CINEMA: “Mudar de Vida”
Realização | Paulo Rocha
Argumento | Paulo Rocha, António Reis
Fotografia | Carlos Manuel Silva, Elso Roque
Música | Carlos Paredes
Montagem | Noémia Delgado, Margaret Mangs, Paulo Rocha
Interpretação | Geraldo Del Rey, Isabel Ruth, Maria Barroso, João Guedes, Nunes Vidal, Mário Santos, Constança Navarro, José Braz, António Coelho, Soares Couto, Ilídio Batista, Antonio Pinho
Produção | António da Cunha Telles
Portugal | 1966 | Drama | 94 Minutos | Maiores de 12 Anos
Shortcutz Ovar Sessão #109
Centro de Artes de Ovar
08 Out 2026 | qui | 21:30
Após quatro anos de ausência em Angola, Adelino regressa ao Furadouro convencido de que poderá retomar a vida interrompida, reencontrar Júlia, a mulher que ama, regressar à pesca e recuperar um lugar entre os seus. Mas o tempo não ficou à sua espera. Júlia casou com Raimundo, seu irmão, a pesca tornou-se mais dura e incerta e o mar ameaça os frágeis palheiros da comunidade. O próprio corpo de Adelino, marcado por uma incapacitante dor nas costas, parece negar a reintegração. Surge então Albertina, operária de uma fábrica, mulher inquieta e independente, que olha para fora daquele mundo e sonha também ela partir. Entre Júlia e Albertina, entre o mar e a fábrica, entre a permanência e a fuga, Adelino torna-se a imagem de um país que perdeu o conforto da continuidade. O que parece, à partida, um melodrama de amor e desilusão transforma-se, pelas mãos de Paulo Rocha, numa reflexão sobre a impossibilidade do regresso. “Mudar de Vida” não é, afinal, uma escolha: é aquilo que acontece quando a vida já mudou sem pedir licença.
Profundamente moderno e enraizado no seu tempo, o filme começa por ser uma intriga ficcional, mas deixa que o real o invada, o desloque e, por vezes, quase o suspenda. Ao invés de personagens secundárias, os pescadores, as mulheres, as crianças, os corpos entregues à faina, são a matéria viva de um mundo que o cinema começa a perceber como condenado ao desaparecimento. As extraordinárias sequências da arte xávega, a extracção da areia, o trabalho nas “companhas”, as festas, os interiores pobres e os longos momentos sem diálogo, conferem ao filme um cunho fortemente documental. Paulo Rocha integra-se na própria comunidade, filma-a como matéria de cinema e como experiência histórica e antropológica. A realidade está ali para conferir autenticidade à ficção e a própria ficção precisa dela para existir. Nessa fricção entre actores e não-actores, entre o melodrama e o documentário, entre o gesto encenado e o gesto do quotidiano, encontra o filme a sua singularidade. Não há idealização da vida dos pescadores, nem a celebração folclórica de uma pobreza transformada em virtude. Há suor, fadiga, desejo, doença, precariedade. O mar é belo, mas também traiçoeiro. A comunidade protege, mas também aprisiona. O trabalho confere identidade, mas também devora o corpo.
O espaço em que decorre permite ao filme pensar a História sem a transformar em discurso. Mais do que um mero cenário, o Furadouro de “Mudar de Vida” é uma força que age sobre as personagens. O mar, a areia, a neblina, o pinhal, as casas frágeis, as embarcações e até um velho poço, constituem uma geografia física e sentimental que se sente como coisa nossa. Quando Adelino tenta entrar no universo industrial, encontra uma linguagem diferente daquela que conhece: testes, medidas, aptidões, gestos controlados. O corpo que sabia enfrentar o mar já não responde aos códigos do novo trabalho. A modernização aparece, assim, sem triunfalismos. Não é a passagem luminosa da tradição para o progresso, mas a substituição de uma forma de dureza por outra. Albertina, na extraordinária interpretação de Isabel Ruth, é a personagem que melhor encarna essa contradição. Quer sair, emigrar, mudar de vida, mas o futuro que procura está longe de ser uma promessa segura. Júlia, interpretada por Maria Barroso com uma contenção dolorosa, é a mulher que fica, presa ao lugar, à família e ao trabalho. Entre ambas, Adelino permanece suspenso, homem regressado de uma guerra distante que descobre uma guerra mais íntima ao encontrar lugar num mundo que já não reconhece.
Paradoxalmente, a passagem de seis décadas tornou “Mudar de Vida” ainda mais próximo de Ovar e, em particular, do Furadouro. Rever hoje aquelas imagens é assistir a uma dupla transformação: a do país que Paulo Rocha filmou e a do próprio lugar onde o filme nasceu. O areal a perder de vista, a rodoviária de Azeméis, os palheiros ameaçados, o chalet do Matos em ruínas, as juntas de bois no areal, o cantar o bendito, a capela da Senhora de Entráguas, as salinas, o homem da corneta a chamar para a faina, qual muezim atlântico, são quase apenas memórias. A fotografia de Manuel Carlos da Silva e Elso Roque, feita de cinzentos, neblina, céus pesados e luzes rasantes, e a música de Carlos Paredes, como que surgida do interior da própria terra, transforma cada plano num verdadeiro estado de alma. Para muitos dos que estiveram na sala, a sessão promovida no âmbito do Shortcutz Ovar, apresentada por Tiago Alves e com a presença de Samuel Barbosa, não terá sido apenas uma celebração de uma obra seminal do Cinema Novo português. Paulo Rocha quis fazer um monumento às gentes do mar porque sabia que aquele mundo ia acabar. Sessenta anos depois, percebemos que o monumento resiste. Resistem os rostos, os gestos, o suor, o mar, a música de Paredes, o olhar de Maria Barroso, a presença eléctrica de Isabel Ruth. Resiste, sobretudo, a ideia de que filmar pode ser uma forma de contrariar o desaparecimento. O mundo mudou, nós mudámos com ele, mas durante pouco mais de duas horas foi como se tivéssemos regressado de novo a casa.
