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domingo, 1 de novembro de 2026

CONCERTO: “Finding Solace” | Ezekiel



CONCERTO: “Finding Solace”,
de Ezekiel
Convidada especial | Irene Brigitte (voz, guitarra e adufe)
Ovar Expande 2026
Escola de Artes e Ofícios
17 Out 2026 | sab | 22:30


No último dia da sétima edição do Ovar Expande, a Sala Galeria abriu as portas a uma dessas viagens que dispensam GPS, ainda que se façam de estradas e caminhos longamente percorridos. Em palco, com a sua Lap Steel Weissenborn apoiada sobre as pernas, Ezekiel veio apresentar “Finding Solace”, o seu primeiro registo discográfico, fruto de uma maturação paciente, de anos em que as canções foram crescendo ao ritmo das inquietações, em busca da forma exacta, da nota que pudesse dizer aquilo que as palavras, tantas vezes, se mostram incapazes. “Mapless Roads”, tema de abertura do concerto, desenhou diante do público um caminho sem destino anunciado, entregue à delicadeza de uma guitarra que respira, suspende o tempo e deixa as melodias avançarem como poeira levantada pelo vento. Mas sentia-se, naquela noite, algo que transcendia a própria música. Repleta de amigos, a plateia era muito muito mais do que um mero conjunto de espectadores: era um lugar de abrigo, uma pequena comunidade disposta a amparar o músico na sua ansiedade e nervosismo mais que justificados. Visivelmente feliz, Ezekiel não escondeu o significado daquele momento. A humildade com que se apresentou, a gratidão dirigida aos que o acompanharam e a vontade de oferecer o melhor de si, conferiram ao concerto uma verdade rara, dessas que não se ensaiam nem se constroem. Ali, cada canção trouxe consigo a memória de um caminho longo, finalmente desembocado no instante luminoso da partilha e da dádiva.

Há guitarras que contam histórias sem precisarem de lhes dar nome. Nas mãos de Ezekiel, a Weissenborn pareceu encontrar uma linguagem própria, feita de ressonâncias fundas, notas demoradas e silêncios onde cabe um mundo inteiro. Em “Hill Chain”, as cordas ergueram elevações imaginárias, como se a música procurasse passagem entre montanhas cobertas de neblina; “Sun Chaser” perseguiu uma claridade fugidia, ora próxima, ora distante, sempre longe do alcance da mão. E houve, em “Feather’s Weight”, essa aparente leveza que só se alcança depois de muito porfiar: a capacidade de sustentar uma melodia sem a prender, de lhe permitir flutuar sem perder o chão. A guitarra revelou-se, não um mero instrumento de acompanhamento, mas o centro de gravidade de uma paisagem sonora que oscilou entre a vastidão e a intimidade, entre a solidão dos horizontes abertos e o calor de uma voz que nos chama para casa. “Family” pareceu condensar essa procura, trazendo para o palco a dimensão afectiva que atravessou toda a actuação. Nada ali forçou o virtuosismo pelo virtuosismo, nem o efeito fácil de impressionar. Cada gesto denunciou antes a vontade de chegar um pouco mais perto da perfeição, na certeza de que a beleza exige tempo, atenção e entrega. A emoção brotou, justamente, dessa contenção, da música que não precisou de levantar a voz para se fazer ouvir, nem de correr para nos levar bem longe.

Na segunda parte do concerto, a viagem abriu-se a outras geografias. A cantautora e multi-instrumentista italiana Irene Brigitte juntou-se a Ezekiel, trazendo consigo a guitarra, a voz e o adufe, e com eles um sopro da tradição musical de Trieste, sua terra natal. A sua presença não interrompeu a intimidade construída até então; acrescentou-lhe antes uma nova cor, como se duas margens, até ali separadas, descobrissem uma passagem entre si. Em “In Riva” e “Menta”, essa aproximação pareceu ganhar corpo na delicadeza do encontro, na escuta mútua e na generosidade de quem sabe que acompanhar também é uma forma de criar. Depois, “A Gente Vai Continuar” trouxe ao concerto uma homenagem sincera e sentida a Jorge Palma, esse mestre de canções que soube guardar a vida sem lhe esconder as feridas. Por momentos, a Sala Galeria pareceu suspender-se num território onde a música deixa de pertencer a quem a compôs e passa a ser de todos os que nela reconhecem algo de si. Quando chegou “Intuitive”, já se sabia que a noite não se media pela dimensão do espectáculo, mas pela proximidade entre quem tocava e quem escutava. E “The Last Wave”, a encerrar, deixou-nos com a sensação de uma última onda a recolher-se devagar, levando consigo o ruído do mundo e devolvendo-nos ao silêncio. Ezekiel despediu-se sem precisar de grandes gestos. Restou o carinho de uma sala cheia, a felicidade de um trabalho finalmente entregue aos outros, e a certeza de que, por vezes, basta uma guitarra, algumas músicas e a coragem de nos mostrarmos como somos para que uma noite seja para sempre lembrada.

sábado, 31 de outubro de 2026

LIVRO: "O Sequestro do Cérebro" | Agostinho Santos



LIVRO: “O Sequestro do Cérebro”,
de Agostinho Santos
Ed. Officium Lectionis Edições, Setembro de 2026


“Neste período, aprendi a saborear a memória de quanto é bom, de quando os nossos estão bem e lembrei muitas vezes, entre dezenas de entradas e saídas do hospital, o quanto éramos felizes quando estávamos sentados no sofá a ler um livro, no estirador a desenhar ou a ver séries televisivas ou noticiários, ou nas cadeiras da varanda a beber um gin e a contemplar a majestosa paisagem das cidades do Porto e de Gaia, beijadas pelo rio Douro. Tudo era bom, pacífico... e eu não sabia. Tudo era sereno... e eu não sabia. Agora sei e sei também que, no meio destes meses infinitos de recuperação da Ilda, senti-me encurralado numa espécie de ilha, não abandonada de todo, mas consciente de que afinal a doença nos atirara para o nosso espaço e que a sobrevivência depende apenas de nós, em muitos casos de mim…”

Há tempestades que surgem sem aviso e que acabam por mudar para sempre a paisagem à nossa volta. “O Sequestro do Cérebro”, de Agostinho Santos, é o testemunho intenso e vivo de um desses abalos: o AVC que atingiu a sua companheira, Ilda Figueiredo, mulher de causas, de combates e de uma energia inesgotável, subitamente privada da palavra, do movimento e de uma parte essencial da sua autonomia. Foi um “tsunami”, como refere o escritor, que invadiu o seu quotidiano, suspendendo projectos e lançando ambos num território onde o medo se misturou com a esperança e cada pequeno sinal de progresso adquiriu a grandeza de um milagre. Mas não é da narrativa de uma doença que este livro trata, nem tão-pouco o relato de quem teve de aprender a cuidar. É, sobretudo, o retrato de um homem confrontado com a fragilidade da vida e obrigado a redesenhar a sua própria existência. Artista plástico, habituado a procurar no traço, na cor e na matéria os sinais de um mundo a correr para o caos, Agostinho viu-se perante a mais difícil das telas, aquela em que nada estava garantido, em que cada dia podia apagar uma linha ou devolver-lhe uma cor. E, quando tudo parecia suspenso, descobriu que a vida, mesmo ferida, não perdia inteiramente a capacidade de se reinventar.

Profissional de saúde que acompanhou parte do processo de reabilitação da doença que vitimou Ilda Figueiredo, sinto-me à vontade para afirmar que há, nas páginas deste livro, uma verdade comovente que ultrapassa a experiência individual. Agostinho Santos faz-nos reflectir numa realidade que lhe toca de perto e nos leva a perceber que também é preciso cuidar de quem cuida. Por detrás da vigilância, dos horários, das refeições, das terapias ou das deslocações, existe um homem que sente medo, que conhece a insónia, que não tem como não vacilar perante a dimensão da responsabilidade que lhe coube. Agostinho Santos tem a coragem e a generosidade de não esconder esse homem. Mostra-o a chorar longe da enfermaria, a temer não ter forças, a interrogar o silêncio daqueles que julgava próximos e a encontrar amparo na família e nos amigos que permaneceram. É nesta exposição da vulnerabilidade, sem disfarces nem heroísmos artificiais, que a sua escrita ganha uma singular humanidade. Cuidar de Ilda Figueiredo foi aprender a reconhecer o valor de coisas que antes pertenciam ao fundo indistinto dos dias: uma mão que aperta outra, um passo recuperado, uma palavra que regressa, um passeio possível. Foi também descobrir que o cuidador não é uma fortaleza sem brechas. É alguém que também precisa de descanso, de escuta e de mãos que o amparem. Para que alguém possa continuar a cuidar, é necessário que o mundo não se esqueça de cuidar dele.

