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segunda-feira, 27 de julho de 2026

LUGARES: Catedral de Granada



LUGARES: Catedral de Granada
Plaza de las Pasiegas, Granada
Horários | De segunda-feira a sábado, das 10:00 às 18:45; domingos, das 15h00 às 18h45
Ingressos | € 7,00 (bilhete normal)


Ao transpormos o amplo adro da Catedral de Granada, percebemos de imediato que o vasto edifício que se abre à nossa frente é muito mais do que um templo cristão. Edificado no coração da antiga medina islâmica, precisamente no local onde existiu a Mesquita Maior da cidade, o monumento condensa séculos de poder, fé e transformação política. A decisão de ali construir uma grande catedral não foi apenas um capricho dos Reis Católicos, antes respondeu a uma opção urbanística e representou a afirmação simbólica da nova ordem religiosa e política instaurada após o fim do último reino muçulmano da Península. Foi o imperador Carlos V quem deu o impulso definitivo à obra, desejando fazer de Granada um dos grandes centros espirituais do seu vastíssimo império. As obras tiveram início em 1523, sob a direcção do arquitecto Enrique Egas, mas rapidamente passaram para as mãos de Diego de Siloé, cuja visão revolucionária alterou profundamente o projecto inicial. Em vez de insistir na tradição gótica, então dominante em Castela, Siloé introduziu uma linguagem plenamente renascentista, inspirada nos modelos italianos, inaugurando um novo paradigma arquitectónico em Espanha. O resultado é um edifício onde a monumentalidade nasce da exuberância decorativa, mas sobretudo da harmonia das proporções, da luz cuidadosamente dirigida e da extraordinária sensação de equilíbrio que acompanha cada passo do visitante.

Ao avançarmos pela nave central, o olhar é inevitavelmente conduzido para a luminosidade que invade todo o espaço, característica invulgar numa catedral espanhola do século XVI. Diego de Siloé concebeu um templo onde a arquitectura funciona quase como um discurso teológico: a claridade simboliza a presença divina e a vitória da fé sobre as trevas, ideia particularmente significativa numa cidade acabada de integrar definitivamente a Cristandade. As colunas coríntias elevam-se com impressionante elegância, sustentando uma cobertura onde os elementos clássicos convivem com soluções herdadas da tradição gótica, produzindo uma síntese arquitectónica de rara coerência. A cabeceira circular, inspirada nos grandes edifícios da Antiguidade, rompe igualmente com o modelo habitual das catedrais medievais e confere ao conjunto uma monumentalidade serena. Em redor distribuem-se diversas capelas, enriquecidas ao longo dos séculos com pinturas, esculturas, retábulos e alfaias litúrgicas que testemunham a importância económica e religiosa da arquidiocese granadina. Apesar das sucessivas campanhas construtivas, das alterações introduzidas por diferentes arquitectos e dos inevitáveis atrasos que fizeram prolongar as obras durante mais de cento e oitenta anos, o edifício preserva uma surpreendente unidade estética. É precisamente essa capacidade de integrar diferentes épocas sem perder identidade que transforma a Catedral de Granada num dos mais notáveis exemplos do Renascimento espanhol.

Mas compreender esta catedral implica também olhar para aquilo que permanece invisível aos olhos do visitante menos atento. Cada pedra recorda a profunda mudança religiosa ocorrida após a Reconquista, num período em que Granada se tornou palco privilegiado da afirmação do Catolicismo. Muito próximo daqui encontra-se a Capela Real, onde repousam Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, os monarcas cuja vitória sobre o reino Nasrida alterou definitivamente o mapa político e religioso da Península. Embora constitua um edifício autónomo, a sua proximidade física reforça a leitura da Catedral como um grande monumento dinástico, concebido para perpetuar a memória dos soberanos que concluíram o processo iniciado séculos antes com os reinos cristãos do Norte. A liturgia celebrada neste espaço adquiria, assim, uma dimensão simultaneamente espiritual e política, legitimando a autoridade régia perante Deus e perante os homens. Ao longo dos séculos, procissões, celebrações solenes, funerais e actos de grande significado institucional consolidaram o papel da catedral como centro da vida religiosa granadina. Mesmo hoje, quando milhares de visitantes percorrem diariamente estas naves, continua a ser um templo vivo, onde o património artístico convive naturalmente com a oração quotidiana, preservando uma continuidade espiritual rara entre passado e presente.

Terminamos a visita regressando ao exterior, onde a grandiosa fachada principal resume, de forma admirável, toda a história que acabámos de percorrer. Projectada já no século XVII por Alonso Cano, simultaneamente arquitecto, escultor e pintor, apresenta um desenho profundamente barroco, embora respeitando o espírito renascentista do conjunto. Os seus amplos arcos triunfais evocam simultaneamente a Jerusalém Celeste e o triunfo definitivo da Igreja, constituindo uma poderosa declaração visual dirigida à cidade. É difícil encontrar outro monumento espanhol onde arquitectura, religião e história se encontrem de forma tão inseparável. A Catedral de Granada não pretende apenas impressionar pela escala ou pela riqueza artística; procura narrar uma transformação civilizacional, testemunhando a passagem de uma cidade islâmica para um dos grandes centros do Catolicismo europeu. Ao abandonar este espaço, permanece a sensação de que cada geração acrescentou uma nova camada de significado ao edifício, sem apagar as anteriores. Talvez seja precisamente essa sobreposição de memórias — muçulmanas, renascentistas, imperiais e barrocas — que faz da Catedral de Granada um dos monumentos mais fascinantes da Europa, onde a pedra continua a contar, em silêncio, uma das mais decisivas histórias da humanidade.

domingo, 26 de julho de 2026

CONCERTO: “Schubert” | Elisabeth Leonskaja



CONCERTO: “Schubert”
Com | Elisabeth Leonskaja (piano)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
24 Jul 2026 | sex | 21:30


Quando falamos de Franz Schubert, um dos nomes que imediatamente ocorre é o de Elisabeth Leonskaja, autêntica lenda viva do piano e cuja relação com o compositor austríaco ultrapassa a afinidade estética e se aproxima de uma verdadeira identificação artística. O recital integrado no Festival Internacional de Música de Espinho, que teve lugar na noite da passada sexta-feira, confirmou-o com a naturalidade de quem não pretende impor qualquer tipo de visão, antes deixar que a música revele a sua própria verdade. Discípula de uma tradição pianística centro-europeia que privilegia a arquitetura do discurso, a densidade do som e a rejeição de qualquer efeito superficial, Leonskaja construiu um Schubert simultaneamente íntimo e monumental, sem perder de vista um natural tom melancólico, como se de um discreto horizonte de luz se tratasse. O silêncio entre frases, o peso de cada modulação e a respiração das grandes linhas melódicas tornaram evidente uma maturidade interpretativa rara, fruto de décadas de convivência com este repertório. Num festival que continua a afirmar-se como um dos mais relevantes espaços do nosso país dedicados à música erudita, a presença de uma artista desta dimensão constituiu um momento de particular significado.

Obra das menos exploradas do repertório schubertiano, a Sonata em Si maior, D. 575, abriu o programa com uma elegância despojada, revelando um compositor muito jovem, mas já capaz de fazer conviver luminosidade clássica e inesperadas sombras harmónicas. Elisabeth Leonskaja evitou quaisquer leituras excessivamente galantes, preferindo sublinhar a fluidez do discurso e a permanente sensação de canto que atravessa toda a obra. Essa mesma capacidade de fazer respirar a melodia encontrou um notável contraponto na Wanderer-Fantasie, em Dó maior, D. 760, uma das páginas mais ousadas do compositor, onde avulta a convivência do impulso quase orquestral da escrita pianística com um inabalável rigor estrutural. A pianista enfrentou as exigências técnicas da obra sem qualquer ostentação, transformando o virtuosismo num instrumento expressivo e de uma rara organicidade. Impressionou sobretudo a clareza da polifonia, a construção orgânica dos diferentes episódios e a forma como a célebre transformação temática emergiu como percurso inevitável, conduzindo o ouvinte através de uma narrativa de permanente tensão interior.

