“Não fora o grito a faca
de súbito rasgando
a fronteira possível
Não fora o rosto o riso
a serena postura
do cadáver na praia (…)”
Daniel Filipe
“À Flor da Pele” insinua-se como uma longa e lenta respiração, o tempo não mero intervalo, antes matéria activa de criação. Cobrindo um arco temporal que liga 2010 a 2023, Ana Teixeira constrói um corpo de trabalho que ultrapassa a fixidez da imagem fotográfica para a transformar em território de encontro entre teatro e paisagem, gesto e silêncio, presença e vestígio. A Serra do Louro não é aqui só cenário, mas um organismo vivo, atravessado por camadas de memória e por uma dramaturgia invisível que se revela à superfície das coisas. Resultante da exposição “Ao Relento”, um conjunto de máquinas de cena e figurinos desenhada ao longo de um percurso pela Serra do Louro viria a permanecer no território muito além do expectável, vindo a sofrer o desgaste do vento, da luz e da erosão. A partir desse evento, a artista regressa, ano após ano, não para fixar uma paisagem idêntica a si própria, mas para testemunhar a sua contínua metamorfose. É nesta persistência que se inscreve uma ética do olhar na qual nada é definitivo, tudo se transfigura. A fotografia torna-se, assim, lugar de escuta e de espera, onde o humano se reconhece na fragilidade dos objectos e na resistência silenciosa da matéria.
Simultâneo, plural, interligado, esse olhar em rede afasta-se de uma perspectiva única, afirmando uma concepção expandida da imagem. As fotografias de Ana Teixeira não se apresentam como instantes isolados, mas como paisagens-cadência, compostas por sobreposições e montagens que integram diferentes tempos e planos de realidade. Há nelas uma dimensão quase coreográfica: os actores de “Jangada de Pedra”, captados no auge do gesto durante os ensaios de 2013, reaparecem integrados na vastidão da Serra, como se a ficção tivesse encontrado morada na terra. O corpo teatral funde-se com o relevo, enquanto a narrativa de Saramago ecoa na tensão das figuras suspensas entre partida e enraizamento. A montagem assume, aqui, um papel decisivo. Ao articular fragmentos dispersos, a artista constrói painéis que evocam vitrais contemporâneos, onde a luz não é apenas elemento físico, mas força simbólica. Cada composição irradia uma vibração interior, como se a paisagem respirasse através das fissuras da imagem, convocando o espectador para uma experiência simultaneamente íntima e cósmica.
O incêndio de 2022 poderia ter imposto uma leitura trágica e conclusiva deste percurso. No entanto, ao regressar à Serra, Ana Teixeira encontra, mais do que apenas silêncio e devastação, antes sinais de recomeço. A terra queimada torna-se superfície de inscrição de uma nova possibilidade, o negro do carvão em contraste evidente com a promessa discreta da regeneração. É neste confronto entre destruição e força criadora que a exposição atinge uma intensidade poética avassaladora. “À Flor da Pele” fala do luto sem ceder ao desespero, da ausência como forma de presença latente, do tempo como ciclo e não como linearidade. Ao integrar múltiplas imagens num todo orgânico, a artista sugere que a vida persiste na articulação dos fragmentos, na memória que sobrevive ao facto consumado da perda. O que vemos não é apenas paisagem, mas um espelho da condição humana: vulnerável, transitória, e contudo capaz de renascer. Nesta tensão entre finitude e continuidade, a obra de Ana Teixeira afirma-se como um acto de resistência sensível, a fotografia tornada gesto de cuidado e de esperança.