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sábado, 30 de maio de 2026

LIVRO: “A Chuva Que Lança a Areia do Saara” | Ana Margarida de Carvalho



LIVRO: “A Chuva Que Lança a Areia do Saara (Variações Sobre a Exaustão)”,
de Ana Margarida de Carvalho
Edição | Sofia Fraga
Ed. Companhia das Letras, Setembro de 2025


“ (…) um padre ávido de milagres, uma mulher velha com arroubos de paixão, um cobarde violador, uma casa-farol, uma intervenção angélica forjada, um lobo que nunca existiu, um cão que abandonou o dono, um rio contrariado, uma queda-d'água desviada, uma floresta reduzida a pó e lamas, uma obra desmedida feita de exaustão e ossos quebrados, e um burlão de meia-idade, abastado e caprichoso, com um apelido falso formado por aglutinação. E, no meio disto, um marido que entrou na aldeia com as quatro pernas no chão e regressou com uma e meia, mais rude, menos sapiente das coisas dos livros, mais letrado nas coisas da existência.”

Que extraordinário livro este, que nos convida a mergulhar no ambiente insano de uma imensa pedreira, tateando no meio da poeira que o vento espalha, das vozes truncadas, das imagens abruptas, dos homens e mulheres em permanente mutação. Há na escrita de Ana Margarida de Carvalho um movimento torrencial, uma escrita que leva tudo à sua frente, que abre fendas, suspende frases e as deixa tombar no branco da página como pedras arrancadas à montanha. “Como se a terra corresse inteirinha atrás de mim”. Essa dimensão telúrica corresponde à própria condição humana que o romance perscruta, de falhas feita, de interrupções, de equívocos e feridas jamais cicatrizadas. Tal como em “Não Se Pode Morar nos Olhos de um Gato”, o romance abriga um microcosmos que é espelho cruel da Humanidade: homens esmagados pelo trabalho, mulheres consumidas pelo desejo ou pela perda, corpos amputados, animais exaustos, rios desviados, florestas reduzidas a lama. Tudo vibra numa espécie de cosmogonia trágica onde natureza e homem se confundem, ora em harmonia primitiva, ora numa guerra sem quartel.

Num tempo dominado pelo imediatismo e pela indigência verbal, é uma felicidade depararmo-nos com uma escrita assim. Ana Margarida de Carvalho escreve contra a corrente, contra o facilitismo, contra a pobreza imaginativa do presente. Desenhadas numa arquitectura narrativa de assombrosa complexidade, as personagens são de uma espessura prodigiosa. Nenhuma surge de forma acessória; todas carregam consigo um mundo inteiro de contradições, de memórias, de humilhações e de fantasmas. “É só inquietação, inquietação”. A autora escreve como quem modela um pedaço de barro cru. Camada após camada, as suas personagens são escavadas até que delas brote qualquer coisa de intrinsecamente verdadeiro. Firmino, sobretudo, é uma dessas figuras. Simultaneamente bode expiatório, criatura grotesca e comovedora, alvo da brutalidade alheia e da piedade materna, ele concentra em si a dimensão mais funda do romance, a do humano reduzido à sua vulnerabilidade essencial. A passagem em que a mãe o lava, lhe sopra “a areia dos olhos e dos ouvidos” e lhe suporta o fedor com infinita compaixão, possui uma força quase bíblica, como se a ternura pudesse ainda sobreviver no meio da degradação mais absoluta.

O mesmo sucede com Bartolomeu, cujos olhos “de útero vegetal” carregam “algas e húmus, vestígios mortos de amor pela vida”. O extraordinário diálogo em torno da palavra “escrúpulo” - essa pedrinha cravada na sandália dos legionários - vale por um tratado sobre moral e consciência: “Os poderosos não têm escrúpulos”, diz Ana Margarida de Carvalho, deixando no leitor uma sensação rara de assombro e gratidão. Raramente a literatura portuguesa contemporânea encontrou metáforas tão inesperadas e fecundas para descrever o desejo, a melancolia e a erosão do tempo. Pelo meio, multiplicam-se referências veladas à poesia, à música e à tradição oral, pequenas cintilações intertextuais que recompensam o leitor atento. “Eu não meti o barco ao mar para ficar pelo caminho”, saborosa piscadela de olho ao romance inaugural “Que Importa a Fúria do Mar”, ecoa como memória subterrânea de um cancioneiro colectivo, ampliando ainda mais a dimensão mítica do romance.

Mas o que verdadeiramente deslumbra é a imaginação delirante da autora, essa capacidade única de fundir o sublime e o grotesco, o épico e o abjecto, a beleza luminosa e a fealdade extrema. Em “A Chuva Que Lança a Areia do Saara” há frases que parecem transportadas pelo fragor das torrentes, impregnadas de maresia, de pólvora, de suor, de sangue e de terra revolvida. Lírica ou brutal, a linguagem move-se como um organismo vivo, por vezes próxima de um poema em prosa, noutras de uma espécie de canto telúrico saído das entranhas da terra. “Se do Império os mortos vais contar, são tantas as parcelas para somar”. É um verdadeiro milagre a forma como a autora consegue transformar uma pedreira num palco metafísico onde se discutem poder, culpa, escrúpulo, exploração, amor e transcendência. É impossível não reconhecer, nesta escrita excessiva, expressiva, exigente, uma voz inteligente e extraordinariamente talentosa. Se há justiça neste mundo, então não parecerá desmedido afirmar que Ana Margarida de Carvalho poderá um dia vir a ser muito justamente considerada entre os nomes maiores da literatura universal.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Tentos de Luz” | Tadeu Vilani



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Tentos de Luz”,
de Tadeu Vilani
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Casa da Cultura de Avintes
08 > 31 Mai 2026


Numa altura em que a presente edição do iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes se aproxima do fim, mergulhamos com Tadeu Vilani na vastidão da pampa sul-americana, espaço onde o homem mede diariamente a sua resistência contra a dureza da terra, do clima e do trabalho. Em “Tentos de Luz”, os animais e o território não são apenas elementos económico ou paisagísticos, mas centro gravitacional de uma cultura construída sobre a disciplina e a sobrevivência colectiva. Há nestas fotografias uma tensão constante entre a brutalidade das lides dos animais e a dimensão quase irreal da paisagem: horizontes intermináveis, poeiras suspensas, corpos moldados pelo vento e pela fadiga. O preto e branco saturado intensifica esse confronto, transformando cada cena num território emocional denso, rostos e gestos rasgados pela luz como que reveladores de uma memória ancestral. Tadeu Vilani aproxima-se dos trabalhadores rurais e olha-os de uma forma simultaneamente documental e profundamente humana, recusando o exotismo fácil para fixar a dignidade silenciosa de quem vive em permanente relação de dependência com a terra e os animais.

Mais do que um levantamento etnográfico, “Tentos de Luz” oferece um retrato social da comunidade gaúcha e da sua persistência histórica no Cone Sul. As fotografias evidenciam o carácter comunitário do trabalho rural, homens, mulheres e crianças envolvidos numa dinâmica marcada pela transmissão de saberes, pela solidariedade e por uma resistência física quase ritualizada. A criação de gado implica um quotidiano de enorme exigência corporal, atravessado por jornadas longas, intempéries e risco permanente. O fotógrafo encontra nesses contextos uma dimensão de pertença e de identidade que ultrapassa a mera dureza laboral. Os rituais ligados às cavalgadas, às marcações do gado, aos encontros familiares e às celebrações populares revelam uma cultura onde o esforço se mistura com o orgulho e a memória. As festas populares, os olhares cerrados, as mãos endurecidas e os corpos em movimento compõem uma narrativa visual sobre a continuidade de uma forma de vida ameaçada pelas transformações sociais e pela modernização agrícola. Em cada imagem, percebe-se o esforço em preservar não apenas uma actividade económica, mas um universo simbólico inteiro.