Foi, contudo, na Sonata em Lá maior, D. 959, uma das derradeiras obras-primas de Schubert, que o recital atingiu a sua dimensão mais profunda. Leonskaja soube habitar esta música com uma serenidade que apenas os grandes intérpretes conseguem alcançar, compreendendo que o drama schubertiano nasce menos do contraste do que da lenta transformação da matéria musical. O célebre Andantino revelou-se como o verdadeiro centro emocional da interpretação, fazendo crescer a inquietação sem perder a contenção, até à explosão quase visionária da secção central, para depois regressar a uma paz apenas aparente. Nos andamentos extremos, a pianista conciliou amplitude formal e espontaneidade, preservando a continuidade do pensamento musical mesmo nos momentos de maior expansão, como no Scherzo (Allegro vivace). Retomado no encore, o Andantino foi saboreado com devoção por um público que soube mostrar-se grato por momentos tão elevados e de enorme beleza. No final, ficou a sensação de termos escutado um Schubert profundamente humano, despojado de romantismos estéreis e restituído à sua essência: um compositor para quem não há beleza sem fragilidade, nem esperança sem a consciência de uma inexorável finitude.

sábado, 25 de julho de 2026

LIVRO: "A Brutalidade do Movimento Conjugado" | Carla Pais



LIVRO: “A Brutalidade do Movimento Conjugado”,
de Carla Pais
Edição | Dinis H. Machado
Ed. The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026


“EQUAÇÃO IMPERFEITA”

Não adormeças, meu filho,
não ainda,
que a vida vem branca e límpida encher-te a inocência de histórias por contar
e eu ainda não te falei dos meninos que cantam canções à saída da escola
cheios de palavras incompletas a cobrir de beleza o coração das mães.
Nem te falei das estrelas que enchiam de sonhos os teus olhos
nem das camas dos bichos escondidos nas florestas
a trinta e cinco quilómetros de Paris,
nem dos pássaros que atravessavam o tempo para fazerem ninho
na magnólia branca do jardim.

Há ainda tanto por dizer, meu filho
por isso, não adormeças, arreda do teu sono o silêncio dos anjos
e pousa a tua mão inocente no meu peito
deixa-me, pelo menos, guardar a ideia de um corpo no meu colo
a tua vida de mil quatrocentos e sessenta dias suspensa
na equação imperfeita desta casa.

De Carla Pais já nada nos pode surpreender e, a prová-lo, aí esta esta maravilhosa colecção de poemas, intitulada “A Brutalidade do Movimento Conjugado”, dada à estampa no início do ano com a chancela da The Poets and Dragons Society. Não se trata de um livro fácil de habitar, é dos que pedem que aguardemos pelo final da leitura para compreendermos a unidade que encerram. O próprio título, que à primeira vista parece convocar um movimento físico ou histórico, acaba por revelar uma dimensão muito mais funda, a remeter para a nossa própria existência. Os três cantos em que se divide - “infância”, “maternidade” e “civilização remediada” - não constituem secções independentes, antes tempos de um mesmo verbo humano. A criança já transporta em si a perda; a mãe aprende que amar é viver sob a iminência do luto; a civilização descobre-se incapaz de impedir que a violência se torne linguagem quotidiana. Tudo se encontra conjugado numa mesma experiência, e é precisamente dessa conjugação que nasce a brutalidade a que Carla Pais dá voz. O livro descreve um movimento contínuo, sem verdadeiras fronteiras entre a memória e a História, entre a casa da aldeia e a cidade devastada, entre o ventre onde germina o fruto e a terra que recebe os mortos. A autora parece dizer-nos que nenhuma vida pode ser compreendida isoladamente, porque todas transportam as vidas que as antecederam e as que estão para vir. Nessa arquitectura secreta alcança o livro uma admirável unidade, cada poema como parte de um todo feito de tempo, perda, substituição, alteridade e permanência.

A coerência de “A Brutalidade do Movimento Conjugado” nasce também de uma escrita de invulgar singularidade formal. Entre a frase poética e a prosa lírica, Carla Pais cultiva uma sintaxe que lhe é própria, feita de pontuação suspensa, enumeração, repetição quase litânica e acumulação de imagens que, no seu todo, revelam uma respiração muito particular. Os poemas parecem crescer por sedimentação, como se cada palavra convocasse inevitavelmente a seguinte e a memória escapasse a uma indesejável linearidade. Há uma recorrência de elementos - os pássaros, os cães, as pedras, o sangue, a terra, o lume, as mãos, a casa - que funciona menos como recorrência temática do que como verdadeiro sistema simbólico. Cada reaparição acrescenta espessura ao universo da autora, fazendo com que as imagens se iluminem mutuamente ao longo do livro. É inevitável reconhecer, nesta construção, afinidades com alguns dos grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea. Não por influência directa ou por semelhança estilística imediata, mas porque Carla Pais parece herdar de Herberto Helder a convicção de que o poema é um organismo vivo, em permanente transformação; de Maria Gabriela Llansol, a dissolução das fronteiras entre memória, espaço e tempo; de Ruy Belo a extraordinária capacidade de elevar o quotidiano à categoria de metafísico. A sua voz, contudo, permanece profundamente autónoma, encontrando na sobriedade do seu léxico uma identidade imediatamente reconhecível.

É nesse universo formal que a infância ganha uma extraordinária densidade. Carla Pais não escreve sobre a infância como quem contempla um passado idealizado; escreve a partir dela, como se nunca tivesse abandonado completamente o lugar onde tudo tem o seu início. A aldeia, a casa, a cozinha, os cães, os pássaros e, sobretudo, a figura da avó deixam de ser simples referências autobiográficas para se converterem numa geografia moral onde se aprende o valor do amor, do medo, da dádiva e da perda. O caminho da escola tem o tamanho das asas abertas de um pássaro em pleno voo é a admirável tradução dessa capacidade de medir o mundo pela escala do espanto. Também a maternidade prolonga esse mesmo território afectivo, recusando qualquer visão idílica. Em Carla Pais, toda a mãe continua a ser filha, e todo o filho transporta consigo a vulnerabilidade da criança que foi. Talvez nenhum verso sintetize melhor essa consciência do que a imagem dos “filhos” enquanto “sementes paridas numa falésia clandestina onde só as mães podem morrer”. A maternidade deixa de ser celebração para se expor ao medo de forma absoluta, sem que o poema ceda, por uma vez que seja, ao sentimentalismo ou à facilidade da emoção.

Ao atingirmos o derradeiro canto, compreendemos finalmente que a memória familiar nunca foi um fim em si mesma, antes a primeira linguagem possível para falar do sofrimento universal. A “civilização remediada” de Carla Pais é um mundo onde a violência deixou de ser acontecimento excepcional para se tornar condição permanente da existência. Em “Gaza”, como antes na evocação dos mortos da família, a autora escolhe sempre o olhar da criança para revelar aquilo que os adultos desaprenderam de ver. O gesto é profundamente ético: aproximar a intimidade da História, fazer caber a guerra dentro da cozinha da avó, colocar o mesmo sangue a correr entre uma aldeia portuguesa e o Médio Oriente devastado. Nada há de panfletário nesta poesia, porque a autora nunca escreve sobre acontecimentos; escreve sobre vidas. Isso faz com que “A Brutalidade do Movimento Conjugado” permaneça muito para além da sua leitura. Não é apenas um livro sobre a infância, a maternidade ou o nosso tempo. É um livro sobre aquilo que persiste apesar da morte, apesar da guerra e apesar da erosão da memória: a obstinação profundamente humana de continuar a amar quando todas as razões parecem aconselhar o contrário. É essa fidelidade ao humano, sustentada por uma arquitectura poética profundamente consistente, que faz de “A Brutalidade do Movimento Conjugado” uma obra de leitura incontornável e afirma Carla Pais como uma das vozes maiores da nossa literatura.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

LUGARES: Alhambra | Granada



LUGARES: Alhambra
Calle Real de la Alhambra, Granada
Horários | Todos os dias, das 08:30 às 20:00 (01 de Abril a 14 de Outubro) e das 08:30 às 18:00 (15 de Outubro a 31 de Março)
Ingressos | € 22,27 (bilhete geral)


Estamos na Alhambra de Granada. Há muito que ficou para trás o controlo de entradas e estamos agora no coração daquele que é o lugar mais visitado de toda a Espanha. Franquear a Porta da Justiça é como cruzar uma fronteira entre tempos desiguais. Mandado erguer por Yusuf I em 1348, o arco que se ergue no seio do conjunto monumental continua a exigir silêncio antes mesmo de impor respeito. Na pedra sobrevivem a mão e a chave, símbolos da lei e da autoridade, enquanto uma pequena imagem cristã recorda que a História é feita de camadas. Diante do visitante abre-se não apenas uma fortaleza, não apenas um palácio, mas uma cidade palatina, coração político, militar e cerimonial do derradeiro reino islâmico da Península. O seu nome continua envolto em mistério. Talvez venha de al-Hamra, “a Vermelha”, pela tonalidade da terra e dos muros; talvez das tochas que iluminavam as obras nocturnas; talvez do cognome de Muhammad I, o fundador. Seja qual for a origem, a verdade é que a Alhambra parece nascer da própria colina. Onde havia apenas pedra, os soberanos nasridas fizeram nascer um oásis. Desviaram águas do Darro, plantaram ciprestes, roseiras, laranjeiras e jasmineiros, abriram pátios onde a água canta baixinho e transformaram um promontório austero numa visão do paraíso na terra.

