Fernanda Fragateiro (Montijo, 1962), uma das mais relevantes personalidades da arte contemporânea portuguesa, construiu ao longo de mais de três décadas uma obra singular onde escultura, instalação e arquitectura se cruzam numa reflexão persistente sobre memória, espaço e política. Partindo de uma linguagem formal depurada, herdeira do minimalismo e da tradição modernista, a artista reutiliza materiais provenientes da construção civil, arquivos e vestígios urbanos para produzir objectos que interrogam os processos de transformação das cidades, as narrativas da História e os mecanismos de exclusão inscritos no território. A sua investigação articula referências à arquitectura do século XX, ao pensamento feminista e ao revisionismo histórico, recuperando frequentemente legados de autoras marginalizadas pelas narrativas dominantes. Com uma carreira amplamente reconhecida em instituições de referência na Europa e nas Américas, Fragateiro afirma-se como uma das vozes mais consistentes da arte contemporânea internacional, desenvolvendo uma prática onde a matéria nunca é neutra, mas portadora de memória, conflito e possibilidade crítica. É neste contexto que surge Abrir janelas à pedrada (2025), obra concebida para a ponte que liga o edifício principal do Museu de Serralves à Ala Álvaro Siza, integrada no ciclo de encomendas inaugurado após a abertura desta nova ligação arquitectónica.
Suspensa ao longo do corredor, a instalação apresenta-se como um muro irregular de blocos de cimento leve que parece desafiar simultaneamente a gravidade e a ordem arquitectónica do espaço. Construída a partir de fragmentos de edifícios demolidos no centro de Lisboa, recolhidos pela artista ao longo de vários anos, a obra transforma restos de gesso, reboco, tijolo e cimento numa poderosa arqueologia do presente. Cada elemento conserva as marcas da sua origem e testemunha os efeitos da gentrificação, da especulação imobiliária e da crescente pressão turística que, nas últimas décadas, redesenharam profundamente a cidade. Mais do que documentar essas transformações, Fragateiro converte-as numa experiência física, onde o visitante é confrontado com uma barreira simultaneamente sólida e permeável. Os blocos parecem prestes a ruir, mas sustentam-se mutuamente, deixando frestas por onde passam a luz, o olhar e o próprio corpo. A artista não procura reconstruir o que desapareceu; organiza antes os fragmentos de uma destruição contínua para revelar aquilo que se perde sempre que um edifício é demolido: não apenas matéria, mas memórias, formas de habitar, relações comunitárias e histórias colectivas apagadas em nome de uma ideia abstracta de progresso.
A presença desta obra na ponte desenhada por Álvaro Siza reforça a tensão entre duas formas de pensar a arquitectura e a cidade. Num espaço marcado pela autoridade do modernismo, Fragateiro introduz matéria precária, desgastada e excluída dos circuitos de valorização patrimonial, confrontando a perfeição da geometria arquitectónica com a fragilidade dos seus resíduos. O título convoca um gesto simultaneamente violento e libertador: abrir uma janela à pedrada significa romper uma superfície fechada para criar uma possibilidade de passagem. A referência às janelas do SESC Pompeia, projecto de Lina Bo Bardi para uma antiga fábrica em São Paulo, aproxima duas autoras que partilham uma atenção comum à ruína, ao inacabado, às práticas vernaculares e à dimensão social da arquitectura. Como em grande parte da produção de Fernanda Fragateiro, a instalação recusa qualquer nostalgia ou reconstrução idealizada do passado. Em vez disso, transforma a ruína num instrumento de pensamento crítico, afirmando que a memória se constrói tanto a partir do que permanece como daquilo que sucessivamente desaparece. As fendas abertas neste muro deixam passar a luz e o olhar, sugerindo que mesmo perante a violência das transformações urbanas continua a existir espaço para imaginar outras formas de habitar, recordar e construir a cidade.