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sábado, 29 de agosto de 2026

LIVRO: “Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho?” | Dora Gago



LIVRO: “Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho?”,
de Dora Gago
Edição | Dinis H. Machado
Ed. The Poets and Dragons Society, Março de 2026


“Desejo-lhe, mais uma vez, que tudo corra bem, que não seja nada de grave. Vejo-me a ajudar. Mas fazer o quê? Não posso. Nada me autoriza a cruzar os portões da privacidade alheia, a entrar em vidas para as quais não posso ser chamada, territórios interditos. Sou a estranha, a estrangeira que sabe bem o que é cruzar abismos, que dilacerou os pulsos nas arestas aguçadas desses precipícios, chegou ao fundo, que se estatelou nos seus empedrados, nos poços mais recônditos da alma humana, mas que foi resgatada - na dor de uma bofetada, na picada de uma seringa, no choque de um desfibrilhador, mas sempre salva, como se tivesse sete vidas e já as houvesse engolido todas na desajeitada labareda de um imprudente viver.”

“Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho?”, de Dora Gago, é um livro ditado pela memória, pela experiência e pela literatura. Depois de “Palavras Nómadas” e “Floriram por Engano as Rosas Bravas”, nos quais a autora evidencia uma enorme acuidade em apreender Macau nos seus múltiplos contrastes, este livro constitui um regresso a uma cidade simultaneamente reconhecível e estranha, fechada sobre si mesma pela pandemia e pelas rigorosas medidas de confinamento. Nesse território suspenso, onde o luxo dos casinos convive com a miséria dos trabalhadores migrantes, cruzam-se Ana Cláudia, Jenny e Kate, três mulheres com histórias, feridas e desejos muito diferentes. Com elegância e uma enorme subtileza, a romancista aproxima estas vidas sem forçar encontros nem transformar coincidências em artifícios narrativos. As personagens tocam-se, contaminam-se, deixam marcas umas nas outras, como se pertencessem a uma mesma cartografia da fragilidade. É tempo de expôr as contradições de uma sociedade onde a prosperidade coexiste com a fome, a vigilância convive com a solidão e os mais vulneráveis, sobretudo as mulheres, suportam o peso maior da violência, da precariedade, do desemprego e da exclusão.

Há, porém, em Dora Gago, um olhar que vai além da simples denúncia. A autora observa, interroga e, sobretudo, escuta aquilo que muitas vezes permanece oculto para lá das aparências. A miséria dos trabalhadores não residentes, a violência doméstica, a dependência, a doença mental, a exploração e a fome surgem sem o conforto de uma distância meramente sociológica: são experiências inscritas nos corpos e nas consciências das personagens. O casino, lugar emblemático da riqueza e da fantasia, torna-se assim o cenário de uma outra espécie de ruína, onde os que nada têm arriscam o pouco que lhes resta. Esta atenção ao humano revela as preocupações sociais e morais que atravessam a escrita de Dora Gago, sem a transformar numa literatura de tese. Pelo contrário, a narrativa conserva uma dimensão poética e simbólica que lhe permite avançar entre o real e o delírio, entre a lucidez e a alucinação, sem perder o chão. A escrita é sensorial, por vezes febril, capaz de transformar um perfume, um vestido vermelho, um abraço ou uma mesa de jogo em sinais de desejo, obsessão ou desespero. As imagens da aranha e da serpente, o dragão, os rituais chineses, os fantasmas e os sonhos participam dessa atmosfera inquietante. E há ainda a presença tutelar de Camilo Pessanha, de Maria Ondina Braga e de Lídia Jorge, entre outras referências, numa escrita que assume a literatura como memória, diálogo e matéria de reinvenção.

Mas é na história de Ana Cláudia que o romance encontra a sua dimensão mais íntima e comovente. Personagem que acompanha Dora Gago há mais de uma década, Ana regressa agora com um passado de doença mental e toxicodependência, carregando consigo uma infância que a autora ficciona a partir das suas próprias origens. O barrocal algarvio surge então como contraponto a Macau, ambos territórios de escassez e de fronteiras, mas também de descobertas, alegrias, decepções e medos. Essa infância não aparece como simples exercício de nostalgia; é antes uma espécie de raiz a que Ana Cláudia regressa quando tenta reconstruir-se, uma reserva de imagens onde a privação convive com a luminosidade. Entre o barrocal e Macau, entre a memória e o presente, entre a loucura e a sanidade, Dora Gago constrói um romance de fragmentos que teimam em agregar-se. O título, tomado de um verso de Pessanha, anuncia desde logo essa poética da rasgadura: há qualquer coisa que foi violentamente interrompida, mas também qualquer coisa que insiste em permanecer. Dora Gago mostra que, quando tudo parece desfeito - o amor, a estabilidade, a identidade, a própria ideia de futuro -, sobrevivem a linguagem, a memória e a capacidade de continuar. É nesse gesto frágil de resistência, entre feridas e metamorfoses, que a literatura de Dora Gago encontra a sua mais funda humanidade.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E VÍDEO: “Cloud of Confusion” | Frida Orupabo



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E VÍDEO: “Cloud of Confusion”,
de Frida Orupabo
Curadoria | Marta Mestre
MAC/CCB - Museu de Arte Contemporânea
03 Jun > 01 Nov 2026


Frida Orupabo chega ao MAC/CCB com uma exposição que parece começar onde termina o gesto automático de percorrer um ecrã. Em “Cloud of Confusion”, a artista norueguesa transforma o seu vasto arquivo de imagens digitais num território de confronto, onde fotografias, fragmentos e objectos deixam de valer pela sua autonomia para adquirir sentido através da montagem. O percurso linear pelas oito secções da exposição transpõe para o espaço físico a lógica do “scroll”: uma imagem chama a seguinte, mas a continuidade depressa se revela ilusória, feita de cortes, choques e lacunas. É nessa fricção entre fluxo e interrupção que Orupabo instala o seu olhar crítico. As imagens, muitas delas provenientes de arquivos coloniais, dos media, da cultura popular ou da circulação indiferenciada da internet, carregam histórias de violência e de apropriação. Ao serem recortadas, ampliadas, justapostas e deslocadas, deixam de ser apenas documentos de um olhar sobre os corpos negros para passarem a confrontar esse mesmo olhar. Não se trata de pacificar as imagens, antes fazê-las regressar, alteradas, ao espectador, devolvendo-lhes uma capacidade de resistência.

A “nuvem” do título é, por isso, menos um lugar de armazenamento do que uma condição contemporânea de existência das imagens. Na “cloud”, memória e esquecimento convivem; tudo pode ser guardado, reproduzido e reencontrado, mas também perdido no excesso. Orupabo explora precisamente esse paradoxo, fazendo da acumulação uma forma de crítica. O arquivo não surge como depósito neutro, mas como espaço atravessado por relações de poder: quem fotografou, quem foi fotografado, quem teve o direito de olhar e quem ficou reduzido a objecto desse olhar. A montagem funciona então como uma espécie de contra-arquivo, capaz de interromper narrativas herdadas e produzir outras associações. Daí a recorrência de questões ligadas à raça, ao género, à maternidade, à sexualidade e à violência, mas também à domesticidade e ao corpo enquanto lugar político. Mesmo quando a imagem parece fragmentária ou enigmática, há nela uma tensão entre exposição e recusa, mostrar e esconder, revelar e silenciar. A confusão a que alude o título não é apenas a do excesso informativo; é também a dificuldade de separar memória, desejo, trauma e representação quando todos circulam dentro do mesmo regime visual.

