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domingo, 5 de julho de 2026

CONCERTO: radio.string.quartet



CONCERTO: radio.string.quartet
Com | Bernie Mallinger (violino, sansula, voz, electrónica), Cynthia Liao (viola, voz), Sophie Abraham (violoncelo, garrafas, voz), Igmar Jenner (violino, electrónica)
FIME - 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
03 Jul 2026 | sex | 21:30


Não saíram goradas as expectativas daqueles que, na noite da passada sexta-feira, acorreram ao Auditório de Espinho confiantes na possibilidade de assistir a um dos momentos mais singulares da presente edição do FIME. Sediados em Viena, os radio.string.quartet têm vindo, desde a sua fundação, a afirmar-se como uma das formações mais inventivas do panorama europeu, desafiando sistematicamente as fronteiras entre a música erudita, o jazz, a improvisação e a electrónica. Ao contrário de muitos quartetos contemporâneos que se limitam à interpretação do repertório clássico, o agrupamento austríaco parte das obras originais para as recriar, cruzando épocas, linguagens e referências, acrescentando-lhes novas camadas de significado sem jamais perder de vista a sua identidade. O resultado é um exercício de rara inteligência musical, onde imaginação, rigor técnico, bom gosto e um subtil sentido de humor convivem em absoluto equilíbrio. Em perfeita sintonia com o espírito do FIME, os radio.string.quartet ofereceram um concerto marcado pela imprevisibilidade e pela inovação, envolvendo uma plateia que faz do eclectismo uma marca da sua escuta e que respondeu, desde os primeiros compassos, com manifesta curiosidade e entusiasmo às sucessivas surpresas de um programa que recusou, do princípio ao fim, qualquer forma de convencionalismo.

A primeira parte do concerto recuperou o mais recente trabalho discográfico do quarteto, “aERO – four seasons VOL.1”, revisitando o universo das “Quatro Estações”, de Antonio Vivaldi. Sem comprometer ou desfigurar as linhas melódicas ou a arquitectura harmónica da obra original, Bernie Mallinger, Igmar Jenner, Cynthia Liao e Sophie Abraham expandiram-lhe o horizonte expressivo através de uma abordagem profundamente criativa, onde a improvisação assumiu um papel central. Muito distante da imagem tradicional dos músicos imóveis perante a partitura, o quarteto revelou uma comunicação permanente entre os seus elementos, transformando cada olhar, cada gesto e cada silêncio em matéria musical. A exuberância rítmica da “Primavera” e do “Verão” alternou com momentos de grande introspecção, desenhando um percurso sonoro pelo interior de cada um dos presentes, non qual avultou uma notável riqueza tímbrica e emocional. A utilização discreta da electrónica permitiu ampliar as sonoridades e multiplicar as possibilidades expressivas do conjunto, sem nunca ocultar a beleza natural dos instrumentos acústicos. O resultado foi uma leitura simultaneamente fiel e ousada, capaz de revelar facetas inesperadas de uma obra tantas vezes escutada, confirmando a excepcional maturidade artística do quarteto.

O ambiente barroco prolongou-se na segunda parte do programa com “B:A:C:H: – like waters”, trabalho editado em 2022 e inspirado na célebre “Sonata para Violino em Sol menor”, de Johann Sebastian Bach. Mais do que uma simples adaptação, a proposta dos radio.string.quartet mostrou-se capaz de traduzir a linguagem do compositor para o século XXI através de um discurso profundamente pessoal, preservando intacta a essência da escrita bachiana, ao mesmo tempo que a envolvia numa estética próxima do jazz contemporâneo e da música experimental. A metáfora da água, fio condutor de toda a obra, conduziu o público numa narrativa musical que partiu da luminosidade de “High Altitude Euphoria”, percorreu sucessivas paisagens sonoras e culminou num arrebatador “Presto”, onde a corrente inicial se transformou numa autêntica torrente de energia e virtuosismo. Ficou assim demonstrado que a tradição pode permanecer bem viva quando colocada nas mãos de intérpretes capazes de dialogar com ela sem receios nem excessiva reverência. O aplauso prolongado da assistência justificou um encore particularmente feliz, com “Song – Ode an den Freud”, do álbum Radiodream (2011), encerrando uma noite em que a liberdade criativa e a excelência interpretativa caminharam lado a lado e confirmaram os radio.string.quartet como uma das propostas mais estimulantes da actual cena musical europeia.

sábado, 4 de julho de 2026

LIVRO: “Na Tua Mão” | Hélder Teixeira Aguiar



LIVRO: “Na Tua Mão”,
de Hélder Teixeira Aguiar
Edição | Manuel S. Fonseca
Ed. Gradiva Publicações, Maio de 2026


“O estampido fez-me desabar para trás. Porém, o som mais definitivo foi outro. O Bakari a desabar ao meu lado. Como um saco atirado ao chão. Uma coisa desprovida de serventia, arremessada para o lodo. Tal como o Neomar Lander, cuspido para o asfalto do país que tentava salvar aos dezassete anos, o Bakari foi morto por não ter vinte dólares para uma maçã. A pulseira da Clarisse, de onze anos como o Gonzo, não aguentou mais e rebentou. As contas espraiaram-se como estrelas coloridas sobre a terra húmida. Uma delas, pequenina e vermelha, desceu por um fino carreiro. Apreciei-a a rolar, devagar, cada vez mais devagar, como se o tempo inteiro do mundo a soprasse, até se deter aos meus pés. Vinte dólares. Uma maçã. Seis irmãos à espera. Dobrei-me e apanhei a conta. Apertei-a até sentir que me cortava. Até sentir alguma coisa.”

Os livros não chegam para explicar o mundo, mas talvez possam ensinar-nos a habitá-lo de uma outra forma. “Na Tua Mão” é um desses livros. Na sua origem está um sobressalto de consciência: a descoberta de Darién, um lugar onde a floresta deixa de ser paisagem para assumir o rosto de um juízo permanente sobre a humanidade. À voz daqueles que insistem em chamar a atenção para os riscos que correm os migrantes que se aventuram “na mais perigosa selva da América Latina”, decidiu o médico e escritor Hélder Teixeira Aguiar unir a sua, não com o ruído da indignação, antes com a escuta demorada da literatura. Desse labor metódico resulta um livro que soma, de forma equilibrada, documentação e emoção. Assente numa investigação rigorosa - ONU, Médicos Sem Fronteiras, Human Rights Watch, testemunhos, vídeos, grupos de migrantes -, o romance socorre-se dos factos para sustentar as personagens, enquanto a estatística se dissolve em rostos, nomes, gestos e perdas. Mais do que um espaço geográfico, a selva torna-se entidade moral, uma força que põe continuamente à prova aquilo que ainda resta de humano nos que a percorrem. E, por extensão, em cada um de nós, leitores.

Contar uma tragédia global através de um vínculo íntimo revela-se uma opção determinante para a dimensão ética e moral do livro. A narrativa converge na relação entre os irmãos Rúben e Gonzalo, um verdadeiro “exército de dois” que funciona como espelho da fraternidade, da infância roubada e da resistência. É desse movimento de aproximação que nasce o romance e se espalha por mais de trezentas páginas. Hélder Teixeira Aguiar procura caminhar com os migrantes mais do que falar sobre eles, restituindo rosto ao invisível e devolvendo as palavras a quem tantas vezes apenas conheceu o idioma da perda. Essa dimensão afectiva impede o romance de cair na espectacularização da violência: cada morte importa porque encontra relação numa conversa, numa piada, numa música, num rosto, num sonho. A escrita acompanha esse gesto com uma serenidade invulgar. Nunca cede ao excesso porque sabe que há dores que recusam qualquer amplificação. Prefere a luz breve dos detalhes, como quem acende uma chama na escuridão: uma pulseira desfeita na lama, um desenho partilhado junto à fogueira, sete mulheres que, no coração da selva, encontram tempo para cuidar dos cabelos umas das outras.

