“ ¡Campo de Baeza,
soñaré contigo
cuando no te vea!”
Antonio Machado. Apuntes II. Nuevas Canciones (1924)
O ponto de partida ideal para descobrir a profunda ligação entre Antonio Machado e a cidade de Baeza, na Província de Jaén, é o Centro Expositivo dedicado ao poeta, instalado no edifício da antiga Universidade, onde funcionou o Instituto de Ensino Secundário em que leccionou Francês entre 1912 e 1919. Mais do que um espaço museológico convencional, trata-se de um centro interpretativo que convida o visitante a compreender a dimensão humana, literária e pedagógica de um dos maiores nomes da Geração de 98. Através de recursos interactivos, documentos históricos, fotografias, objectos da época e conteúdos audiovisuais, o percurso revela o quotidiano de Machado enquanto professor e cidadão, contextualizando simultaneamente a sociedade espanhola do início do século XX. A exposição permite perceber como aqueles sete anos passados em Baeza, marcados pela dor da perda da jovem esposa Leonor Izquierdo, acabariam por transformar-se num dos períodos mais fecundos da sua produção literária. É também um excelente complemento à visita da antiga sala de aulas, preservada praticamente intacta, onde ainda hoje permanecem os mapas, a secretária do professor e a atmosfera que parece conservar viva a memória de um mestre discreto, mas profundamente respeitado.
A permanência de Antonio Machado em Baeza deixou marcas muito para além das paredes da antiga Universidade. O poeta encontrou numa cidade ainda distante dos grandes centros culturais um inesperado refúgio para reconstruir a sua vida, conciliando o ensino com uma intensa actividade intelectual. Aos poucos integrou-se na sociedade baezana, participou em tertúlias literárias, conviveu com professores, médicos, advogados e farmacêuticos, e continuou a desenvolver uma obra que haveria de marcar definitivamente a literatura espanhola contemporânea. Ao mesmo tempo, foi descobrindo uma cidade de extraordinária riqueza patrimonial, onde palácios renascentistas, igrejas, conventos e ruas empedradas dialogam harmoniosamente com uma paisagem infinita de olivais. Não surpreende, por isso, que o centro histórico de Baeza tenha sido distinguido como Património Mundial pela UNESCO, reconhecimento que valoriza um dos mais notáveis conjuntos urbanos renascentistas de Espanha.
Essa presença permanece particularmente visível nos chamados lugares machadianos, dispersos pelo centro histórico. A poucos metros da antiga Universidade encontra-se a Plaza de Santa María, dominada pela majestosa Catedral, cenário quotidiano das caminhadas do poeta e um dos espaços mais emblemáticos da cidade. Muito perto fica a casa da Calle Gaspar Becerra, onde Machado viveu com a mãe durante parte da sua estadia em Baeza, assinalada por uma placa evocativa. Na Calle San Pablo ergue-se a escultura em bronze que o representa serenamente sentado diante do antigo Casino, edifício que frequentava e onde, em 1916, conheceu Federico García Lorca. Outro ponto incontornável é o Paseo de las Murallas, hoje baptizado com o seu nome, de onde contemplava durante horas o vasto mar de oliveiras que cobre a província de Jaén. É um percurso onde património monumental e património literário se fundem numa única experiência, permitindo compreender porque continua esta cidade andaluza a ser uma das mais marcantes referências do turismo cultural e literário em Espanha.