É neste ponto que a passagem do “feed” para o Museu ganha verdadeira espessura. Nas redes sociais, a sucessão de imagens tende a ser instantânea, solitária e potencialmente infinita; no MAC/CCB, Frida Orupabo obriga o corpo do espectador a entrar nessa sequência e a experimentar fisicamente as relações que a edição propõe. O tempo da visita substitui a velocidade do “scroll” e aquilo que no ecrã poderia ser consumido num segundo ganha uma duração incómoda. A exposição pede, assim, mais do que reconhecimento: pede disponibilidade para permanecer diante de imagens que não se deixam resolver facilmente. A sua força está menos numa mensagem fechada do que na capacidade de produzir desconforto e devolver perguntas ao visitante. Que memória construímos a partir de imagens que nos chegam já carregadas de violência? Que corpos continuam a ser vistos através de representações que os reduziram a tipos, sintomas ou objectos? E o que acontece quando esses corpos, através da colagem e da montagem, parecem devolver o olhar? “Cloud of Confusion” não oferece respostas tranquilizadoras. Faz melhor, problematizando o próprio acto de olhar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Desenhos do Cinismo e Melancolia” | Ana Vidigal



EXPOSIÇÃO: “Desenhos do Cinismo e Melancolia”,
de Ana Vidigal
Curadoria | Patrícia Reis
Museu Nacional Soares dos Reis
Inauguração em 25 Jun 2026


Patente ao público no Museu Nacional Soares dos Reis, “Desenhos do Cinismo e da Melancolia”, de Ana Vidigal, encontra em Camilo Castelo Branco não tanto um pretexto literário, mas uma matéria de trabalho. Integrada no evento literário e cultural BABELL, a exposição reúne vinte e duas obras de pequenas dimensões que recusam a solenidade do objecto artístico e se aproximam antes da intimidade de uma página, de um apontamento ou de algo ciosamente guardado. Ana Vidigal não ilustra Camilo: lê-o, desmancha-o e volta a escrevê-lo através de imagens. O seu gesto é menos o de quem traduz literatura para as artes plásticas do que o de quem procura descobrir, na literatura, aquilo que ainda pode ser deslocado, rasurado e refeito. Nessa operação, adquire a exposição espessura, retirando o universo camiliano daquilo que se aceita como património intocável e e deslocando-o para um território de apropriação, onde a melancolia e o cinismo do título se encontram com o humor, a ironia e a memória pessoal da artista. Desta forma, colagem, desenho e pintura convivem em composições onde a palavra surge como memória, vestígio e provocação.

Há, porém, uma outra leitura que se impõe e que talvez seja uma das mais felizes dimensões da exposição: cada obra é apresentada de modo a poder ser vista dos dois lados. O suporte deixa de ser mero intermediário e passa a integrar a obra, revelando-se aquilo que a sustenta, aquilo que foi escolhido, reaproveitado ou transformado para a receber. O visitante é assim convidado a abandonar a perspectiva frontal e a percorrer o objecto, a olhar para trás, para dentro, para aquilo que normalmente permanece oculto. É uma escolha expositiva que corresponde profundamente à própria prática de Ana Vidigal, feita de acumulações, fragmentos, restos e materiais que carregam consigo outras vidas. Se, como a artista já afirmou, a pintura pode ser tudo aquilo que se cola, aqui também a exposição parece dizer que tudo aquilo que se esconde pode fazer parte da leitura. O verso não é complemento do anverso, antes outra entrada na obra, outra narrativa possível. E esse movimento físico do espectador acaba por reproduzir o movimento intelectual que os desenhos exigem.

É talvez por isso que estas pequenas peças adquirem uma dimensão maior do que a sua escala faria supor. Em vez de oferecerem uma leitura única, Ana Vidigal constrói objectos abertos, onde imagem, palavra, matéria e memória se contaminam mutuamente. A referência a Camilo é reconhecível, mas nunca fechada; serve para convocar uma tradição literária e, simultaneamente, para a interrogar. A artista transforma a memória em matéria plástica e o reaproveitamento dos suportes numa forma de pensamento. Nada é inteiramente descartado; nada se apresenta sem história. Há aqui uma dimensão autobiográfica, mas também política, na atenção concedida às coisas menores, aos restos, às narrativas laterais e às vozes que sobrevivem nas margens. “Desenhos do Cinismo e da Melancolia” vale, por isso, menos como exposição sobre Camilo do que como encontro entre duas formas de escrita: a do romancista que construiu personagens, paixões e desenganos, e a da artista que, décadas depois, os desmonta para lhes devolver outras possibilidades de leitura. O resultado é uma exposição que pede tempo - e que recompensa quem aceita olhar duas vezes.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Terra Poética” | Anna Maria Maiolino



EXPOSIÇÃO: “Terra Poética”,
de Anna Maria Maiolino
Curadoria | João Pinharanda e Sérgio Mah
MAAT - Museu de Arte Arquitetura e Tecnologia
25 Mar > 31 Ago 2026


“As instalações da série ‘Terra Modelada’ são obras em processo, estruturadas por armazenamento de formas simples, produtos da ação do gesto, que, por ser natureza, não se repete [...]. Estas primas-formas têm a medida da mão que as molda - a medida do homem - e lembram-nos certos aspetos de comemorações, de rituais. O ancestral é revivido no fazer primeiro, no ritual do trabalho apresentado.”
Anna Maria Maiolino

Visita-se Terra Poética como quem atravessa um território. Na Galeria Oval do MAAT - Museu de Arte Arquitetura e Tecnologia, Anna Maria Maiolino transforma a arquitectura num campo de forças onde desenho, escultura e instalação se contaminam, fazendo do barro não apenas uma matéria, mas uma espécie de linguagem anterior às palavras. A exposição reúne obras realizadas entre 1975 e 2025 e percorre mais de cinco décadas de uma prática que nunca separou o corpo da memória, nem a experiência íntima da dimensão política. Nascida em Itália em 1942, emigrada para a Venezuela e depois para o Brasil, Anna Maria Maiolino traz para a obra uma experiência de deslocação que não é meramente biográfica: é uma condição de existência. Desde a participação na Nova Objectividade Brasileira, em plena ditadura militar, até à consagração internacional, o seu trabalho tem procurado formas de dar corpo ao que resiste à representação. O Leão de Ouro de carreira atribuído na Bienal de Veneza de 2024 veio reconhecer uma trajectória singular, mas Terra Poética mostra que a importância de Maiolino está menos na consagração do que na radicalidade com que continua a interrogar a matéria.

O percurso começa nas paredes, onde Tempestade de Ideias reúne mais de uma centena de desenhos produzidos entre 1990 e 2025. São rabiscos, esquemas, impulsos, pequenas arquitecturas ainda por nascer: um inventário aparentemente desordenado que funciona, afinal, como uma cartografia do pensamento. A artista não apresenta a escultura como objecto acabado, mas como possibilidade, processo e hesitação. Os desenhos são sementes de formas, enquanto as pequenas esculturas e fotografias introduzem outras escalas de percepção. Na arena, porém, é a argila que toma conta do espaço. As obras da série Terra Modelada, iniciada em 1993, foram concebidas para a galeria e produzidas no local, prolongando uma investigação em que o gesto elementar de amassar, enrolar, dividir, acumular, adquire uma dimensão quase ritual. A matéria é moldada pela mão, mas também pela passagem do tempo: a argila crua desidrata, muda de cor, endurece e aproxima-se da pedra. O que parecia instável ganha permanência sem deixar de anunciar a sua própria transformação. Nessa tensão entre nascimento e ruína, entre o provisório e o ancestral, encontra Maiolino uma das suas imagens mais poderosas.