A linguagem é talvez o aspecto mais distintivo do romance. Hélder Teixeira Aguiar escreve com uma depuração invulgar, fazendo oscilar o texto entre frases de grande densidade poética e uma oralidade espontânea, onde convivem o português e o espanhol venezuelano sem que um anule o outro. “Pajúo”, “chamo”, “pana”, “naguará” inscrevem-se com naturalidade no discurso, tal como “saudade”, “fado” ou “desenrascar”. Mais do que um recurso estilístico, esta convivência linguística traduz uma identidade híbrida, feita de duas pátrias, duas memórias e duas formas de sentir. A belíssima reflexão sobre “o mar” e “la mar” é disso um exemplo maior. Há emoções que só encontram morada numa determinada palavra, como se a linguagem transportasse consigo uma maneira própria de respirar o mundo. Também por isso a literatura atravessa estas páginas com naturalidade, ao lado da música, dos poemas e dos livros que acompanham os viajantes como um último abrigo. E mesmo quando tudo lhes é retirado, permanece aquilo que aprenderam a amar e que constitui a mais discreta forma de esperança: o saber que a verdadeira bagagem nunca cabe dentro de uma mochila.

Outro elemento estruturante é o imaginário dos videojogos. O mundo dos dois irmãos é continuamente interpretado como um jogo sem manual de instruções: níveis, modo iniciante, non-player character, vidas limitadas, boss final, nível secreto, bugs, botão de pausa, comando. Hélder Teixeira Aguiar não lança mão deste recurso como se de um simples artifício geracional se tratasse, antes como linguagem através da qual duas crianças conseguem enfrentar um universo absurdo. Cada leitor perceberá que, ao contrário dos videojogos, aqui não existem resets nem segundas oportunidades, mas esta é uma estratégia de sobrevivência perante as ameaças constantes à integridade e capacidade de resistência destas crianças. Também a cultura não é aqui ornamento. Referências a “À Espera do Centeio”, “Pedro Páramo”, “A Mensagem”, “As Aventuras de Huckleberry Finn” ou a um poema de Sophia são formas de diálogo com o percurso das personagens, tal como a banda sonora - “Residente”, entre muitos outros temas - acompanha emocionalmente a narrativa. Literatura e música funcionam como pequenos refúgios contra a barbárie, lembrando que a beleza continua a existir mesmo quando tudo parece perdido.

Falta falar do humanismo do romance, o seu aspecto mais marcante. O livro não vive de heróis perfeitos ou de vilões simplificados. Há migrantes e guias, indígenas e “coiotes”, africanos, sírios, bengalis, cada um trazendo consigo uma história que desmonta fronteiras e nacionalidades. O romance insiste numa ideia profundamente ética: ninguém é apenas um número, um fluxo migratório ou uma notícia. Cada pessoa transporta uma vida inteira “na mão” - expressão que ganha uma força simbólica extraordinária à medida que o romance avança. No fim, compreenderemos que a travessia de Darién é maior do que Darién. Violenta e inóspita, a selva existe feita de árvores que escondem o sol, de rios que reclamam vidas, de homens que esqueceram a compaixão. Mas nela reside também uma geografia invisível, feita de gestos de cuidado, de mãos estendidas, de palavras que confortam e impedem o desespero de se tornar absoluto. “Na Tua Mão” não oferece respostas fáceis nem consolações apressadas. Mas dá-nos algo único e verdadeiramente precioso: a possibilidade de reconhecer no destino do outro uma mão cheia de perguntas dirigidas à nossa própria consciência. Será essa, hoje e sempre, a tarefa mais silenciosa e mais necessária da literatura.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

VISITA GUIADA: Rota Machadiana | Baeza



VISITA GUIADA: Rota Machadiana em Baeza
Vários locais


“ ¡Campo de Baeza,
soñaré contigo
cuando no te vea!
Antonio Machado. Apuntes II. Nuevas Canciones (1924)

O ponto de partida ideal para descobrir a profunda ligação entre Antonio Machado e a cidade de Baeza, na Província de Jaén, é o Centro Expositivo dedicado ao poeta, instalado no edifício da antiga Universidade, onde funcionou o Instituto de Ensino Secundário em que leccionou Francês entre 1912 e 1919. Mais do que um espaço museológico convencional, trata-se de um centro interpretativo que convida o visitante a compreender a dimensão humana, literária e pedagógica de um dos maiores nomes da Geração de 98. Através de recursos interactivos, documentos históricos, fotografias, objectos da época e conteúdos audiovisuais, o percurso revela o quotidiano de Machado enquanto professor e cidadão, contextualizando simultaneamente a sociedade espanhola do início do século XX. A exposição permite perceber como aqueles sete anos passados em Baeza, marcados pela dor da perda da jovem esposa Leonor Izquierdo, acabariam por transformar-se num dos períodos mais fecundos da sua produção literária. É também um excelente complemento à visita da antiga sala de aulas, preservada praticamente intacta, onde ainda hoje permanecem os mapas, a secretária do professor e a atmosfera que parece conservar viva a memória de um mestre discreto, mas profundamente respeitado.

A permanência de Antonio Machado em Baeza deixou marcas muito para além das paredes da antiga Universidade. O poeta encontrou numa cidade ainda distante dos grandes centros culturais um inesperado refúgio para reconstruir a sua vida, conciliando o ensino com uma intensa actividade intelectual. Aos poucos integrou-se na sociedade baezana, participou em tertúlias literárias, conviveu com professores, médicos, advogados e farmacêuticos, e continuou a desenvolver uma obra que haveria de marcar definitivamente a literatura espanhola contemporânea. Ao mesmo tempo, foi descobrindo uma cidade de extraordinária riqueza patrimonial, onde palácios renascentistas, igrejas, conventos e ruas empedradas dialogam harmoniosamente com uma paisagem infinita de olivais. Não surpreende, por isso, que o centro histórico de Baeza tenha sido distinguido como Património Mundial pela UNESCO, reconhecimento que valoriza um dos mais notáveis conjuntos urbanos renascentistas de Espanha.

Essa presença permanece particularmente visível nos chamados lugares machadianos, dispersos pelo centro histórico. A poucos metros da antiga Universidade encontra-se a Plaza de Santa María, dominada pela majestosa Catedral, cenário quotidiano das caminhadas do poeta e um dos espaços mais emblemáticos da cidade. Muito perto fica a casa da Calle Gaspar Becerra, onde Machado viveu com a mãe durante parte da sua estadia em Baeza, assinalada por uma placa evocativa. Na Calle San Pablo ergue-se a escultura em bronze que o representa serenamente sentado diante do antigo Casino, edifício que frequentava e onde, em 1916, conheceu Federico García Lorca. Outro ponto incontornável é o Paseo de las Murallas, hoje baptizado com o seu nome, de onde contemplava durante horas o vasto mar de oliveiras que cobre a província de Jaén. É um percurso onde património monumental e património literário se fundem numa única experiência, permitindo compreender porque continua esta cidade andaluza a ser uma das mais marcantes referências do turismo cultural e literário em Espanha.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

LUGARES: Medina Azahara



LUGARES: Medina Azahara
Carretera Palma del Río, km 5, Córdoba
Horário | De terça-feira a domingo, das 09h00 às 18h00
Ingressos | € 32,00 (bilhete normal, inclui transporte de ida e volta a partir de Córdova, autocarro entre o Centro Interpretativo e o início da visita, entrada no conjunto arqueológico e guia)


É no ponto mais elevado dessa extraordinária cidade palatina que é a Medina Azahara, declarada Património Mundial pela UNESCO em 2018, que tem início a nossa visita. Erguida a partir de 936 por ordem do califa Abd-al Rahman III, nas encostas da Serra Morena, a escassos quilómetros de Córdova, a antiga Madinat al-Zahra continua a revelar a ambição política de um soberano que quis transformar a capital do Califado do al-Andalus numa afirmação monumental de poder, riqueza e prestígio. Com cerca de 112 hectares - dos quais apenas uma pequena percentagem se encontra escavada - é hoje a segunda maior jazida arqueológica da Europa, apenas ultrapassada por Pompeia. É daqui, da chamada Dar al-Mulk, a “Morada do Poder”, que o olhar alcança o vale do Guadalquivir e compreende a lógica desta cidade desenhada em socalcos: no topo, a residência privada do califa, as dependências da família real e o centro do governo; mais abaixo, a cidade administrativa e, finalmente, as zonas de serviço e de apoio, o todo ligado por ruas, terraços e pátios que se estendem harmoniosamente pela encosta.

