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domingo, 9 de agosto de 2026

LUGARES: Sacra Capilla del Salvador | Úbeda



LUGARES: Sacra Capilla del Salvador
Plaza Vásquez de Molina, Úbeda
Horários | De segunda-feira a sábado, das 09h30 às 14h30 e das 16h30 às 20h00; domingos, das 12h00 às 14h30 e das 16h30 às 20h00
Ingressos | € 7,00, bilhete normal


Perante a magnífica Capela do Salvador, em Úbeda, é inevitável que o visitante se interrogue sobre o monumental edifício que tem à sua frente. Não se trata apenas de uma jóia renascentista, antes de uma igreja através da qual Francisco de los Cobos quis contar a sua própria história. Façamos o exercício de imaginar a cidade medieval que foi a Úbeda do século XVI, apertada entre ruas e casas erguidas de forma desordenada e, entre os seus habitantes, este homem que, vindo de uma família fidalga mas sem grande fortuna, irá ascender ao lugar de secretário principal de Carlos V, seu conselheiro e homem da maior confiança. Quando viaja com o Imperador por Itália, Cobos descobre uma arquitectura nova, inspirada na Antiguidade clássica, e percebe que o poder também se demonstra através da pedra. Começa então a transformar uma zona da cidade que lhe é particularmente querida: amplia o palácio familiar, intervém no hospital e decide erguer aqui o seu enorme panteão. Se repararmos na posição da Capela, vemos que está isolada, diante de uma grande praça, como se de um palco se tratasse. Mais do que ser sepultado, Cobos queria ser lembrado. Queria que a sua família, o seu poder e a sua ligação ao Imperador ficassem inscritos na paisagem de Úbeda. É com essa ideia em mente que nos propomos franquear a portada lateral. Tudo o que veremos daqui em diante - a arquitectura, as esculturas, os símbolos, a própria forma como o olhar é conduzido - é parte decisiva de uma enorme encenação da memória.

Entremos, pois, e deixemos o espaço falar. Ao atravessarmos a nave, sentimo-nos atraídos para um grande abertura que domina o fundo. Trata-se da rotonda, o espaço funerário dos fundadores, e é aqui que o arquitecto Diego de Siloé nos prepara uma das grandes surpresas da Capela do Salvador. A planta junta dois modelos muito antigos: a basílica, representada pela nave onde estão os fiéis, e a construção circular, associada ao mundo funerário e ao Panteão de Roma. Siloé conhecia a arquitectura italiana e trouxe para Úbeda esse gosto pela geometria, pela proporção e pelos grandes espaços clássicos. Reparemos nas colunas coríntias e nos arcos que percorrem a igreja. Tudo parece muito ordenado, muito racional. Mas, ao mesmo tempo, há aqui um certo sentido de espectáculo. A nave parece estreitar-se e, depois, a rotonda abre-se diante de nós. É quase um efeito teatral do século XVI. E se olharmos para cima, veremos como a grande cúpula de caixotões reforça essa sensação. Estamos, de certa forma, perante uma versão ubetense do Panteão de Roma. Mas há ainda outro detalhe curioso: aquele entablamento que percorre as paredes não servia apenas para criar beleza. Tinha uma função prática, permitindo a circulação no alto e até a instalação de músicos. Ou seja, esta arquitectura magnífica era também uma máquina muito bem pensada para funcionar.

Agora que já percebemos o espaço, comecemos a ler as paredes. E digo “ler” de propósito, porque esta capela está cheia de mensagens. O homem que ajudou a definir este grande programa foi o deão Fernando Ortega, e o seu pensamento estava profundamente marcado pelo humanismo do Renascimento. Aqui encontramos uma tentativa fascinante de aproximar o mundo clássico, a tradição judaica e o cristianismo. Veja-se, por exemplo, a porta que conduz à sacristia. É uma das grandes obras-primas da arte do corte da pedra de Andrés de Vandelvira. Nas portadas encontramos referências à Lei, aos Profetas, à religião judaica e à fé cristã. Na sacristia, sibilas e figuras da Antiguidade misturam-se com anjos e imagens do fim dos tempos, formando um enorme puzzle teológico, político e cultural. E olhemos depois para o conjunto superior: César Augusto, a Virgem e a Sibila Cumana. A história contada é curiosa: Augusto, depois de conquistar o mundo, pergunta à Sibila se poderá existir alguém superior a ele. E a resposta é uma visão da Virgem com o Menino. A mensagem é clara: até o imperador romano deve reconhecer a superioridade de Cristo. Mas há aqui uma pequena provocação visual. Se olharmos para Augusto com atenção, perceberemos que a coroa, o manto e o colar do Tosão de Ouro fazem lembrar Carlos V. É como se o primeiro grande imperador de Roma tivesse encontrado o seu sucessor ideal no Imperador do século XVI.

É chegado o momento em que toda esta história converge: o altar-mor, obra concebida por Alonso Berruguete que nos fala de Cristo e da Transfiguração no Monte Tabor. A escolha do tema é absolutamente fundamental. Segundo o Evangelho, Cristo sobe ao monte acompanhado por Pedro, Tiago e João e, diante deles, revela a sua natureza divina. Surgem Moisés e Elias, representantes da Lei e dos Profetas, e uma voz proclama a identidade de Jesus. Percebemos então a lógica de toda a Capela: Cristo é o Salvador anunciado desde o Antigo Testamento e a Transfiguração é o momento em que essa verdade se revela. Berruguete, que conhecera em Itália a arte de mestres como Miguel Ângelo, não imaginou uma cena tranquila. Pelo contrário: as figuras parecem agitar-se, torcer-se, quase saltar para fora do retábulo. Infelizmente, quando olhamos hoje para o conjunto, estamos também a olhar para uma história de destruição e reconstrução. Durante a Guerra Civil, o retábulo foi praticamente arrasado. Apenas a figura de Cristo sobreviveu. Décadas depois, entre 1955 e 1969, Juan Luis Vassallo reconstruiu as figuras desaparecidas, estudando fotografias e documentos e tentando recuperar o espírito da obra original. E há ainda uma última camada: a decoração barroca do século XVIII. As paredes ganharam dourados, pinturas e esculturas, os caixotões foram pintados e o espaço tornou-se muito mais exuberante. Hoje vemos, portanto, várias épocas sobrepostas - e é precisamente isso que torna esta capela tão interessante.

