No passado dia 21, pelas cinco da tarde, o Centro de Reabilitação do Norte voltou a abrir as portas à palavra, à partilha e à emoção, acolhendo a mais uma sessão das Tertúlias Literárias «Conversas às 5», após uma pausa de longos meses. Cerca de vinte e cinco pessoas, na sua grande maioria utentes internados, reuniram-se em torno de Ana Rita Gomes e do seu livro «A Bicicleta Açoriana», numa tarde em que a literatura se fez caminho e a conversa, lugar de encontro. O moderador saudou uma plateia que, apesar das contingências da doença, continua a procurar horizontes para lá das paredes que a acolhem: "Reabilitar não é apenas fazer fisioterapia. Reabilitar é estarmos em comunhão, é estarmos em partilha, é sermos empáticos uns com os outros". E talvez tenha sido esta a primeira e uma das mais fundas lições da tarde, na medida em que há movimentos que não se medem pela força dos músculos, nem pela distância percorrida, mas pela capacidade de nos aproximarmos uns dos outros. A leitura do prefácio de Cátia Masari Oliveira, A garota não, abriu a porta a esse universo onde a bicicleta não é apenas veículo, mas extensão do corpo, da liberdade e do pensamento. Ana Rita Gomes, com a serenidade de quem não precisa de se impor para se fazer ouvir, trouxe consigo as ilhas, os seus verdes desmedidos, os seus mares inquietos e, sobretudo, a disponibilidade de quem sabe que a beleza só se completa quando encontra alguém disposto a acolhê-la. Naquela sala, banhada por um magnífico sol de fim de tarde e com o mar ao fundo, a viagem começava muito para além de São Miguel: começava em cada um dos presentes.
Eixo que dá unidade ao livro e presença física na sala, a bicicleta foi mais do que uma máquina de duas rodas. Depressa se revelou uma forma de estar no mundo, de o descobrir sem pressas, de permitir que a paisagem entrasse pelos sentidos e encontrasse morada nas palavras. No poema "IV", a terra húmida, as lagoas, os cones vulcânicos e a imensidão do mar compõem uma geografia que não se limita a ser contemplada: vive-se, respira-se, levita-se com ela. Quando questionada sobre a origem desta escrita, a convidada devolve a conversa ao lugar mais espontâneo da criação: "Primeiro vem qualquer coisa, desde que eu a consiga partilhar". A experiência acontece, a emoção amadurece e o poema surge, quase sem ser chamado. "O poema vem ter comigo, eu não faço nada", confessou, numa simplicidade que não diminui o trabalho da escrita, antes lhe restitui o mistério. A natureza e as pessoas com quem se cruza são matéria dessa revelação. A propósito, Ana Rita Gomes recordou os vinte quilómetros de verde da Estrada dos Rosais, em São Jorge, salpicados de flores de todas as cores, entre as quais as pequenas "não me esqueças". E como esquece-las, depois de as ver? A memória nasce, por vezes, de um pormenor minúsculo que a alma se recusa a perder. Também a capa do livro, da autoria de Urbano, guarda esse enigma numa bicicleta cuja bagageira transporta poemas. Estariam eles já ali, à espera de serem encontrados, ou seria a autora a depositá-los, um a um, no decurso da viagem? Talvez ambas as coisas. Ana Rita pedala para ser "mais eu, mais livre"; e é nessa liberdade, feita de atenção e espanto, que a palavra encontra o seu caminho. A qualidade da sua escrita reside também aqui, na capacidade de transformar uma experiência concreta numa descoberta partilhável, sem sacrificar a delicadeza do olhar nem a verdade do sentir.
Há, contudo, em «A Bicicleta Açoriana», duas viagens que se entrelaçam: uma percorre a ilha visível; a outra desce ao território, menos evidente, da intimidade. À exuberância das cores, dos aromas e das formas sucede, por vezes, uma escrita mais rarefeita, onde o silêncio pesa e a palavra parece medir cuidadosamente o espaço que ocupa. "Ilha Branca" é exemplo dessa transformação. O que poderia ser plenitude torna-se ausência, o que prometia melodia deixa de soar, e até o mar parece guardar uma dor antiga. Ana Rita Gomes explicou que esta dupla dimensão nasce da experiência física, mas também da sua própria maneira de ser. Professora e treinadora, aprendeu a reconhecer a importância de se conhecer para conseguir colocar-se no lugar dos outros. "Conhecermo-nos bem é importante para nos pormos do lado do outro", afirmou. Talvez mais do que numa definição de poética, encontramos nesta frase uma chave para compreender a mulher que escreve. A empatia não surge como palavra decorativa, mas como exercício diário, exigente e transformador. Também por isso a paisagem nunca é apenas aquilo que os olhos alcançam. Ela depende da nossa disponibilidade para a receber. "Só temos de perceber qual o lugar que nos permite sermos nós próprios", disse, evocando essa rara sintonia em que se respira a paisagem até quase sermos parte dela. E há momentos em que o caminho pede pausa, em que insistir seria perder a luz. A autora sabe-o e não teme o silêncio e a escuridão: "Há momentos para tudo". Até para deixar de pedalar, olhar o céu, descobrir as estrelas e encontrar no mar o reflexo da lua. Esta sabedoria, que atravessa os poemas sem se transformar em lição, foi talvez uma das maiores riquezas da tertúlia. Porque também na reabilitação há subidas que parecem intermináveis, dias em que a corrente contraria a vontade e instantes em que parar não significa desistir. Significa, simplesmente, conceder ao corpo e à alma o tempo necessário para que o caminho volte a fazer sentido.