Descendo pelas antigas vias empedradas, o silêncio das ruínas deixa adivinhar o ritmo de uma cidade que, durante pouco mais de setenta anos, concentrou o coração político e administrativo do mais poderoso Estado da Península Ibérica. Entre muros de arenito cuidadosamente aparelhado, surgem os vestígios das residências dos altos dignitários, dos corpos da guarda, das cavalariças, das cozinhas, dos armazéns e das dependências onde se organizava o complexo funcionamento da corte. Por aqui circulavam funcionários, soldados, artesãos, criados e emissários vindos de todo o Mediterrâneo e da Europa Central, recebidos segundo um protocolo rigoroso que fazia da própria arquitectura um instrumento de exaltação do califa. A água, conduzida através de antigos aquedutos romanos adaptados aos novos tempos, alimentava fontes, tanques e jardins, enquanto três grandes pontes asseguravam a ligação permanente entre a Medina e Córdova, integrando a cidade num território cuidadosamente planeado.

À medida que o percurso prossegue, percebem-se pátios luminosos, terraços escalonados e jardins que outrora combinavam a imponência da pedra com o verde das árvores, o perfume das flores e o reflexo da água. As colunas de mármore branco vindas de Estremoz, os capitéis delicadamente esculpidos, os pavimentos polidos e os estuques pintados testemunham o requinte artístico atingido pelos mestres califais, capazes de transformar cada espaço numa demonstração de sofisticação e requinte. A abundância de motivos vegetalistas, os célebres atauriques, parecem prolongar a natureza pelas paredes dos edifícios, criando uma ilusão de continuidade entre arquitectura e paisagem. Não admira que as crónicas árabes tenham envolvido Medina Azahara em lendas de salões cintilantes, lagos de mercúrio e coberturas de ouro. Apesar do exagero literário, basta percorrer estas ruínas para perceber que poucas cidades medievais terão impressionado tanto os seus contemporâneos.

A visita culmina no célebre Salão Rico, a verdadeira jóia arquitectónica da Medina Azahara e um dos mais extraordinários testemunhos da arte islâmica ocidental. Reconstruído com rigor a partir das escavações conduzidas por Félix Hernández, este espaço de recepção conserva uma decoração esculpida de espantosa delicadeza, onde praticamente não existem dois motivos iguais. Diante do grande jardim e do espelho de água que lhe serviam de cenário, aqui se desenrolavam as cerimónias oficiais que projectavam a autoridade do califa perante embaixadores estrangeiros e representantes das mais diversas regiões do mundo conhecido. Tudo obedecia a uma encenação minuciosa: a disposição dos dignitários, a abertura das portas para os jardins, os discursos, os poemas e os gestos cuidadosamente regulados pelo protocolo. Poucas décadas depois, a guerra civil que destruiu o Califado Omíada condenaria Medina Azahara ao abandono, ao saque e ao esquecimento. Mas é precisamente esse contraste entre o esplendor efémero e a permanência das suas ruínas que continua hoje a fazer desta cidade um lugar de beleza irreal e fascínio ímpar.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

LUGARES: Museu Picasso | Málaga



LUGARES: Museu Picasso, Málaga
Palacio de Buenavista, Calle San Agustín 8, Málaga
Horários | Todos os dias, das 10:00 às 19:00
Ingressos | € 13,00 (bilhete normal); € 11,00 (preço reduzido)


Entrar no Museu Picasso de Málaga representa um regresso às origens de um dos maiores nomes da arte do século XX. Instalado no Palácio de Buenavista, um edifício renascentista erguido sobre vestígios romanos e árabes, o Museu convida o visitante a compreender como a cidade natal marcou profundamente o percurso de Pablo Picasso. Embora o pintor tenha passado grande parte da sua vida entre Paris, Barcelona e a Côte d'Azur, Málaga permaneceu como uma memória constante, feita de luz mediterrânica, de touradas, de pombas e de cenas populares que atravessam a sua obra. O início da visita é marcado por esse diálogo profícuo, as paredes seculares a acolherem uma colecção que não pretende impressionar pela quantidade, antes pela capacidade de revelar a permanente inquietação criativa do artista. À medida que se percorrem as primeiras salas, percebe-se que Picasso nunca permaneceu imóvel. Cada pintura, desenho, gravura ou escultura representa uma etapa de uma investigação incessante sobre a forma, a cor e a representação figurativa, oferecendo ao visitante uma leitura cronológica, mas também emocional, da sua extraordinária evolução artística.

Prosseguindo o percurso, o Museu mostra como a reinvenção foi a verdadeira assinatura de Picasso. Das primeiras experiências académicas aos períodos mais experimentais, cada núcleo evidencia a facilidade com que o artista abandonava soluções já dominadas para explorar linguagens completamente novas. Ao lado de esculturas de surpreendente simplicidade, encontra o visitante pinturas de grande delicadeza, cerâmicas que revelam um espírito lúdico e gravuras onde o traço parece condensar décadas de reflexão artística. Um dos grandes méritos da exposição reside precisamente nessa diversidade de suportes, permitindo compreender que Picasso sempre rejeitou quaisquer fronteiras entre disciplinas. Ao longo da visita, sobressai igualmente a influência de mestres como Velázquez, Goya ou El Greco, reinterpretados através de um olhar profundamente moderno. Em vez de romper com a tradição, Picasso apropriou-se dela para construir uma linguagem singular, onde convivem o cubismo, o classicismo, o simbolismo e uma permanente vontade de experimentação. Cada sala convida a observar demoradamente os detalhes, porque quase todas as obras escondem referências, citações ou jogos visuais que recompensam um olhar atento.

A visita termina com a sensação de que o Museu não procura apenas celebrar um génio universal, mas explicar o processo criativo de um artista incapaz de repetir fórmulas. Mais do que uma sucessão de obras-primas, o percurso constitui uma narrativa sobre a liberdade artística e sobre a coragem de transformar continuamente a própria linguagem. Ao sair para o pátio interior do Palácio de Buenavista, vale a pena recordar que este museu nasceu graças ao desejo da família de Picasso de devolver parte da sua obra à cidade onde tudo teve o seu início, vincando uma ligação afectiva entre Málaga e aquele que se tornou um dos seus maiores embaixadores culturais. Para quem visita a cidade, esta não é apenas uma etapa obrigatória do roteiro artístico andaluz; é uma oportunidade para compreender que a verdadeira dimensão de Picasso reside menos na criação de um estilo do que na permanente recusa de qualquer limite. É precisamente essa inquietação, patente em cada sala e em cada obra, que faz do Museu Picasso uma experiência capaz de surpreender tanto os conhecedores da sua produção como quem a descobre pela primeira vez.

terça-feira, 30 de junho de 2026

CONCERTO: Elias David Moncado & Thomas Hoppe



CONCERTO: Elias David Moncado & Thomas Hoppe
Com | Elias David Moncado (violino) e Thomas Hoppe (piano)
FIME – 52º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
27 Jun 2026 | Sab | 21:30


O Festival Internacional de Música de Espinho persiste em afirmar, ano após ano, o estatuto que conquistou desde a sua criação, em 1964, como um marco incontornável da vida cultural da cidade e uma referência maior no panorama musical português. A abrir o segundo fim-de-semana da 52.ª edição do FIME, o Auditório de Espinho acolheu um recital de invulgar qualidade protagonizado pelo violinista Elias David Moncado e pelo pianista Thomas Hoppe, dois intérpretes de gerações distintas, mas artisticamente cúmplices, que ofereceram uma leitura exigente e profundamente expressiva de um programa tão diversificado quanto coerente. Do romantismo intimista de Johannes Brahms ao refinamento modernista de Maurice Ravel, passando pela monumental sonata de César Franck e culminando na exuberante “Carmen Fantasia” de Franz Waxman, o concerto revelou-se uma demonstração de virtuosismo ao serviço da música. A elegância da construção do programa permitiu estabelecer pontes entre diferentes linguagens estéticas, oferecendo ao público uma viagem por quase um século de criação musical.

