CINEMA: “Natal Amargo” / “Amarga Navidad”
Realização | Pedro Almodóvar
Argumento | Pedro Almodóvar
Fotografia | Pau Esteve Birba
Montagem | Teresa Font
Interpretação | Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit, Quim Gutiérrez, Rossy de Palma, Carmen Machi, Gloria Muñoz, Nico Martín, Amaia Romero, María Morales, Nieves Álvarez, Ángeles Ortega, Antonio Romero, Luis Jaspe, Óscar Trujillo, Nourdin Batan
Produção | Agustín Almodóvar
Espanha | 2026 | Drama, Comédia | 111 Minutos | Maiores de 12 Anos
Vida Ovar Castello Lopes
26 Set 2026 | sab | 18:10
Exercício de cinema autoral sempre fascinante em Pedro Almodóvar, “Natal Amargo” constitui um regresso ao lugar onde, nos últimos anos, o cineasta parece ter encontrado a sua matéria mais íntima, fazendo do cinema um espelho da memória e da criação uma forma de interrogar a própria vida. Raúl, realizador em crise interpretado por Leonardo Sbaraglia, escreve um filme sobre Elsa, cineasta de culto encarnada por Bárbara Lennie, cuja história é, afinal, feita das dores, lembranças e experiências que também pertencem ao seu autor. Num arco temporal de duas décadas, realidade e ficção enovelam-se numa matrioska que prolonga o anterior “Dor e Glória” e recupera o gosto de Almodóvar pelo cinema dentro do cinema. Se no filme de 2019, porém, a memória pessoal se transfigurava em relato, aqui é o próprio acto de transformar a vida em ficção que se torna argumento, personagem e matéria de conflito. Raúl escreve sobre Elsa, Elsa fornece-lhe a vida de que necessita para escrever, e por detrás de ambos adivinha-se o próprio Almodóvar, interrogando-se sobre o que sucede quando a fonte de onde sempre brotaram as histórias começa a secar? Na sombra do tempo, do envelhecimento e da possível esterilidade criativa, é possível sentir a respiração do filme, tornando a crise do seu protagonista inseparável da crise, mais subtil mas reconhecível, do próprio cineasta.
Tudo o que torna Almodóvar reconhecível permanece no lugar certo: a composição rigorosa, as cores como estados de alma, os interiores de uma beleza quase táctil, os figurinos, a literatura, a música de Alberto Iglesias. Mas o que antes era exuberância torna-se agora consciência da própria exuberância. Almodóvar olha para o seu cinema como quem percorre uma casa antiga e reconhece os móveis, os gestos, os fantasmas. Elsa é também a caricatura afectuosa de um certo Almodóvar: o melodrama, a canção que diz aquilo que as personagens não conseguem dizer, o humor que irrompe no lugar mais improvável, a referência literária ostensivamente colocada diante da câmara. Lanzarote, com o vermelho vivo sobre a lava negra, oferece uma das mais belas imagens do filme: vida e luto, desejo e clausura. Os muros de pedra que protegem as vinhas parecem proteger também estas personagens de um mundo que já não sabem como habitar. É um cinema de uma beleza com tanto de inquietante como de avassalador.
A inteligência da construção de “Natal Amargo” parece ultrapassar a emoção que dela se desprende, nisto residindo, quiçá, o ponto fraco do filme. Percebe-se o mecanismo, admira-se a arquitectura, mas nem sempre se sente o abalo. Bárbara Lennie e Aitana Sánchez-Gijón introduzem uma verdade humana que o dispositivo, demasiado consciente de si próprio, tende a dissolver. A acusação de vampirizar a vida alheia para fazer arte é poderosa, mas acaba por funcionar também como metáfora involuntária do próprio filme: Almodóvar alimenta-se uma vez mais do seu cinema, das suas memórias, dos seus fantasmas, e devolve-nos uma obra de grande elegância formal, mas de temperatura emocional irregular. Se “Dor e Glória” conseguia transformar a autobiografia em experiência universal, “Natal Amargo” fica mais frequentemente encerrado no círculo da auto-reflexão. É um filme admirável, por vezes belíssimo, ocasionalmente comovente, mas demasiado preocupado em explicar a sua própria beleza. O cineasta que sempre soube fazer do excesso uma forma de vida, parece agora precisar de o justificar, de tal forma que o excesso, justamente, perdeu alguma da sua vida. Resta a inteligência, o rigor, o ofício e uma melancolia genuína. A de um artista que continua a criar enquanto interroga, frontalmente, o que ainda há por dizer.