CINEMA: “Cartas Amarelas” / “Gelbe Briefe”
Realização | Ilker Çatak
Argumento | Ayda Meryem Çatak, Ilker Çatak, Enis Köstepen
Fotografia | Judith Kaufmann
Montagem | Gesa Jäger
Interpretação | Özgü Namal, Tansu Biçer, Yusuf Akgün, Emre Bakar, Ipek Bilgin, Leyla Smyrna, Kerem Can, Aziz Çapkurt, Mustafa Cicek, Ela Cosen, Siir Eloglu, Ömer Filikci, Elit Iscan, Ipek Seyalioglu, Yusuf Özhan Tali, Uygar Tamer, Sultan Ulutas, Cüneyt Yalaz, Aycil Yeltan
Produção | Ingo Fliess
Alemanha, França, Turquia | 2026 | Drama | 127 Minutos | Maiores de 12 Anos
Vida Ovar Castello Lopes
05 Set 2026 | sab | 19:05
Se há filmes políticos que chegam ao espectador de megafone na mão, prontos a explicar-lhe quem são os bons, onde estão os maus e por que razão deve sair da sala devidamente indignado, “Cartas Amarelas” não é um deles. O filme tem a inteligência - e alguma crueldade - de não nos fazer a “papinha” toda. Depois do excelente “A Sala dos Professores”, İlker Çatak volta a interessar-se por instituições que transformam conflitos humanos em mecanismos de poder, abandonando desta vez a escola para entrar no teatro, na universidade e, finalmente, na sala de jantar de uma família. Derya e Aziz são artistas, intelectuais, cidadãos com convicções políticas e, antes de mais nada, pessoas que precisam de pagar as contas e criar uma filha. Quando o aparelho de Estado lhes começa a retirar o trabalho, a segurança e a possibilidade de continuar a exercer aquilo que sabem fazer, a liberdade deixa de ser uma palavra bonita e passa a ser uma questão profundamente amarga: quanto estamos dispostos a perder por ela? É uma pergunta especialmente pertinente porque o filme não concede a Aziz o monopólio da coragem nem a Derya o monopólio da razão. Ele quer permanecer fiel aos princípios; ela percebe que princípios não alimentam uma criança. É neste preciso ponto que o cinema de Çatak se torna politicamente interessante: o poder não precisa de mandar alguém para a prisão para ser repressivo. Pode simplesmente retirar-lhe o ordenado, o palco, a carreira, o futuro. Pode enviar uma carta. Uma carta amarela, absolutamente banal na aparência.
O mais feliz em “Cartas Amarelas” é que Ilker Çatak compreende que a forma também tem de desconfiar das aparências. Ancara é filmada em Berlim e Istambul em Hamburgo, sem que o realizador procure esconder o logro: pelo contrário, exibe-o. Está-se em Berlim como em Ancara, em Hamburgo como em Istambul. A princípio, o expediente parece uma solução prática; depressa percebemos que é também uma declaração política. A Turquia do filme não é apenas a Turquia concreta: é o nome que damos à possibilidade de qualquer democracia descobrir que as suas instituições podem ser usadas contra aqueles que deveriam proteger. O jogo de espelhos prolonga-se no teatro que os protagonistas ensaiam, onde o controlo policial, os detectores de metais, os corpos despidos e a vigilância se tornam matéria de representação. Depois, o próprio processo judicial transforma-se numa espécie de palco, com os seus figurinos, os seus rituais e as suas falas decoradas. A fronteira entre representar o poder e ser representado por ele começa a desaparecer. Ilker Çatak filma tudo isto sem a habitual música de cordas que avisa o espectador de que chegou o momento de se indignar. Prefere o silêncio, os rostos, os espaços frios, os corpos comprimidos no enquadramento. É uma escolha particularmente eficaz. A opressão raramente entra pela janela aos gritos; instala-se na burocracia, no telefonema que não chega, no contrato que desaparece, no funcionário que apenas “cumpre ordens”. Kafka talvez reconhecesse o mecanismo. Brecht reconheceria o palco. E nós, se tivermos alguma atenção ao mundo à nossa volta, devemos reconhecer o resto.
No centro desta máquina está, contudo, uma coisa muito menos abstracta do que o Estado: um casamento. E é aí que “Cartas Amarelas” ganha em intensidade; e também nalguma ferocidade. Derya e Aziz amam-se, admiram-se e partilham uma história, mas descobrem que a mesma arte que os aproximou pode tornar-se uma cunha entre ambos quando deixa de ser uma actividade e passa a ser uma forma de resistência. Aziz encarna a velha tentação romântica do intelectual que prefere perder tudo a ceder um milímetro; Derya sabe que há uma diferença entre a coragem e a irresponsabilidade, embora essa distinção se torne cada vez mais difícil de sustentar quando também ela é arrastada para o conflito. Özgü Namal é magnífica nessa zona cinzenta, onde a revolta e o medo coexistem no mesmo rosto, enquanto Tansu Biçer dá a Aziz a mistura necessária de convicção, vaidade e vulnerabilidade. E Ezgi, a filha, é talvez a personagem mais cruelmente política do filme: não escolheu nenhuma batalha, mas será obrigada a viver dentro dela. Eis a grande perversidade do autoritarismo: não se limita a punir quem discorda; obriga os outros a perguntar-lhe se vale a pena continuar a discordar. Um sistema assim não precisa sequer de convencer os cidadãos de que está certo. Basta convencê-los de que há um preço por resistir e que é demasiado caro. É por isso que “Cartas Amarelas” não é apenas um filme sobre a Turquia de Erdogan, nem sequer apenas sobre a erosão das liberdades. Não se trata de exercer o poder para esmagar a liberdade com violência, mas o de forçar a liberdade a encolher lentamente, até caber dentro de uma carta amarela.