A força de “Tentos de Luz” reside igualmente na impressionante precisão técnica de Tadeu Vilani, capaz de transformar momentos de extrema imprevisibilidade em composições de grande rigor formal. O fotógrafo trabalha no limite físico da acção, aproximando-se perigosamente dos cavalos, dos rebanhos e da violência dos movimentos, num exercício onde o sangue-frio e a experiência são determinantes. Há imagens em que a poeira parece engolir a cena e outras em que a luz explode sobre os corpos, criando atmosferas verdadeiramente irreais. Esse domínio absoluto do instante serve a espectacularidade visual, mas sobretudo a intensidade humana das fotografias. Vilani conhece profundamente o território que documenta e essa intimidade permite-lhe captar, com extremo realismo, a concentração de um cavaleiro, o cansaço depois da lide, o silêncio antes da celebração. O resultado é uma obra de enorme densidade emocional e estética, capaz de afirmar a fotografia documental como instrumento de memória, resistência e reconhecimento cultural. Em Avintes, “Tentos de Luz” constitui uma reflexão poderosa sobre a identidade e a permanência humana perante a vastidão do mundo.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ilha” | Júlio García Martinez



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ilha”,
de Júlio García Martinez
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Plebeus Avintenses
08 > 31 Mai 2026


Exposição do fotógrafo cubano Júlio García Martinez, “Ilha” impõe-se ao visitante como um território de sombras, silêncio e inquietação. Os tons escuros dominam as composições e traduzem emocionalmente um país suspenso entre a resistência e a asfixia. Percebe-se uma densidade opressiva em cada enquadramento, uma espécie de névoa moral que paira sobre os corpos fotografados. Não há complacência no olhar do autor, nem qualquer tentativa de romantizar a condição insular cubana. Pelo contrário, as imagens parecem erguer-se de um quotidiano esmagado pela escassez, pelo desgaste material e por uma raiva contida que atravessa rostos, paredes e gestos. Júlio García Martinez aproxima-se das pessoas sem as invadir, mas deixa sempre visível a tensão que as acompanha. Os seus retratos não procuram heróis nem vítimas absolutas; mostram antes indivíduos cercados por circunstâncias históricas e económicas que os ultrapassam, marcados por uma apreensão silenciosa que parece abrigar-se nos seus genes. O embargo a Cuba torna-se então presença concreta, infiltrada na precariedade das casas, na pobreza dos objectos e na expressão determinada dos habitantes.

Ao longo da exposição, percebe-se que “Ilha” não é apenas um trabalho documental sobre Cuba, mas também uma reflexão profunda sobre isolamento, clausura e sobrevivência. Tantas vezes romantizada pela literatura, a insularidade surge nestas fotografias como condição de confinamento. O mar, tradicional metáfora de liberdade, converte-se num limite invisível que encerra os sujeitos dentro de um destino difícil de romper. Júlio García Martinez trabalha esta ideia com notável destreza, conferindo aos cenários e às figuras humanas uma constante sensação de estranheza, como se tudo estivesse ligeiramente deslocado do real, suspenso numa espécie de tempo imóvel. Presas entre a memória revolucionária e a erosão do presente, as personagens que habitam estas imagens parecem carregar o peso de uma espera interminável. Essa estranheza torna-se particularmente perturbadora, porque real. O fotógrafo captura olhares desconfiados, interiores exíguos, corpos cansados e paisagens urbanas deterioradas com uma frontalidade austera, recusando qualquer exotismo fácil. O resultado é um conjunto de imagens profundamente humanas, mas também politicamente eloquentes, capazes de expor as fracturas sociais e emocionais de um país submetido, há décadas, a sucessivas formas de privação.

O mérito maior de “Ilha” reside precisamente nessa capacidade de transformar a fotografia documental num exercício de memória e consciência crítica. Júlio García Martinez demonstra um domínio rigoroso da composição e da luz, mas nunca permite que o virtuosismo técnico obscureça a dimensão ética do seu trabalho. Cada fotografia parece construída a partir de uma relação de proximidade e escuta, como se o autor procurasse preservar não apenas a imagem dos seus retratados, mas a dignidade frágil das suas existências. Há uma honestidade crua no modo como observa Cuba nos dias de hoje, sem sentimentalismos, sem concessões ideológicas. O artista entende que documentar é também testemunhar, o que implica revelar aquilo que muitas vezes permanece na sombra: o desgaste lento da pobreza, o impacto silencioso do embargo, a solidão dos que vivem encurralados numa geografia e numa História difíceis. Mais do que uma exposição de fotografia, “Ilha” é uma experiência emocional que confronta o visitante com vidas marcadas pela luta e pela resistência. Nos dias que correm, o trabalho de Júlio García Martinez devolve à fotografia o poder de olhar demoradamente o mundo e obrigar-nos, também a nós, a não desviar os olhos.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “No Sul da Macaronésia” | Ana Roque de Oliveira



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “No Sul da Macaronésia”,
de Ana Roque de Oliveira
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Bombeiros Voluntários de Avintes
08 > 31 Mai 2026


Voltamos a olhar a 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, virando a nossa atenção para a exposição “No Sul da Macaronésia”, conjunto de imagens que exalta a espessura humana dos lugares. Da autoria de Ana Roque de Oliveira, as fotografias mostram a realidade do quotidiano de São Vicente e Santo Antão, duas ilhas vizinhas do Barlavento cabo-verdiano, marcadas pela tensão permanente entre a aridez mineral e a abundância inesperada dos vales húmidos, entre o bulício urbano do Mindelo e o gemido do vento que desce as encostas agrícolas em socalcos até ao mar. Com enorme sensibilidade, a fotógrafa mergulha numa geografia emocional que ultrapassa o mero registo documental, aproximando-se das gentes sem alarde nem pressas e permitindo que cada rosto conserve a sua dignidade e o seu segredo. As ruas poeirentas, os bairros improvisados, os mercados, os pescadores e as festas populares surgem iluminados por uma enorme atenção ao detalhe quotidiano. Percebe-se, então, que mostrar Cabo Verde não é o objectivo da autora, antes compreender como a vida resiste e floresce em territórios moldados pela diáspora, pela escassez e por uma memória atlântica profundamente mestiça.

A trajectória de Ana Roque de Oliveira ajuda a compreender a singularidade deste olhar. Engenheira do Ambiente de formação, habituada a ler o território através das suas fragilidades e equilibrios invisíveis, a fotógrafa aproxima-se das comunidades com uma espécie de escuta silenciosa. Diz-se aprendiz de fotógrafa, mas essa declaração parece menos um gesto de modéstia do que uma forma de reconhecer que os lugares nunca se deixam apreender por inteiro. Em Moçambique, criou “Os Dias em Tete”, projecto onde já se tornava evidente uma atenção particular às relações humanas e aos ritmos sociais inscritos na paisagem. Em Cabo Verde, essa linguagem amadurece e ganha uma fluidez muito própria. Há imagens que parecem quase pintadas, não apenas pelo uso subtil da cor, mas pela maneira como a luz atravessa os corpos, os tecidos e a arquitectura improvisada. Seduzem os enquadramentos, por vezes rigorosos, por vezes deliberadamente instáveis, mas sobretudo a confiança perceptível entre quem fotografa e quem é fotografado. Os retratados não parecem observados do exterior, porquanto devolvem o olhar, habitam-no, participam activamente na construção da imagem.