Há algo de profundamente corporal em Terra Poética. As formas remetem para alimentos, entranhas, sementes, órgãos, respirações; parecem guardar no seu interior uma memória doméstica e arcaica, como se a escultura pudesse regressar ao instante inaugural em que fazer e sobreviver eram o mesmo gesto. O feminino surge menos como tema do que como experiência incorporada: a mão que trabalha, a matéria que cede, a repetição paciente de tarefas tradicionalmente associadas ao espaço doméstico e que a artista desloca para o território da arte. Mas seria redutor ler Maiolino apenas através de uma chave feminista. O que a exposição propõe é uma política mais funda da matéria, onde o corpo individual se encontra com o colectivo e onde a experiência migrante se transforma numa procura de raízes. Terra Poética não é, afinal, uma exposição sobre a terra, mas sobre aquilo que ela nos ensina: que toda a forma é provisória, que todo o corpo é matéria em transformação e que, entre a mão e o mundo, existe sempre a possibilidade de começar de novo. É nessa simplicidade - simultaneamente ancestral e contemporânea - que reside a força de uma artista cuja obra continua a transformar o gesto mais elementar numa pergunta sobre a existência.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Reflexos, Enclaves, Desvios” | José Pedro Croft



EXPOSIÇÃO: “Reflexos, Enclaves, Desvios”,
de José Pedro Croft
Curadoria | Luiz Camillo Osorio
MAC/CCB Museu de Arte Contemporânea e Centro de Arquitectura
30 Abr > 13 Set 2026


José Pedro Croft ocupa, há várias décadas, um lugar singular na arte contemporânea portuguesa, afirmando-se entre os artistas que, a partir do período posterior à Revolução de 1974, ajudaram a renovar linguagens, materiais e modos de olhar. Nascido no Porto, em 1957, Croft construiu uma obra marcada pela liberdade de experimentar e pela recusa de soluções estáveis: desenho, gravura e escultura cruzam-se num território onde a linha, o plano, a cor, a matéria e o espaço são permanentemente postos à prova. A sua obra estabelece diálogos com a tradição construtiva, com a arquitectura e com a história da arte, mas fá-lo sem espírito reverencial, antes através de deslocamentos, cortes e recomposições que nos obrigam a reconsiderar aquilo que vemos. Entre a contenção do gesto e a instabilidade da percepção, Croft desenvolveu uma linguagem própria, reconhecível mas nunca inteiramente previsível. A exposição “Reflexos, Enclaves, Desvios”, que o traz de novo ao CCB quase 25 anos depois da sua anterior grande apresentação naquele espaço, propõe um olhar sobre uma parte substancial da produção realizada ao longo deste século e confirma a actualidade de uma obra que se alimenta precisamente da tensão entre ordem e desvio, repetição e diferença.

É no trabalho gráfico que a exposição encontra um dos seus centros de gravidade. A opção curatorial por concentrar o olhar nos desenhos e nas gravuras permite acompanhar de perto um processo em que fazer é também desfazer e refazer. As placas de cobre são sucessivamente raspadas, limpas, marcadas e alteradas; as cores sobrepõem-se, a luz e a sombra introduzem novas profundidades e cada tiragem, apesar de inscrita numa lógica serial, contém diferenças que impedem a repetição absoluta. O que poderia parecer um exercício de variação formal transforma-se, assim, numa experiência de atenção. Em Croft, ver não equivale a reconhecer: é preciso parar, reparar, voltar atrás. Há nas suas obras uma espécie de resistência silenciosa à velocidade com que habitualmente consumimos imagens. A gravura, com a sua exigência técnica e a sua temporalidade própria, devolve ao olhar uma duração que a exposição pede ao visitante. As formas não se entregam de imediato; as camadas cromáticas constroem campos visuais de grande densidade e a aparente contenção das composições vai revelando, à medida que se observa, uma intensa actividade espacial. A austeridade do atelier encontra, deste modo, uma resposta na atenção do espectador, chamado a completar aquilo que a obra apenas insinua.

Essa relação entre o que se mostra e o que escapa percorre também as esculturas, onde o metal, o vidro e os espelhos introduzem uma permanente instabilidade na percepção. As superfícies reflectoras confundem interior e exterior, multiplicam volumes e alteram a escala, fazendo do espaço expositivo uma extensão da própria obra. O que acontece nas gravuras - os deslocamentos mínimos, as sobreposições, os desvios ópticos - encontra aqui uma tradução tridimensional, como se o pensamento do gravador se prolongasse no espaço através do trabalho escultórico. É neste diálogo entre a mão e o olho, entre o palpável e o que dele extraímos, que “Reflexos, Enclaves, Desvios” melhor se define. A exposição não procura apenas apresentar uma selecção de obras, mas propor uma forma diferente de as experimentar, contrariando a fragmentação e o excesso que definem o regime contemporâneo da atenção. Croft trabalha com elementos que a história da arte conhece bem, mas reposiciona-os perante um presente em transformação: a linha torna-se arquitectura, a chapa converte-se em campo de experimentação, o espelho desorienta, a repetição produz diferença. No fundo, é dessa fricção entre memória e presente que nasce a contemporaneidade da sua obra. E é também aí que reside o seu compromisso com a liberdade: no convite persistente a olhar de novo, a desconfiar do que julgávamos reconhecer e a aceitar, perante a obra, a possibilidade de ver aquilo que ainda não sabemos nomear.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Júlio Pomar. A Cola Não Faz a Colagem” | Júlio Pomar



EXPOSIÇÃO: “Júlio Pomar. A Cola Não Faz a Colagem”,
de Júlio Pomar
Curadoria | Sara Antónia Matos, Pedro Faro, Constança Pupo Cardoso
Atelier-Museu Júlio Pomar
06 Mai > 06 Set 2026


No âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Júlio Pomar, o Atelier-Museu Júlio Pomar apresenta “Júlio Pomar. A cola não faz a colagem”, uma exposição que percorre mais de sete décadas da produção de um dos mais importantes artistas portugueses do século XX. Reunindo cerca de 50 pinturas, desenhos, gravuras, esculturas e assemblages, a mostra propõe uma leitura alargada da colagem, entendida não apenas como uma técnica, mas como uma forma de pensar e construir a obra. Cortar, recortar, sobrepor, aglutinar, deslocar, recombinar ou desmontar são operações que atravessam o percurso de Pomar, desde o período neorrealista até às experiências dos últimos anos. “Pinto, recorto, combino, repinto ou raspo, arranho, limo, aliso”, escreveu o artista, sintetizando um processo marcado pela experimentação contínua. A própria noção de colagem surge, assim, como metáfora de uma prática artística que nunca se fixou numa fórmula, antes procurou constantemente novas relações entre formas, matérias, imagens e significados. O título da exposição recupera uma frase de Max Ernst, citada por Pomar no texto “L’Écrit”, de 1981: “Não é a cola que faz a colagem”.

Mais do que uma técnica circunscrita a determinados períodos, a colagem revela-se, na obra de Pomar, como uma metodologia transversal. A exposição acompanha essa evolução desde a composição de pinturas e gravuras dos anos 1950 até à incorporação explícita de objectos, sobretudo a partir de meados da década de 1960. Obras como “Guerreiro” (1961), construída pela acumulação e sobreposição de chapas de ferro, demonstram que o pensamento da colagem já estava presente antes de esta se afirmar materialmente. “Metro” (1964), por seu lado, assinala a primeira utilização de um objecto estranho colado sobre a tela, enquanto “Thétis ou Le Bleu du Ciel, d’après Ingres” (1970-73) leva a lógica do recorte e da recombinação a uma dimensão particularmente radical: oito telas independentes podem ser rodadas e reorganizadas, gerando múltiplas composições. A partir de 1976, o próprio Pomar preferiria falar em découpage e assemblage, conceitos que traduzem melhor a sua vontade de desmontar e remontar a pintura. Nesse processo, diferentes referências — do Cubismo às neo-vanguardas e à Pop Art — são assimiladas e transformadas numa linguagem própria, feita de fragmentos, citações, confrontos e deslocamentos.

