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sábado, 25 de abril de 2026

LIVRO: "50 Abris" | Sara Duarte Brandão



LIVRO: “50 Abris”
Coordenação | Sara Duarte Brandão
Texto | Alex Couto, Ana Cruz, Ana Luísa Abreu, Ana Margarida de Carvalho, André Osório, André Tecedeiro, António Pinto Ribeiro, António Santos Pereira, Carla Crespo, Carla Mühlhaus e outros
Ilustração | Adamastor, Amanda Baeza, Ana Rita Robalo, António Modesto, António Seguro Franchini, Aurora Sant’Ana, Bia Costa, Bruno de Almeida, Catarina Ligeiro, Chila Mochila e outros
Ed. Truz Truz, 2024

“Filipa gostou de uma pinha pintada à mão: eram noites de verão. Para estar pronto para a liberdade, acredita ela, é preciso alguma luta. Um dia ela vai, com certeza, andar a cavalo, porque sim. Porque quer. Como quer Nuno levar suas palavras para o caderno de capa preta que escolheu, pelo prazer de escolher. De ter escolhas próprias, o que é o mesmo que ter palavras próprias, penso eu, mas quem sou eu. Cristiano também gosta de escrever porque fica bonito e todo mundo vê. Liberdade, aprendi com ele, não é estar na rua como um gato sem lar, é estar em casa, naquela casa ali, que é grande e tem até matraquilhos. Os pais são muito importantes, mas os amigos também, mesmo que briguem às vezes. Bom mesmo seria poder voar, e o Nuno concordou. Queria poder ir até o topo do céu.”

Há datas que não passam, que permanecem num pulsar como uma respiração funda no corpo de todos. O 25 de Abril que hoje celebramos é uma dessas datas. É memória e é matéria. Viva, inquieta, por vezes ferida. Chamamos-lhe revolução, mas foi sobretudo uma abertura: de janelas, de vozes, de futuros. Hoje, quando a liberdade parece tantas vezes reduzida a mera citação, a slogan ou mercadoria, regressar a Abril é um gesto de resistência. Nesse limiar entre evocação e urgência, ergue-se “50 abris”, coordenado por Sara Duarte Brandão, não para cristalizar o passado, mas para o devolver ao risco do presente. E fá-lo com um gesto raro ao deslocar o centro da narrativa, possibilitando escutar quem tantas vezes é silenciado. Nos encontros que deram corpo ao livro, cruzam-se escritores e ilustradores com utentes de associações sociais do Grande Porto, vozes frágeis, dissidentes, invisíveis, que aqui encontram lugar. Não como ornamento, mas como fundamento. Abril, afinal, nunca foi outra coisa senão isto: dar voz.

O livro recusa a solenidade amorfa e prefere o rumor múltiplo, quase indisciplinado, de quem fala sem erguer o braço ou pedir licença. Cada texto parece nascer de uma escuta prolongada, de uma espécie de hospitalidade radical, as palavras do outro sem correcção ou contestação, antes acolhidas no que têm de ingénuo, excessivo ou imperfeito. Há encontros que são colisões, há frases que guardam silêncios, há imagens que dizem o que o discurso não alcança. Nesse território instável, sente o leitor o quanto a linguagem se expande, se desarruma, se torna mais próxima da vida. Não há aqui uma narrativa única nem uma pedagogia da memória: há fragmentos, restos, lampejos, como se a liberdade só pudesse ser apreendida como quem recolhe os cacos de uma enorme jarra desfeita em pedaços. Entre a memória de um “desabril” cinzento e a tentativa de dar corpo ao presente, desenha-se um país que não deixa de tropeçar na sua própria história, dividido entre o que herdou e o que ainda não sabe construir.

Há, também, uma inquietação persistente que atravessa estas páginas, uma desconfiança quase visceral perante as palavras gastas, domesticadas pelo uso. Liberdade, democracia, igualdade: termos repetidos até à exaustão, mas tantas vezes desligados da experiência concreta de quem vive nas margens do discurso dominante. O livro mostra essa ferida exposta sem procurar suturá-la. Pelo contrário, amplia-a. Interroga o que significa, hoje, poder escolher quando as condições são desiguais, poder falar quando não há escuta, poder existir fora de categorias que apertam mais do que libertam. As vozes reunidas revelam uma liberdade condicionada, negociada, por vezes adiada — medida em percentagens incompletas, atravessada por constrangimentos materiais, sociais e afectivos. Há quem a sinta no corpo, na precariedade, na exclusão. Há quem a procure na linguagem, reinventando palavras para dizer o indizível. E assim, “50 Abris” transforma-se num lugar de tensão entre o ideal e o vivido, entre o direito proclamado e a realidade que o desmente.

Apesar desse lastro de dúvida, de desgaste e de um certo desencanto, há uma força que insiste em emergir - discreta, mas obstinada. Uma espécie de claridade que não ilumina tudo, mas impede a escuridão de se fechar. Como se cada testemunho trouxesse consigo um resto de futuro, uma possibilidade ainda não capturada pelo cinismo ou pela resignação. Crianças que sonham antes de saber nomear o sonho, adultos que reaprendem a escutar, comunidades que se reinventam na partilha e na diferença. Tudo isto compõe uma cartografia frágil, mas intensamente humana, dos caminhos da liberdade. Uma liberdade que surge, não como uma conquista consumada, mas como gesto contínuo, trabalho inacabado, exercício exigente de presença e relação, de luta e defesa. “50 abris” não resolve Abril: reabre-o, expõe-no, devolve-o ao conflito necessário. O seu gesto é político e poético, lembra que a democracia não vive de datas comemorativas, mas de vozes activas, de fricções assumidas, de uma atenção vigilante ao outro. Porque Abril só permanece onde for dito, vivido e disputado. Todos os dias, em cada pequena e imperfeita forma de liberdade.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Retrospectiva – 50 anos” | Miguel Louro



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Retrospectiva – 50 anos”,
de Miguel Louro
Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo
07 Mar > 26 Abr 2026


Está a chegar ao fim a exposição que traz a obra fotográfica de Miguel Louro à Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo, a propósito dos seus cinquenta anos de actividade artística. A evocação de Fernando Pessoa - “um barco não se fez para navegar, mas para chegar a um porto” - ecoa subtilmente ao longo das salas, a imagem fotográfica a assumir, em simultâneo, os contornos de viagem e ancoradouro. Captados em geografias diversas, os barcos de Miguel Louro são mais do que objectos flutuantes, antes signos de uma humanidade persistente, marcada pelo labor, pela incerteza e por uma dignidade silenciosa. Neles a cor irrompe com intensidade, matéria viva que sublinha a tensão entre a geometria do esforço colectivo e a fragilidade dos corpos que habitam o mar. Nestas imagens percebemos uma cartografia emocional que atravessa oceanos e culturas, na qual a luz - ora crua, ora diáfana - desenha texturas que parecem tocar o dramatismo. Moldado por décadas de errância e observação, o olhar do fotógrafo transforma cada embarcação em metáfora de sobrevivência, num apelo à sabedoria que só o horizonte oferece.

Se no núcleo dedicado à cor se impõe a vibração do mundo exterior, é na platinotipia que a obra de Miguel Louro atinge uma espécie de recolhimento quase litúrgico. Herdada de um processo oitocentista, esta técnica - celebrada como “o Rolls Royce da fotografia” - encontra no autor um dos seus (raros) cultores contemporâneos em Portugal. As imagens revelam uma profundidade tonal que ultrapassa o visível imediato: cinzentos plurais, sombras densas e uma luz suave que parece emergir de dentro do próprio papel. Cada prova, trabalhada com sais de platina e paládio, transporta uma dimensão de permanência que contrasta com a efemeridade do instante captado. Aqui, os corpos e as paisagens surgem como lugares de pausa e contemplação, convocando o espectador a um gesto de suspensão. A irregularidade dos bordos, as legendas manuscritas, a materialidade do suporte, tudo concorre para uma estética da intimidade, em cujo âmago se fundem técnica e emoção. Há um silêncio nestas imagens que não é ausência, mas densidade: um espaço onde a experiência do médico, habituado à dor e à resistência humanas, se converte em testemunho visual de uma humanidade partilhada.