O resultado é uma narrativa visual onde cada enquadramento parece conter simultaneamente intimidade e distância, pertença e descoberta. Num tempo saturado de imagens rápidas e descartáveis, “No Sul da Macaronésia” é um exercício de proximidade, um convite à desaceleração do olhar, propondo uma leitura afectiva das ilhas, longe dos clichés turísticos que tantas vezes reduzem Cabo Verde a paisagem de bilhete postal ou destino de evasão. As fotografias revelam um arquipélago vivido por dentro: mulheres que transportam água, crianças suspensas entre o jogo e a observação, homens marcados pelo trabalho do mar e da terra, músicos, vendedores ambulantes, rostos anónimos atravessados pela luz atlântica. Entre São Vicente e Santo Antão existe uma cumplicidade histórica feita de circulação constante, de laços familiares e sobrevivência partilhada, e essa relação atravessa subtilmente toda a exposição. Ana Roque de Oliveira não procura evocar as carências nem estetizar a dura vida insular. O seu gesto é mais delicado ao reconhecer humanidade, complexidade e beleza onde tantas vezes apenas se projectam estereótipos. Ao visitante resta a sensação de ter atravessado não apenas duas ilhas, mas uma experiência profundamente humana do viver insular.

terça-feira, 26 de maio de 2026

DANÇA: “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer” | Victor Hugo Pontes



DANÇA: “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Cenografia | F. Ribeiro
Direcção técnica e desenho de luz | Wilma Moutinho
Interpretação Abel Rojo, Alejandro Fuster, Ana de Oliveira e Silva, Ángela Diaz Quintela, Daniela Cruz, Dinis Duarte, Esmée Aude Capsie, Inês Fertuzinhos, João Cardoso, Joana Couto, José Jalane, José Santos, Liliana Oliveira, Rémi Bourchany, Tiago Barreiros, Tomás Fernandes, Valter Fernandes
Produção | Nome Próprio
75 Minutos | Maiores de 16 Anos
FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica
Teatro Nacional S. João
23 Mai 2026 | sab | 19:00


Há espectáculos que ocupam um palco. “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer” ocupa um estado de espírito. Através dele, Victor Hugo Pontes regressa ao corpo como quem regressa ao primeiro território político, esse lugar inaugural onde a opressão começa e a liberdade encontra ainda a possibilidade de nascer. Logo no início, dois corpos medem-se num duelo que parece também um reconhecimento impossível: aproximam-se e recuam, como se a intimidade fosse ainda uma ameaça herdada. Depois, lentamente, o palco enche-se de uma humanidade nua, vulnerável e imensa. Não se trata aqui da nudez como provocação, mas como despojamento radical, um corpo sem ornamento, sem classe, sem época, sem defesa. Atravessada por enormes hélices suspensas, o cenário faz pensar simultaneamente num hangar, numa fábrica e numa catedral profana. Tudo parece preparado para uma transformação iminente, embora ninguém saiba exactamente de que forma ela chegará. É nesse intervalo, entre a expectativa e o abismo, que a peça encontra a sua pulsação mais funda. O verso de José Mário Branco deixa de ser citação e torna-se atmosfera: Há sempre qualquer coisa prestes a acontecer. E o mais inquietante é perceber que essa coisa talvez já esteja a acontecer dentro dos corpos, antes sequer de ganhar nome ou história.

Victor Hugo Pontes constrói esta criação como uma sucessão de imagens que recusam fixar-se numa narrativa fechada. Há ecos de Pina Bausch, de Géricault, de Delacroix, de antigos rituais pagãos e de manifestações contemporâneas; mas tudo surge contaminado por uma matéria profundamente física, quase animal, onde o colectivo ganha uma densidade emocional única. Os dezanove intérpretes movem-se como um organismo único, feito de músculos, suor, respiração e confiança. Há mãos que carregam cabeças, pernas que sustentam troncos, corpos que se empurram e amparam numa coreografia onde o contacto foge ao decorativismo para se tornar num gesto de sobrevivência. A beleza da peça nasce precisamente dessa oscilação entre fragilidade e potência. Cada quadro parece surgir do caos para logo regressar a ele, como se a comunidade fosse uma construção permanentemente ameaçada. Apesar da iminência da queda, o espectáculo insiste na possibilidade da ternura. Há uma delicadeza tocante na forma como aqueles corpos nus se oferecem ao olhar de todos, sem vergonha nem heroísmo. O palco transforma-se então num lugar de confiança absoluta, algo raro nos tempos que correm, habituados que estamos à à vigilância, à ironia e ao medo da exposição. Talvez por isso esta criação perturbe tanto, porque nos confronta com uma ideia de liberdade na qual já deixáramos de acreditar.

A dramaturgia visual da peça possui uma força invulgar na paisagem da dança portuguesa contemporânea. Victor Hugo Pontes não trabalha o movimento como mero virtuosismo coreográfico; trabalha-o como pensamento encarnado. Cada deslocação parece responder a uma pergunta antiga: Como dança um corpo depois da repressão? Como se move uma comunidade depois da violência? O espectáculo evita respostas fáceis e prefere permanecer nesse território inquieto onde a libertação é simultaneamente desejo e risco. Quando os intérpretes atravessam o palco numa explosão de energia colectiva, ou quando irrompe o coro de “I Want to Break Free”, dos Queen, não estamos perante uma celebração ingénua da liberdade, mas perante a memória física da sua conquista. O que emociona não é o triunfo; é o processo. A sensação de que aqueles corpos aprenderam lentamente a confiar uns nos outros, a respirar juntos, a cair juntos. Há algo profundamente comovente nesta insistência do colectivo num tempo histórico marcado pela atomização e pela fadiga social. Cinquenta anos depois do 25 de Abril, o espectáculo não procura monumentalizar a Revolução, antes reencontrar-lhe a temperatura humana. Em vez de nostalgia, oferece presença; em vez de discurso, oferece pele.

No final, fica a impressão de termos atravessado não apenas um espectáculo, mas uma espécie de ritual contemporâneo sobre a condição humana. “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer” convoca-nos para um lugar anterior ao cinismo, onde ainda é possível acreditar que os corpos podem transformar o mundo ou, pelo menos, impedir que ele endureça completamente. A peça recorda-nos que toda a liberdade começa por uma exposição: mostrar-se, despir-se, deixar cair as armaduras interiores. Há qualquer coisa de profundamente político nesta escolha de vulnerabilidade. Num tempo saturado de identidades performativas e de violência simbólica, estes corpos nus devolvem à cena uma verdade desarmante: Somos frágeis, semelhantes, transitórios. E talvez seja exactamente por isso que precisamos uns dos outros. O espectáculo termina, mas a sua imagem persiste muito para lá do aplauso. Não uma imagem fixa, mas um movimento contínuo, quase subterrâneo, como se aqueles corpos continuassem ainda a respirar dentro de nós. Saímos do teatro com a estranha sensação de que a mudança não pertence apenas às grandes revoluções históricas; pertence também ao instante em que um corpo decide aproximar-se de outro sem medo. É pouco? É tudo.

[Foto: ©José Caldeira | https://www.tnsj.pt/]

segunda-feira, 25 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO: "Habitáculos do Ser" | Evelina Oliveira



EXPOSIÇÃO: “Habitáculos do Ser”,
de Evelina Oliveira
Curadoria | Rosalina Santos
Casa da Cultura de Paredes
03 Mai > 13 Jun 2026


“Habitáculos do Ser”, exposição de Evelina Oliveira inaugurada no passado dia 03 de Maio, na Casa da Cultura de Paredes, afirma-se como um exercício de contemplação sobre a permanência da vida no seio de uma natureza aparentemente frágil. Terna e delicadamente, a artista compõe um universo visual onde matéria e memória se confundem, convocando o visitante para uma experiência simultaneamente íntima e inquietante. As peças oferecem-se como se de microcosmos orgânicos se tratassem, abrigos simbólicos onde coexistem delicadeza e resistência, silêncio e transformação. Percebe-se uma dimensão quase ritual da natureza no conjunto apresentado, como se cada fragmento vegetal, cada pássaro ou forma híbrida, transportasse consigo uma narrativa subterrânea sobre o equilíbrio precário do mundo natural. Através de uma linguagem plástica imediatamente reconhecível, Evelina Oliveira deixa que as obras respirem na ambiguidade poética que lhes dá corpo, desafiando-nos a habitar estes territórios simbólicos e a conformarmo-nos com a vulnerabilidade do próprio acto de existir.

