“Tenho saudades do meu pai, mesmo que ele não fosse de conversas. Porque tenho saudades de estarmos todos vivos e juntos e de isto ser a começar e não haver garantia nenhuma, mas também não haver fim. Eu não ia ser nada de nada. Ia trabalhar nas obras a carregar baldes de areia. Pensei nisso mil vezes e quase me afeiçoei à ideia. Julguei que casaria com uma moça que me berraria noite e dia, faríamos os almoços de domingo na casa da sua mãe, escutaria como se haveria de queixar de minha lentidão e alma poética, eu ia viciar-me em cerveja, acabaria por cair da obra, despencando de um quinto andar a ver ao longe o mar, talvez os prédios altos da Póvoa onde a minha alma secaria como roupa num varal para a eternidade. Pouco importa. O tamanho da vida está todo dentro do amor. Se amarmos, somos extensos, infinitos. Se não amarmos, recolhemos como bocadinhos de poeira sem sentido, sem valor.”
Qualquer nova publicação de Valter Hugo Mãe é sempre recebida como um acontecimento literário, mas “Educação da Tristeza” é isso e mais ainda. Trata-se do seu primeiro livro assumidamente de não-ficção e nasce de um duplo golpe pessoal: a morte de um sobrinho adolescente e a perda de uma amiga muito próxima. A partir desse lugar de fractura, o autor desloca-se para um território particularmente íntimo, erguendo um conjunto de textos que oscilam entre o diário, o ensaio e a meditação poética. Não há aqui intriga nem personagens inventadas, apenas e só um homem que tenta compreender o significado de continuar vivo depois da ausência. O título anuncia a matéria do livro e cumpre-a: não se trata de eliminar a tristeza, mas de a aprender, de a domesticar com delicadeza, como quem aceita que o sofrimento é parte integrante da experiência humana. Nesse processo, Valter Hugo Mãe reafirma uma das marcas distintivas da sua escrita, essa qualidade única de extrair beleza dos territórios mais sombrios. Em “Educação da Tristeza”, cada frase parece construída como se fosse um verso, mantendo aquela musicalidade singular que transformou o autor numa das vozes mais reconhecíveis da literatura portuguesa contemporânea.
Se a matéria é autobiográfica, a experiência proposta ao leitor é, paradoxalmente, universal. Ao narrar a sua própria dor, Valter Hugo Mãe convoca também as nossas perdas, aquelas que cada leitor transporta silenciosamente. O luto surge aqui em toda a sua complexidade: tristeza, sim, mas também raiva, culpa, incredulidade, perplexidade perante o modo abrupto como a vida se reorganiza depois da morte de alguém. Há momentos em que o autor escreve como quem conversa com os ausentes, imaginando a morte não como um desaparecimento absoluto, mas como um lugar para onde ainda será possível caminhar. Noutros, insiste na ideia de que quem parte não se dissolve no nada; permanece como excesso de memória, como presença que cresce no interior de quem ficou. A prosa de Valter Hugo Mãe move-se assim entre a contemplação e a esperança, entre o reconhecimento da brevidade da vida e a convicção de que o amor prolonga as pessoas para além da sua existência física. A tristeza, nesse sentido, não é uma derrota, antes uma forma de fidelidade.
O livro confirma, enfim, aquilo que muitos leitores já reconheceram na obra do autor: a rara habilidade de transformar o sofrimento em matéria luminosa. Mesmo quando fala da morte, Valter Hugo Mãe não abdica de um certo espanto diante do milagre quotidiano de estar vivo. Há passagens de grande ternura e até inesperados lampejos de humor, lembrando que a memória, tal como a própria vida, é inevitavelmente contraditória. A edição, cuidada ao pormenor, reforça essa dimensão sensível: as ilustrações do próprio autor e o jogo cromático entre o vermelho e o azul conferem ao livro um aspecto quase objectual, como se de um relicário de afectos se tratasse. No fim, “Educação da Tristeza” não pretende oferecer respostas definitivas para o enigma da perda. Propõe antes um gesto de aprendizagem: aceitar que a tristeza, quando educada pelo amor e pela memória, pode tornar-se uma forma de resistência. E talvez, supremo paradoxo, uma forma de alegria.