Entre estes dois pólos - o fulgor cromático das águas e a gravidade quase escultórica da platinotipia -, a exposição desenha um percurso coerente e profundamente sensorial. Outras experiências surgem pelo caminho, como as fotografias pintadas ou as impressões sobre azulejo, expandindo o campo da imagem para territórios híbridos, onde o gesto manual reconfigura o olhar fotográfico. Há também, discretamente, uma arqueologia do próprio acto de fotografar, visível na presença de máquinas fotográficas de diferentes épocas, como se o tempo técnico dialogasse com o tempo vivido. No seu conjunto, esta retrospetiva não é só um balanço de carreira, mas também uma meditação sobre o ver e o permanecer. Ao longo de cinquenta anos, Miguel Louro construiu um universo onde o mundo se apresenta simultaneamente concreto e onírico, documental e transcendente. À medida que a exposição se aproxima do fim, permanece a sensação de que estas imagens não se esgotam no espaço expositivo e continuarão a ressoar no íntimo de quem as contempla. Como maré, num perpétuo vai e vem. 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

DANÇA: “How to Kill… For the Sake of Dying” | Xana Novais



DANÇA: “How to Kill… For the Sake of Dying”
Conceito e direcção artística | Xana Novais
Sonoplastia, manipulação live | Diogo Melo
Assistente de direcção | Carolina Vouga
Direção técnica e som | José Afonso Monteiro
Luz | Lui L’Abatte
Interpretação | Xana Novais, Ana Rita Xavier, Cru Encarnação, Rita Soeiro, Zinnia Nomura e Fibi Eyewalker
Produção | COISAS coletivo & V.E.R.M.E.
120 Minutos | Maiores de 18 Anos
Festival Internacional DDD - Dias da Dança
Teatro Campo Alegre - Auditório
19 Abr 2026 | dom | 17:00


No fecho da 10.ª edição do Festival Internacional DDD — Dias da Dança, “How to Kill… For the Sake of Dying”, de Xana Novais, afirmou-se como um gesto radical a oscilar entre a liturgia e a provocação, entre o dispositivo cénico e a experiência limite. Desde o início, ficou bem patente uma recusa em estabilizar o olhar, o espectáculo a convocar um imaginário onde o trágico e o erótico se deixassem contaminar, como se uma hipótese improvável - Georges Bataille frente a Sarah Kane, numa partida de xadrez, sobre os escombros da história da arte - ganhasse corpo. O que emerge é um parque de diversões sombrio, em cujo espaço a moralidade surge continuamente tensionada e o impossível se infiltra no campo do sensível. Entre tribunais que decretam a morte em nome do amor, museus que prometem eternidade em nome da arte e funerais que se convertem em dispositivos de ressurreição, Xana Novais constrói uma gramática própria, na qual o corpo deixa de ser apenas presença para se tornar argumento e campo de disputa. Não se trata de representar a morte, mas de a interrogar enquanto ficção reversível, abrindo fissuras na ideia de fim.

Atravessando etapas, residências e processos acumulados ao longo do tempo, o percurso que conduz a esta criação torna-se visível na densidade da proposta. Não estamos perante um objecto fechado, mas diante de um organismo em permanente mutação, o gesto performativo carregando em si a memória da sua própria construção. Algures entre o sagrado e o profano, entre a dor e o prazer, os corpos são lugares de cortes, tensões e fricções, assumindo-se, em simultâneo, como arma, amuleto e obra. As cenas organizam-se como territórios de partilha e risco, onde os elementos — agulhas, líquidos, voz, carne — participam numa economia simbólica feita de contenção e excesso. Em palco, os intérpretes não funcionam como extensão natural uns dos outros, antes como agentes de contaminação, disseminando pelo espaço e pelo público uma energia que convoca tanto a adesão quanto a repulsa. Este jogo de aproximação e recuo é central: o espectador deixa de ocupar um lugar passivo para se confrontar com o seu próprio posicionamento ético, moral e sensorial, num dispositivo que o implica, independentemente da resistência que oferece.

Há em “How to Kill… For the Sabe of Dying” uma dimensão de confronto que não procura consenso nem conforto. O prólogo instala desde logo um regime de visibilidade que poderá ferir sensibilidades, convocando o sangue, a nudez e imagens de forte carga física e simbólica. Mas reduzir a peça ao seu potencial de choque seria ignorar a complexidade do que está em causa. O que Xana Novais propõe é uma investigação sobre o “gosto pelo sofrimento” - esse território ambíguo onde a repulsa e o fascínio se tocam - e sobre o modo como o olhar contemporâneo participa activamente nessa dinâmica. Ao expor corpos que se oferecem e se defendem, que se afirmam e se desconstroem, a peça inscreve-se numa reflexão mais ampla sobre a visibilidade, a vulnerabilidade e o poder. Não se esperem daqui respostas fáceis, antes uma experiência que exige do espectador uma negociação constante com os seus próprios limites, confiando-lhe a responsabilidade de olhar e de sustentar esse olhar até ao fim.


quarta-feira, 22 de abril de 2026

DANÇA: “sensível” | Maurícia | Neves



DANÇA: “sensível”
Conceito, direcção, dramaturgia, figurinos e cenografia | Maurícia | Neves
Co-criadoras, palhaças, voz e texto | Ana de Oliveira e Silva, Mara Nunes, Maurícia | Neves
Assistência de figurinos e cenografia | Ana de Oliveira e Silva, Mara Nunes
Design de iluminação | Vera Martins
Design de som, música original e assistência de dramaturgia e criação | Jo Castro
Interpretação | Maurícia Barreira Neves, Ana de Oliveira e Silva, Jo Castro, Mara Nunes, Vera Martins
Produção | Maurícia | Neves
90 Minutos | Maiores de 16 Anos
Festival Internacional DDD - Dias da Dança
Teatro Campo Alegre - Café-Teatro
19 Abr 2026 | dom | 15:00


“sensível”, apresentado no âmbito do DDD – Festival Dias da Dança, propõe uma interrogação que ressoa para além do espaço cénico: como preservar a capacidade de sentir num tempo saturado de estímulos e anestesias? A peça convoca a figura da palhaça, não enquanto veículo de riso fácil, mas como dispositivo de exposição e vulnerabilidade, desarmando expectativas e recusando a caricatura. Neste gesto, as intérpretes — Maurícia Barreira Neves, Ana de Oliveira e Silva, Jo Castro, Mara Nunes e Vera Martins — constroem um território híbrido, onde o humor cede lugar à inquietação e à escuta. A dramaturgia não se organiza em torno de uma narrativa linear, mas antes num encadeamento de estados, o corpo como superfície de inscrição de afectos e tensões. “sensível” não procura entreter, mas antes implicar, instaurando um pacto de atenção que desloca o olhar e reconfigura a experiência do assistir.
Exige-se do espectador uma presença activa, uma disponibilidade para acompanhar os desdobramentos subtis da acção, num tempo que se dilata e resiste à pressa.

