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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

CERTAME: Contextile 2026 | Bienal de Arte Textil Contemporânea



CERTAME: Contextile 2026
Bienal de Arte Textil Contemporânea
Organização | Ideias Emergentes - Arte, Arquitetura e Produção Cultural
Guimarães, vários locais
05 Set > 29 Nov 2026


Há uma ideia particularmente feliz neste “Por um Fio”, tema da oitava edição da Contextile: a de que é preciso aproximarmo-nos da matéria para perceber aquilo que a sustenta. É também uma boa maneira de entrar numa Bienal que, até 29 de Novembro, se espalha pela cidade-berço e pede ao visitante mais do que a deslocação entre os espaços. Comecemos pelo Centro Cultural Vila Flor, onde a Exposição Internacional constitui o núcleo mais imediato desta edição. Chegaram 2.036 obras de 1.604 artistas de 81 países; ficaram cinquenta e quatro trabalhos de cinquenta e um artistas, numa selecção que confirma a dimensão internacional alcançada pela Contextile. Mas é na matéria, mais do que na geografia dos participantes, que a exposição encontra a sua força. A lona de polietileno desgastada de Daniel Fernández Carrillo, distinguida com o Prémio Aquisição, transforma um material banal numa superfície de memória e conflito; Salima Hakim usa a costura para desmontar uma narrativa da evolução humana construída sem as mulheres; Raul Martinez faz do tapete um mapa da circulação mundial das armas. O têxtil surge, assim, menos como categoria estética do que como campo de fricção entre indústria e memória, entre intimidade e violência, entre aquilo que se mostra e aquilo que se procura tornar visível.

É preciso sair do Vila Flor para perceber até onde esta ideia pode ir. A Contextile espalha-se pela cidade e, nesse movimento, encontra a sua dimensão mais consequente. No Palacete de Santiago, na Sociedade Martins Sarmento e na Garagem Avenida, “Uma Mudança no Tempo?”, com curadoria de Janis Jefferies, coloca cinco artistas perante a crise ecológica e as narrativas de um presente que insiste em adiar o futuro. O risco, aqui, seria o da arte contemporânea se limitar a ilustrar uma agenda ambiental já conhecida; a exposição interessa justamente quando o têxtil deixa de ser decoração de um discurso sobre sustentabilidade e passa a interrogar os sistemas que a tornam urgente. Essa questão prolonga-se em “Tecer o Verde”, onde residências artísticas ocupam o Mercado Municipal, o Convento de Santo António dos Capuchos, a Praça do Conde Arnoso, o Museu de Alberto Sampaio e o Arquivo Municipal, cruzando criação contemporânea, indústria e tradições locais. E é ainda possível passar pelo Curtir Ciência para entrar na “Growing House”, uma arquitectura precária de fios, tecidos, nós e andaimes. Entre abrigo e labirinto, a casa torna-se uma imagem do presente: lugar onde procuramos segurança, mas também estrutura que permanentemente precisa de ser refeita.

O itinerário poderia terminar no IDEGUI, com “Emergências”, porque uma Bienal que pretende pensar o futuro não pode dispensar quem o irá construir. Os trabalhos de estudantes de oito escolas de arte e design introduzem uma dimensão pedagógica e experimental que impede a Contextile de se fechar no circuito das obras consagradas. Depois, no Vila Flor, as Textile Talks levam a discussão para o campo da sustentabilidade, enquanto os workshops devolvem a reflexão às mãos: tingir, estampar, desfiar, tecer, produzir tecido. E há ainda Ai Weiwei, presença incontornável desta edição, com intervenções no Centro Internacional das Artes José de Guimarães, na Praça das Artes e da Criatividade e nos Tanques de Couros, acrescentando ao percurso questões de vigilância, património, memória e vulnerabilidade. É um programa vasto, que exige do visitante disponibilidade e tempo, mas esse “excesso” corresponde também à ambição de uma Bienal que prefere contaminar a cidade a instalar-se num único lugar. “Por um Fio” é, no fundo, uma proposta de leitura do presente através da matéria. Com ele, percebemos onde a trama se rompe, quem a segura e que outras formas de a tecer ainda são possíveis. Em Guimarães, a resposta não está numa única exposição, mas no próprio acto de percorrer a cidade.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

CONCERTO: "Ether Sculptures" | Hélder Bruno



CONCERTO: “Ether Sculptures”
Com | Hélder Bruno (piano e composições), Jorri (baixo eléctrico), Surma (teclados, sintetizadores e guitarra eléctrica), Iúri Oliveira (bateria e percussões), Maria Redes Martins (violoncelo)
XII Festival Literário de Ovar
Centro de Artes de Ovar
20 Set 2026 | dom | 18:00


Terceiro trabalho discográfico de Hélder Bruno, “Ether Sculptures”, encerrou no Centro de Artes de Ovar a XII edição do Festival Literário de Ovar com uma proposta que procurou dar corpo ao que, por natureza, é imaterial. Ao piano, o compositor teve a seu lado Jorri, no baixo e direcção musical, Surma, na electrónica e guitarra, Iúri Oliveira, na bateria e percussão, e a promissora violoncelista Maria Redes Martins. A formação reflecte a própria natureza de uma música que sabe cruzar, sem se deixar aprisionar por nenhuma delas, linguagens do jazz, do rock alternativo, da música erudita e experimental e mesmo algumas ressonâncias do fado. Há neste terceiro álbum um Hélder Bruno mais seguro da sua linguagem e mais disponível para explorar as possibilidades do som. A melodia convive com a textura, a delicadeza com a tensão, a estrutura com a liberdade. Mais do que exibir referências, o compositor parece assimilá-las e transformá-las numa escrita própria, em que o timbre deixa de ser mero atributo do instrumento para assumir uma função estrutural. O piano continua a ser o centro, mas já não é o limite: à sua volta, a música ganha espessura, profundidade e movimento.

É na execução ao vivo que a ideia de “esculturas no éter” encontra a sua tradução mais convincente. A electrónica de Surma prolonga e desfigura o piano; a percussão de Iúri Oliveira introduz uma pulsação física, por vezes inquieta; o baixo de Jorri dá gravidade a uma música que gosta de pairar; e o violoncelo de Maria Redes Martins, ainda que surgindo só a espaços, acrescenta uma dimensão orgânica e expressiva ao conjunto. Em “In2Between”, talvez um dos melhores exemplos da estética do álbum, a música instala-se precisamente num território de fronteira, entre apaziguamento e tensão, tonalidade e ruído, contenção e transgressão. Nem tudo, porém, precisa de ser traduzido em “paisagem” ou “imagem”, como a própria apresentação do projecto por vezes parece sugerir. Há momentos em que o conceito de música imersiva ameaça tornar-se demasiado abrangente e condicionar a escuta. Os instantes mais fortes são aqueles em que “Ether Sculptures” se liberta dessa obrigação de representar e deixa simplesmente o som acontecer, com a sua densidade, as suas fissuras e os seus contrastes. É então que a metáfora escultórica deixa de ser um conceito promocional e passa a ser uma realidade musical, acrescentando, retirando, sobrepondo, criando volume e espaço através do tempo.

