FESTIVAL: Encontros da Imagem - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais Braga 2026
“Territórios do Imaginário | Lugares Encantados”
Equipa Curatorial | Alexia Alexandropoulou, Ana Grebler, Carlos Fontes, Guilherme Braga da Cruz, Helena Mendes Pereira, IPCI, Magda Pinto, Miguel Refresco, Noora Mänty, Pedro Silva, Rui Pinheiro, Vasco Quintas, Vitor Nieves, Wiktoria Michałkiewicz
Artistas | Alex Webb, Alwin Maigler, Ana Elisa Sotelo, César Dezfuli, Ciril Jazbek, Cooper & Gorfer, Eduarda Pinto, Emilia Martin, Giorgia Severi, Hélder da Costa, Isa Toledo, José Firmino Ribeiro, Katia Motylova-Babinska, Laetitia Vançon, Lena Ruzhytska, Lia Dostlieva, Michał Łuczak, Nouf Aljowaysir, Nuno Félix da Costa, Osheen Harruthoonyan, Rita Magalhães, Roger Grasas, Sadith Silvano, Seif Kousmate, Ska Batista, Tânia Dinis, Tashiya de Mel, Yunping Li e outros
Avintes, Braga, Guimarães, Porto e Vila Verde
18 Set > 01 Nov 2026
A fotografia volta a tomar conta de Braga e de uma geografia que se estende, nesta 36.ª edição dos Encontros da Imagem, a Avintes, Guimarães, Porto e Vila Verde, confirmando a dimensão de um Festival que há muito ultrapassou as fronteiras da cidade que o viu nascer. Desde 1987, os Encontros da Imagem têm desempenhado um papel determinante na divulgação da fotografia em Portugal, criando oportunidades de contacto entre autores consagrados e emergentes, promovendo o pensamento crítico e aproximando o público das múltiplas possibilidades da imagem contemporânea. Num panorama internacional marcado pela proliferação de festivais e pela crescente permeabilidade entre fotografia, instalação, vídeo e outras práticas artísticas, Braga conserva uma identidade própria, alicerçada na descoberta de novos autores, no diálogo entre diferentes gerações e na capacidade de transformar a exposição num espaço de reflexão sobre o presente. A presente edição propõe um exercício de imaginação perante um mundo em permanente mutação, no qual as fronteiras entre comunidades, culturas e espécies se tornam cada vez mais difíceis de delimitar. A ideia de uma humanidade ligada por experiências comuns, mas ainda incapaz de encontrar uma linguagem universal de solidariedade, atravessa uma programação que convoca a memória, a migração, a identidade, o colonialismo e a emergência climática. Mais do que uma sucessão de exposições, os Encontros constituem, assim, um mapa de inquietações contemporâneas, onde a fotografia não se limita a documentar o mundo, interrogando-o, desarrumando as suas certezas e ensaiando outras formas de o imaginar.
Um dia dedicado aos Encontros poderá começar no Mosteiro de Tibães com um conjunto de propostas onde a relação entre natureza, memória e intervenção humana adquire uma dimensão central. Sob o título “Enchanted Lands”, vários projectos cruzam a observação documental com experiências visuais que questionam a fragilidade dos ecossistemas e a forma como as comunidades se relacionam com o meio envolvente. Em “Dream to heal Glaciers”, Ciril Jazbec acompanha populações que procuram adaptar-se ao desaparecimento dos glaciares, mostrando como soluções inspiradas no conhecimento tradicional e na inovação científica podem abrir possibilidades de sobrevivência perante a escassez de água. Seif Kousmate, em “Waha”, olha para os oásis marroquinos como sistemas delicados, sustentados por equilíbrios entre água, solo, vegetação e saberes ancestrais, enquanto Giorgia Severi, em “Jaya”, denuncia as ameaças à biodiversidade da Papua Ocidental, dos recifes de coral às florestas tropicais. A dimensão humana da exploração do território surge, por sua vez, em “Extraction”, de Michał Łuczak, um registo da Alta Silésia polaca, onde mais de dois séculos de mineração deixaram marcas na paisagem, na arquitectura e no próprio ar respirado pelas populações. Fotografia, bordado e outras linguagens encontram-se ainda em “Portraits of the Multiverse”, de Ana Elisa Sotelo e Sadith Silvano, num diálogo entre imagens da Amazónia e a arte ancestral Kené dos Shipibo, que procura tornar perceptível uma realidade para lá do visível imediato. Reunidos, estes trabalhos recusam a separação confortável entre humanidade e natureza, ao encontro de territórios vivos, mas ameaçados, ao mesmo tempo que recordam que qualquer projecto de futuro depende da capacidade de reconhecer as relações de interdependência que sustentam a existência.