No Centro de Reabilitação do Norte, em Valadares, a recuperação faz-se de cuidados clínicos, de gestos pacientes, de presença empática e de uma dedicação profissional que Agostinho Santos reconhece e agradece. Mas faz-se também de encontros, de palavras e de cultura. Entre exposições de artes plásticas e de fotografia, concertos de música clássica e tertúlias literárias, abrem-se janelas num quotidiano tantas vezes confinado às exigências da doença. O próprio Agostinho Santos foi convidado para uma dessas tertúlias, ao lado do Professor Manuel Sobrinho Simões, reencontrando um espaço de partilha que lhe era familiar: o da criação, do pensamento e da palavra. Este episódio, aparentemente discreto, contém uma verdade essencial. Uma instituição de saúde cumpre plenamente a sua missão quando, para além de tratar o corpo, reconhece a pessoa que nele habita; quando percebe que ninguém se resume ao diagnóstico, à incapacidade ou ao lugar que ocupa numa enfermaria. A cultura não substitui a terapêutica, mas pode devolver à existência horizontes que a doença estreitou. É também cuidado oferecer a alguém a possibilidade de se emocionar, de conversar, de apreciar uma obra, de participar numa conversa à volta de um livro e de voltar a sentir-se parte do mundo. Nestes encontros, a vida não espera pela recuperação para acontecer: acontece de facto, ali, entre pessoas que, apesar das suas fragilidades, continuam a ter algo para dar e muito para receber.

E há o artista, que nunca desaparece inteiramente por detrás do cuidador. Quando o tsunami entrou na sua vida, Agostinho Santos encontrava-se mergulhado na preparação da Bienal Internacional de Arte de Gaia. De repente, os caminhos passaram a convergir para o hospital; o atelier ficou distante e o tempo adquiriu outra dimensão. Porém, mesmo quando a urgência dos cuidados parece ocupar todo o espaço, a criação persiste, procurando lugar na mesa de casa, no desenho transportado para dentro das novas rotinas, no olhar que continua a interrogar o mundo. Há qualquer coisa de profundamente revelador neste gesto: desenhar, quando a vida perdeu o seu contorno é recusar que a adversidade detenha a última palavra. A mão que acompanha Ilda Figueiredo é também a mão que traça; a sensibilidade que reconhece a dor é a mesma que procura a forma, a cor e a possibilidade de uma nova composição. A arte prolonga-se para além do papel e da tela, manifesta-se na persistência de uma exposição realizada, na presença num encontro cultural, no esforço de manter a sua Ilda ligada aos outros, no cuidado de não deixar que a doença a encerre num mundo sem janelas. Não se trata de transformar o sofrimento em inspiração, como se a dor precisasse de justificar-se através de alguma obra. Trata-se, antes, de reconhecer que a identidade de uma pessoa não se esgota naquilo que lhe acontece. Mesmo sob a violência da mudança, Agostinho Santos continua a ser artista; e Ilda Figueiredo, apesar das limitações impostas pelo AVC, continua a ser a mulher de pensamento, de luta e de afectos que sempre foi. A criação não apaga as feridas, antes ajuda a impedir que elas apaguem tudo o resto.

Nisto reside o desenho mais profundo de “O Sequestro do Cérebro”: o de duas vidas que, sem deixarem de conhecer o medo e a incerteza, reaprendem a caminhar juntas. Ilda Figueiredo regressa devagar, num movimento feito de avanços, pausas e pequenas conquistas; Agostinho Santos transforma-se no decurso desse regresso, descobrindo no acto de cuidar uma das formas mais exigentes e mais fecundas de ser útil. Entre ambos, o amor deixa de ser apenas o território da cumplicidade e passa a ser também o da resistência quotidiana, da paciência e da reinvenção. À sua volta, a família, os amigos, os profissionais de saúde e a arte compõem uma rede de presenças que, quando verdadeira, impede a fragilidade de se converter em abandono. O autor lembra, porém, que essa rede não pode depender apenas da generosidade individual. Cuidar é também uma responsabilidade colectiva, que exige instituições atentas, apoio continuado e respeito pela dignidade de quem sofre e de quem acompanha. No fim, permanece a imagem de um artista que continua a desenhar, de uma mulher cujo sorriso procura de novo a luz e de duas pessoas que aprenderam a medir o tempo por gestos que outrora pareceriam insignificantes. O traço ainda pode tremer; o desenho permanece inacabado. É tempo de ajudar a reconstruir a paisagem, de descobrir entre os destroços que a mão que ampara também cria, que a mão que cria também resiste e que, mesmo depois do maior dos abalos, a vida vai voltar a encontrar o seu desenho.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

DANÇA: "O Salvado" | Olga Roriz



DANÇA: “O Salvado”
Direção, interpretação, textos e escolha musical | Olga Roriz
Banda sonora e vídeo | João Rapozo
Cenografia | Eric Costa
Figurinos | Bárbara Felicidade
Produção | Companhia Olga Roriz
90 Minutos | Maiores de 12 Anos
Cineteatro António Lamoso
24 Out 2026 | sab | 21:30


A festejar setenta anos de vida, cinquenta anos de carreira e trinta anos da sua própria Companhia, Olga Roriz trouxe ao Cineteatro António Lamoso, em Santa Maria da Feira, “ O Salvado”, uma proposta concebida e interpretada pela artista, que regressa ao formato a solo doze anos após “A Sagração da Primavera”. Demonstrando uma presença imensa e uma generosidade sem medida, Olga Roriz fez do palco espelho onde se olhou de frente, sem artifícios que lhe escondessem as rugas do tempo, sem pudor perante a fragilidade, sem receio de mostrar o que fica quando a vida se encarrega de levar quase tudo. O que fica é o salvado, a memória, a inquietação, os gestos que resistem, as músicas que nos habitam, as palavras que ainda procuram dizer-nos. Mas também o que já não somos, o que deixámos de poder fazer, o que aprendemos a perder. Perante um cenário que pareceu envelhecer com ela, como se as paredes transportassem também a fadiga dos anos, Olga Roriz ofereceu-nos um autorretrato em movimento, feito de presenças e ausências, de beleza e ruína, de tudo aquilo que, apesar de tudo, continua a arder.

Longe do que poderíamos imaginar, a dança não se fechou sobre si mesma. Abriu-se ao teatro, à mímica, à palavra, ao gesto inesperado, ao humor e à exposição de quem já não precisa de se proteger atrás de uma personagem. Escutámos a música de Anja Lechner, a voz de Tilda Swinton, os acordes reconhecíveis de “The Man I Love” ou “Can't Help Falling in Love”. Escutámos os silêncios, esses lugares onde o corpo fala quando as palavras se tornam insuficientes. Seguimos com o olhar os movimentos lentos de uma Gymnopédie, como se cada gesto precisasse de negociar com o tempo, e outros frenéticos, quase desesperados, como se a vida pudesse ainda escapar à sua própria finitude. Um alarme irrompe e percebemo-lo parte da representação; um telemóvel toca e devolve-nos, sem cerimónia, à realidade da sala. Tudo pertence ao espectáculo, até o que parece interrompê-lo. Nessa fronteira instável entre o ensaiado e o imprevisto, entre a memória e o presente, Olga Roriz recorda-nos que envelhecer não é deixar de existir, nem a idade se mede pelos números inscritos no bilhete de identidade. O corpo envelhece, os cenários degradam-se, o mundo transforma-se. E, no entanto, há uma energia que permanece, uma vontade de continuar a perguntar, a experimentar, a dançar.

