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domingo, 25 de outubro de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #111



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #111
Com | Tânia Gomes Teixeira, Gonçalo Pina e Dinis M. Costa
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
22 Out 2026 | qui | 21:30


As músicas são como os rios. Atravessam o tempo, transportam memórias e mostram-se capazes de nos devolver o sonho e a poesia. Paradoxalmente, elas têm a capacidade invulgar de desenhar um mundo que preferíamos não reconhecer. Em 1978, Chico Buarque ligava o grande lago Atlântico com “Tanto Mar” e um cheirinho de alecrim, evocando a esperança e a inquietação de um tempo de mudança. Foi a partir desse mar, das suas correntes e dos seus naufrágios, que Tiago Alves nos propôs, nesta sessão #111 do Shortcutz Ovar, uma viagem pelas contradições do presente, centrando o discurso inicial nessa autêntica panela de pressão que é o Brasil, sem deixar de olhar para o resto do mundo. Um mundo cada vez mais pequeno nas distâncias que a globalização encurta, mas que cresce nos abismos que separam os homens. Um mundo onde se multiplicam muros, se fecham fronteiras e se erguem suspeitas, enquanto se ignoram as pontes que nos deveriam aproximar. De costas voltadas uns para os outros, habituámo-nos a não ver quem caminha ao nosso lado, a ignorar quem luta por uma vida mais digna, a transformar em ameaça tudo aquilo que não compreendemos. Há vidas que passam diante dos nós sem que lhes concedamos sequer o direito de serem vistas, como se a invisibilidade fosse uma condição natural e não uma escolha de todos. Entre rios e mares, as três curtas-metragens desta 111.ª sessão do Shortcutz Ovar tiveram o condão de nos levar ao encontro desse lugar incerto onde a indiferença se confunde com a sobrevivência, recordando-nos que navegar continua a ser preciso.

A sessão teve em “Alado” o seu momento inaugural, convidando-nos a sulcar as águas do Douro, um rio que parece correr ao encontro da dor. É sobre elas que navega Gastão Teixeira, cumprindo dia após dia o ritual de quem espera e guarda no olhar milhares de horas anuais de vigília, mas também os muitos corpos resgatados ao rio. Ao contrário do barqueiro Caronte, da mitologia grega, Gastão não transporta as almas, antes devolve os corpos à terra e às famílias, oferecendo ao mundo dos vivos a possibilidade da despedida, a dádiva de um luto com rosto e matéria. É desta travessia que nasce “Alado”, primeira obra de Tânia Gomes Teixeira, “filho” da longa-metragem documental “Caronte”, cuja história prolonga, entregando-a a novos olhares. A realizadora pergunta: de quem se atira da ponte, o maior contrassenso será a água ou o vôo? Talvez o abismo comece muito antes, na invisibilidade em que nos deixamos cair, neste mundo em que as tecnologias encurtam distâncias, mas nem sempre aproximam pessoas. Tão ligados, mas tão sós, cruzamo-nos de olhos postos em ecrãs, de costas voltadas para quem sofre em silêncio. O rio, porém, não desvia o olhar. Leva, traz, devolve. Na margem ou sobre as águas, Gastão permanece o guardião de uma humanidade que tantas vezes só se reconhece quando já não é possível salvá-la. De uma poética sublime, “Alado” lembra-nos que há corpos que desaparecem nas águas, mas há também vidas que se afundam à vista de todos, sem que ninguém lhes estenda a mão.

Se “Alado” fala de um rio que devolve à terra os corpos que a água reclama, “Rio Infinito” mostra que a travessia se faz no sentido inverso: é a vida que cruza o rio, todos os dias, para que a cidade desperte e continue a funcionar. Nesta primeira obra de Gonçalo Pina, o Tejo surge como estrada líquida, linha de passagem entre duas margens, mas também como fronteira entre quem pertence e quem apenas serve. A viver em Almada e a trabalhar em Lisboa, o realizador conhece por dentro este movimento pendular, esta rotina de partidas e regressos em que milhares de vidas se diluem no anonimato. Ao longo de vinte e quatro horas, três protagonistas dão rosto a quem limpa, constrói, entrega e alimenta a cidade, partindo ainda de noite e regressando quando a noite já voltou. Entre o documentário e a ficção, o filme desenha uma geografia humana feita de ausências: gente que, na diáspora, tem um pé numa terra que não é sua e o coração preso a outra margem, algures onde o mar talvez volte a ser rio. Há uma profunda carga política nesta corrente, que expõe a contradição de uma sociedade dependente daqueles que insiste em não ver, tantas vezes transformados em bodes expiatórios pelos discursos de quem governa ou ambiciona o poder. E é no prólogo e no epílogo, quando o sonho se interrompe e a dignidade reclama o seu lugar, que “Rio Infinito” parece encontrar a sua voz mais funda. Porque há travessias que não conduzem apenas ao trabalho: são viagens de sobrevivência, sonhos adiados, promessas suspensas entre partidas e chegadas. O que Gonçalo Pina nos vem dizer é que a verdadeira distância não se mede em quilómetros ou milhas náuticas, mas no espaço que cavamos entre nós e os outros. Depois de “Alado”, o Tejo prolonga a pergunta do Douro, querendo saber quantas vidas terão ainda de atravessar um rio para deixarem de ser invisíveis em terra firme.

Se nas duas obras anteriores é entre margens que a invisibilidade se desenha, em “Fronteira Azul” ela instala-se à beira-mar, onde a travessia deixa de ser rotina e se torna uma luta desesperada pela sobrevivência. Curta-metragem que fechou a noite, filme que o público elegeu como o melhor da sessão, a obra de Dinis M. Costa conduz-nos a uma cidade portuária nas margens do Mediterrâneo, numa Europa alienígena onde um barco carregado de migrantes se afunda sem que o curso dos dias se interrompa. Os guardas civis recolhem os náufragos, os turistas velejam ao sol, a roda gigante no parque de diversões prossegue a sua marcha incessante e os camiões seguem viagem, carregados de mercadorias rumo a norte. Tudo permanece no seu lugar, como se a tragédia fosse apenas mais um ruído de fundo, desses que as televisões repetem até que o horror se torne paisagem e a indiferença, hábito. Com uma mise-en-scène de quadros imóveis, uma luz cuidadosamente desenhada e uma imagem que prefere construir a narrativa a capturar o real, o filme ergue uma distopia demasiado próxima de nós, sem geografia nem horizonte, porque poderia acontecer em qualquer costa, em qualquer margem deste continente cada vez mais fechado sobre si mesmo. Os náufragos descobrem o chão de betão de uma Europa que não os vê, corpos entregues a uma terra que talvez nunca os acolha. E, contudo, a invisibilidade não pertence apenas a quem chega: estende-se também aos que assistem, aos que presenciam sem intervir, aos que aprenderam a olhar sem ver. Se o Douro devolvia os mortos e o Tejo revelava os vivos que a cidade consome, o Mediterrâneo de “Fronteira Azul” devolve-nos o espelho de uma humanidade à deriva. Que fronteira é esta, afinal? A que separa os que procuram viver dos que podem escolher como vivem, ou a que erguemos dentro de nós quando o sofrimento alheio já não nos obriga a parar para pensar?

sábado, 24 de outubro de 2026

LIVRO: “Amor Chega em Breve Num Volkswagen” | Filipa Leal



LIVRO: “Amor Chega em Breve Num Volkswagen”,
de Filipa Leal
Ed. Assírio & Alvim, Outubro de 2026


“A poesia é como se conta a festa.
É poupar o outro a ouvir o que se passou na festa toda.
A poesia é quando se conta a festa.
É sobre aquela parte em que encontrámos uma pessoa especial que ninguém sabe que conhecemos e amámos durante muitos anos.
A poesia é a parte da festa que não contamos.
Ou que só contamos a quem se interessa.
É rara, quase secreta.
É curta
e nossa.”
[Filipa Leal, poema “A poesia é como se conta a festa”]

Há livros… e livros. Uns há que chegam como quem chama um Uber, sem prometer mais do que dois minutos de espera. Outros, no entanto, mal entram e logo nos desarrumam a casa, mudam os móveis de sítio e obrigam-nos a olhar o que preferíamos não ver. “Amor Chega em Breve Num Volkswagen”, de Filipa Leal, pertence às duas espécies, o que talvez explique a singularidade deste título, tão prosaico e tão disponível para o imprevisto. A poesia acontece aqui como a vida: sem pedir licença, entre uma viagem, uma recordação, um sobressalto amoroso ou uma notícia que nos interrompe o sossego. Filipa Leal conhece o poder das pequenas coisas e a desproporção entre aquilo que nos acontece e aquilo que conseguimos dizer. Por isso, o poema não precisa de se anunciar com solenidade: basta-lhe uma aplicação de transportes, um gato desaparecido, uma tampa de desodorizante que salta com a altitude, uma conversa que chega tarde ou uma pergunta que, de tão simples, nos envergonha. Há nesta escrita uma inteligência do quotidiano capaz de encontrar nele a matéria clandestina da emoção. E se a poesia é, como a autora nos explica, a maneira de contar uma festa sem contar a festa toda, este livro sabe escolher o instante, o gesto, a frase que ficaram de fora da fotografia. E é precisamente aí que começa aquilo que verdadeiramente importa.

