Concorrer ao Festival PANOS — Palcos Novos Palavras Novas, iniciativa do Teatro Nacional D. Maria II, com coordenação de Sandro William Junqueira, foi o desafio que o elenco juvenil do Sol d’Alma decidiu abraçar esta temporada. Após as bem sucedidas participações, em 2022 e 2025, num “projecto onde se lê, faz e apresenta teatro de e para jovens, dos 12 aos 19 anos”, este novo trabalho colocou o grupo de vinte e um elementos perante a delicada escolha entre os textos originais “O Meu Pai Carlitos”, de Joaquim Arena, “Olívia”, de Mariana Jones e “Insegura – Uma Tragédia de Enganos”, de Ana Markl. Recaindo sobre este último, a escolha viria a revelar-se particularmente feliz, já que o texto de Ana Markl, de uma enorme inteligência e actualidade no panorama dramatúrgico português, assenta neste grupo como uma luva. Sarcástica, plena de ritmo, assertiva, dolorosamente contemporânea e profundamente humana, “Insegura - Uma Tragédia de Enganos” mascara-se de comédia leve sobre relações amorosas, seguros emocionais e traumas afectivos, ao mesmo tempo que contempla uma reflexão amarga sobre a ansiedade da geração digital, o medo permanente do abandono e a incapacidade de viver o amor sem antecipar a sua ruína.
Por vezes absurdo, por vezes negro, quase sempre desconfortavelmente reconhecível, o humor funciona aqui como mecanismo de sobrevivência perante uma juventude que se mostra disponível para descartar a dor, burocratizar os sentimentos e transformar um desgosto amoroso num serviço contratualizável. Há em “Insegura – Uma Tragédia de Enganos” uma escrita que compreende profundamente o presente, que converte as mensagens em linguagem quotidiana e os “likes” em provas judiciais do amor, que disfarça de independência emocional o medo da solidão e teatraliza a intimidade de forma a sublimar a fragilidade das relações contemporâneas. Nessa tensão constante entre o ridículo e a tragédia, entre a sátira e a vulnerabilidade interior, reside o brilhantismo do texto. A peça desmonta, com admirável sarcasmo, a linguagem terapêutica e corporativa que invadiu a intimidade humana, transformando emoções em pacotes de serviços, traumas em categorias administrativas e afectos em produtos de consumo. Por detrás dessa engenharia cómica, porém, iremos encontrar uma dolorosa melancolia e a certeza de que não há antídoto contra desgostos de amor.
Escapando à caricatura fácil e ao excesso melodramático, a encenação de Leandro Ribeiro mostrou-se suficientemente plástica para sustentar a rapidez verbal do texto sem perder clareza nem intensidade dramática. Uma encenação que, sem obviar a essência dramatúrgica, soube tirar o melhor partido do texto e encontrar o seu próprio caminho. Embora simples, o dispositivo cénico fez da palavra o centro da acção, mas deixou espaço aberto a um momento de karaoke, a uma singular dança das cadeiras, a uma interjeição genuinamente vareira e a uma infinidade de outros pormenores que vieram acrescentar camadas à narrativa e permitiram elevar o acessório à categoria de essencial. Mafalda Reis, no papel de Leonor, foi extraordinária na gestão dessa oscilação permanente entre neurose, fragilidade e ironia, evitando transformar-se numa mera vítima histérica. Pelo contrário, revelou-se capaz de construir uma personagem reconhecível, contemporânea e profundamente triste, mesmo nos momentos mais cómicos. Também Gabriel Garrido, no papel do Perito, demonstrou um excelente domínio do tempo humorístico, sobretudo na forma como transformou o cinismo burocrático da personagem numa figura simultaneamente ridícula e inquietante.
Há uma enorme maturidade interpretativa em todo o elenco, algo de muito relevante numa peça cuja dificuldade reside, precisamente, na velocidade tonal com que passa da farsa ao desamparo, para de seguida regressar à farsa. A certa altura, é evidente que o problema não está apenas no medo de se sofrer um desgosto amoroso, mas no facto de se viver dentro desse sofrimento. Profundamente actual, a ideia é sustentada pelo trabalho de grupo, sobretudo nos momentos em que o texto desacelera e deixa emergir o vazio para além da rábula. No papel de Diogo, Rita Pereira trouxe exactamente essa pausa necessária, graças a um porte sereno, quase luminoso, que permite à peça respirar antes do seu desfecho. Aliás, é a forte presença da actriz que faz com que “Insegura”, num dos seus momentos de maior risco, não resvale para o mau gosto. Falarei, enfim, do Coro, uma das soluções mais deliciosamente irónicas da peça, mas que ficou aquém do desejado em matéria de dicção e ritmo para se mostrar plenamente eficaz no seu desígnio de ser, em simultâneo, consciência grega, voz da ansiedade e mecanismo cómico de desmontagem emocional.
O desfecho final confirma a qualidade estrutural da peça. Quando se percebem as verdadeiras intenções do namorado de Leonor, toda a construção emocional da actriz colapsa de forma simultaneamente trágica e cómica. É aí que “Insegura” deixa de ser apenas uma boa comédia contemporânea para se tornar uma reflexão séria sobre ansiedade, auto-sabotagem e solidão emocional. O último golpe, a revelação de que até o caso romântico com Diogo era parte da encenação - o teatro dentro do teatro é aqui uma ideia recorrente -, encerra a peça com uma crueldade arrepiante: talvez a maior tragédia contemporânea seja já não conseguirmos distinguir o que é genuíno daquilo que foi desenhado para nos confortar. Aceitar trabalhar um texto exigente, intelectualmente sofisticado e emocionalmente desafiante, é revelador da enorme garra, coragem e maturidade do elenco juvenil do Sol d’Alma. É a prova da sua capacidade de fazer teatro, acrescentando-lhe frescura, espontaneidade e verdade cénica. Ao seleccionar esta representação da peça para a fase final do PANOS, o júri mais não fez do que reconhecer um trabalho sério, sólido e comprometido, artisticamente superior e revelador da capacidade rara de um grupo em compreender o presente através do teatro.