Antes de sairmos, façamos uma derradeira pausa. Fixemos novamente o olhar na rotonda, na cúpula, nos arcos, na cena da Transfiguração e pensemos no homem que imaginou tudo isto. Francisco de los Cobos morreu em 1547, antes de ver a sua capela concluída. Foi a sua mulher, María de Mendoza, quem continuou a obra e levou o projecto até à consagração, em 1559. Os fundadores acabaram por ser sepultados numa discreta cripta sob o presbitério, o que não deixa de ser curioso. Depois de tanta arquitectura, tanto mármore, tanta escultura e tantos símbolos, os restos mortais de Cobos e María estão depositados debaixo dos nossos pés. O verdadeiro túmulo de Cobos é, afinal, a própria cidade. Basta sairmos para a Praça Vázquez de Molina para percebermos como tudo se articula: a capela, o palácio, o espaço urbano. Cobos quis transformar a sua memória numa paisagem. E conseguiu. Cinco séculos depois, continuamos a entrar aqui, a elevar os olhos para a cúpula, a perguntar quem foram aquelas figuras e porque se encontram ali colocadas. Era exactamente isso que Francisco de los Cobos desejava quando escreveu que os homens procuram perpetuar a sua existência através da memória. Portanto, ao abandonarmos o espaço, não estamos simplesmente a deixar para trás uma igreja. Estamos a sair de dentro de uma ideia - uma ideia muito renascentista, muito ambiciosa e, sobretudo, muito humana: a de que um dia desapareceremos, mas aquilo que construirmos poderá continuar a falar por nós.

sábado, 8 de agosto de 2026

LIVRO: "A Península das Casas Vazias" | David Uclés



LIVRO: “A Península das Casas Vazias”,
de David Uclés
Título original | “La península de las casas vacías”, © 2024, David Uclés
Tradução | J. Teixeira de Aguilar
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Março de 2026 (2.ª edição, Maio de 2026)


“A caminhada foi longa e fastidiosa, como acontecia com as procissões noturnas. Embora o cortejo terminasse no campo-santo, o costume era poisar antes disso o ataúde na igreja, onde o padre celebrava uma missa corpore insepulto, mas como o templo tinha sido destruído pelas chamas na noite anterior, e estando a igreja pequena a abarrotar com os santos e o material litúrgico que se tinham conseguido salvar de entre as ruínas da igreja maior, decidiram ir diretamente para o cemitério. Parara a meio do caminho, num terreno que pertencia à Igreja, uma eira povoada de figueiras selvagens, e ali improvisou Don Robustiano um breve ofício à luz dos círios que os familiares levavam. Eram tantos os brandões, e tão juntos entre si, que os corpos, de respirar o ar cálido daquelas pequenas chamas, começaram a suar cera.”

É uma felicidade podermos abraçar um livro e ver como é capaz de tocar todas as cordas da nossa essência, ao mesmo tempo que se revela, mais do que uma história, um espelho, um refúgio e um sinal que, do alto, nos acompanha e nos guia. “A Península das Casas Vazias” pertence a esta casta rara de livros. Tomando como pano de fundo a Guerra Civil de Espanha, o romance é uma reflexão sobre a persistência invisível da guerra muito para além do calar das armas. David Uclés escolhe uma família de camponeses andaluzes como se escolhesse um grão de areia para falar do deserto inteiro: na lenta desagregação dos Ardolento espelha-se a fragmentação de uma Península que nunca mais voltará a reconhecer-se plenamente. Os grandes episódios da guerra cruzam-se com figuras históricas, escritores, militares e artistas, sem que David Uclés perca de vista o modo como a violência modifica o destino dos homens e transforma as casas em ruínas antes mesmo de ver derrubadas as suas paredes. O título revela-se, por isso, de uma admirável justeza simbólica. As casas vazias não o são apenas porque perderam os seus habitantes; são também aquelas onde a palavra deixou de o ser, onde a memória se viu substituída pelo medo e onde o esquecimento se tornou numa outra forma de morte.

“A Península das Casas Vazias” nasce desse intervalo entre a memória e o silêncio. A história da família Ardolento, perdida entre os olivais de Jándula - lugar imaginário que, por isso mesmo, é uma representação de todos os lugares -, é apenas a superfície visível de um movimento muito mais profundo: o da lenta desagregação de uma comunidade que descobre, demasiado tarde, que uma guerra civil nunca divide apenas dois exércitos. Divide uma língua, uma leira, um cortiço, uma infância, uma amizade, uma forma de habitar o mundo. Não se trata aqui de reconstituir o passado ou de o julgar, já que o passado não deixa de se fazer presente. É vê-lo inscrito nas casas abandonadas, nas palavras que deixaram de ser pronunciadas, nos gestos herdados sem que perceba a sua origem. A Península que David Uclés percorre é mais do que um território: é uma consciência fragmentada em permanente busca de reconciliação consigo própria, certa de que a História não se faz apenas de datas e batalhas, mas sobretudo de ausências, juntando vencedores e vencidos num mesmo cadinho que uma tragédia maior se encarregou de amalgamar.

