LIVRO; “É a Ales”,
de Jon Fosse
Título original | “Der et Ales” (© 2023, mareverlag, Hamburgo, @ 2023, Jon Fosse)
Tradução | Pedro Porto Fernandes
Ed. Cavalo de Ferro, Maio de 2024
“ (...) ela pega na vara e vai até à fogueira e depois põe-se a passar a vara com a cabeça de ovelha sobre as chamas e, enquanto o rapaz esperneia ao colo dela, ela passa a cabeça de ovelha para a frente e para trás sobre as chamas, mas a lã pega fogo, as labaredas crescem e um cheiro forte a queimado espalha-se no ar e ela mergulha a cabeça de ovelha na água do mar e depois volta a passá-la para a frente e para trás sobre as chamas, e outra vez o cheiro a queimado, e volta a passar a cabeça de ovelha sobre as chamas, para a frente e para trás, para a frente e para trás. É a Ales, pensa ele, e ele vê, ele sabe. É a Ales. É a Ales, pensa ele, é a sua trisavó, ele sabe.”
Em “É a Ales”, a escrita minimalista, intensa, poética e hipnótica do Nobel norueguês, Jon Fosse, volta a impôr-se. Nele, constrói o autor uma narrativa breve na extensão, mas de enorme densidade emocional. Publicado em 2024, o romance acompanha Signe, uma mulher idosa que permanece na Casa Velha, junto ao fiorde, vinte e três anos depois do desaparecimento do marido, Asle, levado pelo mar num dia de tempestade. A partir de um ponto imóvel - Signe junto à janela, olhando para uma paisagem que parece imutável - Jon Fosse abre uma sucessão de tempos, vozes e memórias que atravessam cinco gerações de uma mesma família. O passado é uma recordação desorganizada que irrompe no presente, confundindo personagens, acontecimentos e perspectivas. A história remonta a Ales, antepassada de Signe, a Kristoffer e Brita, e aos filhos Asle e Olav, até chegar ao pequeno Asle, morto por afogamento no dia do seu sétimo aniversário, em 1897. Décadas mais tarde, o adulto Asle terá um destino semelhante. Entre as duas tragédias, a família parece condenada a repetir uma dor que o tempo não consegue apagar. A casa, o mar, a praia, a montanha e o pequeno barco tornam-se espaços de uma memória colectiva, enquanto Signe, sozinha, revive acontecimentos que pertencem simultaneamente à sua experiência e à dos que a antecederam.
A singularidade do romance está, sobretudo, na forma como Jon Fosse transforma o fluxo da consciência em matéria narrativa. Não há capítulos ou divisões convencionais, nem uma progressão cronológica que conduza o leitor de um acontecimento ao seguinte. As vozes sobrepõem-se, as perspectivas mudam sem aviso prévio e presente e passado convivem na mesma frase, como se o pensamento recusasse a linearidade própria da escrita. A repetição de palavras, expressões e imagens funciona como um ostinato musical, conduzindo o leitor através dessa corrente interior e criando um ritmo hipnótico. O silêncio desempenha, por sua vez, um papel tão importante como a fala: entre Asle e Signe, aquilo que não é dito revela tanto ou mais do que as palavras que trocam. A solidão, o amor, a perda, a maternidade frustrada, a espera e a impossibilidade de escapar ao passado vão emergindo de pensamentos que parecem atravessar-se uns aos outros. É essa aparente desordem que permite a Fosse aproximar-se da verdade emocional das personagens. Signe não se limita a recordar a jovem que foi ou o marido que perdeu; vê-se a si própria no passado e, através dessa imagem, vê também os mortos, os antepassados e as tragédias que moldaram a família.
No centro desta teia narrativa encontram-se dois grandes símbolos: o fogo e o fiorde. A fogueira que Ales acende junto à praia, o fogo doméstico e a fogueira que marca a memória da família representam simultaneamente abrigo, destruição e transformação. É olhando para as chamas que a realidade parece desvanecer-se e dar lugar às imagens interiores que unem vivos e mortos. O fogo mantém viva a lembrança das tragédias, mas também oferece uma espécie de purificação, como se o sofrimento pudesse finalmente ser consumido. O fiorde assume uma função simultaneamente inversa e complementar: é fonte de vida e ameaça permanente, espaço de trabalho dos pescadores e lugar de morte. Foi o mar que levou duas vidas da família e, em ambas as tragédias, as frágeis embarcações permaneceram como testemunhas silenciosas do que aconteceu. A força da Natureza confronta-se, deste modo, com a fragilidade humana e com a persistência do afecto. No fim, a narrativa revela uma família de pescadores marcada pela perda, mas também pelo amor e pela esperança, numa espécie de ciclo que só poderá ser interrompido quando a memória deixar de exigir a repetição da dor. “É a Ales” confirma, assim, a singularidade da escrita de Jon Fosse, aparentemente simples e formalmente desconcertante, capaz de transformar silêncio, repetição e consciência num território literário que rejeita a linearidade do tempo e faz da memória uma forma de existência.