A escolha de “Ether Sculptures” para encerrar o Festival Literário revelou-se, por isso mesmo, particularmente feliz. Depois de dias dedicados à palavra, à narrativa e à imaginação, a música de Hélder Bruno propôs uma espécie de literatura sem palavras, capaz de sugerir ambientes, criar tensão e deixar ao ouvinte a tarefa de completar o sentido. A ligação à tradição da música programática não está tanto em contar histórias, mas em abrir possibilidades narrativas. Os títulos podem orientar a escuta, mas não a determinam; as imagens podem surgir, mas não são impostas. É nesse espaço entre o que a música diz e aquilo que apenas deixa entrever que o projecto encontra a sua maior força. O Hélder Bruno que se apresentou em Ovar parece, assim, ter chegado a uma fase mais consistente do seu percurso: uma fase em que as referências se tornam menos visíveis porque já fazem parte de uma linguagem própria. No final, fica uma matéria paradoxal - invisível, efémera, impossível de conservar -, mas suficientemente densa para permanecer. A escultura desfaz-se no instante em que o som termina; fica, porém, a memória do belo, graças à forma que chegou a ter.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "(d)A Espantosa realidade das Coisas" | Adelino Marques



EXPOSIÇÃO: “(d)A Espantosa Realidade das Coisas”,
de Adelino Marques
Curadoria | Pereira Lopes
Textos | Manuela Matos Monteiro, Maria Afonso
iNstantes - Propostas Fotográficas #161
Centro de Reabilitação do Norte
21 Set > 31 Out 2026


Não é comum encontrarmos uma exposição que comece antes da primeira imagem e acabe depois da última palavra. “(d)A Espantosa Realidade das Coisas”, de Adelino Marques, parece ter escolhido esse território de suspensão entre aquilo que se vê e aquilo que, vendo-se, já começou a desaparecer. A inauguração da exposição teve lugar no Centro de Reabilitação do Norte, no passado dia 21 de Setembro, e prolongou-se numa tertúlia que foi, mais do que um comentário aos trabalhos expostos, uma espécie de câmara escura onde se cruzaram imagens, memórias e vidas. Entre doentes internados e familiares, mas também profissionais de saúde, foram perto de meia centena os participantes num momento que extravasou o âmbito puramente artístico. Talvez por isso, as palavras de Adelino Marques tenham encontrado ali uma ressonância particular quando vincou a importância de “criar espaços para que as coisas não sejam tão frias como já são”. Há, neste gesto, qualquer coisa de profundamente coerente em levar a fotografia para um lugar onde a realidade não é apenas aquilo que o corpo mostra. Ali, a fotografia deixa de ser objecto distante para se tornar ocasião de encontro. E uma tertúlia é justamente isso, não a confirmação de uma obra, mas a possibilidade de a obra se modificar quando passa de mão em mão, de olhar em olhar, de palavra em palavra, de memória em memória.

Foi na conversa moderada por Joaquim Margarido que a exposição pareceu revelar o seu nervo conceptual. Adelino Marques desmontou a fotografia como documento, devolvendo-a à memória como matéria instável: “Aquilo que a memória faz é alterar, acrescentar ou levar a que as coisas desapareçam.” A frase é decisiva, porque desloca o problema daquilo que o fotógrafo viu para aquilo que o fotógrafo se lembra de ter visto e, sobretudo, para aquilo que já não consegue ver. Fotografar torna-se, então, uma operação de aproximação a uma lembrança, mais do que um testemunho de fidelidade a um instante. O real sofre uma dupla erosão: primeiro, quando a memória o refaz; depois, quando a imagem o filtra, difunde, desfoca, apaga. E é precisamente nessa perda que a fotografia ganha espessura. Não vemos a coisa: vemos a ideia que Adelino Marques conserva dela. Talvez por isso o objecto fotografado adquira uma espécie de estatuto fantasmático. Permanece um núcleo, uma coisa apenas, enquanto à sua volta o mundo se desfaz. O foco deixa de ser uma precisão óptica e passa a ser uma escolha da memória, um motivo de espanto, aquilo que sobrevive quando tudo o resto foi entregue ao esquecimento. A espantosa realidade das coisas poderá estar justamente aí, não na sua presença inteira, mas no milagre de uma coisa permanecer quando já não conseguimos reconstruir o mundo que a rodeava.

Há, contudo, uma pequena fricção que a própria tertúlia não deveria deixar escapar. Se a fotografia de Adelino Marques procura aproximar-se da memória, então ela aproxima-se também daquilo que a memória tem de perverso, na medida em que trai, inventa, selecciona, elimina. E talvez seja essa a razão pela qual este conjunto de imagens se aproximam da poesia, como o próprio autor reconheceu: dizem indirectamente, deixam zonas de sombra, recusam a obrigação de explicar. Mas que acontece quando essa poética do apagamento encontra um público para quem a realidade não é uma abstracção? No Centro de Reabilitação do Norte, perante pessoas internadas e suas famílias, o desaparecimento pode não ser apenas uma categoria estética; pode ter corpo, nome, antes e depois. A conversa tornou-se, assim, mais interessante, justamente porque não se resumiu à fotografia. Quando Adelino Marques disse que ali se olhavam as pessoas nos olhos porque era um dos poucos lugares onde se reconhecia a genuinidade dos seus sentimentos, tocou talvez no limite da própria obra: nenhuma imagem substitui um encontro. A fotografia pode desfocar o mundo, mas a tertúlia devolveu-lhe rostos. Entre aquilo que se apaga e aquilo que insiste em permanecer, foi nesse movimento que a exposição encontrou a sua verdadeira matéria. Não a realidade das coisas, mas a memória daquilo que, por qualquer razão, não deixa de nos espantar.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

CINEMA: "Natal Amargo" | Pedro Almodóvar



CINEMA: “Natal Amargo” / “Amarga Navidad”
Realização | Pedro Almodóvar
Argumento | Pedro Almodóvar
Fotografia | Pau Esteve Birba
Montagem | Teresa Font
Interpretação | Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit, Quim Gutiérrez, Rossy de Palma, Carmen Machi, Gloria Muñoz, Nico Martín, Amaia Romero, María Morales, Nieves Álvarez, Ángeles Ortega, Antonio Romero, Luis Jaspe, Óscar Trujillo, Nourdin Batan
Produção | Agustín Almodóvar
Espanha | 2026 | Drama, Comédia | 111 Minutos | Maiores de 12 Anos
Vida Ovar Castello Lopes
26 Set 2026 | sab | 18:10


Exercício de cinema autoral sempre fascinante em Pedro Almodóvar, “Natal Amargo” constitui um regresso ao lugar onde, nos últimos anos, o cineasta parece ter encontrado a sua matéria mais íntima, fazendo do cinema um espelho da memória e da criação uma forma de interrogar a própria vida. Raúl, realizador em crise interpretado por Leonardo Sbaraglia, escreve um filme sobre Elsa, cineasta de culto encarnada por Bárbara Lennie, cuja história é, afinal, feita das dores, lembranças e experiências que também pertencem ao seu autor. Num arco temporal de duas décadas, realidade e ficção enovelam-se numa matrioska que prolonga o anterior “Dor e Glória” e recupera o gosto de Almodóvar pelo cinema dentro do cinema. Se no filme de 2019, porém, a memória pessoal se transfigurava em relato, aqui é o próprio acto de transformar a vida em ficção que se torna argumento, personagem e matéria de conflito. Raúl escreve sobre Elsa, Elsa fornece-lhe a vida de que necessita para escrever, e por detrás de ambos adivinha-se o próprio Almodóvar, interrogando-se sobre o que sucede quando a fonte de onde sempre brotaram as histórias começa a secar? Na sombra do tempo, do envelhecimento e da possível esterilidade criativa, é possível sentir a respiração do filme, tornando a crise do seu protagonista inseparável da crise, mais subtil mas reconhecível, do próprio cineasta.

Tudo o que torna Almodóvar reconhecível permanece no lugar certo: a composição rigorosa, as cores como estados de alma, os interiores de uma beleza quase táctil, os figurinos, a literatura, a música de Alberto Iglesias. Mas o que antes era exuberância torna-se agora consciência da própria exuberância. Almodóvar olha para o seu cinema como quem percorre uma casa antiga e reconhece os móveis, os gestos, os fantasmas. Elsa é também a caricatura afectuosa de um certo Almodóvar: o melodrama, a canção que diz aquilo que as personagens não conseguem dizer, o humor que irrompe no lugar mais improvável, a referência literária ostensivamente colocada diante da câmara. Lanzarote, com o vermelho vivo sobre a lava negra, oferece uma das mais belas imagens do filme: vida e luto, desejo e clausura. Os muros de pedra que protegem as vinhas parecem proteger também estas personagens de um mundo que já não sabem como habitar. É um cinema de uma beleza com tanto de inquietante como de avassalador.

