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segunda-feira, 23 de março de 2026

CONCERTO: Chico César - Aos Vivos



CONCERTO: Chico César - Aos Vivos
Cine Teatro de Estarreja
21 Mar 2026 | sab | 21:30


No quase desfecho de uma digressão intensa pelo nosso País, o concerto de Chico César trouxe ao Cine Teatro de Estarreja a nostalgia dos momentos inaugurais, a beleza do reencontro e o fulgor da celebração. Trinta anos depois de “Aos Vivos”, o gesto feito de voz e violão, despojamento radical e risco absoluto, reapareceu não como memória, mas como presença. Em palco, Chico César não representou um passado, antes reabitou-o com a mesma entrega do primeiro instante, como se o tempo não tivesse passado mas apenas aprofundado a escuta. E o público, cúmplice, mostrou saber estar não apenas perante um alinhamento de canções, mas a assistir a um exercício de permanência quase ritual. Num exercício à capella,“Beradêro” abriu o concerto como uma ponte suspensa entre tempos, chamando não só o sertão mas também uma formidável plateia portuguesa e brasileira, já íntima, já pertencente e inscrita nesse território simbólico. A nudez do formato devolveu às palavras o seu peso original e ao silêncio a sua função esquecida, criando uma tensão subtil entre o dito e o sugerido. Nada sobrou, nada faltou. E nessa economia residiu uma força rara, difícil de alcançar, que fez de cada som e cada fala um instante único e necessário.

Erguendo bem alto a bandeira da celebração, Estarreja apresentou-se como território de depuração. Ao longo de quase duas horas, as canções respiraram menos urgentes - à excepção de “Pedrada” e desse grito “fogo nos fascistas”, a fechar a noite - e mais densas, como se cada verso carregasse a poeira de todos os palcos anteriores e a memória de todas as vozes que as cantaram. “Mama África” irrompeu ainda com a sua energia incontornável, mas trouxe consigo uma gravidade nova, iminentemente política, ecoando um mundo que, como o próprio artista tem lembrado, permanece ferido e desigual, atravessado por fracturas que a música não resolve, mas ilumina. Já “À Primeira Vista” desenhou-se com uma delicadeza quase táctil, sem pressas, como se o tempo tivesse aprendido a escutar e a respirar com o público. Entre estas âncoras mais reconhecíveis, houve espaço para o murmúrio íntimo de “Saharienne” ou para a sabedoria terna de “Mulher Eu Sei”, revisitadas como organismos vivos, capazes de se adaptarem ao presente sem perderem a sua raiz profunda. Pelo meio, as histórias, contadas com humor e precisão, foram tecendo uma narrativa paralela, aproximando distâncias e humanizando o gesto artístico.

Mas talvez o mais notável tenha sido essa qualidade de sussurro que atravessou toda a noite, como uma linha invisível a unir palco e plateia. Num tempo saturado de ruído e artifício, o concerto em Estarreja soou, de facto, como um acto de resistência - ou, mais precisamente, de humanidade consciente de si mesma. Chico César cantou como quem conversa, como quem partilha inquietações sem necessidade de as amplificar, confiando na escuta do outro e na força intrínseca da palavra dita com verdade. Tudo naquele serão se vestiu de política, no sentido mais amplo e mais necessário do termo: a escolha de permanecer simples, de insistir na palavra, de convocar afectos como forma de resposta a um mundo crispado e fragmentado. Longe de ser mero espectador, o público tornou-se a extensão desse gesto, cantando, batendo palmas, fazendo coro com o músico e preenchendo os interstícios com uma atenção rara, quase devocional. No final, mais do que a estrondosa apoteose, houve algo talvez mais duradouro e difícil de nomear: a sensação de que aquelas canções, nascidas há três décadas, continuam a atravessar gerações e geografias e a dizer o essencial. E que, apesar dos pesares, seguimos vivos. Ao vivo.

domingo, 22 de março de 2026

CONCERTO: Rabih Abou-Khalil



CONCERTO: Rabih Abou-Khalil
Com | Rabih Abou-Khalil (oud), Mateusz Smoczynski (violino), Krzysztof Lenczowski (violoncelo), Jarrod Cagwin (bateria e percussões)
Auditório de Espinho - Academia
20 Mar 2026 | sex | 21:30


A música de Rabih Abou-Khalil impõe-se nos dias de hoje como um dos mais lúcidos exercícios de superação de fronteiras, não apenas estéticas, mas também sociais, culturais, políticas e até religiosas. Nascido no caldo cosmopolita de Beirute e formado entre tradições aparentemente inconciliáveis, o músico construiu ao longo de décadas uma linguagem singular que recusa compartimentos estanques. O seu oud não se limita a ecoar heranças árabes, antes dialoga com o jazz, com a música erudita europeia e com uma ideia profundamente contemporânea de circulação cultural. Percebe-se nesse gesto a recusa explícita do exotismo fácil e da apropriação superficial, substituídos por um encontro de géneros em plano de igualdade, no qual cada frase sonora se expõe e se transforma. Ao escutá-lo, percebemos que a sua música não pretende cruzar geografias, antes dissolvê-las, criando um território outro onde identidade e alteridade coexistem sem hierarquias. Longe de qualquer discurso panfletário, esse desígnio concretiza-se numa escrita rítmica e melódica de grande complexidade, que soa simultaneamente estranha e familiar, desafiando o ouvinte a abandonar certezas e a habitar um espaço de escuta verdadeiramente plural.

Foi com o fito nesse horizonte que Rabih Abou-Khalil se apresentou no Auditório de Espinho, numa noite que viria a encerrar da melhor forma o primeiro trimestre de uma sala cuja programação prima, com notável consistência, pela qualidade e ecletismo. Perante um público que esgotou o espaço e reagiu com entusiasmo às propostas que preencheram o alinhamento, a mestria de Rabih Abou-Khalil revelou-se desde os primeiros instantes como eixo agregador de um quarteto em estado de graça, ao mesmo tempo que o músico mostrou sentir-se em casa, fazendo questão de se exprimir em português num registo próximo e bem-humorado. Nas suas palavras, os temas foram-se alinhando entre espiões americanos e gastronomia finlandesa, dois polacos pelo preço de um, a trabalheira que dá encontrar uma mulher, a dificuldade de explicar o que não tem explicação ou os sonhos de uma cidade a morrer, construindo uma narrativa paralela que ampliou a escuta. O violinista Mateusz Smoczynski acrescentou um lirismo incisivo, capaz de oscilar entre a delicadeza camerística e a energia improvisada, enquanto o violoncelista Krzysztof Lenczowski ancorou o discurso numa densidade tímbrica de grande subtileza. Já Jarrod Cagwin, na bateria e percussões, edificou uma arquitectura rítmica simultaneamente precisa e orgânica, sustentando e desafiando o colectivo.

Mais do que um simples concerto, o que se viveu na noite da passada sexta-feira em Espinho foi uma experiência de imersão total, os diálogos entre os instrumentos a abrirem possibilidades sonoras quase inesgotáveis e a manterem o público num estado de atenção vibrante, respondendo com entusiasmo a cada inflexão. O oud de Rabih Abou-Khalil teve tanto de narração como de provocação, lançando motivos que o violino e o violoncelo souberam expandir ou contrariar, ao mesmo tempo que a percussão redesenhava o chão rítmico. Houve momentos de rara contenção, em que o silêncio pareceu tão expressivo quanto as notas, seguidos de explosões de energia contagiante, plenos de clareza e intencionalidade. Em constante mutação, essa dinâmica consolidou uma relação de cumplicidade entre o palco e a plateia, com o humor das histórias e a densidade da música a entrelaçarem-se de forma natural. No final, restou a sensação de termos podido assistir a um acontecimento pleno e irrepetível, onde o virtuosismo, a escuta mútua e a imaginação convergiram num equilíbrio quase milagroso, confirmando não apenas a singularidade do músico libanês, mas também a relevância de um espaço que continua a afirmar-se como lugar privilegiado para experiências artísticas do mais vasto espectro.