A ironia é uma das formas mais eficazes de respiração deste livro. Filipa Leal desconfia das frases feitas, dos bons costumes da linguagem e das certezas que se apresentam de gravata, mas não faz do riso uma trincheira onde se refugie da tristeza. O humor ilumina, por vezes, aquilo que a ternura não consegue suportar à luz directa; noutras ocasiões, limita-se a puxar-nos o tapete, deixando-nos com a embaraçosa consciência de que também participamos no desconcerto. Veja-se o “Honesty Bar”, onde a honestidade convive com a vigilância, ou o amor anunciado por uma aplicação que começa a contar o tempo de espera antes de o sentimento ter conseguido fazer as malas. O cómico não é um adorno: é um método de conhecimento, uma maneira de desmascarar o absurdo sem lhe conceder a dignidade excessiva da tragédia. Mas há, sob esta superfície ágil, uma zona de sombra sempre presente. As amizades que resistem à distância, as que se perdem, o envelhecimento, o medo, a solidão e a consciência da morte atravessam os poemas como correntes subterrâneas. A autora pode falar-nos de Emily Dickinson, de viagens longínquas ou de um semáforo vermelho, e de súbito estamos perante a intimidade desarmada de quem sabe que amar é também conhecer os pequenos medos do outro. Não há aqui uma separação rígida entre o elevado e o comezinho: há a certeza de que o sublime, quando existe, costuma apresentar-se vestido de banalidade.

Seria, contudo, redutor ler este livro como uma colecção de episódios privados, por mais deliciosos ou comoventes que alguns possam ser. O mundo entra nele sem bater à porta e a poesia não desvia os olhos. Bate à porta da amiga polaca que acolhe refugiados, segue pelo mar onde a salvação de um náufrago exige que alguém o agarre pelo pescoço, mas também pelas casas onde uns fazem planos enquanto outros morrem em paz, pelas pessoas esquecidas dentro das cidades e pelas pessoas esquecidas dentro de nós. Entra também numa manifestação em que mãos vazias se tornam impossíveis de deter, e em que a liberdade, mesmo escrita com um erro de ortografia, continua a ser a palavra certa. Filipa Leal não escreve um programa político nem transforma o poema em cartaz: prefere o desconforto da pergunta, a vergonha de quem percebe tarde, o detalhe que desmente a indiferença. É aí que a sua poesia encontra uma exigência moral e uma ideia de liberdade que não se separa do pão, da habitação, da saúde ou da justiça. Talvez por isso estes poemas nos peçam tão pouco e, ao mesmo tempo, tanto: que paremos, que olhemos, que não confundamos o privilégio com a inocência. “Amor Chega em Breve Num Volkswagen” é, afinal, um livro sobre a urgência de guardarmos a nossa humanidade num mundo que se empenha em dificultar-nos a tarefa. O amor pode vir de automóvel, atrasar-se ou cobrar-nos a espera; o que não pode é encontrar-nos distraídos para sempre. Porque, no meio dos grandes desastres e dos pequenos nadas, repararmos no outro talvez seja a forma mais discreta e mais radical de começar a mudar o mundo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "The Serpent's Thread" | Emilia Martin



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “The Serpent’s Thread”,
de Emilia Martin
Curadoria | Alexia Alexandropoulou
Encontros da Imagem de Braga 2026
SOMA - Plataforma Cultural
18 Set > 24 Out 2026


Há perdas que não terminam no desaparecimento dos objectos, antes encontram aí o seu início, no lugar vazio que deixam, como se a ausência fosse uma matéria à espera de mãos que a saibam tocar. Em “The Serpent’s Thread”, Emilia Martin parte dos tecidos da avó, mulher polaca do mundo rural, cuja obra, depois da morte, foi descartada ou se perdeu, condenada à irrelevância de tudo quanto não encontrou lugar na história oficial. Restaram a memória dos gestos, a intimidade de uma aprendizagem pelo olhar e a consciência de que também se escreve com as mãos. É deste arquivo sem vestígios que a artista faz nascer uma investigação sobre as cinco irmãs Andersson, na Suécia da viragem do século XX, mulheres cujos elaborados tecidos de dote deveriam testemunhar a sua destreza, diligência e virtude, como se cada ponto cosesse, além da matéria, o valor de uma futura esposa. Mas os tecidos nunca cumpriram inteiramente o destino que lhes fora reservado, e a sua sobrevivência fragmentária deixou espaço à lenda. Entre a avó perdida e as irmãs quase míticas, Emilia Martin reconhece uma genealogia feminina que atravessa fronteiras e épocas, unida por um saber transmitido de mão em mão, tantas vezes invisível aos olhos de quem escreve a História. O fio que aqui se procura não conduz a uma origem intacta: serpenteia entre vestígios, silêncios e aquilo que, não tendo sido preservado, continua, ainda assim, a reclamar existência.

No espaço SOMA — Plataforma Cultural, esta procura adquire a espessura de uma instalação, tirando partido das condições do espaço para construir uma experiência em que as imagens não se limitam a ser vistas: parecem antes reclamar o tempo e a atenção necessários para serem escutadas. Fotografia de arquivo, composições encenadas, documentos e intervenções têxteis sobre a imagem dispõem-se numa trama de aproximações e desencontros, onde a prova documental convive com a invenção sem que uma procure anular a outra. Há qualquer coisa de deliberadamente inquietante nesta convivência. O que vemos pertence à memória, à investigação ou à imaginação? E será ainda possível estabelecer fronteiras seguras entre estas instâncias quando a própria memória se constrói de fragmentos, relatos e omissões? Apoiada na ideia de efabulação crítica, desenvolvida por Saidiya Hartman, a artista não pretende preencher as lacunas do arquivo com uma verdade substituta; prefere habitá-las, preservando a incerteza como parte constitutiva da obra. Esta escolha, simultaneamente poética e política, impede que as mulheres representadas sejam reduzidas a personagens de uma reconstituição retrospectiva. Os tecidos tornam-se contra-arquivos: superfícies onde o trabalho doméstico, a expectativa social e os pequenos gestos de resistência adquirem uma visibilidade que os registos oficiais lhes negaram. A exposição ganha força precisamente nesta recusa de uma narrativa definitiva. Se, por vezes, a acumulação de materiais ameaça dispersar o olhar, é também dessa multiplicidade que nasce a sua pertinência: cada elemento parece guardar apenas uma parte de uma história que nenhum deles, isoladamente, poderia contar.

A dimensão sonora de “Won’t You Put A Needle On?”, de Isobel Anderson, acrescenta à instalação uma presença que não se vê, mas percorre o corpo e altera a maneira de habitar o espaço. Vozes, rodas de fiar, costura, pulsações repetitivas e texturas quase sibilantes compõem uma paisagem em que o trabalho manual deixa de ser apenas imagem para recuperar alguma coisa da sua duração, do seu ritmo e da sua respiração. O som não ilustra as fotografias: abre-lhes uma profundidade, como se, por detrás de cada tecido, ainda persistisse o rumor de quem o fez. Há nesta escuta uma forma de restituição, embora não de regresso, porque nenhuma obra pode devolver os objectos perdidos nem restituir integralmente as vidas que o tempo tornou opacas. Pode, contudo, recusar que o desaparecimento seja confundido com insignificância. É talvez esse o gesto mais comovente de Emilia Martin: transformar uma perda familiar numa pergunta colectiva sobre quem merece ser lembrado, que saberes reconhecemos como cultura e quantas histórias permanecem por contar porque foram transmitidas fora dos lugares consagrados da palavra escrita. Um dos três projectos finalistas do Prémio Encontros da Imagem, escolhido entre mais de trezentas candidaturas, “The Serpent's Thread” encontra na relação entre fotografia, matéria e som uma linguagem própria, sensível à fragilidade dos vestígios e à força do que resiste. Até ao próximo domingo, no SOMA, a exposição convida-nos a seguir este fio sem esperar que ele nos conduza a uma conclusão. Talvez porque algumas histórias não precisem de ser definitivamente reconstituídas, mas de encontrar, finalmente, quem se detenha diante delas. E as escute.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “RAMOT - António da Costa Cabral”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “RAMOT - António da Costa Cabral”,
de António da Costa Cabral
Curadoria | Paula Figueiredo e Sofia Castro
Centro de Estudos em Fotografia de Tomar - Casa dos Cubos e Convento de Cristo
20 Jun > 18 Out 2026