A inteligência da construção de “Natal Amargo” parece ultrapassar a emoção que dela se desprende, nisto residindo, quiçá, o ponto fraco do filme. Percebe-se o mecanismo, admira-se a arquitectura, mas nem sempre se sente o abalo. Bárbara Lennie e Aitana Sánchez-Gijón introduzem uma verdade humana que o dispositivo, demasiado consciente de si próprio, tende a dissolver. A acusação de vampirizar a vida alheia para fazer arte é poderosa, mas acaba por funcionar também como metáfora involuntária do próprio filme: Almodóvar alimenta-se uma vez mais do seu cinema, das suas memórias, dos seus fantasmas, e devolve-nos uma obra de grande elegância formal, mas de temperatura emocional irregular. Se “Dor e Glória” conseguia transformar a autobiografia em experiência universal, “Natal Amargo” fica mais frequentemente encerrado no círculo da auto-reflexão. É um filme admirável, por vezes belíssimo, ocasionalmente comovente, mas demasiado preocupado em explicar a sua própria beleza. O cineasta que sempre soube fazer do excesso uma forma de vida, parece agora precisar de o justificar, de tal forma que o excesso, justamente, perdeu alguma da sua vida. Resta a inteligência, o rigor, o ofício e uma melancolia genuína. A de um artista que continua a criar enquanto interroga, frontalmente, o que ainda há por dizer.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

TEATRO: "La Distance" | Tiago Rodrigues



TEATRO: “La Distance”,
de Tiago Rodrigues
Encenação | Tiago Rodrigues
Cenário | Fernando Ribeiro
Figurinos | José António Tenente
Desenho de luz | Rui Monteiro
Música original e desenho de som | Pedro Costa 
Interpretação | Alison Dechamps, Adama Diop 
Produção | Festival d’Avignon
90 Minutos | Maiores de 12 Anos
Centro Cultural Vila Flor
25 Set 2026 | sex | 21:30


2077. A Terra tornou-se um território de sobrevivência e Marte a promessa ou a miragem de uma nova humanidade, Nesse lugar incerto, onde o futuro se confunde com a consequência, instala Tiago Rodrigues “La Distance”. Mas esta não é uma peça sobre Marte, nem sequer sobre o fim do mundo: é sobre aquilo que fazemos uns aos outros enquanto o mundo se encaminha para o abismo. O seu carácter de “ficção científica” é, nesse sentido, uma lente apontada ao presente. As alterações climáticas, a desigualdade, a concentração do poder económico, a tentação do poder tecnológico, a transformação das pessoas em mercadoria das plataformas digitais, tudo aquilo que parece pertencer às grandes narrativas do nosso tempo vai entrando na peça pela porta estreita de uma relação entre um pai e uma filha. O pai permanece na Terra; a filha parte para Marte. Separa-os duzentos milhões de quilómetros, semanas de espera, mensagens que atravessam o vazio e uma pergunta que nos chega com a força de uma ameaça: que futuro estamos a preparar para aqueles que virão depois de nós? Ao reduzir o apocalipse à escala de uma conversa familiar, Tiago Rodrigues não profetiza, antes interroga da forma mais incómoda possível. Nas suas palavras, reconhecemos o futuro como quem reconhece uma casa que ainda não ardeu, mas onde se sente já o cheiro do fumo.

A distância do título não é apenas geográfica. É sobretudo uma distância entre gerações, entre memórias, entre duas maneiras de compreender a responsabilidade e a esperança. A filha tornou-se uma das “Esquecidas”. Para construir em Marte uma nova humanidade, aceita apagar as memórias da Terra, da sua história, da sua família, de si própria, conservando apenas os conhecimentos necessários à sua sobrevivência. O gesto é de uma violência extraordinária, ao mesmo tempo que encerra uma lógica profundamente contemporânea. Se herdámos um mundo em ruínas, será possível construir outro com as mesmas pedras? Ou será precisamente a memória que nos condena a repetir aquilo que gostaríamos de deixar para trás? A peça abre aqui uma das suas camadas mais perturbadoras: o conflito entre memória e futuro, entre a obrigação de recordar e o desejo de começar de novo. E há ainda a ironia dolorosa de uma tecnologia capaz de aproximar dois planetas, mas incapaz de aproximar duas pessoas que viveram na mesma casa. Só depois de milhões de quilómetros de distância, pai e filha parecem encontrar uma linguagem comum. A comunicação torna-se assim uma espécie de arqueologia dos afectos: cada mensagem procura escavar aquilo que ficou soterrado muito lá para trás. O amor, essa coisa aparentemente simples, revela-se então como uma forma de resistência à amnésia. Talvez seja isso que “La Distance” nos peça: que imaginemos o futuro, não para fugirmos do presente, mas para percebermos aquilo que, no presente, já estamos a perder.

Tudo isto acontece graças a dois actores que recusam qualquer grandiloquência e, justamente por isso, alcançam uma intensidade devastadora. Adama Diop e Alison Dechamps fazem da palavra matéria viva: cada silêncio parece conter uma resposta que não chegou, cada pausa mede a extensão de uma ausência, cada aproximação é imediatamente ameaçada pela distância. Diop compõe um pai devastado, no qual encontramos amor, incompreensão, orgulho ferido, medo e uma espécie de teimosia luminosa de quem ainda acredita que é possível convencer a filha a regressar. Dechamps constrói uma mulher cuja segurança vai revelando fissuras, sem nunca transformar a personagem numa simples desertora. Entre ambos estabelece-se uma tensão admiravelmente ambígua: não sabemos exactamente quem abandonou quem. A cenografia de Fernando Ribeiro, com o seu grande círculo de terra vermelha, a árvore tombada e a rocha, transforma o palco num planeta e, simultaneamente, numa espécie de relógio cósmico. A plataforma gira, os corpos aproximam-se e afastam-se, ficam de costas, perdem-se de vista e reencontram-se. A luz de Rui Monteiro acompanha essa deriva entre a memória e o sonho. O próprio movimento cria vertigem: à medida que o palco roda, também a relação parece perder o seu eixo. E essa vertigem dói porque os actores nunca deixam que esqueçamos o essencial. Não estamos a assistir a uma alegoria abstracta, mas a duas pessoas que se amam, mas que mostram a sua incapacidade de se salvarem uma à outra.

É talvez por isso que “La Distance” permanece connosco depois de a plataforma parar e de as luzes se apagarem. A peça começa por parecer uma história sobre o colapso climático, a colonização de Marte, a desigualdade ou a sobrevivência da espécie; acaba, porém, por colocar uma pergunta ancestral e muito mais complexa: o que devemos àqueles que amamos e o que devemos àqueles que ainda não nasceram? Tiago Rodrigues faz aquilo que sabe fazer com particular agudeza: toma uma questão monumental, reduzindo-a à dimensão de um gesto, de uma voz, de uma memória, de uma relação. É nessa miniaturização que a peça ganha a sua força política e poética. O futuro deixa de ser uma abstracção distante e passa a ter o rosto de uma filha que parte, de um pai que fica, de uma mensagem que demora semanas a chegar. E o teatro, pela sua própria natureza, oferece a resposta mais paradoxal à distância que a peça encena: dois seres humanos estão ali, diante de nós, no mesmo espaço, respirando o mesmo ar, obrigados a partilhar o tempo. Quando o mundo exterior parece empurrar-nos para o isolamento, para os ecrãs, para a velocidade e para a amnésia, “La Distance” devolve-nos à presença. Saímos da sala com menos certezas, mas com uma inquietação mais funda, uma espécie de vertigem que se acentua à medida que as palmas se vão extinguindo. É  nesse momento que a peça começa verdadeiramente a trabalhar em nós: na pergunta sobre se queremos simplesmente sobreviver ao futuro ou se ainda somos capazes de o imaginar, construir e passar às gerações vindouras.

domingo, 27 de setembro de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #108



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #108
Com | Sara N. Santos, Alexandre Sousa, Gonçalo Almeida
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
24 Set 2026 | qui | 21:30


Há algo de essencial num lugar onde as pessoas se juntam para ver o mundo através do olhar dos outros. Algo que corresponde a esse desígnio maior de dar a ver cinema, mas que vai além da inerente dimensão onírica e que aposta, sobretudo, na criação de uma comunidade atenta e cúmplice, reunida num espaço onde imagens, ideias e inquietações encontram quem as receba e devolva em pensamento. Na 108.ª sessão do Shortcutz Ovar, a sexta da presente temporada, a Escola de Artes e Ofícios voltou a ser esse lugar repleto de gente ávida de ver cinema, sinal de que há uma fome que nem a pausa estival conseguiu adormecer. Fome de um cinema português breve, mas nunca menor, capaz de condensar em minutos aquilo que por vezes uma vida inteira não chega para compreender. “O mundo vai acabar? De quantas maneiras?”, perguntou Tiago Alves, antes de abrir a porta para três filmes que parecem ter escutado a pergunta muito antes de ela ter sido feita. Três filmes que mostraram três maneiras de olhar o mesmo abismo, levando-nos a reflectir sobre o que desaparece, a fugirmos daquilo que somos, a limparmos o que os outros deixaram para trás. Três filmes sobre sobrevivência, portanto, mas também sobre a nossa obstinada necessidade de inventar lugares, reais ou imaginários, onde ainda seja possível preservar os restos da nossa humanidade.