O percurso de Maurícia Barreira Neves ajuda a compreender a tessitura conceptual do espectáculo. A sua prática, marcada pela transversalidade entre dança, performance, instalação e música, revela uma insistência em problematizar os modos de produção e recepção artística. Desde criações como “This is not entertainment” (2013) ou “This is not for sale e é um manifesto”(2018), a coreógrafa tem vindo a construir uma linguagem que tensiona as fronteiras entre o objecto artístico e o gesto político, frequentemente recorrendo à ironia como ferramenta crítica. Em “sensível”, essa herança manifesta-se na recusa de uma estética complacente e na aposta num corpo que se deixa afectar pelo mundo, que se contamina e se reconfigura em permanência. A colaboração com outras intérpretes reforça a dimensão colectiva do projecto, onde cada presença contribui para um tecido relacional denso e poroso. O palco torna-se, assim, um espaço de negociação contínua, no qual identidade, fragilidade e resistência se entrecruzam, convocando o público para um exercício de empatia activa.

Mais do que oferecer respostas, “sensível” instala um campo de possibilidades onde o recomeço surge como gesto ético e político. A insistência na escuta — de si, do outro, do que está em volta — aponta para uma prática de atenção que contraria a lógica dominante da distracção e do consumo rápido. Ao expor a precariedade dos corpos e das relações, a peça reivindica a importância de permanecer permeável, mesmo quando isso implica desconforto. Há, neste trabalho, uma vontade clara de situar o sujeito no mundo contemporâneo sem recorrer a fórmulas fechadas, antes abrindo brechas para pensar outras formas de estar e de agir. Despojada de artifícios, a figura da palhaça transforma-se num espelho inquietante, devolvendo ao espectador a responsabilidade de se posicionar. “sensível” afirma-se, assim, como um gesto de resistência delicada, onde a fragilidade não é sinónimo de fraqueza, mas condição necessária para imaginar futuros mais atentos, mais implicados e, talvez, mais humanos.


terça-feira, 21 de abril de 2026

DANÇA: “16 & 17” | TAO Dance Theatre



DANÇA: “16 & 17”
TAO Dance Theatre
Direcção Artística | Tao Ye, Duan Ni
Coreografia | Tao Ye
Composição musical | Xiao He
Figurinos | Duan Ni
Interpretação | Xu Fujin, Tong Yusheng, Liu Yiren, Cheng Leting ,Li Jiayu, Wu Zhenkai, Lu Wenchao, Wang Jingping, Jia Lixue, Zhang Xi, Lee Yuyun, Bian Yefei, Jiao Xuexu, Gao Yanrui, Xiong Shuai, Zhao Xueyi, Huang Jiabin
Produção | TAO Dance Theatre
50 Minutos (com intervalo) | Todas as idades
Festival Internacional DDD - Dias da Dança
Rivoli - Grande Auditório
18 Abr 2026 | sab | 19:30


No último fim de semana do DDD – Festival Dias da Dança, a apresentação de “16&17”, do coreógrafo chinês Tao Ye, confirmou a singularidade de um percurso artístico que tem vindo a afirmar-se pela depuração formal e pela insistência numa gramática do corpo essencial. Integradas na chamada “Numerical Series”, as duas peças funcionam como um díptico coerente no qual a pesquisa do movimento se mostra despojada de narrativas convencionais, muito próxima de uma ideia de linguagem universal. Tao Ye, cuja formação atravessa tanto o rigor institucional como experiências em companhias de relevo na China, desenvolveu um sistema próprio - o “Circular Movement System” - que aqui encontra uma expressão particularmente depurada. Em vez de recorrer a dramatizações supérfluas, o coreógrafo investe na repetição, na variação mínima e na atenção ao centro de gravidade do corpo, propondo uma experiência que exige do espectador uma disponibilidade quase meditativa. O resultado é um objecto artístico que, embora profundamente enraizado em referências orientais, dialoga com sensibilidades contemporâneas globais, desafiando as fronteiras entre a tradição e a experimentação.

Em “16”, essa investigação traduz-se numa impressionante organização colectiva: dezasseis bailarinos dispostos numa linha contínua, evocando, de forma estilizada, as danças tradicionais do dragão e da serpente. Longe de qualquer exotismo superficial, Tao Ye transforma esta inspiração num estudo rigoroso de transmissão de energia. O movimento percorre a linha como uma onda, propagando-se entre corpos que parecem funcionar como segmentos de um único organismo. A coluna vertebral assume-se como eixo central, articulando torções, espirais e deslocamentos que conferem à peça uma fluidez hipnótica. Há uma economia de meios - figurinos sóbrios, iluminação contida - que reforça a centralidade do gesto. A espacialidade constrói-se em camadas, numa dinâmica onde o avanço e o recuo coexistem, criando a ilusão de um tempo suspenso. A abordagem minimalista intensifica a experiência, obrigando o olhar a concentrar-se nas subtilezas do movimento e nas micro-variações que estruturam a coreografia.

Já “17” propõe uma ruptura aparente com essa linearidade, ao dispersar os intérpretes pelo espaço e introduzir uma dimensão sonora que se torna indissociável do movimento. Aqui, o caos é apenas superficial: por detrás da sensação de aleatoriedade, existe uma rigorosa articulação entre som e gesto, as vocalizações feitas de interjeições minimais a funcionarem como extensões físicas do corpo. A peça estabelece um diálogo directo com o trabalho anterior, aprofundando uma investigação sinestésica no cruzamento entre som e imagem. Os bailarinos tornam-se, simultaneamente, produtores de som e agentes de movimento, configurando uma espécie de sistema polifónico em constante mutação. Este jogo contrapontístico entre duas linguagens gera tensões e aproximações, criando uma dramaturgia abstracta mas intensamente sensorial. No seu todo, “16&17” reafirma a proposta estética do TAO Dance Theater: uma dança que recusa ornamentos e narrativas fáceis, para se concentrar na essência do corpo em movimento, propondo uma experiência que é, simultaneamente, física, sensorial, intelectual e marcadamente filosófica.


segunda-feira, 20 de abril de 2026

DANÇA: “Again Forever” | Lisa Vereertbrugghen



DANÇA: “Again Forever”
Conceito e coreografia | Lisa Vereertbrugghen
Som | Michael Langeder
Luz | Vera Martins
Aconselhamento coreográfico | Arno Ferrera
Intepretação | Ife Day, Sophie Guisset, Cynthia Loemij, Maisie Woodford
Produção  | CAMPO
60 Minutos | Todas as idades
Festival Internacional DDD - Dias da Dança
CRL – Central Elétrica
18 Abr 2026 | sab | 17:00


Pode a lentidão ser subversiva? A pergunta serve de eixo para “Again Forever”, o mais recente trabalho de Lisa Vereertbrugghen, mostrado no Porto ao abrigo da 10.ª edição do DDD – Festival Dias da Dança. Conhecida por uma investigação rigorosa sobre as dimensões físicas e políticas da cultura techno, em particular das suas variantes mais rápidas e intensas, a coreógrafa belga desloca agora o foco para o extremo oposto do espectro rítmico. Se antes a urgência e a exaustão ditavam o pulso, aqui é a dilatação do tempo que orienta o gesto. Longe de ser mero abrandamento, a lentidão afirma-se como dispositivo crítico, um modo de resistir à aceleração dominante, de suspender expectativas e de reconfigurar a atenção. O palco torna-se, assim, um campo de desaceleração, num convite ao público a reaprender a ver.

Elemento central tanto na música electrónica como nas práticas coreográficas, em “Again Forever” a repetição adquire uma nova espessura. Ao refrear padrões reconhecíveis, Vereertbrugghen revela microvariações que, em regimes mais rápidos, passariam despercebidas. O corpo não abandona a lógica do loop, antes a expande, tornando visível o esforço, o peso e a duração implicados em cada transição. Esta estratégia aproxima a peça de uma espécie de arqueologia do movimento, cada gesto a revelar-se como que escavado no tempo. Entre a familiaridade e o estranhamento, o espectador reconhece nos ecos da pista de dança uma tensão produtiva, mas confronta-se com a sua transfiguração. Tradicionalmente associada ao colectivo e à catarse, a dança social surge aqui como prática introspectiva, quase meditativa, revelando a sua dimensão política.