Torna-se por demais evidente que este lugar foi concebido para impressionar, para encantar e para afirmar poder. Não um poder ruidoso, mas subtil: o de quem domina a arte de converter a luz, a água e a palavra em instrumentos de governação. Caminhemos até à Alcáçova, o núcleo mais antigo do conjunto. Aqui a Alhambra revela a sua primeira identidade: antes de ser palácio foi fortaleza. Os tijolos avermelhados das muralhas parecem guardar ainda o eco das sentinelas que vigiavam o vale. Das torres da Vela e de Menagem, Granada surge como um mapa vivo, estendido aos pés do visitante. O que mais surpreende, porém, não está à vista. Sob a superfície corre um mundo subterrâneo de galerias, silos, cisternas e passagens cuja extensão continua a alimentar lendas. Alguns corredores serviam soldados e criados; outros conduziam a masmorras onde prisioneiros aguardavam resgate ou troca. Há relatos de homens atirados para poços escuros, esquecidos durante anos. Ainda hoje os arqueólogos exploram estes espaços ocultos, onde a realidade e o mito se confundem. Foi talvez por um desses caminhos secretos que Muhammad V escapou à revolta que o expulsou do trono em 1359. Regressaria três anos mais tarde para inaugurar a idade de ouro nasrida e legar à posteridade os espaços mais apetecíveis da Alhambra. Torna-se evidente que a magnificência dos palácios repousava sobre uma complexa maquinaria humana. Acima, os embaixadores admiravam fontes e arabescos; abaixo, uma mole imensa de serviçais garantia o normal funcionamento de um autêntico sonho.

Subimos agora ao Mexuar, onde se administrava o poder. Era aqui que ministros, funcionários e magistrados davam forma burocrática às decisões do sultão. A Alhambra possuía uma sofisticada geografia social: cada grupo circulava por percursos distintos para que raramente se cruzassem. O poder também se organizava através da arquitectura. Atravessamos o Palácio de Comares e admiramos o magnífico Pátio dos Arrayanes. O espelho de água alongado reflecte colunas, galerias e céus com uma serenidade que mesmo as hordas de turistas não conseguem quebrar. Nas paredes multiplicam-se inscrições árabes: poemas, bênçãos, louvores, desejos de fortuna. Um estudioso chegou a afirmar que, se desaparecessem colunas e arcadas, a Alhambra continuaria de pé sustentada pelas palavras. Em cada friso repete-se o lema da dinastia: “Só Deus é vencedor”. Entramos depois no Salão dos Embaixadores, instalado na Torre de Comares. Era o coração político do reino. Aqui eram recebidas delegações estrangeiras destinadas a regressar aos seus países relatando maravilhas. O tecto representa simbolicamente os céus islâmicos e a ascensão da alma até à esfera divina. Séculos mais tarde, Washington Irving contemplaria as estrelas a partir destas proximidades, recolhendo histórias que transformariam a Alhambra numa referência universal do imaginário romântico. Graças a ele, princesas e sultões, fantasmas e tesouros ocultos passaram a habitar para sempre a memória destes lugares.

Chegamos enfim ao Pátio dos Leões, talvez a imagem mais reconhecível da Alhambra. Contudo, nada prepara verdadeiramente o visitante para esta experiência. O espaço organiza-se como uma representação do paraíso descrito pela tradição islâmica. Quatro canais dividem o pátio e convergem para a célebre fonte sustentada por doze leões de mármore. Em redor, uma floresta de colunas cria uma sensação de leveza impressionante. A pedra parece tecido; os arcos fazem lembrar cortinas agitadas por uma leve brisa. Nas salas adjacentes encontramos algumas das obras-primas do génio nasrida. A Sala das Duas Irmãs exibe uma cúpula de estalactites que parece dissolver a matéria em luz. A Sala dos Abencerrajes conserva a memória da mais famosa lenda sangrenta de Granada: a execução de uma poderosa linhagem nobiliárquica por ordem do Emir Boabdil. Durante séculos contou-se que a água da fonte corria vermelha pelo sangue dos condenados. Verdade ou ficção, a narrativa sobrevive porque combina os ingredientes favoritos da memória colectiva: amor, traição e tragédia. Ao lado, a Sala dos Reis recorda os dias em que embaixadas estrangeiras eram recebidas entre tapeçarias, perfumes e cerimónias destinadas a exibir riqueza e refinamento.

A visita termina no Generalife, refúgio estival dos sultões. Para aqui vinham quando o calor apertava entre os muros da cidade palatina. O som da água acompanha cada passo. Corre por levadas, salta nas fontes, refresca pátios e alimenta jardins onde cresce uma exuberante vegetação. O Pátio da Acequia permanece como uma das mais perfeitas expressões da arte islâmica de domesticar a paisagem sem a violentar. Tudo parece espontâneo, embora nada tenha sido deixado ao acaso. Ao longe distinguimos ainda o palácio renascentista de Carlos V, o grande intruso de pedra que a monarquia cristã implantou no coração do universo nasrida. Paradoxalmente, essa presença ajuda-nos a compreender a singularidade da Alhambra. Após a conquista de 1492, Isabel de Castela poderia tê-la destruído. Preferiu preservá-la. Mais tarde vieram o abandono, os soldados napoleónicos, os habitantes pobres que ocuparam salas vazias, e finalmente a redescoberta patrimonial. A Alhambra sobreviveu porque nunca deixou de ser habitada, amada ou imaginada. Quando sai, o visitante leva consigo mais do que a recordação de um monumento. Leva a sensação rara de ter percorrido uma cidade construída entre a História e o sonho, onde a água escreve, a pedra recita os mais belos poemas e o tempo, ainda que por instantes, se detém para nosso espanto e fascínio.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

CINEMA: "O Convite" | Olivia Wilde



CINEMA: “O Convite” / “The Invite”
Realização | Olivia Wilde
Argumento | Cesc Gay, Will McCormack e Rashida Jones
Fotografia | Adam Newport-Berra
Montagem | Anthony Boys, Yorgos Mavropsaridis
Interpretação | Seth Rogen, Olivia Wilde, Penélope Cruz, Edward Norton, Skip Howland, Mel Powell, Rachel Thurow, Mario Valdez
Produção | Ben Browning, Megan Ellison, David Permut
Estados Unidos | 2026 | Comédia, Drama, Romance | 107 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 8
22 Jul 2026 | qua | 16:20


A maturidade de um realizador vê-se na forma como domina o espaço, o ritmo e os actores. É isso que Olivia Wilde mostra nesta adaptação do espanhol “Sentimental”, de Cesc Gay, transformando um simples jantar entre dois casais numa experiência cinematográfica tão divertida quanto desconfortável. A premissa é de uma simplicidade quase teatral: Angela e Joe vivem um casamento que o tempo esgotou, com a irritação e as frustrações a substituírem a cumplicidade e a proximidade. A visita dos vizinhos do andar de cima, um casal descomplexado que encara o amor e a sexualidade de forma radicalmente diferente, desencadeia uma sucessão de revelações que expõem fragilidades, desejos reprimidos e pequenas hipocrisias. Ao compreender que o verdadeiro espectáculo não está na acção, mas nas palavras, nos silêncios e nos olhares, Olivia Wilde explora de forma exemplar o estado emocional das personagens, fazendo a câmara deslizar pelos espaços da casa, observar através de espelhos, pousar nos tapetes e enquadrar portas entreabertas, criando uma sensação permanente de proximidade e clausura que acrescenta tensão a cada diálogo.