“Suave Mar”, de Sara N. Santos, encontrou o passado onde ele sabe esconder-se de forma nítida: nas fotografias. Imagens antigas, resgatadas aos arquivos, mostram-se capazes de nos devolver um país que parece familiar e remoto ao mesmo tempo. Crianças mergulhadas nas ondas, rendas, fatos de banho, corpos que pedem ao mar aquilo que o mar nunca poderá dar: a eternidade. Há qualquer coisa de profundamente comovente nesta tentativa de comprimir o tempo, de salvar numa imagem aquilo que a vida condenou a desaparecer. Mas as fotografias sobrevivem-nos sempre de uma forma estranha: “Mãe, um dia também as nossas fotos ficarão órfãs?” A pergunta atemoriza tanto quanto fascina, qual onda que se desfaz fragorosamente, desafiando a resistência das altas falésias. Entre o documento e a ficção, entre a memória e a invenção, a fotografia transforma-se nessa espécie de fronteira contra o esquecimento. O imaginário colectivo diz-nos que tudo se repete. E, no entanto, nada regressa verdadeiramente. O mar é o mesmo; nós é que deixámos de o ser. “Talvez o filme mais poético da história do Shortcutz Ovar”, afirmou um espectador. E eu só tenho de concordar com ele. Com ele e com o público, que elegeu “Suave Mar” como o melhor filme da sessão.

Em “Amarelo Banana”, Alexandre Sousa trocou a nostalgia pela insónia. O protagonista deste filme de imagem animada acorda para um mundo que parece ter perdido qualquer razão para permanecer acordado e encontra, dentro de um apartamento, uma comunidade que decidiu desistir da consciência. São homens e mulheres que se refugiam num simulacro de natureza, entre papéis de parede, sons de pássaros e vegetação artificial. A ideia é absurda e talvez por isso se mostre tão terrivelmente próxima: a de fugir dos problemas, das responsabilidades, da própria ideia de humanidade. A floresta artificial, os sons da natureza, os corpos entregues à imobilidade, compõem uma espécie de paraíso de plástico onde o homem tenta desfazer a evolução e regressar ao animal. Mas a fuga é, afinal, outra prisão. A música de André Aires conduz-nos por esse desconforto sem nunca o resolver, enquanto a extraordinária conversa em linguagem gestual entre uma mulher e um macaco - o único diálogo explícito do filme – condensa uma profunda ironia, mostrando que evoluímos demasiado para podermos ser felizes e pouco para podermos deixar de nos sentir responsáveis por isso. «A necessidade de espiritualidade é algo que incomoda», disse alguém na sala. E ficámos sem saber se devíamos rir. Talvez “Amarelo Banana” exista precisamente nesse lugar onde o riso mais nos faz doer.

Chegamos finalmente a “Quietude”, curta-metragem de Gonçalo Almeida, e deixa de haver fuga possível. Yessica limpa o hotel enquanto o mundo passa por ela sem a ver. Turistas embriagados chegam, consomem, vomitam, deixam restos que alguém deverá limpar. Sempre alguém. As baratas, entretanto, proliferam. Persistem. Multiplicam-se. Talvez sejam elas as verdadeiras habitantes daquele lugar, enquanto os turistas são apenas uma espécie passageira, voraz e ruidosa. Remetendo para Kafka, o filme faz a metamorfose ao contrário. O monstruoso já não é aquele que se transforma, mas aquele que continua perfeitamente integrado no sistema que o serve. E há qualquer coisa de terrível nessa normalidade. Os tons quentes, dourados, quase acolhedores, tornam tudo ainda mais inquietante: por baixo do conforto, há uma máquina que torna as pessoas invisíveis. “Todos somos Yessica”, referiu Tiago Alves. Não é uma pergunta, antes uma afirmação. O mundo pode acabar de muitas maneiras. Pode acabar quando esquecemos. Quando fugimos. Quando deixamos que outros limpem aquilo que fazemos. Mas, numa Sala Expande cheia de gente bonita, numa noite igualmente bonita, percebeu-se que o olhar é algo ainda capaz de resistir. E enquanto houver quem olhe, quem veja, quem repare, o mundo não vai acabar.

sábado, 26 de setembro de 2026

LIVRO: "A Bicicleta Açoriana" | Rita Gomes



LIVRO: “A Bicicleta Açoriana – Uma Viagem Poética”,
de Rita Gomes
Ilustrações | Urbano
Ed. Letras lavadas, Fevereiro de 2026


“ (...)
Do ilhéu,
chega o maçarico mudo,
a baleia já não vibra
e o vento insiste
em não avançar.
O piano
estanque à janela do clube,
já não traz melodias.
A mó
já não envolve discursos audazes.
Ilha negra,
deixa o teu branco
assentar.”
Ana Rita Gomes, excerto do poema “Ilha Branca”

“A Bicicleta Açoriana” propõe uma viagem que começa antes da primeira pedalada. É a promessa de atravessar São Miguel com o corpo entregue ao vento, ao declive, à chuva e ao sal, mas também com os olhos demorados sobre aquilo que a pressa se impede de ver. Ao longo dos sessenta e um poemas que vestem o livro, Rita Gomes oferece-nos uma ilha que se move connosco: verde que se adensa, azul que se abre, lava que guarda o fogo, bruma que apaga contornos para logo os devolver, maresia que chega à pele como uma segunda respiração. A bicicleta é o eixo dessa travessia, mas depressa se percebe que é também uma forma de estar no mundo, um modo de medir a distância entre o que se procura e aquilo que inesperadamente se encontra. O livro percorre estradas, lagoas, pontes, igrejas, matas, piscinas naturais e pequenos lugares de passagem, mas percorre igualmente zonas mais secretas, da saudade à memória, do desejo à liberdade, da beleza à solidão. Há uma paisagem que se vê e outra que se pressente. Entre ambas, a poesia pedala.

Numa narrativa que a autora classifica como “de cor mais intensa, a do traço que acompanha uma travessia física de bicicleta pela ilha de São Miguel”, o olhar parece querer levar tudo consigo. A ilha surge em sucessivas aproximações, numa profusão de cores, aromas, texturas e movimentos, e o poema avança por acumulação, como quem recolhe o mundo à passagem. «O alcatrão fumega, o verde e o azul estalam» e é difícil imaginar melhor síntese desta escrita, onde a cor nunca é apenas decorativa, mas matéria viva, quase sonora. Os verbos dão impulso à paisagem: ela atravessa, salta, galga, irrompe, perfila-se, brota, fervilha. A sintaxe, muitas vezes deslocada, parece obedecer menos à gramática do que à inclinação da estrada. Depois, quando o corpo pára, a palavra continua. Na segunda narrativa, mais aérea e descontínua, nascida nas pausas dessa viagem, as paisagens e os objectos dispensam coordenadas. A ilha interioriza-se. O mar faz-se memória, o vulcão palavra, o sal dor, o vento consciência. O branco da página ganha a importância do silêncio e os versos respiram como quem acaba de subir uma ladeira íngreme. É então que a bicicleta vinca a sua presença e faz questão de se inscrever no ritmo do poema.