A primeira parte evidenciou, desde logo, a maturidade interpretativa da dupla de intérpretes. Na “Sonata para violino e piano n.º 2, em Lá maior, Op. 100” de Johannes Brahms, Moncado fez sobressair um fraseado luminoso, de grande naturalidade, encontrando em Thomas Hoppe um parceiro de notável sensibilidade, cuja presença ao piano se afirmou muito para além do simples acompanhamento. O equilíbrio entre ambos revelou-se exemplar, permitindo que cada linha melódica respirasse com liberdade, num permanente diálogo de intenções e de cores tímbricas. A transição para a “Sonata para violino e piano n.º 2, em Sol maior, M. 77”, de Maurice Ravel, representou uma mudança radical de universo sonoro, explorada com inteligência e rigor. As influências jazzísticas do célebre andamento “Blues” foram abordadas com subtileza, evitando qualquer caricatura estilística, enquanto o fulgurante “Perpetuum mobile” colocou em evidência a extraordinária segurança técnica de Moncado, apoiada por um piano de impressionante precisão rítmica e clareza estrutural.

Após o intervalo assistiu-se ao momento alto do concerto, com a monumental “Sonata para violino e piano, em Lá maior”, de César Franck, a confirmar a profundidade artística da parceria, numa interpretação que conciliou intensidade emocional, amplitude arquitectónica e permanente sentido narrativo. A progressão cíclica da obra encontrou nos dois músicos uma leitura de grande unidade, sustentada por um equilíbrio exemplar entre tensão e lirismo, sem nunca perder a clareza das diferentes camadas discursivas. Thomas Hoppe voltou a afirmar-se como um pianista de recursos extraordinários, capaz de conjugar potência sonora com delicadeza de toque, enquanto Elias David Moncado impressionou pela riqueza tímbrica, pela afinação irrepreensível e pela expressividade de um som simultaneamente nobre e incisivo. O concerto encerrou com a arrebatadora “Carmen Fantasia”, de Franz Waxman, na célebre transcrição de Jascha Heifetz, autêntico desafio técnico que ambos superaram com assinalável brilhantismo. O prolongado aplauso da assistência confirmou o êxito de uma noite que honrou plenamente a tradição de excelência do Festival Internacional de Música de Espinho.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

CONCERTO: Raül Refree & Maria Mazzotta



CONCERTO: Raül Refree & Maria Mazzotta
Com | Raül Refree (guitarra flamenca, órgão vintage) e Maria Mazzotta (voz)
Festim - Festival Intermunicipal de Músicas do Mundo
Fábrica das Ideias, Gafanha da Nazaré
26 Jun 2026 | sex | 22:00


A abrir mais um fim de semana do 17.º FESTIM – Festival Intermunicipal de Músicas do Mundo, o concerto de Raül Refree e Maria Mazzotta trouxe à Fábrica das Ideias, na Gafanha da Nazaré, um dos momentos mais aguardados da presente edição. A pouca afluência de espectadores contrastou com a excepcionalidade da proposta, que reuniu duas figuras maiores da música europeia contemporânea: de um lado, Raül Refree, compositor e produtor catalão cuja inquietação criativa o levou a colaborar com nomes como Rosalía ou Sílvia Pérez Cruz; e, do outro, Maria Mazzotta, uma das vozes mais extraordinárias dos cantares da Apúlia e referência incontornável da actual cena da música de raiz tradicional. Unidos em torno de “San Paolo di Galatina”, disco editado em Janeiro deste ano, ambos apresentaram uma leitura profundamente pessoal da tradição musical salentina, cujos repertórios transmitidos oralmente souberam metamorfosear-se sem perderem a sua identidade. A partir de uma linguagem que cruza instrumentos clássicos, música litúrgica e subtis ambientes sonoros, o concerto traçou um percurso onde religião, trabalho, sofrimento e luto se transformaram numa celebração colectiva da memória e da capacidade regeneradora da música.

No centro de tudo esteve Maria Mazzotta. A cantora italiana confirmou possuir uma capacidade interpretativa verdadeiramente única, emprestando a cada um dos temas uma intensidade emocional que ultrapassa largamente qualquer exercício de virtuosismo vocal. Nela, cada palavra parece carregar um significado espiritual profundo, habitando um repertório onde tradição e vivência pessoal se tornam inseparáveis. A emoção tornou-se particularmente evidente em diversos momentos, levando a própria intérprete às lágrimas e arrastando consigo uma sala inteira para um estado de comovida suspensão. Temas como “Moroloja”, “Lunidia Matina”, “Damme nu Ricciu” ou “La Lettera” revelaram essa permanente tensão entre delicadeza e força ancestral, mas foi sobretudo em “I'tela na su po’” que o concerto atingiu um dos seus instantes mais memoráveis. A beleza melódica da composição, aliada à extraordinária entrega de Mazzotta, produziu um daqueles momentos raros em que a música parece suspender o tempo, afirmando-se como uma das mais impressionantes interpretações que este repertório tradicional pode hoje oferecer.

Ao lado dessa voz absolutamente magnética, Raül Refree revelou-se muito mais do que um simples acompanhante. A sua construção instrumental acrescentou sucessivas camadas tímbricas à palavra cantada, envolvendo-a numa arquitectura sonora densa, por vezes quase avassaladora, que reforçou o carácter litúrgico e ritual das composições. Se em determinados momentos essa abundância de texturas poderá ter parecido excessiva, rapidamente se percebeu que é precisamente essa complexidade que confere nova dimensão ao cancioneiro salentino, ampliando-lhe a força expressiva sem jamais apagar a sua essência. O concerto encontrou o seu desfecho natural em “San Paolo di Galatina”, quando Maria Mazzotta convidou o público a acompanhar o refrão - “Na na na, na e ná, na e ná, beddru è l'amore e ci lu sape fa’" - transformando uma audiência inicialmente reservada num coro cúmplice e emocionado. Foi a confirmação de que este projecto não procura apenas revisitar um património musical de enorme riqueza, mas demonstrar como a tradição continua a ser capaz de gerar comunhão, emoção e transformação, sempre que encontra intérpretes da dimensão artística e humana de Maria Mazzotta e Raül Refree.

domingo, 28 de junho de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #106



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #106
Com | Margarida Paias, Marcelo Pereira e Nevena Desivojević
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
25 Jun 2026 | qui | 21:30


Com a energia e a boa disposição que o caracterizam, o Shortcutz Ovar entrou na pausa estival da melhor forma, celebrando o cinema português em formato curto com a presença de três realizadores estreantes no certame. Explorando o imaginário, as emoções e as experiências associadas aos meses mais quentes do ano, Nevena Desivojević, Marcelo Pereira e Margarida Paias fizeram do Verão o verdadeiro protagonista da sessão, contaminando o ecrã e o espírito de um público atento e participativo que voltou a encher a acolhedora sala expande da Escola de Artes e Ofícios. Mais do que uma simples sessão competitiva, a noite transformou-se num espaço de encontro entre diferentes olhares sobre a memória, a identidade e a infância, convocando emoções e experiências partilhadas por todos. O entusiasmo do público, patente ao longo da sessão, confirmou, uma vez mais, a relevância que o Shortcutz Ovar assume no panorama cultural local, afirmando-se como um espaço privilegiado de diálogo entre criadores e espectadores e demonstrando a vitalidade de uma comunidade que continua a encontrar no cinema um pretexto para o convívio, a reflexão e a troca de ideias.

A abrir a sessão, “Dias de Verão” revelou a ambição de Nevena Desivojević em captar uma condição emocional e preservá-la para memória futura. O reencontro de duas irmãs, separadas durante anos, serve de ponto de partida para uma delicada reflexão sobre a forma como a distância transforma as relações e faz do passado o único território verdadeiramente comum. Filmado na Sérvia a partir da experiência pessoal da realizadora, o filme assume-se como uma obra feita longe de casa, mas extraordinariamente próxima do coração. A água percorre toda a narrativa como espaço simbólico onde memória, desejo e ausência se confundem. Discreta, a câmara aproxima cada plano de uma recordação em constante reconstrução, reforçando a natureza fragmentária da memória. Influenciada pelo cinema de Alexandr Sokurov - embora se percebam, entre outras, afinidades com a obra de Manoel de Oliveira, como uma espectadora, muito adequadamente, referiu -, Nevena Desivojević trabalha o tempo, o silêncio e a palavra com notável sensibilidade, construindo um filme subtil e contemplativo, onde aquilo que permanece por dizer adquire um peso que palavra alguma consegue substituir.

