Patente até 5 de Abril no Atelier-Museu Júlio Pomar, “Húmus” apresenta-se como um ensaio visual que mergulha na matéria obscura onde vida e morte se entrelaçam. O título convoca o universo de Raul Brandão e de Herberto Hélder, dois autores que, em momentos distintos do século XX, imaginaram a terra como arquivo da morte e simultaneamente como promessa de regeneração. A exposição não procura ilustrar os seus textos, antes trabalha a partir da sua vibração simbólica. Tal como no romance homónimo de Raul Brandão, cujas figuras parecem encerradas numa crosta mineral e suspensas entre o espanto e o absurdo, também aqui as imagens surgem como fragmentos de um mundo em fermentação. Pinturas, desenhos, palavras e objectos acumulam-se como camadas do solo, compondo uma paisagem descontínua onde memória e imaginação se sedimentam. A metáfora do húmus, matéria em decomposição que prepara a fertilidade futura, torna-se, assim, um princípio curatorial: aquilo que desaparece não se extingue, antes alimenta novas formas de vida e de sentido.
No centro deste território simbólico encontram-se as obras de Júlio Pomar e Graça Morais, cuja presença assume um carácter quase embrionário dentro da constelação expositiva. Nos bichos, desenhos e objectos de Pomar percebe-se um impulso primordial, como se cada figura estivesse ainda a emergir do interior da terra. As suas criaturas não são meros motivos figurativos: são presenças inquietas, organismos em formação que parecem carregar consigo o próprio campo de trabalho da imagem. Já em Graça Morais as figuras femininas confundem-se com raízes, galhos, insectos ou fragmentos de paisagem. São corpos híbridos, suspensos entre o humano e o vegetal, entre a terra e a noite. O seu fulgor metamórfico dissolve fronteiras e sugere que a identidade não é fixa, mas atravessada por forças naturais e ancestrais. Em ambos os artistas, a imagem nasce como se fosse matéria viva, algo que germina lentamente no húmus da memória, entre a sombra da morte e a promessa da transformação.
É nesse solo fértil que se inscreve o diálogo com as práticas contemporâneas de Daniel Moreira e Rita Castro Neves. As suas presenças animais, os musgos e objectos que evocam uma paisagem primordial, parecem prolongar a energia matricial sugerida pelas obras de Júlio Pomar e Graça Morais. Não se trata de estabelecer uma genealogia linear, mas antes de activar uma espécie de continuidade subterrânea, como se as imagens circulassem de geração em geração através de um mesmo substrato simbólico. As obras de Daniel Moreira e Rita Castro Neves recuperam esse imaginário orgânico — a terra, o animal, a matéria húmida — e reconfiguram-no num registo contemporâneo que oscila entre a arqueologia e a ficção. O que emerge é uma sensação de ancestralidade activa: a ideia de que o futuro da imagem se alimenta de restos, de resíduos e de fragmentos herdados, como se a criação artística fosse um processo contínuo de decomposição e renascimento.
Organizada como uma montagem de visões, “Húmus” recusa qualquer linearidade narrativa. A exposição constrói-se antes como uma sucessão de estratos, onde cada obra surge como uma parcela de terra na qual realidade e sonho se depositam em camadas instáveis. As palavras de Raul Brandão e Herberto Hélder insinuam-se nas paredes do Atelier-Museu Júlio Pomar como um magma silencioso, enquanto as imagens se aproximam e afastam num jogo de ressonâncias e deslocamentos. O visitante atravessa, assim, um território de metamorfoses ao longo do qual o humano e o não-humano se misturam e confundem, e onde o visível parece sempre prestes a transformar-se numa qualquer outra coisa. Mais do que um conjunto de obras reunidas sob um tema comum, “Húmus” propõe uma experiência sensorial e meditativa sobre a própria condição da imagem: algo que nasce do escuro, cresce entre restos e regressa continuamente ao mundo como clarão breve, mas intensamente vivo.