A exposição revela uma artista versátil, capaz de cruzar desenho, pintura, colagem, modelagem e instalação, sem que o resultado perca unidade estética. Em “Habitáculos do Ser”, os materiais parecem prolongamentos naturais das ideias que lhes dão origem, integrando-se numa composição onde o artesanal e o intuitivo convivem de forma harmoniosa. A madeira, suporte predominante em várias peças, reforça essa ligação primordial à terra e à matéria viva, enquanto os pequenos detalhes orgânicos introduzem uma sensação de movimento silencioso, quase respirável. E porém, por detrás da aparente serenidade cromática, existe uma subtil tensão dramática. As formas encerradas nestes “habitáculos” oscilam entre o refúgio e o confinamento, sugerindo uma reflexão sobre os limites da protecção num tempo marcado pela devastação ambiental e pelo afastamento do homem em relação ao mundo natural. Fugindo ao discurso panfletário, a artista opta por uma abordagem sensorial a pedir observação demorada. Há momentos em que o humor e a ironia se insinuam discretamente, quebrando a solenidade contemplativa e aproximando o olhar do espectador de uma dimensão mais humana e afectiva.

Existe nesta exposição uma crença serena na capacidade de sobrevivência, mesmo após eventos destruidores, e é talvez essa esperança discreta que mais intensamente permanece no olhar de quem percorre a mostra. A ameaça das alterações climáticas e os fenómenos extremos que pesam sobre a fragilidade e vulnerabilidade dos ecossistemas permanecem como uma presença silenciosa em muitas destas obras, ainda que nunca assumida de forma explícita ou ilustrativa. Entre o verde e a cinza, entre a perda e o renascer, Evelina Oliveira constrói uma narrativa visual profundamente marcada pela ideia de regeneração. Os pequenos seres que povoam estes trabalhos - aves, flores, figuras indefinidas - surgem como testemunhas frágeis de uma natureza em permanente reconstrução. Com enorme delicadeza, a artista oferece uma visão poética do mundo natural enquanto espaço de resistência e continuidade. “Habitáculos do Ser” confirma, assim, a maturidade artística de Evelina Oliveira e a consistência de um percurso que alia rigor técnico, imaginação e sensibilidade crítica. Mais do que uma representação da natureza, a exposição propõe uma reflexão sobre a nossa relação com ela - uma relação feita de pertença, responsabilidade e espanto.

domingo, 24 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Passos em volta” | Eduardo Gageiro



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Passos em volta”,
de Eduardo Gageiro
Curadoria | Valter Vinagre
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Casa da Cultura de Avintes
08 > 31 Mai 2026


A 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes volta a confirmar uma linha curatorial que, ao longo dos últimos anos, se tem distinguido pela recuperação e revalorização de nomes fundamentais da fotografia portuguesa e internacional. Depois das homenagens a Eduardo Teixeira Pinto e Gérald Bloncourt, ou da notável apresentação das placas de vidro de Américo Santos, muitas delas contendo registos de Emilio Biel, o festival reserva agora um lugar de particular relevo à obra de Eduardo Gageiro. A exposição “Passos em volta”, patente na Casa da Cultura de Avintes até 31 de Maio de 2026, surge não apenas como evocação de um percurso maior do fotojornalismo português, mas igualmente como um exercício de aproximação crítica a uma obra cuja vastidão permanece, em muitos aspectos, insuficientemente conhecida. O gesto do iNstantes ganha, por isso, um significado acrescido: num tempo marcado pela voragem do imediato, o Festival insiste em devolver tempo, contexto e espessura histórica à imagem fotográfica.

“Passos em volta” retoma o trabalho de investigação em torno do espólio de Eduardo Gageiro iniciado na exposição apresentada, em 2025, no Panóptico do Hospital Miguel Bombarda, no âmbito da Mostra de Fotografia e Autores - MFA Lisboa. A selecção agora reunida - sessenta e duas fotografias provenientes do conjunto adquirido ao autor pela Câmara Municipal de Torres Vedras — evita o caminho mais previsível da simples antologia celebratória. Entre retratos, imagens de rua, cenas de trabalho e registos ligados à Revolução dos Cravos e ao 1.º de Maio de 1974, o percurso expositivo revela sobretudo um olhar permanentemente atento à condição humana e às tensões sociais do seu tempo. Há, nas fotografias de Gageiro, uma capacidade única de transformar o instante documental em matéria de leitura política e emocional. Mesmo quando fixa episódios históricos amplamente reconhecíveis, o fotógrafo procura sempre o detalhe lateral, o gesto anónimo, a expressão suspensa que escapa ao heroísmo fácil da iconografia revolucionária. É precisamente nessa tensão entre proximidade e distanciamento que reside a força duradoura da sua obra.

A curadoria de Valter Vinagre reforça essa dimensão de circulação entre memória colectiva e intimidade visual. Espalhadas por duas salas, as imagens convocam não apenas o arquivo de um país em transformação, mas também a persistência de certas inquietações sociais que permanecem actuais. Mais do que revisitar um “mestre” consagrado, “Passos em volta” procura iluminar as várias zonas da produção de Eduardo Gageiro, sublinhando a amplitude de um trabalho que nunca se limitou ao registo factual do acontecimento. O fotógrafo surge aqui como observador participante, alguém que compreendeu a fotografia enquanto ferramenta estética, política e humana. Ao integrar esta mostra no núcleo central do Festival, o iNstantes reafirma uma vocação rara no panorama cultural português: a de construir pontes entre património fotográfico, pensamento crítico e divulgação pública. Num país frequentemente distraído da preservação da sua memória visual, iniciativas como esta tornam-se essenciais para compreender não apenas a história do fotojornalismo português, mas também a forma como o olhar não se deve demitir de interrogar o presente.

sábado, 23 de maio de 2026

LIVRO: "Como Caminhar num Pântano" | Marta Pais Oliveira



LIVRO: “Como Caminhar num Pântano”,
de Marta Pais Oliveira
Edição | Manuel S. Fonseca
Ed. Gradiva Publicações, Março de 2026


“Deverá ter sangrado do nariz, acordou com uma flor vermelha desenhada no lençol. Não quis mudá-lo, era bonita a flor de sangue contrastando com a alvura. Parecia o meu sinal das costas, mensagens de qualquer entidade superior. Essa dor esquisita que assumi como sendo parte natural de mim, habituamo-nos a tudo. É impressionante como um ciclo longo termina num ápice. Como se nunca tivesse acontecido. Rotinas e hábitos, empregos, relações amorosas. Ter saúde o diagnóstico da doença fulminou-me. Durante duas semanas estive dentro de um vórtice. Depois tomei a decisão de não contar a ninguém. Não saberia ser vítima nem quero ser vítima. Comecei a reconhecer-me na terceira pessoa, o afastamento ajuda a digerir a coisa. Escrevo na terceira pessoa, até o eu me atropelar porque o nosso eu é um bicho que precisa de demasiada atenção. É tudo, ainda, uma grande confusão. Evitarei os meus irmãos.”