Essa política da lentidão manifesta-se também na relação com o público. Ao recusar clímax fáceis ou picos de intensidade, a obra desafia hábitos de consumo cultural moldados pela rapidez e pela gratificação imediata. Em vez disso, propõe uma experiência de continuidade e distensão do tempo, onde a atenção é continuamente negociada. Não se trata de impor silêncio ou imobilidade, mas de criar condições para que outras formas de escuta e de presença possam emergir. Neste sentido, “Again Forever” dialoga com debates contemporâneos sobre produtividade, exaustão e resistência, sugerindo que abrandar pode ser um gesto radical. No contexto dos DDD, a peça destaca-se como um convite a reconsiderar não apenas o tempo da dança, mas o tempo social em que nos movemos - e, talvez, a imaginar outras cadências possíveis.


domingo, 19 de abril de 2026

INSTALAÇÃO: “Quem inventou a partida não sabia o que era amar” | Mariana Sevila, Ruben Carneiro



INSTALAÇÃO: “Quem inventou a partida não sabia o que era amar”
Criação e instalação | Mariana Sevila, Ruben Carneiro
Sonoplastia | Noiserv
Fotografia e vídeo | Paulo Madureira
Produção | Lote 64
60 Minutos | Maiores de 14 Anos
Centro de Artes de Ovar
17 Abr 2026 | sex | 21:30


“Quem inventou a partida não sabia o que era amar” é daqueles momentos quase suspensos em que o teatro deixa de ser apenas lugar de representação para se tornar matéria viva em construção. No espaço inclinado da plateia do Centro de Artes de Ovar, a pendente física revela-se no que tem de simbolismo, como se tudo ali estivesse prestes a deslizar para fora de um eixo estável. E, no entanto, ergue-se uma casa. Ou melhor, a ideia de uma casa, feita de gestos, de hesitações, de uma coreografia silenciosa que aproxima os dois criadores de um bailado doméstico, no qual cada objecto parece conter uma memória. Maria Sevila e Ruben Carneiro, recusam a comodidade da obra fechada e oferecem ao público o avesso do gesto artístico: o processo, a dúvida, o peso de cada decisão. Deste acto de construir à vista de todos, que a música de Noiserv reforça, resulta algo de profundamente humano, uma vulnerabilidade exposta que convida o espectador, mais do que a ver, a reconhecer-se. Porque aquela casa por terminar é figura metafórica de todas as casas que habitámos. E das que nunca chegámos a habitar.

Ao deslocar a instalação do espaço expositivo para a plateia, o dispositivo cénico tensiona fronteiras e convoca uma reflexão que ultrapassa o campo estritamente artístico. Aqui, o contexto não é um mero enquadramento, antes matéria constitutiva do sentido. Ao assistir à montagem, o público é colocado numa posição ambígua, entre o voyeur e o cúmplice, a contemplação e a participação. Levanta-se, aproxima-se, filma, fotografa - gestos que denunciam uma contemporaneidade apressada, quase ansiosa por capturar o instante antes que ele se dissolva. Mas o tempo da obra resiste a essa voragem. Há uma insistência na duração, na lentidão, que contraria o ritmo de um mundo em permanente aceleração. Nesse desfasamento encontra a peça a sua força crítica, obrigando o espectador a permanecer, a observar, a pensar. A casa que ali se constrói não é apenas abrigo. É campo de fricção, território instável, local de interrogação mútua entre identidade e pertença. Que lugar é este que habitamos? Quem fica de fora quando o definimos? O que restará quando partimos?

Mais do que uma reflexão sobre arquitectura afectiva, esta instalação convoca uma ética do olhar e da presença. O público deixa de ser figura passiva para se tornar elemento activo na dinâmica do espectáculo, responsável pelo modo como se inscreve num espaço partilhado. Há, por isso, uma dimensão política subtil, mas persistente: a provocação de um colectivo que se reconhece na fragilidade e na necessidade do outro. Num tempo em que o individualismo se impõe como norma, “Quem inventou a partida não sabia o que era amar” insiste na urgência do amor, da amizade e da partilha, valores que parecem gastos, mas não esgotados. Como argamassa invisível, são eles que sustentam a possibilidade de uma casa. Não perfeita, não definitiva, mas habitável. E talvez resida nisto a maior conquista desta obra: lembrar-nos que construir, tal como amar, é sempre um acto inacabado, feito de tentativas, de falhas e de recomeços. Uma prática de resistência contra o esquecimento daquilo que nos liga.

sábado, 18 de abril de 2026

CINEMA | "O Barqueiro" | Simão Cayatte




CINEMA: “O Barqueiro”
Realização | Simão Cayatte
Argumento | Simão Cayatte, Vasco Gato, Filipa Martins
Fotografia | Bartosz Swiniarski
Montagem | Micael Espinha
Interpretação | Jani Zhao, Madalena Aragão, Isabél Zuaa, Romeu Runa, Sandra Faleiro, Miguel Borges, Hugo Bentes, Filomena Gigante, Fernando Emanuel Pinheiro, Mafalda Jara
Produção | Paulo Branco
Portugal | 2026 | Crime, Drama | 106 Minutos | Maiores de 16 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 18
15 Abr 2026 | qua | 16:20


Segunda longa-metragem de Simão Cayatte, “O Barqueiro” parte de um dispositivo narrativo simples para expor uma realidade complexa, a de um homem que persiste na intenção de comprar um piano para a filha, gesto que pretende reparar anos de ausência e mentira. Frequentemente filmado como paisagem luminosa e apaziguadora, o Tejo é aqui território de fricção, espaço onde coexistem, sem contacto visível, dois países distintos: o da superfície, organizado e confortável, e o subterrâneo, feito de trabalho clandestino, exploração e silêncio institucional. Cayatte explora esse contraste com particular acuidade, transformando o rio num verdadeiro eixo dramático e simbólico. Mais do que cenário, o estuário converte-se num corredor de culpa e redenção, onde circulam corpos invisíveis, promessas improváveis e sonhos permanentemente adiados. A imagem recorrente de centenas de trabalhadores imersos na lama, à margem de um quotidiano urbano indiferente, condensa uma ideia central: a de um país que se constrói também sobre aquilo que insiste em não ver.

No centro deste dispositivo está Joaquim, figura ambígua e silenciosa, interpretada com notável contenção por Romeu Runa. Ex-recluso em liberdade condicional, decide ocultar a própria libertação da família, adiando um regresso que sabe imperfeito. Essa suspensão entre o dentro e o fora, entre pertença e afastamento, define não só a personagem, mas toda a lógica do filme. Joaquim move-se como um anti-herói clássico, preso a uma promessa simultaneamente ingénua e trágica. É nesta tensão entre a dimensão íntima e o contexto social que “O Barqueiro” ganha espessura. A economia paralela da apanha ilegal de amêijoa, longe de mero pano de fundo, inscreve-se como extensão da própria condição do protagonista: um espaço de sobrevivência onde as fronteiras morais são difusas. A sugestão de um “western fluvial” - com barcos em vez de cavalos e lodo no lugar do deserto - não é apenas uma metáfora estética, mas uma chave de leitura para um universo onde a lei é instável e a dignidade constantemente negociada.