O realismo mágico surge aqui mais como necessidade ontológica do que como filiação literária. Há acontecimentos que o realismo, sozinho, não seria capaz de nomear. Quando a História atinge uma intensidade extrema, a realidade parece deslocar-se para uma zona onde o impossível deixa de constituir excepção. Assim, homens que permanecem décadas suspensos num instante, gravidezes que duram toda uma guerra, lágrimas que possuem a cor da emoção ou vulcões que rasgam a Península, deixam de ser imagens fantásticas para se tornarem metáforas de uma verdade mais funda. O maravilhoso e o fantástico não corrigem a História; revelam antes aquilo que nela permanece invisível. A imaginação converte-se, paradoxalmente, na forma mais rigorosa de fidelidade ao real. Aquilo que destrói uma comunidade não é apenas a violência dos factos, mas também a incapacidade da linguagem para os conter. Aquilo que David Uclés faz não é inventar um mundo alternativo, antes mostrar-nos que o mundo conhecido é ainda mais estranho do que supúnhamos.

Mas aquilo que verdadeiramente distingue este romance tem a ver com a forma como o narrador escolhe posicionar-se. Há muito que a literatura contemporânea desconfia da figura de uma voz omnisciente. David Uclés recupera-a para a transformar noutra coisa. O narrador sabe que conta uma história, sabe que a constrói, sabe que interfere no destino das personagens e, mais surpreendente ainda, permite que elas o saibam também. Não se trata de um simples jogo metaliterário. Ao entrar na narrativa, não reivindica autoridade; aceita a fragilidade de quem sabe que nenhuma versão da História é definitiva. Também por isso, o romance deixa de ser apenas uma narrativa sobre a Guerra Civil de Espanha para se converter numa reflexão sobre a condição peninsular. David Uclés parece compreendê-lo quando substitui discretamente a ideia de Espanha pela de Península, como se procurasse um espaço anterior às fronteiras políticas e mais próximo de uma memória partilhada. As casas vazias deixam de ser apenas as casas destruídas pela guerra. São as moradas interiores que abandonamos sempre que a História prefere o esquecimento à compreensão, a identidade ao encontro, a certeza à dúvida. Porque nenhuma civilização sucumbe apenas quando desaparecem os seus vivos. Ela começa a desaparecer no momento em que decide ignorar as perguntas que os mortos não cessam de lhe dirigir.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Wrong Answers” | Jenny Holzer



EXPOSIÇÃO: “Wrong Answers”,
de Jenny Holzer
Curadoria | Philippe Vergne
Museu e Biblioteca de Serralves
18 Jun > 01 Nov 2026


A retrospectiva “Wrong Answers”, patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, confirma aquilo que há muito distingue Jenny Holzer no panorama da arte contemporânea: a capacidade de transformar a linguagem num campo de batalha. Desde finais da década de setenta que a artista desloca as palavras do território confortável da leitura para o espaço físico, obrigando-as a disputar a nossa atenção em cartazes, painéis electrónicos, bancos de pedra ou projecções monumentais. Contudo, a exposição não se limita a revisitar esse percurso; propõe antes uma leitura sombria do presente, marcada pela erosão da confiança na linguagem. Se os célebres “Truisms” nasceram para desmontar lugares-comuns e expor a fragilidade das certezas ideológicas, hoje essas mesmas frases regressam a um mundo onde a circulação incessante da informação já não esclarece, antes obscurece. A exposição revela uma artista que compreendeu cedo que o poder político reside tanto naquilo que se diz como naquilo que se omite. Em Serralves, essa intuição ganha uma actualidade inquietante: censura, manipulação, desinformação e automatização da palavra surgem como sintomas de uma cultura em que a velocidade da comunicação anulou grande parte da sua capacidade de significar. Jenny Holzer não oferece respostas; limita-se, como sempre fez, a colocar a linguagem diante de si própria, revelando as suas contradições e a violência silenciosa que frequentemente encerra.

A montagem acentua essa leitura ao construir um percurso onde a palavra parece atravessar sucessivos estados de degradação. Os textos gravados na pedra evocam permanência e memória, enquanto os LED robotizados introduzem uma instabilidade quase nervosa, como se a linguagem tivesse perdido definitivamente qualquer possibilidade de repouso. Particularmente impressiva é a instalação em que mensagens de Donald Trump dialogam com reformulações produzidas por inteligência artificial. Mais do que um comentário circunstancial à política norte-americana, trata-se de uma reflexão sobre o modo como a tecnologia amplifica discursos até estes perderem qualquer referente humano. O efeito é profundamente desconfortável: a repetição incessante, o movimento mecânico e o ruído dos dispositivos convertem a leitura numa experiência física de saturação. Também as pinturas realizadas a partir de documentos censurados recusam qualquer sedução formal desligada do seu conteúdo. A beleza das superfícies convive com o apagamento deliberado da informação, lembrando que toda a censura produz uma imagem tão eloquente quanto o texto que pretende ocultar. Mesmo a colaboração com Kilos evita o gesto decorativo; o graffiti recupera a dimensão urbana que sempre pertenceu ao trabalho de Jenny Holzer, devolvendo-o ao espaço de conflito de onde originalmente emergiu.