“Como Caminhar num Pântano” vem confirmar uma das vozes mais singulares da ficção portuguesa contemporânea. Depois de “Escavadoras” e do admirável “Faina”, Marta Pais Oliveira regressa a um território literário que adopta como método o desconforto. Ao longo do romance não são descortináveis quaisquer vestígios de complacência narrativa, tão pouco personagens desenhadas para gerar imediata empatia. E no entanto é impossível não criar uma especial ligação com a invulgar narradora na sua postura fragmentada, irónica, tantas vezes à beira do colapso, mas tão humana, tão nossa. É ela que nos conduz por espaços reconhecíveis e onde nos movemos em permanente estado de falha. Na forma como se desenvolve, o romance aproxima-se do diário, da confissão, da deriva poética, até, mas recusa instalar-se em qualquer género reconhecível. Há entradas breves, pensamentos interrompidos, imagens que regressam como obsessões: o sangue no lençol, a taça estilhaçada, o cisne rosa da feira, as árvores “muito altas”. Tudo parece deslocado da realidade, como se o mundo tivesse sofrido uma fractura à medida da força da escrita de Marta Pais Oliveira. Uma escrita entre a lucidez e o delírio, que progride aos solavancos, prestes a atascar-se em areias movediças, sem cordas nem escoras onde se firmar.

Longe de ser o centro melodramático do romance, a doença paira sobre ele como uma sentença silenciosa. A narradora sabe da proximidade da morte, mas recusa a condição de vítima; prefere os mecanismos de sobrevivência linguística, pequenas sabotagens do real, como se inventar legendas de filmes ou reorganizar pacotinhos de chá pudesse suspender o inevitável. A linguagem deixa de ser instrumento de comunicação para se tornar no último reduto de resistência. Há momentos em que a escrita parece desfazer-se diante dos nossos olhos, tropeçando em frases truncadas, associações inesperadas, lapsos que revelam mais do que escondem. Desse caos aparente emerge uma voz de espantosa coerência emocional. Marta Pais Oliveira possui o dom de transformar o absurdo quotidiano em matéria de inquietação interior. Uma bola de futebol que atinge o rosto da narradora desencadeia uma reflexão sobre acaso e simbolismo; um corretor ortográfico que troca “impostor” por “impostos” convoca a reflexão sobre culpa e identidade. Negro, seco, quase involuntário, o humor retira solenidade ao romance e permite que venha ao de cima a capacidade de escrever sobre fragilidade sem cair na autocomiseração.

Quem leu “Faina” reconhecerá neste livro a mesma recusa em facilitar a leitura. Se no romance anterior o mar funcionava como força devoradora e purificadora, aqui o pântano surge como metáfora de uma existência suspensa, cada passo podendo ser o último. Mas há também, paradoxalmente, uma intensa pulsão de vida. A narradora quer dançar sobre uma ponte, cultivar um quintal, preparar uma mousse demorada, voltar à luz da infância. Entre o desejo e a destruição, quer acreditar “no arco da possibilidade”. Marta Pais Oliveira escreve como quem recolhe destroços, retirando das frases partidas, das memórias incompletas, dos afectos corroídos pelo tempo, uma estranha beleza. “Como Caminhar num Pântano” é um livro exigente, por vezes desesperante, frequentemente brilhante. Não se lê com facilidade, resiste ao leitor, inquieta-o, deixa marcas, cicatrizes. Não dá respostas nem oferece conforto. Mas confere a possibilidade única de entrar numa consciência em combustão lenta. Tal como certos sonhos difíceis de interpretar, eis-nos perante um livro que teima em persistir muito para lá da última página.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Entre Luz e Forma” | Adelino Marques



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Entre Luz e Forma”,
de Adelino Marques
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Parque Biológico de Gaia
08 > 31 Mai 2026


“Entre Luz e Forma”, mostra integrante da 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, espraia-se num território onde a arquitectura abandona a sua condição estática e se deixa atravessar pelo tempo. No centro deste ensaio fotográfico de Adelino Marques ergue-se o Pavilhão Multiusos de Gondomar, projecto do arquitecto Álvaro Siza, aqui revelado não como mero objecto construído, mas como organismo sensível aos caprichos da luz. O betão, o tijolo e as superfícies amplas do edifício tornam-se matéria respirável sob a a luz do sol, gerando composições inesperadas, linhas fugidias e sombras como que desenhadas pelo acaso. Nesta série de imagens, o fotógrafo propõe-se escutar o silêncio da arquitectura e descobrir nele uma pulsação íntima, feita de subtilezas, de ritmos lentos e de uma geometria que se transforma a cada instante do dia. Gesto de notável depuração formal, a pala suspensa da entrada assume um papel central nesta narrativa visual, projectando manchas de sombra e planos de luz que desafiam a percepção e deslocam o olhar para além da função utilitária do espaço. Privado da cor, o edifício ganha densidade táctil e uma dimensão quase abstracta, cada superfície como guardiã da memória da luz que a banhou.

O percurso artístico de Adelino Marques encontra nesta exposição uma síntese particularmente madura da sua linguagem visual, construída ao longo de décadas de observação paciente e de um entendimento profundamente humanista da fotografia. Nascido em Gondomar, cidade onde reside e à qual permanece ligado afectivamente, iniciou o contacto com a imagem fotográfica no final dos anos setenta, no contexto da Faculdade de Medicina do Porto, colaborando com o departamento de fotografia da Associação de Estudantes. A partir daí, consolidou uma formação que passou pelo Curso Livre de Fotografia da Cooperativa Árvore e, mais tarde, pelo Instituto Português de Fotografia, no Porto, experiências determinantes na sedimentação de um olhar simultaneamente rigoroso e contemplativo. Ao longo dos anos, o seu trabalho tem sido mostrado em Portugal e em diversos países da Europa e das Américas, revelando uma consistência autoral rara e uma atenção persistente às relações entre espaço, tempo e presença humana - mesmo quando a figura humana se encontra ausente da imagem. Em “Entre Luz e Forma”, essa maturidade manifesta-se na capacidade de transformar volumes arquitectónicos em acontecimentos visuais e emocionais. As fotografias parecem suspender o tempo e obrigar o espectador a uma desaceleração do olhar, numa época em que a velocidade da imagem frequentemente impede a contemplação.

Mais do que uma exposição sobre um edifício emblemático, “Entre Luz e Forma” afirma-se como uma reflexão sobre a própria natureza do acto fotográfico. De forma natural, estas composições exibem uma dimensão quase musical: as sombras repetem-se como motivos rítmicos, as diagonais criam tensões subtis e a luz age como matéria compositiva essencial, revelando a arquitectura não apenas como construção física, mas como experiência sensorial. A câmara de Adelino Marques procura aquilo que escapa ao olhar apressado: o instante exacto em que a luz transforma a matéria e a converte em linguagem poética. Cada imagem propõe uma experiência de contemplação e descoberta, conduzindo o visitante a uma leitura mais sensível do espaço construído. O preto e branco depurado reforça esse despojamento, eliminando o ruído visual e permitindo que a atenção se concentre nas texturas, nos contrastes e nas subtis variações lumínicas que percorrem as superfícies. Atento às pausas, às inflexões, às mudanças mínimas que alteram a percepção do espaço, Adelino Marques aproxima-se da arquitectura como quem escuta uma respiração. Entre a solidez da forma e a fugacidade da luz, assistimos ao nascimento de um território poético onde o olhar encontra tempo para habitar.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Cicatrizes" | Sara Ruiz



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Cicatrizes”,
de Sara Ruiz
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Centro de Reabilitação do Norte
08 > 31 Mai 2026


Num tempo em que a violência contra as mulheres continua a revelar números alarmantes e discursos frequentemente anestesiados pela repetição mediática, “Cicatrizes” devolve profundidade humana ao tema. Captada pela fotógrafa colombiana Sara Ruiz, num muro entre dois olhares, a inscrição “#NiUnaMenos” funciona como um manifesto silencioso e, simultaneamente, como uma ferida aberta. A imagem - uma das mais incisivas da exposição patente no Centro de Reabilitação do Norte - remete para o movimento feminista nascido na Argentina em 2015, em resposta à escalada dos feminicídios e da violência de género na América Latina. A partir dela, a artista transforma o grito político numa superfície de memória colectiva, onde a violência deixa de ser mero acontecimento estatístico para adquirir densidade afectiva, corporal e íntima, evocativa de uma geografia universal da agressão, essa presença subterrânea que, como se pode ler no texto de apresentação, “atravessa os nossos corpos, os nossos membros e as nossas mentes”.