Chegou ao fim no passado domingo a exposição de fotografia “RAMOT - António da Costa Cabral”, que durante praticamente quatro meses tomou conta do Centro de Estudos em Fotografia de Tomar – Casa dos Cubos e de uma ala do Convento de Cristo. Anagrama de Tomar e pseudónimo de António da Costa Cabral (1901-1974), RAMOT condensa a dupla condição de uma identidade que se desdobra e de um território que permanece, não apenas como origem biográfica, mas como horizonte afectivo. Mais do que a recuperação de um legado fotográfico discreto, a exposição ensaiou um reencontro entre o homem, a cidade e as imagens através das quais ambos sobrevivem ao tempo. Quarto conde de Tomar, Costa Cabral viveu parte da infância e juventude no Convento de Cristo, então residência familiar, antes de fixar em Lisboa o seu quotidiano e o espaço doméstico que tantas vezes haveria de fotografar. O regresso simbólico a Tomar adquire, assim, uma espessura particular: o lugar da memória torna-se lugar de exposição, e a obra, atravessando a distância entre a intimidade e o património colectivo, devolve-nos uma cidade que é, simultaneamente, geografia e construção do olhar. Há, neste percurso, qualquer coisa de subtilmente paradoxal: um fotógrafo que não procurou o protagonismo regressa pela força silenciosa das imagens que deixou.

Na Casa dos Cubos, as provas de época a preto e branco permitem reconhecer a materialidade de uma prática em que fotografar era também esperar, revelar, imprimir e escolher. A câmara Leica, a câmara escura instalada no sótão doméstico e os vestígios documentais de uma participação nos salões nacionais e internacionais não constituem meros elementos de contexto, antes revelam a disciplina de um olhar que, mesmo exercido à margem da profissionalização, não dispensava o rigor técnico nem a ambição formal. Retratos familiares, paisagens, cenas marítimas, pescadores no trabalho e fragmentos da vida lisboeta compõem um universo heterogéneo, unido por uma atenção persistente à presença humana e à organização visual do quotidiano. Entre a composição cuidada, a experimentação com a luz e a observação quase furtiva dos espaços públicos, emerge uma curiosidade que resiste à classificação. No Convento de Cristo, a apresentação digital de centenas de imagens familiares, acompanhada por filmes domésticos, introduz outra temporalidade, aproximando a fotografia do movimento e da sucessão cinematográfica. A solução alarga o arquivo à dimensão dos gestos e das relações, embora o fluxo projectado possa, por vezes, atenuar a autonomia de cada fotografia e a atenção demorada que as provas originais reclamam. Entre a contemplação e a sucessão, entre a superfície material da prova e a fluidez da projecção, a exposição torna visível não só a diversidade dos suportes, mas também a tensão entre a imagem como objecto e a imagem como memória em circulação.

A extensão do registo familiar poderia confinar a obra à nostalgia de um círculo privado, mas Costa Cabral não se limitou a fotografar os seus próximos, os interiores domésticos ou os cenários da vida familiar. A deambulação por Lisboa, a atenção aos lugares de trabalho, às ruas, às viagens e aos encontros ocasionais revelam uma disponibilidade para o imprevisto, para aquele instante em que o quotidiano, sem deixar de ser banal, adquire uma inesperada densidade visual. Por vezes, o enquadramento oblíquo ou a escolha de um pormenor aparentemente secundário deslocam o centro de interesse e mostram que ver é também seleccionar, excluir e atribuir sentido. Esta dimensão impede que a sua obra seja lida apenas como testemunho de uma época ou inventário sentimental de uma família. Há nela uma ética da atenção que aproxima o exercício amador de uma forma exigente de conhecimento. A amplitude do material reunido coloca, ainda assim, um desafio à exposição, cuja diversidade nem sempre permite distinguir com igual clareza o ensaio formal, o registo privado e a observação social. Ao despedir-se de Tomar, “RAMOT” deixou, pois, mais do que a memória de um fotógrafo recuperado. Deixou a possibilidade de reconsiderar o que uma imagem aparentemente menor pode conter: a duração de uma vida, a transformação de um lugar e a presença irrecuperável daquilo que, por um instante, alguém soube ver.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2026



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2026
Com | Mafalda, Samuel Úria & Os 12 ao Todo, RAY, Homem em Catarse, Sean Riley and The Slowriders, Rita Cortesão, Ezekiel e PAUS
Escola de Artes e Ofícios
14 a 17 Out 2026


Nascido em 2020 com a firme vontade de contribuir para o desconfinamento da nova música portuguesa e de abrir um espaço de descoberta, afirmação e proximidade com o público, o Ovar Expande tem sabido construir, edição após edição, uma identidade própria no panorama cultural nacional. Partindo da ambição de dar a conhecer o que de melhor se vem fazendo entre nós, o festival cresceu sem perder de vista os princípios que estiveram na sua génese, apostando na qualidade e diversidade da programação, no diálogo entre artistas e espectadores e na criação de experiências que ultrapassassem o espaço convencional do concerto. A renovação do formato, a integração de conversas, oficinas e masterclasses e a atenção dispensada aos processos de criação e às metamorfoses que dão forma à música, têm contribuído para consolidar um projecto diferenciador e que é hoje uma referência incontornável na divulgação de novos talentos. Subordinada ao tema «Dos Primeiros Esboços às Metamorfoses», esta sétima edição confirmou a maturidade de um festival que continua a saber conjugar descoberta e reconhecimento, proximidade e exigência, mantendo-se fiel ao propósito de revelar a riqueza e a vitalidade da música que se faz no presente.

A primeira noite colocou em diálogo dois percursos distintos, unidos pela força da palavra e pela singularidade das propostas. Na Sala Galeria, Mafalda apresentou, em ante-estreia, “Gosto Muito de Estar Aqui”, álbum de estreia sob o seu nome de nascimento, integralmente cantado em português e dedicado à identidade, à pertença e à transformação pessoal. Depois do percurso iniciado como Mathilda, a artista revelou um universo intimista e sensorial, apoiado em sonoridades evocativas da natureza e, numa voz envolvente, soube encontrar espaço tanto para a serenidade como para o movimento. Na Sala Expande, Samuel Úria subiu ao palco na companhia de “Os 12 ao Todo”, num concerto em que a riqueza da escrita e a expressividade vocal assumiram o protagonismo. Entre canções emblemáticas, arranjos corais e momentos de inesperada explosão, o cantautor demonstrou como um repertório reconhecido pelo simbolismo das palavras pode ganhar novas dimensões sem perder a sua identidade. O carisma e a cumplicidade entre palco e plateia fecharam a noite num ambiente de celebração, confirmando a capacidade do festival para juntar diferentes gerações e as mais distintas sensibilidades musicais.

O segundo dia do Ovar Expande afirmou-se como um encontro de diferentes sensibilidades musicais, unidas pela força da palavra, pela expressividade e pela liberdade criativa. Coube a Ray, projecto a solo de Luís Raimundo, abrir a jornada, num concerto despido de artifícios, em que a voz e a guitarra deram corpo às canções de “Buffalo”, álbum editado em 2025. Entre a delicadeza e a intensidade, o músico construiu um momento de proximidade e partilha, percorrendo temas como o amor, a paternidade, a morte e a reinvenção pessoal. Seguiu-se Homem em Catarse, alter ego de Afonso Dorido, que trouxe a Ovar o universo ecléctico de “Catarse Natural”, disco onde a folk, o shoegaze, o pós-fado e outras paisagens sonoras se cruzam com inquietações sociais e políticas. Da crise da habitação à esperança num mundo mais justo, as canções revelaram um autor comprometido com a palavra, sem abdicar da experimentação e da intensidade emocional. A encerrar a noite, Sean Riley recuperou a trajectória dos Sean Riley And The Slowriders, projecto incontornável da música portuguesa das últimas duas décadas. Entre folk, rock e blues, o cantautor revisitou um repertório marcado pela contenção, pela escrita intimista e pela elegância dos arranjos, confirmando a consistência de uma obra que continua a encontrar na simplicidade a sua maior força.