A diversidade dos materiais reunidos na exposição torna visível essa liberdade de criação e a recusa de fronteiras rígidas entre arte e realidade. Madeira, ferro, tecido, plástico, vidro, cortiça, couro, arame, papel, penas, objectos de uso quotidiano, brinquedos, mecanismos, fragmentos de espelho ou mesmo elementos de origem animal entram no universo plástico de Pomar, adquirindo novas funções e sentidos através de aproximações inesperadas. O fragmento deixa de ser apenas uma parte para se tornar matéria de invenção, capaz de perturbar a leitura convencional da imagem e de produzir novas narrativas. Organizada em diferentes núcleos, a mostra passa pelas obras neo-realistas, pelas representações eróticas do corpo, pelas associações entre figuras humanas e felinos e pelas criações tardias ligadas a mitos e histórias, revelando peças inéditas ou raramente apresentadas ao público, como “Jamais” (1979-80). Complementada pela exposição em suporte digital “Cisões e E@lipses», com curadoria de Constança Pupo Cardoso, a iniciativa reforça a ideia de que, para Pomar, criar significava também desfazer e reconstruir. Num mundo feito de fragmentos, a sua colagem pode ser lida como exercício de liberdade, confronto e recomposição - uma procura incessante de novas formas de organizar o visível e de estabelecer relações entre coisas aparentemente distantes.

domingo, 23 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Ultratremor” | Vários artistas



EXPOSIÇÃO: “Ultratremor”,
de Mira Schendel, Ana Hatherly, Julia Gallo, Mumtazz, Josi, Adriano Amaral, Bruno Cidra, Joana Escoval, Lucas Milano, Caio Carpinelli, Letícia Ramos, Henrique Pavão, Iara Izidoro, João Pimenta Gomes, Vera Mota, Paulo Nazareth
Curadoria | Germano Dushá
Museu Nacional de Arte Contemporânea
29 Mai > 27 Set 2026


“Ultratremor”, exposição com curadoria de Germano Dushá, reúne na Ala Capelo Sul do Museu Nacional de Arte Contemporânea dezasseis artistas portugueses e brasileiros num diálogo que atravessa matéria e espírito, corpo e imagem, visível e invisível. Mais do que aproximar práticas por afinidades formais ou temáticas, a curadoria procurou estabelecer entre elas uma espécie de frequência comum: a tentativa de tornar sensível aquilo que escapa à percepção imediata. O “tremor” do título é, por isso, mais do que uma vibração física. É o estremecimento que precede uma aparição, o estado de instabilidade em que uma forma ainda não se fixou ou já começou a desaparecer. Desenho, pintura, escultura, fotografia, instalação, som e performance constroem um percurso de fantasmagorias, metamorfoses e estados de transição, no qual a obra deixa de ser apenas objecto para se tornar acontecimento. Entre cosmologias, rituais, memória e experiências sensoriais, a exposição sugere que há imagens que não representam simplesmente o mundo: funcionam como passagens para aquilo que, permanecendo oculto, continua a agir sobre ele.

O percurso começa por gestos onde a linha parece nascer de uma pulsão quase orgânica. Nas monotipias de Mira Schendel, figura maior da arte brasileira do século XX, o traço no papel de arroz oscila entre inscrição e desaparecimento; em Ana Hatherly, nome central da poesia experimental e da arte portuguesa contemporânea, escrita e desenho confundem-se até a linguagem se tornar matéria visual. Julia Gallo leva essa tensão para uma dimensão quase eruptiva, construindo anatomias onde o corpo parece dar forma a estados de espírito, enquanto Mumtazz transforma o desenho em território de diagramas, figuras oníricas e energias psíquicas. Em Josi, a ligação é mais directamente cosmológica: água de rio, feijão preto, jenipapo e terra transportam para a pintura saberes e forças ligados ao território. Adriano Amaral faz da matéria um lugar de transmutação, misturando resíduos orgânicos e elementos industriais. Bruno Cidra prolonga essa instabilidade no encontro entre papel e metal. Joana Escoval, pelo contrário, trabalha quase no limite da invisibilidade, com fios de ouro e latão que só se revelam plenamente através da luz e do movimento do espectador. São diferentes modos de fazer aparecer o que normalmente permanece fora do campo da visão.

Essa investigação prolonga-se nas pinturas de Lucas Milano e Caio Carpinelli, onde a imagem se aproxima de uma experiência atmosférica e abissal, e nas fotografias de Leticia Ramos, que exploram a instabilidade do olhar e a fronteira entre real e imaginário. Henrique Pavão radicaliza a própria ideia de imagem ao transformar em prata a matéria extraída de quilómetros de película cinematográfica, convertendo um vestígio luminoso em objecto físico. Iara Izidoro leva a questão ao corpo, enquanto as instalações sonoras de João Pimenta Gomes fazem do espaço uma caixa de ressonância e Vera Mota coloca a matéria em estado de suspensão. Por fim, Paulo Nazareth confronta a memória colonial através de fotografias de arquivos etnográficos, desfocadas e intervencionadas com círculos de “efun”, gesto ritual que desloca aquelas imagens do registo classificatório para o território da memória, da violência e da reparação. O próprio espaço expositivo participa nesta experiência: o corredor e as salas laterais impõem um avanço quase processional, feito de revelações sucessivas. Em “Ultratremor”, importa menos aquilo que a obra mostra do que aquilo que consegue fazer sentir: a presença de uma força que antecede a forma e persiste depois dela.

sábado, 22 de agosto de 2026

LIVRO: “Ciúme - A Outra Vida de Catherine M.” | Catherine Millet



LIVRO: “Ciúme - A Outra Vida de Catherine M.”,
de Catherine Millet
Título original | “Jour de Souffrance”, © Flammarion, 2008
Tradução | Miguel Martins
Ed. Edições 70, Outubro de 2025


“Como um gatinho que veio agarrar-se à nossa barriga para lhe dar patadas durante longos minutos, aplicado e obstinado no seu prazer, e, de repente, sem que nos tenhamos mexido nem que tenha havido um barulho, se endireita, se estica e foge para longe, para responder a um chamamento inaudível para nós, o nosso desejo abandona o seu objecto. Nenhum sinal nos preveniu desse afastamento. Um dia apercebi-me de que havia já bastante tempo que não via aquele homem nem o fazia surgir nos meus devaneios. Só então é que me regressou a noção do tempo. Disse a mim mesma, mais ou menos, isto: ‘Seis meses sem pensar nele! Nunca teria acreditado que isto fosse possível!’ ”

“Ciúme – A Outra Vida de Catherine M.” é um livro que recusa deliberadamente a facilidade do romance e a linearidade do relato. Ao longo de duas centenas de páginas, Catherine Millet constrói uma espécie de anatomia da paixão, feita de fragmentos reflexivos onde o ciúme, a infidelidade, o corpo e a vida conjugal são submetidos a uma observação quase cirúrgica. Depois da exposição da sexualidade sem culpa em “A Vida Sexual de Catherine M.”, a autora regressa ao mesmo território para revelar a sua contradição mais incómoda: a liberdade sexual não imuniza ninguém contra a posse, a insegurança ou o medo da perda. Catherine pode aceitar, e até imaginar, uma multiplicidade de parceiros, mas descobre que a liberdade muda de natureza quando é o outro quem a exerce. É nesta inversão que o livro mais inquieta e leva o leitor a reflectir. A mulher que parecia ter transformado o desejo num exercício racional de autonomia, vê-se confrontada com uma emoção primária, irracional e devastadora. O ciúme não surge apenas como reacção à traição física: é a presença imaginária de um terceiro que invade os espaços comuns, os amigos, as referências culturais e, sobretudo, a intimidade de uma relação que julgávamos conhecer.

A escrita de Catherine Millet acompanha essa perturbação através de uma prosa cerebral, minuciosa e por vezes deliberadamente sufocante. Não há aqui o impulso confessional tradicional, apesar da aparente nudez da matéria. A autora distancia-se constantemente de si própria, desmontando gestos, recordações e fantasias com a precisão de quem disseca um organismo. Essa frieza é, simultaneamente, a qualidade e a limitação do livro. Há momentos de extraordinária inteligência, sobretudo quando a realidade e a imaginação se confundem e quando o pensamento transforma a infidelidade num território povoado de hipóteses, imagens e vidas paralelas. A ideia de que cada encontro resulta de uma cadeia quase infinita de decisões, por exemplo, amplia a história conjugal para uma reflexão sobre a responsabilidade e o acaso. O mesmo acontece com a atenção concedida ao corpo, esse território que não obedece necessariamente às hierarquias estabelecidas pela razão: a ansiedade, o luto ou o desejo recordam ao sujeito pensante que a natureza humana não é inteiramente governável. Catherine Millet escreve, assim, sobre o amor através daquilo que nele permanece irredutível à inteligência.