O maior triunfo de “O Convite” reside na extraordinária química do quarteto protagonista. Olivia Wilde revela uma vulnerabilidade surpreendente na pele de Angela, equilibrando insegurança, humor e desespero sem nunca perder autenticidade. Seth Rogen confirma que o seu talento vai muito além da comédia mais popular, compondo um homem cínico, amargo e profundamente humano, cuja incapacidade de comunicar se transforma na principal fonte de riso e tristeza. Penélope Cruz é o elemento catalisador da narrativa, irradiando charme, inteligência e serenidade, enquanto Edward Norton oferece uma das interpretações mais inesperadas da sua carreira recente, encontrando na leveza cómica um território onde raramente o vimos tão confortável. A dinâmica entre os quatro actores é irrepreensível, sustentada por diálogos vivos, sobrepostos e ritmados, que preservam a espontaneidade de uma conversa real. O argumento de Rashida Jones e Will McCormack revela uma rara precisão na escrita, permitindo que cada intervenção faça avançar simultaneamente o humor e o conflito dramático. O resultado é uma comédia adulta que evita o escândalo fácil e a provocação gratuita, preferindo explorar as fissuras das relações contemporâneas com inteligência, ironia e uma honestidade por vezes incómoda.

Embora o ponto de partida possa sugerir uma simples farsa sobre casais e relações abertas, “O Convite” revela-se muito mais do que isso. Por detrás de uma sucessão de momentos hilariantes e embaraçosos, esconde-se uma reflexão subtil sobre o desgaste da vida em comum, a distância que se instala entre duas pessoas que deixaram de se escutar e a coragem necessária para enfrentar aquilo que realmente se foi perdendo. Wilde evita julgamentos morais e recusa respostas fáceis, permitindo que o espectador descubra gradualmente que nenhuma das personagens está totalmente certa ou errada. O humor nasce precisamente desse desconforto, da identificação com situações absurdas que, no fundo, possuem uma inquietante verdade. É um filme que provoca gargalhadas, mas também convida à introspecção, equilibrando com notável elegância a leveza da comédia e a melancolia do drama. Sem recorrer a grandes reviravoltas, o filme conquista o espectador pela força do texto, pela precisão da encenação e pela excelência das interpretações. No final, fica a sensação de que aceitámos um simples convite para jantar e acabámos por assistir a um dos retratos mais perspicazes e divertidos das relações amorosas dos últimos tempos.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

LUGARES: Real Monasterio de San Jerónimo | Granada



LUGARES: Real Mosteiro de S. Jerónimo
Calle Rector López Argüeta 9, Granada
Horários | Horário de Verão, de Segunda-feira a Sábado, das 10h00 às 13h00 e das 16h00 às 19h00; Domingos e Feriados, das 11h00 às 13h00 e das 16h00 às 19h00. Horário de Inverno, de Segunda-feira a Sábado, das 10h00 às 13h00 e das 15h00 às 18h00; Domingos e Feriados, das 11h00 às 13h00 e das 15h00 às 18h00
Ingressos | € 7,00, bilhete normal; € 33,00, bilhete combinado (inclui Catedral de Granada, Capela Real, Mosteiro da Cartuxa, Abadia do Sacromonte, Mosteiro de S. Jerónimo e Igreja de San Nicolás + Torre)


Fundado em 1492 por vontade dos Reis Católicos, o Real Mosteiro de S. Jerónimo ergue-se como um dos mais notáveis testemunhos da Granada cristã saída da Reconquista. O propósito da Coroa era estabelecer na cidade a Ordem dos Jerónimos, congregação de origem espanhola que gozava de particular estima dos soberanos, dedicando-lhe um mosteiro onde toda a glória fosse atribuída exclusivamente a Deus. A intenção inicial passava por construí-lo em Santa Fé, no local onde se instalara o acampamento das tropas cristãs durante o cerco de Granada, mas as condições do terreno aconselharam a sua transferência para uma propriedade situada extramuros da cidade, doada pelos monarcas. As obras tiveram início em 1505 e avançaram com assinalável rapidez, permitindo que, em 1521, a primeira comunidade de monges ali se estabelecesse. A beleza do conjunto impressionou desde cedo os visitantes. Em 1526, o embaixador veneziano Andrea Navagero descrevia um mosteiro magnífico, rodeado por jardins, fontes e dois claustros de extraordinária elegância, onde laranjeiras, cedros perfumados, murtas e outras espécies transformavam o espaço num verdadeiro jardim renascentista.

Entrando no Mosteiro, é o Claustro Principal, também conhecido como Claustro Processional, que melhor traduz o quotidiano da antiga comunidade jerónima. De feição gótica, mas enriquecido por uma elegante decoração renascentista, este era o coração da vida conventual, onde os monges circulavam, meditavam e celebravam as procissões internas. Sobre a entrada permanece inscrito o lema que sintetiza o espírito da casa - Soli Deo honor et gloria -, acompanhado da data de 1593, recordando que toda a vida ali decorria em honra de Deus. Os jardins, pontuados por laranjeiras e harmoniosamente enquadrados pelas galerias do claustro, conservam grande parte do encanto descrito pelos viajantes do século XVI. Ao longo das paredes sucedem-se sete arcossólios concebidos como pequenas capelas, enriquecendo um espaço onde arquitectura, natureza e espiritualidade dialogam em perfeita sintonia. A poucos passos encontra-se o chamado Claustro da Imperatriz, assim designado por ali ter residido, em 1526, Isabel de Portugal, esposa de Carlos I de Espanha e imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico. Depois de vários abalos sísmicos sentidos na cidade, a soberana escolheu este mosteiro como refúgio seguro, permanecendo nele durante uma estadia que ficaria ligada à gravidez daquele que viria a ser Filipe II.

A visita prossegue ao longo das antigas dependências conventuais, espaços que revelam a organização rigorosa da vida monástica. O refeitório era o local onde a comunidade tomava as refeições em silêncio, enquanto a Sala Profundis recebia esse nome por nela ser entoado o Salmo 129 antes das refeições e em sufrágio dos irmãos falecidos. A Sala Capitular, destinada às reuniões da comunidade e às decisões mais importantes da vida do mosteiro, conserva a lápide sepulcral de Pedro Ramiro de Alva, prior da casa e arcebispo de Granada entre 1526 e 1528. Já na sacristia destaca-se uma imponente mesa em mármore proveniente de El Carmen de los Mártires, testemunho da riqueza artística acumulada ao longo dos séculos. A história do Mosteiro, contudo, conheceu períodos difíceis. Em consequência da desamortização decretada por Mendizábal, em 1835, os monges abandonaram o edifício, que foi transformado em quartel. Apenas na década de 1960 regressou à Ordem de S. Jerónimo, iniciando-se uma profunda campanha de recuperação que permitiu devolver-lhe a dignidade original. Desde 1977 é habitado por uma comunidade de madres jerónimas, que mantém viva a vocação espiritual do monumento.