É também por isso que “O Salvado” ultrapassa o retrato íntimo de uma artista e se transforma em passagem de testemunho. Para os jovens coreógrafos e bailarinos, Olga Roriz mostra mais do que uma obra: mostra a coragem de não repetir fórmulas, de atravessar linguagens, de expor dúvidas, de aceitar o corpo real como matéria de criação. Mostra que a maturidade não é um lugar de chegada, mas um território de novas perguntas. Que a experiência não serve para nos poupar ao risco, antes nos permite arriscar de outra maneira. Ao longo de cinco décadas, construiu uma linguagem própria, mas não fez dela uma fronteira. Continua a abrir portas, a desfazer certezas, a provar que a arte se alimenta tanto do que sabemos como daquilo que ainda não dominamos. Talvez seja essa a maior herança de uma vida dedicada à criação: ensinar que não há idade para recomeçar, nem obra acabada enquanto houver inquietação. No fim, fica-nos a imagem de um corpo que conhece a decadência e não lhe vira as costas. De uma “baby boomer” que sabe que tudo se transforma e, ainda assim, insiste em estar presente. Olga Roriz dança o que salvou. E, ao fazê-lo, salva em nós a possibilidade de continuar a olhar o mundo como se ainda houvesse tanto por descobrir.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

TEATRO: "Ekaterina com as Mulheres Sobre Tudo" | Pedro Guilherme-Moreira



TEATRO: “Ekaterina com as Mulheres Sobre Tudo”,
de Pedro Guilherme-Moreira
Encenação e interpretação | Carolina Cardoso
Desenho de imagem e som | Andrés
Produção | Gulpilhares e Paris-Porto Maison d’Édition
Duração | 40 Minutos
Auditório de Gulpilhares
24 Out 2026 | sab | 16:30


Incursão auspiciosa de Pedro Guilherme-Moreira na escrita para teatro, “Ekaterina com as Mulheres Sobre Tudo” parte da história trágica de uma mulher violada durante a II Guerra Mundial para percorrer as múltiplas formas de violência, silenciamento e abandono a que as mulheres têm sido sujeitas ao longo dos tempos. Exercício de teatro intenso e de grande complexidade, a peça não se limita a assumir a forma de denúncia nem se deixa aprisionar pela densidade do seu núcleo dramático. Entre a ironia e a revolta, o sarcasmo e a ternura, o subtil e o desbragado, o texto surpreende pela liberdade com que atravessa registos tão diversos, expondo contradições, desafiando convenções e desmontando as máscaras de uma sociedade que tantas vezes se compraz na sua própria miséria. Há uma liberdade feroz na palavra, capaz de desafiar a falsa moral, desmontar hipocrisias e recusar pedir licença para existir. Mas é na sua arquitectura emocional, na forma como alterna a ironia com a devastação, que a escrita de Pedro Guilherme-Moreira verdadeiramente se impõe. Cada mudança de registo abre uma nova fenda, cada silêncio prolonga o que as palavras não conseguem reparar.

Ekaterina Savélievna Mostovoi é uma mulher, uma história, um corpo atravessado pela brutalidade da guerra e pela violência dos homens. A sua tragédia, porém, não se encerra na singularidade de um destino: alarga-se até conter nela todas as mulheres que a História violentou, silenciou, humilhou ou condenou à invisibilidade. Na sua pele cabem a guerra e a mentira, a opressão doméstica, a exploração do corpo, o trabalho sem reconhecimento, a solidão e a perda; cabem também as máscaras sociais, a voragem da exposição pública e a dificuldade de permanecer inteira num mundo que tantas vezes exige às mulheres que deixem de o ser. A barbárie que aqui se evoca não pertence apenas ao passado, nem habita geografias longínquas: continua a respirar no presente, sob outras fardas, outras armas, outros disfarces. Ao fazer de Ekaterina todas as mulheres, o dramaturgo não apaga a sua dor particular, antes multiplica-a até que nenhuma consciência possa fingir que não a reconhece. O que começa por ser uma história de violência, transforma-a Pedro Guilherme-Moreira numa dolorosa interrogação sobre a condição humana.

A muito jovem actriz Carolina Cardoso abraça este monólogo denso e exigente com uma entrega que impressiona pela maturidade e pela inteligência cénica. A actriz não se limita a vestir a pele de Ekaterina: atravessa-a, deixa-se contaminar pelas suas múltiplas existências e restitui-lhes uma humanidade que nunca se reduz à condição de vítima. Na sucessão de figuras, vozes e estados de alma, é notável a amplitude expressiva que a actriz revela, sabendo quando incendiar o palco e quando deixar que um silêncio prolongado faça o trabalho de mil palavras. É nesse equilíbrio, tão difícil quanto precioso, que reside uma das grandes virtudes da sua interpretação: a capacidade de destilar emoções sem as derramar, de tocar o excesso sem resvalar para o excesso, de se aproximar do horror sem o converter em espectáculo fácil. Não há aqui lugar para o histrionismo gratuito, mas para uma entrega física e emocional que convoca o espectador para o interior da ferida. E quando o corpo da actriz, exausto, se dobra sob os últimos acordes de “A Morte do Cisne”, de Camille Saint-Saëns, fica a sensação de que alguma coisa em nós também vergou. O aplauso já não pode ser apenas admiração. Ele é, sobretudo, reconhecimento e gratidão.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

CONCERTO: Orquestra Jazz de Matosinhos & Cristina Branco



CONCERTO: Orquestra Jazz de Matosinhos & Cristina Branco
Direcção musical | Pedro Guedes
Voz | Cristina Branco
Madeiras | José Luís Rego, João Guimarães, Mário Santos, José Pedro Coelho, Rui Teixeira
Trompetes | Luis Macedo, Javi Pereiro, Rogério Ribeiro, João Pedro Dias
Trombones | Daniel Dias, Andreia Santos, Rui Bandeira, Gonçalo Dias
Secção Rítmica | Miguel Meirinhos (piano), Hugo Ferreira (guitarra), Bernardo Moreira (contrabaixo), Gonçalo Ribeiro (bateria)
Azeméis Jazz & Blues 2026
TeMA - Teatro Municipal de Oliveira de Azeméis
23 Out 2026 | sex | 21:30


Se há concertos que ultrapassam largamente as expectativas, este foi um deles. Depois de duas experiências pessoais em tempos recentes no mínimo decepcionantes, Cristina Branco soube transcender-se, surpreendendo o ouvido e arranhando as zonas mais fundas da sensibilidade daqueles que tiveram o privilégio de a escutar. Perante uma plateia que cedo percebeu estar diante de uma proposta musical desafiante e consistente, o encontro da Orquestra de Jazz de Matosinhos com Cristina Branco foi um momento de qualidade artística invulgar e de forte presença empática. Referência incontornável do jazz nacional, a formação matosinhense voltou a demonstrar a excelência de um colectivo que faz da precisão, da inteligência interpretativa e da riqueza tímbrica os alicerces de uma identidade inconfundível. A solidez do conjunto não apagou o brilho individual dos seus músicos, antes o amplificou, oferecendo espaço à expressividade de solistas como Mário Santos, José Luís Rego, José Pedro Coelho, João Guimarães, Hugo Ferreira, Miguel Meirinhos ou Bernardo Moreira. Sobre esta arquitectura sonora, de notável elasticidade e apurado sentido de equilíbrio, ergueram-se os arranjos magistrais de Carlos Azevedo, Luís Figueiredo, Pedro Guedes, José Pedro Coelho e Mário Laginha, capazes de abrir novas paisagens a canções que habitam há muito a memória colectiva. No centro de tudo esteve Cristina Branco e a sua voz límpida, um timbre luminoso, uma maneira de dizer que acolhe a tradição sem se deixar aprisionar por ela, algures entre o fado, a canção portuguesa e a liberdade do jazz. Não se tratou, pois, de um simples encontro de universos, mas de uma convergência feliz de sensibilidades, em que cada elemento encontrou o seu lugar sem abdicar da própria singularidade.

A escolha do repertório conferiu à noite uma espessura particular, convocando sobretudo os cancioneiros de José Afonso e Sérgio Godinho, dois nomes maiores de uma música portuguesa que nunca aceitou reduzir-se à condição de mero entretenimento. De “Senhor Arcanjo” a “Teresa Torga”, de “Carta a Miguel Djéje” a “Com um brilhozinho nos olhos”, passando pela inquietação de “Bomba-relógio” e pela delicadeza de “Espalhem a notícia”, as canções foram-se despindo das suas vestes habituais para ganhar novas dimensões, como se o jazz lhes revelasse significados até então adormecidos. A escrita orquestral não procurou ornamentar o que já era essencial, antes explorar-lhe as nervuras, acentuando tensões, abrindo silêncios e multiplicando cambiantes, sem trair a força das palavras nem a identidade melódica de cada composição. A incursão por “As Mondadeiras”, tema tradicional com arranjo de Mário Laginha, e por “Quando julgas que me amas”, com poema de António Lobo Antunes, ou “Hoje eu canto”, sobre palavras de Maria do Rosário Pereira, alargou ainda mais o horizonte de um alinhamento onde a literatura e a música se reconheceram como formas complementares de interrogar o mundo. Houve, nesta sucessão de canções, uma coerência que ultrapassou a mera justaposição de temas: a de uma cultura musical que não teme o risco, que sabe revisitar a memória sem a transformar em relíquia e que encontra na reinvenção uma forma de fidelidade. Cristina Branco habitou este território com uma naturalidade admirável, sem excessos nem artifícios, encontrando forças na contenção expressiva e fazendo da clareza da sua voz o fio condutor de uma narrativa simultaneamente íntima e colectiva.

