Em “If We Stay, We Stay Awake”, Sagg Napoli prolonga uma investigação que tem vindo a desenvolver em torno da relação entre corpo, território e poder, deslocando o foco da figura individual para um corpo colectivo construído através dos espaços habitados, dos objectos quotidianos e das relações que neles se estabelecem. Nascida em Nápoles em 1991, a artista tem definido a sua prática a partir da noção de “South Aesthetics”, uma reflexão crítica sobre os modos como o Sul é representado, classificado e frequentemente desvalorizado no interior das narrativas culturais dominantes. O seu trabalho não procura apenas reivindicar uma identidade regional, mas revelar os mecanismos sociais e históricos que determinam aquilo que é reconhecido como belo, contemporâneo ou legítimo. Em Serralves, esta investigação encontra um contexto de particular ressonância: a partir da habitação social, das ilhas e dos processos de autoconstrução que ainda prevalecem na cidade do Porto, Sagg Napoli observa formas de inteligência quotidiana que raramente entram nos arquivos oficiais da arquitectura. A casa surge como uma extensão do corpo e como um espaço onde se inscrevem necessidades, desejos, limitações económicas, memórias familiares e formas de resistência silenciosa.
A instalação transforma materiais associados ao uso doméstico em elementos de uma composição espacial e sonora que questiona os critérios através dos quais se atribui valor cultural. O chão de cortiça, os ventiladores e as cortinas de plástico não são apresentados como objectos neutros, mas como portadores de histórias e práticas colectivas. A artista interessa-se particularmente pela ventilação enquanto fenómeno social: o ar que circula transporta sons, conversas e informações, estabelecendo uma relação entre interior e exterior, privacidade e comunidade. Em oposição a modelos de conforto cada vez mais individualizados e controlados, estes elementos evocam uma experiência partilhada do espaço, onde o ambiente é constantemente negociado entre as pessoas e o lugar. Esta atenção ao quotidiano permite compreender como gestos aparentemente banais - reparar uma parede, adaptar uma janela, escolher uma cortina ou cuidar de uma entrada - constituem formas de regulação autoral. Tal como o corpo, também a casa é frequentemente julgada através de códigos de gosto que escondem diferenças de classe e de acesso aos recursos. Sagg Napoli evidencia que aquilo que é classificado como improvisação pode conter conhecimento, criatividade e uma profunda relação de cuidado com o território.
A importância de “If We Stay, We Stay Awake” reside precisamente na capacidade de aproximar experiências geograficamente distintas, revelando um Sul entendido não como uma fronteira fixa, mas como uma condição histórica e cultural marcada por desigualdades, adaptações e formas específicas de habitar. O diálogo entre Nápoles e o Porto permite pensar uma Europa contraditória, construída simultaneamente sobre a promessa de circulação e sobre fronteiras que distribuem de modo desigual possibilidades de permanência, mobilidade e reconhecimento. Ao convocar referências como o processo SAAL - programa pioneiro de habitação social e participação pública em Portugal no pós-25 de Abril -, Sagg Napoli recupera uma ideia de arquitectura como prática colectiva e política, onde os habitantes participam na definição dos espaços que ocupam. A exposição propõe, assim, uma atenção activa ao que permanece invisível: o trabalho diário de quem mantém uma casa habitável, a memória inscrita nos bairros e os saberes transmitidos fora das instituições. “Ficar acordado” significa, neste contexto, recusar uma observação distante e reconhecer que os lugares são feitos por pessoas, gestos e relações. A obra de Sagg Napoli afirma-se como uma reflexão contemporânea sobre dignidade, pertença e direito ao espaço, mostrando que a estética nunca é indissociável das condições materiais e sociais que a produzem.