TEATRO: “Class Enemy”,
de Nigel Williams
Encenação | Manuel Tur
Cenografia | Ana Gormicho
Figurinos | Sara Pazos
Interpretação | Bernardo Gavina, Daniel Silva, Gonçalo Botelho, Gonçalo Fonseca, Lisa Reis, Tiago Araújo, Sérgio Sá Cunha
Produção | 11Zero2
110 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Aveirense
13 Fev 2026 | sex | 21:30
Escrita em 1976, “Class Enemy” conserva uma actualidade perturbadora, como se o diagnóstico de Nigel Williams tivesse sido traçado para o futuro. O dramaturgo afirmou ter concebido a peça movido pela convicção de que a busca do conhecimento deveria ocupar o centro da experiência escolar, acima da retórica pedagógica, das reuniões e dos bons resultados estatísticos. É precisamente essa inversão de prioridades que o espectáculo de Manuel Tur expõe com uma clareza implacável. Entramos na sala de aula, um espaço fechado onde o tempo deixou de avançar. Seis alunos, classificados pelo sistema como irrecuperáveis, veem nela, em simultâneo, um refúgio e uma condenação. Aqui permanecem porque a casa, a rua ou o vazio se afiguram como alternativas ainda mais inóspitas. A ausência do professor, motor narrativo da peça, assume uma dimensão simbólica contundente: é a metáfora de todas as desistências institucionais que moldaram aquelas vidas. A sala transforma-se num purgatório laico, um ciclo fechado onde a linguagem substitui a acção e onde a violência verbal emerge como arma e escudo contra o silêncio, esse território perigoso onde se insinuam a raiva e a dor.
Ao optar por um elenco mais velho do que o previsto no texto original, Manuel Tur sublinha que o que está em causa não é a idade biológica, mas o desgaste precoce de existências encurraladas. A cenografia acentua a ideia de depósito humano, com as paredes fendidas, as carteiras riscadas, uma porta partida, como se aquela Turma H existisse fora do mapa oficial da escola. Não é uma sala, é um “buraco negro” onde o sistema recolhe e esconde os seus resíduos. A analogia com o Sermão de Santo António aos Peixes ecoa na dinâmica interna do grupo: os grandes devoram os pequenos, a sobrevivência faz-se pela humilhação mútua. Ferro, líder carismático e cruel, impõe-se pela força física e pela violência do discurso, silenciando Clerasil e esmagando Pirilampo, cuja tentativa de elevação moral é punida com brutalidade. Cada “aula” improvisada revela vidas atravessadas pela pobreza e pelo racismo, pela exclusão e pela frustração, expondo a falácia meritocrática que exige esforço individual a quem nunca partiu do mesmo ponto. A escola é aqui uma máquina avaliativa, pródiga em diagnósticos e projectos avulso, mas incapaz de sustentar uma relação educativa consequente.
Entre o palavrão e a obscenidade - linguagem que aqui não é ornamento, mas sintoma - pulsa uma fome de sentido que nenhuma grelha ou classificação consegue medir. Quando as personagens improvisam as suas “aulas”, revelam não apenas vidas feridas, mas também um desejo difuso de serem vistas e ouvidas para lá da etiqueta de “problemáticas”. A encenação recusa qualquer tentação redentora: o professor que nunca chega, ou que chega já desistente, surge como figura esvaziada por metas, relatórios e dispositivos de controlo, transformando a relação pedagógica numa gestão de danos. Ao desmontar a ficção do mérito, essa narrativa confortável segundo a qual o esforço individual basta para superar a desigualdade, “Class Enemy” devolve-nos a imagem de uma escola que classifica antes de compreender e que abandona antes de assumir as suas responsabilidades. Não saímos felizes do espectáculo, antes dominados pela inquietação e pelo desconforto de percebermos ser este o sistema que ajudámos a naturalizar. Como no sermão do Padre António Vieira que nos deixava “descontentes connosco”, o teatro cumpre aqui a sua função mais exigente, a de não confortar, antes desassossegar, implicar e convidar a agir.