Há nessa respiração uma liberdade que não é apenas individual. Rita Gomes sabe que nenhuma viagem começa inteiramente no presente. Atrás de cada corpo que hoje ocupa uma estrada há outros corpos que tiveram de conquistar o direito de a percorrer; atrás de cada mulher que pedala há uma história de portas fechadas, de espaço negado, de vozes contidas. A poetisa não transforma essa herança em discurso, preferindo deixá-la circular subterraneamente pelos poemas, como água sob a lava. «Mulher» condensa-a numa sucessão de vidas, injustiças, lutas e esperanças; «Ilha branca» faz do silêncio uma espécie de matéria histórica; «Causas impossíveis» aproxima a fé do desejo de contrariar o destino. E assim a ilha, que poderia ser apenas paraíso, ganha sombra, contradição e espessura humana. No fim da viagem, fica menos a impressão de termos conhecido São Miguel do que a de termos aprendido a vê-la através de uma consciência em movimento. Dessa consciência retira o leitor o verdadeiro engenho desta bicicleta: ela não transporta apenas o corpo, mas desloca o olhar. Pedalar torna-se uma maneira de escrever; escrever, uma maneira de regressar. E regressar, aqui, nunca é voltar ao mesmo lugar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

TEATRO: “Caravana” | João Luís Barreto Guimarães



TEATRO: “Caravana”,
de João Luís Barreto Guimarães
Encenação | João Pedro Vaz
Cenografia e Figurinos | Sara Vieira Marques
Desenho de luz | Manuel Abrantes
Interpretação | Joaquim Horta, Rita Calçada Bastos
Co-produção | Teatro Aberto, Teatro Nacional São João
75 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Nacional de São João
23 Set 2026 | qua | 19:00

(...)
ELA: O que faz por aqui quando está sozinho?
ELE: Hum... leio (Pausa.). Durmo. (Pausa para respirar fundo.) Respiro.
ELA: Não faz nada, portanto.
ELE: Quem foi que lhe disse que respirar não dá trabalho?
ELA: Produz alguma coisa para a sociedade enquanto respira?
ELE: (Sério.) Dióxido de carbono.
ELA: (Bate-lhe no braço.) Estúpido (Pausa.) É tão estúpido.
ELE: (Encosta-se para trás.) E reflicto.
ELA: Reflecte.
ELE: Parece-lhe pouco?
ELA: Depende do que faz com as suas reflexões.
ELE: Quando Newton levou com a maçã na cabeça, estava a reflectir. (Pausa.) Veja no que deu. (...)

Há um lugar onde “Caravana” começa e é importante que comece justamente aí: no limiar. Uma caravana estacionada à margem de um bosque, a norte da cidade, entre a casa e o abandono, entre a promessa de abrigo e a evidência de que nenhum abrigo é definitivo. João Luís Barreto Guimarães escreve a partir desse lugar intermédio, onde as coisas raramente são aquilo que parecem. As palavras aproximam, mas também desviam; o humor desarma, para de seguida deixar entrever a ferida; a intimidade oferece-se e recua no instante imediato. É uma escrita de aparente simplicidade, construída sobre diálogos breves, pausas, repetições, pequenas colisões do quotidiano e, no entanto, profundamente consciente do que prefere não dizer. Há qualquer coisa de cinematográfico nesses grandes planos de duas pessoas que dialogam e, por vezes, parecem falar de outra coisa; qualquer coisa de teatralmente cruel naquilo que uma frase banal pode esconder. O espectador é convidado a entrar nesse jogo sem conhecer as suas regras, a aceitar a máscara antes de perceber o rosto que ela oculta. O texto responde em inteligência e subtileza ao não transformar a dor em discurso, mas deixá-la infiltrar-se, lentamente, nas palavras, nos silêncios e nos gestos.

João Pedro Vaz percebeu que uma peça assim não pede uma encenação que ilumine, mas uma encenação que saiba escurecer. O palco é, por isso, um território de revelações adiadas, onde a luz e as sombras da noite nunca são aquilo que parecem ser. A caravana torna-se uma espécie de consciência exterior das personagens: imóvel por fora, em permanente deslocação por dentro. Tudo nela é provisório, dos encontros às identidades, das certezas até ao próprio tempo. De silêncio em silêncio, de lua em lua, as quatro noites desenham uma arquitectura secreta, quase musical, em que a narrativa parece avançar enquanto, subterraneamente, regressa ao ponto de partida. A circularidade não é um simples expediente formal, antes corresponde à própria lógica da dor, que raramente avança em linha recta. Regressa, repete-se, procura outras máscaras, outras vozes, outros corpos, até encontrar uma fresta por onde possa finalmente respirar. Há momentos em que aquilo que julgávamos não passar de um jogo começa a adquirir outro peso. O cómico deixa-se atravessar pelo trágico e a estranheza converte-se em reconhecimento. Sem pressas nem sublinhados, a encenação conduz-nos até esse lugar onde princípio e fim se confundem e onde a representação, paradoxalmente, pode ser a forma mais próxima da verdade.

Uma escrita assim, que confia tanto no silêncio, só poderia cumprir-se plenamente através de actores capazes de o escutar. Joaquim Horta e Rita Calçada Bastos fazem dessa escuta a matéria mais funda das suas interpretações. Ele constrói uma personagem de contenção e fissuras, deixando que o que não diz pese tanto como aquilo que é dito; ela multiplica presenças sem nunca as transformar em máscaras exteriores, encontrando para cada uma delas uma temperatura, um ritmo, uma humanidade próprias. Entre os dois há um jogo admirável de aproximações e fugas, de desejo e recuo, de ironia e vulnerabilidade. Rimo-nos porque os reconhecemos; emocionamo-nos porque, por detrás do reconhecimento, percebemos a ferida. “Caravana” é, assim, uma peça de uma excelência invulgar: na escrita, porque transforma o indizível em diálogo sem o tornar explícito; na encenação, porque converte o espaço e o silêncio em matéria dramática; na interpretação, porque dois actores de grande envergadura conseguem dar carne, contradição e humanidade a personagens que vivem precisamente no limite entre aquilo que são e o que fingem ser. João Luís Barreto Guimarães traz para o teatro a sensibilidade do poeta, mas descobre também o que o teatro ensina. Numa pausa que é verso, num corpo imóvel que é uma narrativa inteira, na necessidade de dizer o essencial, começando por fingir que está apenas a contar uma história.

[Foto: © José Caldeira, Teatro Nacional de São João | https://www.tnsj.pt/pt/espetaculos/7251/caravana/]

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 5



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Ágata Pereira, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Carlos Nuno Granja, Cristiana Rodrigues, Hélder Bruno, Iuri Oliveira, João Pedro Vala, Jorry, José J. Cabral, Mara Domingues, Maria Martins, Marisa Lemos, Miguel Gouveia, Rafael Gallo, Rui Guedes, Surma, Teresa Carvalho, Zetho Cunha
Parque Urbano de Ovar, Bar do CAO e Centro de Artes de Ovar
20 Set 2026 | dom | 10:00 e 15:00


Há sempre uma espécie de melancolia no último dia de um Festival. Em Ovar, no passado domingo, ela foi-se insinuando devagar, entre livros, desenhos, histórias e conversas, como se ninguém se atrevesse a dar por adquirido que a festa estava a chegar ao fim. O Parque Urbano recebeu as primeiras palavras do dia, com a apresentação de “Sr. Loisas - A biblioteca itinerante é bastante extravagante”, de Carlos Nuno Granja, ilustrado por Yana Marques. Seguiu-se uma oficina de ilustração de Cristiana Rodrigues e uma conversa moderada por Rui Guedes e dedicada à mediação da leitura. Marisa Lemos, Ágata Pereira e Mara Domingues, as convidadas desta penúltima mesa do FLO, falaram da escrita como lugar de humildade, da leitura como encontro e das histórias como instrumentos capazes de nos tocar antes mesmo de sabermos exactamente porquê. “A criança lê pelos ouvidos”, lembrou Marisa Lemos. Ágata Pereira haveria de dizer que, mesmo se tivesse escrito vinte livros, não abdicaria nunca de ser professora. E Mara Domingues deixou uma ideia particularmente bonita: um livro pode ser apenas uma história que nos soube bem; não tem necessariamente de carregar consigo uma moral. Depois, os contos de Miguel Gouveia prolongaram essa manhã em que as palavras ainda hesitavam em despedir-se.

À tarde, já no Bar do CAO, a literatura ganhou outros contornos. “Cinzas & Sudário”, de Aurelino Costa, abriu caminho para uma “Poesia A Meias”, partilhada pelo próprio autor, com Zetho Cunha Gonçalves e Aurora Gaia, num encontro em que a palavra poética encontrou uma particular dimensão de voz, respiração e presença. Mas seria na última mesa do Festival, moderada por Teresa Carvalho, que a conversa haveria de se deter sobre esse território onde a literatura respira entre o íntimo e o colectivo. João Pedro Vala falou de uma literatura mais próxima da vírgula do que do ponto de exclamação, um espaço de respiração e não de exaltação. Rafael Gallo lembrou o perigo dos pontos de exclamação quando se pretende dar demasiado peso às frases e falou do medo de perder a casa ou o emprego de que se alimentam as narrativas neofascistas. José J. Cabral reclamou para os escritores a responsabilidade de reflectirem a verdade dos seus países e contrariarem as narrativas institucionais: nem tudo o que vemos, disse, é postal ilustrado. Entre o manguito e a vírgula, entre a História que herdámos e aquilo que ainda precisamos de reinventar, ficou a literatura como lugar de confronto, mas também de conforto e transformação.