sábado, 21 de março de 2026

CINEMA: "Palestina 36" | Annemarie Jacir



CINEMA: “Palestina 36” / “Palestine 36”
Realização | Annemarie Jacir
Argumento | Annemarie Jacir
Fotografia | Sarah Blum, Tim Fleming, Hélene Louvart, Leandro Monti
Montagem | Tania Reddin
Interpretação | Robert Aramayo, Jeremy Irons, Liam Cunningham, Billy Howle, Hiam Abbass, Sam Hoare, Christopher Villiers, Yasmine Al Massri, Saleh Bakri, Yumna Marwan, Yahya Mahayni, Dhafer L’Abidine, Joanna Arida, Sofia Asir, Aya Khalaf, Karim Daoud Anaya
Produção | Ossama Bawardi
Territórios Palestinianos Ocupados, Reino Unido, Estados Unidos, França, Dinamarca, Noruega, Qatar, Arábia Saudita, Jordânia | 2025 | Biografia, Drama, História, Guerra | 115 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 5
19 Mar 2026 | qui | 18:50


A História raramente se impõe por rupturas súbitas. Constrói-se, antes, por acumulações discretas que, só mais tarde, vêm a revelar o seu peso. É esse ponto de ignição que “Palestina 36”, de Annemarie Jacir, convoca com ambição invulgar. Recuando à revolta árabe de 1936 sob o mandato britânico, o filme assume-se como exercício de memória e acusação política, recusando a neutralidade confortável de um certo cinema histórico e documental. A realizadora opta por uma estrutura de feição quase romanesca, na qual múltiplas personagens e linhas narrativas se entrecruzam, compondo um fresco social denso, por vezes excessivo, mas raramente inerte. Se, por um lado, a compressão de acontecimentos e figuras em pouco mais de duas horas provoca uma sensação de urgência que roça o apressado, por outro, essa mesma vertigem reflecte o colapso progressivo de uma sociedade violada nos seus direitos, espoliada dos seus valores vitais e empurrada para as margens. Mais do que reconstituir factos, Annemarie Jacir procura recuperar uma experiência colectiva frequentemente omitida, assumindo o contraditório de uma historiografia dominante e de visão unilateral.

Essa ambição manifesta-se sobretudo na galeria de personagens que atravessa classes, geografias e sensibilidades políticas. Do campo à cidade, dos camponeses desalojados às elites urbanas divididas entre pragmatismo económico e fervor nacionalista, “Palestina 36” revela uma Palestina plural, longe de qualquer representação monolítica. Figuras como Khuloud, jornalista combativa, ou Khalid, jovem dividido entre a promessa urbana e as raízes rurais, funcionam como eixos de tensão entre acção e hesitação, resistência e adaptação. Ainda assim, a opção por delimitar com nitidez moral os campos em confronto — colonizadores britânicos e agentes da repressão de um lado, população palestiniana do outro — reduz zonas de ambiguidade que poderiam enriquecer o debate dramático. A crítica ao poder imperial britânico surge frontal, quase pedagógica, deslocando o foco habitual das narrativas centradas exclusivamente no conflito entre judeus e árabes. Este gesto, embora politicamente incisivo, implica também uma simplificação estratégica: ao privilegiar a denúncia, o filme sacrifica por vezes a complexidade psicológica em favor de uma clareza ideológica inequívoca.

Formalmente, porém, “Palestina 36” revela uma notável maturidade. A cinematografia — assinada por uma equipa tripartida — conjuga luz natural e uma paleta cromática evocativa, aproximando o espectador de uma paisagem simultaneamente idílica e ameaçada. A inclusão de imagens de arquivo, integradas com subtileza, acrescenta densidade histórica sem quebrar a fluidez narrativa. Há no filme uma recusa deliberada do espectáculo fácil: mesmo nas sequências de confronto, Annemarie Jacir privilegia a emoção contida em detrimento da espectacularidade da violência. O resultado é um objecto cinematográfico que oscila entre o épico e o íntimo, entre o documento e a ficção, conseguindo, apesar de algumas fragilidades estruturais, alinhar-se com o chamado “cinema de intervenção”. Num tempo em que o passado é constantemente reconfigurado à luz do presente, o filme não se limita a revisitar 1936. Ele interpela directamente o espectador contemporâneo, lembrando que as linhas de fractura, então traçadas, persistem nos dias de hoje e se afiguram longe de estarem resolvidas.

sexta-feira, 20 de março de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Francisco Duarte Mangas



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Francisco Duarte Mangas
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
18 Mar 2026 | qui | 17:00


A assinalar a sua trigésima edição, as Tertúlias Literárias “Conversas às 5” convidaram o escritor Francisco Duarte Mangas para uma hora de partilha, reflexão e conhecimento em torno de um conjunto de livros que encontram na História, na memória e na linguagem os alicerces que sustentam uma obra de inegável valor no panorama da literatura em Portugal. Nascido em Rossas, Vieira do Minho, em 1960, o escritor estudou História na FULPorto, foi professor três anos e jornalista durante quase três décadas. Dedica-se hoje à escrita a tempo inteiro, é o actual presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e director da revista Gazeta Literária. Autor premiado, tem editados mais de três dezenas de livros, entre obras de ficção, poesia e literatura infantil, além de quase outros tantos textos de que foi co-autor ou organizador. A estes apontamentos biográficos, Francisco Duarte Mangas acrescentou o facto de manter uma rotina de escrita diária - “dez linhas, vinte linhas, todos os dias” - e de “Diário de Link” ter sido o primeiro romance numa carreira literária que começou pela poesia. Uma carreira que se prepara para prosseguir na esteira de um livro anterior, e que nos irá trazer, esperamos que brevemente, a figura do escritor Antero do Quental e a sua ligação às ilhas dos Açores, onde viria a falecer.

Centrada no seu mais recente romance, “A Arte de Roubar Fruta”, a conversa começou por abrir espaço a outros trabalhos de Francisco Duarte Mangas, graças à partilha de um conjunto de curiosidades. Menino ainda, o escritor ouviu, assombrado, a história do último habitante a abandonar Vilarinho das Furnas, na altura em que a aldeia foi submersa pelas águas da barragem. A isso juntou a dúvida que o assaltou ao escutar a afirmação, a propósito da morte do ditador Francisco Franco, “que a terra lhe seja leve como chumbo”, o que abriu caminho, muitos anos depois, à escrita de “Diário de Link”. “A Cidade das Livrarias Mortas” é a cidade do Porto “vista por quem sente que há uma cidade que está a desaparecer e a nascer outra em seu lugar”. Já “O Alfarrabista de Ponta Delgada” - “que poderia muito bem chamar-se O Jardineiro de Ponta Delgada” -, faz-nos recuar dois séculos ao tempo em que os proprietários mais abastados competiam pelo título de melhor jardim. No caso de José do Canto, cujo jardim existe ainda hoje, a ideia inicial para o livro partiu da leitura de um panfleto turístico onde era mencionada a história de George Brown, o seu primeiro jardineiro, despedido na sequência da doença que vitimou as filhas. Uma história de prepotência e injustiça, à qual viriam a somar-se as precárias condições de vida da população, a exploração do trabalho infantil e o regime de quase escravatura nos vastos laranjais da ilha de S. Miguel no século XIX.

“Por vezes leio ou ouço uma palavra e penso que tenho de usar essa palavra para que ela faça parte de mim”, refere Francisco Duarte Mangas, a propósito da riqueza vocabular que ressalta dos seus livros. “A Arte de Roubar a Fruta” é disso exemplo maior, com o autor a chamar para título de alguns capítulos palavras como “alcaiote”, “estopim”, “pardau”, “garum” ou “veniaga” e cuja presença remete para obras como “A Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, ou “Dom Quixote”, de Cervantes. Ao mergulharmos no romance, encontramos-lhe a dimensão política muito marcada, a narrativa a desenvolver-se numa aldeia raiana do norte e a oscilar entre dois momentos distintos: o pós-segunda guerra mundial e o pós-revolução dos cravos. “Ao escrever este livro, pretendi mostrar que a malvadez não tem tempo. As pessoas de 1946 que participaram nos massacres [resultantes da perseguição aos guerrilheiros anti-franquistas refugiados no nosso País] eram as mesmas da rede bombista no Verão Quente de 1975.” Isto leva-nos ao “Cerco de Cambedo”, acontecimento marcante do período do Estado Novo, ao encontro de proprietários abastados e populações submissas, guardas prepotentes, pides sinistros e uma igreja conivente com a repressão e a tortura. Mas também das células ligadas ao Partido Comunista Português que lideravam a resistência ao fascismo, da morte de dois dos guerrilheiros e da captura de um terceiro e sua prisão no “campo da morte lenta” do Tarrafal.

