“Where should we go after the last frontiers?
Where should the birds fly after the last sky?
Where should the plants sleep after the last breath of air?
We will write our names with scarlet steam.
We will cut off the hand of the song to be finished by our flesh.
We will die here, here in the last passage.
Here and here our blood will plant its olive tree.”
Mahmoud Darwish, “The Earth Is Closing In On Us”
Quase na recta final do FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho, o compositor e oudista tunisino Anouar Brahem trouxe ao Auditório de Espinho o seu mais recente trabalho discográfico, “After the Last Sky”, confirmando que a sua música continua a ocupar um território onde tradição e contemporaneidade se misturam e confundem como matéria de um mesmo pensamento musical. Inspirado no verso do poeta palestiniano Mahmoud Darwish – “Where should the birds fly after the last sky?” -, o concerto olhou com o necessário distanciamento o drama humanitário de Gaza, assumindo-se como uma reflexão de cariz político e cujo alcance universal tocou as cordas do exílio, da perda, da memória e da resistência. Fazendo da contenção uma forma de profundidade, Anouar Brahem optou pela subtileza de uma escrita onde cada silêncio pesou tanto como cada nota. De “Remembering Hind” a “Edward Said's Reverie”, passando por “Never Forget”, “The Sweet Oranges of Jaffa” ou pelo tema que dá título ao concerto, a música derramou-se de forma deliberadamente lenta, permitindo que cada frase respirasse naturalmente e que o público pudesse descobrir, sem pressas, os delicados equilíbrios entre composição e improvisação.
Se Anouar Brahem se afirmou como centro gravitacional do concerto, a excelência do quarteto residiu precisamente na ausência de hierarquias ostensivas. Django Bates confirmou, uma vez mais, a sua extraordinária capacidade para encontrar cores harmónicas inesperadas, alternando momentos de delicada transparência com subtis desvios rítmicos que privilegiaram as margens agudas do piano e evitaram acomodações do discurso. No contrabaixo, Mats Eilertsen foi uma bela surpresa, sustentando toda a arquitectura sonora com uma autoridade discreta e uma notável economia de meios. O maior aplauso, porém, vai para Anja Lechner, que com o seu violoncelo soube acrescentar a “The Last Sky” uma dimensão camerística que o distingue claramente dos anteriores trabalhos de Brahem. Funcionando simultaneamente como prolongamento melódico dos restantes instrumentos e como voz autónoma, o violoncelo foi capaz de manter um diálogo profícuo com o oud e com o piano, fazendo emergir momentos de notável cumplicidade. O oud e o contrabaixo estiveram em evidência no inesquecível “The Eternal Olive Tree”, tema que soube afirmar-se como uma meditação serena sobre permanência e resiliência.
O silêncio quase reverencial que envolveu toda a sala ao longo do concerto tornou-se parte integrante da própria execução. As palavras dirigidas ao público foram escassas, sobressaindo a comunicação estabelecida integralmente através da música. Muito reclamado, o “encore” trouxe com ele “Vague”, síntese perfeita de um concerto contemplativo, mas que nunca perdeu de vista as dúvidas e inquietações expressas por Mahmoud Darwish e que são, afinal, as nossas próprias dúvidas e inquietações.
Numa época em que o jazz contemporâneo vem privilegiando a complexidade estrutural ou a afirmação individual dos intérpretes, escutar Anouar Brahem foi precioso. Na sua forma de, através da música, desacelerar o tempo, eliminar o supérfluo e devolver ao silêncio uma função expressiva essencial, encontrou o público algo intrínseco à sua própria razão de existir. O resultado foi muito além do simples encontro entre o jazz e a música de raiz árabe, assumindo-se como espaço de encontro e de memória, como síntese madura entre diferentes tradições culturais. Em Espinho, Anouar Brahem reafirmou a sua singularidade enquanto criador e intérprete, demonstrando que a beleza, quando sustentada pela inteligência, rigor e humanidade, pode ser uma forma profundamente eficaz de resistência.