O percurso culmina na igreja, cuja imponência sintetiza a evolução artística do conjunto. O templo apresenta uma única nave rectangular, dividida em quatro tramos, ladeada por capelas laterais. A estrutura pertence ainda ao gótico final, mas o Altar-Mor anuncia já o pleno Renascimento, reflectindo a transição estética que marcou a arquitectura espanhola do século XVI. No século XVIII, tectos e paredes foram revestidos por exuberantes pinturas murais executadas entre 1723 e 1735 pela oficina de Juan de Medina, enriquecendo o interior com uma notável cenografia barroca. É, porém, a Capela-Mor que concentra o maior simbolismo histórico, acolhendo os túmulos de Gonzalo Fernández de Córdoba, o célebre Gran Capitan, e de sua esposa, María Manrique, duquesa de Sessa. Militar brilhante ao serviço dos Reis Católicos, Gonzalo destacou-se nas grandes campanhas militares do final do século XV e do início do século XVI, tornando-se uma das figuras mais prestigiadas da história de Espanha. É o final de uma visita a um Mosteiro onde arquitectura, arte, memória e espiritualidade se entrelaçam, preservando intacto um dos mais preciosos legados monumentais de Granada.

terça-feira, 21 de julho de 2026

LUGARES: Pátios de Córdova



LUGARES: Pátios de Córdova
Vários locais
Horários | Variáveis de acordo com cada pátio; a informação detalhada pode ser consultada em https://patios.cordoba.es/como-visitar-informacion/
Ingressos | Visita livre e gratuita


Muito mais do que meros elementos arquitectónicos, os pátios cordoveses são o verdadeiro coração da casa e um dos mais expressivos símbolos da identidade de Córdova. A sua origem remonta às primeiras habitações com pátio da antiga Mesopotâmia, aperfeiçoadas pelo mundo greco-romano, que concentrava no espaço central, rodeado por colunas, a vida familiar e o acolhimento dos visitantes. Com a chegada dos muçulmanos à Península, esta tradição adquiriu uma nova dimensão. As fachadas tornaram-se discretas, voltadas para um interior resguardado, enquanto os pátios se enchiam de água, luz e vegetação, com fontes, azulejos e delicadas gelosias que concorriam para a criação de um ambiente de frescura indispensável ao clima andaluz. Após a conquista cristã de 1236, esta organização da casa foi preservada, enriquecendo-se, ao longo dos séculos, com elementos mudéjares, renascentistas, barrocos e neoclássicos. Assim nasceu uma arquitectura singular, onde convivem o mármore, o empedrado, os vasos floridos, os poços, as antigas cancelas, os capitéis reaproveitados e o inconfundível pavimento de seixo cordovês, formando um conjunto de extraordinária harmonia.

Distribuídos pela cidade velha de Córdova, cada pátio revela uma personalidade própria, moldada pela história dos edifícios e das famílias que os habitaram. Uns pertencem a antigos palácios senhoriais, conventos ou monumentos, como o célebre Pátio das Laranjeiras ou o Palácio de Viana, cujos doze pátios ilustram diferentes épocas e estilos arquitectónicos. Outros nasceram em casas mais modestas e, sobretudo durante o século XX, transformaram-se nas chamadas casas de vizinhos, onde o pátio era o espaço comum em torno do qual se organizava a vida quotidiana. Era ali que se encontravam cozinhas, lavadouros e instalações sanitárias partilhadas, mas também onde se conversava, se festejava e se fortaleciam os laços de vizinhança. As paredes cobertas de vasos, os canteiros floridos, as árvores de fruto e o murmúrio constante da água conferiam beleza a um espaço concebido para ser vivido. Ainda hoje os pátios distinguem-se entre exemplares de arquitectura antiga, que preservam a sua estrutura tradicional, e outros de arquitectura renovada, testemunhando a capacidade de Córdova para conservar a essência do seu património sem deixar de acompanhar a evolução urbanística.

A abertura dos pátios ao público teve o seu início em 1918, dando origem, poucos anos depois, ao Concurso de Pátios promovido pela municipalidade. Após um início modesto, marcado por interrupções, nomeadamente durante a Guerra Civil, o certame consolidou-se a partir de finais da década de 1940, tornando-se uma das celebrações mais emblemáticas da cidade. O crescente interesse levou ao aumento dos prémios, ao aperfeiçoamento dos critérios de avaliação e à valorização da autenticidade, privilegiando a riqueza floral, o respeito pela arquitectura tradicional, o cuidado ornamental e o esforço dos moradores. Ao longo das décadas, a festa ultrapassou o carácter competitivo para afirmar um património vivo, onde a hospitalidade cordovesa se exprime na generosa abertura das casas aos visitantes. O reconhecimento internacional chegou em 2012, quando a Festa dos Pátios foi inscrita pela UNESCO na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade, distinção que reforçou o prestígio desta tradição. Visitar Córdova, em particular durante o mês de Maio é, por isso, entrar num universo onde património e memória, os perfumes das flores e o convívio quotidiano, se fundem numa experiência única, reveladora do que Córdova tem de mais identitário e íntimo.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

CONCERTO: “The Last Sky” | Anouar Brahem



CONCERTO: “The Last Sky”
Com | Anouar Brahem (oud), Django Bates (piano), Anja Lechner (violoncelo), Mats Eilertsen (contrabaixo)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
18 Jul 2026 | sab | 21:30

“Where should we go after the last frontiers?
Where should the birds fly after the last sky?
Where should the plants sleep after the last breath of air?
We will write our names with scarlet steam.
We will cut off the hand of the song to be finished by our flesh.
We will die here, here in the last passage.
Here and here our blood will plant its olive tree.”
Mahmoud Darwish, “The Earth Is Closing In On Us”

Quase na recta final do FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho, o compositor e oudista tunisino Anouar Brahem trouxe ao Auditório de Espinho o seu mais recente trabalho discográfico, “After the Last Sky”, confirmando que a sua música continua a ocupar um território onde tradição e contemporaneidade se misturam e confundem como matéria de um mesmo pensamento musical. Inspirado no verso do poeta palestiniano Mahmoud Darwish – “Where should the birds fly after the last sky?” -, o concerto olhou com o necessário distanciamento o drama humanitário de Gaza, assumindo-se como uma reflexão de cariz político e cujo alcance universal tocou as cordas do exílio, da perda, da memória e da resistência. Fazendo da contenção uma forma de profundidade, Anouar Brahem optou pela subtileza de uma escrita onde cada silêncio pesou tanto como cada nota. De “Remembering Hind” a “Edward Said's Reverie”, passando por “Never Forget”, “The Sweet Oranges of Jaffa” ou pelo tema que dá título ao concerto, a música derramou-se de forma deliberadamente lenta, permitindo que cada frase respirasse naturalmente e que o público pudesse descobrir, sem pressas, os delicados equilíbrios entre composição e improvisação.

Se Anouar Brahem se afirmou como centro gravitacional do concerto, a excelência do quarteto residiu precisamente na ausência de hierarquias ostensivas. Django Bates confirmou, uma vez mais, a sua extraordinária capacidade para encontrar cores harmónicas inesperadas, alternando momentos de delicada transparência com subtis desvios rítmicos que privilegiaram as margens agudas do piano e evitaram acomodações do discurso. No contrabaixo, Mats Eilertsen foi uma bela surpresa, sustentando toda a arquitectura sonora com uma autoridade discreta e uma notável economia de meios. O maior aplauso, porém, vai para Anja Lechner, que com o seu violoncelo soube acrescentar a “The Last Sky” uma dimensão camerística que o distingue claramente dos anteriores trabalhos de Brahem. Funcionando simultaneamente como prolongamento melódico dos restantes instrumentos e como voz autónoma, o violoncelo foi capaz de manter um diálogo profícuo com o oud e com o piano, fazendo emergir momentos de notável cumplicidade. O oud e o contrabaixo estiveram em evidência no inesquecível “The Eternal Olive Tree”, tema que soube afirmar-se como uma meditação serena sobre permanência e resiliência.