Se “Dias de Verão” assentou num registo intimista e contemplativo, “A Emancipação de Mimi”, primeira curta-metragem de Marcelo Pereira fora do contexto académico, imprimiu uma mudança de ritmo e conduziu a sessão para o território da comédia. Inteligente, mordaz e profundamente observadora, a obra parte das memórias de infância do realizador - antigo aluno de um colégio católico e, periodicamente, vendedor de calendários religiosos de porta em porta - para construir uma reflexão lúcida sobre os mecanismos da idolatria. Longe de ajustar contas com a educação religiosa que recebeu, Marcelo Pereira prefere olhar, com humor e inteligência, as fronteiras entre o sagrado e o profano, sugerindo que a devoção religiosa e o culto das celebridades respondem, afinal, a impulsos em tudo semelhantes. A irreverência da proposta motivou uma divertida provocação do moderador Tiago Alves - "Que heresia é esta?" -, sintetizando na perfeição o espírito do filme. Eleito pelo público como o melhor filme da sessão, “A Emancipação de Mimi” coloca a comédia no centro da narrativa - um género subestimado no panorama nacional - e confirma Marcelo Pereira como uma voz a ter em conta no seio da novíssima geração do cinema português.

A encerrar a noite, “Rui Carlos” mergulhou os espectadores nas memórias de infância do pai da realizadora e, atrevo-me a dizer, nas suas próprias memórias. Primeira curta-metragem de Margarida Paias, o filme constrói um retrato delicado e profundamente evocativo dos verões dos anos 80, quando a rua era território de descoberta, liberdade e cumplicidade. Entre jogos de futebol e pequenas aventuras quotidianas, recorda-nos que, apesar de as crianças de ontem e de hoje partilharem a mesma curiosidade perante o mundo, os contextos em que crescem moldam experiências profundamente distintas. A aparente simplicidade da narrativa encerra uma subtil reflexão sobre o instante em que a infância se confronta, pela primeira vez, com o peso da responsabilidade, simbolizado pela bola furada que deixa o Carlinhos sozinho perante um problema que já não pode ser resolvido apenas com a ajuda dos amigos. O argumento, cuidadosamente construído, confere autenticidade ao episódio vivido por Rui Carlos e reforça a dimensão afectiva da obra, assumida como uma homenagem ao pai da realizadora e, por extensão, a todos aqueles que prolongam a memória familiar através das histórias que contam aos filhos. Imaginativo, emotivo, terno e muito divertido, “Rui Carlos” foi o fecho perfeito de uma noite que abraçou, com nostalgia e doçura, as memórias de um tempo mais puro e mais livre.

sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: "Hoje, 3 de Maio" | Patrícia Portela



LIVRO: “Hoje, 3 de Maio”,
de Patrícia Portela
Ed. Editorial Caminho, Maio de 2026


“Para sobreviveres, tens de fuzilar ou ser fuzilado. E tu aceitas ou recusas a ordem dos eventos, mas não podes ficar indiferente. E por isso fuzilas(-te).
Numa praça, num tribunal, num parlamento, numa arena, mas também numa escola. Em casa, na rua, a caminho do trabalho, num lugar recôndito, num lugar público, num subterrâneo.
3 de maio repete-se. Hoje, amanhã e depois. Repetiu-se ontem. Repete-se sempre.”

Começarei por dizer que “Hoje, 3 de Maio” dificilmente existiria sem a atribuição a Patrícia Portela da 2.ª Bolsa Literária da Embaixada de Portugal em Espanha, o que permitiu à escritora passar um mês no Museu Nacional do Prado, em Madrid, durante o ano de 2022. Dessa convivência quotidiana com a pintura de Goya nasceu muito mais do que um exercício de interpretação histórica ou artística. Nasceu uma investigação sobre o olhar, sobre a memória e sobre a capacidade de preservarmos a nossa humanidade perante a repetição da barbárie. “Hoje, 3 de Maio” abre uma fissura no tempo. Patrícia Portela conduz o leitor numa viagem onde passado, presente e futuro coexistem em estado de permanente inquietação. Eternizado por Goya, o levantamento madrileno de 1808 não surge como mero episódio encerrado na moldura dos tempos, mas como uma ferida que não cessa de sangrar e doer. Mais do que narrar os factos, o romance interroga a sua própria natureza, lembrando que a verdade raramente avança em linha recta. Cada página funciona como uma câmara de ecos onde os mortos falam com os vivos, os vivos respondem aos que ainda estão por nascer e os acontecimentos reflectem-se uns nos outros, como espelhos colocados frente a frente e que fazem com que nos projectemos até ao infinito.

Além da densidade, acutilância e imaginação, a escrita de Patrícia Portela possui uma qualidade profundamente polifónica. Não se limita a contar: escuta. Escuta os carrascos e as vítimas, os fantasmas e os arquivos, os soldados e os pintores, os visitantes de museu e as mulheres que entram numa papelaria para levantar uma encomenda. As vozes sucedem-se, cruzam-se, contradizem-se, ampliam-se, formando uma composição coral de extraordinária complexidade. Há momentos em que a narrativa assume o tom de um depoimento histórico; noutros, mergulha no monólogo íntimo, na alucinação, na sátira ou na meditação filosófica. Daqui resulta uma obra onde cada discurso convoca um novo discurso, onde cada pergunta abre uma nova galeria de perguntas. Essa multiplicidade formal encontra correspondência numa impressionante diversidade de géneros. “Hoje, 3 de Maio” move-se com igual naturalidade entre o épico e o coloquial, a ficção e o ensaio, o lirismo e o drama, o thriller e a farsa. O livro é simultaneamente romance, investigação, elegia, manifesto e dispositivo cénico, o que vale por dizer que poucas obras contemporâneas dispõem de uma tão rara capacidade para mudar de registo sem perder unidade, fazendo da heterogeneidade uma forma superior de coerência.

Partindo da contemplação obsessiva de “Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808”, de Goya, a autora leva a que o livro se expanda até adquirir uma dimensão universal. O que tem numa tela o seu ponto de partida transforma-se numa cartografia da violência humana. As mães da Praça de Maio surgem ao lado das vítimas do genocídio em Gaza; Cristo perante Pilatos encontra-se com os escombros da Guerra da Ucrânia; o Massacre de Lisboa de 1506 dialoga com os instantes decisivos do 25 de Abril na Rua do Arsenal. Nada aqui é gratuito ou ornamental. Patrícia Portela estabelece ligações inesperadas entre acontecimentos separados por séculos e continentes, revelando continuidades morais que a História oficial, cada vez mais, procura ocultar. A sua escrita demonstra que a violência muda de uniforme, de língua e de bandeira, mas nunca abdica dos seus mecanismos fundamentais. O quadro de Goya converte-se, assim, numa espécie de espelho universal, onde regressam incessantemente as mesmas perguntas: quem dispara, quem obedece, quem observa, quem se insurge, quem se resigna, quem cala. O livro obriga-nos a reconhecer que a distância histórica não constitui uma absolvição e que a condição de espectador pode muito bem ser uma forma de cumplicidade.

“Hoje, 3 de Maio” demonstra que a literatura continua a ser um dos poucos lugares onde a complexidade do mundo pode manifestar-se sem rodeios. Nele, o tempo torna-se matéria porosa, atravessada por vozes, imagens e memórias que se contaminam mutuamente. Dessa recusa da linearidade nasce uma poderosa reflexão sobre a responsabilidade histórica, sobre aquilo que escolhemos recordar e sobre o que preferimos deixar afundar-se na sombra. Ler este livro é compreender que nenhum acontecimento termina verdadeiramente quando acaba; continua a reverberar através dos tempos, à espera de novos olhos que o reconheçam. Livro de pensamento e de imaginação, de indignação e de beleza, de arquivo e de vertigem, esta é uma obra de enorme generosidade, que agita e desassossega, mas que, como poucas, é absolutamente inspiradora, capaz de transformar uma pintura num tribunal moral e um instante histórico numa pergunta dirigida ao nosso próprio tempo. Ao fechar estas páginas, fica-se com a sensação de que Goya continua diante de nós, fósforo aceso na escuridão, pequenina luz bruxuleante que ilumina não apenas o que fomos, mas sobretudo o que somos e o que viremos a ser.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

VISITA GUIADA: Rota das Igrejas Fernandinas de Córdova



VISITA GUIADA: Rota das Igrejas Fernandinas
Ingressos | € 6,00, bilhete normal; € 15,00, incluindo entrada na Mesquita-Catedral de Córdova
Horários | De segunda a sexta-feira, das 10h00 às 14h00 e das 15h00 às 18h00 (horários sujeitos a cultos)
Site | https://mezquita-catedraldecordoba.es/en/