O leitor cedo perceberá que essa obsessão analítica torna a leitura por vezes árdua. “Ciúme” é um livro que rumina, regressa aos mesmos acontecimentos, percorre-os de novo, acrescenta-lhes uma possibilidade, uma suspeita, uma vingança subtil. A repetição parece reproduzir o próprio mecanismo do ciúme, que nunca se satisfaz com uma resposta e transforma cada explicação numa nova pergunta. O efeito pode ser hipnótico, mas também extenuante, como se o leitor fosse progressivamente encerrado no mesmo circuito mental da narradora. E, contudo, seria injusto reduzir esta experiência a um exercício de narcisismo ou de exibicionismo literário. O verdadeiro interesse do livro está justamente na desmontagem de uma ilusão: a de que somos tão racionais, livres e modernos quanto gostamos de imaginar. Catherine Millet descobre em si uma mulher capaz de sofrer de uma forma que contradiz a personagem que anteriormente construíra, e é dessa fractura que nasce a literatura. O livro vale menos como confissão conjugal do que como estudo de uma contradição humana. A sua conclusão mais perturbadora é também a mais universal: podemos desafiar as convenções do amor, multiplicar os desejos e recusar a moral tradicional, mas continuamos vulneráveis à velha, elementar e humilhante dor de imaginar que alguém que amamos pertence, nem que seja por instantes, a uma vida onde já não temos lugar.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Identidade, Retrato Social 2016 - 2026” | Nuno Marcelino



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Identidade, Retrato Social 2016 - 2026”,
de Nuno Marcelino
Curadoria | Rui Pinheiro
Museu Nacional Soares dos Reis
20 Jun > 12 Set 2026


Há algo de paradoxal na forma como tendemos a olhar para um retrato fotográfico. Entre o rosto que se oferece à objectiva e aquele que a imagem devolve existe sempre uma distância, feita de pose, expectativa, luz e tempo. Procuramos uma pessoa, mas encontramos uma construção. É precisamente nesse intervalo que se instala “Identidade, Retrato Social 2016 - 2026”, de Nuno Marcelino, patente no Museu Nacional Soares dos Reis. Ao longo de uma década, o fotógrafo construiu um arquivo de rostos através do processo de colódio húmido, técnica oitocentista cuja lenta construção parece contrariar a velocidade contemporânea da imagem. A escolha não é meramente formal. Num tempo em que a fotografia se tornou instantânea, abundante e descartável, Nuno Marcelino pede ao retratado que permaneça. Cada sessão implica espera, concentração e uma relação física com o dispositivo fotográfico, devolvendo à imagem uma dimensão quase ritual. O resultado são retratos que parecem existir fora do presente, como se cada pessoa tivesse sido arrancada ao fluxo quotidiano para ocupar, por alguns instantes, uma zona de suspensão. A exposição recupera, assim, uma pergunta antiga: para que serve um retrato? A resposta do artista não parece estar na identificação de quem posa, mas na possibilidade de transformar uma presença individual em testemunho de uma época. O rosto deixa de ser apenas rosto e passa a ser documento, memória e sinal de pertença a uma comunidade humana mais vasta.

A dimensão social do projecto torna-se mais evidente quando os retratos são vistos em conjunto. Pessoas de diferentes origens e percursos surgem lado a lado, sem que a exposição procure hierarquizar os seus estatutos ou transformar a diversidade num inventário sociológico. Há, antes, uma espécie de nivelamento produzido pela própria linguagem fotográfica. Diante da câmara, cada retratado dispõe do mesmo tempo, da mesma frontalidade e de uma semelhante solenidade. É uma escolha que recupera, de forma indirecta, a história social do retrato fotográfico evocada por Marcos Cruz no texto que acompanha a exposição: a fotografia nasceu também da necessidade de uma sociedade em transformação se ver e se afirmar, tornando acessível a representação que durante séculos estivera sobretudo reservada às elites. Marcelino retoma esse potencial democratizador, mas coloca-o perante uma sociedade muito diferente. Já não se trata de conquistar o direito à representação através da posse de um retrato, mas de resistir à invisibilidade produzida pela circulação incessante de imagens. Numa cultura dominada por fotografias rápidas, filtradas e imediatamente substituíveis, estes retratos parecem reclamar o direito a permanecer. A sua estranheza nasce justamente daí. Reconhecemos nos rostos pessoas concretas, mas a técnica introduz uma espécie de deslocação temporal que as torna simultaneamente próximas e distantes. O familiar torna-se inquietude. O indivíduo deixa de ser apenas alguém que conhecemos e passa a representar também aquilo que não conseguimos apreender inteiramente no outro: uma identidade que a fotografia fixa sem nunca conseguir esgotar.

É no diálogo com o Museu Nacional Soares dos Reis que “Identidade, Retrato Social 2016 - 2026” encontra uma das suas dimensões mais intensas. Colocados em relação com os retratos históricos da colecção, os trabalhos de Nuno Marcelino deixam de ser apenas um projecto contemporâneo sobre pessoas contemporâneas. Passam a integrar uma cadeia de representações que atravessa épocas, classes e linguagens. O confronto permite perceber que a vontade de fixar um rosto permanece, embora tenham mudado radicalmente os instrumentos e as razões para o fazer. Se os retratos antigos documentam figuras cuja memória foi legitimada pela história, os de Marcelino introduzem no espaço museológico uma outra possibilidade: a de que qualquer rosto possa constituir matéria de memória. É uma operação discreta, mas politicamente significativa. Ao levar para o museu pessoas que, em muitos casos, não pertencem ao universo tradicional da representação institucional, o fotógrafo questiona quem merece ser visto, guardado e lembrado. A exposição acaba, por isso, por ser menos uma celebração da técnica do que uma reflexão sobre a permanência. O colódio húmido, com as suas imperfeições, densidades e acidentes, recusa a promessa de uma imagem absolutamente transparente. Há sempre uma camada de mistério entre o espectador e o retratado, nessa opacidade residindo a força do projecto. A exposição não pretende explicar os seus rostos. Prefere deixá-los existir, demoradamente, diante de nós. Num tempo em que quase tudo é fotografado para desaparecer logo depois, Nuno Marcelino faz do retrato um acto de resistência ao esquecimento.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

INSTALAÇÃO: “Cultura do Corpo: Edição Porto” | Augustas Serapinas



INSTALAÇÃO: “Cultura do Corpo: Edição Porto”,
de Augustas Serapinas
Curadoria | João Laia
Galeria Municipal do Porto
11 Jul > 11 Out 2026


Pelas mãos do artista visual Augustas Serapinas, uma vasta secção da Galeria Municipal do Porto está transformada, por estes dias, numa espécie de academia impossível, onde a história da arte e a cultura física se encontram sob o signo da repetição. “Cultura do Corpo: Edição Porto” parte de uma ideia simples, mas fértil: tanto o treino artístico tradicional como o exercício físico assentam na disciplina do corpo, na reprodução de gestos e na persistência como formas de aperfeiçoamento. A instalação põe essa genealogia em evidência sem a ilustrar de modo didáctico. Mais de sessenta réplicas da colecção de escultura do Museu Nacional Soares dos Reis ocupam o lugar que, num ginásio convencional, seria reservado aos pesos. Entre elas está “O Desterrado”, de Soares dos Reis, cuja presença introduz uma estranha solenidade no cenário de máquinas, exercícios e corpos em esforço. A operação tem uma dimensão cómica, mas o humor não desarma a questão central: que modelos de corpo, de beleza e de conhecimento continuam a ser reproduzidos pelas instituições? Serapinas não responde directamente. Prefere criar uma situação em que a própria arquitectura da exposição obriga o visitante a confrontar-se com essa herança e com os mecanismos de disciplina que a mantêm viva.

A força de Augustas Serapinas está, precisamente, em não tratar as esculturas como objectos intocáveis, mas como instrumentos dentro de uma nova coreografia. O visitante pode desenhar, treinar, correr ou praticar fisioculturismo. A exposição deixa de ser apenas algo que se contempla para se tornar uma estrutura que se activa com o uso. É uma escolha coerente com uma prática artística interessada nas funções dos espaços, nos seus códigos de acesso e nas hierarquias que normalmente passam despercebidas. A antiga Academia de Arte de Vilnius, onde Serapinas estudou, constitui aqui uma referência decisiva: o desenho de modelo vivo, a cópia de esculturas e o domínio laborioso das técnicas clássicas são colocados em paralelo com a rotina do ginásio. O título lituano, “Kūno kultūra”, acentua o jogo entre educação física e formação cultural. A provocação é eficaz porque desloca a ideia de Academia para um território simultaneamente familiar e absurdo. Há, contudo, um risco nesta estratégia: a analogia entre o treino artístico e o treino corporal pode tornar-se demasiado evidente, sobretudo quando a instalação assume a aparência literal de um ginásio. É a participação do público, e não a metáfora por si só, que impede que o projecto se esgote nesse jogo de correspondências.

