Ai Weiwei é um daqueles artistas que trabalham a matéria e que, através dela, insistem em interrogar o presente em que vivemos. A sua obra nasce muitas vezes de algo concreto, seja uma peça de roupa ou uma mochila, uma rede ou um botão, uma cadeira ou uma casa, para imediatamente a fazer ir além da sua função e a colocar perante a História. É nesse movimento, entre o objecto e aquilo que o objecto transporta, que a presença de Ai Weiwei na CONTEXTILE ganha particular espessura. O seu encontro com a cidade-berço, iniciado em 2024, não foi apenas o encontro de um artista com uma bienal, mas o reconhecimento de uma cidade onde o têxtil ainda pode ser entendido como matéria viva, saber acumulado e memória colectiva. Em Ai Weiwei, o tecido deixa de ser superfície para se tornar arquivo. Guarda o corpo que o vestiu, a mão que o fabricou, o território onde circulou, o conflito que o atravessou. É uma matéria aparentemente dócil, mas capaz de transportar guerra, deslocação, trabalho, infância e resistência. Por isso, “Por um Fio” / “By a Thread”, tema desta 8.ª edição da Bienal, adquire, na sua presença, uma ressonância quase física: estamos por um fio, entre a permanência e a ruptura, entre a intimidade e a violência, entre aquilo que fabricamos e aquilo que nos fabrica. A importância de Ai Weiwei em Guimarães reside justamente nessa capacidade de transformar uma prática artística numa pergunta dirigida ao presente e de fazer do têxtil, simultaneamente, linguagem, testemunho e lugar de pensamento.
Em “Fabrication”, no Centro Internacional das Artes José de Guimarães, essa pergunta ganha uma densidade quase arqueológica. A exposição percorre diferentes tempos e diversos usos do tecido, como quem percorre as camadas de uma civilização através dos seus fragmentos. Uniformes militares são desfiados e reconduzidos à intimidade de uma roupa de cama; botões industriais tornam-se matéria de escrita; casacos de camuflagem são apagados, bordados, floridos, desarmados. O gesto de Ai Weiwei é sempre um gesto de transformação: retirar uma coisa do seu destino e obrigá-la a contar outra história. “Jogo de Cama” / “Bedding” é talvez a imagem mais poderosa desta operação, porque nela o conflito é levado para o lugar do repouso. Os uniformes, associados à disciplina, à guerra e à autoridade, regressam à escala do corpo que dorme. E, contudo, nada é verdadeiramente apagado. O passado permanece entranhado nos fios. O mesmo acontece com as 350 mochilas que evocam as crianças mortas no terramoto de Sichuan, com os coletes salva-vidas que transformam a memória da migração numa arquitectura de protecção, ou com a bagagem de Fairytale, testemunho de uma viagem colectiva que fez do deslocamento uma obra de arte. Até os fragmentos têxteis de há mil ou dois mil anos parecem dizer a mesma coisa em silêncio: os corpos desaparecem, mas as coisas permanecem. Entre a fragilidade da fibra e a violência da História estabelece-se assim uma tensão extraordinária. Ai Weiwei não monumentaliza apenas acontecimentos; monumentaliza os vestígios. E talvez seja essa uma das grandes forças da exposição: obrigar-nos a olhar para aquilo que normalmente tocamos sem ver.
Fora do museu, a obra deixa de pedir contemplação e passa a ocupar o espaço comum. Em “Camouflage”, suspensa sobre a praça da Plataforma das Artes e Criatividade, a camuflagem militar transforma-se em abrigo, sombra e desenho. A superfície que nasceu para ocultar revela, afinal, gatos; a linguagem da guerra é atravessada por uma inesperada ternura. Há aqui uma ironia recorrente na abordagem artística de Ai Weiwei: aquilo que foi concebido para desaparecer torna-se monumental e público. A rede já não esconde o soldado; cobre o cidadão. No caso de “Net”, nos Tanques de Couros, a relação com Guimarães torna-se ainda mais profunda. As redes, associadas à pesca e à subsistência, transportam agora também a marca dos conflitos contemporâneos e das utilizações militares na Ucrânia. Suspensas em bambu, movidas pelo vento, deixam de parecer uma coisa fixa para se tornarem acontecimento. A luz atravessa-as, o ar modifica-as, o olhar nunca encontra exactamente a mesma forma. É uma obra sobre a instabilidade, mas também sobre a capacidade de transformação de uma matéria. E talvez seja significativo que esta instalação surja num lugar onde a própria cidade conservou as marcas da produção, do trabalho e da indústria dos couros. Guimarães não funciona, aqui, como mero cenário. É parte da obra. Os Tanques, a praça, o museu e o tecido urbano tornam-se uma espécie de grande tear onde passado e presente se cruzam. A intervenção de Ai Weiwei permite, por isso, que a cidade se veja a si própria através de uma linguagem que simultaneamente lhe pertence e lhe é estranha.
É nesta escala entre a fibra e a cidade, entre o gesto artesanal e a convulsão geopolítica, que se deve medir a importância da presença de Ai Weiwei na CONTEXTILE 2026. Não apenas porque se trata de uma das figuras artísticas mais reconhecidas internacionalmente, mas porque a sua obra oferece à Bienal a possibilidade de afirmar o têxtil como um território intelectual de pleno direito. Em Ai Weiwei, tecer é também ligar; desfiar é investigar; reciclar é devolver uma memória ao presente. O artista aproxima aquilo que habitualmente separamos: arte e artesanato, objecto e documento, beleza e conflito, intimidade e política, tradição e contemporaneidade. E fá-lo sem permitir que a matéria seja reduzida a mera ilustração de uma ideia. O tecido pensa. A rede pensa. O botão pensa. O uniforme, depois de desfeito, continua a pensar. Essa é talvez a imagem mais justa para uma Bienal que escolheu “Por um Fio” / “By a Thread” como horizonte: a de um fio que não é apenas aquilo que pode romper-se, mas aquilo que permite unir. Ao trazer Ai Weiwei a Guimarães, a CONTEXTILE coloca a tradição têxtil local em contacto com uma das mais inquietas práticas artísticas do nosso tempo e, simultaneamente, projecta Guimarães para uma conversa mais vasta sobre memória, trabalho, guerra, migração, ecologia e liberdade. Entre os fios antigos e os conflitos do presente, entre os corpos ausentes e os objectos que lhes sobrevivem, a cidade torna-se palco e testemunha. E o fio, por uma vez, não estar prestes a partir-se, antes parece ser precisamente aquilo que ainda nos mantém ligados.