Formalmente, Cayatte opta por uma depuração narrativa que privilegia os gestos sobre as explicações, num registo que convoca a tradição clássica sem abdicar de uma sensibilidade contemporânea. O realismo que constrói não assenta na acumulação de efeitos dramáticos, mas numa contenção que permite ao espectador habitar a estranheza daquele mundo. A câmara observa, mais do que sublinha, e o som, elemento particularmente relevante, contribui para uma textura sensorial onde reconhecimento e desconforto coexistem. Importa também destacar a recusa do pitoresco: as imagens da apanha de bivalves evitam qualquer exotismo, devolvendo antes a materialidade dura dos corpos em trabalho. Ao mesmo tempo, o filme nunca perde de vista a sua dimensão simbólica, nomeadamente na figura do barqueiro enquanto mediador entre margens, ecoando uma tradição mitológica que reforça a ideia de trânsito e suspensão. Obra que alia consciência social a uma rigorosa construção cinematográfica, “O Barqueiro” propõe um olhar incómodo, mas necessário, sobre o país real.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

LIVRO: "Orquestra" | Miqui Otero



LIVRO: “Orquestra”,
de Miqui Otero
Título original | “Orquesta” (© 2024, Miqui Otero)
Tradução | J. Teixeira de Aguilar
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2026


Con dinero y sin dinero, hago siempre lo que quiero. Olha para o neto e vê-se no passado, o neto olha para ele e não se vê no futuro. Por isso o pequeno está só alegre e ele está alegre e triste. E raivoso, porque poderia aparecer o Ambipur, o cabrão que anda sempre as deslocar os marcos de pedra para cultivar um pedaço que não é dele. O que o Quasegiro não sabe é que neste preciso instante o Ambipur aproveita o facto de ele não estar para carregar uma a uma todas as garrafas de tutano e cortar todos os cabos do quadro elétrico da garagem que ele deixou aberta. O Quase giro não sabe, não, mas olha para o ato e sente pena e alívio porque ele não tem problemas como o seu, que hoje poderia acabar à pancada com um vizinho em plena Festa. Mas oferece outra rodada. E, quando a acaba, vai até ao centro do prado e, sem pedir licença ao neto, que faz uma coreografia em círculo com os seus amigos, agarra-o pela cintura, levanta-o e dá-he um abraço e um beijo com cheiro a genebra.”

“Orquestra”, de Miqui Otero, funda-se numa ambição rara na narrativa contemporânea: a de capturar, num só gesto, o pulso íntimo de uma pequena comunidade, fazendo dela espelho do mundo inteiro. Longe de ser um mero artifício, a escolha de uma voz narradora difusa - essa “música” que atravessa corpos, tempos e consciências - assume-se como dispositivo central de um romance que pretende dissolver fronteiras entre o sujeito e o colectivo, a memória e o presente. Mais do que geográfico, o lugar de Valdeplata, fulcro da acção, é apresentado como espaço simbólico onde a ressaca de uma noite de festa expõe a vasta trama de vestígios físicos e emocionais que cruzam espaços e gentes. Miqui Otero ergue, assim, uma espécie de fresco social que recusa facilitismos, preferindo antes uma tessitura densa de afectos, segredos e tensões. Do Conde agonizante ao camionista Ventura, é de ecos de uma tradição oral reinventada que a trama se constrói, cada personagem transportando consigo uma narrativa própria, inevitavelmente contaminada pelas demais.

O que faz de “Orquestra” um objecto único não é apenas a multiplicidade das suas vozes, mas a forma como estas se entrelaçam sob a égide de uma sensibilidade musical que organiza o caos aparente. A metáfora do tempo como um lenço amarfanhado, no qual coexistem infância, idade adulta e velhice, traduz bem a lógica interna do romance: uma recusa da linearidade em favor de uma simultaneidade emocional. O autor demonstra uma particular destreza na articulação de episódios que, podendo resvalar para o fragmentário, acabam por compor uma unidade orgânica, ainda que por vezes desigual. Se, por um lado, a profusão de personagens enriquece o retrato colectivo, por outro, gera momentos de dispersão que se transformam num verdadeiro desafio à atenção do leitor. Ainda assim, é precisamente nesse excesso de histórias, nesse caos de referências musicais e de camadas temporais, que reside a força do livro, evocando uma memória partilhada que ultrapassa o espaço ficcional e convoca experiências reconhecíveis no tecido social.

Há, finalmente, uma dimensão profundamente nostálgica que atravessa o romance, sem cair nunca numa idealização ingénua do passado. A festa popular, com os seus cheiros, refrões e rituais, as suas barracas de comes e bebes, o seu palco precário onde toca a Orquestra, surge como campo privilegiado de revelação: é ali, sob a aparência de comunhão, que se expõem fracturas, desejos reprimidos e fantasmas comuns. Simultaneamente narradora e personagem, a “música” funciona como fio condutor dessa revelação, lembrando que a identidade individual é sempre permeável ao outro. “Orquestra” é, nesse sentido, uma celebração e um lamento, um gesto de pertença e de perda. Miqui Otero afirma-se como um autor capaz de transformar o quotidiano em matéria literária de uma grande intensidade e emoção, embora se deva reconhecer que nem sempre consegue domar plenamente a força e amplitude do seu projecto. O resultado é uma obra que peca por irregular, mas, a espaços, vibrante e que perdura no íntimo do leitor muito depois de virada a última página.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

CINEMA: "Caso 137" | Dominik Moll



CINEMA: “Caso 137” / “Dossier 137”
Realização | Dominik Moll
Argumento | Gilles Marchand, Dominik Moll
Fotografia | Patrick Ghiringhelli
Montagem | Laurent Rouan
Interpretação | Léa Drucker, Jonathan Turnbull, Mathilde Roehrich, Pascal Sangla, Claire Bodson, Julien Lilti, Florence Viala, Hélène Alexandridis, Stanislas Merhar, Antonia Buresi, Geneviève Mnich, Christian Sinniger, Sandra Colombo, Côme Péronnet, Alicia Mady
Produção | Caroline Benjo, Barbara Letellier, Carole Scotta
França | 2025 | Crime, Drama | 115 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 18
13 Abr 2026 | seg | 16:10


Depois do impactante “A Noite do Dia 12”, Dominik Moll regressa a um território que tão bem domina: o da investigação como instrumento de dissecação moral e social. Inspirado na crise dos “coletes amarelos” de 2018, o filme acompanha Stéphanie Bertrand, agente da IGPN – mais conhecida como a “polícia das polícias” - incumbida de apurar responsabilidades num caso de violência policial que deixou um jovem manifestante gravemente ferido. Aquilo que à partida parece um procedimento rotineiro depressa se transforma num labirinto de versões contraditórias, silêncios cúmplices e resistências internas. Moll constrói o filme como um puzzle burocrático, fazendo de cada depoimento, de cada imagem de videovigilância, de cada relatório, uma peça que se acrescenta a uma verdade sempre incompleta. Escritórios anónimos, interrogatórios filmados em tempo quase real e um ritmo deliberadamente lento mostram o quanto a realização privilegia a sobriedade, a tensão a emergir não da acção, mas do confronto psicológico e da persistência.

Assinado por Dominik Moll e Gilles Marchand, o argumento revela um rigor quase cirúrgico na forma como acompanha todas as etapas da investigação, recusando atalhos dramáticos ou simplificações morais. “Caso 137” evita tanto a absolvição fácil como a condenação sumária, preferindo expor as zonas cinzentas de um sistema corporativista, empenhado em proteger-se a si próprio. Neste contexto, a interpretação de Léa Drucker impõe-se pela contenção e pela densidade: a personagem Stéphanie é metódica, resiliente, mas também progressivamente fragilizada por um trabalho que a isola e a coloca sob suspeita, tanto entre colegas como perante a opinião pública. Subtilmente sugerida em momentos de solidão ou em gestos aparentemente marginais, a dimensão íntima reforça o retrato de uma mulher refém da ética profissional e da pressão de um meio hostil. Ao mesmo tempo, personagens secundárias, como a testemunha relutante oriunda das periferias, introduzem uma dimensão social mais ampla, onde a desconfiança nas instituições se cruza com as desigualdades estruturais.

