Na sequência das recentes exposições dedicadas aos “Desenhos de Mestres Europeus em Colecções Portuguesas”, “Cavaleiro Faria, um desenhador português do século XVIII” vem confirmar a atenção que o Museu Nacional Soares dos Reis dá ao desenho. A mostra surge ao abrigo do programa “Museu Nacional de Arte Antiga no Museu Nacional Soares dos Reis” e através dela é manifesta a intenção de devolver à discussão pública uma figura singular do desenho português setecentista. Envolto durante décadas na incerteza, o nome do artista conhecido pela assinatura “Eques Faria” surge agora plenamente identificado como Inocêncio de Faria e Aguiar, funcionário do Conselho da Fazenda, Cavaleiro da Ordem de Cristo e homem ligado à administração régia. A revelação da sua identidade não esgota, contudo, o fascínio da obra. Pelo contrário, amplia-o, porque o que surpreende nestes desenhos realizados a pena e tinta castanha é precisamente a tensão entre o rigor burocrático da escrita e a liberdade errante da pena.
Sem formação académica conhecida e desenhando num quase anonimato, Cavaleiro Faria construiu uma obra profundamente moderna na forma como regista o quotidiano. As romarias, as estalagens, os exercícios militares, as aldeias ou as ruínas clássicas mostram-se como fragmentos vivos de uma sociedade em transformação, captados por um artista que parece desenhar com o intuito de compreender o mundo e de, em simultâneo, o reinventar graficamente. A importância desta mostra reside ainda na possibilidade de reenquadrar o desenho português no contexto mais vasto da tradição europeia dos séculos XVII e XVIII, um tempo em que Nicolas Poussin, Charles Le Brun, Giovanni Battista Tiepolo ou Jean-Honoré Fragonard, entre outros, deslocavam o desenho para um espaço de intimidade, dando primazia à imaginação antes mesmo da matéria pictórica. É precisamente essa autonomia do desenho que a obra de Cavaleiro Faria convoca. Embora afastado das grandes escolas europeias e das encomendas oficiais da pintura histórica, o artista português partilha com esses mestres a capacidade de fazer do gesto gráfico uma linguagem plena, através da qual a economia de meios intensifica a expressividade do olhar.
A recuperação de um olhar periférico sobre o século XVIII português é outro dos aspectos relevantes nesta exposição. Enquanto grande parte da produção artística da época permaneceu ligada à representação religiosa ou aristocrática, os desenhos de Cavaleiro Faria aproximam-se da observação social e da experiência do quotidiano. Neles percebe-se um país atravessado por deslocações, festas populares, cenários rurais e gente anónima, quase como se o artista antecipasse uma sensibilidade documental que apenas séculos mais tarde se tornaria dominante. Adaptada da primeira exposição monográfica dedicada ao artista, organizada pelo Museu Nacional de Arte Antiga, o conjunto de obras apresentadas confirma a singularidade de uma prática artística privada, silenciosa e persistente. Mais do que revelar um amador talentoso, a exposição permite reconsiderar o próprio estatuto do desenho na história da arte portuguesa. O mérito do Museu Nacional de Arte Antiga e do Museu Nacional Soares dos Reis está precisamente em devolver centralidade a um artista que, desenhando à margem das academias e do prestígio oficial, acabou por criar um dos testemunhos gráficos mais originais do Portugal iluminista.