“Em quinhentos anos, por exemplo, se descascássemos uma laranja por dia, teríamos descascado cento e oitenta e duas mil e quinhentas laranjas. Eu gosto de descascar laranjas, mas o tempo passa tão depressa. Mesmo o tempo das laranjas. Só o mundo é lento, lentíssimo. Deixa-nos passar primeiro, como um cavalheiro, abre a porta e indica-nos a entrada, e depois a saída. Quase todos entramos e saímos a chorar. E depois vêm outros, saem outros, e assim sucessivamente.”
Como classificar um livro assim? Teatro? Ficção? Um coral onde três vozes se entrelaçam como correntes de água que nunca chegam verdadeiramente a confluir? Quanto mais mergulhamos em “A Lentidão do Mundo”, mais sentimos a recusa em qualquer classificação pacífica, como se a própria forma fosse já uma resposta ao seu tema: o tempo não se deixa conter, e a linguagem também não. Integrado na preciosa Colecção Crateras - Ficção, da Editora Nova Mymosa, o texto nasce de uma residência da Malvada Associação Artística, em Évora, em 2024, e transporta consigo um sopro de experimentação, uma abertura ao risco, uma escuta atenta do espaço e dos corpos. Posteriormente levado à cena na BlackBox do Espaço do Tempo e no Teatro do Bairro, numa criação de Nuno Nolasco, Ana Luena e José Miguel Soares, o texto revela a sua vocação cénica sem jamais abdicar de uma densidade literária que o sustenta. Há didascálias implícitas no respirar das frases, há pausas que são quase silêncios habitados, e tudo isso constrói uma obra que vive entre páginas e palco, sem jamais se fixar.
As três vozes - a mulher que limpa a piscina, o nadador profissional, o homem sentado - não são apenas personagens: são estados do corpo perante o tempo. A primeira move-se rente à terra, à água que não domina, inventando uma coreografia de sobrevivência e delicadeza; o segundo vive na tirania da performance, o corpo simultaneamente instrumento e cárcere; o terceiro arrasta o peso da memória e da omissão, como se cada gesto fosse demasiado tarde. A água, elemento central, surge ora como ameaça, ora como promessa, ora como espelho impossível. E é nesse jogo que a autora inscreve uma reflexão subtil sobre classe, desejo, herança e falha, porque o medo da água, como se diz, pode ser um luxo, mas também uma condenação. A escrita de Filipa Leal é aqui de uma limpidez enganadora: por baixo da aparente simplicidade, acumulam-se camadas de sentido, quais folhas e pétalas recolhidas da piscina. Cada frase parece respirar, hesitar, voltar atrás, como se pensar fosse já uma forma de resistência à pressa do mundo.
No fundo, o que este texto interroga é a possibilidade de habitarmos o tempo sem sermos devorados por ele. A “lentidão do mundo” não é apenas um título: é uma hipótese ética, quase uma utopia íntima. Enquanto os corpos se esgotam - no treino, na doença, na velhice, no amor perdido - o mundo permanece, impassível, quase distraído, abrindo e fechando portas. Nesta percepção há qualquer coisa de profundamente comovente, a ideia de que tudo passa depressa demais para quem vive, e devagar demais para quem observa. E, no entanto, é nesse descompasso que a obra encontra a sua beleza mais funda. Quando, no final, se propõe ensinar a nadar - ou talvez a parar -, o gesto adquire uma dimensão quase redentora: aprender a mover-se na água ou no tempo é, afinal, aprender a não sucumbir. “A Lentidão do Mundo” é, assim, um texto que se escuta mais do que se lê, que se sente mais do que se explica. E que, como um eco, permanece muito depois de virada a última página.