“Para o ficcionista, o momento da criação de uma personagem e a forma como se desenvolve é fundamental na construção do livro”, refere o convidado. Entre o real e o imaginário, a conversa cruza, então, a figura de Zulmira ou Armindo Pega, com as do Padre Max ou do Cónego Melo, reforçando o olhar sobre a natureza humana que atravessa todo o livro, a malvadez já referida, mas também a bondade de certas pessoas. A primeira manifestação após o 25 de Abril, as primeiras inscrições nas paredes ou as primeiras eleições livres, convergem naquilo que Francisco Duarte Mangas designa como “direito à fala, o podermos falar” e que é, na sua opinião, “a grande conquista revolucionária”. Para o final ficou a “descodificação” de um título que arrasta em si, em toda a plenitude, a ideia de liberdade. “A arte de roubar fruta tem a ver com a posse da terra. Antes do 25 de Abril, a terra era de meia dúzia de pessoas e só essas tinham os seus quintais - muralhados, com aquele vidro a proteger o topo dos muros - com árvores de fruta. O roubar fruta era a apropriação, a afirmação de algo que podia ser de todos.” Dominar o espaço e o silêncio e agir com rapidez fazem parte desta arte de roubar fruta, algo explicado com alguma graça por Francisco Duarte Mangas e exemplificado com um episódio revelador de que a arte de roubar fruta pode revelar-se de inúmeras formas.

quinta-feira, 19 de março de 2026

LIVRO: “Educação da Tristeza” | Valter Hugo Mãe



LIVRO: “Educação da Tristeza”,
de Valter Hugo Mãe
Ed. Porto Editora, Maio de 2025 (reimpresso em Setembro de 2025)


“Tenho saudades do meu pai, mesmo que ele não fosse de conversas. Porque tenho saudades de estarmos todos vivos e juntos e de isto ser a começar e não haver garantia nenhuma, mas também não haver fim. Eu não ia ser nada de nada. Ia trabalhar nas obras a carregar baldes de areia. Pensei nisso mil vezes e quase me afeiçoei à ideia. Julguei que casaria com uma moça que me berraria noite e dia, faríamos os almoços de domingo na casa da sua mãe, escutaria como se haveria de queixar de minha lentidão e alma poética, eu ia viciar-me em cerveja, acabaria por cair da obra, despencando de um quinto andar a ver ao longe o mar, talvez os prédios altos da Póvoa onde a minha alma secaria como roupa num varal para a eternidade. Pouco importa. O tamanho da vida está todo dentro do amor. Se amarmos, somos extensos, infinitos. Se não amarmos, recolhemos como bocadinhos de poeira sem sentido, sem valor.”

Qualquer nova publicação de Valter Hugo Mãe é sempre recebida como um acontecimento literário, mas “Educação da Tristeza” é isso e mais ainda. Trata-se do seu primeiro livro assumidamente de não-ficção e nasce de um duplo golpe pessoal: a morte de um sobrinho adolescente e a perda de uma amiga muito próxima. A partir desse lugar de fractura, o autor desloca-se para um território particularmente íntimo, erguendo um conjunto de textos que oscilam entre o diário, o ensaio e a meditação poética. Não há aqui intriga nem personagens inventadas, apenas e só um homem que tenta compreender o significado de continuar vivo depois da ausência. O título anuncia a matéria do livro e cumpre-a: não se trata de eliminar a tristeza, mas de a aprender, de a domesticar com delicadeza, como quem aceita que o sofrimento é parte integrante da experiência humana. Nesse processo, Valter Hugo Mãe reafirma uma das marcas distintivas da sua escrita, essa qualidade única de extrair beleza dos territórios mais sombrios. Em “Educação da Tristeza”, cada frase parece construída como se fosse um verso, mantendo aquela musicalidade singular que transformou o autor numa das vozes mais reconhecíveis da literatura portuguesa contemporânea.

Se a matéria é autobiográfica, a experiência proposta ao leitor é, paradoxalmente, universal. Ao narrar a sua própria dor, Valter Hugo Mãe convoca também as nossas perdas, aquelas que cada leitor transporta silenciosamente. O luto surge aqui em toda a sua complexidade: tristeza, sim, mas também raiva, culpa, incredulidade, perplexidade perante o modo abrupto como a vida se reorganiza depois da morte de alguém. Há momentos em que o autor escreve como quem conversa com os ausentes, imaginando a morte não como um desaparecimento absoluto, mas como um lugar para onde ainda será possível caminhar. Noutros, insiste na ideia de que quem parte não se dissolve no nada; permanece como excesso de memória, como presença que cresce no interior de quem ficou. A prosa de Valter Hugo Mãe move-se assim entre a contemplação e a esperança, entre o reconhecimento da brevidade da vida e a convicção de que o amor prolonga as pessoas para além da sua existência física. A tristeza, nesse sentido, não é uma derrota, antes uma forma de fidelidade.

O livro confirma, enfim, aquilo que muitos leitores já reconheceram na obra do autor: a rara habilidade de transformar o sofrimento em matéria luminosa. Mesmo quando fala da morte, Valter Hugo Mãe não abdica de um certo espanto diante do milagre quotidiano de estar vivo. Há passagens de grande ternura e até inesperados lampejos de humor, lembrando que a memória, tal como a própria vida, é inevitavelmente contraditória. A edição, cuidada ao pormenor, reforça essa dimensão sensível: as ilustrações do próprio autor e o jogo cromático entre o vermelho e o azul conferem ao livro um aspecto quase objectual, como se de um relicário de afectos se tratasse. No fim, “Educação da Tristeza” não pretende oferecer respostas definitivas para o enigma da perda. Propõe antes um gesto de aprendizagem: aceitar que a tristeza, quando educada pelo amor e pela memória, pode tornar-se uma forma de resistência. E talvez, supremo paradoxo, uma forma de alegria.

quarta-feira, 18 de março de 2026

EXPOSIÇÃO: “Carlos Bunga. Habitar a Contradição” | Carlos Bunga



EXPOSIÇÃO: “Carlos Bunga. Habitar a Contradição”,
de Carlos Bunga
Curadoria | Rui Mateus Amaral
Centro de Arte Moderna Gulbenkian
08 Nov 2025 > 30 Mar 2026


Apresentada na nave e no mezanino do Centro de Arte Moderna Gulbenkian, a exposição Habitar a Contradição, de Carlos Bunga, espalha-se no espaço como um organismo instável. Mais do que ocupar as amplas galerias, parece respirá-las, dobrando a arquitectura e devolvendo-a sob a forma de um território provisório. A grande instalação de cartão que domina a nave - um bosque de colunas cilíndricas erguidas com fita adesiva, tinta e fragilidade - cria uma paisagem simultaneamente sólida e precária, como se o edifício estivesse em permanente ensaio sobre si próprio. O visitante atravessa corredores, desvios e becos que não prometem orientação, mas antes a experiência de um lugar em mutação. É nesse movimento que a obra de Bunga se afirma, não como forma concluída, mas como processo. Herdando algo do espírito experimental que marcou a sua formação nas Caldas da Rainha, o artista transforma a pintura num campo expandido, no qual arquitectura, gesto e corpo convergem. O que outrora foi superfície, é agora espaço habitável; o quadro dissolve-se em ambiente. Assim, a exposição opera como uma espécie de laboratório sensorial onde o acto de construir é também o de questionar - questionar o lugar da arte, a estabilidade das formas e a própria ideia de abrigo.

No centro conceptual da exposição encontra-se a noção de casa, mas esta surge longe de qualquer estabilidade doméstica. Bunga aproxima-se dos objectos do quotidiano - cadeiras, mesas, fragmentos de mobiliário - para os deslocar da sua função e introduzi-los num regime de estranheza. As peças reunidas no átrio do museu sugerem um ambiente doméstico possível, mas incompleto, quase fantasmático. Ali, a ausência pesa tanto quanto a presença: móveis que parecem esperar por corpos que já partiram, superfícies que carregam marcas de uso e de improviso. Esta dimensão incompleta faz eco da própria biografia do artista, marcada pelo deslocamento e pela experiência da habitação precária. Em vez de representar a casa, Bunga propõe uma reflexão sobre o que resta dela quando se perde o território fixo que a sustenta. O lar deixa então de ser um espaço arquitectónico para se tornar numa condição afectiva e imaginária. Ao humanizar o espaço institucional com materiais pobres e vulneráveis, o artista reintroduz uma escala íntima no interior do museu, transformando o visitante em habitante temporário de uma memória partilhada. Há algo de silenciosamente político neste gesto, lembrando que toda a arquitectura, seja ela doméstica ou museológica, é sempre atravessada por histórias de pertença, exclusão e reinvenção.

