LIVRO: “Ciúme - A Outra Vida de Catherine M.”,
de Catherine Millet
Título original | “Jour de Souffrance”, © Flammarion, 2008
Tradução | Miguel Martins
Ed. Edições 70, Outubro de 2025
“Como um gatinho que veio agarrar-se à nossa barriga para lhe dar patadas durante longos minutos, aplicado e obstinado no seu prazer, e, de repente, sem que nos tenhamos mexido nem que tenha havido um barulho, se endireita, se estica e foge para longe, para responder a um chamamento inaudível para nós, o nosso desejo abandona o seu objecto. Nenhum sinal nos preveniu desse afastamento. Um dia apercebi-me de que havia já bastante tempo que não via aquele homem nem o fazia surgir nos meus devaneios. Só então é que me regressou a noção do tempo. Disse a mim mesma, mais ou menos, isto: ‘Seis meses sem pensar nele! Nunca teria acreditado que isto fosse possível!’ ”
“Ciúme – A Outra Vida de Catherine M.” é um livro que recusa deliberadamente a facilidade do romance e a linearidade do relato. Ao longo de duas centenas de páginas, Catherine Millet constrói uma espécie de anatomia da paixão, feita de fragmentos reflexivos onde o ciúme, a infidelidade, o corpo e a vida conjugal são submetidos a uma observação quase cirúrgica. Depois da exposição da sexualidade sem culpa em “A Vida Sexual de Catherine M.”, a autora regressa ao mesmo território para revelar a sua contradição mais incómoda: a liberdade sexual não imuniza ninguém contra a posse, a insegurança ou o medo da perda. Catherine pode aceitar, e até imaginar, uma multiplicidade de parceiros, mas descobre que a liberdade muda de natureza quando é o outro quem a exerce. É nesta inversão que o livro mais inquieta e leva o leitor a reflectir. A mulher que parecia ter transformado o desejo num exercício racional de autonomia, vê-se confrontada com uma emoção primária, irracional e devastadora. O ciúme não surge apenas como reacção à traição física: é a presença imaginária de um terceiro que invade os espaços comuns, os amigos, as referências culturais e, sobretudo, a intimidade de uma relação que julgávamos conhecer.
A escrita de Catherine Millet acompanha essa perturbação através de uma prosa cerebral, minuciosa e por vezes deliberadamente sufocante. Não há aqui o impulso confessional tradicional, apesar da aparente nudez da matéria. A autora distancia-se constantemente de si própria, desmontando gestos, recordações e fantasias com a precisão de quem disseca um organismo. Essa frieza é, simultaneamente, a qualidade e a limitação do livro. Há momentos de extraordinária inteligência, sobretudo quando a realidade e a imaginação se confundem e quando o pensamento transforma a infidelidade num território povoado de hipóteses, imagens e vidas paralelas. A ideia de que cada encontro resulta de uma cadeia quase infinita de decisões, por exemplo, amplia a história conjugal para uma reflexão sobre a responsabilidade e o acaso. O mesmo acontece com a atenção concedida ao corpo, esse território que não obedece necessariamente às hierarquias estabelecidas pela razão: a ansiedade, o luto ou o desejo recordam ao sujeito pensante que a natureza humana não é inteiramente governável. Catherine Millet escreve, assim, sobre o amor através daquilo que nele permanece irredutível à inteligência.
O leitor cedo perceberá que essa obsessão analítica torna a leitura por vezes árdua. “Ciúme” é um livro que rumina, regressa aos mesmos acontecimentos, percorre-os de novo, acrescenta-lhes uma possibilidade, uma suspeita, uma vingança subtil. A repetição parece reproduzir o próprio mecanismo do ciúme, que nunca se satisfaz com uma resposta e transforma cada explicação numa nova pergunta. O efeito pode ser hipnótico, mas também extenuante, como se o leitor fosse progressivamente encerrado no mesmo circuito mental da narradora. E, contudo, seria injusto reduzir esta experiência a um exercício de narcisismo ou de exibicionismo literário. O verdadeiro interesse do livro está justamente na desmontagem de uma ilusão: a de que somos tão racionais, livres e modernos quanto gostamos de imaginar. Catherine Millet descobre em si uma mulher capaz de sofrer de uma forma que contradiz a personagem que anteriormente construíra, e é dessa fractura que nasce a literatura. O livro vale menos como confissão conjugal do que como estudo de uma contradição humana. A sua conclusão mais perturbadora é também a mais universal: podemos desafiar as convenções do amor, multiplicar os desejos e recusar a moral tradicional, mas continuamos vulneráveis à velha, elementar e humilhante dor de imaginar que alguém que amamos pertence, nem que seja por instantes, a uma vida onde já não temos lugar.