O silêncio quase reverencial que envolveu toda a sala ao longo do concerto tornou-se parte integrante da própria execução. As palavras dirigidas ao público foram escassas, sobressaindo a comunicação estabelecida integralmente através da música. Muito reclamado, o “encore” trouxe com ele “Vague”, síntese perfeita de um concerto contemplativo, mas que nunca perdeu de vista as dúvidas e inquietações expressas por Mahmoud Darwish e que são, afinal, as nossas próprias dúvidas e inquietações. Numa época em que o jazz contemporâneo vem privilegiando a complexidade estrutural ou a afirmação individual dos intérpretes, escutar Anouar Brahem foi precioso. Na sua forma de, através da música, desacelerar o tempo, eliminar o supérfluo e devolver ao silêncio uma função expressiva essencial, encontrou o público algo intrínseco à sua própria razão de existir. O resultado foi muito além do simples encontro entre o jazz e a música de raiz árabe, assumindo-se como espaço de encontro e de memória, como síntese madura entre diferentes tradições culturais. Em Espinho, Anouar Brahem reafirmou a sua singularidade enquanto criador e intérprete, demonstrando que a beleza, quando sustentada pela inteligência, rigor e humanidade, pode ser uma forma profundamente eficaz de resistência.

domingo, 19 de julho de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão # 107 - Festa dos Premiados



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #107 
Festa dos Premiados 2025
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
17 Jul 2026 | sex | 21:30


Há um ano escrevia, neste mesmo espaço, sobre a Festa dos Premiados do Shortcutz Ovar, sublinhando a vitalidade de um projecto que, sessão após sessão, tem vindo a conquistar um público cada vez mais numeroso e fiel. Na noite da passada sexta-feira, a Escola de Artes e Ofícios voltou a encher-se para celebrar o melhor da 9.ª temporada, encerrando mais um ciclo de afirmação daquela que é, muito justamente, uma das maiores referências nacionais dedicadas ao cinema em versão curta que se faz entre nós. Ao longo do último ano passaram pelo Shortcutz Ovar vinte e quatro filmes, entre os quais sete primeiras obras e cinco filmes de imagem animada, numa programação marcada pela forte presença do documentário e por um número assinalável de comédias, sempre escolhidas com o rigor e a sensibilidade a que Tiago Alves e Ana Castro já nos habituaram. Num tempo em que ver cinema em comunidade se tornou quase um acto de resistência, o Shortcutz Ovar continua a oferecer um raro espaço de encontro entre realizadores, espectadores e filmes, contribuindo para formar um público atento e exigente. Muito desse mérito pertence também ao Município de Ovar e aos responsáveis pela área da Cultura, cujo apoio consistente tem permitido consolidar um projecto singular que, temporada após temporada, continua a afirmar o cinema português como património vivo, próximo e necessário.

Talvez não tenha sido por acaso que o palmarés deste ano tenha desenhado uma inesperada geografia da casa e da memória. Escolha do público, Maria, Maria, de Benjamim Quadros Costa, levou-nos até Belgais para descobrir não apenas a pianista Maria João Pires, mas também a intimidade de um lugar onde criação artística se confunde com afecto, heranças e liberdade, fazendo do diálogo entre neto e avó o verdadeiro coração do filme. Já Uma Mãe Vai à Praia, distinguido como Melhor Primeira Obra, confirmou Pedro Hasrouny como um realizador de enorme sensibilidade, desmontando com humor subtil e grande inteligência os preconceitos que recaiem sobre a maternidade, o corpo e os modelos familiares, num exercício cinematográfico onde Cláudia Jardim oferece uma interpretação de extraordinária contenção. Também T-Zero, de Vicente Niró, vencedor na categoria de Animação, encontrou na casa o centro da sua inquietação, transformando a crise da habitação numa poderosa alegoria sobre a gentrificação, a turistificação e a perda de identidade das cidades, lembrando-nos que a especulação imobiliária não destrói apenas edifícios: desfaz comunidades, memórias e modos de vida.

Se T-Zero denuncia uma cidade que expulsa quem nela sempre viveu, Amanhã Não Dão Chuva, distinguido com uma Menção Especial, recolhe os fragmentos de uma memória que lentamente se dissolve. Com um delicado trabalho de desenho a carvão, Maria Trigo Teixeira acompanha o percurso de uma mulher consumida pela demência, fazendo do próprio desenho uma metáfora das recordações que se esbatem sem nunca desaparecerem por completo. Num registo radicalmente distinto, mas igualmente marcado pela inquietação, Atom & Void, de Gonçalo Almeida, recebeu o Prémio Especial do Júri pela ousadia da sua proposta estética. Bastam nove minutos para transformar uma aranha na silenciosa protagonista de uma perturbadora fábula pós-apocalíptica, onde fotografia, desenho sonoro e luz convocam um universo entre o terror e a ficção científica, devolvendo ao espectador uma reflexão profundamente contemporânea sobre a fragilidade da condição humana e os limites de um progresso que insiste em ignorar as suas próprias consequências. A distinção unânime atribuída pelo júri reconheceu justamente uma visão artística invulgar, reveladora de um cineasta disposto a explorar caminhos pouco percorridos pelo cinema português.

O momento maior da noite chegaria com a atribuição do Prémio de Melhor Curta a Tão Pequeninas, Tinham o Ar de Serem Já Crescidas, de Tânia Dinis, talvez o filme que melhor sintetiza o espírito desta temporada. Fortemente ancorada no documentário, a realizadora devolve voz às mulheres que, ainda meninas, deixaram as aldeias do Norte para servir nas casas da cidade, resgatando uma memória colectiva demasiado tempo remetida ao silêncio. Entre fotografias, testemunhos e arquivos, revelam-se vidas de trabalho precoce, sacrifício e invisibilidade, mas também de uma extraordinária resistência e dignidade. O filme recusa olhar estas mulheres como figuras do passado; antes as aproxima do presente, lembrando que a exploração, o preconceito e a desigualdade apenas mudaram de rosto. Talvez por isso tenha reunido o consenso do júri, ao qual o público juntou o seu forte e prolongado aplauso. Mais do que distinguir os melhores filmes da temporada, a Festa dos Premiados voltou a demonstrar que a curta-metragem portuguesa atravessa um dos períodos mais criativos da sua história recente. O futuro de que tantas vezes se fala está aí e continua a encontrar, na última quinta-feira de cada mês, uma casa de portas abertas em Ovar. Após a pausa estival, lá estaremos de novo em Setembro.

sábado, 18 de julho de 2026

LIVRO: "Se Esta Rua Falasse" | James Baldwin



LIVRO: “Se Esta Rua Falasse”,
de James Baldwin
Título original | If Beale Street Could Talk” (© 1974, James Baldwin)
Tradução | José Mário Silva
Ed. Alfaguara, Setembro de 2018 (3.ª republicação, Agosto de 2022)


“Instala-se um silêncio, e ficamos a olhar um para o outro. Estamos a olhar um para o outro quando a porta atrás do Fonny se abre, e o homem aparece. Este é sempre o pior momento, quando o Fonny tem de se levantar e virar, e eu tenho de me levantar e virar. Mas o Fonny encara isto a bem. Levanta-se e ergue o punho. Sorri e fica ali de pé, por um momento, olhando-me nos olhos. Algo passa dele para mim, é amor e coragem. Sim. Sim. Vamos conseguir, seja como for. Seja como for. Levanto-me, com um sorriso, e ergo o punho. Ele regressa ao inferno. Eu caminho para o deserto do Sara.”

James Baldwin sempre me seduziu pela verdade da sua escrita e pela precisão e lucidez do seu olhar. A dimensão sociológica e política do seu pensamento, a forma como denuncia o racismo estrutural, sem artifícios, através de situações simples que expõem, com uma força devastadora, a violência entranhada no quotidiano, torna a sua escrita incómoda e fascinante à vez. É essa clareza — simultaneamente serena e dilacerante — que torna a sua obra tão necessária quanto inesquecível. Esta verdade está patente, uma vez mais, em “Se Esta Rua Falasse”, uma história aparentemente simples através da qual o autor constrói um dos mais contundentes retratos da América racializada da segunda metade do século XX. Tish e Fonny, amigos de infância que descobrem no amor uma promessa de futuro, vêem o seu projecto de vida abruptamente interrompido quando o jovem é acusado de violação e metido na prisão. A partir daí, o romance transforma-se numa reflexão profunda sobre a desigualdade, a arbitrariedade da justiça e a vulnerabilidade dos cidadãos negros perante instituições que parecem concebidas para os marginalizar.

Quinto romance de James Baldwin, “Se Esta Rua Falasse” não trata apenas da denuncia de um erro judicial. O livro expõe a lógica de um sistema onde a presunção de culpa recai frequentemente sobre os mesmos corpos e a mesma cor da pele. Nesse território, feito de sujeição, vergonha e humilhação, a verdade torna-se secundária perante o preconceito. O drama de Fonny adquire, assim, uma dimensão colectiva, convertendo-se no símbolo de milhares de vidas esmagadas por uma engrenagem social que perpetua a exclusão sob a aparência da legalidade. Contudo, reduzir o romance a uma denúncia política seria ignorar aquilo que lhe confere a sua força mais duradoura. Em contraponto ao peso da injustiça, Baldwin coloca o amor como forma de resistência. O sentimento que une Tish e Fonny preserva uma energia vital que permite enfrentar o medo, a afronta e a incerteza. A gravidez de Tish introduz uma poderosa dimensão simbólica: enquanto o sistema tenta destruir uma vida, outra prepara-se para nascer.

