CINEMA: “Histórias Paralelas” / “Histoires Parallèles”
Realização | Asghar Farhadi
Argumento | Asghar Farhadi, Saeed Farhadi
Fotografia | Guillaume Deffontaines
Montagem | Hayedeh Safiyari
Interpretação | Isabelle Huppert, Virginie Efira, Vincent Cassel, Pierre Niney, Adam Bessa, India Hair, Catherine Deneuve, Véronique Ruggia, Julie Fournier, Iris Bry, François Delaive, Ismaël Sy Savané, Oumar Diaw, Roberto Venturini, Frédéric Milani, Bruno Cadillon
Produção | Gaëtan David, Asghar Farhadi, David Levine, André Logie, Alexandre Mallet-Guy, Andrea Occhipinti
França, Itália, Bélgica, Arábia Saudita, Estados Unidos | 2026 | Drama, Thriller | 139 Minutos | Maiores de 14 Anos
Vida Ovar – Castello Lopes
19 Out 2026 | seg | 17:25
“Histórias Paralelas”, o mais recente filme do cineasta iraniano Asghar Farhadi, convida-nos a regressar ao território das relações humanas sob tensão, desta vez através de uma reflexão sobre a criação artística, o voyeurismo e as fronteiras instáveis entre a ficção e a realidade. No centro da narrativa está Sylvie (Isabelle Huppert), uma escritora em crise de inspiração que observa, do lado de cá da janela, os vizinhos do prédio em frente, inventando para eles vidas, desejos e conflitos que alimentam o seu próximo romance. A chegada de Adam (Adam Bessa), um jovem sem abrigo que começa por ajudá-la nas tarefas domésticas, altera progressivamente este equilíbrio. Quando o manuscrito passa para as suas mãos, a ficção deixa de ser um exercício solitário de imaginação e começa a interferir na vida daqueles que lhe serviram de matéria-prima. Inspirado livremente em “Não Amarás”, de Krzysztof Kieślowski, o filme transforma o acto de olhar para nos vir dizer que observar é já uma forma de intervir.
Asghar Farhadi constrói um engenhoso jogo de espelhos, no qual personagens reais e figuras imaginadas se contaminam mutuamente, até se tornar difícil distinguir a experiência vivida da identidade que os outros nos atribuem. Particularmente sugestiva é a profissão dos vizinhos observados: são técnicos de efeitos sonoros, especialistas em fabricar a ilusão do real através de ruídos artificialmente produzidos. Esta dimensão sonora prolonga a reflexão do filme sobre os mecanismos da representação e sobre o modo como a nossa percepção depende de construções invisíveis. Também os actores participam neste desdobramento, dando corpo às diferenças entre as pessoas que existem e aquelas que a escritora projecta sobre elas. Isabelle Huppert compõe uma figura simultaneamente excêntrica e inquietante, enquanto Virginie Efira, Vincent Cassel e Pierre Niney sustentam as tensões entre os dois planos narrativos. A montagem, sobretudo na primeira parte do filme, articula com inteligência estas diferentes perspectivas, fazendo de cada gesto, olhar ou pormenor uma possível peça de um enigma em permanente transformação.
Mas a questão mais perturbadora de “Histórias Paralelas” reside no preço desta apropriação do real. Até que ponto pode um artista servir-se da intimidade alheia em nome da criação? E quem detém, afinal, o direito de contar uma história? Ao transformar pessoas concretas em personagens, Sylvie não se limita a reinterpretar o que observa: corre o risco de impor-lhes uma identidade que não lhes pertence, enquanto Adam leva essa intrusão ainda mais longe, procurando aproximar a vida das imagens construídas pelo romance. O filme sugere, assim, que as narrativas não são inofensivas. Elas têm o poder de alterar comportamentos, contaminar relações e produzir consequências imprevisíveis. A ambição conceptual e o humor discreto convivem, porém, com uma duração excessiva e com um progressivo enfraquecimento da tensão narrativa, à medida que o engenhoso dispositivo inicial se torna mais explícito. Permanece, ainda assim, uma interrogação particularmente fértil dirigida acada um de nós: quando olhamos a vida dos outros através do cinema, somos apenas espectadores ou participamos também na construção — e na distorção — daquilo que julgamos ver?