O derradeiro dia do Ovar Expande começou com a intimidade de Rita Cortezão que, entre o sintetizador e as canções de “Tudo, Um Pouco”, o seu álbum de estreia, revelou uma voz autoral em pleno desabrochar. A aparente fragilidade deu rapidamente lugar à segurança interpretativa, à versatilidade vocal e a uma presença cativante, num concerto em que histórias pessoais se transformaram em experiências partilhadas. De «Lisbolha» a «O tempo que fica», a artista percorreu temas como a pertença, a passagem dos dias e os laços que resistem à memória, encerrando com “Só para Mim” uma actuação marcada pela proximidade e pela generosidade. Seguiu-se Ezekiel, projecto instrumental do músico residente em Ovar, que encontrou na guitarra lap steel Weissenborn o ponto de partida para uma viagem que combinou a folk, a country e outras tradições sonoras. Com carta branca para chamar para junto de si a multi-instrumentista e cantora italiana Irene Brigitte, o músico começou a solo, antes de alargar o espectro sonoro com a guitarra, o adufe e a voz da convidada. “In Riva” e “Menta” abriram caminho a sonoridades triestinas, enquanto “A Gente Vai Continuar” proporcionou um dos momentos mais luminosos da noite, com o público a juntar-se à homenagem a Jorge Palma, que nos deixou muito recentemente. A fechar o festival, os PAUS trouxeram a Ovar o peso simbólico de uma despedida anunciada. Na derradeira digressão, que acompanha o álbum “Enterro” e assinala o fim de dezoito anos de percurso, o quarteto voltou a afirmar uma identidade singular, entre o rock e a experimentação rítmica. Num concerto intenso, o grupo transformou o fim em matéria artística, deixando no Ovar Expande a marca de uma banda que soube sempre escapar às fronteiras dos géneros.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

CINEMA: “Histórias Paralelas” | Asghar Farhadi



CINEMA: “Histórias Paralelas” / “Histoires Parallèles”
Realização | Asghar Farhadi
Argumento | Asghar Farhadi, Saeed Farhadi
Fotografia | Guillaume Deffontaines
Montagem | Hayedeh Safiyari
Interpretação | Isabelle Huppert, Virginie Efira, Vincent Cassel, Pierre Niney, Adam Bessa, India Hair, Catherine Deneuve, Véronique Ruggia, Julie Fournier, Iris Bry, François Delaive, Ismaël Sy Savané, Oumar Diaw, Roberto Venturini, Frédéric Milani, Bruno Cadillon
Produção | Gaëtan David, Asghar Farhadi, David Levine, André Logie, Alexandre Mallet-Guy, Andrea Occhipinti
França, Itália, Bélgica, Arábia Saudita, Estados Unidos | 2026 | Drama, Thriller | 139 Minutos | Maiores de 14 Anos
Vida Ovar – Castello Lopes
19 Out 2026 | seg | 17:25


“Histórias Paralelas”, o mais recente filme do cineasta iraniano Asghar Farhadi, convida-nos a regressar ao território das relações humanas sob tensão, desta vez através de uma reflexão sobre a criação artística, o voyeurismo e as fronteiras instáveis entre a ficção e a realidade. No centro da narrativa está Sylvie (Isabelle Huppert), uma escritora em crise de inspiração que observa, do lado de cá da janela, os vizinhos do prédio em frente, inventando para eles vidas, desejos e conflitos que alimentam o seu próximo romance. A chegada de Adam (Adam Bessa), um jovem sem abrigo que começa por ajudá-la nas tarefas domésticas, altera progressivamente este equilíbrio. Quando o manuscrito passa para as suas mãos, a ficção deixa de ser um exercício solitário de imaginação e começa a interferir na vida daqueles que lhe serviram de matéria-prima. Inspirado livremente em “Não Amarás”, de Krzysztof Kieślowski, o filme transforma o acto de olhar para nos vir dizer que observar é já uma forma de intervir.

Asghar Farhadi constrói um engenhoso jogo de espelhos, no qual personagens reais e figuras imaginadas se contaminam mutuamente, até se tornar difícil distinguir a experiência vivida da identidade que os outros nos atribuem. Particularmente sugestiva é a profissão dos vizinhos observados: são técnicos de efeitos sonoros, especialistas em fabricar a ilusão do real através de ruídos artificialmente produzidos. Esta dimensão sonora prolonga a reflexão do filme sobre os mecanismos da representação e sobre o modo como a nossa percepção depende de construções invisíveis. Também os actores participam neste desdobramento, dando corpo às diferenças entre as pessoas que existem e aquelas que a escritora projecta sobre elas. Isabelle Huppert compõe uma figura simultaneamente excêntrica e inquietante, enquanto Virginie Efira, Vincent Cassel e Pierre Niney sustentam as tensões entre os dois planos narrativos. A montagem, sobretudo na primeira parte do filme, articula com inteligência estas diferentes perspectivas, fazendo de cada gesto, olhar ou pormenor uma possível peça de um enigma em permanente transformação.

Mas a questão mais perturbadora de “Histórias Paralelas” reside no preço desta apropriação do real. Até que ponto pode um artista servir-se da intimidade alheia em nome da criação? E quem detém, afinal, o direito de contar uma história? Ao transformar pessoas concretas em personagens, Sylvie não se limita a reinterpretar o que observa: corre o risco de impor-lhes uma identidade que não lhes pertence, enquanto Adam leva essa intrusão ainda mais longe, procurando aproximar a vida das imagens construídas pelo romance. O filme sugere, assim, que as narrativas não são inofensivas. Elas têm o poder de alterar comportamentos, contaminar relações e produzir consequências imprevisíveis. A ambição conceptual e o humor discreto convivem, porém, com uma duração excessiva e com um progressivo enfraquecimento da tensão narrativa, à medida que o engenhoso dispositivo inicial se torna mais explícito. Permanece, ainda assim, uma interrogação particularmente fértil dirigida acada um de nós: quando olhamos a vida dos outros através do cinema, somos apenas espectadores ou participamos também na construção — e na distorção — daquilo que julgamos ver?

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

TEATRO: "O Pai" | August Strindberg



TEATRO: “O Pai”,
Texto | August Strindberg
Tradução | António Cabrita, Luís Miguel Cintra
Encenação | Gonçalo Waddington
Desenho de luz | Daniel Worm
Cenografia e Figurinos | Ângela Rocha
Interpretação | Carla Maciel, Cecília Borges, Gonçalo Waddington, Hugo Narciso, Joana Bárcia, João Pedro Vaz, Miguel Sopas
Produção | Gonçalo Waddington e Carla Maciel
90 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Nacional S. João
18 Out 2026 | dom | 16:00


Tragédia de uma autoridade sem poder, “O Pai”, de August Strindberg, pertence àquele género de obras cuja aparente simplicidade esconde uma mecânica de precisão, feita de suspeitas, recuos e golpes desferidos no âmago da intimidade. O Capitão Adolfo dispõe de dinheiro, posição social, autoridade militar e privilégios que a sociedade oitocentista reservava ao homem. Privada de instrumentos equivalentes, Laura, a esposa, contrapõe-lhe a inteligência, a determinação e o conhecimento das fragilidades do marido. Mas a autoridade não coincide necessariamente com o poder, nem a razão garante a vitória. No centro da discórdia está a disputa em torno do destino de Berta, a filha do casal, apresentada aqui não como uma divergência sobre a sua educação, antes como pretexto para uma luta conjugal pelo poder. É neste desfasamento que a tragédia se instala, recusando ao espectador o conforto de um julgamento inequívoco. Gonçalo Waddington evita reduzir o conflito à caricatura do macho autoritário e expõe, antes, a violência de uma relação em que o domínio se disfarça de razão e o amor se converte em campo de batalha.

O Capitão Adolfo é um homem de contradições: militar por condição, cientista por vocação, poeta por inclinação, possui inteligência para compreender o mundo, mas não autoridade para governar a própria casa. Habituado à prova e à demonstração, vê-se subitamente condenado ao território da suspeita, onde nenhuma evidência restitui a segurança perdida. A possibilidade de não ser o pai biológico de Berta atinge o centro da sua identidade e ameaça a relação que ainda o prende à vida. Gonçalo Waddington constrói uma desagregação progressiva em que a vulnerabilidade precede a violência e a lucidez torna mais cruel a consciência da queda. Mais do que os acessos de cólera, importa a impotência de quem assiste à própria ruína sem conseguir travá-la. Carla Maciel confere a Laura a inteligência fria de quem conhece as fraquezas do adversário e sabe que sobreviver exige saber usá-las. Sem absolver a personagem nem a condenar ao estereótipo da mulher manipuladora, a actriz preserva-lhe a ambiguidade: Laura resiste a uma ordem que a diminui, mas os seus métodos tornam difícil separar a emancipação da crueldade.