Essa dimensão autobiográfica torna-se particularmente intensa nas obras dedicadas à figura materna e à infância. Fotografias da mãe do artista, captadas na Lisboa nocturna dos anos oitenta, introduzem na exposição uma presença frontal e desarmante. Nelas, a mulher surge elegante, segura de si, mas também carregando o peso de uma história de migração e sobrevivência. Fugida de Angola em 1975, grávida e com uma filha pequena, chegou a Portugal quase sem recursos, reinventando-se através do trabalho e do corpo. Ao ampliar essas imagens, colocando-as no espaço expositivo, Bunga transforma a memória familiar num gesto de restituição. A mãe deixa de ser apenas personagem privada para se tornar símbolo de resistência contra o racismo, o classismo e a misoginia que marcaram o período pós-colonial. Ao lado dessas imagens, a maquete de Casa n.º 17, construída a partir de uma simples caixa de cereais, funciona como relicário de uma infância precária. A pequena casa, acompanhada por fotografias tiradas antes da sua demolição, preserva um universo doméstico prestes a desaparecer. O que ali se guarda não é apenas um lugar físico, mas a coexistência de contradições: fé e sobrevivência, pobreza e imaginação, fragilidade e persistência.

Entre ruína e construção, memória e transformação, talvez seja essa coexistência que confere à exposição a sua força mais duradoura. Bunga não procura resolver as tensões que convoca, antes prefere habitá-las. As estruturas de cartão, destinadas à transformação e até à destruição pelo próprio artista, recusam a permanência que tradicionalmente associamos aos museus no seu todo. Em determinado momento, o bosque poderá ser cortado, rearranjado ou parcialmente desmoronado, como se a obra quisesse recordar que toda a arquitectura é transitória. Esse gesto aproxima-se de um pensamento ecológico e existencial: tudo cresce, tudo se altera, tudo acaba por regressar ao estado de matéria em circulação. Mas longe de qualquer pessimismo, a exposição propõe antes uma ética da adaptação. O que parece frágil pode revelar-se resistente; o que parece provisório pode tornar-se essencial. Ao convidar o visitante a percorrer este território instável, Carlos Bunga oferece uma metáfora delicada do nosso tempo: um mundo onde identidades, casas e paisagens se deslocam constantemente. Habitar a contradição não surge, assim, como um problema a resolver, mas como uma condição inevitável. E talvez também como a única forma possível de imaginar novas formas de vivermos juntos.

terça-feira, 17 de março de 2026

EXPOSIÇÃO: “Húmus” | Júlio Pomar, Graça Morais, Daniel Moreira, Rita Castro Neves



EXPOSIÇÃO: “Húmus”,
de Júlio Pomar, Graça Morais, Daniel Moreira e Rita Castro Neves
Curadoria | Ana Rito
Atelier-Museu Júlio Pomar
26 Nov 2025 > 05 Abr 2026


Patente até 5 de Abril no Atelier-Museu Júlio Pomar, “Húmus” apresenta-se como um ensaio visual que mergulha na matéria obscura onde vida e morte se entrelaçam. O título convoca o universo de Raul Brandão e de Herberto Hélder, dois autores que, em momentos distintos do século XX, imaginaram a terra como arquivo da morte e simultaneamente como promessa de regeneração. A exposição não procura ilustrar os seus textos, antes trabalha a partir da sua vibração simbólica. Tal como no romance homónimo de Raul Brandão, cujas figuras parecem encerradas numa crosta mineral e suspensas entre o espanto e o absurdo, também aqui as imagens surgem como fragmentos de um mundo em fermentação. Pinturas, desenhos, palavras e objectos acumulam-se como camadas do solo, compondo uma paisagem descontínua onde memória e imaginação se sedimentam. A metáfora do húmus, matéria em decomposição que prepara a fertilidade futura, torna-se, assim, um princípio curatorial: aquilo que desaparece não se extingue, antes alimenta novas formas de vida e de sentido.

No centro deste território simbólico encontram-se as obras de Júlio Pomar e Graça Morais, cuja presença assume um carácter quase embrionário dentro da constelação expositiva. Nos bichos, desenhos e objectos de Pomar percebe-se um impulso primordial, como se cada figura estivesse ainda a emergir do interior da terra. As suas criaturas não são meros motivos figurativos: são presenças inquietas, organismos em formação que parecem carregar consigo o próprio campo de trabalho da imagem. Já em Graça Morais as figuras femininas confundem-se com raízes, galhos, insectos ou fragmentos de paisagem. São corpos híbridos, suspensos entre o humano e o vegetal, entre a terra e a noite. O seu fulgor metamórfico dissolve fronteiras e sugere que a identidade não é fixa, mas atravessada por forças naturais e ancestrais. Em ambos os artistas, a imagem nasce como se fosse matéria viva, algo que germina lentamente no húmus da memória, entre a sombra da morte e a promessa da transformação.

É nesse solo fértil que se inscreve o diálogo com as práticas contemporâneas de Daniel Moreira e Rita Castro Neves. As suas presenças animais, os musgos e objectos que evocam uma paisagem primordial, parecem prolongar a energia matricial sugerida pelas obras de Júlio Pomar e Graça Morais. Não se trata de estabelecer uma genealogia linear, mas antes de activar uma espécie de continuidade subterrânea, como se as imagens circulassem de geração em geração através de um mesmo substrato simbólico. As obras de Daniel Moreira e Rita Castro Neves recuperam esse imaginário orgânico — a terra, o animal, a matéria húmida — e reconfiguram-no num registo contemporâneo que oscila entre a arqueologia e a ficção. O que emerge é uma sensação de ancestralidade activa: a ideia de que o futuro da imagem se alimenta de restos, de resíduos e de fragmentos herdados, como se a criação artística fosse um processo contínuo de decomposição e renascimento.

Organizada como uma montagem de visões, “Húmus” recusa qualquer linearidade narrativa. A exposição constrói-se antes como uma sucessão de estratos, onde cada obra surge como uma parcela de terra na qual realidade e sonho se depositam em camadas instáveis. As palavras de Raul Brandão e Herberto Hélder insinuam-se nas paredes do Atelier-Museu Júlio Pomar como um magma silencioso, enquanto as imagens se aproximam e afastam num jogo de ressonâncias e deslocamentos. O visitante atravessa, assim, um território de metamorfoses ao longo do qual o humano e o não-humano se misturam e confundem, e onde o visível parece sempre prestes a transformar-se numa qualquer outra coisa. Mais do que um conjunto de obras reunidas sob um tema comum, “Húmus” propõe uma experiência sensorial e meditativa sobre a própria condição da imagem: algo que nasce do escuro, cresce entre restos e regressa continuamente ao mundo como clarão breve, mas intensamente vivo.

segunda-feira, 16 de março de 2026

CONCERTO: A garota não: Um concerto acústico



CONCERTO: “A garota não: Um concerto acústico”
Com | A garota não (voz e guitarra), João Mota (guitarra), Sérgio Miendes (guitarra e baixo)
Teatro Nacional de São João
14 Mar 2026 | sab | 16:00



É no coração da peça “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem”, dirigida por Victor Hugo Pontes e actualmente em cena no Teatro Nacional de São João, que vamos encontrar a música de A garota não. Reunida num momento verdadeiramente único, o concerto acústico foi música, mas foi também regresso. Um regresso demorado às palavras de Manuel António Pina, como quem volta mansamente a um lugar que já habitou e onde permanece ainda uma parte de si. Entre silêncios e canções, embalos e muitas confissões, Cátia Mazari Oliveira conduziu o público por um território íntimo onde poesia e melodia se confundiram, como se cada verso estivesse à espera de ser cantado desde o momento em que Pina o escreveu. A artista não interpretou simplesmente poemas, antes escutou-os por dentro e devolveu-os em forma de música, revelando uma rara capacidade de tratar as palavras como matéria viva, frágil e luminosa. Os temas tiveram o condão de abrir espaço para um mundo inteiro, ao qual a infância regressou pé ante pé, as recordações a moverem-se como sombras nas paredes de uma casa desenhada com cuidado e onde a música, como nos versos do próprio Pina, mostrou ter olhos fulgurantes capazes de transformar quem a escuta em canto.