O momento mais perturbador da exposição encontra-se, porém, na relação entre corpo e linguagem. “Bone Works” recorda que há experiências — a guerra, a tortura, a violência sexual — que resistem a qualquer elaboração discursiva. Quando a artista envolve ossos humanos com fragmentos de texto, reconhece simultaneamente a insuficiência e a necessidade da palavra. É precisamente nessa tensão que reside a força da sua obra. Num tempo em que tantos artistas recorrem à inteligência artificial como demonstração de novidade tecnológica, Jenny Holzer utiliza-a para denunciar a degradação contemporânea do discurso público, preservando intacta a dimensão ética do seu trabalho. Talvez seja esse o aspecto mais relevante desta exposição: não celebra a linguagem, nem lamenta nostalgicamente a sua perda; confronta-nos antes com a responsabilidade de continuar a ler criticamente quando tudo parece concebido para impedir a leitura. “Wrong Answers” demonstra que a obra de Jenny Holzer permanece extraordinariamente actual não porque antecipa o presente, mas porque insiste em recordar que nenhuma sociedade democrática subsiste quando as palavras deixam de possuir peso, memória e responsabilidade. Em Serralves, essa lição adquire uma clareza rara, fazendo desta exposição um dos acontecimentos imperdíveis deste Verão.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: "O Século de Gehry" | Frank Gehry



EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “O Século de Gehry”,
de Frank Gehry
Comissário | António Choupina
Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Ala Álvaro Siza
13 Jun > 30 dez 2026


“O Século de Gehry”, exposição comissariada por António Choupina, é mais uma jóia a ocupar a Ala Siza Vieira do Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Trata-se de uma exposição que não se limita a percorrer a longa trajectória de um dos arquitectos maiores dos séculos XX e XXI, antes propõe uma reflexão sobre aquilo que a arquitectura ainda pode ser quando se recusa a transformar-se numa simples resposta técnica ou numa imagem consumível. Através de desenhos, maquetas, fotografias, filmes e objectos vários, a exposição devolve-nos um Frank Gehry menos próximo do ícone mediático e mais próximo do investigador inquieto que sempre foi. A sua importância histórica não reside apenas nas formas inesperadas que introduziu na paisagem urbana, mas na maneira como restituiu à arquitectura a capacidade de experimentar. Antes do titânio do Guggenheim de Bilbau ou das superfícies ondulantes do Walt Disney Concert Hall, percebemos uma atenção quase artesanal à matéria, ao fragmento e ao acaso. Gehry dizia interessar-se pela energia dos edifícios ainda em construção, pela sua rudeza e pelo seu carácter imediato. Essa afirmação contém, talvez, a chave de toda a sua obra: a arquitectura não como objecto acabado, mas como processo vivo, no qual a dúvida e a descoberta participam tanto quanto o rigor do projecto.

Desde a sua casa em Santa Mónica até aos grandes edifícios que marcam cidades de vários continentes, o arquitecto construiu uma linguagem singular a partir da tensão entre elementos aparentemente incompatíveis. A madeira, o cartão, o metal, o vidro ou o titânio nunca foram simples materiais de revestimento, mas meios para compreender novas possibilidades espaciais. Embora dialogue intensamente com a escultura, a sua arquitectura não é verdadeiramente escultórica. Uma escultura concentra o espaço à sua volta; Frank Gehry procura antes transformá-lo, alterando a luz, o movimento e a percepção de quem o percorre. O fragmento, nos seus projectos, não significa ruptura, mas a busca de uma nova unidade. No Guggenheim de Bilbau, as superfícies curvas e reflectoras não são um mero exercício formal: fazem do edifício uma presença em permanente mutação, dependendo da hora, da claridade do céu, da sensibilidade e apuro do olhar. No Walt Disney Concert Hall, como o próprio arquitecto explicou, cada elemento conserva a sua individualidade antes de participar numa composição colectiva. A arquitectura torna-se assim uma espécie de música construída, cuja harmonia nasce não da uniformidade, mas da relação entre os elementos que a distinguem.

Uma das ideias mais interessantes reveladas pela exposição é a distância entre a imagem pública de Gehry e a complexidade real do seu pensamento. Frequentemente associado ao fenómeno da “arquitectura-espectáculo”, Gehry foi, paradoxalmente, um arquitecto profundamente atento ao contexto. A afirmação de que era “um contextualista convicto” não pode ser entendida como mera defesa circunstancial, mas como uma convicção permanente: cada edifício nasce de uma relação específica com o lugar, a cultura e a memória que o envolve. É nesse ponto que o diálogo com Álvaro Siza, por exemplo, adquire particular significado. Apesar das diferenças formais evidentes, ambos partilham a recusa de uma arquitectura indiferente às circunstâncias. Se Siza procura revelar a continuidade escondida de um lugar, Gehry procura revelar as suas possibilidades latentes. O projecto não construído para o Parque Mayer, em Lisboa, surge na exposição como testemunho de uma relação afectiva com a cidade e de uma vontade de responder ao seu carácter singular. António Choupina compreende essa dimensão ao organizar uma exposição que não apresenta apenas obras acabadas, mas os caminhos, as hesitações e as colaborações que lhes deram origem.

Também por isso, “O Século de Gehry” ultrapassa a condição de homenagem e adquire uma dimensão crítica mais ampla. A exposição recorda-nos uma época em que a arquitectura ainda era entendida como uma forma de conhecimento, uma maneira de pensar o mundo através do espaço e da matéria. Hoje, quando tantos edifícios parecem submetidos à lógica da imagem imediata, da eficiência absoluta ou da repetição globalizada, a obra de Frank Gehry conserva uma pergunta essencial: poderá a arquitectura continuar a surpreender-nos? A sua resposta nunca foi teórica, mas construída. Está na luz que percorre as fachadas de Bilbau, no movimento aparente das superfícies de Düsseldorf, na delicadeza inesperada de uma estrutura metálica no coração das vinhas ou na capacidade de um edifício de transformar a experiência de uma cidade. Percebemos, então, que o verdadeiro legado de Frank Gehry não está nas formas que criou, mas na liberdade que defendeu: a liberdade de imaginar que, mais do que uma solução, um edifício pode ser uma descoberta. E é essa possibilidade - a de uma arquitectura ainda capaz de pensar, emocionar e interrogar o mundo - que permanece como a grande motivação para revisitar a sua obra.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Beautifully Imperfect” | Alice Neel