A música reservava uma surpresa para o final de um programa que, ao longo de cinco dias, teve tudo para agradar a todos. “Ether Sculptures”, de Hélder Bruno, encerrou o Festival Literário de Ovar como se o fim pudesse, afinal, ser uma outra forma de começo. No palco, piano, baixo eléctrico, teclados, guitarra, sintetizadores, bateria, percussões e violoncelo construíram uma matéria narcadamente sensorial. Hélder Bruno, acompanhado por Jorri, Surma, Iúri Oliveira e Maria Redes Martins, levou o público para esse território onde o som deixa de ser apenas som e passa a ser paisagem, memória, emoção. Foi, em grande medida, a despedida perfeita para um Festival feito de palavras: depois de tantos livros, autores, leitores, perguntas e respostas, restava aquilo que talvez seja mais difícil de nomear. Uma atmosfera. Uma vibração. Qualquer coisa que permaneceu dentro de nós quando as cadeiras começaram a esvaziar-se e as luzes se apagaram. Se uma imagem vale mil palavras, como dizia a apresentação do espectáculo, talvez uma música possa valer mil imagens. E naquela última hora, Ovar pareceu guardar dentro de si todas elas.

Foi assim que terminou a XII edição do Festival Literário de Ovar: sem um verdadeiro ponto final, porque os livros não sabem terminar assim, nem as histórias, nem as conversas que ficam a trabalhar dentro de quem as ouviu ou nelas participou. Escritores e leitores despediram-se da cidade, guardando consigo aquilo que os festivais verdadeiramente deixam: frases impossíveis de esquecer, outras tantas perguntas, encontros que continuam para lá destes dias inesquecíveis e a sensação rara de ter pertencido, por instantes, a uma comunidade reunida em torno da palavra. Depois, começa o silêncio. A cidade regressa ao seu ritmo habitual, os lugares onde durante dias se ouviram vozes ficam novamente à espera, instala-se aquele vazio agridoce que acompanha todas as despedidas felizes. O festival acaba, mas Ovar fica com a memória do que aconteceu e com a longa, quase insuportável espera pelo dia em que os livros voltarão a ocupar a cidade, as palavras tornarão a atravessar praças e ruas e alguém voltará a dizer que é hora de recomeçar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Alberto Pereira, Alice Brito, Ana Rute Elias Lopes, Ana Zorrinho, Andreia Baptista, António Cabrita, Caius, Carlos Nuno Granja, Carlos Querido, Celina Lopes, Cláudia Pena, Cristina Carvalho, Cristina Marques, Daniel Completo, Elisa Costa Pinto, Filipa Mota Nesbitt, Francisco Mota Saraiva, Gonçalo Serras, Katya Delimbeuf, Luís Filipe Sarmento, Helena Ribeiro, José Fanha, Manuella Bezerra de Melo, Marco Neves, Maria Cláudia Rodrigues, Miguel Bonneville, O Poeta da Cidade, Paola d’Agostino, Rute Campanha, Sara Dias de Oliveira, Wake Up Sleep
Parque Urbano de Ovar, Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, Centro de Artes de Ovar
19 Set 2026 | sab | 09:30, 14:30 e 21:00


Por tradição o dia mais preenchido do Festival Literário de Ovar, o passado sábado voltou a servir de teste à vontade e persistência dos muitos adeptos do Festival e a fazê-los sentir os mais variados momentos não como um programa, mas como uma viagem. O quarto dia do FLO foi, assim, uma longa viagem entre livros, vozes, rostos, memórias, perguntas e reflexões, começada por volta das nove da manhã e só finalizada quando no relógio da torre da Matriz se escutaram as doze badaladas. Entre o Parque Urbano, o Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense e o Centro de Artes de Ovar, escritores, leitores ou simples curiosos foram-se movendo entre uma palavra e outra, uma mesa e outra, como quem muda de sala no interior da sua própria casa. Apresentações de livros, oficinas, contos, poesia e cinco mesas de conversas constituíram, mais do que uma autêntica maratona, um exercício de resistência à voracidade dos dias. Porque se há coisa que a literatura nos pede é, justamente, que paremos. Que olhemos. Que abramos uma porta, mesmo não sabendo onde ela nos irá levar. E, por uma vez, que não tenhamos pressa de chegar ao outro lado.

A manhã começou com os livros a falarem para aqueles que estão ainda a descobrir o mundo, mas rapidamente se percebeu que falar de literatura infantil é falar de todos nós. Ana Rute Elias Lopes lembrou que, quando conta a história de um livro, conta também a sua própria história, fazendo com que essa humanidade aproxime o pequeno leitor daquilo que tem diante de si. Celina Lopes falou de uma ferida antiga transformada em livro. Andreia Baptista lembrou que mediar a leitura não é simplesmente contar uma história, mas criar condições para que ela seja descoberta com prazer, fruição e surpresa. Talvez seja por isso que a literatura para os mais novos tenha uma responsabilidade tão grande: porque pode ser o primeiro lugar onde alguém percebe que as palavras não servem apenas para dizer o mundo, mas também para inventar outros mundos, quiçá mais maravilhosos e fantásticos. Entre a oficina de ilustração de Cláudia Pena e os contos de Daniel Completo e José Fanha, a manhã foi deixando essa impressão bonita de que um livro começa muito antes de ser aberto e continua muito depois de dobrada a última página.

À tarde, no Museu Júlio Dinis, a conversa tornou-se mais densa, como se a literatura tivesse tirado o casaco leve da manhã e entrado noutra estação. Carlos Querido, Marco Neves e Elisa Costa Pinto falaram da complexidade e da simplificação, dessa tendência contemporânea para tornar tudo imediatamente compreensível, arrumado, consumível. Mas a literatura, talvez porque conhece demasiado bem a vida, desconfia das respostas fáceis. “Quem conhece a aldeia, conhece o mundo”, disse Carlos Querido, e ficou-me a frase. Porque é exactamente isso que os livros fazem, ao abrirem para nós um pequeno postigo e mostrarem-nos uma paisagem que não sabíamos que pudesse estar ali. Marco Neves lembrou que reduzir a língua à oposição entre simples e complexo é diminuir aquilo que ela nos oferece. Elisa Costa Pinto falou de uma Escola que não deve simplificar o mundo, mas dar-nos ferramentas para entrar no que ele tem de mais difícil. E ficou a sensação de que, num tempo que tantas vezes nos pede atalhos, a literatura continua a preferir o caminho menos fácil e menos óbvio. O caminho mais longo.

Foi também no Museu Júlio Dinis que Samuel Beckett apareceu, não como estátua literária, mas como homem. Alberto Pereira apresentou um livro que procura imaginar esse Beckett que poderia ter sido outra coisa, ter encontrado outras pessoas, vivido outra vida. Um homem entre a lucidez e o desequilíbrio, acompanhado pelo absurdo, pela espera, por Shakespeare, Joyce, Nietzsche, Hélia Correia, Dante, Saramago. Foram ideias através das quais se assistiu a uma das mais bonitas reflexões do dia, já que “falar de Beckett é falar de nós”. Porque também nós esperamos. Por um amor, por uma mudança, por alguma coisa que ainda não chegou, pela morte. Esperamos enquanto corremos. E corremos tanto que já quase não vemos os lugares por onde passamos. “A palavra fulcral é a velocidade”, ouviu-se. Talvez seja. Mas nessa tarde, em Ovar, tentou-se contrariá-la. Na mesa moderada por Ana Zorrinho, António Cabrita falou da paixão como força capaz de incendiar a escrita, para o bem e para o mal. Luís Filipe Sarmento encontrou na obscuridade da notícia o gatilho para escrever e a literatura apareceu, uma vez mais, como o lugar possível para chegar ao ponto cego, a esse cruzamento improvável entre diferentes maneiras de olhar.