A Rota das Igrejas Fernandinas constitui um dos percursos patrimoniais mais fascinantes de Córdova, permitindo compreender a profunda transformação urbana e religiosa da cidade após a sua conquista por Fernando III de Castela, em 1236. As chamadas “igrejas fernandinas” nasceram de uma estratégia simultaneamente espiritual, política e territorial: consolidar o domínio cristão sobre uma cidade durante séculos marcada pela presença islâmica e reorganizar o espaço urbano através da criação de novas paróquias. Distribuídas pelos antigos bairros medievais, estas igrejas desempenharam um papel determinante na integração dos novos habitantes e na definição da identidade cristã da cidade. Mais do que simples templos, constituem marcos da reorganização social de Córdova no século XIII e testemunham um período de extraordinária convivência de influências arquitectónicas. Uma visita ao longo da rota permite descobrir edifícios que conjugam o gótico inicial castelhano com elementos mudéjares herdados da tradição construtiva islâmica, criando uma linguagem artística singular. Percorrer esta rota é, por isso, viajar por um momento decisivo da história andaluza, observando como a arquitectura se converteu num instrumento de afirmação política e cultural. Ao mesmo tempo, o conjunto revela uma surpreendente unidade estilística que transforma cada igreja numa peça essencial de um vasto mosaico patrimonial.

O itinerário pode ter o seu início na Igreja de San Nicolás de la Villa, uma das mais emblemáticas da cidade e excelente introdução ao universo fernandino. O primeiro elemento que capta a atenção é a sua imponente torre, construída já em época posterior, mas que domina visualmente o bairro envolvente. No interior, importa observar a estrutura sóbria das naves e a forma como o espaço conserva a clareza funcional típica das primeiras igrejas erguidas após a Reconquista. A poucos minutos encontra-se a Igreja de San Miguel, considerada um dos melhores exemplos do modelo arquitectónico fernandino. Aqui merecem especial atenção a fachada principal, de inspiração gótica, e os delicados elementos mudéjares que testemunham a permanência de mestres construtores islâmicos. O visitante atento descobrirá uma notável harmonia entre verticalidade e simplicidade decorativa. Segue-se a Igreja de San Juan y Todos los Santos, popularmente conhecida como Trinidad, cuja implantação urbana revela a importância da rede paroquial na organização da cidade medieval. O seu portal e a elegância das proporções arquitectónicas constituem pontos de observação obrigatórios para compreender a evolução estética destes templos ao longo dos séculos.

A etapa seguinte conduz às igrejas de San Pedro e de Santiago, dois dos espaços mais ricos da rota. A Igreja de San Pedro destaca-se pela monumentalidade da sua fachada e pela importância histórica associada ao culto dos Mártires de Córdova. O interior apresenta um interessante diálogo entre as sucessivas campanhas construtivas que enriqueceram o edifício ao longo dos séculos, sem lhe retirar a essência medieval. Vale a pena determo-nos na cabeceira e nos detalhes escultóricos preservados. Já a Igreja de Santiago constitui um dos mais belos exemplos da síntese entre o gótico e o mudéjar. A sua torre e o portal principal revelam uma notável elegância formal, enquanto o interior surpreende pela luminosidade e pela sensação de equilíbrio espacial. Estes dois monumentos permitem compreender como as igrejas fernandinas não foram construções estáticas, mas organismos vivos que acompanharam as transformações religiosas, artísticas e sociais da cidade. A observação cuidada dos materiais, dos arcos e dos sistemas decorativos oferece uma leitura privilegiada das influências culturais que marcaram a Andaluzia medieval.

Prosseguindo o percurso, surgem as igrejas de Santa Marina de Aguas Santas e de San Lorenzo, frequentemente consideradas entre as mais belas do conjunto. Santa Marina impressiona desde o primeiro olhar pela pureza das suas linhas arquitectónicas e pelo carácter fortificado da sua aparência exterior. A fachada principal é um extraordinário exemplo do gótico inicial andaluz, enquanto o interior preserva uma atmosfera de recolhimento que convida à contemplação. A Igreja de San Lorenzo, por seu lado, é célebre pela magnífica rosácea que ilumina a fachada principal e pela qualidade dos seus elementos decorativos. A riqueza visual deste templo permite perceber como algumas igrejas fernandinas alcançaram elevados níveis de sofisticação artística sem perder a sobriedade original. Durante a visita, é importante observar a integração destes edifícios no tecido urbano histórico, uma vez que cada um deles funcionava como centro de vida comunitária. As praças, ruas e antigos espaços de mercado que os rodeiam ajudam a reconstituir o quotidiano da Córdova medieval, acrescentando profundidade histórica à experiência patrimonial.

A conclusão da rota pode fazer-se nas igrejas de San Andrés e de San Pablo, esta última profundamente transformada mas igualmente reveladora da evolução histórica do conjunto. Em San Andrés destacam-se a serenidade do interior e a conservação de numerosos elementos medievais que permitem apreciar a autenticidade do modelo fernandino. San Pablo, associada ao antigo convento dominicano, testemunha uma fase posterior de enriquecimento monumental da cidade, funcionando como complemento ideal para compreender a diversidade patrimonial cordovesa. No final do percurso, torna-se evidente que as igrejas fernandinas são muito mais do que um conjunto de edifícios religiosos. Representam um capítulo fundamental da construção histórica de Córdova e constituem um dos mais completos laboratórios de observação da arquitectura medieval espanhola. Através delas é possível acompanhar o encontro entre tradições cristãs e islâmicas, compreender os mecanismos de reorganização urbana após a Reconquista e apreciar um legado artístico de enorme valor. Para o visitante contemporâneo, esta rota oferece uma leitura clara e envolvente da cidade, transformando cada igreja numa janela aberta sobre quase oito séculos de história.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

LUGARES: Igreja de San Nicolás, Granada



LUGARES: Igreja de San Nicolás
Calle Mirador de San Nicolás 1, Albaicín, Granada
Horários | Todos os dias, das 11:00 às 13:00 e das 18:00 às 21:30
Ingressos | € 3,00 (ingresso normal, inclui subida à Torre)


A Igreja de San Nicolás ergue-se no coração do Albaicín, o mais emblemático bairro histórico de Granada, como um testemunho singular da complexa história religiosa e cultural da cidade. A sua origem remonta aos primeiros anos do século XVI, quando foi criada uma das paróquias resultantes da reorganização cristã de Granada após a conquista dos Reis Católicos. Concluído em 1525, o templo adoptou uma linguagem arquitectónica gótico-mudéjar, síntese perfeita entre a tradição construtiva cristã e a herança islâmica ainda muito presente na cidade. A própria implantação da igreja, num dos pontos mais elevados do antigo núcleo árabe, reforça essa continuidade histórica, sendo provável que tenha sido edificada sobre o espaço anteriormente ocupado por uma mesquita. Ao longo dos séculos, San Nicolás conheceu períodos de prosperidade e de declínio, enfrentando terramotos, incêndios, tempestades e profundas transformações urbanas. Particularmente devastador foi o incêndio de 1932, que destruiu grande parte da sua riqueza artística e arquitectónica. Seguiram-se décadas de abandono, projectos inacabados e sucessivas campanhas de recuperação, até que, já no século XXI, uma ambiciosa intervenção devolveu ao edifício a sua dignidade patrimonial. O resultado é um templo que preserva a memória das suas feridas históricas, transformando-as num poderoso discurso de renovação e esperança.

Hoje, entrar na Igreja de San Nicolás é iniciar uma verdadeira viagem pela arte cristã universal. Longe de se limitar às expressões da tradição ibérica, o templo surpreende pela diversidade de linguagens espirituais e estéticas que acolhe. O altar-mor apresenta uma impressionante composição inspirada na tradição iconográfica bizantina e ucraniana, obra dos artistas Ivanka Demchuk e Arsen Bereza, onde a Ressurreição de Cristo dialoga com episódios da vida de São Nicolau. A partir desse núcleo central, o visitante descobre um conjunto de capelas que constituem uma autêntica cartografia da cristandade. A capela arménia, criada por Hayk Grigoryan, evoca a história do primeiro Estado cristão do mundo através de símbolos profundamente enraizados na tradição daquele povo. Noutra capela, o sacerdote e iconógrafo libanês Abdo Badwi apresenta um tríptico inspirado na tradição siro-maronita, aproximando o visitante das antigas comunidades cristãs do Médio Oriente. Já a capela etíope, assinada por Adefris Geletu Wolde, transporta-nos para um universo visual marcado pelas cores intensas e pelo simbolismo característico da igreja ortodoxa etíope. Em conjunto, estas obras fazem da igreja um espaço raro de encontro entre culturas, sensibilidades e tradições cristãs provenientes de diferentes continentes.