É na sua inscrição no Porto que “Cultura do Corpo” ganha maior interesse. Ao substituir os objectos genéricos das versões anteriores por réplicas da colecção do Museu Nacional Soares dos Reis, Serapinas abandona a tentação de uma obra universal e aceita a resistência de um lugar concreto, com a sua história e os seus próprios cânones. A escultura académica portuguesa passa assim a integrar uma máquina crítica que não a ridiculariza nem a celebra inteiramente: expõe a autoridade dos seus modelos ao mesmo tempo que lhes altera a função. “O Desterrado”, convertido em equipamento de exercício, é a imagem mais eloquente dessa inversão. O corpo representado pelo escultor oitocentista deixa de ser apenas objecto de contemplação e passa a participar, indirectamente, no esforço dos corpos presentes. É uma imagem de grande poder, embora também revele a ambiguidade de uma exposição que depende fortemente da inteligência da sua premissa. Augustas Serapinas trabalha melhor quando permite que o absurdo material da situação produza pensamento sem o explicar em excesso. No Porto, essa estratégia encontra uma escala particularmente feliz: entre museu, academia e ginásio, a exposição pergunta quem educa o corpo, quem define a sua forma ideal e que modelos continuamos a repetir. A resposta, prudentemente, fica entregue ao “exercício” de cada visitante.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “The Journey of an Icon” | Thomas Hoepker



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “The Journey of an Icon”,
de Thomas Hoepker
Curadoria | Magda Pinto
Leica Gallery Porto
24 Jul > 24 Out 2026


Se há fotógrafos que parecem ter passado a vida à procura de uma imagem que melhor pudesse ajudar a compreender o mundo, Thomas Hoepker é um deles. “The Journey of an Icon”, exposição patente na Leica Gallery Porto até finais de Outubro, possibilita o encontro com esse olhar, ao longo de uma carreira que atravessou continentes, acontecimentos históricos, revoluções sociais e mudanças profundas na própria linguagem do fotojornalismo. A selecção, que inclui a série “American Road Trip” e outras imagens decisivas do seu percurso, vale menos como retrospectiva exaustiva do que como introdução a um método. Hoepker fotografava com a disciplina de quem sabia que uma boa imagem não nasce necessariamente do acontecimento extraordinário, mas da capacidade de reconhecer, no interior do banal, uma tensão, um gesto, uma relação entre as pessoas e o espaço em volta. É uma fotografia que raramente grita. Prefere observar. E essa contenção, longe de diminuir a força das imagens, imprime nelas uma estranha capacidade de permanência. Hoepker começou a trabalhar como repórter nos anos 60, passou pela Stern, dirigiu a fotografia da edição americana da Geo e viria a tornar-se, em 1989, membro pleno da Magnum Photos, da qual foi presidente entre 2003 e 2006.

É precisamente em “American Road Trip” que a inteligência do seu olhar se torna mais evidente. A viagem pelos Estados Unidos, realizada em 1963, não procura a América monumental nem a América do postal ilustrado, antes uma América feita de estradas, rostos, anúncios, viajantes, periferias e pequenos sinais de uma sociedade em constante mutação. Há aqui uma das virtudes essenciais de Hoepker: a capacidade de construir uma narrativa sem obrigar cada imagem a explicar-se por inteiro. Entre figura e fundo, entre proximidade e distância, entre humor e melancolia, as fotografias vivem de relações e revelam uma composição rigorosa sem ser ostensiva. A cor, que ganharia crescente importância na sua obra, não funciona como mero ornamento, mas como matéria narrativa. Mesmo quando fotografa figuras célebres, como Muhammad Ali, Hoepker parece menos interessado no ícone do que na pessoa que existe por detrás dele. O mesmo princípio atravessa as imagens de gente anónima: a dignidade do fotografado não é sacrificada à espectacularidade do acontecimento. É nesse equilíbrio entre informação, empatia e composição, que a sua obra encontra uma modernidade que ainda hoje surpreende e fascina.

Mas o verdadeiro interesse desta exposição dedicada a Hoepker está também naquilo que as suas fotografias nos obrigam a questionar. Poucos exemplos serão tão perturbadores como a imagem realizada em Nova Iorque, a 11 de Setembro de 2001, com o World Trade Center em chamas ao fundo enquanto um grupo de pessoas dialoga em primeiro plano, de forma aparentemente tranquila. Hoepker decidiu inicialmente não publicar a fotografia, por considerar que o momento exigia outra reserva; quando a imagem surgiu, anos depois, abriu-se uma discussão que ultrapassou largamente a fotografia: aquilo que se vê corresponde ao que realmente estava a acontecer? Pode uma imagem isolada explicar um acontecimento? Até que ponto o fotógrafo controla o sentido daquilo que fotografa? São perguntas particularmente adequadas ao legado de Hoepker e que provam que a sua obra nunca dependeu apenas do impacto imediato. “The Journey of an Icon” recorda-nos, assim, que o fotógrafo documental não é um simples espectador neutro: escolhe, enquadra, aproxima-se, afasta-se e, ao fazê-lo, constrói uma versão do real. É talvez por isso que estas fotografias continuam a resistir ao tempo. Mais do que conservar uma época, Hoepker ensina-nos a desconfiar da primeira leitura de uma imagem e a olhá-la uma segunda vez.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves”,



EXPOSIÇÃO: “Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves”,
de Darren Almond, Tommy Ballestrem, Georg Baselitz, Isaak Brodski, Roman Buxbaum, Leon Delarbre, Jake e Dinos Chapman, Cerith Wyn Evans, Theaster Gates, Gilbert & George, Antony Gormley, Francisco de Goya, Peter Gut, Damien Hirst, Zhang Huan, Stefan Hunstein, Anselm Kiefer, Alfred Kremer, Michael Landy, Konrad Lueg, Markus Lüpertz, Raoef Mamedov, Hermann Nitsch, Haralampi G. Oroschakoff, Blinky Palermo, A.R. Penck, Sigmar Polke, Gerhard Richter, Sam Taylor-Johnson, Matthias Wähner, Carl-Heinz Wegert, Rémy Zaugg
Curadoria | Marta Moreira de Almeida
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
15 Mai > 01 Nov 2026


“Vexation of Spirit”, conjunto de trinta e sete obras de dezanove artistas provenientes da Coleção Duerckheim, em depósito na Fundação de Serralves, é uma exposição que promete não deixar ninguém indiferente. Não porque os assuntos que aborda sejam, maioritariamente, a guerra, a religião ou os totalitarismos - temas que nunca abandonaram verdadeiramente a arte contemporânea -, mas pela forma como contraria a ideia, hoje tão difundida, de que a História é um objecto acabado. Percebemos isso ao percorrer a exposição, na medida em que ela nos permite ver que o passado não está atrás de nós; habita-nos. As imagens que julgávamos encerradas nos livros regressam sob a forma de matéria, cinza, chumbo, corpos mutilados, livros queimados, devastação e silêncio. No seu conjunto, ajudam-nos a compreender que coleccionar não consiste em acumular objectos, mas em construir uma gramática do que inquieta. Christian Duerckheim, o aristocrata que, ao longo das últimas quatro décadas, conseguiu reunir uma colecção admirável a todos os títulos, recusa a ideia da obra-prima enquanto troféu; interessa-lhe antes a obra como testemunha. Não procura aquilo que tranquiliza o olhar, mas aquilo que o desassossega. É por isso que esta primeira apresentação pública da colecção em Serralves possui uma importância que ultrapassa largamente o enriquecimento do acervo do Museu, ao oferecer uma hipótese de leitura do nosso tempo.

