LIVRO: “Jardins Secretos de Lisboa”,
de Manuela Gonzaga
Edição | Manuel S. Fonseca
Ed. Gradiva Publicações, Maio de 2026
“E foi assim que fez constar que a base de licitação para a primeira noite com a rapariga era de quinhentos contos de réis. A soma era tão disparatada que no “casino” começaram a aparecer frequentadores que já não visitavam a casa há muito tempo, só para verem, ao vivo, a rapariga que levara Brigite a perder a noção das realidades. O facto é que a notícia agitou Lisboa numa onda sísmica de conversas picantes, com epicentro na Baixa e no Chiado. Do Parque Mayer ao Gambrinus, do Tavares Rico ao Paraíso, o assunto era comentado, discutido, analisado, em almoços e jantares, e os ecos deste escândalo puseram as putas finas do Nina, um cabaré junto ao S. Carlos, a chorar de tanto rir.”
Que bom voltar a cruzar-me com Manuela Gonzaga e com a elegância da sua escrita, o seu olhar arguto, a sua capacidade notável de tornar essencial o que não passaria de acessório ao leitor menos disponível. Dos primórdios da sua carreira de escritora chega-nos, à boleia de uma muito saudada reedição, “Jardins Secretos de Lisboa”, um romance que reforça o gosto da escritora pelas vidas de gentes e lugares e que nos aproxima de uma Lisboa algures entre os anos 60 e o início do novo milénio. Sob a cidade visível, o romance parece abrir uma complexa cartografia, feita de memórias, desejos, ruínas e personagens que sobrevivem nas margens da história que nos ensinam. Alice, fotógrafa desiludida e afastada da sua própria vocação, reencontra Jorge, homem de língua ferina, libertino e desconcertante, que a conduz por uma Lisboa luminosa e decadente, sensual e melancólica, onde o passado teima em persistir. O percurso amoroso depressa se transforma numa descida aos subterrâneos da cidade e, simultaneamente, aos subterrâneos de si própria. A cidade deixa de ser apenas cenário, para se transformar num organismo vivo, arquivo e espelho em simultâneo. De simples lugares reconhecíveis, Chiado, Baixa, Rossio, Restauradores, Cais do Sodré ou Avenida da Liberdade convertem-se em espaços de iniciação. Os jardins são secretos porque pertencem àquilo que a cidade esconde e porque, no fundo, guardam um território íntimo ao qual nem sempre as personagens conseguem regressar.
É na escrita que o romance encontra uma das suas forças mais evidentes. Manuela Gonzaga escreve com uma fluidez desarmante, baseada numa construção narrativa de grande precisão. A frase pode ser directa, coloquial, irónica, para logo se abrir numa imagem de inesperada intensidade. O diálogo inicial entre Alice e Jorge é exemplar: o jogo de recusas - “Vamos jantar hoje?”, “Não.”; “Então, vamos almoçar amanhã.”, “Não.” - instala de imediato ritmo, carácter e tensão, sem necessidade de explicações. Jorge entra na narrativa pela fala, e a sua fala é como uma lâmina: provoca, seduz, agride, diverte. Alice, pelo contrário, observa, resiste, recorda. graças a esse contraste, o leitor é puxado para o cerne da história. A certa altura, a narradora confessa que Jorge “usava, e usa, as palavras como facas”, definição que poderia servir, por extensão, para caracterizar a própria autora: também Manuela Gonzaga sabe manejar a palavra como instrumento de revelação, denotando uma notável capacidade de transformar o banal em matéria literária. Uma ida de Metro, um almoço, uma passagem por uma ginjinha, um baile na Avenida da Liberdade tornam-se episódios de descoberta. A cidade mostra-se de soslaio e pisca o olho a Alice, cujo olhar fotográfico selecciona, enquadra, fixa. Só que, neste caso, a imagem faz-se de palavras.
Há em “Jardins Secretos de Lisboa” qualquer coisa de familiar, uma sensação singular de reconhecimento, mesmo se o leitor é conduzido a lugares ocultos ou a histórias que fazem parte de uma Lisboa entretanto desaparecida. A elegância de Manuela Gonzaga nasce precisamente dessa capacidade de fazer conviver o íntimo e o colectivo, as recordações pessoais e a memória de toda uma cidade. O passado de Alice, a história do pai fotógrafo, o incêndio, a perda da fotografia, o casamento desfeito e as imagens difusas de Luanda entrelaçam-se com a transformação urbana e política de Portugal, criando um romance onde a intimidade permanece lado a lado com a História. A própria reflexão sobre a fotografia explicita essa poética: “é preciso saber [...] que, às vezes, até o olhar nos engana.” É uma frase que poderia servir de chave para todo o livro. Porque também a escrita de Manuela Gonzaga refracta a realidade: desvia-a, altera-lhe o ângulo, acrescenta-lhe sombras e devolve-a mais nítida. Lisboa surge assim como uma cidade de camadas, cujos lugares perdidos permanecem inscritos na memória de quem os viveu. Quando Alice contempla os jardins abandonados, o lago desaparecido, as árvores do Jardim Botânico e os prédios que deixaram de ser os mesmos, o leitor é convidado a fazer a mesma viagem e a descobrir o que permanecia oculto. “Jardins Secretos de Lisboa” faz-nos sentir que estamos a revisitar lugares esquecidos, mesmo se nunca lá estivemos. E fá-lo sem nostalgias fáceis, antes com a consciência de que toda a memória é também uma forma de ficção e que, por vezes, só a ficção consegue devolver à vida o que o tempo julgou perdido.