No passado dia 15 de Janeiro, o Museu Bordalo Pinheiro abriu as portas à sua nova Exposição de Longa Duração, propondo uma leitura renovada da vida e obra de Rafael Bordalo Pinheiro. Logo na sala inaugural, “A Situação… pela Lente de Bordalo”, o visitante é transportado para a segunda metade do século XIX, tempo de revoluções tecnológicas, expansão da imprensa e intensificação das trocas internacionais. É nesse mundo em aceleração que o artista constrói o seu olhar crítico. A monarquia constitucional, a alternância partidária e o peso da Igreja surgem como alvos recorrentes da sua crónica humorística semanal, onde texto e imagem se entrelaçam numa análise mordaz da actualidade. Bordalo acompanha atentamente conflitos europeus, ambições coloniais e tensões diplomáticas, revelando um patriotismo inflamado, simultaneamente crítico dos governos e atento ao papel económico das colónias. Liberal, anti-monárquico e socialmente comprometido, sonha com a República e com um país mais justo, mas fá-lo sem abdicar da complexidade das suas posições. O riso, aqui, não é mero entretenimento: é ferramenta de intervenção, lente de aumento das fragilidades do sistema e convite insistente à mudança.
Em “Jogos de Humor: do Desenho à Cerâmica” e “Figuras e Personagens”, as duas salas seguintes, a exposição aprofunda a dimensão inventiva de Bordalo e a amplitude do seu talento. Mestre da caricatura, atento às correntes internacionais e dotado de sólido conhecimento técnico, desenvolve uma linguagem gráfica própria, marcada por exageros expressivos, metamorfoses surpreendentes e composições arrojadas que exploram o potencial narrativo da página. O visitante acompanha o processo que vai da figura isolada à construção de sequências, antecipando soluções da banda desenhada moderna. Muitos desses jogos visuais transitam para a cerâmica, onde personagens e símbolos ganham volume e presença física. Entre as criações mais emblemáticas destaca-se o Zé Povinho, síntese irónica do povo português, simultaneamente ingénuo, resignado e capaz de súbita irreverência. Ao seu lado surge a Maria da Paciência, figura que oscila entre o comentário moral e a voz da tradição lisboeta. Políticos, escritores e actores são retratados com acuidade física e psicológica, renovando-se a cada situação desenhada ou modelada. Nesta galeria de tipos e personagens percebe-se como Bordalo construiu um universo próprio, a sátira transformada em crónica social e a arte em memória crítica de um tempo.
A cidade ganha protagonismo em “Os Palcos de Lisboa” e “Comédia Político-Burlesca”, onde se percebe como Rafael Bordalo Pinheiro transforma o quotidiano num grande cenário crítico. Lisboa é simultaneamente tema, palco e personagem: uma capital em mutação, que se quer moderna e cosmopolita, mas onde persistem bolsas de pobreza, desigualdades profundas e marcas de ruralidade. Bordalo observa-a por dentro - nos teatros, nas redacções, nas ruas, nas procissões e nos arraiais - e por fora, atento às suas transformações urbanas, às montras, aos cartazes, às novas sociabilidades burguesas. A política surge como uma encenação permanente, uma “comédia político-burlesca” em vários actos, onde ministros e deputados vestem papéis conforme a conveniência e trocam de máscara ao sabor das maiorias parlamentares. O teatro funciona como metáfora estruturante: há palcos e bastidores, ilusões e truques de cena, aplausos e vaias. Nesse grande espetáculo do absurdo, o Zé Povinho tanto aparece adormecido na plateia como reage com o célebre manguito, gesto que se tornaria ícone de contestação. A sátira à dívida pública, às obras faraónicas, às eleições manipuladas ou às crises governativas convive com referências às modas, aos costumes e às festas populares, compondo um fresco vibrante e mordaz da sociedade portuguesa oitocentista.
O percurso culmina em “Tragicomédia sem Limites” e “O Lápis como Arma”, núcleos que sublinham a dimensão mais combativa e, simultaneamente, mais incómoda da obra de Bordalo. Nada nem ninguém escapa ao seu olhar: instituições, figuras públicas, práticas religiosas, preconceitos sociais e raciais, estereótipos de género. Algumas dessas imagens, hoje confrontadas com novas sensibilidades, obrigam o visitante a questionar os limites do humor e a reconhecer nelas o espelho de uma mentalidade do século XIX. A exposição não as oculta; contextualiza-as, convidando à reflexão crítica sobre o riso como arma ambivalente, libertadora e, por vezes, violenta. Num período de crescente repressão, com a imprensa sob ameaça de censura e o espaço público vigiado, Bordalo assumiu o desenho como instrumento de intervenção cívica. O lápis tornou-se metáfora e prática de resistência. Denunciou abusos de poder, expôs incoerências, celebrou feitos anónimos e instigou a mudança. Mais do que uma retrospectiva biográfica, esta nova Exposição de Longa Duração afirma a actualidade de um criador total - caricaturista, ceramista, empresário, homem de teatro - cujo humor continua a interpelar-nos. Ao sair, o visitante percebe que rir, em Bordalo, nunca foi um gesto inocente: foi sempre uma forma de pensar o país e de o imaginar diferente.