No quase desfecho de uma digressão intensa pelo nosso País, o concerto de Chico César trouxe ao Cine Teatro de Estarreja a nostalgia dos momentos inaugurais, a beleza do reencontro e o fulgor da celebração. Trinta anos depois de “Aos Vivos”, o gesto feito de voz e violão, despojamento radical e risco absoluto, reapareceu não como memória, mas como presença. Em palco, Chico César não representou um passado, antes reabitou-o com a mesma entrega do primeiro instante, como se o tempo não tivesse passado mas apenas aprofundado a escuta. E o público, cúmplice, mostrou saber estar não apenas perante um alinhamento de canções, mas a assistir a um exercício de permanência quase ritual. Num exercício à capella,“Beradêro” abriu o concerto como uma ponte suspensa entre tempos, chamando não só o sertão mas também uma formidável plateia portuguesa e brasileira, já íntima, já pertencente e inscrita nesse território simbólico. A nudez do formato devolveu às palavras o seu peso original e ao silêncio a sua função esquecida, criando uma tensão subtil entre o dito e o sugerido. Nada sobrou, nada faltou. E nessa economia residiu uma força rara, difícil de alcançar, que fez de cada som e cada fala um instante único e necessário.
Erguendo bem alto a bandeira da celebração, Estarreja apresentou-se como território de depuração. Ao longo de quase duas horas, as canções respiraram menos urgentes - à excepção de “Pedrada” e desse grito “fogo nos fascistas”, a fechar a noite - e mais densas, como se cada verso carregasse a poeira de todos os palcos anteriores e a memória de todas as vozes que as cantaram. “Mama África” irrompeu ainda com a sua energia incontornável, mas trouxe consigo uma gravidade nova, iminentemente política, ecoando um mundo que, como o próprio artista tem lembrado, permanece ferido e desigual, atravessado por fracturas que a música não resolve, mas ilumina. Já “À Primeira Vista” desenhou-se com uma delicadeza quase táctil, sem pressas, como se o tempo tivesse aprendido a escutar e a respirar com o público. Entre estas âncoras mais reconhecíveis, houve espaço para o murmúrio íntimo de “Saharienne” ou para a sabedoria terna de “Mulher Eu Sei”, revisitadas como organismos vivos, capazes de se adaptarem ao presente sem perderem a sua raiz profunda. Pelo meio, as histórias, contadas com humor e precisão, foram tecendo uma narrativa paralela, aproximando distâncias e humanizando o gesto artístico.
Mas talvez o mais notável tenha sido essa qualidade de sussurro que atravessou toda a noite, como uma linha invisível a unir palco e plateia. Num tempo saturado de ruído e artifício, o concerto em Estarreja soou, de facto, como um acto de resistência - ou, mais precisamente, de humanidade consciente de si mesma. Chico César cantou como quem conversa, como quem partilha inquietações sem necessidade de as amplificar, confiando na escuta do outro e na força intrínseca da palavra dita com verdade. Tudo naquele serão se vestiu de política, no sentido mais amplo e mais necessário do termo: a escolha de permanecer simples, de insistir na palavra, de convocar afectos como forma de resposta a um mundo crispado e fragmentado. Longe de ser mero espectador, o público tornou-se a extensão desse gesto, cantando, batendo palmas, fazendo coro com o músico e preenchendo os interstícios com uma atenção rara, quase devocional. No final, mais do que a estrondosa apoteose, houve algo talvez mais duradouro e difícil de nomear: a sensação de que aquelas canções, nascidas há três décadas, continuam a atravessar gerações e geografias e a dizer o essencial. E que, apesar dos pesares, seguimos vivos. Ao vivo.