Acompanhada pelos “hermanos salmonetes del Sado”, João Mota na guitarra e Sérgio Miendes na guitarra e baixo, A garota não desenhou um concerto que foi como uma viagem pelo génio irrequieto e sensível de Manuel António Pina, mas também pela originalidade e inventividade da cantora. Nos poemas tornados em canção - de “Amor como em casa” a “Os Gatos”, de “Como se desenha uma casa” a “[4 de Juho de 1965]” -, percebeu-se o milagre raro de duas vozes artísticas que se encontram, sem nunca se terem encontrado fisicamente. Mais do que ilustrar os textos, as ideias, os pensamentos ou as afirmações de Manuel António Pina e daqueles que sobre ele tiveram algo a dizer, A garota não procurou habitá-los. E ao fazê-lo, trouxe para o concerto aquilo que talvez seja o coração secreto da uma obra reconhecidamente viva e livre: a infância, esse lugar frágil e absoluto onde se escondem as primeiras perguntas sobre o mundo. As canções espalharam-se pelo espaço da bonita sala do São João como pequenas chamas acesas na memória de todos, convocando a ternura, a inquietação e a ironia que atravessam a escrita do poeta. O público escutou em silêncio, não um silêncio vazio, mas aquele silêncio atento que nasce quando sentimos que algo essencial está a acontecer diante de nós.

Mas este encontro da cantora com poeta não viveu apenas da memória, da delicadeza e do sonho. Houve nele também uma força crítica a ligar intimamente os dois universos. Quem conhece o percurso artístico de A garota não reconhece a sua música de intervenção, a coragem com que denuncia injustiças e desmonta as pequenas e grandes hipocrisias do nosso quotidiano. E é precisamente aí que a voz de Manuel António Pina ressurge com espantosa actualidade. Nos textos mais mordazes - como os que partem das suas crónicas “A Nação ao Espelho” e “J’accuse”, por exemplo - revela-se o mesmo olhar crítico, a mesma lucidez perante um país onde, tantas vezes, “nem mesmo quando as provas são provas dessas provas, o esperto dança e não cai”. Ao cruzar estas palavras com a sua música, a cantora mostra que a obra do poeta não pertence apenas à memória literária: pertence ao presente, ao debate, à inquietação moral do nosso tempo. No final, o que permanece é a sensação de termos assistido a algo raro: um concerto que foi também um acto de leitura, de escuta e de resgate. E quando a última canção se dissipou no ar, ficou no público um desejo quase físico: o de voltar aos livros do Pina, regressar às palavras do Pina, procurar nelas, outra vez, aquele lugar onde a memória, a infância e a esperança ainda podem encontrar abrigo.

domingo, 15 de março de 2026

CONCERTO: "Retorno" | Mário Laginha



CONCERTO: “Retorno”
Mário Laginha
Auditório de Espinho - Academia
13 Mar 2026 | sex | 21:30


O palco do Auditório de Espinho voltou a acolher um músico que ali regressa com a familiaridade de quem reconhece o lugar e a sua respiração. Mário Laginha apresentou “Retorno”, o seu mais recente trabalho discográfico, assumindo-o como um gesto de reencontro com o piano a solo quase duas décadas depois do lançamento de “Canções e Fugas”. Este não foi, porém, um regresso nostálgico, antes um movimento natural de um artista que, tendo percorrido inúmeros territórios de partilha musical, decide agora regressar a essa solidão criativa que, como o próprio reconhece, nunca lhe foi propriamente estranha. Sentado ao piano, Mário Laginha revelou as suas qualidades de compositor versátil e imaginativo, de executante exímio capaz de transformar cada frase numa pequena narrativa sonora. Num espaço onde afirma sentir-se “uma energia fantástica”, estabeleceu com o instrumento uma simbiose rara, como se cada tecla fosse a extensão imediata do pensamento. O concerto adquiriu, assim, um carácter de íntima revelação, pontuado por um diálogo cúmplice com o público, feito de breves comentários e de um humor discreto, sobretudo ao explicar a origem ou o título de cada peça. Essa leveza, longe de quebrar a intensidade musical, contribuiu para aproximar ainda mais a plateia de um universo sonoro que oscila entre a disciplina da composição e a liberdade do instante.

Entre os vários momentos que desenharam a arquitectura da noite, destacaram-se os dois improvisos que abriram, com fulgor quase inaugural, cada uma das metades do concerto. Neles se percebeu com particular nitidez a filosofia que atravessa “Retorno”: a fascinante possibilidade de se sentar ao piano sem saber exactamente o que virá a seguir. As peças nasceram diante do público com uma vitalidade imediata, como se a música estivesse a descobrir-se a si própria no momento da execução. Esse impulso criativo encontrou eco em temas de grande carácter. “Santo Amaro”, inspirado na pequena localidade costeira da ilha do Pico onde o músico costuma passar férias, revelou um lirismo ondulante, quase marítimo, deixando no ar uma melodia que parecia avançar e recuar como a própria maré. Já “Another Kind of Strike”, “Fogato Baião” e “Batuque” trouxeram para o centro do palco uma energia rítmica contagiante, o pianista a fazer valer um sentido de pulsação que tanto deve ao jazz como às múltiplas geografias musicais que tem atravessado. Ao longo destas peças, a escrita e a improvisação entrelaçaram-se com naturalidade: ora a música pareceu seguir um trilho cuidadosamente delineado, ora se libertou dele com uma espontaneidade luminosa. Nesse equilíbrio instável, mas sempre controlado, residiu grande parte do fascínio do concerto.

A atmosfera mudou de cor em “Retorno”, peça que deu nome ao álbum e que trouxe consigo uma doçura quase contemplativa, como se o pianista abrisse um espaço de recolhimento no meio da exuberância rítmica que atravessou a noite. A interpretação deixou perceber também as influências mais recentes do seu percurso, em particular o diálogo que manteve com o universo do fado através da colaboração com Camané, influência que o próprio reconhece ter deixado entrar, lentamente, na sua linguagem musical. Já no “encore”, Mário Laginha ofereceu ao público “Mãos na Parede”, homenagem delicada a Carlos Paredes, por alturas do centenário do seu nascimento, um gesto de memória que foi acolhido com emoção pelo publico. A fechar o concerto surgiu “Tanto Espaço”, composição originalmente editada no álbum “Espaço”, aqui revisitada num formato depurado que revelou novas transparências na escrita do compositor. Foi um final à altura de uma noite memorável, um concerto onde a técnica, a imaginação, a improvisação e a maturidade artística se fundiram num discurso profundamente humano. Mais do que apresentar um disco, Mário Laginha confirmou aquilo que “Retorno” já deixava adivinhar: que regressar, as mais das vezes, é apenas uma outra forma de seguir em frente.

sábado, 14 de março de 2026

CONCERTO: “O Lado Vazio do Sofá” | Rodrigo Alarcon



CONCERTO: “O Lado Vazio do Sofá”,
Rodrigo Alarcon
Escola de Artes e Ofícios
12 Mar 2026 | qui | 21:30


Na noite desta quinta-feira, o espaço acolhedor da Escola de Artes e Ofícios voltou a abrir as portas a Rodrigo Alarcon, dois anos depois da sua primeira passagem por um palco que parece feito à medida das suas canções. Integrado na digressão que celebra uma década de “O Lado Vazio do Sofá”, o concerto foi como que um reencontro, o regresso a uma casa onde já se foi feliz. Acima de tudo, o momento resultou numa conversa demorada entre cantor e público, daquelas que se fazem com voz sussurrada e de coração aberto. Desde o primeiro instante percebeu-se que a sala estava habitada por ouvintes cúmplices, alguns deles conhecedores atentos da obra do compositor paulista, que acompanharam versos inteiros com a delicadeza de quem sabe que há letras que nasceram para serem cantadas. Entre histórias simples, pequenas confissões e momentos de humor desarmante, Alarcon desenhou a paisagem emocional que faz dele um dos nomes mais singulares da nova geração da música popular brasileira. Simultaneamente frágil e firme, a sua voz foi atravessando a sala em tons delicados e subtis, reacendendo memórias colectivas e mostrando a relação rara de um artista que não apenas canta para quem o escuta, mas parece cantar com quem o escuta.