Depois veio a memória, e com ela tudo aquilo que ainda não passou inteiramente. A última mesa da tarde trouxe para o centro da conversa os cinquenta anos da nossa democracia e os vestígios de um país que não se evaporam só porque o calendário avança. Paola d’Agostino falou de uma censura que pode terminar depressa, mas de uma auto-censura cujo desaparecimento é muito mais lento. Francisco Mota Saraiva evocou a reverência antiga ao patriarcado, à autoridade, ao “senhor”, e falou de um país onde ainda permanecem formas de desconfiança e desamor. Miguel Bonneville deixou uma pergunta difícil: nascer depois de Abril significa necessariamente ter nascido em liberdade? Talvez a literatura seja também isto: não deixar que as perguntas envelheçam. À noite, Cristina Carvalho e Alice Brito voltaram a essa memória através de “Perdeu-se Relógio de Senhora”, romance que olha para o fascismo no quotidiano, para aquilo que pode parecer pequeno, doméstico, quase invisível, e que, justamente por isso, se torna tão perigoso. “Esquecer”, disse Alice Brito, “é compactuar com um passado que não queremos que volte”.

Quando a última mesa começou, já o dia pesava no corpo, mas não na conversa tão habilmente moderada por Cristina Marques. Maria Cláudia Rodrigues falou da escrita como uma tentativa de iluminar aquilo que permanece na obscuridade. Filipa Mota Nesbitt lembrou a literatura como algo que resiste ao tempo, da leitura como lugar de encontro com o outro e da necessidade de escrever porque não basta viver: é preciso testemunhar. Katya Delimbeuf lembrou a força quase inexplicável desse acto que é escrever, essa tentação de deixar alguma coisa para além de nós. O verdadeiro fio de todo o dia estava encontrado: deixar. Deixar uma frase, uma imagem, uma pergunta, uma memória. Deixar qualquer coisa no outro. Na voz d'O Poeta da Cidade, “Metafisicamente d’Outro Mundo” veio fechar a noite com poesia. E assim se chegou ao final do quarto e penúltimo dia do FLO, após quase quinze horas de literatura, com a sensação paradoxal de cansaço e de fome. Cansaço no corpo, certamente. Mas fome de continuar. Porque estamos à beira do último dia e há viagens que, quando estão quase a terminar, nos dizem que não queremos realmente que cheguem ao fim. O Festival Literário de Ovar é uma dessas viagens.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 3



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Ana Cláudia Santos, Ana Oliveira Cardoso, Ana Rita Gomes, Anabela Carrazedo, Carlos Nuno Granja, Dina Pereira, Joana Afonso, João Albano Fernandes, Joaquim Margarido, José Paulo Santos, José Saro, Julio Machado Vaz, Manuela Lobo Vieira, Marcelo Teixeira, Pedro Albuquerque, Rogério Charraz, Sérgio Luís de Carvalho
Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2026 | sex | 21:00


O terceiro dia da 12.ª edição do Festival Literário de Ovar começou quando a noite ainda vinha longe. Entre oficinas, formação creditada para professores e uma sessão sobre as virtualidades pedagógicas da biblioteca escolar, desde manhã cedo que as palavras começaram a multiplicar-se pelas salas da Escola Secundária Júlio Dinis. Ao fim da tarde, no Museu Júlio Dinis, Anabela Carrazedo apresentou “A Crença do Desamor” e, depois, Carlos Nuno Granja juntou João Albano Fernandes, Manuela Lobo Vieira, José Paulo Santos e Pedro Albuquerque numa mesa de conversa que tomou como ponto de partida uma frase de José Cardoso Pires: “Sei, todos nós sabemos, como pesa o tempo vencido sobre quem se aventura a recompô-lo. É um eco a sublinhar as palavras, uma ironia que nos contempla de longe, um aviso.” Um aviso, pois, numa jornada que viria a ser feita de memória e inquietação, de livros que pareceram ir à procura do que ficou para trás e de vozes que se empenharam em compreender o presente. Quando a noite chegou à Escola de Artes e Ofícios, o festival já trazia muitas horas de palavras dentro de si.

Foi com o pão que a noite se sentou à mesa. Sérgio Luís de Carvalho, com “Almanaque do Pão”, acompanhado pelas ilustrações de Dina Pereira e pela memória de séculos de tradição, mostrou que há alimentos que são também territórios, histórias, gestos e afectos. “O pão não é só pão. É história e é memória”, disse a ilustradora, autora de sessenta e cinco desenhos que procuraram acompanhar, com o mesmo cuidado e paciência, a matéria escrita. O autor trouxe mais de meio milhar de provérbios, receitas, lendas, referências bíblicas e tradições populares, da padeira de Aljubarrota à Festa dos Tabuleiros, das migas às açordas, lembrando que muitas das tradições dos pobres são aquelas que o tempo se encarregou de guardar mais ciosamente. O pão foi, assim, uma espécie de metáfora perfeita para esta noite: algo que se amassa, se transforma e se partilha. Mais tarde, “Palavra Puxa Palavra” levou essa partilha para outro lugar. Rogério Charraz e Júlio Machado Vaz fizeram da poesia e da música uma conversa sem mapa, uma espécie de carta aberta em que se sabe onde se começa, mas nunca onde se acaba. O’Neill, Ramos Rosa, Sophia, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires, Jorge Palma, Luís Represas, Elis Regina. A palavra foi puxando a palavra, até a sessão ficar suspensa da última nota.

A mesa moderada por Joaquim Margarido fez com que a noite encontrasse o seu centro em três Anas - Ana Cláudia Santos, Ana Oliveira Cardoso e Ana Rita Gomes -, três percursos, três escritas, três maneiras de olhar o mundo sem aceitar que alguém lhes entregue uma legenda pronta a engolir. A frase de José Cardoso Pires - “Mas o pior dos piores sabe o que é? É cada qual obrigar-me a fazer uma ideia do mundo a seu gosto. Vem um, diz: Isto está certo porque assim é que deve ser. Toma nota, ó cego” - serviu de chave para abrir uma conversa sobre literatura, mulheres, identidade, linguagem e liberdade. Ana Cláudia Santos falou da escrita como exercício de passagem, afirmando que é a sua maneira de “traduzir os outros, traduzir ideias e traduzir-me a mim própria”. Ana Oliveira Cardoso, autora de “Ontem”, romance onde o mar, a ilha e a memória se encontram, deixou uma frase que parece conter uma poética inteira: “A escrita leva-me a não tomar as coisas à letra.” E Ana Rita Gomes, autora de “A Bicicleta Açoriana”, trouxe consigo uma história que parecia fechar um círculo: veio para Ovar aos 14 anos “para fugir das letras” e regressou aos 50 para um Festival Literário. Entre o humor, a intimidade e a reflexão, as três convidadas foram mostrando que a literatura começa muitas vezes quando deixamos de aceitar que as coisas sejam apenas aquilo que parecem.

E houve ainda a inteligência artificial, essa presença cada vez mais inevitável, a pairar sobre o futuro da palavra. Ana Cláudia Santos lembrou que uma ferramenta generativa poderá imitar a linguagem, mas nunca será capaz de substituir as emoções e os sentimentos que um escritor deposita no que escreve; Ana Rita Gomes acrescentou que “quanto mais coisas sentidas partilhares, mais vais combater a inteligência artificial”. Pelo meio ficou também a questão das barreiras que ainda atravessam o caminho das mulheres, mas sem que a conversa se deixasse aprisionar por respostas fáceis: “Não é importante se se trata de ser homem ou mulher. O mais relevante é sermos boas pessoas”, afirmou Ana Rita Gomes. Nisso residiu o verdadeiro fio da noite: a recusa de uma única forma de ver, a desconfiança perante quem chega com certezas embaladas, o direito à dúvida e à diferença. Depois, Rogério Charraz e Júlio Machado Vaz levaram tudo isso para a música e para a poesia. “Quando os Deuses brincam é para magoar”, ouviu-se. Mas, naquela noite, talvez as palavras tenham feito o contrário: em vez de ferirem, encontraram-se. E, encontrando-se, fizeram companhia umas às outras. Palavra puxou palavra, a noite puxou a memória e a salvação veio pela música, pelos livros, pela partilha entre escritores e leitores.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Afinidades - Práticas Gráficas Contemporâneas” | Vários artistas



