Pelas mãos do artista visual Augustas Serapinas, uma vasta secção da Galeria Municipal do Porto está transformada, por estes dias, numa espécie de academia impossível, onde a história da arte e a cultura física se encontram sob o signo da repetição. “Cultura do Corpo: Edição Porto” parte de uma ideia simples, mas fértil: tanto o treino artístico tradicional como o exercício físico assentam na disciplina do corpo, na reprodução de gestos e na persistência como formas de aperfeiçoamento. A instalação põe essa genealogia em evidência sem a ilustrar de modo didáctico. Mais de sessenta réplicas da colecção de escultura do Museu Nacional Soares dos Reis ocupam o lugar que, num ginásio convencional, seria reservado aos pesos. Entre elas está “O Desterrado”, de Soares dos Reis, cuja presença introduz uma estranha solenidade no cenário de máquinas, exercícios e corpos em esforço. A operação tem uma dimensão cómica, mas o humor não desarma a questão central: que modelos de corpo, de beleza e de conhecimento continuam a ser reproduzidos pelas instituições? Serapinas não responde directamente. Prefere criar uma situação em que a própria arquitectura da exposição obriga o visitante a confrontar-se com essa herança e com os mecanismos de disciplina que a mantêm viva.
A força de Augustas Serapinas está, precisamente, em não tratar as esculturas como objectos intocáveis, mas como instrumentos dentro de uma nova coreografia. O visitante pode desenhar, treinar, correr ou praticar fisioculturismo. A exposição deixa de ser apenas algo que se contempla para se tornar uma estrutura que se activa com o uso. É uma escolha coerente com uma prática artística interessada nas funções dos espaços, nos seus códigos de acesso e nas hierarquias que normalmente passam despercebidas. A antiga Academia de Arte de Vilnius, onde Serapinas estudou, constitui aqui uma referência decisiva: o desenho de modelo vivo, a cópia de esculturas e o domínio laborioso das técnicas clássicas são colocados em paralelo com a rotina do ginásio. O título lituano, “Kūno kultūra”, acentua o jogo entre educação física e formação cultural. A provocação é eficaz porque desloca a ideia de Academia para um território simultaneamente familiar e absurdo. Há, contudo, um risco nesta estratégia: a analogia entre o treino artístico e o treino corporal pode tornar-se demasiado evidente, sobretudo quando a instalação assume a aparência literal de um ginásio. É a participação do público, e não a metáfora por si só, que impede que o projecto se esgote nesse jogo de correspondências.
É na sua inscrição no Porto que “Cultura do Corpo” ganha maior interesse. Ao substituir os objectos genéricos das versões anteriores por réplicas da colecção do Museu Nacional Soares dos Reis, Serapinas abandona a tentação de uma obra universal e aceita a resistência de um lugar concreto, com a sua história e os seus próprios cânones. A escultura académica portuguesa passa assim a integrar uma máquina crítica que não a ridiculariza nem a celebra inteiramente: expõe a autoridade dos seus modelos ao mesmo tempo que lhes altera a função. “O Desterrado”, convertido em equipamento de exercício, é a imagem mais eloquente dessa inversão. O corpo representado pelo escultor oitocentista deixa de ser apenas objecto de contemplação e passa a participar, indirectamente, no esforço dos corpos presentes. É uma imagem de grande poder, embora também revele a ambiguidade de uma exposição que depende fortemente da inteligência da sua premissa. Augustas Serapinas trabalha melhor quando permite que o absurdo material da situação produza pensamento sem o explicar em excesso. No Porto, essa estratégia encontra uma escala particularmente feliz: entre museu, academia e ginásio, a exposição pergunta quem educa o corpo, quem define a sua forma ideal e que modelos continuamos a repetir. A resposta, prudentemente, fica entregue ao “exercício” de cada visitante.