Retirada do Eclesiastes, a expressão que dá título à exposição paira sobre todo o percurso como uma espécie de aviso. Ao definir um estado interior, “Vexation of Spirit” descreve também uma condição histórica. Vivemos rodeados por imagens, mas talvez nunca tenhamos visto tão pouco. A sucessão vertiginosa da actualidade dissolve a memória antes mesmo de ela se sedimentar. A arte responde a essa vertigem de maneira oposta: desacelera. Kiefer cobre os livros de chumbo porque sabe que o conhecimento tem peso; Zhang Huan pinta com cinzas porque compreende que toda a espiritualidade deixa resíduos materiais; Darren Almond filma a espera diante de Auschwitz porque sabe que há lugares onde a ausência diz mais do que qualquer representação da violência. Nenhuma destas obras explica a História. Limitam-se a colocá-la diante de nós, com uma insistência quase física. Nisto reside o verdadeiro desígnio da arte: recusar-se a servir de mera ilustração dos acontecimentos, antes impedir que o esquecimento os transforme em paisagem.

É curioso verificar como muitas destas obras, realizadas há vinte ou trinta anos, parecem ter sido concebidas para este preciso momento. Não porque antecipassem os conflitos do presente, mas porque compreenderam algo de permanente na natureza humana: a facilidade com que a violência muda de rosto sem alterar a sua lógica. Não é frequente encontrar uma exposição que permita pensar, ao mesmo tempo, Kiefer, Blake, Goya, o Eclesiastes, Adorno e a cultura visual contemporânea. Por outro lado, as vitrinas infernais dos irmãos Chapman, o laboratório mortuário de Damien Hirst ou as palavras secas de Gilbert & George deixaram de pertencer apenas ao imaginário da provocação dos anos noventa. Hoje, depois da Ucrânia, de Gaza e da normalização quotidiana da barbárie transmitida em directo pelas televisões, perderam o estatuto de alegorias para adquirirem uma desconfortável proximidade documental. Num mundo entregue à velocidade dos algoritmos, à tirania da opinião instantânea e ao conforto das convicções fáceis, “Vexation of Spirit” recorda-nos que pensar continua a ser um acto que exige tempo. Creio que reside aqui, afinal, a mais discreta e mais radical das lições desta extraordinária exposição.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

LUGARES: Centro de Memória de Vila do Conde



LUGARES: Centro de Memória de Vila do Conde
Largo de S. Sebastião, Vila do Conde
Horários | De terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00
Ingressos | € 2,00 (bilhete normal)


No coração de Vila do Conde, o Centro de Memória ocupa a histórica Casa de S. Sebastião, um solar brasonado do século XVII que ganhou uma nova vida como espaço de cultura, conhecimento e encontro. A casa deve o seu nome à antiga capela de S. Sebastião, que lhe era fronteira e que foi transferida, em 1853, para o cemitério municipal, na sequência da abertura da Estrada Real, actual Estrada Nacional 13. Uma escritura conservada no Arquivo Municipal comprova que o imóvel mudou de proprietário já em 11 de Abril de 1672. O brasão, colocado em meados do século XVIII, testemunha a presença das famílias Pereira, Rangel, Coutinho e Carneiro. Durante décadas, o edifício esteve ligado à vida da cidade, tendo acolhido a Biblioteca Municipal entre 1979 e 2001. Adquirida pela Câmara Municipal em 2000, a Casa de S. Sebastião foi alvo de uma profunda intervenção de recuperação e ampliação, dando origem ao actual Centro de Memória, inaugurado em 14 de Dezembro de 2008. O projecto de reabilitação, com assinatura do arquitecto Maia Gomes, foi reconhecido com o prémio IRHU e o Prémio Nacional de Arquitectura Alexandre Herculano, além da nomeação para o Prémio Secil.

Mais do que um edifício recuperado, o Centro de Memória é hoje uma estrutura cultural dedicada essencialmente à arte e à história, onde diferentes áreas de investigação, conservação, exposição e divulgação se cruzam para interpretar e preservar a memória de Vila do Conde. O Arquivo Municipal, com documentação que se estende da Idade Média à actualidade, dispõe de espaços de consulta, tratamento e conservação, assegurando a salvaguarda de um património documental fundamental para o conhecimento do território e das suas gentes. A seu lado funciona o Gabinete Municipal de Arqueologia, responsável por projectos de investigação, conservação e divulgação do património arqueológico concelhio, com destaque para trabalhos como os desenvolvidos na Cividade de Bagunte ou no Castro de S. Paio. O Centro acolhe ainda o núcleo central do Museu de Vila do Conde, articulado com os restantes núcleos museológicos municipais, e a Galeria e Centro de Estudos Júlio-Saúl Dias. Exposições temporárias, música, teatro, dança, actividades pedagógicas e iniciativas de investigação completam uma programação que faz deste espaço um lugar de produção e fruição cultural, aberto aos mais diversos públicos.

A exposição permanente “Vila do Conde. Tempo e Território” constitui, por sua vez, uma das principais portas de entrada na história do concelho. Distribuída por dezanove salas, propõe uma viagem por milhares de anos de ocupação humana, acompanhando processos históricos e transformações sociais e culturais que contribuíram para formar a identidade de Vila do Conde. Objectos, documentos e testemunhos materiais ajudam a compreender a relação entre as comunidades e o território, do passado mais remoto à contemporaneidade, numa narrativa que procura aproximar a história dos seus visitantes. Fora das salas de exposição, o Centro de Memória prolonga-se pelos jardins, numa área de cerca de 7 000 metros quadrados que acrescenta ao equipamento uma dimensão de lazer e convivência. A cafetaria, a loja, o Espaço Internet, as áreas destinadas a actividades educativas e o Centro de Pedagogia Ambiental reforçam essa vocação de espaço aberto à comunidade. Entre a preservação da memória e a criação contemporânea, entre o estudo e a fruição, a antiga Casa de S. Sebastião afirma-se, assim, como uma das referências culturais de Vila do Conde: um lugar onde a história não permanece imóvel, mas é continuamente investigada, vivida e sentida.

domingo, 16 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Interseções" | Júlio-Saúl Dias



EXPOSIÇÃO: “Interseções: em torno da expressão artística. Pintura, desenho, dança, música e poesia na obra de Julio”,
de Júlio-Saúl Dias
Curadoria | Bernardo Pinto de Almeida, Laura Garrido e Caetano
Centro de Memória de Vila do Conde
21 Mar > 27 Set 2026


Há exposições que confirmam as nossas expectativas e outras que as desmentem pelas melhores razões, ao descobrirmos nelas algo de mais estimulante. Está neste último caso “Interseções: em torno da expressão artística. Pintura, desenho, dança, música e poesia na obra de Julio”, patente no Centro de Memória de Vila do Conde. Quem, como eu, ali entrar à procura do pintor Julio, e sobretudo do artista de recorte mais assumidamente surrealista, começará por estranhar a presença dominante do desenho. São muitos os desenhos, frequentemente organizados em séries, por vezes insistindo sobre uma mesma figura, um mesmo gesto ou uma mesma situação, como se o artista necessitasse de voltar sucessivamente ao papel para fixar aquilo que a pintura, pela sua própria natureza, tornaria mais definitivo. Ao longo de cento e sessenta e três obras, entre pinturas, desenhos, manuscritos, publicações e objectos do atelier, “Interseções” revela um Julio menos compartimentado do que a memória que dele guardamos. A mostra, com curadoria de Bernardo Pinto de Almeida e Laura Garrido e Caetano, não se limita a reunir peças de diferentes períodos: propõe uma leitura capaz de fazer perceber como, em mais de cinco décadas de actividade, a pintura e o desenho foram mantendo entre si uma relação de permanente contaminação.