Mais do que um simples policial, “Caso 137” afirma-se como um espelho incómodo de uma sociedade fracturada, no seio da qual a verdade se dilui entre narrativas concorrentes e interesses institucionais. A inclusão de imagens de arquivo e registos captados por telemóveis reforça a sensação de realidade e sublinha a violência latente de um contexto marcado pela tensão entre o Estado e os cidadãos. Dominik Moll não procura respostas definitivas; pelo contrário, insiste na ambiguidade e na frustração de um processo que raramente conduz a uma justiça plena. A pergunta que ecoa no final - sobre a utilidade de um trabalho feito com rigor mas sem consequências palpáveis - sintetiza o desencanto que atravessa todo o filme. Ainda assim, é precisamente nessa recusa de simplificação que reside a sua força: um cinema que incomoda, que interpela e que lembra que a verdade, antes de ser proclamada, exige um esforço solitário e muitas vezes inglório.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

CONCERTO: Fourward | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Fourward
Com | Simão Duque (fliscorne), José João Viana (guitarra eléctrica), Gonçalo Cravinho Lopes (contrabaixo), Tomás Alvarenga (bateria)
Ovar em Jazz 2026
Bar do Centro de Artes de Ovar
11 Abr 2026 | sab | 17:00


No espaço informal do Bar do Centro de Artes de Ovar, a abertura do último dia do Ovar em Jazz 2026 esteve a cargo dos bracarenses Fourward, quarteto que tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais inquietas da nova cena jazzística nacional. Longe de qualquer ortodoxia, o grupo apresentou-se com a confiança de quem já encontrou um léxico próprio, ainda que permanentemente aberto a novas ideias e conceitos. A música de “Freedom”, o seu trabalho de estreia, serviu de eixo ao concerto, permitindo perceber diferentes formas de deriva, expansão e confronto de linguagens em temas como “Colmeia”, “Assobio”, Gruta”, “Deicida” ou o tema que dá nome ao álbum. Desde o primeiro instante, foi evidente que a promessa de “reinvenção” do jazz não seria aqui um mero artifício promocional, antes uma prática concreta de desconstrução, sustentada numa recusa deliberada do academismo e numa escuta atenta do presente. Próximo, ruidoso, por vezes disperso, o ambiente do Bar do CAO acabou por favorecer essa abordagem, permitindo que o som se infiltrasse de forma orgânica no espaço, sem a solenidade que tantas vezes cristaliza o género.

A instrumentação clássica - fliscorne, guitarra eléctrica, contrabaixo e bateria - funciona, no caso dos Fourward, como ponto de partida e não como limite. Simão Duque explorou o fliscorne com um fraseado que oscila entre o lirismo contido e um conjunto de incisões rítmicas, enquanto José João Viana, sem fugir à tentação de um virtuosismo que lhe é inato - o futuro abre-se, luminoso, a este enorme guitarrista -, pôs no ar uma delicada teia de texturas e camadas, em diálogos profícuos com o pulso colectivo. Gonçalo Cravinho Lopes assegurou um contrabaixo simultaneamente estruturante e maleável, muitas vezes ancorado em padrões repetitivos a evocar tanto o hip-hop como certas linguagens electrónicas. Já Tomás Alvarenga revelou-se peça-chave na arquitectura sonora, graças a uma bateria precisa e inventiva, criando um campo expandido onde as composições tiveram espaço para respirar. Houve, no modo como o quarteto soube trabalhar o groove e a repetição, uma clara filiação geracional: o loop deixou de ser vício para se tornar dispositivo expressivo, abrindo espaço a uma escuta mais dilatada.

O concerto em Ovar confirmou os Fourward como parte de um movimento mais amplo, mas também como entidade autónoma, difícil de encaixar em categorias estanques. Se há algo que se afirma como marca distintiva do projecto é a recusa em escolher entre tradição e modernidade. Percebe-se que o repertório nasce tanto de uma urgência de palco como de um trabalho mais reflectido em residência, e essa dualidade traduz-se numa música que alterna entre momentos de grande coesão e outros de risco calculado. Nem todas as passagens atingiram o mesmo grau de intensidade - houve secções onde a exploração tímbrica se prolongou além do necessário -, mas mesmo aí persistiu a sensação de procura genuína. Os Fourward estão ainda a mapear o seu território, fazendo-o com uma clareza de intenções rara, firmes no propósito de avançar, sempre, sem olhar em demasia para trás. Enquanto lá fora o vento fez questão de soprar rijo, parecendo querer levar consigo a novidade que começa a pintar de verde as árvores e os campos, foi no coração do Bar do CAO que a verdadeira “revoada” se fez sentir, num misto de intensidade, emoção e liberdade.

terça-feira, 14 de abril de 2026

CONCERTO: Oxímoro | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Oxímoro
Com | João Martins (bateria, sintetizador, caixa de ritmos), Gabriel Neves (saxofone soprano), Daniel Dias (trombone), Nuno Trocado (guitarra eléctrica), Fernando Rodrigues (sintetizador), Laura Rui (voz e sintetizador)
Ovar em Jazz 2026
Bar do Centro de Artes de Ovar
10 Abr 2026 | sex | 23:00


Foi no cair da noite que o terceiro dia do Ovar em Jazz encontrou o seu momento mais desassombrado, com a apresentação de “Oxímoro”, projecto de João Martins, compositor e instrumentista que tem sido um dos grandes motores deste festival desde a primeira hora. Misto de lucidez e ousadia, o concerto afirmou-se como um laboratório vivo de tensões instáveis e equilíbrios precários, à altura do que de melhor podemos usufruir em matéria de jazz. Se, na tertúlia / escuta comentada de Maio de 2025 [AQUI], o músico havia exposto ao detalhe a arquitectura conceptual do álbum, aqui foi o corpo sonoro que tomou a dianteira, libertando-se de explicações para se afirmar numa linguagem de permanente risco e reinvenção. Desde os primeiros instantes, tornou-se claro que este sexteto não vinha para fazer concessões. Ora pulsante ora fragmentária, a bateria de João Martins assumiu-se como eixo catalisador de um discurso onde o inesperado recusou ser excepção, abrindo caminho a um fluxo sonoro que oscilou entre momentos de suspensão rarefeita e uma densidade quase caótica.

A instrumentação alargada revelou-se determinante na construção desta narrativa. Gabriel Neves, no saxofone soprano, desenhou linhas com tanto de abrasivo como de insinuante, enquanto Daniel Dias trouxe ao trombone uma fisicalidade rugosa, frequentemente em confronto directo com a guitarra eléctrica de Nuno Trocado, cujo registo oscilou entre texturas saturadas e subtis incursões atmosféricas. Dividida entre a voz e o sintetizador, Laura Rui evitou qualquer lirismo óbvio, optando antes por vocalizações fragmentadas, quase espectrais, integradas num tecido electrónico que Fernando Rodrigues ajudou a expandir com camadas de síntese ora envolventes, ora dissonantes. O resultado foi um contínuo em mutação, onde ritmos quebrados, loops insinuados e explosões súbitas coexistiram numa espécie de improvisação guiada, mais próxima de um “acto de fé” colectivo do que de uma execução estritamente planeada.