Esse carácter ecuménico constitui, precisamente, um dos aspectos mais notáveis da actual configuração de San Nicolás. Mais do que um simples local de culto, o templo apresenta-se como um espaço de diálogo entre diversas expressões da fé cristã, reunindo referências provenientes das tradições católica latina, bizantina, arménia, maronita e etíope. A mensagem que emerge deste percurso artístico ultrapassa as fronteiras geográficas e confessionais, sublinhando a dimensão universal do cristianismo e a riqueza das suas múltiplas manifestações culturais. Também a intervenção contemporânea realizada no presbitério reforça essa ideia de abertura. A cúpula translúcida “Caelum”, concebida pelo artista granadino Jesús Conde Ayala, introduz uma linguagem visual moderna que dialoga com a arquitectura histórica do edifício. A luz torna-se aqui matéria espiritual e elemento simbólico, envolvendo o espaço numa atmosfera de transcendência. O visitante passa, assim, da sobriedade das estruturas gótico-mudéjares para a expressividade dos ícones orientais e para a ousadia da arte sacra contemporânea, num percurso que demonstra como a tradição religiosa pode continuar a inspirar novas formas de criação artística sem perder a sua essência.

Mas se o interior da igreja impressiona pela sua riqueza simbólica, a torre constitui um dos seus maiores atractivos turísticos. A subida ao campanário recompensa o visitante com uma das mais célebres panorâmicas de Espanha. Do alto, o olhar abrange a totalidade da Alhambra e do Generalife, com a majestosa Sierra Nevada a desenhar-se no horizonte, enquanto a cidade de Granada se estende aos pés do observador. Poucos lugares conseguem oferecer uma síntese tão perfeita entre património arquitectónico, paisagem natural e memória histórica. Não é por acaso que milhares de visitantes procuram diariamente este ponto privilegiado do Albaicín, transformando-o num dos locais mais fotografados da Andaluzia. A vista a partir da torre permite compreender a relação entre os diferentes períodos que moldaram Granada, desde a herança islâmica até à afirmação da cidade cristã. Nesse instante, a Igreja de San Nicolás deixa de ser apenas um monumento religioso para se afirmar como um extraordinário miradouro sobre a história, a arte e a identidade granadina. É precisamente essa conjugação entre espiritualidade, património e paisagem que faz deste templo um dos lugares mais fascinantes e inesquecíveis da cidade.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Tumulto” | Agostinho Santos



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Tumulto”,
de Agostinho Santos
Curadoria | Inês Falcão
Auditório Municipal de Gondomar
06 Jun > 01 Ago 2026


Começaria por dizer que “Tumulto”, a exposição que Agostinho Santos apresenta no Auditório Municipal de Gondomar, não é uma mostra para ser vista com ligeireza nem para satisfazer expectativas de conforto estético. Atravessá-la é aceitar um confronto com as inquietações do presente e com aquilo que de mais frágil habita a condição humana. Guerras, doenças, envelhecimento, violência, desigualdades, medo: os temas anunciam-se desde logo, mas seria redutor entendê-los apenas como matéria de denúncia social. Em Agostinho Santos, a realidade nunca surge como mera ilustração do mundo. O artista trabalha-a como quem a atravessa e a sofre, convocando para o desenho e para a pintura uma intensidade emocional que escapa à distância analítica e ao comentário circunstancial. As figuras multiplicam-se, fundem-se, contaminam-se umas às outras, como se cada corpo transportasse em si a memória de muitos outros corpos. O resultado é um universo visual onde a deformação se torna linguagem e onde a exuberância formal convive com uma profunda inquietação existencial. Mais do que representar o tumulto, Agostinho Santos parece procurar o lugar exacto onde ele nasce, esse território obscuro onde o humano se confronta com os seus limites, os seus fantasmas e as suas contradições.

Há muito que a obra do artista vem construindo uma reflexão persistente sobre o mal-estar do mundo, mas em “Tumulto” essa dimensão adquire uma particular densidade. As composições parecem organizadas segundo uma lógica de permanente transformação, como se nada pudesse permanecer fixo ou concluído. Rostos geram rostos, criaturas emergem de outras criaturas, gestos prolongam-se em novos gestos, numa espécie de fervilhar orgânico que recorda certas visões medievais do Paraíso e do Inferno, mas também a tradição da Arte Popular e da Arte Bruta que tão profundamente marcam o imaginário do pintor. Não estamos, porém, perante uma visão desesperada da existência. Por detrás do ruído, da turbulência e da aparente desordem, percebe-se uma procura incessante de sentido. O tumulto de Agostinho Santos não é apenas exterior; é igualmente interior, espiritual, resultado de um combate travado entre o medo e a esperança, entre a vulnerabilidade e a resistência. As obras funcionam como cartografias emocionais de um tempo em permanente sobressalto, mas também como exercícios de sobrevivência afectiva. Há nelas qualquer coisa de ritual, de exorcismo íntimo, como se o acto de desenhar e pintar permitisse ao artista domesticar os monstros que reconhece no mundo e em si próprio.

Nessa medida, a exposição encontra a sua grande força na capacidade de transformar a inquietação em possibilidade de encontro. Num tempo dominado pela velocidade da informação, pela banalização da violência e pela indiferença perante o sofrimento alheio, Agostinho Santos insiste em devolver rosto e humanidade àquilo que tantas vezes preferimos não ver. As suas figuras interrogam-nos silenciosamente e obrigam-nos a tomar posição perante aquilo que observamos. Não há aqui neutralidade possível. O visitante é chamado a participar, a reconhecer-se naquele vasto cortejo de seres híbridos, vulneráveis e excessivos que povoam as superfícies. Nesse sentido, “Tumulto” afirma-se como uma exposição profundamente política, não no sentido partidário do termo, mas enquanto exercício de consciência e de responsabilidade colectiva. A arte surge como espaço de resistência contra a anestesia moral do presente e como instrumento de reflexão sobre aquilo que nos une enquanto comunidade humana. Ao sair da exposição, permanece a sensação de termos atravessado um território povoado por sombras e sobressaltos, mas onde subsiste, ainda assim, uma obstinada confiança na empatia, na solidariedade e na capacidade do ser humano para encontrar serenidade no centro do próprio caos.

terça-feira, 23 de junho de 2026

TEATRO: "O Beijo no Asfalto" | Nélson Rodrigues



TEATRO: “O Beijo no Asfalto”,
de Nélson Rodrigues
Encenação | Tónan Quito
Cenografia | José Capela
Figurinos | Elisabete Leão
Interpretação | Allex Miranda, Bárbara Meirelles, Beto Coville, Dai Ida, Gabriel Delfino Marques, Genário Neto, Joyce Souza, Julia Prado, Luciano Luz. Participação especial de Santa Barba (Paulo Pinto)
Produção | Teatro Nacional São João
105 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Nacional São João
21 Jun 2026 | dom | 16:00


Arandir, um homem comum, acede ao pedido de um desconhecido atropelado por um autocarro em hora de ponta e beija-o na boca nos instantes finais da sua vida. Aquilo que poderia ser entendido como um acto de misericórdia transforma-se, porém, num escândalo público. A partir desse momento, a peça acompanha a destruição progressiva do protagonista, vítima de uma máquina social alimentada pela suspeita, pelo preconceito e pela necessidade de encontrar significados ocultos onde talvez exista apenas humanidade. Inspirada num episódio real que marcou profundamente o dramaturgo, a obra desloca rapidamente o foco do acontecimento para as narrativas que se constroem à sua volta. O beijo deixa de pertencer aos seus intervenientes e passa a ser propriedade da imprensa, da polícia, da vizinhança e da própria família. O que está em causa não é apenas um facto, mas a disputa pelo seu sentido, numa sucessão de versões, rumores e interpretações que tornam impossível o acesso a uma verdade definitiva.