Rumamos agora ao centro da cidade de Braga e ao Museu Nogueira da Silva, onde “Utopia”, de Cooper & Gorfer, e “Pomizh - in-between”, de Lena Ruzhytska, colocam a identidade e a deslocação no centro da experiência. Em “Utopia”, retratos de mulheres jovens cujas vidas foram atravessadas pela migração forçada surgem integrados em cenários arquitectónicos construídos por sobreposições, recortes e colagens. As protagonistas parecem habitar um teatro de paredes, portas e jardins imaginários, simultaneamente refúgio e labirinto, onde a possibilidade de recomeçar permanece tão sedutora quanto incerta. A utopia não surge como promessa ingénua, mas como necessidade de reconstrução perante um mundo que parece ter perdido a capacidade de sonhar em comum. Já Lena Ruzhytska oferece-nos uma experiência mais íntima da condição de estar entre dois lugares. A partir da fotografia analógica, de desenhos, notas pessoais e entrevistas, a artista ucraniana constrói um diário fragmentário que oscila entre Kiev e Portugal, entre a vida que prossegue e a ameaça que nunca desaparece por completo. O quotidiano, as tradições familiares e as viagens de regresso adquirem um peso novo quando a guerra altera a relação com o que antes parecia garantido. Daqui, o percurso poderá prosseguir até ao gnration, onde Laetitia Vançon, em “Tribute to Odesa & The Other Battlefields”, acompanha uma geração ucraniana confrontada com futuros interrompidos. Longe das imagens espectaculares da frente de combate, os retratos revelam a resistência silenciosa de quem continua a estudar, a amar e a construir projectos de vida. É na persistência destes gestos comuns, ameaçados mas não anulados, que a fotógrafa encontra uma das imagens mais poderosas da guerra.
O Museu da Imagem oferece um contraponto histórico e político através de “Imagined Territories”, conjunto de trabalhos que questiona a forma como as imagens constroem a memória e perpetuam relações de poder. Em “To Taste a Bittersweet History”, Tashiya de Mel parte da história da canela no Sri Lanka para revisitar a presença colonial neerlandesa e as narrativas que persistem, de forma desigual, na memória colectiva. Nouf Aljowaysir, em “Salaf”, recorre à inteligência artificial para expor as ausências e os enviesamentos dos arquivos visuais sobre o Médio Oriente, interrogando a reprodução contemporânea de antigos olhares orientalistas. Já “Horizon Denied”, de Alwin Maigler, confronta a herança colonial alemã na Namíbia através de imagens que desestabilizam a orientação e recusam a paisagem como território disponível para apropriação. O percurso poderá terminar no Palácio do Raio, onde “Growing Pains” reúne obras de artistas de origem ucraniana que abordam a transmissão do trauma entre gerações, a memória familiar e a dificuldade de separar identidade e herança política. Entre a alimentação, o corpo, os objectos e as histórias de mulheres deslocadas, a guerra revela-se uma presença que atravessa até os espaços mais íntimos. É precisamente esta capacidade de fazer dialogar o global e o particular, o político e o afectivo, que dá consistência à 36.ª edição dos Encontros. Um dia dificilmente bastará para esgotar os Encontros da Imagem, tanto mais que a programação se estende a outros núcleos e cidades; será, contudo, suficiente para perceber que a fotografia permanece um instrumento privilegiado de questionamento. Não porque ofereça respostas definitivas, mas porque nos obriga a olhar de novo, a reconhecer o que ficou fora do enquadramento e a imaginar, com maior consciência, outras formas de habitar o mundo.