O alinhamento do concerto desenhou uma verdadeira narrativa sentimental, como se cada canção fosse um capítulo de um romance discreto. Tudo começou com a doçura literária de “Amor Acidente”, o amor como um acontecimento inesperado à volta do qual se junta gente curiosa, a metáfora perfeita para os encontros que mudam tantas vidas. Seguiram-se momentos de despedida e recomeço, como em “O Dia Seguinte”, a rotina doméstica transformada em despedida silenciosa, ou na ternura inquieta de “Frágil Coração”. A narrativa avançou entre feridas abertas e pequenas epifanias: “Onde Mora Deus” transformou um olhar num lugar sagrado, enquanto “Dama da Noite” fez florescer um amor súbito, desses que nascem numa escada e permanecem no peito. Pelo caminho surgiram confissões de erro e saudade — “Você Nunca Prometeu”, “15B” — como páginas arrancadas de um diário íntimo. O concerto tornou-se assim uma viagem pelas geografias do afecto, das paixões repentinas, das despedidas mal resolvidas e das lembranças que regressam sem aviso. O público revelou a sua cumplicidade em cada uma dessas estações emocionais, reconhecendo nas histórias cantadas fragmentos das suas próprias memórias.

O que torna Rodrigo Alarcon tão particular reside justamente nessa capacidade de transformar pequenas fragilidades em poesia quotidiana. As suas canções habitam o território delicado onde o humor, a melancolia e a ternura se encontram sem pedir licença. Em palco, essa escrita ganha corpo através de uma interpretação desarmante: a voz nunca se impõe, antes se oferece, como quem partilha uma confidência. Em momentos como “Menino Amor”, “O Óbvio Sobre o Amor” ou “Passageiro”, percebe-se que o compositor constrói as suas histórias com matéria profundamente humana, feita de dúvidas, saudades e pequenos desastres sentimentais que todos reconhecemos. Há também um cuidado evidente com as composições musicais, nas quais a simplicidade nunca é descuido, antes escolha estética, cada melodia uma clareira a abrir-se para que a palavra respire. Talvez seja essa a chave do seu encanto junto do público: Rodrigo Alarcon escreve como quem observa o mundo pela janela de casa, atento aos gestos mínimos da vida. No final, quando regressou inevitavelmente a “O Lado Vazio do Sofá”, a sala parecia suspensa entre nostalgia e gratidão. E percebeu-se então que certas canções não são apenas de quem as compôs. Elas pertencem, também, àqueles que, numa noite tranquila em Ovar, as quis devolver na emoção da voz.

sexta-feira, 13 de março de 2026

LIVRO: "A Arte de Roubar Fruta" | Francisco Duarte Mangas



LIVRO: “A Arte de Roubar Fruta”,
de Francisco Duarte Mangas
Edição | Carlos da Veiga Ferreira
Ed. Teodolito, Fevereiro de 2026


“Quando me arranjas uma galinhola, Mindo? O nosso acordo acabou, eu pago. Júlio, ó Júlio, quanto te deve o meu amigo? Anda cá, Mindo. Molha a palavra que eu cubro o lance! Nem que eu seja cão! Havemos de fazer desta terra a nossa terra, de gente fraterna, de gente igual. Não há ricos, nem pobres, há cidadãos. Júlio, será que eu falo chinês? Trazes ou não a conta e o vinho do nosso camarada, que tem a coragem de aprender a ler e a escrever depois dos cinquenta anos! Mais à frente, empresto-te o Amor de Perdição, depois sim, depois de o leres falarás como mitrado de Roma.”

Há livros que se nos oferecem como quem abre uma clareira na memória colectiva. A Arte de Roubar Fruta, de Francisco Duarte Mangas, é um desses raros romances onde a História não se limita a ser pano de fundo, respirando, sangrando e gritando no coração das personagens. Desde as primeiras páginas sabemos estar perante um livro sobre a coragem áspera de homens e mulheres que, em terras da raia, resistiram à violência fascista que cobria Portugal e a vizinha Espanha como um manto negro. Em Vilar de Piscos, o assassinato de um lavrador abastado desencadeia uma espiral de violência que conduz ao cerco de Cambedo em 1946, numa acção concertada das polícias de António de Oliveira Salazar e Francisco Franco. É neste território convulso que surgem as figuras inesquecíveis de António Geraldes e Armindo Pega, do Mirinho e do Justiniano, do Jaime e do Adriano, dos tenebrosos Benedito Valverde, Tomás Deslandes e Faustino Cavez. Entre o rumor das serras e o peso das perseguições, atravessam o romance ecos de Rosalía de Castro e do Grande Escritor Camilo Castelo Branco, como se a própria literatura viesse testemunhar que a dignidade humana nunca se rende por completo.

Mas este romance não vive apenas da força da sua matéria histórica. Vive, sobretudo, de uma paixão ardente pelas palavras. Francisco Duarte Mangas escreve como quem lavra a terra com minúcia e desvelo, abrindo sulcos onde germinam vocábulos raros e saborosos - aguazil, intonso, alcaiote, estopim, pardau, acédia, lhaneza, veniaga, côngrua -, palavras que soam a tesouro linguístico resgatado de um baú antigo. Muitas delas dão título a capítulos do livro, como se cada termo fosse uma pequena janela aberta sobre um mundo perdido. Há na escrita um prazer quase táctil, uma alegria em convocar a riqueza esquecida do português. O leitor avança, por vezes, como quem caminha por uma floresta de sons antigos, tropeçando em significados inesperados, redescobrindo o valor de cada palavra, a sua espessura etimológica. Essa exuberância vocabular não é ornamento gratuito. É a própria seiva da narrativa, a prova de que a língua, quando tratada com amor e rigor, pode devolver à literatura a sua mais profunda respiração.

A arquitectura narrativa do romance é, por sua vez, de uma inteligência admirável. As histórias avançam em dois tempos - o pós-guerra de 1946 e o chamado Verão Quente da Revolução - e entrelaçam-se com uma naturalidade que parece milagre de relojoaria literária. Personagens atravessam as décadas como quem cruza uma ponte invisível, e o leitor percebe pouco a pouco que a maldade, como diz Armindo Pega, tem algo de intemporal. A aldeia de S. Bento das Gavieiras torna-se então palco de outro tipo de tensão: o medo dos comunistas, os murmúrios da extrema-direita, a presença subterrânea da violência política. Mangas costura estes fios com uma mestria rara, criando uma urdidura narrativa de grande intensidade dramática, onde episódios de brutalidade convivem com momentos de humor rústico e de um lirismo inesperado. Ler este romance é, em grande medida, aceitar o desafio de acompanhar uma narrativa exigente, cheia de desvios e ecos, mas também profundamente recompensadora. É um livro extraordinário, actual na sua escrita, sábio na sua construção e luminosamente inteligente na forma como se debruça sobre a história recente.

