LUGARES: Casa Colombo – Museu do Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses
Travessa da Sacristia, 2 e 4 – Ilha do Porto Santo
Horários | Segunda a sexta-feira das 10h00 às 12h30 e das 14h às 17h30. Sábados das 10h00 às 13h00. Encerrado aos domingos e feriados
Ingressos | € 6,00 (bilhete adulto)
Sejam bem-vindos ao Porto Santo, uma pequena ilha atlântica cuja importância histórica ultrapassa largamente a sua dimensão geográfica. A sua posição no Atlântico tornou-a parte de uma história de viagens, encontros e descobertas que contribuiu para transformar a visão europeia do mundo. Embora a presença da ilha em cartas náuticas medievais revele que era já conhecida antes da chegada dos portugueses, foi a partir do século XV que assumiu um papel decisivo na expansão marítima portuguesa. Por iniciativa do Infante D. Henrique, os navegadores João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo participaram no reconhecimento e no povoamento do arquipélago da Madeira. É neste contexto que surge a Casa Colombo, associada, por tradição, à passagem e residência de Cristóvão Colombo no Porto Santo, após o seu casamento com Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo. A visita convida-nos, assim, a percorrer diferentes dimensões da História: a expansão marítima e o encontro de culturas, a memória de uma figura central da história contemporânea portuguesa e a relação entre o território insular e o mundo. Mais do que um museu sobre uma ilha, este é um espaço que nos ajuda a compreender como o Porto Santo participou numa transformação histórica de alcance universal.
Comecemos por olhar a Casa Colombo, cuja ligação tradicional a Cristóvão Colombo constitui um dos pontos de partida para a visita. O navegador genovês terá vivido no Porto Santo depois de casar, entre 1479 e 1480, com Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo, primeiro capitão do donatário da ilha. Embora esta tradição não permita afirmar com absoluta certeza que a casa que hoje visitamos foi a sua residência, a ligação de Colombo ao arquipélago insere-se num contexto histórico particularmente significativo. Na segunda metade do século XV, o Atlântico era um espaço de experimentação náutica, circulação de conhecimentos e preparação de novas viagens. A Casa Colombo – Museu do Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses nasceu em 1989 e foi profundamente reestruturada em 2004, passando a apresentar uma leitura mais abrangente da expansão marítima portuguesa. Ao longo do percurso, somos convidados a olhar para os Descobrimentos não apenas como uma sucessão de viagens, mas como um processo que aproximou continentes, promoveu trocas comerciais e culturais e alterou profundamente as sociedades envolvidas. O museu propõe, deste modo, uma perspectiva que ultrapassa a escala regional, situando o Porto Santo na grande história da abertura de Portugal a África, ao Oriente e à América. O seu acervo, enriquecido por obras de proveniência europeia, africana, asiática e sul-americana, permite reflectir sobre a diversidade cultural que resultou desses contactos, bem como sobre as complexas heranças que deixaram no mundo actual.
Prosseguindo a visita, chegamos ao edifício conhecido como Baiana, uma construção secular, datada de meados do século XVII, que constitui uma referência arquitectónica no centro histórico de Vila Baleira. A sua integração no museu, concretizada no âmbito da ampliação de 2023, permitiu aproximar fisicamente dois edifícios emblemáticos e alargar o espaço de interpretação histórica da instituição. Devemos olhar esta ampliação não apenas como um aumento da área expositiva, mas como uma oportunidade para aprofundar a leitura dos Descobrimentos Portugueses. A partir do Porto Santo, podemos compreender melhor o significado estratégico das ilhas atlânticas, enquanto pontos de apoio à navegação, espaços de povoamento e lugares de contacto entre diferentes povos e culturas. O percurso propõe uma visão de conjunto da expansão portuguesa dos séculos XV, XVI e XVII, articulando a experiência local com os acontecimentos que marcaram a história europeia e mundial. As obras e os objectos reunidos, provenientes de diferentes geografias e tradições artísticas, ajudam-nos a reconhecer a dimensão internacional deste processo e a diversidade das relações estabelecidas ao longo das rotas marítimas. Importa, contudo, recordar que a expansão não se resumiu à aventura dos navegadores: implicou também ocupação de territórios, exploração económica, imposição de poderes e profundas transformações sociais. Ao percorrermos este núcleo, somos convidados a reconhecer a complexidade desse legado, valorizando simultaneamente a circulação de conhecimentos e as consequências humanas do encontro entre mundos. É esta pluralidade de perspectivas que faz do museu um lugar de conhecimento, reflexão e diálogo.
A visita termina no Núcleo Museológico Brum do Canto, dedicado a uma personalidade multifacetada cuja vida e obra mantiveram uma ligação profunda ao Porto Santo. Jorge Júdice Limpo Brum do Canto nasceu em Lisboa, em 1910, mas encontrou nesta ilha um lugar de eleição, onde pôde desenvolver algumas das suas grandes paixões. Realizador, actor, crítico de cinema, poeta, músico, gastrónomo e apaixonado pela natureza, foi uma figura relevante da cultura portuguesa do século XX. A exposição resulta de uma doação feita ao Governo Regional da Madeira, em 2015, pela família, representada pelo sobrinho Nuno Alves Caetano, reunindo objectos e testemunhos que permitem conhecer as várias facetas desta personalidade querida dos portosantenses. Entre os aspectos mais marcantes encontra-se a relação com o cinema e, em particular, como filme “ A Canção da Terra”, longa-metragem realizada no Porto Santo e estreada em 1938. O filme retrata as dificuldades quotidianas da população, condicionada pelas secas e pela fragilidade da agricultura, deixando um testemunho de grande valor sobre a paisagem e a vida insular. Brum do Canto regressaria à ilha durante vários anos, entre 1953 e 1959, dedicando-se também à pesca desportiva e à observação da natureza. O seu interesse pelo mar, pela gastronomia e pelas tradições locais revela uma curiosidade que ultrapassava as fronteiras de uma única área artística. Ao conhecermos este legado, percebemos que a história de um território também se constrói através daqueles que o observaram, filmaram e viveram intensamente. Este núcleo constitui, assim, uma homenagem a um homem de múltiplos talentos e uma oportunidade para descobrir o Porto Santo através do olhar de quem profundamente o amou.