Condensando uma década de trabalho, as imagens reunidas em “Cicatrizes” recusam o espectáculo da dor fácil. Nelas, a violência surge fragmentada em vestígios, atmosferas e pequenos sinais de ameaça ou vulnerabilidade. Há muros, quartos, corpos frágeis, sombras e silêncios que revelam uma tensão contínua entre o trauma e a sobrevivência. O olhar documental da fotógrafa não abdica da dimensão poética, mas também não se refugia nela: cada fotografia parece perguntar de que modo os sistemas patriarcais moldam os afectos, os medos e até a própria ideia de intimidade. Esse carácter simultaneamente pessoal, social e político, atravessa toda a construção da exposição. Nascida em Bogotá e radicada há dezoito anos em Buenos Aires, Sara Ruiz transporta para este trabalho o cruzamento entre a prática fotográfica e a formação em sociologia, fazendo da imagem um instrumento de investigação emocional e de crítica social. A fotógrafa lembra que a violência destrói corpos, corrói linguagens, condiciona afectos, aniquila pertenças. Talvez por isso as imagens procurem incessantemente pequenos fragmentos de reconciliação humana, sem nunca ceder à estetização complacente do sofrimento.

Integrada na 13.ª edição do iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes, a exposição ganha uma relevância particular pelo lugar onde é apresentada. O Festival, que ao longo dos anos se afirmou como um dos mais consistentes espaços de divulgação da fotografia contemporânea em Portugal, tem privilegiado propostas autorais capazes de articular criação artística, pensamento crítico e intervenção social. Nesse contexto, a presença de “Cicatrizes” no Centro de Reabilitação do Norte reveste-se de uma enorme carga simbólica. Não se trata apenas de expor fotografia num espaço institucional de saúde e recuperação física; trata-se de colocar imagens de trauma, resistência e memória num lugar onde diariamente se confrontam diferentes formas de vulnerabilidade humana. As fotografias de Sara Ruiz dialogam, assim, com a própria ideia de reabilitação, não apenas do corpo, mas também da dignidade e da possibilidade de reconstrução emocional. E fazem-no sem paternalismo nem retórica panfletária, através de imagens densas, inquietas e profundamente conscientes de que toda a cicatriz é, ao mesmo tempo, marca de violência e prova de sobrevivência.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

CINEMA: “Mais Forte do Que Eu” | Kirk Jones



CINEMA: “Mais Forte do Que Eu” / “I Swear”
Realização | Kirk Jones
Argumento | Kirk Jones
Fotografia | James Blann
Montagem | Sam Sneade
Interpretação | Robert Aramayo, Maxine Peake, Somerled Campbell, Michael Dylan, David Carlyle, Christina Ashford, Sanjeev Kohli, Scott Ellis Watson, Steven Cree, Ethan Stewart, Isla Mercer, Catriona McArthur, Shirley Henderson, Paul Donnelly
Produção | Georgia Bayliff, Kirk Jones, Piers Tempest
Reino Unido | 2025 | Drama | 120 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 17
18 Mai 2026 | seg | 16:05


“Mais Forte do Que Eu”, do realizador britânico Kirk Jones, recupera a história verídica de John Davidson para construir um drama humanista, de enorme intensidade e capaz de evitar as armadilhas do chamado “filme de superação”. Situada sobretudo na Escócia dos anos 1980 e 90, a narrativa acompanha o aparecimento dos primeiros tiques de John, ainda na adolescência, quando explosões verbais incontroláveis, gestos bruscos e insultos involuntários começam a destruir a sua vida escolar, familiar e social. Numa época em que a Síndrome de Tourette era praticamente desconhecida - e frequentemente confundida com má educação, violência ou perturbação psiquiátrica -, o jovem torna-se alvo de humilhações, castigos físicos e incompreensão generalizada. O filme mostra como professores, polícias e até a própria família interpretam os seus comportamentos como actos deliberados, reforçando a sensação de um mundo pouco preparado para lidar com a diferença. O ambiente hostil à sua volta só vem agravar o isolamento de alguém plenamente consciente daquilo que diz e faz, mas incapaz de exercer um pleno domínio sobre si mesmo.

Longe de transformar John Davidson num símbolo abstracto de coragem, Kirk Jones opta por uma abordagem fragmentada, construída por meio de episódios dispersos, encontros fortuitos e momentos de desconforto quotidiano. Na tensão entre humor e tragédia, encontra o filme um invulgar equilíbrio, as cenas mais cómicas a revelarem-se também as mais dolorosas, expondo as reacções de choque, medo ou julgamento perante os tiques verbais de John. É aí que a interpretação de Robert Aramayo se torna decisiva. Sem cair na caricatura ou na imitação mecânica, o actor traduz não apenas os movimentos físicos e as explosões vocais da doença, mas sobretudo o permanente estado de ansiedade de alguém que tenta antecipar a reacção dos outros. Ao seu lado, Maxine Peake oferece uma presença serena e decisiva no papel de Dottie, enfermeira de saúde mental que ajuda John a compreender a sua condição sem paternalismos nem sentimentalismo fácil. As restantes personagens centrais do filme contribuem para um universo credível, habitado por seres imperfeitos, capazes tanto de empatia como de rejeição.

Mais do que uma biografia convencional, o filme afirma-se como um poderoso exercício de sensibilização sobre a Síndrome de Tourette e sobre os mecanismos sociais de exclusão associados às doenças neurológicas e mentais. “Mais Forte do Que Eu” sublinha a ideia de que não existe intenção maliciosa por detrás dos insultos ou obscenidades provocados pelos tiques, apesar do impacto público dessas palavras poder gerar frequentemente agressões, detenções ou humilhações. Nesse sentido, a obra possui uma dimensão pedagógica evidente, sem nunca resvalar para o tom panfletário. A inclusão de figurantes e participantes com Tourette reforça a autenticidade do retrato, enquanto a narrativa acompanha a transformação gradual de Davidson num activista empenhado em promover informação e compreensão sobre a doença. A realização recusa suavizar as arestas mais incómodas da experiência, preferindo mostrar a exaustão, a imprevisibilidade e os pequenos fracassos que moldam uma vida marcada pela diferença e pela luta permanente por dignidade. Uma bela surpresa.

terça-feira, 19 de maio de 2026

TERTÚLIA: Música com História XIII | Herman José



TERTÚLIA: Música com História XIII
Com | Joel Cleto, Miguel Araújo e Herman José
Organização | Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos
Grande Auditório da Casa Diocesana de Vilar
17 Mai 2026 | dom | 16:00


A 13.ª sessão de “Música com História”, iniciativa promovida pela Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos, confirmou aquilo que já se adivinhava muito antes de as portas do Auditório da Casa Diocesana de Vilar se abrirem: Herman José continua a ser um caso raro de popularidade, capaz de mobilizar gerações inteiras para uma celebração colectiva da memória, da música e do humor. Os cerca de mil e trezentos lugares disponíveis esgotaram em menos de doze horas, num fenómeno pouco habitual mesmo para um ciclo que já habituou o público a convidados de enorme estatuto. A expectativa encontrou plena correspondência numa tarde em que Herman José demonstrou conservar intactas a agilidade mental, o sentido de oportunidade e a presença cénica que fazem dele, de há meio século para cá, uma das figuras maiores do espectáculo em Portugal. Desde os primeiros minutos, o humorista assumiu um tom de gratidão para com o Norte e as suas gentes, lembrando que aqui sempre encontrou um calor humano raro. “Sentia-me órfão quando saía do Norte”, confessou, evocando um público que “gosta dos espectáculos e não tem vergonha de o exteriorizar”.