EXPOSIÇÃO: “Beautifully Imperfect”,
de Alice Neel
Curadoria | Inês Grosso
Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Ala Álvaro Siza
16 Jul 2026 > 31 Jan 2027


Hoje considerada uma das mais importantes artistas do século XX, Alice Neel (1900–1984) construiu uma das obras mais singulares da pintura moderna ao permanecer fiel à figura humana numa época em que a abstracção dominava o panorama artístico norte-americano. Durante mais de seis décadas, transformou o retrato num lugar de observação social, onde a intimidade se cruza permanentemente com a história. A Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial, os movimentos pelos direitos civis, o feminismo ou a libertação gay atravessam a sua pintura não como acontecimentos ilustrados, mas através das vidas de quem os viveu. Familiares, vizinhos, trabalhadores, artistas, activistas, crianças, imigrantes ou figuras públicas recebem exactamente o mesmo olhar atento e desarmante, revelando uma profunda convicção de que todas as pessoas merecem ser vistas. Durante décadas, Neel permaneceu praticamente à margem do reconhecimento institucional, recusando adaptar a sua pintura às modas ou às exigências do mercado. Quando esse reconhecimento finalmente chegou, nos anos 1970, a sua obra impunha-se já como uma das vozes mais livres e originais da arte norte-americana, influência que continua hoje a marcar sucessivas gerações de artistas.

O título "Beautifully Imperfect" sintetiza a visão de uma artista para quem a imperfeição nunca representou um desvio à beleza, mas a sua expressão mais autêntica. Nos retratos de Alice Neel, os rostos raramente obedecem a cânones clássicos, os corpos recusam qualquer idealização e a passagem do tempo permanece visível, sem disfarce nem sentimentalismo. A própria pintura assume essa condição: contornos interrompidos, áreas de tela deixadas em aberto e uma pincelada vibrante tornam evidente o gesto e preservam a intensidade do encontro entre artista e modelo. Não por acaso, Neel definia-se como uma "coleccionadora de almas". O que procurava não era a semelhança física, mas a verdade psicológica de cada pessoa. É essa capacidade de tornar visível a complexidade humana que confere à sua obra uma surpreendente actualidade. Muito antes de conceitos como inclusão, diversidade ou representação ocuparem o centro do debate contemporâneo, Neel soube pintar aqueles que a história da arte tantas vezes ignorou: comunidades negras e porto-riquenhas do Spanish Harlem, artistas queer, mulheres grávidas, corpos envelhecidos, doentes ou simplesmente distantes dos modelos convencionais de beleza.

Distribuída por núcleos temáticos que cruzam diferentes momentos da carreira da artista, a exposição privilegia afinidades e ressonâncias em detrimento de uma leitura cronológica, revelando a extraordinária coerência de uma obra construída sempre em torno das pessoas. O percurso inicia-se com o poderoso auto-retrato realizado em 1980, quando Alice Neel tinha oitenta anos: nua, frontal e desprovida de qualquer idealização, a artista apresenta-se ao visitante com uma honestidade quase desconcertante, transformando a sua própria imagem numa declaração de liberdade. Em redor deste quadro, um conjunto de cartas inéditas escritas por artistas, escritores, músicos e outras figuras contemporâneas prolonga o diálogo iniciado pela correspondência preservada no arquivo familiar, testemunhando a vitalidade do seu legado. Obras, documentos, fotografias, livros da biblioteca pessoal, materiais de arquivo e dispositivos de consulta compõem um retrato expandido da artista e do seu tempo. Mais do que uma retrospectiva, “Beautifully Imperfect” propõe um encontro com uma pintura que continua a desafiar convenções estéticas e sociais, lembrando que toda a grande arte nasce, antes de mais, da capacidade de olhar o outro e de o gravar no seu mais íntimo.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

LUGARES: Sinagoga de Cordoba



LUGARES: Sinagoga de Córdoba
Calle Judíos 20, Córdoba
Horários | De terça-feira a domingo, das 09:00 às 15:00
Ingressos | Entrada gratuita


Poucos monumentos conseguem condensar, num espaço tão reduzido, séculos e séculos de história como a Sinagoga de Córdova. Escondida no seio das ruelas caiadas da antiga Judiaria, junto às muralhas da medina islâmica, é um dos mais notáveis testemunhos da presença judaica na Andaluzia e uma das três sinagogas medievais preservadas em Espanha, anteriores à expulsão dos judeus decretada pelos Reis Católicos, em 1492. Erguida em 1315 por iniciativa de Isaac Moheb, filho de Efraim Waddawa, conforme atesta a inscrição fundacional ainda hoje visível, constitui um admirável exemplar da arte mudéjar, onde mestres judeus e artesãos muçulmanos partilharam saberes e sensibilidades estéticas. A singeleza da fachada contrasta com a riqueza decorativa do interior, onde delicadas rendilhadas de gesso, arabescos vegetalistas, estrelas geométricas e inscrições hebraicas extraídas do Livro dos Salmos evocam um período em que Córdova se afirmava como um dos mais importantes centros culturais da Península Ibérica. A pequena escala do edifício em nada diminui a sua importância, antes reforça a ideia de um espaço de recolhimento espiritual, cuja beleza reside precisamente na harmonia entre a sobriedade arquitectónica e a exuberância ornamental.