Foi, contudo, a meio do concerto, quando Cristina Branco interrompeu por instantes o curso da música para ler um texto que se revelou uma espécie de manifesto, que a noite encontrou uma das suas mais significativas chaves de leitura. Ao lembrar Sophia de Mello Breyner e a poesia como “não aceitação fundamental”, a cantora alargou o sentido do espectáculo para lá da excelência musical, reivindicando a palavra como espaço de resistência e a arte como lugar de encontro contra a indiferença, a opressão e a estreiteza das lógicas que tudo submetem à produtividade e ao lucro. “Os canalhas não simpatizam com poesia”, concluiu, numa frase que dispensa explicações e que pareceu ressoar, retrospectivamente, em cada canção de José Afonso ou Sérgio Godinho, ganhando actualidade nas acampadas do Rossio ou da Praça D. João I. Porque também a música, quando recusa a neutralidade, pode ser uma forma de desassossego, tal como um verso, repetido por muitas vozes, pode transformar-se em gesto de insubmissão. A Orquestra de Jazz de Matosinhos soube dar corpo a essa inquietação sem converter a música em ilustração de uma ideia, preservando-lhe a autonomia estética e fazendo da exuberância instrumental um exercício de escuta e cumplicidade. Cristina Branco, por seu lado, confirmou que a sua voz não vive apenas da beleza do timbre, mas da inteligência com que veste cada palavra e da sensibilidade com que aproxima universos aparentemente distantes. A encerrar a quinta edição do Azeméis Jazz & Blues, este foi um concerto em que a memória de uma grande interpretação ficou no ouvido, mas também a certeza de que a poesia, a canção e o jazz continuam a ser territórios onde a liberdade encontra abrigo. E isso, nos tempos que correm, não é coisa de somenos.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lugares Encantados” | Ciril Jazbec, Ana Elisa Sotelo, Sadith Silvano, Giorgia Severi, Seif Kousmate e Michał Łuczak



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lugares Encantados”,
de Ciril Jazbec, Ana Elisa Sotelo, Sadith Silvano, Giorgia Severi, Seif Kousmate e Michał Łuczak
Curadoria | Wiktoria Michałkiewicz
Encontros da Imagem de Braga 2026
Mosteiro de Tibães
18 Set > 01 Nov 2026


Patente ao público no Mosteiro de Tibães só até ao próximo domingo, a exposição colectiva de fotografia “Lugares Encantados”, integrada nos Encontros da Imagem de Braga 2026, propõe uma reflexão sobre as relações entre o ser humano e o mundo natural, questionando a ideia de que a natureza existe sobretudo para ser dominada, explorada ou transformada em recurso. Com curadoria de Wiktoria Michałkiewicz, a mostra reúne cinco projectos que, partindo de geografias e linguagens distintas, convergem numa inquietação comum: como habitar um planeta cujos equilíbrios estão a ser profundamente alterados pela acção humana? Entre os Andes, a Amazónia, a Papua Ocidental, os oásis marroquinos e as paisagens mineiras da Polónia, as imagens revelam territórios onde a crise ambiental não é uma abstracção estatística, mas uma realidade inscrita na água, no solo, no ar e na vida das comunidades. O encantamento sugerido pelo título não corresponde, pois, a uma fuga para um universo idealizado. É antes um convite a reaprender a olhar, reconhecendo que a sobrevivência colectiva depende de formas de coexistência que a modernidade cada vez mais desvaloriza.

Em “Dream to Heal Glaciers”, Ciril Jazbec acompanha comunidades andinas confrontadas com o recuo dos glaciares e a crescente insegurança hídrica, mostrando como o conhecimento científico pode dialogar com práticas ancestrais na procura de soluções. As estupas de gelo, estruturas artificiais que armazenam água para os períodos de maior escassez, materializam essa aliança entre adaptação e memória. Noutro registo, “Retratos do Multiverso”, de Ana Elisa Sotelo e Sadith Silvano, aproxima a fotografia dos bordados “kené” da tradição Shipibo, fazendo do encontro entre duas linguagens uma passagem entre o visível e o invisível. Aqui, a floresta amazónica não se reduz a cenário ou inventário de espécies: constitui um universo de relações, saberes e forças que escapam a uma leitura estritamente ocidental. Em ambos os projectos, a imagem ganha uma dimensão que ultrapassa o testemunho documental. Mostra comunidades que não se limitam a sofrer os efeitos das transformações ambientais, mas preservam conhecimentos e produzem respostas, afirmando outras possibilidades de compreender e cuidar do mundo.

A ameaça aos ecossistemas assume contornos diferentes em “Jaya”, de Giorgia Severi, e “WAHA”, de Seif Kousmate. Na Papua Ocidental, Severi cruza fotografia, pintura, cerâmica e técnicas de apropriação material para abordar a degradação dos recifes de coral, a poluição pelos plásticos, a pressão turística e a perda de biodiversidade. O seu trabalho distingue-se também pela colaboração com comunidades e iniciativas locais de conservação, procurando que a criação artística não termine na denúncia, mas participe, ainda que modestamente, na protecção dos territórios retratados. Em “WAHA”, Kousmate interroga a fragilidade dos oásis marroquinos, sistemas delicados em que água, vegetação, solo e clima sustentam formas de vida moldadas por séculos de adaptação. Ao contrariar a imagem exótica e romantizada destes lugares, o fotógrafo expõe a erosão de um equilíbrio simultaneamente ecológico e cultural. Ambos os projectos recusam a paisagem como fundo contemplativo, tornando-a num organismo vulnerável, onde as consequências da globalização e dos modelos de exploração se tornam visíveis, sem que desapareçam as possibilidades de resistência.

É, contudo, em “Extraction”, de Michał Łuczak, que a violência da transformação ambiental adquire uma proximidade particularmente inquietante. Na Alta Silésia, região polaca marcada por mais de dois séculos de mineração de carvão, casas inclinadas, passeios que cedem e resíduos industriais testemunham uma exploração cujos efeitos persistem para lá do encerramento das minas. A paisagem degradada não é aqui uma realidade distante, mas o espaço quotidiano de quem nela vive, respira e reconhece a sua própria responsabilidade. Esta consciência atravessa, de formas diversas, toda a exposição. Não basta lamentar a destruição, nem será suficiente substituir um modelo de progresso por outro que conserve intacta a lógica do domínio. “Lugares Encantados” sugere antes a necessidade de rever a posição humana no interior de uma comunidade mais ampla de seres e matérias. No Mosteiro de Tibães, o diálogo entre imagens e territórios abre, assim, uma interrogação que é também política: que futuros poderemos construir se aceitarmos que cuidar do planeta implica, antes de mais, aprender a partilhá-lo?

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Ana Rita Gomes



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Ana Rita Gomes
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
21 Out 2026 | qua | 17:00


No passado dia 21, pelas cinco da tarde, o Centro de Reabilitação do Norte voltou a abrir as portas à palavra, à partilha e à emoção, acolhendo mais uma sessão das Tertúlias Literárias «Conversas às 5», após uma pausa de longos meses. Cerca de vinte e cinco pessoas, na sua grande maioria utentes internados, reuniram-se em torno de Ana Rita Gomes e do seu livro «A Bicicleta Açoriana», numa tarde em que a literatura se fez caminho e a conversa, lugar de encontro. O moderador saudou uma plateia que, apesar das contingências da doença, continua a procurar horizontes para lá das paredes que a acolhem: "Reabilitar não é apenas fazer fisioterapia. Reabilitar é estarmos em comunhão, é estarmos em partilha, é sermos empáticos uns com os outros". E talvez tenha sido esta a primeira e uma das mais fundas lições da tarde, na medida em que há movimentos que não se medem pela força dos músculos, nem pela distância percorrida, mas pela capacidade de nos aproximarmos uns dos outros. A leitura do prefácio de Cátia Masari Oliveira, A garota não, abriu a porta a esse universo onde a bicicleta não é apenas veículo, mas extensão do corpo, da liberdade e do pensamento. Ana Rita Gomes, com a serenidade de quem não precisa de se impor para se fazer ouvir, trouxe consigo as ilhas, os seus verdes desmedidos, os seus mares inquietos e, sobretudo, a disponibilidade de quem sabe que a beleza só se completa quando encontra alguém disposto a acolhê-la. Naquela sala, banhada por um magnífico sol de fim de tarde e com o mar ao fundo, a viagem começava muito para além de São Miguel: começava em cada um dos presentes.