Ao longo da conversa conduzida por Joel Cleto, houve música, evocação histórica e, sobretudo, um desfile contínuo de memórias capazes de provocar gargalhadas sucessivas numa sala rendida ao talento do humorista. Algumas das canções interpretadas por Miguel Araújo - “Os Maridos das Outras”, “Elogio da Preguiça”, “Talvez se eu Dançasse” ou “Fonte da Moura” – foram escolhidas pelo próprio convidado, revelando um gosto apurado pela escrita irónica e sentimental. Herman José não resistiu, contudo, a revisitar também alguns dos seus maiores êxitos, chamando ao palco “Senhor Feliz e Senhor Contente”, “Bamos Lá Cambada”, “A Cor do Teu Baton”, “Canção do Beijinho” e ainda “Podia Acabar o Mundo”, em dueto com Miguel Araújo. O reencontro com essas canções funcionou como uma espécie de viagem afectiva pela televisão portuguesa das últimas décadas. Ao longo de duas horas, Herman José apresentou-se rápido e eficaz no improviso, alternando histórias improváveis com apartes certeiros e uma capacidade única de dominar o ritmo da sala. Houve momentos em que bastou uma pausa, um olhar ou uma simples inflexão de voz para provocar o riso, prova de um conhecimento absoluto do palco e do tempo humorístico.

Uma das componentes mais celebradas da tarde foi o regresso de algumas das personagens emblemáticas do universo criado por Herman José. Sempre apaixonado pela Idália da Maria Rueff, o Nelo surgiu em palco protagonizando um dos momentos mais delirantes da sessão ao defender que “a única coisa que um gajo pode dar à sua gaja é um xi”, antes de avançar para uma versão absolutamente improvável de “She”, de Charles Aznavour. Também Serafim Saudade e José Estebes marcaram presença, este último servindo de pretexto para mencionar as inesquecíveis entrevistas com Jorge Nuno Pinto da Costa e José Maria Pedroto. Pelo meio, desfilaram histórias saborosas envolvendo José Hermano Saraiva, Fernando Pessa, Manoel de Oliveira, Jorge Palma, Hermínia Silva ou Clemente, num registo em que caricatura e memória souberam conviver de permeio com uma pontinha de malícia. Herman José evocou ainda figuras decisivas no seu percurso artístico, como José Carlos Ary dos Santos, Rosa Lobato Faria, Carlos Paião ou Thilo Krassman, lembrando cumplicidades criativas fundamentais para alguns dos seus maiores sucessos televisivos e musicais.

Com a mestria habitual, Joel Cleto foi cruzando a conversa com referências históricas da cidade e da região. A propósito dos 130 anos da primeira exibição de cinema realizada em Portugal por um português, evocou Aurélio da Paz dos Reis e o antigo Teatro Príncipe, mais tarde Teatro Sá da Bandeira. Aproveitando o recente título nacional de futebol conquistado pelo Futebol Clube do Porto, lembrou o papel de António Nicolau de Almeida na fundação do clube, em 1893, sem esquecer que o mais antigo clube da cidade continua a ser o Oporto Cricket and Lawn Tennis Club, criado em 1855. Houve ainda espaço para assinalar os 30 anos da classificação do Centro Histórico do Porto como Património Mundial da UNESCO, efeméride que será celebrada em Dezembro. Mas a tarde pertencia sobretudo ao humor e à memória colectiva: da rábula da Rainha Santa Isabel em “Humor de Perdição” ao hilariante relato sobre uma discoteca escondida junto à Ponte D. Luís, passando pelas histórias do Festival da Canção de 1983 no Coliseu do Porto e pelas tiradas sobre comprimidos de ecstasy, empresários de Paços de Ferreira ou cantores que fazem playback com fitas a girar ao contrário, tudo contribuiu para um ambiente de permanente cumplicidade entre o palco e plateia.

No final, coube a José Carlos Gonçalves, juiz-provedor da Confraria, agradecer a presença do público e recordar o papel patrimonial e social da instituição, sublinhando igualmente a importância deste género de iniciativas para a angariação de receitas, tão necessárias ao seu normal funcionamento. Fê-lo, porém, sem cerimónias excessivas e com uma tirada de génio que arrancou nova gargalhada geral ao admitir, em resposta a uma provocação do convidado, que a sessão tinha sido “das melhores merdas” a que assistira nos últimos tempos. O encerramento não poderia ter sido mais simbólico: a sala inteira levantou-se para cantar os parabéns ao jovem Vasco, que festejou doze anos, ao som do genérico de “Parabéns”, série televisiva protagonizada por Herman José em 1992. Foi um instante simples, mas revelador daquilo que verdadeiramente aconteceu na sala de Vilar: mais do que uma tertúlia, viveu-se uma celebração afectiva de um artista que permanece extraordinariamente presente, actual e capaz de unir diferentes gerações em torno do riso, da música e da memória.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2026



CERTAME: iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Curadoria | Pereira Lopes
Organização | iNstantes - Associação Cultural
Vários Locais
08 Mai > 31 Mai 2026


A 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes confirma aquilo que, desde 2014, se foi sedimentando longe dos centros de legitimação cultural habituais e que faz dele um dos mais consistentes encontros internacionais de fotografia realizados em Portugal. Entre 08 e 31 de Maio, o Festival reúne quarenta e oito fotógrafos de doze países e espalha vinte e quatro exposições por Avintes, Valadares, Lourosa, Vila do Conde e Braga, transformando o território num mapa visual de urgências humanas, memórias políticas, geografias íntimas e inquietações contemporâneas. A visita começa inevitavelmente em Avintes, vila operária e ribeirinha onde o Festival mantém o seu centro nevrálgico e onde a fotografia parece ocupar os espaços com uma naturalidade rara: a Casa da Cultura, os Bombeiros Voluntários, a Junta de Freguesia, o Centro de Fotografia iNstantes ou os Plebeus Avintenses deixam de ser apenas edifícios para se tornarem estações de uma deriva visual. Há qualquer coisa de profundamente democrático nesta ocupação do espaço público e comunitário. O visitante percorre ruas, atravessa portas improváveis, descobre imagens no coração da vida quotidiana. É precisamente aí que o Festival encontra a sua maior força, numa ideia de proximidade que devolve a fotografia às pessoas e as pessoas à fotografia.

Ao longo desta edição, o iNstantes constrói um itinerário marcado por deslocamentos físicos, políticos e emocionais. Em “Migrantes climáticos no Bangladesh – Uma história global de humanidade partilhada”, Abir Abdullah transforma a devastação ambiental numa narrativa profundamente humana, recusando o distanciamento estatístico das catástrofes climáticas para mostrar rostos, perdas e deslocações forçadas. Já José Luís Santos, em “Caderno Afegão”, desmonta os clichés ocidentais sobre o Afeganistão através de um olhar que procura dignidade, hospitalidade e quotidiano num território frequentemente reduzido à guerra. Também Sara Ruiz, em “Cicatrizes”, trabalha a violência patriarcal como memória íntima e colectiva, cruzando dor, afecto e sobrevivência num ensaio duro e sensível. Em paralelo, Radilson Gomes e José Medeiros levam-nos às questões indígenas do Brasil, não como exotismo etnográfico, mas como reflexão urgente sobre território, apagamento e resistência cultural. Em “No Sul da Macaronésia”, Ana Roque de Oliveira encontra em Cabo Verde uma convivência entre aridez e humanidade que escapa à simples sedução turística. E em “Equilíbrios Instáveis”, Lesley Mattuchio lembra-nos a fragilidade dos ecossistemas através de imagens de vida selvagem onde a beleza nunca apaga a ameaça. O resultado é um corpo expositivo que evita o espectáculo vazio da imagem perfeita e prefere uma fotografia que pensa, questiona e convoca.