A opção por não transpor a acção para o presente revela confiança na capacidade de reverberação do texto. A modernidade do espectáculo não depende da actualização temporal, mas da exposição, através de uma linguagem cénica despojada e intemporal, da violência escondida sob os códigos da família burguesa. A casa transforma-se numa jaula sem grades ostensivas, e o espectador perde a inocência de quem julga observar de fora. O peso ideológico de Strindberg, marcado pela hostilidade às mulheres, não desaparece. Mas seria redutor fazer de Laura a simples confirmação de uma tese misógina ou de Adolfo uma vítima sem culpa. Waddington prefere a pergunta à sentença, recusando distribuir certificados de inocência. As personagens da irmã, do padre, do médico e do ordenança, alargam o conflito à persistência dos hábitos, das crenças e das incertezas em torno da paternidade. O que resta não é a vitória de um sexo sobre o outro, mas a devastação de uma relação em que o amor se tornou inseparável da vontade de domínio. No final, a dúvida persiste: quem destruiu quem, e quando deixou de ser possível evitar a ruína? A crueldade de “O Pai” reside precisamente nessa loucura que não irrompe de repente, antes constrói-se, palavra a palavra, com a participação de todos.

[Foto: ©EGEAC – Teatro São Luiz, Estelle Valente | https://www.tnsj.pt/pt/espetaculos/7255/o-pai/]

domingo, 18 de outubro de 2026

FESTIVAL: Encontros da Imagem de Braga 2026



FESTIVAL: Encontros da Imagem - Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais Braga 2026
“Territórios do Imaginário | Lugares Encantados”
Equipa Curatorial | Alexia Alexandropoulou, Ana Grebler, Carlos Fontes, Guilherme Braga da Cruz, Helena Mendes Pereira, IPCI, Magda Pinto, Miguel Refresco, Noora Mänty, Pedro Silva, Rui Pinheiro, Vasco Quintas, Vitor Nieves, Wiktoria Michałkiewicz
Artistas | Alex Webb, Alwin Maigler, Ana Elisa Sotelo, César Dezfuli, Ciril Jazbek, Cooper & Gorfer, Eduarda Pinto, Emilia Martin, Giorgia Severi, Hélder da Costa, Isa Toledo, José Firmino Ribeiro, Katia Motylova-Babinska, Laetitia Vançon, Lena Ruzhytska, Lia Dostlieva, Michał Łuczak, Nouf Aljowaysir, Nuno Félix da Costa, Osheen Harruthoonyan, Rita Magalhães, Roger Grasas, Sadith Silvano, Seif Kousmate, Ska Batista, Tânia Dinis, Tashiya de Mel, Yunping Li e outros
Avintes, Braga, Guimarães, Porto e Vila Verde
18 Set > 01 Nov 2026


A fotografia volta a tomar conta de Braga e de uma geografia que se estende, nesta 36.ª edição dos Encontros da Imagem, a Avintes, Guimarães, Porto e Vila Verde, confirmando a dimensão de um Festival que há muito ultrapassou as fronteiras da cidade que o viu nascer. Desde 1987, os Encontros da Imagem têm desempenhado um papel determinante na divulgação da fotografia em Portugal, criando oportunidades de contacto entre autores consagrados e emergentes, promovendo o pensamento crítico e aproximando o público das múltiplas possibilidades da imagem contemporânea. Num panorama internacional marcado pela proliferação de festivais e pela crescente permeabilidade entre fotografia, instalação, vídeo e outras práticas artísticas, Braga conserva uma identidade própria, alicerçada na descoberta de novos autores, no diálogo entre diferentes gerações e na capacidade de transformar a exposição num espaço de reflexão sobre o presente. A presente edição propõe um exercício de imaginação perante um mundo em permanente mutação, no qual as fronteiras entre comunidades, culturas e espécies se tornam cada vez mais difíceis de delimitar. A ideia de uma humanidade ligada por experiências comuns, mas ainda incapaz de encontrar uma linguagem universal de solidariedade, atravessa uma programação que convoca a memória, a migração, a identidade, o colonialismo e a emergência climática. Mais do que uma sucessão de exposições, os Encontros constituem, assim, um mapa de inquietações contemporâneas, onde a fotografia não se limita a documentar o mundo, interrogando-o, desarrumando as suas certezas e ensaiando outras formas de o imaginar.

Um dia dedicado aos Encontros poderá começar no Mosteiro de Tibães com um conjunto de propostas onde a relação entre natureza, memória e intervenção humana adquire uma dimensão central. Sob o título “Enchanted Lands”, vários projectos cruzam a observação documental com experiências visuais que questionam a fragilidade dos ecossistemas e a forma como as comunidades se relacionam com o meio envolvente. Em “Dream to heal Glaciers”, Ciril Jazbec acompanha populações que procuram adaptar-se ao desaparecimento dos glaciares, mostrando como soluções inspiradas no conhecimento tradicional e na inovação científica podem abrir possibilidades de sobrevivência perante a escassez de água. Seif Kousmate, em “Waha”, olha para os oásis marroquinos como sistemas delicados, sustentados por equilíbrios entre água, solo, vegetação e saberes ancestrais, enquanto Giorgia Severi, em “Jaya”, denuncia as ameaças à biodiversidade da Papua Ocidental, dos recifes de coral às florestas tropicais. A dimensão humana da exploração do território surge, por sua vez, em “Extraction”, de Michał Łuczak, um registo da Alta Silésia polaca, onde mais de dois séculos de mineração deixaram marcas na paisagem, na arquitectura e no próprio ar respirado pelas populações. Fotografia, bordado e outras linguagens encontram-se ainda em “Portraits of the Multiverse”, de Ana Elisa Sotelo e Sadith Silvano, num diálogo entre imagens da Amazónia e a arte ancestral Kené dos Shipibo, que procura tornar perceptível uma realidade para lá do visível imediato. Reunidos, estes trabalhos recusam a separação confortável entre humanidade e natureza, ao encontro de territórios vivos, mas ameaçados, ao mesmo tempo que recordam que qualquer projecto de futuro depende da capacidade de reconhecer as relações de interdependência que sustentam a existência.

Rumamos agora ao centro da cidade de Braga e ao Museu Nogueira da Silva, onde “Utopia”, de Cooper & Gorfer, e “Pomizh - in-between”, de Lena Ruzhytska, colocam a identidade e a deslocação no centro da experiência. Em “Utopia”, retratos de mulheres jovens cujas vidas foram atravessadas pela migração forçada surgem integrados em cenários arquitectónicos construídos por sobreposições, recortes e colagens. As protagonistas parecem habitar um teatro de paredes, portas e jardins imaginários, simultaneamente refúgio e labirinto, onde a possibilidade de recomeçar permanece tão sedutora quanto incerta. A utopia não surge como promessa ingénua, mas como necessidade de reconstrução perante um mundo que parece ter perdido a capacidade de sonhar em comum. Já Lena Ruzhytska oferece-nos uma experiência mais íntima da condição de estar entre dois lugares. A partir da fotografia analógica, de desenhos, notas pessoais e entrevistas, a artista ucraniana constrói um diário fragmentário que oscila entre Kiev e Portugal, entre a vida que prossegue e a ameaça que nunca desaparece por completo. O quotidiano, as tradições familiares e as viagens de regresso adquirem um peso novo quando a guerra altera a relação com o que antes parecia garantido. Daqui, o percurso poderá prosseguir até ao gnration, onde Laetitia Vançon, em “Tribute to Odesa & The Other Battlefields”, acompanha uma geração ucraniana confrontada com futuros interrompidos. Longe das imagens espectaculares da frente de combate, os retratos revelam a resistência silenciosa de quem continua a estudar, a amar e a construir projectos de vida. É na persistência destes gestos comuns, ameaçados mas não anulados, que a fotógrafa encontra uma das imagens mais poderosas da guerra.