Eixo que dá unidade ao livro e presença física na sala, a bicicleta foi mais do que uma máquina de duas rodas. Depressa se revelou uma forma de estar no mundo, de o descobrir sem pressas, de permitir que a paisagem entrasse pelos sentidos e encontrasse morada nas palavras. No poema "IV", a terra húmida, as lagoas, os cones vulcânicos e a imensidão do mar compõem uma geografia que não se limita a ser contemplada: vive-se, respira-se, levita-se com ela. Quando questionada sobre a origem desta escrita, a convidada devolve a conversa ao lugar mais espontâneo da criação: "Primeiro vem qualquer coisa, desde que eu a consiga partilhar". A experiência acontece, a emoção amadurece e o poema surge, quase sem ser chamado. "O poema vem ter comigo, eu não faço nada", confessou, numa simplicidade que não diminui o trabalho da escrita, antes lhe restitui o mistério. A natureza e as pessoas com quem se cruza são matéria dessa revelação. A propósito, Ana Rita Gomes recordou os vinte quilómetros de verde da Estrada dos Rosais, em São Jorge, salpicados de flores de todas as cores, entre as quais as pequenas "não me esqueças". E como esquece-las, depois de as ver? A memória nasce, por vezes, de um pormenor minúsculo que a alma se recusa a perder. Também a capa do livro, da autoria de Urbano, guarda esse enigma numa bicicleta cuja bagageira transporta poemas. Estariam eles já ali, à espera de serem encontrados, ou seria a autora a depositá-los, um a um, no decurso da viagem? Talvez ambas as coisas. Ana Rita pedala para ser "mais eu, mais livre"; e é nessa liberdade, feita de atenção e espanto, que a palavra encontra o seu caminho. A qualidade da sua escrita reside também aqui, na capacidade de transformar uma experiência concreta numa descoberta partilhável, sem sacrificar a delicadeza do olhar nem a verdade do sentir.

Há, contudo, em «A Bicicleta Açoriana», duas viagens que se entrelaçam: uma percorre a ilha visível; a outra desce ao território, menos evidente, da intimidade. À exuberância das cores, dos aromas e das formas sucede, por vezes, uma escrita mais rarefeita, onde o silêncio pesa e a palavra parece medir cuidadosamente o espaço que ocupa. "Ilha Branca" é exemplo dessa transformação. O que poderia ser plenitude torna-se ausência, o que prometia melodia deixa de soar, e até o mar parece guardar uma dor antiga. Ana Rita Gomes explicou que esta dupla dimensão nasce da experiência física, mas também da sua própria maneira de ser. Professora e treinadora, aprendeu a reconhecer a importância de se conhecer para conseguir colocar-se no lugar dos outros. "Conhecermo-nos bem é importante para nos pormos do lado do outro", afirmou. Talvez mais do que numa definição de poética, encontramos nesta frase uma chave para compreender a mulher que escreve. A empatia não surge como palavra decorativa, mas como exercício diário, exigente e transformador. Também por isso a paisagem nunca é apenas aquilo que os olhos alcançam. Ela depende da nossa disponibilidade para a receber. "Só temos de perceber qual o lugar que nos permite sermos nós próprios", disse, evocando essa rara sintonia em que se respira a paisagem até quase sermos parte dela. E há momentos em que o caminho pede pausa, em que insistir seria perder a luz. A autora sabe-o e não teme o silêncio e a escuridão: "Há momentos para tudo". Até para deixar de pedalar, olhar o céu, descobrir as estrelas e encontrar no mar o reflexo da lua. Esta sabedoria, que atravessa os poemas sem se transformar em lição, foi talvez uma das maiores riquezas da tertúlia. Porque também na reabilitação há subidas que parecem intermináveis, dias em que a corrente contraria a vontade e instantes em que parar não significa desistir. Significa, simplesmente, conceder ao corpo e à alma o tempo necessário para que o caminho volte a fazer sentido.

Mas a ilha de Ana Rita não se deixa reduzir a um postal ilustrado. Sob o verde luminoso e o azul que parece não ter fim, há contradições, fragilidades e responsabilidades que a beleza, por si só, não apaga. Em "Areia", a paisagem é matéria viva, ardente, capaz de suspender a palavra e de fazer regressar o corpo a si mesmo. A autora falou da importância de descobrir lugares ainda resguardados da pressão turística e defendeu a bicicleta como forma de conhecer os Açores com maior respeito pela natureza. O turismo de massas preocupa-a; a ilha merece ser vivida, não consumida. E, porque a liberdade também se mede pelas oportunidades que a sociedade concede a cada pessoa, a conversa alargou-se à condição feminina, tema que lhe toca de perto. Com cinquenta anos, Ana Rita Gomes foi a primeira mulher a ser seleccionadora nacional de voleibol, a primeira a treinar homens na modalidade e a primeira a comentar um jogo de voleibol na televisão portuguesa. Feitos que poderiam bastar para compor uma história de superação, mas que, nas suas palavras, expõem sobretudo a lentidão com que se desfazem as desigualdades. "Parece que há muita equidade, parece que temos todos os mesmos direitos, mas não é bem assim», advertiu. E lembrou que continua a não haver, em Portugal, uma única mulher a treinar uma equipa de voleibol da primeira divisão. No poema "Mulher", as injustiças, as memórias geladas, as lutas e as mãos que seguram a esperança condensam uma realidade que não pertence apenas às mulheres, mas à humanidade inteira. "Tanto faz ser homem como mulher, somos pessoas. Precisamos é de pessoas boas", afirmou, recusando que a diferença se transforme em fronteira. É aqui que a escrita e a pessoa se iluminam mutuamente. A poetisa que observa as flores e escuta o rumor das ondas é a mesma mulher que não fecha os olhos à desigualdade, que defende a natureza e que reconhece, num mundo tantas vezes marcado pela indiferença, a urgência da empatia e do amor. Não há contradição entre a delicadeza e a firmeza; há, antes, uma coerência profunda entre aquilo que se escreve e a maneira como se escolhe viver.

As intervenções do público trouxeram observações pertinentes, identificações inesperadas e confidências nascidas do reconhecimento. Houve quem encontrasse nas palavras de Ana Rita Gomes um reflexo de si próprio, quem se deixasse tocar por uma imagem, quem descobrisse na conversa uma forma de nomear emoções que, de outra forma, talvez permanecessem sem voz. A expressão "uma sala de emoções" resumiu a atmosfera de uma tarde em que a literatura cumpriu a sua vocação mais humana: aproximar pessoas, abrir espaço à escuta e lembrar-nos que ninguém se reabilita inteiramente sozinho. A convidada lançou então um desafio simples e generoso: que cada um se atrevesse a escrever, a partilhar o que sente, ou, pelo menos, a escolher um livro e conversar sobre ele; que os próprios utentes promovessem as suas tertúlias e dessem voz às suas experiências. No final, Ana Rita Gomes escolheu ler "Futuro", poema que fala de essência, liberdade, curiosidade e da possibilidade de preservar aquilo que ainda está por vir. E, quando lhe perguntaram o que mais se transformara nesta viagem, se o olhar sobre São Miguel ou o olhar sobre si própria, não hesitou: "Sem dúvida, sempre a forma como olho para mim própria". Porque é desse trabalho interior que nasce a capacidade de olhar melhor a ilha, as pessoas e a natureza. "A natureza merecia de nós mais do que os miminhos que lhe damos. Batemos mais do que lhes damos miminhos", disse, com a ternura desarmante de quem reconhece no cuidado uma forma de amor. A poesia não exige grandes viagens, nem paisagens extraordinárias. Basta, por vezes, a coragem de olhar de novo, de escutar o outro e de nos demorarmos onde a vida pede atenção. Naquela tarde, entre poemas, memórias e silêncios, Ana Rita Gomes não trouxe apenas uma bicicleta carregada de palavras. Trouxe a generosidade de quem as oferece sem as impor e a humanidade de quem sabe que o futuro, para merecer esse nome, terá de ser construído por todos. E que, mesmo quando o caminho custa, há sempre uma nova pedalada à espera de nos levar mais longe, sobretudo para dentro de nós.

domingo, 25 de outubro de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #111



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #111
Com | Tânia Gomes Teixeira, Gonçalo Pina e Dinis M. Costa
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
22 Out 2026 | qui | 21:30


As músicas são como os rios. Atravessam o tempo, transportam memórias e mostram-se capazes de nos devolver o sonho e a poesia. Paradoxalmente, elas têm a capacidade invulgar de desenhar um mundo que preferíamos não reconhecer. Em 1978, Chico Buarque ligava o grande lago Atlântico com “Tanto Mar” e um cheirinho de alecrim, evocando a esperança e a inquietação de um tempo de mudança. Foi a partir desse mar, das suas correntes e dos seus naufrágios, que Tiago Alves nos propôs, nesta sessão #111 do Shortcutz Ovar, uma viagem pelas contradições do presente, centrando o discurso inicial nessa autêntica panela de pressão que é o Brasil, sem deixar de olhar para o resto do mundo. Um mundo cada vez mais pequeno nas distâncias que a globalização encurta, mas que cresce nos abismos que separam os homens. Um mundo onde se multiplicam muros, se fecham fronteiras e se erguem suspeitas, enquanto se ignoram as pontes que nos deveriam aproximar. De costas voltadas uns para os outros, habituámo-nos a não ver quem caminha ao nosso lado, a ignorar quem luta por uma vida mais digna, a transformar em ameaça tudo aquilo que não compreendemos. Há vidas que passam diante dos nós sem que lhes concedamos sequer o direito de serem vistas, como se a invisibilidade fosse uma condição natural e não uma escolha de todos. Entre rios e mares, as três curtas-metragens desta 111.ª sessão do Shortcutz Ovar tiveram o condão de nos levar ao encontro desse lugar incerto onde a indiferença se confunde com a sobrevivência, recordando-nos que navegar continua a ser preciso.