A família fecha-se em torno do casal, no que constitui um dos aspectos mais poderosos da obra. Pais, irmãos e amigos mobilizam-se numa demonstração de solidariedade que revela a importância dos laços afectivos nas comunidades oprimidas. James Baldwin possui o dom de conciliar intensidade emocional e lucidez analítica sem sacrificar nenhuma delas. A narração de Tish aproxima o leitor das experiências mais íntimas das personagens, criando uma sensação de proximidade que amplifica a dimensão dos acontecimentos. O autor evita o melodrama fácil e prefere uma linguagem depurada, directa e profundamente humana, cada frase carregada de ternura, revolta e compaixão. Essa contenção estilística torna ainda mais poderosa a crítica social que percorre o romance. Em simultâneo, a obra ultrapassa largamente o contexto histórico em que foi escrita. Embora enraizada na realidade afro-americana, fala de mecanismos de exclusão, de relações de poder e da luta pela dignidade que permanecem reconhecíveis em muitas sociedades contemporâneas.

Décadas após a sua publicação, o romance preserva uma impressionante actualidade. A persistência dos debates em torno do racismo estrutural, da violência policial e das desigualdades no acesso à justiça confirma a relevância das questões levantadas por James Baldwin. Mais do que um documento sobre uma época, “Se Esta Rua Falasse” é uma obra literária de grande alcance social e moral, capaz de transformar uma experiência particular numa reflexão universal sobre o amor, a liberdade e a resistência. Contam-se pelos dedos de uma mão os escritores capazes de articular com semelhante clareza a relação entre o íntimo e o político, entre a dor individual e a realidade colectiva. “Se Esta Rua Falasse” é um livro que denuncia sem ser panfletário, emociona sem ser lamechas e recorda que, mesmo perante a injustiça mais brutal, a Humanidade continua a encontrar formas de sobreviver e de afirmar a sua dignidade.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

CINEMA: “Franz” | Agnieszka Holland



CINEMA: “Franz”
Realização | Agnieszka Holland
Argumento | Marek Epstein, Agnieszka Holland
Fotografia | Tomasz Naumiuk
Montagem | Pavel Hrdlicka
Interpretação | Peter Kurth, Daniel Dongres, Idan Weiss, Aaron Friesz, Marika Malá, Anna Císarovská, Marta Dancingerová, Sandra Korzeniak, Josef Trojan, Katharina Stark, Jiří Panzner, Marek Pospíchal, Ivan Trojan, Vladimír Javorský, Karel Dobrý, Ondřej Malý
Produção | Sarka Cimbalova, Agnieszka Holland
República Checa, Polónia, Alemanha, França, Turquia | 2025 | Drama, Biografia, História | 127 Minutos | Maiores de 16 Anos
Vida Ovar - Castello Lopes
13 Jul 2026 | seg | 18:55


Com frequência vemos o quanto as biografias cinematográficas tendem a procurar explicações definitivas para vidas que resistem a ser encerradas numa narrativa linear. Agnieszka Holland recusa esse caminho em “Franz”, preferindo fazer da impossibilidade de compreender plenamente Franz Kafka o próprio motor do filme. Em vez de alinhar cronologicamente os episódios fundamentais da sua existência - a relação dilacerante com o pai, os amores impossíveis, a amizade decisiva de Max Brod ou a doença que o consumiria -, a realizadora constrói um mosaico fragmentário onde memória, ficção, sonho e presente convivem sem hierarquias. A estrutura descontínua, pontuada por depoimentos directos das personagens para a câmara e por sucessivos saltos temporais, afasta-se deliberadamente dos cânones do “biopic” convencional, em busca de uma linguagem cinematográfica que dialogue com a própria escrita kafkiana. Mais do que contar uma vida, a realizadora procura reproduzir a forma como essa vida foi sendo reinterpretada, apropriada e transformada ao longo de um século, aceitando que Kafka permanece, pela sua própria natureza, uma figura irredutivelmente incompleta.

Esta opção formal encontra plena correspondência na extraordinária dimensão visual do filme. Dominada por ocres sombrios, negros densos e enquadramentos amplos, a fotografia de Tomasz Naumiuk cria um universo simultaneamente realista e onírico, no qual as angústias íntimas do escritor se confundem com o imaginário das suas obras. Sem recorrer aos clichés habituais do surrealismo, Agnieszka Holland faz emergir imagens que parecem brotar directamente da sensibilidade de Kafka: um insecto que convoca “A Metamorfose”, a perturbadora materialização de “Na Colónia Penal”, ou breves momentos de humor absurdo que recordam uma faceta frequentemente esquecida do escritor. Idan Weiss, notável na sua primeira grande interpretação para cinema, evita qualquer tentação hagiográfica, compondo um Kafka vulnerável, tímido, curioso e profundamente humano. O conflito permanente com a figura autoritária do pai, interpretado com intensidade por Peter Kurth, nunca surge como uma explicação simplista da obra, mas antes como uma tensão permanente que atravessa a personalidade do escritor sem a reduzir a um exercício de causalidade psicológica.

Na reflexão sobre o legado de Kafka alcança “Franz “ a sua maior originalidade. Agnieszka Holland intercala a narrativa biográfica com incursões ao presente, mostrando museus, lojas de recordações, audioguias interactivos e até restaurantes de fast-food que exploram comercialmente a imagem do escritor. O humor destas sequências esconde uma observação mordaz sobre a transformação de um homem reservado numa marca global, venerada, consumida e frequentemente esvaziada da sua complexidade. Se, como alguém afirma no filme, por cada palavra escrita por Kafka foram escritas dez milhões sobre a sua vida e obra, então o verdadeiro protagonista já não é apenas o escritor, mas também o mito construído em seu redor. Holland evita tanto a canonização como a desconstrução iconoclasta, preferindo mostrar que nenhuma interpretação conseguirá esgotar o enigma. “Franz” não procura explicar Kafka; procura pensar como ele, adoptando uma linguagem fragmentária, inquieta e profundamente livre. O resultado é um retrato invulgarmente ambicioso, simultaneamente íntimo e caleidoscópico, que encontra na recusa das respostas fáceis a sua maior força cinematográfica. Uma bela surpresa. 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
Com | António Zambujo (voz e viola), João Salcedo (piano), João Moreira (trompete), José Miguel Conde (clarinete) e Francisco Brito (contrabaixo)
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2026 | sab | 21:30


António Zambujo foi o nome maior da última noite do FESTA – Sons da Lusofonia, chamando ao Parque Urbano de Ovar uma multidão que respondeu à chamada da organização com expectativa e entusiasmo. O recinto encheu-se para receber um dos mais populares e consensuais intérpretes da música portuguesa contemporânea, dono de um percurso singular que soube cruzar o fado, o cante alentejano, a música popular brasileira e a canção de autor, construindo uma identidade artística imediatamente reconhecível. Desde os primeiros passos, em Beja, passando pela consagração nacional e internacional, Zambujo é hoje uma referência incontornável da música de expressão portuguesa, acumulando distinções e uma legião de admiradores dos dois lados do Atlântico. Em Ovar, essa popularidade fez-se sentir desde o primeiro instante, perante uma assistência numerosa e calorosa, que ergueu a voz em praticamente todas as canções e respondeu com entusiasmo permanente a um concerto pensado para equilibrar memória e novidade. É que o músico aproveitou a ocasião para apresentar uma parte substancial de “Oração ao Tempo”, o seu mais recente trabalho discográfico, sem nunca perder de vista os temas que marcaram diferentes fases da sua carreira e que continuam a ocupar um lugar privilegiado nos corações do seu público.