O Museu da Imagem oferece um contraponto histórico e político através de “Imagined Territories”, conjunto de trabalhos que questiona a forma como as imagens constroem a memória e perpetuam relações de poder. Em “To Taste a Bittersweet History”, Tashiya de Mel parte da história da canela no Sri Lanka para revisitar a presença colonial neerlandesa e as narrativas que persistem, de forma desigual, na memória colectiva. Nouf Aljowaysir, em “Salaf”, recorre à inteligência artificial para expor as ausências e os enviesamentos dos arquivos visuais sobre o Médio Oriente, interrogando a reprodução contemporânea de antigos olhares orientalistas. Já “Horizon Denied”, de Alwin Maigler, confronta a herança colonial alemã na Namíbia através de imagens que desestabilizam a orientação e recusam a paisagem como território disponível para apropriação. O percurso poderá terminar no Palácio do Raio, onde “Growing Pains” reúne obras de artistas de origem ucraniana que abordam a transmissão do trauma entre gerações, a memória familiar e a dificuldade de separar identidade e herança política. Entre a alimentação, o corpo, os objectos e as histórias de mulheres deslocadas, a guerra revela-se uma presença que atravessa até os espaços mais íntimos. É precisamente esta capacidade de fazer dialogar o global e o particular, o político e o afectivo, que dá consistência à 36.ª edição dos Encontros. Um dia dificilmente bastará para esgotar os Encontros da Imagem, tanto mais que a programação se estende a outros núcleos e cidades; será, contudo, suficiente para perceber que a fotografia permanece um instrumento privilegiado de questionamento. Não porque ofereça respostas definitivas, mas porque nos obriga a olhar de novo, a reconhecer o que ficou fora do enquadramento e a imaginar, com maior consciência, outras formas de habitar o mundo.

sábado, 17 de outubro de 2026

LIVRO: “Vidas Perfeitas” | Carla Quevedo



LIVRO: “Vidas Perfeitas”,
de Carla Quevedo
Edição | Francisco José Viegas
Ed. Quetzal Editores, Abril de 2026


“Há riscos em adaptar máximas antigas aos nossos tempos. O excesso é atrativo numa era em que chamar a atenção é uma virtude. A moderação é um tédio quando comparada com a excitação do radicalismo. Pepe Mujica, ex-presidente uruguaio que morreu a 13 de maio em Montevidéu, na sequência de um cancro do esófago, adaptou esta máxima ao consumismo desenfreado: 'Em que gastas o milagre de teres nascido? A pagar contas e a comprar coisas até seres um velho destruído. E não compras com dinheiro. Compras com tempo de vida que gastaste para ter esse dinheiro.' A originalidade de Pepe Mujica estava em ser consequente com o que defendia.”

Ao reunir mais de uma centena de obituários, “Vidas Perfeitas”, de Carla Quevedo, parte de uma contradição deliberada: como podem ser perfeitas vidas tão desiguais, algumas luminosas, outras moralmente abjectas? A resposta encontra-se na introdução da autora: “É perfeito o que não pode ser repetido, não é susceptível de correcções, não pode ser refeito.” A morte não absolve nem santifica, antes transforma a existência num território fechado, disponível para a interpretação. O obituário deixa, assim, de ser mera notícia biográfica ou elegia circunstancial para se tornar exercício de julgamento, memória e escrita. Miguel Esteves Cardoso, no prefácio, identifica com precisão a singularidade desta abordagem: os retratos são biografias, mas são também, inevitavelmente, retratos da própria autora. A sua inteligência impaciente, o humor, a ironia e a impiedade perante a banalidade convivem com uma capacidade genuína de admiração e ternura. Carla Quevedo tanto se entusiasma com os seus protagonistas como parece exigir-lhes, postumamente, uma justificação para terem vivido. Nessa oscilação encontramos a recusa da solenidade automática perante a morte e a convicção de que nenhuma existência merece ser reduzida à fórmula piedosa que habitualmente a acompanha. Nem todos são heróis; nem todos merecem lágrimas. Mas todos oferecem matéria para pensar o que significa estar vivo.

A diversidade dos protagonistas constitui um dos grandes argumentos de “Vidas Perfeitas”. Entre os músicos e intérpretes encontramos a “maravilhosa insolente” Rita Lee, Sara Tavares, Fausto Bordalo Dias, Quincy Jones e Ozzy Osbourne; entre os escritores e poetas, Nuno Júdice, Adília Lopes, Maria Teresa Horta, Martin Amis e Mario Vargas Llosa. A ciência e o pensamento estão representados, entre outros, por Daniel Kahneman, James Watson, Jane Goodall e Nuno Loureiro; a política e a justiça convocam figuras tão distintas como Chita Rivera, Álvaro Laborinho Lúcio, Joana Marques Vidal e Silvio Berlusconi. Há ainda fotógrafos, arquitectos, artistas plásticos, empresários, activistas e personalidades menos conhecidas, cujas vidas revelam formas discretas, mas decisivas, de intervenção no mundo. A autora sabe encontrar, por detrás do currículo, o pormenor que devolve humanidade à figura pública. Tom Wilkinson, por exemplo, nunca se interessou pelo estrelato; acreditava que os actores tinham de ter um certo anonimato, e conseguia tê-lo. Falando sobre a sua relação com a natureza e os animais, Sebastião Salgado defendeu que havia que aceitar as pessoas, assim como tivera de aceitar uma tartaruga-gigante nas Galápagos para a poder fotografar com justiça. Ao arquitecto Nuno Portas interessaram-lhe as marcas da cidade e a forma como permaneciam ao longo dos séculos; os edifícios mudam, mas o espaço público permanece igual. São apontamentos que valem mais do que a simples curiosidade biográfica, ao condensar maneiras de estar, trabalhar e olhar. Em vez de alinhar feitos numa cronologia inerte, a autora procura o gesto, a frase ou o episódio capazes de iluminar uma personalidade. O resultado é uma galeria sem hierarquias rígidas, onde a grandeza não coincide necessariamente com a celebridade e a singularidade não depende de uma vida espectacular.

Lido no seu conjunto, o livro desenha também uma história moral e política do nosso tempo. A ditadura portuguesa surge nas fotografias de Eduardo Gageiro, que registou a pobreza censurada pelo regime e encontrou no 25 de Abril uma transformação que continuaria a celebrar até ao fim da vida. A violência das ditaduras latino-americanas atravessa a história de Nora Cortiñas, a “mãe de todas as batalhas” e um dos maiores nomes contra a ditadura argentina, que fez da procura do filho desaparecido uma luta contra o esquecimento. A resistência à Rússia autoritária ganha rosto em Alexei Navalny. A teocracia iraniana encontra em Ebrahim Raisi uma das suas expressões mais brutais. A guerra, a perseguição das mulheres, o terrorismo e a instrumentalização política da religião surgem, por sua vez, na história da israelo-alemã Shani Louk. A estas feridas juntam-se questões menos directamente associadas à violência: a corrupção e a concentração do poder, expostas no retrato de Berlusconi; o consumismo, criticado por Pepe Mujica; os direitos civis, evocados através de Harry Belafonte; e a emancipação feminina, presente em tantas das mulheres que desafiaram convenções e instituições. A cultura não imuniza contra a barbárie, a inteligência não garante a bondade e a notoriedade não constitui prova de mérito. É esta consciência, tão incómoda quanto necessária, que aproxima vidas aparentemente inconciliáveis e impede que a leitura de “Vidas Perfeitas” se transforme num desfile de homenagens.

A qualidade literária da obra nasce, sobretudo, da voz que a percorre. Quevedo alterna a informação rigorosa com a digressão ensaística, o comentário mordaz com a observação afectuosa, sem abdicar de uma prosa que pensa enquanto conta. Rita Lee, ao chamar “Jair” ao cancro, transforma o sofrimento numa última provocação. Perante Berlusconi, a autora observa que “era uma pessoa que se portava mal, e isso era atrativo para os italianos”. A propósito de Nora Cortiñas, a imagem das «mães sem filhos» restitui o absurdo de uma violência de Estado. A fotografia de Höpker regista “a normalidade num dia em que a maior democracia do mundo foi atacada”; Gageiro, por seu turno, fotografava o país que a ditadura preferia esconder. Já Mujica pergunta: “Em que gastas o milagre de teres nascido?”; Joana Marques Vidal surge associada à ideia de que “o maior dos males é cometer uma injustiça”. Shani Louk é recordada como «uma figura bela e livre»; e Raisi termina simbolicamente num inferno que a autora não confunde com absolvição. Estas passagens não substituem a leitura integral, mas mostram a amplitude tonal do livro. Nem todos os retratos atingem a mesma intensidade e a abundância de informação pode, por vezes, sufocar a elaboração literária. Ainda assim, “Vidas Perfeitas” consegue o que distingue um bom livro de obituários de um simples arquivo de vidas: fazer da morte uma pergunta dirigida aos vivos. No fim, a perfeição do título não reside nas personagens, mas na irrepetibilidade das suas existências e na responsabilidade de as contar.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