Mais do que um simples local de culto, a sinagoga desempenhava um papel central na vida da comunidade judaica. Era aqui que se rezava, estudava e interpretava a Torá, sob orientação dos rabinos, transmitindo-se aos mais jovens os ensinamentos religiosos, jurídicos e morais do judaísmo. A disposição do edifício respeita escrupulosamente a tradição hebraica: antes de alcançar a sala de oração, o visitante atravessa um pequeno pátio e um vestíbulo, numa transição simbólica entre a agitação do mundo exterior e o silêncio exigido pelo espaço sagrado. No interior, subsistem o nicho destinado à Arca onde eram guardados os rolos da Torá, bem como a tribuna superior reservada às mulheres, separadas dos homens durante as cerimónias religiosas. A orientação da sala para Jerusalém recorda o vínculo espiritual à cidade santa, enquanto a decoração revela a convivência artística entre as culturas judaica e islâmica, característica da sociedade andalusina medieval. Embora nem sempre isenta de tensões, essa coexistência permitiu um florescimento intelectual e económico sem paralelo, frequentemente designado como a Idade de Ouro do judaísmo espanhol, da qual Córdova permanece como um dos seus símbolos mais eloquentes.

O destino da Sinagoga de Córdova alterou-se profundamente após a expulsão dos judeus. Privada da sua função original, foi sucessivamente adaptada a hospital para hidrófobos, ermida cristã, sede de uma confraria de sapateiros e escola, escapando, por essa via, à destruição que atingiu tantos outros templos hebraicos. Apenas no século XIX, durante obras de reparação, foram redescobertas as extraordinárias decorações medievais ocultas sob sucessivas camadas de reboco, conduzindo à sua classificação como Monumento Nacional e ao início de um cuidadoso processo de restauro. Hoje integrada na Rede de Judiarias de Espanha e no Itinerário Europeu do Património Judaico, a sinagoga constitui uma das visitas incontornáveis de Córdova. Percorrê-la é também descobrir o encanto da antiga Judiaria, com as suas ruas estreitas, pátios floridos e pequenas praças onde o passado parece sobreviver intacto. A escassos minutos da Mesquita-Catedral e da estátua dedicada a Maimónides, este pequeno santuário oferece ao viajante uma oportunidade rara para compreender a extraordinária diversidade religiosa, política e cultural que moldou a cidade ao longo dos séculos, fazendo de Córdova um dos mais fascinantes destinos históricos de toda a Península Ibérica.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Abrir Janelas à Pedrada” | Fernanda Fragateiro



EXPOSIÇÃO: “Abrir Janelas à Pedrada”,
de Fernanda Fragateiro
Curadoria | Inês Grosso e Isabel Braga
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
19 Set 2025 > 2027


Fernanda Fragateiro (Montijo, 1962), uma das mais relevantes personalidades da arte contemporânea portuguesa, construiu ao longo de mais de três décadas uma obra singular onde escultura, instalação e arquitectura se cruzam numa reflexão persistente sobre memória, espaço e política. Partindo de uma linguagem formal depurada, herdeira do minimalismo e da tradição modernista, a artista reutiliza materiais provenientes da construção civil, arquivos e vestígios urbanos para produzir objectos que interrogam os processos de transformação das cidades, as narrativas da História e os mecanismos de exclusão inscritos no território. A sua investigação articula referências à arquitectura do século XX, ao pensamento feminista e ao revisionismo histórico, recuperando frequentemente legados de autoras marginalizadas pelas narrativas dominantes. Com uma carreira amplamente reconhecida em instituições de referência na Europa e nas Américas, Fragateiro afirma-se como uma das vozes mais consistentes da arte contemporânea internacional, desenvolvendo uma prática onde a matéria nunca é neutra, mas portadora de memória, conflito e possibilidade crítica. É neste contexto que surge Abrir janelas à pedrada (2025), obra concebida para a ponte que liga o edifício principal do Museu de Serralves à Ala Álvaro Siza, integrada no ciclo de encomendas inaugurado após a abertura desta nova ligação arquitectónica.

Suspensa ao longo do corredor, a instalação apresenta-se como um muro irregular de blocos de cimento leve que parece desafiar simultaneamente a gravidade e a ordem arquitectónica do espaço. Construída a partir de fragmentos de edifícios demolidos no centro de Lisboa, recolhidos pela artista ao longo de vários anos, a obra transforma restos de gesso, reboco, tijolo e cimento numa poderosa arqueologia do presente. Cada elemento conserva as marcas da sua origem e testemunha os efeitos da gentrificação, da especulação imobiliária e da crescente pressão turística que, nas últimas décadas, redesenharam profundamente a cidade. Mais do que documentar essas transformações, Fragateiro converte-as numa experiência física, onde o visitante é confrontado com uma barreira simultaneamente sólida e permeável. Os blocos parecem prestes a ruir, mas sustentam-se mutuamente, deixando frestas por onde passam a luz, o olhar e o próprio corpo. A artista não procura reconstruir o que desapareceu; organiza antes os fragmentos de uma destruição contínua para revelar aquilo que se perde sempre que um edifício é demolido: não apenas matéria, mas memórias, formas de habitar, relações comunitárias e histórias colectivas apagadas em nome de uma ideia abstracta de progresso.

A presença desta obra na ponte desenhada por Álvaro Siza reforça a tensão entre duas formas de pensar a arquitectura e a cidade. Num espaço marcado pela autoridade do modernismo, Fragateiro introduz matéria precária, desgastada e excluída dos circuitos de valorização patrimonial, confrontando a perfeição da geometria arquitectónica com a fragilidade dos seus resíduos. O título convoca um gesto simultaneamente violento e libertador: abrir uma janela à pedrada significa romper uma superfície fechada para criar uma possibilidade de passagem. A referência às janelas do SESC Pompeia, projecto de Lina Bo Bardi para uma antiga fábrica em São Paulo, aproxima duas autoras que partilham uma atenção comum à ruína, ao inacabado, às práticas vernaculares e à dimensão social da arquitectura. Como em grande parte da produção de Fernanda Fragateiro, a instalação recusa qualquer nostalgia ou reconstrução idealizada do passado. Em vez disso, transforma a ruína num instrumento de pensamento crítico, afirmando que a memória se constrói tanto a partir do que permanece como daquilo que sucessivamente desaparece. As fendas abertas neste muro deixam passar a luz e o olhar, sugerindo que mesmo perante a violência das transformações urbanas continua a existir espaço para imaginar outras formas de habitar, recordar e construir a cidade.