A sessão teve em “Alado” o seu momento inaugural, convidando-nos a sulcar as águas do Douro, um rio que parece correr ao encontro da dor. É sobre elas que navega Gastão Teixeira, cumprindo dia após dia o ritual de quem espera e guarda no olhar milhares de horas anuais de vigília, mas também os muitos corpos resgatados ao rio. Ao contrário do barqueiro Caronte, da mitologia grega, Gastão não transporta as almas, antes devolve os corpos à terra e às famílias, oferecendo ao mundo dos vivos a possibilidade da despedida, a dádiva de um luto com rosto e matéria. É desta travessia que nasce “Alado”, primeira obra de Tânia Gomes Teixeira, “filho” da longa-metragem documental “Caronte”, cuja história prolonga, entregando-a a novos olhares. A realizadora pergunta: de quem se atira da ponte, o maior contrassenso será a água ou o vôo? Talvez o abismo comece muito antes, na invisibilidade em que nos deixamos cair, neste mundo em que as tecnologias encurtam distâncias, mas nem sempre aproximam pessoas. Tão ligados, mas tão sós, cruzamo-nos de olhos postos em ecrãs, de costas voltadas para quem sofre em silêncio. O rio, porém, não desvia o olhar. Leva, traz, devolve. Na margem ou sobre as águas, Gastão permanece o guardião de uma humanidade que tantas vezes só se reconhece quando já não é possível salvá-la. De uma poética sublime, “Alado” lembra-nos que há corpos que desaparecem nas águas, mas há também vidas que se afundam à vista de todos, sem que ninguém lhes estenda a mão.

Se “Alado” fala de um rio que devolve à terra os corpos que a água reclama, “Rio Infinito” mostra que a travessia se faz no sentido inverso: é a vida que cruza o rio, todos os dias, para que a cidade desperte e continue a funcionar. Nesta primeira obra de Gonçalo Pina, o Tejo surge como estrada líquida, linha de passagem entre duas margens, mas também como fronteira entre quem pertence e quem apenas serve. A viver em Almada e a trabalhar em Lisboa, o realizador conhece por dentro este movimento pendular, esta rotina de partidas e regressos em que milhares de vidas se diluem no anonimato. Ao longo de vinte e quatro horas, três protagonistas dão rosto a quem limpa, constrói, entrega e alimenta a cidade, partindo ainda de noite e regressando quando a noite já voltou. Entre o documentário e a ficção, o filme desenha uma geografia humana feita de ausências: gente que, na diáspora, tem um pé numa terra que não é sua e o coração preso a outra margem, algures onde o mar talvez volte a ser rio. Há uma profunda carga política nesta corrente, que expõe a contradição de uma sociedade dependente daqueles que insiste em não ver, tantas vezes transformados em bodes expiatórios pelos discursos de quem governa ou ambiciona o poder. E é no prólogo e no epílogo, quando o sonho se interrompe e a dignidade reclama o seu lugar, que “Rio Infinito” parece encontrar a sua voz mais funda. Porque há travessias que não conduzem apenas ao trabalho: são viagens de sobrevivência, sonhos adiados, promessas suspensas entre partidas e chegadas. O que Gonçalo Pina nos vem dizer é que a verdadeira distância não se mede em quilómetros ou milhas náuticas, mas no espaço que cavamos entre nós e os outros. Depois de “Alado”, o Tejo prolonga a pergunta do Douro, querendo saber quantas vidas terão ainda de atravessar um rio para deixarem de ser invisíveis em terra firme.

Se nas duas obras anteriores é entre margens que a invisibilidade se desenha, em “Fronteira Azul” ela instala-se à beira-mar, onde a travessia deixa de ser rotina e se torna uma luta desesperada pela sobrevivência. Curta-metragem que fechou a noite, filme que o público elegeu como o melhor da sessão, a obra de Dinis M. Costa conduz-nos a uma cidade portuária nas margens do Mediterrâneo, numa Europa alienígena onde um barco carregado de migrantes se afunda sem que o curso dos dias se interrompa. Os guardas civis recolhem os náufragos, os turistas velejam ao sol, a roda gigante no parque de diversões prossegue a sua marcha incessante e os camiões seguem viagem, carregados de mercadorias rumo a norte. Tudo permanece no seu lugar, como se a tragédia fosse apenas mais um ruído de fundo, desses que as televisões repetem até que o horror se torne paisagem e a indiferença, hábito. Com uma mise-en-scène de quadros imóveis, uma luz cuidadosamente desenhada e uma imagem que prefere construir a narrativa a capturar o real, o filme ergue uma distopia demasiado próxima de nós, sem geografia nem horizonte, porque poderia acontecer em qualquer costa, em qualquer margem deste continente cada vez mais fechado sobre si mesmo. Os náufragos descobrem o chão de betão de uma Europa que não os vê, corpos entregues a uma terra que talvez nunca os acolha. E, contudo, a invisibilidade não pertence apenas a quem chega: estende-se também aos que assistem, aos que presenciam sem intervir, aos que aprenderam a olhar sem ver. Se o Douro devolvia os mortos e o Tejo revelava os vivos que a cidade consome, o Mediterrâneo de “Fronteira Azul” devolve-nos o espelho de uma humanidade à deriva. Que fronteira é esta, afinal? A que separa os que procuram viver dos que podem escolher como vivem, ou a que erguemos dentro de nós quando o sofrimento alheio já não nos obriga a parar para pensar?

sábado, 24 de outubro de 2026

LIVRO: “Amor Chega em Breve Num Volkswagen” | Filipa Leal



LIVRO: “Amor Chega em Breve Num Volkswagen”,
de Filipa Leal
Ed. Assírio & Alvim, Outubro de 2026


“A poesia é como se conta a festa.
É poupar o outro a ouvir o que se passou na festa toda.
A poesia é quando se conta a festa.
É sobre aquela parte em que encontrámos uma pessoa especial que ninguém sabe que conhecemos e amámos durante muitos anos.
A poesia é a parte da festa que não contamos.
Ou que só contamos a quem se interessa.
É rara, quase secreta.
É curta
e nossa.”
[Filipa Leal, poema “A poesia é como se conta a festa”]

Há livros… e livros. Uns há que chegam como quem chama um Uber, sem prometer mais do que dois minutos de espera. Outros, no entanto, mal entram e logo nos desarrumam a casa, mudam os móveis de sítio e obrigam-nos a olhar o que preferíamos não ver. “Amor Chega em Breve Num Volkswagen”, de Filipa Leal, pertence às duas espécies, o que talvez explique a singularidade deste título, tão prosaico e tão disponível para o imprevisto. A poesia acontece aqui como a vida: sem pedir licença, entre uma viagem, uma recordação, um sobressalto amoroso ou uma notícia que nos interrompe o sossego. Filipa Leal conhece o poder das pequenas coisas e a desproporção entre aquilo que nos acontece e aquilo que conseguimos dizer. Por isso, o poema não precisa de se anunciar com solenidade: basta-lhe uma aplicação de transportes, um gato desaparecido, uma tampa de desodorizante que salta com a altitude, uma conversa que chega tarde ou uma pergunta que, de tão simples, nos envergonha. Há nesta escrita uma inteligência do quotidiano capaz de encontrar nele a matéria clandestina da emoção. E se a poesia é, como a autora nos explica, a maneira de contar uma festa sem contar a festa toda, este livro sabe escolher o instante, o gesto, a frase que ficaram de fora da fotografia. E é precisamente aí que começa aquilo que verdadeiramente importa.

A ironia é uma das formas mais eficazes de respiração deste livro. Filipa Leal desconfia das frases feitas, dos bons costumes da linguagem e das certezas que se apresentam de gravata, mas não faz do riso uma trincheira onde se refugie da tristeza. O humor ilumina, por vezes, aquilo que a ternura não consegue suportar à luz directa; noutras ocasiões, limita-se a puxar-nos o tapete, deixando-nos com a embaraçosa consciência de que também participamos no desconcerto. Veja-se o “Honesty Bar”, onde a honestidade convive com a vigilância, ou o amor anunciado por uma aplicação que começa a contar o tempo de espera antes de o sentimento ter conseguido fazer as malas. O cómico não é um adorno: é um método de conhecimento, uma maneira de desmascarar o absurdo sem lhe conceder a dignidade excessiva da tragédia. Mas há, sob esta superfície ágil, uma zona de sombra sempre presente. As amizades que resistem à distância, as que se perdem, o envelhecimento, o medo, a solidão e a consciência da morte atravessam os poemas como correntes subterrâneas. A autora pode falar-nos de Emily Dickinson, de viagens longínquas ou de um semáforo vermelho, e de súbito estamos perante a intimidade desarmada de quem sabe que amar é também conhecer os pequenos medos do outro. Não há aqui uma separação rígida entre o elevado e o comezinho: há a certeza de que o sublime, quando existe, costuma apresentar-se vestido de banalidade.