LUGARES: Casa Colombo – Museu do Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses



LUGARES: Casa Colombo – Museu do Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses
Travessa da Sacristia, 2 e 4 – Ilha do Porto Santo
Horários | Segunda a sexta-feira das 10h00 às 12h30 e das 14h às 17h30. Sábados das 10h00 às 13h00. Encerrado aos domingos e feriados
Ingressos | € 6,00 (bilhete adulto)


Sejam bem-vindos ao Porto Santo, uma pequena ilha atlântica cuja importância histórica ultrapassa largamente a sua dimensão geográfica. A sua posição no Atlântico tornou-a parte de uma história de viagens, encontros e descobertas que contribuiu para transformar a visão europeia do mundo. Embora a presença da ilha em cartas náuticas medievais revele que era já conhecida antes da chegada dos portugueses, foi a partir do século XV que assumiu um papel decisivo na expansão marítima portuguesa. Por iniciativa do Infante D. Henrique, os navegadores João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo participaram no reconhecimento e no povoamento do arquipélago da Madeira. É neste contexto que surge a Casa Colombo, associada, por tradição, à passagem e residência de Cristóvão Colombo no Porto Santo, após o seu casamento com Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo. A visita convida-nos, assim, a percorrer diferentes dimensões da História: a expansão marítima e o encontro de culturas, a memória de uma figura central da história contemporânea portuguesa e a relação entre o território insular e o mundo. Mais do que um museu sobre uma ilha, este é um espaço que nos ajuda a compreender como o Porto Santo participou numa transformação histórica de alcance universal.

Comecemos por olhar a Casa Colombo, cuja ligação tradicional a Cristóvão Colombo constitui um dos pontos de partida para a visita. O navegador genovês terá vivido no Porto Santo depois de casar, entre 1479 e 1480, com Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo, primeiro capitão do donatário da ilha. Embora esta tradição não permita afirmar com absoluta certeza que a casa que hoje visitamos foi a sua residência, a ligação de Colombo ao arquipélago insere-se num contexto histórico particularmente significativo. Na segunda metade do século XV, o Atlântico era um espaço de experimentação náutica, circulação de conhecimentos e preparação de novas viagens. A Casa Colombo – Museu do Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses nasceu em 1989 e foi profundamente reestruturada em 2004, passando a apresentar uma leitura mais abrangente da expansão marítima portuguesa. Ao longo do percurso, somos convidados a olhar para os Descobrimentos não apenas como uma sucessão de viagens, mas como um processo que aproximou continentes, promoveu trocas comerciais e culturais e alterou profundamente as sociedades envolvidas. O museu propõe, deste modo, uma perspectiva que ultrapassa a escala regional, situando o Porto Santo na grande história da abertura de Portugal a África, ao Oriente e à América. O seu acervo, enriquecido por obras de proveniência europeia, africana, asiática e sul-americana, permite reflectir sobre a diversidade cultural que resultou desses contactos, bem como sobre as complexas heranças que deixaram no mundo actual.

Prosseguindo a visita, chegamos ao edifício conhecido como Baiana, uma construção secular, datada de meados do século XVII, que constitui uma referência arquitectónica no centro histórico de Vila Baleira. A sua integração no museu, concretizada no âmbito da ampliação de 2023, permitiu aproximar fisicamente dois edifícios emblemáticos e alargar o espaço de interpretação histórica da instituição. Devemos olhar esta ampliação não apenas como um aumento da área expositiva, mas como uma oportunidade para aprofundar a leitura dos Descobrimentos Portugueses. A partir do Porto Santo, podemos compreender melhor o significado estratégico das ilhas atlânticas, enquanto pontos de apoio à navegação, espaços de povoamento e lugares de contacto entre diferentes povos e culturas. O percurso propõe uma visão de conjunto da expansão portuguesa dos séculos XV, XVI e XVII, articulando a experiência local com os acontecimentos que marcaram a história europeia e mundial. As obras e os objectos reunidos, provenientes de diferentes geografias e tradições artísticas, ajudam-nos a reconhecer a dimensão internacional deste processo e a diversidade das relações estabelecidas ao longo das rotas marítimas. Importa, contudo, recordar que a expansão não se resumiu à aventura dos navegadores: implicou também ocupação de territórios, exploração económica, imposição de poderes e profundas transformações sociais. Ao percorrermos este núcleo, somos convidados a reconhecer a complexidade desse legado, valorizando simultaneamente a circulação de conhecimentos e as consequências humanas do encontro entre mundos. É esta pluralidade de perspectivas que faz do museu um lugar de conhecimento, reflexão e diálogo.

A visita termina no Núcleo Museológico Brum do Canto, dedicado a uma personalidade multifacetada cuja vida e obra mantiveram uma ligação profunda ao Porto Santo. Jorge Júdice Limpo Brum do Canto nasceu em Lisboa, em 1910, mas encontrou nesta ilha um lugar de eleição, onde pôde desenvolver algumas das suas grandes paixões. Realizador, actor, crítico de cinema, poeta, músico, gastrónomo e apaixonado pela natureza, foi uma figura relevante da cultura portuguesa do século XX. A exposição resulta de uma doação feita ao Governo Regional da Madeira, em 2015, pela família, representada pelo sobrinho Nuno Alves Caetano, reunindo objectos e testemunhos que permitem conhecer as várias facetas desta personalidade querida dos portosantenses. Entre os aspectos mais marcantes encontra-se a relação com o cinema e, em particular, como filme “ A Canção da Terra”, longa-metragem realizada no Porto Santo e estreada em 1938. O filme retrata as dificuldades quotidianas da população, condicionada pelas secas e pela fragilidade da agricultura, deixando um testemunho de grande valor sobre a paisagem e a vida insular. Brum do Canto regressaria à ilha durante vários anos, entre 1953 e 1959, dedicando-se também à pesca desportiva e à observação da natureza. O seu interesse pelo mar, pela gastronomia e pelas tradições locais revela uma curiosidade que ultrapassava as fronteiras de uma única área artística. Ao conhecermos este legado, percebemos que a história de um território também se constrói através daqueles que o observaram, filmaram e viveram intensamente. Este núcleo constitui, assim, uma homenagem a um homem de múltiplos talentos e uma oportunidade para descobrir o Porto Santo através do olhar de quem profundamente o amou.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

CINEMA: "NAZA" | Yuval Abraham, Rachel Szor



CINEMA: “NAZA”
Realização | Yuval Abraham, Rachel Szor
Argumento | Yuval Abraham, Rachel Szor
Fotografia | Rachel Szor
Montagem | Yuval Abraham, Rachel Szor
Interpretação | Yuval Abraham
Produção | Harry Davies, Lindsay Poulton, James Wilson
Reino Unido, Estados Unidos | 2026 | Documentário | 80 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 5
12 Out 2026 | seg | 14:25


Há uma legenda em “Naza”, de Yuval Abraham e Rachel Szor, que condensa a perturbadora economia moral do filme e nos vem lembrar que Gaza e Telavive distam escassos sessenta quilómetros entre si, pela linha da costa. A proximidade geográfica torna-se, porém, a medida de uma distância muito mais funda, a que separa quem morre de quem decide a morte, quem vê a destruição da segurança doméstica de quem a sofre, quem carrega no botão de quem morre esmagado sob os escombros. Partindo dos testemunhos de vinte e quatro antigos membros dos serviços de informações e das forças armadas israelitas, a dupla de realizadores constrói um documentário que dispensa a exibição directa do horror para nos obrigar a imaginá-lo. Não vemos os rostos dos entrevistados, obscurecidos ou digitalmente alterados; ouvimos, porém, as palavras de quem participou na engrenagem que tornou Gaza num território de devastação e horror. O dispositivo formal é austero, quase glacial, e a sua eficácia reside nessa contenção. “NAZA” não procura a comoção fácil nem se refugia na espectacularidade da ruína: expõe, antes, a linguagem, os procedimentos e as justificações através dos quais a morte de milhares de pessoas pode ser integrada numa rotina administrativa. O que começa por parecer uma investigação jornalística converte-se numa anatomia do poder contemporâneo, onde a distância deixou de ser uma questão geográfica, para passar a assumir uma tecnologia de irresponsabilidade, desumanização e imoralidade.