EXPOSIÇÃO: “Afinidades - Práticas Gráficas Contemporâneas”
Vários artistas
Curadoria | Júlio Dolbeth
Museu Nacional Soares dos Reis
25 Jul > 11 Out 2026


Há qualquer coisa de particularmente feliz no gesto que preside à terceira edição de “Afinidades – Práticas Gráficas Contemporâneas”: retirar uma peça aparentemente modesta do silêncio protector da vitrine e devolvê-la ao ruído criativo do presente. A caneca de vidro da Real Fábrica de Vidros de Coina, produzida entre 1719 e 1747, é o discreto detonador de uma exposição que reúne quarenta e nove obras de autor, numa espécie de conversa a várias vozes entre o património e as linguagens gráficas contemporâneas. Sob curadoria de Júlio Dolbeth, o projecto põe em contacto o Museu Nacional Soares dos Reis com dezanove galerias e estabelecimentos comerciais do Quarteirão Bombarda, confirmando uma vocação que ultrapassa a mera exibição de objectos: a de fazer do museu um lugar de encontro. O interesse da proposta está precisamente nessa deslocação. Não se trata de ilustrar a caneca, nem de a transformar num pretexto decorativo, mas de descobrir nela formas, transparências, funções e símbolos capazes de gerar outras imagens e outras leituras.

É nesse território de contaminação que “Afinidades” encontra a sua maior força, embora também aí resida o risco inevitável de uma mostra tão plural. Ilustração, desenho, gravura, colagem e processos híbridos, analógicos e digitais, respondem de modos muito diferentes à peça de partida, construindo relações conceptuais, formais ou simbólicas que nem sempre terão a mesma intensidade. A heterogeneidade é, contudo, menos uma fragilidade do que a própria matéria do projecto: interessa observar o que acontece quando um objecto do século XVIII, ligado a uma história industrial, tecnológica e social concreta, é submetido aos filtros de sensibilidades contemporâneas. Algumas propostas aproximam-se da caneca pela forma ou pela transparência; outras parecem interessar-se sobretudo pela ideia de memória, uso ou vestígio. E é justamente nessa distância, entre a coisa original e aquilo que dela cada artista imagina, que a exposição se torna mais estimulante. “Afinidades” não procura uma resposta única: ensaia uma multiplicidade de ecos.

O mérito maior desta terceira edição talvez esteja, por isso, em não tratar o património como matéria intocável, mas como algo que ganha espessura quando é questionado. O Museu Nacional Soares dos Reis surge aqui menos como destino final do que como plataforma de circulação: recebe o olhar dos criadores do Quarteirão Bombarda e devolve à comunidade um objecto da sua colecção transformado em ponto de partida. É uma estratégia pertinente num tempo em que os museus são chamados a justificar a sua presença não apenas pela conservação do passado, mas pela capacidade de produzir relações no presente. “Afinidades” cumpre essa ambição sem abandonar a dimensão artística, deixando que as obras falem por si e que a comparação seja feita pelo visitante. Até 11 de Outubro, a exposição permanece como um pequeno laboratório de possibilidades, onde uma caneca de vidro com três séculos de história se converte em matéria de desenho, imagem e pensamento. Aí encontramos a verdadeira afinidade: a convicção de que olhar para o passado também pode ser uma forma de inventar o futuro.

domingo, 20 de setembro de 2026

LIVRO: “É a Ales” | Jon Fosse



LIVRO: “É a Ales”,
de Jon Fosse
Título original | “Der et Ales” (© 2023, mareverlag, Hamburgo, @ 2023, Jon Fosse)
Tradução | Pedro Porto Fernandes
Ed. Cavalo de Ferro, Maio de 2024


“ (...) ela pega na vara e vai até à fogueira e depois põe-se a passar a vara com a cabeça de ovelha sobre as chamas e, enquanto o rapaz esperneia ao colo dela, ela passa a cabeça de ovelha para a frente e para trás sobre as chamas, mas a lã pega fogo, as labaredas crescem e um cheiro forte a queimado espalha-se no ar e ela mergulha a cabeça de ovelha na água do mar e depois volta a passá-la para a frente e para trás sobre as chamas, e outra vez o cheiro a queimado, e volta a passar a cabeça de ovelha sobre as chamas, para a frente e para trás, para a frente e para trás. É a Ales, pensa ele, e ele vê, ele sabe. É a Ales. É a Ales, pensa ele, é a sua trisavó, ele sabe.”

Em “É a Ales”, a escrita minimalista, intensa, poética e hipnótica do Nobel norueguês, Jon Fosse, volta a impôr-se. Nele, constrói o autor uma narrativa breve na extensão, mas de enorme densidade emocional. Publicado em 2024, o romance acompanha Signe, uma mulher idosa que permanece na Casa Velha, junto ao fiorde, vinte e três anos depois do desaparecimento do marido, Asle, levado pelo mar num dia de tempestade. A partir de um ponto imóvel - Signe junto à janela, olhando para uma paisagem que parece imutável - Jon Fosse abre uma sucessão de tempos, vozes e memórias que atravessam cinco gerações de uma mesma família. O passado é uma recordação desorganizada que irrompe no presente, confundindo personagens, acontecimentos e perspectivas. A história remonta a Ales, antepassada de Signe, a Kristoffer e Brita, e aos filhos Asle e Olav, até chegar ao pequeno Asle, morto por afogamento no dia do seu sétimo aniversário, em 1897. Décadas mais tarde, o adulto Asle terá um destino semelhante. Entre as duas tragédias, a família parece condenada a repetir uma dor que o tempo não consegue apagar. A casa, o mar, a praia, a montanha e o pequeno barco tornam-se espaços de uma memória colectiva, enquanto Signe, sozinha, revive acontecimentos que pertencem simultaneamente à sua experiência e à dos que a antecederam.

A singularidade do romance está, sobretudo, na forma como Jon Fosse transforma o fluxo da consciência em matéria narrativa. Não há capítulos ou divisões convencionais, nem uma progressão cronológica que conduza o leitor de um acontecimento ao seguinte. As vozes sobrepõem-se, as perspectivas mudam sem aviso prévio e presente e passado convivem na mesma frase, como se o pensamento recusasse a linearidade própria da escrita. A repetição de palavras, expressões e imagens funciona como um ostinato musical, conduzindo o leitor através dessa corrente interior e criando um ritmo hipnótico. O silêncio desempenha, por sua vez, um papel tão importante como a fala: entre Asle e Signe, aquilo que não é dito revela tanto ou mais do que as palavras que trocam. A solidão, o amor, a perda, a maternidade frustrada, a espera e a impossibilidade de escapar ao passado vão emergindo de pensamentos que parecem atravessar-se uns aos outros. É essa aparente desordem que permite a Fosse aproximar-se da verdade emocional das personagens. Signe não se limita a recordar a jovem que foi ou o marido que perdeu; vê-se a si própria no passado e, através dessa imagem, vê também os mortos, os antepassados e as tragédias que moldaram a família.

No centro desta teia narrativa encontram-se dois grandes símbolos: o fogo e o fiorde. A fogueira que Ales acende junto à praia, o fogo doméstico e a fogueira que marca a memória da família representam simultaneamente abrigo, destruição e transformação. É olhando para as chamas que a realidade parece desvanecer-se e dar lugar às imagens interiores que unem vivos e mortos. O fogo mantém viva a lembrança das tragédias, mas também oferece uma espécie de purificação, como se o sofrimento pudesse finalmente ser consumido. O fiorde assume uma função simultaneamente inversa e complementar: é fonte de vida e ameaça permanente, espaço de trabalho dos pescadores e lugar de morte. Foi o mar que levou duas vidas da família e, em ambas as tragédias, as frágeis embarcações permaneceram como testemunhas silenciosas do que aconteceu. A força da Natureza confronta-se, deste modo, com a fragilidade humana e com a persistência do afecto. No fim, a narrativa revela uma família de pescadores marcada pela perda, mas também pelo amor e pela esperança, numa espécie de ciclo que só poderá ser interrompido quando a memória deixar de exigir a repetição da dor. “É a Ales” confirma, assim, a singularidade da escrita de Jon Fosse, aparentemente simples e formalmente desconcertante, capaz de transformar silêncio, repetição e consciência num território literário que rejeita a linearidade do tempo e faz da memória uma forma de existência.