É com prazer renovado que egressamos ao Centro de Artes e Espectáculos de Vale de Cambra. Funcional, acolhedora e dotada de excelentes condições técnicas, a sala tem vindo a afirmar-se como um dos mais interessantes equipamentos do distrito de Aveiro, sustentando uma programação diversificada e criteriosa que sabe como conquistar públicos cada vez mais alargados. Foi particularmente gratificante encontrar na plateia vários rostos conhecidos, sinal evidente de que o CAE começa a integrar o circuito habitual daqueles que não temem as distâncias na busca de propostas culturais de qualidade, tendência que o concerto da Orquestra Jazz de Matosinhos com Manuela Azevedo confirmou plenamente. O projecto que une a cantora à OJM teve o seu início em Julho de 2014 e soma já cerca de duas dezenas de apresentações, integrando-se numa linha de trabalho que tem distinguido a formação matosinhense ao longo dos anos: convidar vozes oriundas de universos musicais diversos e submetê-las ao desafio de dialogar com o universo sonoro de uma big band de jazz. É um conceito tão simples quanto fértil e que tem permitido revisitar repertórios conhecidos através de arranjos originais que ampliam horizontes estéticos e revelam novas leituras das canções. Neste caso, a escolha de Manuela Azevedo - uma das vozes mais singulares e reconhecíveis da música portuguesa contemporânea - revelou-se particularmente feliz, tanto pela versatilidade da intérprete como pela inteligência do repertório seleccionado, construindo uma ponte consistente entre o jazz e a pop, o rock e demais geografias musicais.
A carta branca concedida a Manuela Azevedo na definição do alinhamento constitui um dos aspectos mais interessantes do projecto e ajuda a compreender a sua personalidade artística. O programa apresentado em Vale de Cambra revelou uma cultura musical vasta, ecléctica e que segue na linha do risco e na recusa de toda e qualquer previsibilidade. De “My Melancholy Baby”, clássico norte-americano popularizado na voz de Ella Fitzgerald, a “Who Do You Think You Are”, de Elvis Costello, passando pela ousadia de “I Am the Walrus”, dos Beatles, ou pela elegância de “Chez Les Yé Yé”, de Serge Gainsbourg, o concerto desenhou um percurso tão inesperado quanto coerente. A presença de Tom Waits, Rufus Wainwright, Janelle Monáe ou Queens of the Stone Age testemunhou uma abertura rara a linguagens distintas, sempre filtradas por um apurado sentido de escolha. Pelo meio, a cantora não esqueceu referências fundamentais da canção em língua portuguesa, como Sérgio Godinho, Manel Cruz e Chico Buarque, nem a sua própria história nos Clã, revisitando “A Paz Não Te Cai Bem” e encerrando, já em clima de celebração, com “Dançar na Corda Bamba”. O resultado foi uma sucessão de canções que, libertas dos seus contextos originais, ganharam novas cores e novos significados. O concerto afirmou-se, assim, como uma declaração de amor à canção enquanto território aberto à reinvenção permanente, expondo simultaneamente o excelente gosto musical de Manuela Azevedo e a sua capacidade para habitar repertórios muito diferentes sem lhes negar nunca a sua própria identidade.
Se o repertório constituiu um dos grandes trunfos da noite, a execução musical elevou o espectáculo a um patamar de excelência difícil de igualar. Com direcção musical de Pedro Guedes, a Orquestra Jazz de Matosinhos voltou a demonstrar o porquê de ocupar um lugar singular no panorama nacional, exibindo uma precisão colectiva irrepreensível, uma notável riqueza tímbrica e uma capacidade única de servir a música pela música. Os arranjos de Telmo Marques, Carlos Azevedo, Pedro Guedes e José Pedro Coelho são reveladores de inteligência, subtileza e imaginação, transformando cada tema num objecto artístico autónomo, respeitador da essência original, mas suficientemente ousado para justificar uma nova escuta. A cumplicidade entre a cantora e os músicos foi crescendo ao longo da actuação, produzindo momentos de grande naturalidade e comunicação e que tiveram o ponto alto na extraordinária interpretação de “Broken Bicycles / Junk”, de Tom Waits / Paul McCartney. Manuela Azevedo respondeu com uma interpretação segura, expressiva e emocionalmente generosa, adaptando-se com assinalável eficácia às exigências de um contexto musical tão específico. O público percebeu-o desde cedo e acompanhou o espectáculo com atenção, entusiasmo e calor, recompensando cada momento com aplausos sinceros e transformando a sala numa extensão da própria música. Uma grande noite em Vale de Cambra!