Mas esta edição do iNstantes também encontra espaço para uma reflexão mais formal sobre o acto fotográfico, o olhar e a construção visual. Em “Entre luz e forma”, Adelino Marques transforma o Multiusos de Gondomar, de Siza Vieira, num laboratório de luz e sombra, onde a arquitectura deixa de ser objecto estático para se tornar matéria viva. A preto e branco, as superfícies respiram, os volumes deslocam-se, o tempo entra literalmente na imagem. Hélder Vinagre, em “Dualidades urbanas”, trabalha igualmente o preto e branco como linguagem de suspensão, procurando na rua pequenas fricções entre solidão e multidão, velocidade e permanência. Já Jim Bostick, com “Arcanum”, encena o universo do tarot como teatro fotográfico, cruzando narrativa, simbolismo e uma elaborada construção cénica que aproxima a fotografia das artes performativas. Impossível não destacar “Passos em volta”, dedicada ao espólio de Eduardo Gageiro, figura maior do fotojornalismo português recentemente desaparecida. A exposição funciona simultaneamente como homenagem e redescoberta, revelando imagens onde o documento histórico convive com uma impressionante densidade humana. O festival demonstra assim uma notável elasticidade curatorial ao acolher fotografia documental, experimental, antropológica, poética ou conceptual, sem perder coerência nem cair na dispersão temática.

Há, finalmente, algo de particularmente significativo na forma como o iNstantes continua a afirmar-se a partir da periferia. Num país excessivamente concentrado em Lisboa, este Festival ergueu, ao longo de treze edições, uma rede internacional de cumplicidades artísticas a partir de Avintes, recusando a ideia de que a centralidade cultural depende da geografia. Pelo contrário: o iNstantes vive ancorado na relação afectiva com os seus lugares, sejam eles colectividades, teatros, quartéis de bombeiros, escolas ou instituições de saúde. Essa dimensão territorial dá-lhe uma autenticidade rara no panorama dos Festivais de fotografia, muitas vezes excessivamente formatados ou dependentes de circuitos institucionais fechados. No iNstantes, sente-se essa possibilidade do encontro inesperado entre autores consagrados e visitantes ocasionais, entre linguagens distintas, entre comunidades locais e olhares vindos da Coreia do Sul ou do Bangladesh, da Colômbia ou da Finlândia. O Festival constrói-se como cartografia do mundo contemporâneo vista a partir de uma vila do concelho de Gaia. E talvez essa seja a sua marca mais vincada: a de uma fotografia que não procura apenas mostrar o mundo, antes aproximá-lo. Mais informações em https://www.instantesffa.com/.

domingo, 17 de maio de 2026

DANÇA: "Bichos" | Rui Lopes Graça



DANÇA: “Bichos”
Coreografia | Rui Lopes Graça
Desenho de luz e espaço cénico | Cristóvão Cunha
Máscaras | Robert Allsopp and Associates
Direcção artística | Henrique Amoedo
Interpretação | Aléxis Fernandes, Bárbara Matos, Bernardo Graça, Gleidson Vigne, Joana Caetano, Laura Ávila, Rui João Costa, Sofia Marote, Telmo Ferreira
Produção | Companhia Dançando com a Diferença
50 Minutos | Maiores de 6 Anos
Coºrdenadas - Laboratório para o Território
Ponto C - Cultura e Criatividade
15 Mai 2026 | sex | 10:00


Há espectáculos que procuram apenas entreter e há outros que se assumem como um gesto de deslocação do olhar. “Bichos”, da Companhia Dançando com a Diferença, pertence claramente à segunda categoria. A partir do universo literário de Miguel Torga, a coreografia de Rui Lopes Graça instala em palco uma reflexão áspera sobre liberdade, identidade e pertença, recusando qualquer leitura complacente da condição humana. Estreado em 2016 e apresentado agora em Penafiel, o espectáculo encontra na fisicalidade dos intérpretes uma dimensão profundamente humana e digna. Não há aqui espaço para paternalismos ou para o exotismo fácil da chamada “arte inclusiva”. O que se vê é dança contemporânea no seu estado mais exigente: corpos distintos entre si, com ou sem deficiência intelectual, convocados para uma linguagem comum onde a diferença deixa de ser tema para passar a ser matéria da criação. Entre gestos abruptos, tensões corporais e momentos de suspensão quase ritual, “Bichos” desmonta a domesticação social do indivíduo, construindo uma atmosfera de permanente confronto do homem consigo próprio, com os outros e com uma ideia abstracta de transcendência. A encenação evita qualquer linearidade narrativa, optando por uma sucessão de imagens densas, por vezes inquietantes, que colocam o espectador perante uma pergunta simples e brutal: até que ponto permanecemos livres dentro das estruturas que nos moldam?

Ao longo de um quarto de século de actividade, a Companhia Dançando com a Diferença, fundada e dirigida por Henrique Amoedo, transformou profundamente o modo como a dança contemporânea portuguesa olha para o corpo. Quando iniciou o seu percurso, falar de bailarinos com deficiência em contextos profissionais era ainda encarado como excepção ou experiência paralela. Hoje, muito por força de um trabalho contínuo, de grande exigência técnica e que recusa reduzir os artistas à sua condição física ou intelectual, essa discussão deslocou-se para outro patamar: o da criação artística enquanto território plural. “Bichos” surge, assim, não apenas como mais uma peça de repertório, mas como síntese madura de uma visão estética e ética construída ao longo de décadas. Longe da mera ilustração de conceitos, os corpos em cena pensam, resistem, desafiam e perturbam. Há momentos em que a fragilidade aparente de determinados movimentos revela todo um enorme potencial cénico, precisamente porque nasce da singularidade de cada intérprete e não da tentativa de uniformização. Aquilo que importa nunca é a deficiência, mas a intensidade humana que cada corpo transporta e que nos diz que a verdadeira inclusão acontece quando desaparece a necessidade de a anunciar.

O mergulho neste particular universo torguiano revela-se particularmente feliz num espectáculo que vive da tensão entre instinto e civilização. Tal como nos contos do escritor transmontano, também aqui os animais funcionam como espelho moral dos homens, expondo medos, pulsões e formas de submissão que a organização social frequentemente procura esconder. O palco transforma-se numa espécie de Arca de Noé contemporânea, habitada por criaturas que lutam por um lugar próprio sem abdicarem da sua identidade. Há qualquer coisa de profundamente libertador na forma como o espectáculo rejeita categorizações fáceis. A dança surge aqui como linguagem de confronto e emancipação, mas também como possibilidade de comunidade. Mesmo nos momentos mais sombrios, quando os intérpretes parecem esmagados por forças invisíveis, subsiste sempre uma energia de resistência que impede a resignação. Ao fim de 25 anos de percurso artístico, a Dançando com a Diferença continua a provar que a revolução pode acontecer através do corpo. E “Bichos”, pela sua intensidade poética e política, confirma a companhia madeirense como uma das experiências mais transformadoras no campo da dança, lembrando que a dignidade humana não se esgota na sobrevivência, mas exige liberdade, desobediência e inconformismo.

[Foto: Dançando com a Diferença | https://danca-inclusiva.com/galeria/2/bichos]