Estreada em 1961, numa sociedade profundamente conservadora e moralista, a peça tocou num nervo exposto do Brasil urbano. Mais do que uma preocupação política, as reacções exaltadas que suscitou foram reveladoras de um incómodo moral perante a hipótese de intimidade entre dois homens. Contudo, reduzir “O Beijo no Asfalto” a uma peça sobre homossexualidade seria empobrecer a sua ambição dramática. O texto expõe uma sociedade obcecada pela vigilância da vida privada, com o desejo, a culpa, o ressentimento e a repressão a circularem por detrás das fachadas da respeitabilidade. A tragédia de Arandir nasce tanto da homofobia latente como da incapacidade colectiva de aceitar a complexidade dos afectos humanos. Nelson Rodrigues mostra a sua faceta de observador implacável das paixões escondidas e dos mecanismos sociais que transformam fragilidades íntimas em instrumentos de condenação pública. O amor impossível de Aprígio, o ciúme, a humilhação e o medo da revelação, inscrevem-se numa geografia emocional onde cada personagem se vê a braços com os seus próprios fantasmas.

A extraordinária actualidade da peça decorre sobretudo da reflexão sobre o poder dos discursos públicos. O verdadeiro motor da tragédia é a aliança entre uma imprensa sensacionalista e uma autoridade policial disposta a fabricar factos para servir os seus próprios interesses. O beijo converte-se numa manchete; a manchete converte-se em verdade; e a verdade passa a valer mais do que os acontecimentos que lhe deram origem. Muito antes da era das redes sociais, Nelson Rodrigues descreve com notável lucidez os mecanismos de amplificação da suspeita, da difamação e do julgamento colectivo. O que a peça mostra é uma sociedade onde os boatos circulam mais depressa do que os factos e onde a reputação de um indivíduo pode ser destruída pela mentira, transformada em verdade à custa da sua repetição incessante. Nesse sentido, “O Beijo no Asfalto” revela-se de uma contemporaneidade inquietante. A crítica ao moralismo, à manipulação mediática e à fabricação de narrativas continua a encontrar eco num presente em que a exposição pública e a condenação sumária são marcas do quotidiano.

A encenação de Tónan Quito compreende plenamente essa modernidade sem abdicar da dimensão trágica e passional do universo rodrigueano. Evitando leituras simplificadoras ou meramente ilustrativas, a peça sublinha a ambiguidade das personagens e a permanente tensão entre verdade e representação (o enunciado das didascálias é maravilhoso). O trabalho do elenco brasileiro revela-se notável pela intensidade emocional, pelo rigor do ritmo e pela capacidade de fazer emergir tanto a violência como a vulnerabilidade inscritas no texto. As interpretações conferem espessura humana a figuras que poderiam facilmente resvalar para a caricatura, tornando palpável o sofrimento, o desejo e a solidão que as movem. Ao mesmo tempo, a encenação encontra um equilíbrio feliz entre a especificidade histórica da obra e a sua ressonância contemporânea, permitindo que o público reconheça no Brasil dos anos sessenta inquietações que permanecem actuais. O resultado é um espectáculo de grande força, que honra a complexidade da escrita de Nelson Rodrigues e confirma a vitalidade duradoura desta obra-prima do teatro brasileiro.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

CONCERTO: Raquel Tavares



CONCERTO: Raquel Tavares
Com | Raquel Tavares (voz), Pedro Viana (guitarra portuguesa), Bernardo Viana (viola de fado), Fernando Araújo (viola baixo)
Auditório Municipal de Gondomar
20 Jun 2026 | sab | 21:30


Cinco anos após ter interrompido o seu percurso discográfico e de palco enquanto fadista, Raquel Tavares regressou ao Fado com a convicção de quem nunca verdadeiramente dele se afastou. No Auditório de Gondomar, perante uma sala cheia e manifestamente predisposta a acolher este reencontro, a cantora apresentou-se com uma segurança artística desarmante, fazendo da noite uma homenagem ao Fado e às suas maiores referências, mas também um momento de catarse, emotivo e inspirador. O espectáculo abriu de forma particularmente feliz com “Lisboa”, ainda de cortinas fechadas, deixando que a voz surgisse antes da figura e que versos como “Vejo do cais mil janelas / da minha velha Lisboa” desenhassem, na imaginação do público, a geografia sentimental da capital fadista. Quando o palco finalmente se revelou, já Raquel Tavares tinha conquistado a plateia. Ao longo da noite, foi alternando temas emblemáticos do seu repertório, como “Zanguei-me com o Meu Amor”, “A Janela do Meu Peito” ou “Fama de Alfama”, com momentos de partilha pessoal que ajudaram a contextualizar o seu percurso. Fê-lo sempre com uma humildade rara em artistas da sua dimensão, evocando as suas origens nos “tascos” e “botecos” de Lisboa e levando os espectadores de Gondomar numa viagem às colectividades e casas de fado de Alfama. “Não há público como o do Norte”, afirmou, arrancando uma das muitas ovações da noite. E percebeu-se que não era uma frase feita: havia uma cumplicidade genuína entre artista e audiência, alimentada por uma comunicação espontânea e por uma presença em palco de enorme intensidade.

Um dos aspectos mais interessantes do concerto centrou-se na forma como Raquel Tavares transformou o espectáculo numa evocação da sua própria história. Falar na vitória na Grande Noite do Fado, aos doze anos de idade, foi uma forma de lembrar as raízes de uma carreira construída desde muito cedo. Particularmente emocionante foi a recuperação de “Olhos Garotos”, fado gravado numa cassete de 1997 e posteriormente incluído no seu álbum de estreia, em 2006. A audição de excertos dessas diferentes etapas constituiu um dos momentos mais reveladores da noite, permitindo observar a evolução de uma voz que soube manter intacta a sua identidade expressiva. Acompanhada com rigor e sensibilidade por Pedro Viana, na guitarra portuguesa, Bernardo Viana, na viola de fado, e Fernando Araújo, na viola baixo, a fadista prestou igualmente homenagem a algumas das maiores figuras da história do género, de Amália Rodrigues a Alfredo Marceneiro, de Lucília e Carlos do Carmo a Ada de Castro, Anita Guerreiro e Fernanda Maria, reservando uma especial reverência para Beatriz da Conceição. Foi igualmente nesse contexto que ganhou particular significado a apresentação dos temas que compõem “Deles Por Mim (e à antiga)”, um disco assumidamente tradicional, gravado ao vivo em estúdio e centrado numa ideia tão simples quanto ousada: uma mulher interpretar poesia originalmente escrita para vozes masculinas. Em “Ai Se os Meus Olhos Falassem”, “O Amor é Água que Corre” ou “Pontas Soltas”, Raquel Tavares não se limitou a revisitar clássicos; reinterpretou-os à luz da sua personalidade artística, revelando novas leituras e novas ironias, particularmente evidentes na mordaz “Mulher Deixada”.

Foi já na recta final que o concerto atingiu uma dimensão verdadeiramente memorável. Em “Fado da Ironia”, Raquel Tavares confrontou directamente os anos de ausência, transformando em arte as dúvidas e comentários que acompanharam a sua pausa. Os versos “Olhem só, eu não morri / eu só fiz mesmo uma pausa” soaram como uma declaração de princípios e um ajuste de contas sereno com quem apressadamente decretara o fim do seu percurso fadista. A resposta do público foi imediata e calorosa, preparando o caminho para uma interpretação arrebatadora de “Meu Amor de Longe”, recebida como um dos grandes momentos da noite. A sensação que ficou foi a de um regresso pleno, sem necessidade de proclamações grandiosas, sustentado apenas pela evidência do talento e da maturidade artística. Num muito reclamado “encore”, e num registo mais festivo, a marcha “São João Bonito” colocou toda a sala de pé, numa celebração colectiva dos Santos Populares a unir palco e plateia num mesmo coro. Entre balões imaginários e refrões populares, encerrava-se uma noite que teve tanto de reencontro como de afirmação. Raquel Tavares regressou ao fado sem procurar reinventá-lo nem reinventar-se. Fê-lo, como o título do seu novo disco sugere, “à antiga”: com verdade, com respeito pela tradição e com a consciência de que, no fado, a autenticidade continua a ser o valor mais difícil de imitar. Em Gondomar, ficou a prova de que a pausa terminou, mas a voz permaneceu intacta.