Não sendo música para todos os gostos e públicos - e ainda bem que assim é -, “Oxímoro” afirma-se como uma experiência estética exigente, que se impõe pela negação de uma certa linearidade e lança o desafio ao público a que abdique de todas e quaisquer referências estáveis. Momentos há em que a turbulência sonora parece roçar o colapso, com a bateria a disparar rajadas em doses industriais e os sintetizadores a distorcerem o espaço auditivo até ao limite, mas é precisamente nessa vertigem que o projecto encontra a sua coerência interna. Tal como nas melhores expressões do “free jazz”, o concerto não buscou sustentação na desobstrução por mero efeito ou acaso, antes partiu ao encontro de novas formas de articulação entre som, silêncio e gesto. No final, ficou a certeza de termos assistido a algo irrepetível, um objecto artístico em permanente devir que, fiel ao seu título, fez da contradição não um obstáculo, mas o seu mais fértil princípio criativo.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

CONCERTO: Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal com John O'Gallagher | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal
Com | John O’Gallagher (saxofone)
Direcção | Pedro Moreira
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar
11 Abr 2026 | sab | 21:30


O concerto de encerramento do Ovar em Jazz 2026 confirmou, uma vez mais, a vitalidade e pertinência artística da Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal, uma formação que soube, ao longo das últimas décadas, consolidar um lugar singular no panorama nacional. Sob a direcção segura de Pedro Moreira, a Orquestra apresentou-se com uma coesão assinalável, revelando um trabalho rigoroso de preparação e uma escuta interna rara, que permitiu explorar dinâmicas subtis e contrastes expressivos com naturalidade. Ao longo do concerto, foi evidente a intenção de dar a ouvir as novas linguagens da música para orquestra, bem como de as tensionar à luz de uma sensibilidade contemporânea. Feito de nomes como Frank Carlberg, Hans Koller, Allan Ferber, Christine Jensen, Luís Cunha e Pedro Moreira, o alinhamento do concerto mostrou formas de escrita orquestral simultaneamente densas e permeáveis à improvisação, funcionando como terreno fértil para a afirmação de vozes individuais, sem nunca comprometer o equilíbrio colectivo.

Houve um sentido de continuidade a ligar este concerto à memória da actuação de 2021, na altura com o saxofonista Julian Argüelles a título de convidado. Mas houve também uma clara vontade de ir mais longe, recusando qualquer acomodação à fórmula já testada. A presença de John O’Gallagher veio acentuar essa dimensão de risco e abertura. O saxofonista nova-iorquino trouxe consigo um discurso firme, intelectualmente exigente e fortemente vinculado à pulsação física do jazz. O seu som, incisivo e por vezes quase abrasivo, contrastou com a maleabilidade da massa orquestral, criando momentos de fricção particularmente estimulantes. Longe de procurar um protagonismo fácil, O’Gallagher integrou-se na lógica do ensemble, dialogando com os naipes e desafiando-os a sair das suas zonas de conforto. Construídos com um sentido arquitectónico apurado, os seus solos revelaram uma imaginação rítmica e harmónica que elevou o concerto a um patamar de enorme densidade artística. Houve instantes em que a música pareceu suspender-se, como se todos os músicos procurassem, em simultâneo, uma nova direcção possível. A orquestra respondeu com maturidade, acompanhando e, por vezes, contrariando o solista, num jogo de forças que manteve o público em permanente expectativa.

Entre os músicos da casa, destacou-se novamente a solidez do colectivo, com intervenções individuais que, sem exibicionismos, contribuíram decisivamente para o resultado global. Uma parte dos aplausos vai, naturalmente, para a secção rítmica, onde pontuaram o contrabaixo de Emanuel Inácio e a bateria de Pedro Felgar, mas sobretudo a guitarra de Bruno Santos e o piano de Óscar Marcelino da Graça, funcionando como elementos agregadores, ora sublinhando tensões, ora abrindo espaços de respiração. O aplauso estende-se aos metais, reveladores de uma grande precisão e de um fraseado elegante e responsáveis por um conjunto de inspirados solos com assinatura de Johannes Krieger, Luís Cunha, Tomás Marques, Gonçalo Marques e Guilherme Fradinho. A Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal fecha em grade o Ovar em Jazz 2026 com a certeza de que não se limita a preservar uma herança, antes a transformá-la, projectando-a no presente com uma lucidez rara. O concerto foi, assim, um exercício de renovação e modernidade, memória e invenção, disciplina e liberdade. Um encerramento à altura da história do Ovar em Jazz: exigente, emotivo e profundamente vivo.

domingo, 12 de abril de 2026

CONCERTO: "Phenomenon" Marius Preda | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: “Phenomenon” Marius Preda
Com | Marius Preda (címbalo, acordeão e violino), Taco Gorter (bateria), Kiba Dachi (baixo)
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar
10 Abr 2026 | sex | 21:30


À semelhança do que sucedera na edição anterior com Tigran Hamasyan, o terceiro e penúltimo dia do Ovar em Jazz 2026 extravasou as fronteiras do mero concerto para se afirmar, tanto de um ponto de vista estético como filosófico, como um momento de reflexão sobre o lugar do jazz no universo da música. Não haverá, na verdade, género em cujo “saco” caibam mais estilos, modos, tempos ou conceitos, mas aquilo que Marius Preda mostrou foi algo de completamente diferente: um estilhaçar das convenções sobre a forma de “fazer jazz”. No centro das atenções esteve o címbalo - instrumento milenar, de ressonâncias que nos fazem recuar a Marco Polo e às caravanas que atravessavam a Rota da Seda -, reinventado com uma ousadia rara. Multi-instrumentista de recursos inesgotáveis, Preda abordou o instrumento, não como curiosidade étnica, mas como veículo principal de uma linguagem própria, híbrida e em permanente mutação. Estendendo o seu virtuosismo ao piano e ao acordeão, aquilo que o músico mostrou foi algo de difícil classificação, o concerto a orbitar o fascinante mundo dos “fenómenos” e a deixar o público mais preso à actuação do que à música em si.

Com “Mission Cimbalon”, o tema que abriu a noite, rapidamente se percebeu que Marius Preda não veio a Ovar apenas para apresentar um instrumento pouco habitual no léxico jazzístico, antes para reconfigurá-lo enquanto eixo narrativo, capaz de sustentar composições densas, ritmicamente incisivas e emocionalmente expansivas. E isso foi evidente ao longo de um concerto de curta duração mas de enorme intensidade, capaz de roubar o fôlego até aos mais habituados a estas andanças do jazz. Assente num trio que contou com os contributos do baterista Taco Gorter e do baixista Kiba Dachi, o concerto evoluiu através de um discurso sonoro que soube tirar partido da enorme fluidez entre géneros. Particularmente marcante foi a forma como o címbalo, com o seu timbre percussivo e metálico, se integrou na malha rítmica, ora funcionando como motor, ora como elemento melódico de grande subtileza. Envoltos numa energia febril e num rigoroso sentido formal, apontamentos de jazz latino, sugestões de música árabe, inflexões de blues e ecos da vibrante tradição cigana entrelaçaram-se com naturalidade nas homenagens que o músico entendeu prestar a Arturo Sandoval, Astor Piazzolla ou Stevie Wonder.

