“Mais Cargaleiro est également peintre, l’un des meilleurs qui, depuis de nombreuses années, représente son pays dans l’École de Paris. En témoignent les admirables gouaches que voici, exquises décantations, clairs poèmes du goût le plus subtil et le plus pur.”
Jean Cassou
“Guaches”, a exposição que ocupa o último piso do Museu Cargaleiro, possui hoje uma inevitável dimensão testamentária. Inaugurada a 16 de Março de 2024, precisamente no dia em que o mestre soprou 97 velas, esta seria a sua última mostra apresentada em vida, ele que viria a falecer poucos meses depois, a 30 de Junho. Reunindo 59 obras produzidas entre os anos 50 e a actualidade, a exposição percorre sete décadas de um percurso singular no panorama artístico português e europeu, marcado pela depuração formal, pela exaltação cromática e por uma fidelidade absoluta à experimentação. A par de Vieira da Silva, Lourdes Castro, René Bertholo ou Júlio Pomar, Cargaleiro pertence a uma geração de artistas que encontrou em Paris o território ideal para expandir linguagens e romper fronteiras estéticas. O contacto com o abstraccionismo francês dos anos 40 e 50 revelou-lhe novas possibilidades expressivas, sem nunca o afastar das sua raízes. Pelo contrário: foi precisamente da tradição popular, da geometria do azulejo e da luminosidade mediterrânica que construiu uma assinatura visual imediatamente reconhecível. Entre a disciplina estrutural herdada da escola francesa e uma liberdade quase musical do gesto e da cor, a sua obra tem em “Guaches” um resumo afectivo e artístico de uma vida inteira dedicada à criação.
Embora o grande público associe inevitavelmente Manuel Cargaleiro à cerâmica e ao azulejo - campos onde deixou uma marca absolutamente decisiva -, “Guaches” permite compreender de que forma o desenho e a pintura estiveram sempre no centro da sua pesquisa estética. O guache surge aqui não como técnica secundária ou mero exercício preparatório, mas como território autónomo de invenção. A opacidade da tinta, a rapidez da execução e a possibilidade de trabalhar sobre a vibração imediata da cor adequavam-se perfeitamente à natureza intuitiva do artista. Em muitos destes trabalhos percebe-se a mesma lógica fragmentária que atravessa os seus painéis cerâmicos: planos que se cruzam, ritmos geométricos, manchas luminosas e estruturas que parecem expandir-se para além dos limites da composição. Contudo, no papel, Cargaleiro revela também uma dimensão mais íntima e espontânea, quase diarística. O guache permitiu-lhe fixar estados emocionais, captar impulsos momentâneos e libertar o gesto da solenidade dos grandes formatos. Não por acaso, esta técnica seduziu alguns dos maiores nomes da pintura mundial, de Henri Matisse a Wassily Kandinsky, passando por Paul Klee ou Joan Miró. Em todos eles, como em Cargaleiro, o guache funcionou como espaço de liberdade absoluta, onde a imaginação pôde avançar sem constrangimentos técnicos ou narrativos.
Há nesta derradeira exposição uma serenidade luminosa que impressiona. Mesmo perante a consciência da finitude, a obra do mestre nunca resvala para a melancolia. Pelo contrário: permanece animada por uma energia juvenil, exactamente como sublinha João Pinharanda no catálogo da mostra, ao descrever o artista como alguém que “nunca deixou a juventude”. Essa vitalidade atravessa toda a exposição. As cores explodem em azuis intensos, vermelhos solares e amarelos mediterrânicos; as formas multiplicam-se em ritmos quase musicais; e as composições recusam qualquer peso dramático. Mesmo quando abstracta, a pintura de Cargaleiro conserva sempre uma dimensão humana e sensorial. O artista observa cidades, jardins, fachadas, azulejos e objectos do quotidiano, não como elementos estáticos, mas como organismos vivos em permanente mutação. Essa será a principal razão pela qual a sua obra continua a tocar de perto gerações tão distintas. Sem ceder ao conceptualismo hermético nem ao academismo decorativo, Cargaleiro construiu uma linguagem imediatamente acessível, mas nunca simplista. “Guaches” confirma precisamente isso: a capacidade rara de transformar cor, luz e fragmentos em emoção visual. E confirma também o lugar central que o artista ocupa como um dos grandes poetas visuais da cor no panorama artístico português.