peça reflexiva fundada na tradição, marcada por lufadas de kora verdadeiramente refrescantes. “Izao”, que Peirani escreveu para o seu filho, mostrou um toque de música dos Balcãs. “Orient Express” homenageou o malogrado músico austríaco Joe Zawinul, recriando uma das suas músicas mais icónicas, mesmo não tendo por perto uma bateria. E houve ainda “Esperanza”, a fechar o alinhamento como se de uma cumbia colombiana embriagada se tratasse. No encore, “Amenhotep” trouxe-nos o único tema essencialmente jazzístico do concerto e foi a cereja no topo do bolo. Grande noite esta, tal como a de outros franceses, lá longe em Hamburgo, felizes nos penaltis de um Europeu de Futebol.

sábado, 6 de julho de 2024

EXPOSIÇÃO: "Elevador da Glória"



EXPOSIÇÃO: “Elevador da Glória”
Vários Artistas
Colecção Norlinda e José Lima
Curadoria | Helena Mendes Pereira
Centro de Arte Oliva
17 Mai > 31 Dez 2024


“Elevador da Glória” é uma homenagem e uma reflexão sobre a geração nascida no pós-25 de Abril de 1974 e, sobretudo, na década de 1980, consubstanciada por um conjunto de artistas-cidadãos que vive uma condição espácio-temporal em que a mentira da meritocracia foi desvendada e o elevador social não existe. Partindo da diversidade e da riqueza da colecção Norlinda e José Lima que, coincidentemente, começa a constituir-se na década de 1980, é feita uma seleção de artistas portugueses ou residentes em Portugal, que podemos considerar como filhos da Liberdade. Inês d’Orey, André Cepeda, Vasco Araújo, Mariana Gomes, João Pedro Vale, Flávia Vieira, Maria Condado, Carlos Noronha Feio, Gil Madeira e Diana Policarpo, entre outros, constituem-se como o corpo autoral da exposição que se organiza na articulação entre os conceitos de euforia, entropia, fragmento e hibridez, partindo da consciência de que os artistas antecipam, sempre, o porvir.

No caso português, a década de 1980, sobretudo a segunda metade e após a entrada na CEE, inscreve-se na memória colectiva como um tempo de grande entusiasmo, com um apelo muito forte ao consumo e com a perspectiva de que o futuro seria promissor. Depois de um período pós-revolucionário de (re)construção, segue-se uma fase de expansão e até de extravasamento. A energia reflete-se na produção artística, especialmente na música, mas também na moda, dominada pelo kitsch, pelos chumaços ou pelos bigodes. A música, “O Elevador da Glória”, lançada pelos Rádio Macau em 1987, é detentora deste espírito, constituindo-se como uma metáfora ao elevador social que, à época, parecia uma realidade ao alcance de todos.

Esta é a geração dos pais da maior parte daqueles que nasceram depois do 25 de abril de 1974, e que entraram na vida adulta e no mercado de trabalho já no século XXI, no novo milénio, assistindo a um mundo em tensão, num confronto cultural e político entre ocidente-oriente, ultrapassando a terrível crise financeira de 2008 e um conjunto de outras contingências que, não obstante se tratar de uma geração com um nível de formação académica superior à dos seus pais, é mantida num impasse e no precipício da esperança. Esta é a geração que sentiu e sente a precariedade laboral, as dificuldades da habitação, que adiou a emancipação e a parentalidade, que assiste a uma nova ascensão da extrema-direita, o que contrasta com um tempo de conquista de direitos, liberdades e garantias e que se vê dependente da digitalização do mundo e presa num tempo fragmentado em que, como nunca, mas com início na tal década de 1980, ter é mais relevante do que ser. Esta geração está a surfar a curva da História e a mudança de paradigma que marca o nosso tempo e espaço global, de forma consciente e simbólica, a partir da tragédia de 11 de setembro de 2001.

Elevador da Glória é também uma visão da coleção Norlinda e José Lima como um contexto de oportunidade e de atenção a diferentes gerações de artistas, tendo sido preocupação apresentar obras menos vistas ou inéditas que evidenciem a acção mecenática dos coleccionadores.