O título do documentário remete para a abreviatura hebraica de “Nezek Agavi”, expressão correspondente a “danos colaterais”, transformada, na lógica operacional descrita pelos entrevistados, numa unidade de cálculo das mortes civis consideradas aceitáveis para atingir determinado alvo. A violência adquire, deste modo, a aparência de uma equação: cada vida reduz-se a uma variável, cada edifício a uma coordenada, cada família a uma margem de erro. Os sistemas de vigilância e a inteligência artificial, nomeadamente através do programa Lavender, surgem como instrumentos de uma guerra em que a decisão humana se esconde atrás da autoridade aparente dos dados. Mas a máquina não absolve quem a concebe, alimenta ou utiliza; pelo contrário, torna mais urgente a pergunta pela responsabilidade. Quando um entrevistado afirma que desempenhava apenas uma função técnica, ou que outra pessoa teria executado a mesma tarefa, reconhecemos a velha gramática da obediência cega, agora actualizada pelo vocabulário asséptico da gestão algorítmica. A banalidade do mal, para convocar Hannah Arendt, não significa aqui ausência de inteligência ou de competência, mas a possibilidade de ambas operarem sem reflexão moral. Há algo de particularmente aterrador na naturalidade com que estes homens descrevem procedimentos susceptíveis de destruir famílias inteiras. A linguagem militar não se limita a ocultar a violência. Organiza a sua percepção, distribui responsabilidades até quase as fazer desaparecer e converte a morte de civis numa consequência previsível, logo administrável. É necessário lembrar, porém, que o algoritmo não mata sozinho e que são seres humanos que lhe atribuem autoridade para matar.

A opção de Yuval Abraham e Rachel Szor de filmar nos telhados nocturnos de Telavive, intercalando os depoimentos com movimentos de câmara pelas fachadas e janelas de apartamentos, introduz uma segunda dimensão crítica. Enquanto em Gaza se acumulam os escombros, a vida na cidade israelita parece prosseguir entre televisores ligados, rotinas familiares e interiores protegidos. A montagem não estabelece uma oposição simplista entre dois mundos estanques. Revela, antes, a coexistência entre a normalidade de uns e a destruição de outros, separados por uma distância que é simultaneamente física, política e moral. A evocação de “A Zona de Interesse”, de Jonathan Glazer, produtor executivo de “NAZA”, impõe-se: também aqui o horror se torna mais insuportável quando percebemos a facilidade com que pode permanecer fora de campo, sem interromper os gestos quotidianos. Todavia, a sobriedade do dispositivo comporta um risco. A sucessão de testemunhos, por vezes quase indiferentes à gravidade do que relatam, pode produzir uma saturação em que o horror, repetido e sistematizado, perde parte da sua capacidade de nos atingir. E a concentração quase exclusiva nas vozes israelitas, embora politicamente deliberada, deixa os palestinianos sobretudo na condição de vítimas descritas por terceiros. Quando, perto do final, a câmara abandona os panoramas nocturnos e nos confronta com um pai palestiniano à procura dos filhos entre as ruínas, a irrupção dessa presença humana adquire uma força que o filme até aí parecia suster. Não se trata de exigir emoção como ornamento, mas de reconhecer que a denúncia da desumanização não pode prescindir da restituição da humanidade aos desumanizados.

É precisamente nesta tensão entre rigor investigativo e insuficiência afectiva que “Naza” encontra os seus limites e a sua importância. O filme não revela, por si só, uma realidade desconhecida: jornalistas palestinianos, investigadores e órgãos de comunicação independentes documentam há anos a ocupação, a destruição de Gaza e os mecanismos que sustentam a violência israelita, frequentemente pagando um preço extremo por esse trabalho. O que os realizadores acrescentam é a possibilidade de escutar, do interior da estrutura militar, testemunhos que comprometem não apenas executantes individuais, mas um sistema de decisão política, tecnológica e institucional. A reacção furiosa das autoridades israelitas, acompanhada de ameaças contra os realizadores e de tentativas de transformar a denúncia em traição, confirma a dimensão política do gesto cinematográfico. “NAZA” é mais convincente a expor o funcionamento do horror do que a imaginar as condições da sua superação; mais incisivo a desmontar a máquina do que a devolver espaço àqueles sobre quem ela opera. Esta limitação, porém, não anula a urgência do filme. Num tempo em que o genocídio em Gaza continua a exigir denúncia, responsabilização e justiça, a distância entre Telavive e Gaza deixa de poder servir de álibi. O cinema, aqui, não substitui a acção nem absolve o espectador. Retira-lhe, isso sim, o conforto de alegar que não sabia.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

CONCERTO: Carlos Bica & Azul



CONCERTO: Carlos Bica & Azul
Com | Carlos Bica (contrabaixo), Frank Möbus (guitarra) e Jim Black (bateria)
Estarrejazz 2026
Foyer do Museu Fábrica da História - Arroz
11 Out 2026 | dom | 17:00


Há formações que o tempo consolida e outras que o tempo, sem lhes retirar identidade, ensina a reinventarem-se. O trio de Carlos Bica, Frank Möbus e Jim Black pertence, inequivocamente, à segunda categoria. Trinta anos de percurso conjunto não parecem ter diminuído a inquietação criativa destes músicos, como ficou demonstrado no concerto que encerrou o Estarrejazz 2026, perante um foyer do Museu Fábrica da História - Arroz repleto de público. Esta foi a quarta vez que ouvi o trio e, à semelhança das anteriores experiências, também desta vez a música revelou novas perspectivas, pequenos desvios e pormenores que escapam a uma escuta menos atenta. Desta feita, a surpresa maior veio de Jim Black. A generosidade com que o baterista se entregou à música, o entusiasmo quase infantil com que explorou cada possibilidade rítmica e a genuína diversão que transpareceu dos seus gestos deram ao concerto uma dimensão particularmente humana. Num ambiente intimista, em que a proximidade com o público favorecia a circulação de energia entre palco e audiência, o seu virtuosismo não foi exibição: foi linguagem, impulso e disponibilidade para o inesperado.

Se Jim Black funcionou frequentemente como detonador de acontecimentos musicais de nível superior, Frank Möbus e Carlos Bica asseguraram a arquitectura flexível que permitiu a esses impulsos ganharem forma. Ora incisiva, ora deliberadamente contida, a guitarra de Frank Möbus encontrou no contrabaixo de Bica um interlocutor capaz de conferir direcção melódica e profundidade harmónica ao discurso. Mas seria redutor atribuir-lhes apenas o papel de contraponto à exuberância do baterista. É precisamente na forma como os três distribuem responsabilidades, trocam de posições e prescindem de hierarquias fixas que reside uma das singularidades do trio. O ritmo não se limita a sustentar a harmonia, tal como a melodia não se apresenta como destino obrigatório: tudo permanece permeável à transformação. Daí que alguns dos momentos de maior intensidade tenham surgido sem preparação aparente, como se a música descobrisse a sua própria direcção à medida que vai acontecendo. Ao invés de eliminar o risco, a experiência acumulada torna-o, pelo contrário, mais fértil. E a cumplicidade entre os músicos, longe de produzir automatismos, permite-lhes reconhecer o instante em que uma ideia deve ser prolongada, contrariada ou simplesmente abandonada.

O alinhamento, de “John Wayne” a “XY Ungelöst”, passando por “A Lã e a Neve”, “Canção Vazia”, “Whale Rider”, “O Profeta” e o espantoso “Believer”, percorreu diferentes facetas de um repertório que resiste à cristalização. A inclusão de “11:11” e “Lucky”, dois temas do mais recente álbum de Carlos Bica, “11:11”, acrescentou ao concerto a actualidade de uma escrita que continua a procurar novas formas de articulação. Particularmente interessante foi a maneira como algumas composições surgiram recompostas, adaptadas ao alinhamento sem beliscarem a coerência do conjunto. Não se tratou de reproduzir mecanicamente versões conhecidas, mas de reabrir as peças à experiência acumulada e às possibilidades do presente. O encore, com «P-beat», prolongou uma actuação em que a concentração e o humor, a contenção e a exuberância, coexistiram sem contradição. Celebrar três décadas de trabalho conjunto poderia facilmente conduzir ao exercício da memória ou à consagração de uma fórmula. O trio preferiu demonstrar que a longevidade só adquire verdadeiro significado quando continua a gerar inquietação. Foi essa capacidade de permanecer reconhecível sem se tornar previsível que Carlos Bica & Azul souberam mostrar, fazendo de cada encontro não uma confirmação do que já sabemos, mas uma oportunidade para descobrir o que ainda não tínhamos ouvido.