A surpresa maior está, por isso, em perceber que aqueles desenhos que à partida poderiam parecer estudos, apontamentos ou exercícios de uma outra ordem são, afinal, uma espécie de território onde as várias dimensões da criação de Julio se encontram. A linha pode sugerir o movimento de um corpo, a cadência de um gesto, a repetição de uma frase musical ou a atmosfera de um poema. Há uma evidente vocação coreográfica em muitas dessas figuras, uma atenção ao corpo e à sua transformação que aproxima o desenho da dança; há também uma dimensão rítmica, quase musical, na sucessão das formas e na maneira como o artista explora a repetição, a variação e o silêncio. E há a literatura, não apenas porque Saúl Dias foi também poeta, mas porque palavra e imagem parecem nascer, em diversos momentos, de uma mesma necessidade expressiva. A organização da exposição em quatro núcleos — pintura e desenho, dança, poesia e música — evita uma leitura cronológica e favorece justamente esse trânsito entre linguagens. A “Revista de Baltar”, realizada em 1914 com José Régio, a correspondência e as publicações poéticas, o óleo de 1918 que agora volta a ser mostrado e até o bandolim do século XIX, exposto pela primeira vez, funcionam menos como curiosidades do que como peças de um mesmo universo. É nesse cruzamento que Julio ganha uma outra espessura: a do artista que não cabe inteiramente numa disciplina e cuja obra parece pedir que se escute o que se vê.

Nisto reside a grande virtude de “Interseções”: devolver a Julio a complexidade que a própria designação de pintor, por mais justa que seja, acaba por ocultar. A exposição encontra na Galeria Julio, instalada no Centro de Memória, um lugar particularmente feliz para essa revisitação. A cidade está profundamente ligada à preservação e à divulgação da sua obra, e as salas que lhe são dedicadas constituem não apenas um espaço de memória, mas uma presença cultural que permite olhar para Julio com continuidade e proximidade. “Interseções” aproveita essa relação para propor um percurso que não pretende encerrar a obra numa explicação única. Pelo contrário: deixa que as linguagens se aproximem, se contaminem e, por vezes, se confundam. O visitante que, como aconteceu comigo, chega à exposição em busca da pintura, sai com a sensação de ter descoberto várias portas de entrada para ela. Porque os desenhos não são aqui um parêntesis nem uma margem da obra pictórica: são a sua maior chave. Na simplicidade de uma linha ou na complexidade de uma composição, no corpo que parece dançar, no ritmo que a imagem sugere ou na palavra que permanece próxima, reconhece-se afinal o mesmo artista. Um artista para quem criar foi, acima de tudo, uma forma de estabelecer relações entre o visível e o imaginado, entre a mão e o pensamento. Entre a pintura, o desenho, a dança, a música e a poesia.

sábado, 15 de agosto de 2026

LIVRO: “Jardins Secretos de Lisboa” | Manuela Gonzaga



LIVRO: “Jardins Secretos de Lisboa”,
de Manuela Gonzaga
Edição | Manuel S. Fonseca
Ed. Gradiva Publicações, Maio de 2026


“E foi assim que fez constar que a base de licitação para a primeira noite com a rapariga era de quinhentos contos de réis. A soma era tão disparatada que no “casino” começaram a aparecer frequentadores que já não visitavam a casa há muito tempo, só para verem, ao vivo, a rapariga que levara Brigite a perder a noção das realidades. O facto é que a notícia agitou Lisboa numa onda sísmica de conversas picantes, com epicentro na Baixa e no Chiado. Do Parque Mayer ao Gambrinus, do Tavares Rico ao Paraíso, o assunto era comentado, discutido, analisado, em almoços e jantares, e os ecos deste escândalo puseram as putas finas do Nina, um cabaré junto ao S. Carlos, a chorar de tanto rir.”

Que bom voltar a cruzar-me com Manuela Gonzaga e com a elegância da sua escrita, o seu olhar arguto, a sua capacidade notável de tornar essencial o que não passaria de acessório ao leitor menos disponível. Dos primórdios da sua carreira de escritora chega-nos, à boleia de uma muito saudada reedição, “Jardins Secretos de Lisboa”, um romance que reforça o gosto da escritora pelas vidas de gentes e lugares e que nos aproxima de uma Lisboa algures entre os anos 60 e o início do novo milénio. Sob a cidade visível, o romance parece abrir uma complexa cartografia, feita de memórias, desejos, ruínas e personagens que sobrevivem nas margens da história que nos ensinam. Alice, fotógrafa desiludida e afastada da sua própria vocação, reencontra Jorge, homem de língua ferina, libertino e desconcertante, que a conduz por uma Lisboa luminosa e decadente, sensual e melancólica, onde o passado teima em persistir. O percurso amoroso depressa se transforma numa descida aos subterrâneos da cidade e, simultaneamente, aos subterrâneos de si própria. A cidade deixa de ser apenas cenário, para se transformar num organismo vivo, arquivo e espelho em simultâneo. De simples lugares reconhecíveis, Chiado, Baixa, Rossio, Restauradores, Cais do Sodré ou Avenida da Liberdade convertem-se em espaços de iniciação. Os jardins são secretos porque pertencem àquilo que a cidade esconde e porque, no fundo, guardam um território íntimo ao qual nem sempre as personagens conseguem regressar.

É na escrita que o romance encontra uma das suas forças mais evidentes. Manuela Gonzaga escreve com uma fluidez desarmante, baseada numa construção narrativa de grande precisão. A frase pode ser directa, coloquial, irónica, para logo se abrir numa imagem de inesperada intensidade. O diálogo inicial entre Alice e Jorge é exemplar: o jogo de recusas - “Vamos jantar hoje?”, “Não.”; “Então, vamos almoçar amanhã.”, “Não.” - instala de imediato ritmo, carácter e tensão, sem necessidade de explicações. Jorge entra na narrativa pela fala, e a sua fala é como uma lâmina: provoca, seduz, agride, diverte. Alice, pelo contrário, observa, resiste, recorda. graças a esse contraste, o leitor é puxado para o cerne da história. A certa altura, a narradora confessa que Jorge “usava, e usa, as palavras como facas”, definição que poderia servir, por extensão, para caracterizar a própria autora: também Manuela Gonzaga sabe manejar a palavra como instrumento de revelação, denotando uma notável capacidade de transformar o banal em matéria literária. Uma ida de Metro, um almoço, uma passagem por uma ginjinha, um baile na Avenida da Liberdade tornam-se episódios de descoberta. A cidade mostra-se de soslaio e pisca o olho a Alice, cujo olhar fotográfico selecciona, enquadra, fixa. Só que, neste caso, a imagem faz-se de palavras.

Há em “Jardins Secretos de Lisboa” qualquer coisa de familiar, uma sensação singular de reconhecimento, mesmo se o leitor é conduzido a lugares ocultos ou a histórias que fazem parte de uma Lisboa entretanto desaparecida. A elegância de Manuela Gonzaga nasce precisamente dessa capacidade de fazer conviver o íntimo e o colectivo, as recordações pessoais e a memória de toda uma cidade. O passado de Alice, a história do pai fotógrafo, o incêndio, a perda da fotografia, o casamento desfeito e as imagens difusas de Luanda entrelaçam-se com a transformação urbana e política de Portugal, criando um romance onde a intimidade permanece lado a lado com a História. A própria reflexão sobre a fotografia explicita essa poética: “é preciso saber [...] que, às vezes, até o olhar nos engana.” É uma frase que poderia servir de chave para todo o livro. Porque também a escrita de Manuela Gonzaga refracta a realidade: desvia-a, altera-lhe o ângulo, acrescenta-lhe sombras e devolve-a mais nítida. Lisboa surge assim como uma cidade de camadas, cujos lugares perdidos permanecem inscritos na memória de quem os viveu. Quando Alice contempla os jardins abandonados, o lago desaparecido, as árvores do Jardim Botânico e os prédios que deixaram de ser os mesmos, o leitor é convidado a fazer a mesma viagem e a descobrir o que permanecia oculto. “Jardins Secretos de Lisboa” faz-nos sentir que estamos a revisitar lugares esquecidos, mesmo se nunca lá estivemos. E fá-lo sem nostalgias fáceis, antes com a consciência de que toda a memória é também uma forma de ficção e que, por vezes, só a ficção consegue devolver à vida o que o tempo julgou perdido.