Enfim, impõe-se olhar para o autor. Francisco Duarte Mangas tem construído, ao longo dos anos, uma obra singular e preciosa, onde se inscrevem romances como A Cidade das Livrarias MortasDiário de Link ou O Alfarrabista de Ponta Delgada”, para além de uma obra poética delicada e coerente. Livros onde a inteligência narrativa se alia a uma profunda consciência histórica e a um amor indomável pela língua portuguesa. E, no entanto, como sucede a tantos escritores de mérito, Francisco Duarte Mangas permanece injustamente na sombra do universo literário português, longe da visibilidade que a sua obra amplamente merece. Talvez porque escreve com uma liberdade rara, talvez porque não se rende às modas passageiras. Seja qual fôr a razão, A Arte de Roubar Fruta surge como prova luminosa de um talento maior. Um romance poderoso, de leitura obrigatória, capaz de lembrar aos leitores que a literatura, quando é verdadeira, não apenas conta histórias, mas mostra-se capaz de devolver ao mundo a sua memória, a sua linguagem e a sua dignidade.

quinta-feira, 12 de março de 2026

CINEMA: "Pillion" | Harry Lighton



CINEMA: “Pillion”
Realização | Harry Lighton
Argumento | Harry Lighton
Fotografia | Nick Morris
Montagem | Gareth C. Scales
Interpretação | Harry Melling, Alexander Skarsgård, Douglas Hodge, Lesley Sharp, Jake Shears, Mat Hill, Nick Figgis, Zoe Engerer, Jake Sharp, Jacob Carter, Christina Carty, Zamir Mesiti, Rosie Sheehy, Miranda Bell, Monica Purcell, Anthony Welsh, Kavcic Miha, Ian Wilson
Produção | Lee Groombridge, Ed Guiney, Andrew Lowe, Emma Norton
Reino Unido, Irlanda | 2025 | Comédia, Drama, Romance | 106 Minutos | Maiores de 16 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 19
11 Mar 2026 | qua | 16:05


Estreia na realização de Harry Lighton, “Pillion” parte de uma metáfora simples e eficaz: no léxico motociclista anglófono, o “pillion” é o “pendura”, o passageiro que segue atrás, o corpo que se entrega à condução de outro. É exactamente nesse lugar, simultaneamente de confiança e submissão, que se instala Colin, personagem interpretada por Harry Melling, um fiscal de estacionamento tímido, ainda preso ao conforto doméstico de uma família extraordinariamente liberal. A adaptação do romance “Box Hill”, de Adam Mars-Jones, desloca a narrativa da década de 1970 para o presente, transformando-a numa espécie de comédia romântica desviada. O encontro com Ray, o motociclista lacónico interpretado por Alexander Skarsgård, rompe a monotonia de Colin, introduzindo-o num universo rigidamente codificado, marcado pela disciplina e a dominação, o sadismo e o masoquismo. O que poderia resvalar facilmente para a caricatura ou para a provocação gratuita revela-se, porém, mais subtil: Lighton organiza o filme como um percurso de formação sentimental, no qual o submeter-se não é mera humilhação, antes uma escolha identitária, um gesto deliberado de pertença. Há, nesse movimento, algo de profundamente contemporâneo, um comentário discreto sobre relações afectivas num tempo marcado pela abundância de encontros efémeros e pela persistente dificuldade em lidar com o compromisso.

A dinâmica entre os dois protagonistas constitui o verdadeiro motor dramático do filme. Skarsgård constrói Ray por subtracção: poucas palavras, gestos controlados, uma presença física que impõe autoridade sem necessidade de explicações. O actor utiliza a própria fisionomia — altura, postura, um certo estoicismo escandinavo — para criar uma figura simultaneamente sedutora e emocionalmente opaca. Em contraponto, Melling compõe Colin como um feixe de ansiedade e entusiasmo, alguém que parece descobrir a própria identidade através da entrega ao outro. A tensão entre estas duas energias — a reserva quase mineral de Ray e o fervor quase infantil de Colin — gera momentos de humor inesperado e também uma delicada estranheza emocional. Lighton filma as práticas BDSM sem o “voyeurismo” que frequentemente marca representações do género no cinema “mainstream”. O erotismo surge antes como linguagem relacional, um conjunto de rituais que estruturam intimidade e poder. Ao contrário de obras como “As Cinquenta Sombras de Grey” ou mesmo “A Secretária”, frequentemente criticadas por simplificarem ou apresentarem estas dinâmicas como doentias, “Pillion” procura uma abordagem naturalista, próxima da experiência vivida. O resultado é um retrato que oscila entre a ternura e o desconforto, recusando transformar o fetiche em mero espectáculo.

É precisamente nessa ambiguidade que o filme encontra a sua dimensão mais interessante. “Pillion” não pretende resolver a tensão entre dominação e afecto; pelo contrário, explora a linha incerta que separa consentimento e dependência emocional. Colin encontra na submissão uma inesperada sensação de liberdade - libertação do peso das escolhas, do vazio de uma vida excessivamente protegida -, mas essa descoberta traz consigo uma interrogação inevitável: até que ponto pode um vínculo estruturado pela desigualdade transformar-se numa relação recíproca? Lighton inscreve essa dúvida tanto nas cenas íntimas como nas sequências familiares, onde a preocupação dos pais de Colin revela menos preconceito do que inquietação perante o desequilíbrio afectivo do casal. Ao mesmo tempo, o realizador constrói um microcosmos credível em torno da comunidade de motociclistas “queer” que gravita em torno de Ray, evitando moralismos e sublinhando a diversidade de códigos dentro da própria cultura BDSM. No final, “Pillion” afirma-se menos como provocação erótica do que como um peculiar amadurecimento. A história de um homem que aprende que seguir alguém - ocupar o lugar do passageiro - pode ser apenas o primeiro passo para descobrir onde, e como, quer realmente conduzir a sua própria vida.

quarta-feira, 11 de março de 2026

CONCERTO: “Brightlight” | Avishai Cohen Quinteto



CONCERTO: “Brightlight”
Avishai Cohen Quinteto
Com | Avishai Cohen (contrabaixo), Itay Simhovich (piano), Yonatan Voltzok (trombone), Yuval Drabkin (saxofones), Eviatar Slivnik (bateria)
Casa da Música – Sala Suggia
08 Mar 2026 | dom | 21:00


Numa Casa da Música fervilhante, o regresso de Avishai Cohen ao Porto permitiu ao muito público presente confirmar o estatuto do músico como figura maior do jazz contemporâneo, hoje também associado a um vínculo português, graças ao recente e muito ansiado passaporte do contrabaixista. Longe de um exercício meramente promocional em torno de “Brightlight”, Cohen preferiu tirar partido do momento para desenhar um arco narrativo mais amplo, recuando a discos fundacionais com mais de duas décadas, casos de “Adama”, “Colors” ou “Unity”. O concerto funcionou, assim, menos como apresentação de um novo trabalho e mais como cartografia de um universo autoral em permanente reescrita, onde jazz acústico, tradição mediterrânica, folclore sefardita e discretas filigranas clássicas convivem numa linguagem imediatamente reconhecível. Pontuado por temas recentes, o alinhamento sugeriu um percurso retrospectivo que reafirmou a consistência estética de um músico cuja linha melódica continua a oscilar entre a memória e a reinvenção.

O novo quinteto encarna essa tensão entre continuidade e renovação, materializando a “missão” que o próprio Cohen tem reiterado: dar palco a uma geração emergente sem transformar o grupo num simples laboratório de talentos. A presença de sopros - saxofone e trombone - permitiu adensar o espectro tímbrico e ampliar a paleta expressiva, ora insinuando ecos do “songbook” americano e de uma certa elegância “West Coast”, ora reforçando a pulsação sobre a qual o contrabaixo de Avishai Cohen se instala como eixo harmónico e centro dramático. Em vários momentos, a música aproxima-se de um “jazz de câmara” musculado, feito de uníssonos rigorosos e escrita densa, não raro vivendo apenas do piano, da bateria e do contrabaixo; noutros, o músico abre espaço ao improviso e à deriva colectiva, equilibrando com habilidade o gesto coreografado de um grande auditório, como é o caso da Sala Suggia da Casa da Música, com a espontaneidade quase táctil de um pequeno e intimista clube de jazz.