Seria, contudo, redutor ler este livro como uma colecção de episódios privados, por mais deliciosos ou comoventes que alguns possam ser. O mundo entra nele sem bater à porta e a poesia não desvia os olhos. Bate à porta da amiga polaca que acolhe refugiados, segue pelo mar onde a salvação de um náufrago exige que alguém o agarre pelo pescoço, mas também pelas casas onde uns fazem planos enquanto outros morrem em paz, pelas pessoas esquecidas dentro das cidades e pelas pessoas esquecidas dentro de nós. Entra também numa manifestação em que mãos vazias se tornam impossíveis de deter, e em que a liberdade, mesmo escrita com um erro de ortografia, continua a ser a palavra certa. Filipa Leal não escreve um programa político nem transforma o poema em cartaz: prefere o desconforto da pergunta, a vergonha de quem percebe tarde, o detalhe que desmente a indiferença. É aí que a sua poesia encontra uma exigência moral e uma ideia de liberdade que não se separa do pão, da habitação, da saúde ou da justiça. Talvez por isso estes poemas nos peçam tão pouco e, ao mesmo tempo, tanto: que paremos, que olhemos, que não confundamos o privilégio com a inocência. “Amor Chega em Breve Num Volkswagen” é, afinal, um livro sobre a urgência de guardarmos a nossa humanidade num mundo que se empenha em dificultar-nos a tarefa. O amor pode vir de automóvel, atrasar-se ou cobrar-nos a espera; o que não pode é encontrar-nos distraídos para sempre. Porque, no meio dos grandes desastres e dos pequenos nadas, repararmos no outro talvez seja a forma mais discreta e mais radical de começar a mudar o mundo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "The Serpent's Thread" | Emilia Martin



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “The Serpent’s Thread”,
de Emilia Martin
Curadoria | Alexia Alexandropoulou
Encontros da Imagem de Braga 2026
SOMA - Plataforma Cultural
18 Set > 24 Out 2026


Há perdas que não terminam no desaparecimento dos objectos, antes encontram aí o seu início, no lugar vazio que deixam, como se a ausência fosse uma matéria à espera de mãos que a saibam tocar. Em “The Serpent’s Thread”, Emilia Martin parte dos tecidos da avó, mulher polaca do mundo rural, cuja obra, depois da morte, foi descartada ou se perdeu, condenada à irrelevância de tudo quanto não encontrou lugar na história oficial. Restaram a memória dos gestos, a intimidade de uma aprendizagem pelo olhar e a consciência de que também se escreve com as mãos. É deste arquivo sem vestígios que a artista faz nascer uma investigação sobre as cinco irmãs Andersson, na Suécia da viragem do século XX, mulheres cujos elaborados tecidos de dote deveriam testemunhar a sua destreza, diligência e virtude, como se cada ponto cosesse, além da matéria, o valor de uma futura esposa. Mas os tecidos nunca cumpriram inteiramente o destino que lhes fora reservado, e a sua sobrevivência fragmentária deixou espaço à lenda. Entre a avó perdida e as irmãs quase míticas, Emilia Martin reconhece uma genealogia feminina que atravessa fronteiras e épocas, unida por um saber transmitido de mão em mão, tantas vezes invisível aos olhos de quem escreve a História. O fio que aqui se procura não conduz a uma origem intacta: serpenteia entre vestígios, silêncios e aquilo que, não tendo sido preservado, continua, ainda assim, a reclamar existência.

No espaço SOMA — Plataforma Cultural, esta procura adquire a espessura de uma instalação, tirando partido das condições do espaço para construir uma experiência em que as imagens não se limitam a ser vistas: parecem antes reclamar o tempo e a atenção necessários para serem escutadas. Fotografia de arquivo, composições encenadas, documentos e intervenções têxteis sobre a imagem dispõem-se numa trama de aproximações e desencontros, onde a prova documental convive com a invenção sem que uma procure anular a outra. Há qualquer coisa de deliberadamente inquietante nesta convivência. O que vemos pertence à memória, à investigação ou à imaginação? E será ainda possível estabelecer fronteiras seguras entre estas instâncias quando a própria memória se constrói de fragmentos, relatos e omissões? Apoiada na ideia de efabulação crítica, desenvolvida por Saidiya Hartman, a artista não pretende preencher as lacunas do arquivo com uma verdade substituta; prefere habitá-las, preservando a incerteza como parte constitutiva da obra. Esta escolha, simultaneamente poética e política, impede que as mulheres representadas sejam reduzidas a personagens de uma reconstituição retrospectiva. Os tecidos tornam-se contra-arquivos: superfícies onde o trabalho doméstico, a expectativa social e os pequenos gestos de resistência adquirem uma visibilidade que os registos oficiais lhes negaram. A exposição ganha força precisamente nesta recusa de uma narrativa definitiva. Se, por vezes, a acumulação de materiais ameaça dispersar o olhar, é também dessa multiplicidade que nasce a sua pertinência: cada elemento parece guardar apenas uma parte de uma história que nenhum deles, isoladamente, poderia contar.

A dimensão sonora de “Won’t You Put A Needle On?”, de Isobel Anderson, acrescenta à instalação uma presença que não se vê, mas percorre o corpo e altera a maneira de habitar o espaço. Vozes, rodas de fiar, costura, pulsações repetitivas e texturas quase sibilantes compõem uma paisagem em que o trabalho manual deixa de ser apenas imagem para recuperar alguma coisa da sua duração, do seu ritmo e da sua respiração. O som não ilustra as fotografias: abre-lhes uma profundidade, como se, por detrás de cada tecido, ainda persistisse o rumor de quem o fez. Há nesta escuta uma forma de restituição, embora não de regresso, porque nenhuma obra pode devolver os objectos perdidos nem restituir integralmente as vidas que o tempo tornou opacas. Pode, contudo, recusar que o desaparecimento seja confundido com insignificância. É talvez esse o gesto mais comovente de Emilia Martin: transformar uma perda familiar numa pergunta colectiva sobre quem merece ser lembrado, que saberes reconhecemos como cultura e quantas histórias permanecem por contar porque foram transmitidas fora dos lugares consagrados da palavra escrita. Um dos três projectos finalistas do Prémio Encontros da Imagem, escolhido entre mais de trezentas candidaturas, “The Serpent's Thread” encontra na relação entre fotografia, matéria e som uma linguagem própria, sensível à fragilidade dos vestígios e à força do que resiste. Até ao próximo domingo, no SOMA, a exposição convida-nos a seguir este fio sem esperar que ele nos conduza a uma conclusão. Talvez porque algumas histórias não precisem de ser definitivamente reconstituídas, mas de encontrar, finalmente, quem se detenha diante delas. E as escute.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “RAMOT - António da Costa Cabral”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “RAMOT - António da Costa Cabral”,
de António da Costa Cabral
Curadoria | Paula Figueiredo e Sofia Castro
Centro de Estudos em Fotografia de Tomar - Casa dos Cubos e Convento de Cristo
20 Jun > 18 Out 2026


Chegou ao fim no passado domingo a exposição de fotografia “RAMOT - António da Costa Cabral”, que durante praticamente quatro meses tomou conta do Centro de Estudos em Fotografia de Tomar – Casa dos Cubos e de uma ala do Convento de Cristo. Anagrama de Tomar e pseudónimo de António da Costa Cabral (1901-1974), RAMOT condensa a dupla condição de uma identidade que se desdobra e de um território que permanece, não apenas como origem biográfica, mas como horizonte afectivo. Mais do que a recuperação de um legado fotográfico discreto, a exposição ensaiou um reencontro entre o homem, a cidade e as imagens através das quais ambos sobrevivem ao tempo. Quarto conde de Tomar, Costa Cabral viveu parte da infância e juventude no Convento de Cristo, então residência familiar, antes de fixar em Lisboa o seu quotidiano e o espaço doméstico que tantas vezes haveria de fotografar. O regresso simbólico a Tomar adquire, assim, uma espessura particular: o lugar da memória torna-se lugar de exposição, e a obra, atravessando a distância entre a intimidade e o património colectivo, devolve-nos uma cidade que é, simultaneamente, geografia e construção do olhar. Há, neste percurso, qualquer coisa de subtilmente paradoxal: um fotógrafo que não procurou o protagonismo regressa pela força silenciosa das imagens que deixou.