O alinhamento começou precisamente por afirmar essa vontade de olhar para o presente, abrindo com “Palma da Mão”, seguindo-se “Prescrição”, “Nossa Alma é Siamesa”, “Regresso à Infância” e a faixa-título “Oração ao Tempo”, numa sequência onde sobressaíram a habitual contenção interpretativa e o rigor de uma banda que privilegia o detalhe e a subtileza dos arranjos. A partir daí, o cantor foi convocando sucessivos momentos de reconhecimento imediato, revisitando “Guia”, “Catavento da Sé”, “Zorro”, “Apelo”, “Reader’s Digest”, “O Tiro pela Culatra”, “Lote B”, “Algo Estranho Acontece” e “Visita de Estudo”, compondo uma verdadeira viagem pela evolução do seu repertório. Entre canções houve espaço para a boa disposição, para o humor despretensioso que caracteriza a sua presença em palco e até para interromper o concerto e cantar os parabéns a uma espectadora muito especial, gesto espontâneo que conquistou de imediato a plateia. A proximidade com o público voltou a revelar-se uma das maiores virtudes do cantor alentejano, cuja simplicidade reforça a enorme qualidade musical de um espectáculo construído sobre interpretações elegantes, uma voz de timbre inconfundível e uma naturalidade que dispensa qualquer gesto cénico.

“Pica do 7”, um dos momentos mais aguardados da noite, encerrou o alinhamento principal sob uma prolongada ovação, mas o público não permitiu que a despedida fosse definitiva. No “encore”, António Zambujo regressou para prestar a já habitual homenagem a Max, interpretando “Rosinha dos Limões” e recordando um dos artistas que mais influenciaram a sua carreira. Seguiu-se “Gota de Água”, evocação das suas raízes alentejanas e da profunda ligação ao cante, património que continua a atravessar discretamente grande parte da sua obra. O fecho aconteceu com “No Rancho Fundo”, numa leitura simultaneamente emotiva e festiva que funcionou como perfeita celebração da lusofonia, tema agregador de um festival que, desde a sua criação, tem feito da diversidade cultural do espaço lusófono a sua principal razão de existir. Foi um final de enorme simbolismo para um concerto sólido, coerente e musicalmente irrepreensível, que confirmou António Zambujo como um dos grandes embaixadores da canção portuguesa contemporânea e constituiu, sem surpresa, o ponto mais alto desta edição do FESTA – Sons da Lusofonia, correspondendo plenamente às expectativas de um público que encheu o Parque Urbano de Ovar para testemunhar mais uma noite memorável.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

CONCERTO: Do Cabo do Mundo



CONCERTO: Do Cabo do Mundo
Com | Carlos César Motta (direcção musical e percussão), Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse (vozes), Pablo Marques e Kito Siqueira (sopros), João Pitta (violão), Pri Azevedo (teclados e acordeão), Rolando Semedo (baixo), Lizz Marchi e Daniel Félix (percussão)
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2026 | sab | 18:00


“Arrepia, arrepia
E arrepia sim senhor”
Fausto Bordalo Dias, in “O Barco Vai De Saída”

“Um sonho lindo”, daqueles que permanecem para lá da festa no palco, assim foi o concerto do projecto Do Cabo do Mundo, ao final da tarde de sábado, no derradeiro dia do FESTA – Sons da Lusofonia. Entre o rio e a cidade, a partida e o encontro, a viagem e o sonho, o espectáculo resultou numa única travessia “por este rio acima”, feita de palavras e sons que transportaram o público muito além das margens da memória. “Isto que é de uns / também é de outros” fez da partilha o fundamento de um concerto de homenagem a Fausto Bordalo Dias, interpretado com emoção por artistas de diferentes latitudes, todos eles imigrantes, unidos pela mesma língua da música e pelo mesmo desejo de celebrar um dos maiores cantautores portugueses “do passado, do presente e do futuro”. O público percebeu isso desde o primeiro instante. Cantou, dançou e respondeu a cada refrão como se as canções lhe pertencessem desde sempre, confirmando que as obras verdadeiramente universais não conhecem tempos nem fronteiras. Quando Meu sonho / quanto eu te quero ecoou entre vozes e percussões, o rio desembocou naturalmente na cidade. Ali está a cidade, cantou-se, uma cidade que já não era apenas Lisboa, mas também Maputo, Praia, Rio de Janeiro, Luanda, Ovar ou qualquer outra onde alguém tenha chegado, carregando consigo saudades, sonhos e esperança.

Mas sobretudo a cidade é um som, escreveu Fausto, e nunca um verso pareceu tão exacto. Durante pouco mais de uma hora, o Parque Urbano foi esse lugar improvável onde todas as geografias se reconhecem numa mesma melodia. Idealizado pelos músicos Carlos Cesar Motta e Fred Martins, com a participação de criadores oriundos de diferentes geografias, Do Cabo do Mundo reinterpreta o legado de Fausto, acrescentando uma nova vida às suas obras e enriquecendo-as com o pulsar de ritmos africanos e brasileiros que parece sempre terem estado ali, à espera de serem revelados. Foi Por Ela, o momento mais luminoso do concerto, é disso a prova provada. A canção renasce envolta numa cadência afro-brasileira de irresistível elegância, como se as águas do Atlântico finalmente fechassem o círculo iniciado na infância angolana de Fausto, ele que nasceu no meio do oceano, a bordo do navio “Pátria”. O público sentiu ali o tropical sentido na lapela, mas houve sobretudo uma compreensão profunda da canção, dessa declaração de entrega absoluta - foi por ela que eu deixei de ser quem era -, agora cantada por vozes que conhecem na pele o significado da travessia. Também Namoro, com a sua irresistível leveza mestiça, prolongou esse encontro entre continentes, celebrando o amor como território onde todas as fronteiras se esbatem.

Esta ideia encontrou a sua mais clara tradução nas palavras breves, mas profundamente significativas, de Selma Uamusse: “Os imigrantes amam Portugal e esperam que Portugal os ame.” Nada poderia resumir melhor o espírito de Do Cabo do Mundo. Fausto sempre escreveu sobre viagens, encontros e desencontros, sobre os esplendores e as misérias da aventura humana, e este colectivo mostrou como essas canções continuam extraordinariamente actuais. Talvez por isso “Rosalinda” tenha adquirido uma força avassaladora. Ouvir que os que mandam no mundo / só vivem querendo ganhar, é perceber que o tempo pouco alterou as injustiças denunciadas por Fausto. A resposta luminosa a esse desencanto veio do palco, com as vozes de Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse, as percussões de Carlos César Motta, Lizz Marchi e Daniel Félix, os metais de Pablo Marques e Kito Siqueira, o violão de sete cordas de João Pitta, os teclados e acordeão de Pri Azevedo e o baixo de Rolando Semedo a mostrarem a música como lugar de encontro, resistência e esperança. O público voltou a responder em uníssono, transformando cada refrão numa afirmação colectiva de pertença. Não foi nostalgia, tão pouco tributo. Foi o provar que estas canções continuam vivas porque continuam a encontrar novos corpos, novas vozes e novas histórias para as habitar.

E como toda a viagem exige uma partida para justificar o regresso, O Barco Vai de Saída abriu a derradeira etapa deste percurso. As palavras de Fausto – “levo-te comigo”, “pra lá do Equador”, “no espantoso trono das águas”, “vou “ — ganharam um peso renovado nas vozes de quem conhece intimamente o significado de atravessar oceanos em busca de melhor vida. A tempestade, os medos, a esperança e a coragem, como tão bem “cantou” Ana Luísa Amaral, confundiram-se com as muitas histórias de migração que continuam a escrever-se todos os dias. Depois veio o “encore” inevitável, a transformar “Navegar, Navegar” numa autêntica “profissão de fé”. “Quem conquista sempre rouba, quem cobiça nunca dá”, advertiu Fausto, antes de lembrar que também foi “mercadoria” e que trouxe “um olhar peregrino”. Foi impossível não escutar nesses versos um apelo à dignidade de todos os que atravessam fronteiras, ontem como hoje. Quando o concerto terminou, o público continuou a cantar, prolongando Navegar, Navegar para lá dos derradeiros aplausos. Porque todos sabemos que a viagem está longe de chegar ao fim. Continua rio acima, mar adentro, do cabo do mundo até onde valer a pena chegar, até onde a música de Fausto nos levar.