Se Avishai Cohen foi o “pivot” por quem passou a distribuição do “jogo”, o grande destaque da noite, a mais extraordinária surpresa num tão delicado equilíbrio, foi o muito jovem pianista Itay Simhovich, recém-chegado ao quinteto em substituição de Guy Moskovich e apresentado pelo próprio Cohen como “o mais novo do grupo mas, quiçá, o mais brilhante”. Com pouco mais de vinte anos, Simhovich revela uma maturidade musical impressionante, dominando o espectro de notas com rara naturalidade e evidenciando uma postura de perfeita simbiose com o instrumento, saltitando sobre ele como quem saboreia um momento alegre e desprendido. Seguro nas composições em verdadeira montanha-russa associadas a um programa rico e variado, alternou blocos rítmicos firmes com uma mão direita lírica, por vezes quase clássica. No diálogo constante com o contrabaixo de Cohen, ora espelhando motivos, ora desviando-os com discretas dissonâncias, o pianista foi a prova provada da intuição do líder para descobrir cúmplices e transformar o palco numa plataforma de afirmação de novos talentos.

terça-feira, 10 de março de 2026

CONCERTO: “L’aura e o Espelho” | Coro CásterAntiqua



CONCERTO: “L’aura e o Espelho”
Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Com | Pedro Martins (alaúde e teorba), Ezekiel Martins (alaúde e guitarra barroca)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Centro de Artes de Ovar
08 Mar 2026 | dom | 16:00


Tal como sucedera com a primeira edição, coube ao Coro CásterAntíqua a responsabilidade de encerrar o Festival de Música Antiga de Ovar, confiando ao momento derradeiro um gesto artístico que foi também um gesto de comunidade. Num programa concebido para assinalar o Dia Internacional da Mulher, vinte e sete vozes reuniram-se em torno de uma ideia tão simples quanto poderosa: cantar o universo feminino através da memória poética do Renascimento europeu. A dramaturgia partiu da figura platónica de Laura, esse nome que em si contém o sopro do amor e da alma - “l’aura”, na língua italiana -, para atravessar séculos de pensamento, poesia e música. Dos madrigais de Maddalena Casulana, “O notte, o ciel” e “Ben venga il pastor mio”, às leituras de poemas ou textos de Joana da Gama, Madre Brígida, Camões e Pessoa, aquilo que se pôde ver e sentir foi uma tessitura delicada onde a palavra e o som se corresponderam mutuamente. Em palco, os instrumentistas Pedro Martins e Ezekiel Martins sustentaram e ampliaram esse universo sonoro, acompanhando o coro e dando vida a interlúdios da própria Casulana, de Alfonso Ferrabosco e autores anónimos, como pequenas clareiras no interior de uma floresta de gestos e vozes. Construído como um percurso simbólico, o espectáculo afirmou-se na ideia de travessia interior onde a voz humana procurou, na herança renascentista, uma forma de dizer o eterno mistério do feminino.

Mas o que de mais belo teve este concerto foi, muito justamente, aquilo que o torna singular: o seu carácter profundamente comunitário. O CásterAntíqua é um coro que nasce da própria cidade, feito de pessoas que pertencem ao tecido vivo de Ovar e que, em muitos casos, se aproximam dele sem que a música tenha sido antes uma prática formal. Aqui, o canto é acima de tudo um espaço de encontro e de descoberta, uma experiência partilhada onde o entusiasmo substitui a especialização e o compromisso nasce da vontade comum de construir algo incomum e muito belo. Os ensaios começaram no início de Janeiro, numa sucessão de momentos dedicados à paciente arquitectura do som, e logo se percebeu que o desafio era gerador de uma onda de entusiasmo contagiante. Quando finalmente subiram ao palco do Centro de Artes de Ovar, os coralistas trouxeram consigo, não apenas as partituras, mas um sentido profundo de responsabilidade colectiva, como se cada voz se soubesse parte indispensável de um organismo grande e vivo. Sob a direcção musical de Jorge Luís Castro, que concebeu também o dispositivo cénico do espectáculo, o concerto ganhou uma dimensão visual subtil: um jogo de luzes e sombras, discretos elementos de dramaturgia, delicados quadros vivos e uma cuidadosa sonoplastia vocal ampliaram o gesto musical sem jamais o sobrecarregar. E, assim, o espectáculo atravessou simbolicamente a noite escura e fria para alcançar, pouco a pouco, a promessa de um dia luminoso.

No final, permaneceu a sensação de que este momento disse algo importante sobre a própria vida cultural do Município de Ovar. O CásterAntíqua vai-se afirmando, passo a passo, como uma presença identitária no panorama artístico da cidade, à semelhança de outras marcas culturais que o tempo consolidou. Há nisso o trabalho silencioso e persistente de uma organização firme e dedicada — liderada por Hélder Sousa e João Francisco Távora — que, com rara generosidade, soube providenciar os meios e o cuidado necessários para que esta segunda edição do Festival se cumprisse de forma rigorosa, privilegiando a necessária serenidade e hospitalidade que a todos envolveu. Mas há também, inevitavelmente, uma dimensão mais íntima neste testemunho. Escreve-o alguém que escuta a música com a devoção do melómano e que, ao mesmo tempo, partilhou o palco como elemento deste coro tão particular. Talvez por isso seja difícil encontrar a distância que uma verdadeira imparcialidade exigiria. Ainda assim, há experiências que pedem para ser fixadas em palavras, não como crítica, mas como gratidão. E este concerto, nascido da voz de uma comunidade, foi precisamente uma dessas raras ocasiões em que a arte pareceu lembrar-nos que cantar juntos continua a ser uma das formas mais belas, justas, humanas e livres de buscar a Luz.

segunda-feira, 9 de março de 2026

CONCERTO: “Bach e o seu legado: Sonatas para traverso” | Duo Suzanne



CONCERTO: “Bach e o seu legado: Sonatas para traverso”
Duo Suzanne
Com | Teresa Costa (traverso), Katerina Orfanoudaki (cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
07 Mar 2026 | sab | 16:00


O acolhedor espaço do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, cujos aposentos guardam murmúrios literários de um tempo outro, foi palco de um itinerário sonoro que teve como centro gravitacional o mestre supremo do barroco tardio e do contraponto: Johann Sebastian Bach. Em torno do seu génio nasceu e cresceu uma constelação de discípulos e herdeiros que prolongaram a sua linguagem, como se cada um transportasse consigo um fragmento da sua arquitectura musical. Assim aconteceu com Johann Gottfried Müthel, último aluno directo do mestre de Leipzig, cuja escrita permite entrever um horizonte sensível, quase pré-clássico, de uma expressividade capaz de se expandir para além da disciplina contrapontística. Também Johann Philipp Kirnberger, teórico e fiel guardião da tradição bachiana, dedicou a sua vida a sistematizar e preservar o legado do mestre, como quem recolhe num tratado aquilo que primeiro aprendeu pela escuta e pela prática. Entre estes ecos ergue-se ainda a figura singular de Anna Amalie von Preußen, princesa, mecenas e compositora, cuja formação se fez igualmente sob a sombra tutelar de Bach e dos seus discípulos.

Ao encontro deste leque restrito de compositores, o programa apresentado pelo Duo Suzanne, neste que foi o penúltimo concerto da segunda edição do CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar, desenhou uma pequena genealogia sonora, com quatro Sonatas que, como ramos de uma mesma árvore, revelaram a persistência de uma linguagem musical capaz de atravessar gerações, transformando-se sem jamais perder a sua raiz. O concerto foi o culminar de uma residência artística promovida no âmbito do festival, iniciativa que funciona como uma verdadeira marca distintiva ao abrir espaço a jovens formações emergentes através de uma “open call” internacional. Seleccionado entre treze candidaturas, o Duo Suzanne encontrou neste contexto o lugar para amadurecer um programa original, ao mesmo tempo que recebia mentoria de músicos ligados ao festival. O resultado foi o que se ouviu: quatro peças musicais servidas com rigor, imaginação e frescura, atentamente escutadas por um público numeroso que, na intimidade do Museu, soube beber cada compasso com a devoção silenciosa de quem reconhece que a música antiga continua, afinal, intensamente viva.

Ao longo de quase uma hora, o traverso de Teresa Costa desenhou linhas de respiração clara e flexível, deixando cada frase nascer com naturalidade quase orgânica, enquanto o cravo de Katerina Orfanoudaki sustentou e iluminou o discurso com uma elegância rítmica e harmónica de grande delicadeza. Entre ambas estabeleceu-se um diálogo atento, feito de escuta e confiança, o timbre aveludado do traverso entrelaçado na cintilação articulada do cravo. Na cumplicidade musical entre ambas residiu mais do que uma afinidade interpretativa, percebendo-se uma homenagem silenciosa a Suzanne - musa inspiradora que dá nome ao agrupamento - e a tantas outras mulheres cuja voz foi historicamente obscurecida ou apagada. “Suzanne” convoca a memória de Susana, personagem do Livro de Daniel cuja história atravessou séculos de produção artística. A narrativa inspirou músicos e pintores, como na intensa representação de Artemisia Gentileschi, cuja versão de 1610 fixa no olhar de Susana uma angústia que atravessa o tempo. Não é difícil reconhecer, nesse gesto artístico, uma afirmação de resistência feminina contra a violência e a injustiça. Também o Duo Suzanne pareceu dialogar com essa herança simbólica, oferecendo aos presentes um momento musical encantador e legando-lhes uma centelha de esperança num mundo mais justo e melhor.