domingo, 2 de agosto de 2026

CONCERTO: “Uniko” | Kimmo Pohjonen & Orquestra Clássica de Espinho



CONCERTO: “Uniko”
Kimmo Pohjonen & Orquestra Clássica de Espinho
Com | Kimmo Pohjonen (acordeão), Teppo Ali-Mattila (concertino), Juusu Hannukainen (samples)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Praça Dr. José de Oliveira Salvador (Câmara Municipal de Espinho)
31 Jul 2026 | sex | 21:30


A verdadeira identidade de uma obra revela-se, as mais das vezes, na forma como sobrevive ao contexto que lhe deu origem. Concebida por Kimmo Pohjonen e Samuli Kosminen para o Kronos Quartet e estreada em Helsínquia, em 2004, “Uniko” faz parte desta rara categoria. Poderia ter permanecido prisioneira da extraordinária personalidade do agrupamento norte-americano, mas a sua apresentação no concerto de encerramento do Festival Internacional de Música de Espinho veio demonstrar precisamente o contrário. A substituição do Kronos Quartet pela Orquestra Clássica de Espinho não constituiu uma simples alteração de efectivos, antes modificou profundamente o modo como a obra continua a respirar, como distribui o peso das tensões e se mostra capaz de organizar o espaço sonoro. Onde o Kronos privilegiava a transparência da linha e a circulação do detalhe, a Orquestra Clássica de Espinho, embora numa formação mais reduzida que o habitual, soube projectar uma matéria mais compacta e de maior gravidade acústica. A escrita poderá ter perdido alguma delicadeza, mas realçou a plasticidade de um organismo vivo cuja força resulta menos do detalhe do que da energia acumulada em cada sucessiva vaga sonora. Descobriu-se, assim, uma segunda natureza de “Uniko”: menos íntima, quiçá, mas não menos verdadeira.

Essa transformação só foi possível porque Kimmo Pohjonen continua a afirmar-se como o centro de gravidade de uma obra seminal no âmbito da música contemporânea. Poucos intérpretes possuem hoje uma relação tão física com os seus próprios ambientes sonoros. O acordeonista finlandês não se limita a tocar, antes parece arrancar a música ao instrumento, como quem procura uma matéria primordial anterior à própria linguagem do som. O instrumento expande-se muito para além daquilo que dele habitualmente se espera, confundindo-se com a respiração, com o grito, com a ressonância metálica da electrónica ou com o rumor quase telúrico que nos é oferecido por Samuli Kosminen. Longe de ser ornamento ou demonstração de virtuosismo técnico, a tecnologia é aqui prolongamento natural do gesto instrumental, dilatando o espaço acústico e multiplicando perspectivas auditivas sem quebrar a continuidade do discurso. A Orquestra Clássica de Espinho compreendeu essa lógica com inteligência rara, abrindo espaço à exuberância cénica do solista e respondendo com a afirmação de uma sonoridade ampla, homogénea e generosa, sem perder densidade nem abdicar da sua própria identidade. A relação deixou de ser a de um solista acompanhado por uma orquestra, para se tornar a de um único corpo sonoro em permanente diálogo e mutação.

Essa capacidade de transformar a percepção do tempo faz de “Uniko” uma obra singular. Não há verdadeiras cesuras entre os seus oito andamentos, nem momentos de pausa que permitam ao ouvinte recuperar qualquer distância crítica. Tudo decorre como um fluxo contínuo, feito de acumulações, erosões e metamorfoses, cada episódio parecendo conter já a semente daquele que se lhe sucederá. É uma música que não procura agradar nem surpreender; limita-se a existir com uma coerência tão absoluta que acaba por impor as suas próprias regras de escuta. Na praça fronteira à Câmara Municipal de Espinho, completamente preenchida por um público que acompanhou o concerto com invulgar concentração, essa experiência adquiriu uma dimensão quase ritual. A prolongada ovação final celebrou, naturalmente, a extraordinária prestação de Kimmo Pohjonen, de Samuli Kosminen e da Orquestra Clássica de Espinho. Mas celebrou também algo mais difícil de definir: a confirmação de que o Festival Internacional de Música de Espinho continua a ser um dos raros lugares onde a curiosidade artística prevalece sobre a convenção e onde o risco continua a encontrar, felizmente, um público disposto a escutá-lo.

sábado, 1 de agosto de 2026

LIVRO: “Perdeu-se Relógio de Senhora” | Alice Brito



LIVRO: “Perdeu-se Relógio de Senhora”,
de Alice Brito
Edição | Sofia Fraga
Ed. Companhia das Letras, Maio de 2026


“Não devemos ter sobre as pessoas juízos antecipados. Os estereótipos são a coisa mais obscuramente enganadora que há. Um militante clandestino do Partido Comunista, deste tempo contido na sexta década do século, não tinha de andar sempre com ar de espião, de boca cosida, ar carrancudo, cara de poucos amigos. É claro que eram pessoas com as limitações próprias de uma clandestinidade sofrida e brutal. Andavam no subterrâneo dos dias, em contínua dissimulação, sempre acompanhados pelo medo. Estavam as vinte e quatro horas da rotação da Terra naquela posição de aviso, cautelar e desconfiada. Mas eram pessoas tristes e alegres. Como as outras. Tinham fome e tinham sede. Como as outras. Havia gente de bom carácter e também havia gente que era uma peste. Havia criaturas sinceras, límpidas, dispostas a tudo e havia oportunistas do piorio. Como, de resto, em toda a Humanidade. Parte desse pessoal da militância clandestina era feito de figuras fascinantes e aventureiras e outra parte era uma grandessíssima seca. Havia criaturas bonitas e feias.” 