Aliando virtuosismo - que em doses generosas se espalhou pelos quatro cantos de um pouco preenchido Auditório do Centro de Artes de Ovar -, a uma clareza de intenções no aproximar de culturas, dissolver fronteiras estilísticas e propor uma escuta aberta e inclusiva, o concerto fez da travessia de territórios o motor de construção de uma identidade musical própria. Marius Preda não se limitou a exibir perícia técnica, antes procurou instaurar uma experiência colectiva, cada tema a afirmar-se como ponto de encontro entre o passado e o presente, a tradição e a modernidade. Percebeu-se, em “Phenomenon”, essa dimensão quase utópica, mas que em palco pareceu diluída nos muitos momentos de enorme exuberância instrumental que acabaram por se sobrepor à substância, embora se aceite que é precisamente nesse excesso controlado que reside a singularidade do projecto. Ainda que a performance tenha estado quase sempre um passo à frente da música, o fulgor do “fogo de artifício” a abafar os ecos raros e subtis da própria festa, fica a sensação de termos assistido a algo único, não apenas no que teve de afirmação de um singularíssimo músico, mas também na recriação das possibilidades de um instrumento peculiar.

sábado, 11 de abril de 2026

CONCERTO: "11:11" Carlos Bica Quarteto | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: “11:11” | Carlos Bica Quarteto
Com | Carlos Bica (contrabaixo), José Soares (saxofone), Eduardo Cardinho (vibrafone), Gonçalo Neto (guitarra)
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar – Caixa de Palco
09 Abr 2026 | qui | 21:30


No segundo dia do Ovar em Jazz, o quarteto liderado por Carlos Bica trouxe à Caixa de Palco do Centro de Artes de Ovar a matéria subtil e inquieta de “11:11”, reafirmando ao vivo aquilo que tem sido a minha percepção de incontáveis horas de escuta de um trabalho de 2024: uma música como que suspensa entre a serenidade e a turbulência, no limiar da tempestade. Neste seu regresso a Ovar, mais do que apontar direcções, o genial compositor e instrumentista insinuou-as com um contrabaixo de timbre profundo e contido, conduzindo sem impor, deixando que o discurso emergisse de uma escuta atenta entre os pares. A ausência da bateria - opção formal que poderia sugerir rarefacção - revelou-se antes um campo aberto de respiração colectiva, oferecendo espaço ao tempo para que se dilatasse e reinventasse. Entre “Blue in Grey” e “A Place You will Never See”, o alfa e o ómega de um momento de raro brilhantismo, percebeu-se que a pressa não seria para aqui chamada, a música a avançar pacientemente, a marcar a sua própria cadência, como quem tateia um labirinto e confia que cada desvio contém já o seu próprio sentido.

Esta lógica de deriva controlada encontrou expressão particularmente rica no diálogo entre José Soares, Eduardo Cardinho e Gonçalo Neto, três vozes distintas que recusam protagonismos fáceis em favor de uma construção orgânica do som. Ora espectral, ora incisivo, o saxofone alto de Soares desenhou linhas que pareceram dissolver-se no éter antes de se fixarem plenamente; movido pelo gozo da improvisação, o vibrafone de Cardinho impôs-se com uma luminosidade difusa, quase táctil, enquanto a guitarra de Neto oscilou entre a delicadeza folk, um baixo contínuo sussurrado e poderosas inflexões de natureza angular. Estas interacções alcançaram uma dimensão física de enorme fôlego, uma organicidade feita de imaginação e rigor, cada gesto sonoro como que nascido de um silêncio partilhado, a sublinhanr a ideia de que ninguém força nada e tudo acontece no tempo certo. O resultado foi um concerto de um magnetismo lento, hipnotizante, capaz de envolver o público numa teia de subtilezas e paixões.

Se em disco “11:11” já se afirmava como um dos trabalhos mais marcantes do jazz português recente, em Ovar revelou-se ainda mais como um objecto vivo, em permanente mutação. A dramaturgia das composições - esse encadeamento quase invisível de atmosferas - ganhou uma clareza particular em palco, temas como “Lucky”, “Pentimenti”, “Paris” ou os formidáveis “Roots” e “11:11” a sucederem-se numa lógica de sofisticação e bom gosto, como anéis de crescimento numa árvore milenar, imagem tantas vezes associada ao percurso de Bica. Houve momentos de maior densidade, mas nunca explosivos; houve picos de intensidade emocional que se insinuaram para depois recuar, deixando um rasto luminoso e persistente. No final, ficou a sensação de termos assistido não tanto a um concerto, mas a um processo: uma música capaz de se construir enquanto acontece, fiel a uma estética de equilíbrio entre o individual e o colectivo, entre o rigor composicional e a liberdade improvisada. Nesse espaço intermédio, raro e exigente, o quarteto de Carlos Bica foi estrela fulgurante no firmamento do Ovar em Jazz 2026. Só faltou “A Noite” para que a noite fosse absolutamente perfeita; mas isso já são outros “quinhentos”.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

CONCERTO: Anna Setton | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Anna Setton
Com | Anna Setton (voz e guitarra), Edu Sangirardi (piano), Pedro Santos (bateria)
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar – Caixa de Palco
08 Abr 2026 | qua | 21:30


A abertura do Ovar em Jazz 2026 ficou marcada por um concerto de assinalável coerência estética e rara delicadeza expressiva, protagonizado por Anna Setton. A viver há três anos no nosso país, a cantora e compositora brasileira apresentou-se no ambiente intimista da Caixa de Palco do Centro de Artes de Ovar exibindo uma maturidade artística consolidada ao longo de mais de uma década e meia de um percurso que cruza o jazz, a bossa nova e a MPB. Desde “Sim”, sugestivo tema de abertura de um concerto afirmativo a muitos títulos, tornou-se evidente a solidez de uma linguagem própria, construída tanto na vivência dos clubes de São Paulo como na experiência internacional ao lado de nomes maiores da música brasileira. A sua voz timbrada, aconchegante e calorosa, revelou uma capacidade invulgar de transmitir emoções sem recorrer a excessos, privilegiando antes uma contenção expressiva que se traduziu numa proximidade quase confidencial com o público. Num ambiente descontraído, o concerto desenrolou-se com uma fluidez narrativa notável, cada tema como prolongamento natural do anterior, num equilíbrio subtil entre originalidade e tradição.

Acompanhada ao piano por Edu Sangirardi e com Pedro Santos na bateria, Anna Setton tirou o maior partido de um suporte instrumental simples, mas de uma enorme versatilidade e cumplicidade. O trio destacou-se pela forma como soube trabalhar o espaço e o silêncio, evitando qualquer tentação de virtuosismo gratuito em favor de uma construção sonora coesa, feita de elegância e bom gosto. Depurados e minuciosos, os arranjos permitiram evidenciar tanto a sofisticação harmónica como a riqueza rítmica de temas como “Morena Bonita”, “Ponta de Areia”, “Canto de Aruanda” ou “Revoada”, vertidos com naturalidade numa linguagem jazzística contaminada, no melhor sentido, pelos ecos do xote e do choro, do forró e do baião. Parceiro criativo de longa data, Sangirardi revelou-se peça central na arquitectura do concerto, oferecendo intervenções de grande musicalidade, enquanto o diálogo rítmico com a bateria sustentou com discrição e firmeza a dinâmica do grupo. Nos momentos em que Anna Setton tocou a solo ou pousou a guitarra, a sua presença cénica ganhou uma nova dimensão, mais solta e corporal, aprofundando ainda mais a ligação com o público.

Num registo de elegância discreta e profunda consistência artística, o trio ofereceu um espectáculo que, mais do que impressionar, soube permanecer, prendendo o público pela qualidade e sensibilidade das interpretações. Cuidadosamente escolhido, o repertório percorreu temas originais dos três álbuns anteriores da cantora (e do próximo que está quase a chegar), para além de revisitar clássicos como “É Preciso Perdoar”, “Carinhoso”, “Chega de Saudade” ou “Chovendo na Roseira”. No balanço entre temas originais de Anna Setton e Edu Sangirardi, o calor das composições de João Gilberto, António Carlos Jobim ou Pixinguinha e a sugestão doce e delicada de vozes como as de Chico Buarque, Elis Regina ou Ivan Lins, o público foi conduzido por uma experiência sensorial onde a emoção se impôs pela via do tom e do ritmo, da nuance e da interpretação. Mais do que revisitar a tradição, Anna Setton soube inscrevê-la numa contemporaneidade subtil, memória e reinvenção de mãos dadas numa clara afirmação de identidade. Um belo momento inaugural do Ovar em Jazz, a confirmar a pertinência da inclusão da artista no cartaz do festival e a colocar bem alto a fasquia para as noites seguintes.