Mas a ilha de Ana Rita não se deixa reduzir a um postal ilustrado. Sob o verde luminoso e o azul que parece não ter fim, há contradições, fragilidades e responsabilidades que a beleza, por si só, não apaga. Em "Areia", a paisagem é matéria viva, ardente, capaz de suspender a palavra e de fazer regressar o corpo a si mesmo. A autora falou da importância de descobrir lugares ainda resguardados da pressão turística e defendeu a bicicleta como forma de conhecer os Açores com maior respeito pela natureza. O turismo de massas preocupa-a; a ilha merece ser vivida, não consumida. E, porque a liberdade também se mede pelas oportunidades que a sociedade concede a cada pessoa, a conversa alargou-se à condição feminina, tema que lhe toca de perto. Com cinquenta anos, Ana Rita Gomes foi a primeira mulher a ser seleccionadora nacional de voleibol, a primeira a treinar homens na modalidade e a primeira a comentar um jogo de voleibol na televisão portuguesa. Feitos que poderiam bastar para compor uma história de superação, mas que, nas suas palavras, expõem sobretudo a lentidão com que se desfazem as desigualdades. "Parece que há muita equidade, parece que temos todos os mesmos direitos, mas não é bem assim», advertiu. E lembrou que continua a não haver, em Portugal, uma única mulher a treinar uma equipa de voleibol da primeira divisão. No poema "Mulher", as injustiças, as memórias geladas, as lutas e as mãos que seguram a esperança condensam uma realidade que não pertence apenas às mulheres, mas à humanidade inteira. "Tanto faz ser homem como mulher, somos pessoas. Precisamos é de pessoas boas", afirmou, recusando que a diferença se transforme em fronteira. É aqui que a escrita e a pessoa se iluminam mutuamente. A poetisa que observa as flores e escuta o rumor das ondas é a mesma mulher que não fecha os olhos à desigualdade, que defende a natureza e que reconhece, num mundo tantas vezes marcado pela indiferença, a urgência da empatia e do amor. Não há contradição entre a delicadeza e a firmeza; há, antes, uma coerência profunda entre aquilo que se escreve e a maneira como se escolhe viver.
As intervenções do público trouxeram observações pertinentes, identificações inesperadas e confidências nascidas do reconhecimento. Houve quem encontrasse nas palavras de Ana Rita Gomes um reflexo de si próprio, quem se deixasse tocar por uma imagem, quem descobrisse na conversa uma forma de nomear emoções que, de outra forma, talvez permanecessem sem voz. A expressão "uma sala de emoções" resumiu a atmosfera de uma tarde em que a literatura cumpriu a sua vocação mais humana: aproximar pessoas, abrir espaço à escuta e lembrar-nos que ninguém se reabilita inteiramente sozinho. A convidada lançou então um desafio simples e generoso: que cada um se atrevesse a escrever, a partilhar o que sente, ou, pelo menos, a escolher um livro e conversar sobre ele; que os próprios utentes promovessem as suas tertúlias e dessem voz às suas experiências. No final, Ana Rita Gomes escolheu ler "Futuro", poema que fala de essência, liberdade, curiosidade e da possibilidade de preservar aquilo que ainda está por vir. E, quando lhe perguntaram o que mais se transformara nesta viagem, se o olhar sobre São Miguel ou o olhar sobre si própria, não hesitou: "Sem dúvida, sempre a forma como olho para mim própria". Porque é desse trabalho interior que nasce a capacidade de olhar melhor a ilha, as pessoas e a natureza. "A natureza merecia de nós mais do que o que lhe damos miminhos. Batemos mais do que lhes damos miminhos", disse, com a ternura desarmante de quem reconhece no cuidado uma forma de amor. A poesia não exige grandes viagens, nem paisagens extraordinárias. Basta, por vezes, a coragem de olhar de novo, de escutar o outro e de nos demorarmos onde a vida pede atenção. Naquela tarde, entre poemas, memórias e silêncios, Ana Rita Gomes não trouxe apenas uma bicicleta carregada de palavras. Trouxe a generosidade de quem as oferece sem as impor e a humanidade de quem sabe que o futuro, para merecer esse nome, terá de ser construído por todos. E que, mesmo quando o caminho custa, há sempre uma nova pedalada à espera de nos levar mais longe, sobretudo para dentro de nós.