Na Casa dos Cubos, as provas de época a preto e branco permitem reconhecer a materialidade de uma prática em que fotografar era também esperar, revelar, imprimir e escolher. A câmara Leica, a câmara escura instalada no sótão doméstico e os vestígios documentais de uma participação nos salões nacionais e internacionais não constituem meros elementos de contexto, antes revelam a disciplina de um olhar que, mesmo exercido à margem da profissionalização, não dispensava o rigor técnico nem a ambição formal. Retratos familiares, paisagens, cenas marítimas, pescadores no trabalho e fragmentos da vida lisboeta compõem um universo heterogéneo, unido por uma atenção persistente à presença humana e à organização visual do quotidiano. Entre a composição cuidada, a experimentação com a luz e a observação quase furtiva dos espaços públicos, emerge uma curiosidade que resiste à classificação. No Convento de Cristo, a apresentação digital de centenas de imagens familiares, acompanhada por filmes domésticos, introduz outra temporalidade, aproximando a fotografia do movimento e da sucessão cinematográfica. A solução alarga o arquivo à dimensão dos gestos e das relações, embora o fluxo projectado possa, por vezes, atenuar a autonomia de cada fotografia e a atenção demorada que as provas originais reclamam. Entre a contemplação e a sucessão, entre a superfície material da prova e a fluidez da projecção, a exposição torna visível não só a diversidade dos suportes, mas também a tensão entre a imagem como objecto e a imagem como memória em circulação.

A extensão do registo familiar poderia confinar a obra à nostalgia de um círculo privado, mas Costa Cabral não se limitou a fotografar os seus próximos, os interiores domésticos ou os cenários da vida familiar. A deambulação por Lisboa, a atenção aos lugares de trabalho, às ruas, às viagens e aos encontros ocasionais revelam uma disponibilidade para o imprevisto, para aquele instante em que o quotidiano, sem deixar de ser banal, adquire uma inesperada densidade visual. Por vezes, o enquadramento oblíquo ou a escolha de um pormenor aparentemente secundário deslocam o centro de interesse e mostram que ver é também seleccionar, excluir e atribuir sentido. Esta dimensão impede que a sua obra seja lida apenas como testemunho de uma época ou inventário sentimental de uma família. Há nela uma ética da atenção que aproxima o exercício amador de uma forma exigente de conhecimento. A amplitude do material reunido coloca, ainda assim, um desafio à exposição, cuja diversidade nem sempre permite distinguir com igual clareza o ensaio formal, o registo privado e a observação social. Ao despedir-se de Tomar, “RAMOT” deixou, pois, mais do que a memória de um fotógrafo recuperado. Deixou a possibilidade de reconsiderar o que uma imagem aparentemente menor pode conter: a duração de uma vida, a transformação de um lugar e a presença irrecuperável daquilo que, por um instante, alguém soube ver.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2026



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2026
Com | Mafalda, Samuel Úria & Os 12 ao Todo, RAY, Homem em Catarse, Sean Riley and The Slowriders, Rita Cortesão, Ezekiel e PAUS
Escola de Artes e Ofícios
14 a 17 Out 2026


Nascido em 2020 com a firme vontade de contribuir para o desconfinamento da nova música portuguesa e de abrir um espaço de descoberta, afirmação e proximidade com o público, o Ovar Expande tem sabido construir, edição após edição, uma identidade própria no panorama cultural nacional. Partindo da ambição de dar a conhecer o que de melhor se vem fazendo entre nós, o festival cresceu sem perder de vista os princípios que estiveram na sua génese, apostando na qualidade e diversidade da programação, no diálogo entre artistas e espectadores e na criação de experiências que ultrapassassem o espaço convencional do concerto. A renovação do formato, a integração de conversas, oficinas e masterclasses e a atenção dispensada aos processos de criação e às metamorfoses que dão forma à música, têm contribuído para consolidar um projecto diferenciador e que é hoje uma referência incontornável na divulgação de novos talentos. Subordinada ao tema «Dos Primeiros Esboços às Metamorfoses», esta sétima edição confirmou a maturidade de um festival que continua a saber conjugar descoberta e reconhecimento, proximidade e exigência, mantendo-se fiel ao propósito de revelar a riqueza e a vitalidade da música que se faz no presente.

A primeira noite colocou em diálogo dois percursos distintos, unidos pela força da palavra e pela singularidade das propostas. Na Sala Galeria, Mafalda apresentou, em ante-estreia, “Gosto Muito de Estar Aqui”, álbum de estreia sob o seu nome de nascimento, integralmente cantado em português e dedicado à identidade, à pertença e à transformação pessoal. Depois do percurso iniciado como Mathilda, a artista revelou um universo intimista e sensorial, apoiado em sonoridades evocativas da natureza e, numa voz envolvente, soube encontrar espaço tanto para a serenidade como para o movimento. Na Sala Expande, Samuel Úria subiu ao palco na companhia de “Os 12 ao Todo”, num concerto em que a riqueza da escrita e a expressividade vocal assumiram o protagonismo. Entre canções emblemáticas, arranjos corais e momentos de inesperada explosão, o cantautor demonstrou como um repertório reconhecido pelo simbolismo das palavras pode ganhar novas dimensões sem perder a sua identidade. O carisma e a cumplicidade entre palco e plateia fecharam a noite num ambiente de celebração, confirmando a capacidade do festival para juntar diferentes gerações e as mais distintas sensibilidades musicais.

O segundo dia do Ovar Expande afirmou-se como um encontro de diferentes sensibilidades musicais, unidas pela força da palavra, pela expressividade e pela liberdade criativa. Coube a Ray, projecto a solo de Luís Raimundo, abrir a jornada, num concerto despido de artifícios, em que a voz e a guitarra deram corpo às canções de “Buffalo”, álbum editado em 2025. Entre a delicadeza e a intensidade, o músico construiu um momento de proximidade e partilha, percorrendo temas como o amor, a paternidade, a morte e a reinvenção pessoal. Seguiu-se Homem em Catarse, alter ego de Afonso Dorido, que trouxe a Ovar o universo ecléctico de “Catarse Natural”, disco onde a folk, o shoegaze, o pós-fado e outras paisagens sonoras se cruzam com inquietações sociais e políticas. Da crise da habitação à esperança num mundo mais justo, as canções revelaram um autor comprometido com a palavra, sem abdicar da experimentação e da intensidade emocional. A encerrar a noite, Sean Riley recuperou a trajectória dos Sean Riley And The Slowriders, projecto incontornável da música portuguesa das últimas duas décadas. Entre folk, rock e blues, o cantautor revisitou um repertório marcado pela contenção, pela escrita intimista e pela elegância dos arranjos, confirmando a consistência de uma obra que continua a encontrar na simplicidade a sua maior força.

O derradeiro dia do Ovar Expande começou com a intimidade de Rita Cortezão que, entre o sintetizador e as canções de “Tudo, Um Pouco”, o seu álbum de estreia, revelou uma voz autoral em pleno desabrochar. A aparente fragilidade deu rapidamente lugar à segurança interpretativa, à versatilidade vocal e a uma presença cativante, num concerto em que histórias pessoais se transformaram em experiências partilhadas. De «Lisbolha» a «O tempo que fica», a artista percorreu temas como a pertença, a passagem dos dias e os laços que resistem à memória, encerrando com “Só para Mim” uma actuação marcada pela proximidade e pela generosidade. Seguiu-se Ezekiel, projecto instrumental do músico residente em Ovar, que encontrou na guitarra lap steel Weissenborn o ponto de partida para uma viagem que combinou a folk, a country e outras tradições sonoras. Com carta branca para chamar para junto de si a multi-instrumentista e cantora italiana Irene Brigitte, o músico começou a solo, antes de alargar o espectro sonoro com a guitarra, o adufe e a voz da convidada. “In Riva” e “Menta” abriram caminho a sonoridades triestinas, enquanto “A Gente Vai Continuar” proporcionou um dos momentos mais luminosos da noite, com o público a juntar-se à homenagem a Jorge Palma, que nos deixou muito recentemente. A fechar o festival, os PAUS trouxeram a Ovar o peso simbólico de uma despedida anunciada. Na derradeira digressão, que acompanha o álbum “Enterro” e assinala o fim de dezoito anos de percurso, o quarteto voltou a afirmar uma identidade singular, entre o rock e a experimentação rítmica. Num concerto intenso, o grupo transformou o fim em matéria artística, deixando no Ovar Expande a marca de uma banda que soube sempre escapar às fronteiras dos géneros.