Há escritores que escolhem narrar os acontecimentos que determinam a marcha do Mundo e há aqueles que preferem escutar o rumor discreto das vidas anónimas, onde o peso da História se faz sentir com maior violência. “Perdeu-se Relógio de Senhora”, de Alice Brito, está neste segundo caso. Recuperado de uma senha clandestina utilizada pelo Partido Comunista para assinalar a prisão de um militante e activar uma cadeia de procedimentos de segurança, o enigmático título esconde, ele próprio, um romance onde a memória, a resistência e, sobretudo, o papel da mulher durante a ditadura, adquirem uma relevância histórica que só quem viveu os tempos do fascismo consegue abarcar na totalidade. Conduzindo o leitor por um Portugal cinzento, submetido ao Estado Novo, onde o medo era uma presença quotidiana e a liberdade uma aspiração silenciosa, Alice Brito socorre-se de três protagonistas oriundas de mundos distintos, que o acaso reunirá num apartamento da Duque d'Ávila, em Lisboa, pouco antes da Revolução de Abril. É através delas que a autora constrói um retrato social que ultrapassa largamente o destino individual de cada personagem, escapando ao panfleto ideológico e enveredando por um romance cuja ficção se alimenta da investigação histórica e da observação rigorosa da condição humana. O quotidiano ganha espessura narrativa, as pequenas escolhas tornam-se actos de sobrevivência e a intimidade revela-se um dos territórios onde a repressão exercia a sua autoridade mais implacável.

O maior mérito de “Perdeu-se Relógio de Senhora” reside na forma como ilumina essa violência invisível, mas latente. Em vez de privilegiar os grandes episódios da resistência política, Alice Brito fixa o olhar na disciplina moral imposta às mulheres, na educação, na sexualidade, nas convenções familiares e na submissão social transformada em norma. O fascismo aparece menos como uma sucessão de acontecimentos históricos do que como um sistema infiltrado nos gestos, na linguagem e nas expectativas de uma sociedade inteira. A experiência da autora enquanto advogada parece reflectir-se na atenção aos factos concretos e na capacidade de compreender as múltiplas formas de opressão, ao invés de aprisionar a escrita numa rigidez documental tendente a ceder ao estéril e ao fastidioso. Pelo contrário, a prosa mantém uma fluidez que permite às personagens respirarem para lá da sua função simbólica. Ainda que representem diferentes gerações e percursos sociais, nenhuma delas se reduz a um qualquer arquétipo; todas carregam contradições, desejos, medos e ambiguidades que lhes conferem rigor e autenticidade. A memória histórica surge, assim, filtrada pela experiência individual, tornando-se mais próxima e mais perturbadora. É essa conjugação entre verdade, sensibilidade e construção romanesca que impede o livro de cair na nostalgia ou na simples reconstituição de época, conferindo-lhe uma actualidade inesperada.

Mais do que revisitar um passado cada vez mais confinado a dois parágrafos num qualquer manual escolar, “Perdeu-se Relógio de Senhora” interroga o presente e recorda que o esquecimento é terreno fértil para o regresso de discursos autoritários ou, quem sabe, de três ou mais salazares. A preocupação de Alice Brito com a erosão da memória colectiva atravessa discretamente toda a obra e confere-lhe um alcance político sem sacrificar a qualidade literária. A chegada do 25 de Abril representa o desfecho luminoso de uma longa travessia, mas não dissolve as marcas deixadas por décadas de silêncio, medo e desigualdade. Nesse sentido, o romance não celebra apenas a conquista da liberdade; convida igualmente o leitor a compreender o preço que ela teve e a responsabilidade de a preservar. Sem se furtar à necessidade de uma retórica militante - deliciosas as passagens em que a autora assume o papel de personagem, opinando a seu bel-prazer -, Alice Brito demonstra que a literatura continua a ser um dos lugares privilegiados para pensar a História através das pessoas comuns, devolvendo voz àquelas que, as mais das vezes, foram apagados dos relatos oficiais. O resultado é um romance sólido, humanamente comovente e politicamente pertinente, cuja leitura se revela tão necessária pela evocação do passado como lúcida pelo diálogo que estabelece com as inquietações do presente.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

EXPOSIÇÃO: “Sem Terra à Vista”



EXPOSIÇÃO: “Sem Terra à Vista”
Vários artistas
Curadoria | Paula Cabaleiro
Centro de Arte Oliva
18 Abr 2026 > 24 Jan 2027


Habitar o presente, tal parece ser o desígnio de “Sem Terra à Vista”, exposição patente até 24 de Janeiro do próximo ano no Centro de Arte Oliva, em São João da Madeira. A partir de uma nova leitura da Colecção Norlinda e José Lima, a curadora Paula Cabaleiro constrói um percurso onde a arte não oferece respostas, antes convoca o visitante para um território de inquietação permanente. O título, apropriado do derradeiro livro de Charles Simic, funciona menos como metáfora marítima do que como diagnóstico civilizacional, colocando em destaque a ausência de horizonte, a erosão das referências colectivas e a sensação de deriva que atravessa o nosso tempo. A força da exposição reside precisamente na recusa de uma narrativa fechada, na forma como se privilegiam relações de tensão, afinidades inesperadas e contrapontos que fazem coexistir gerações, geografias e linguagens distintas. A extraordinária amplitude da colecção - uma das mais relevantes do panorama privado português - revela-se aqui como instrumento crítico, permitindo que autores portugueses dialoguem naturalmente com grandes nomes da cena internacional, sem hierarquias artificiais. O resultado é uma exposição que recusa a contemplação passiva em favor de uma experiência intelectualmente exigente, apelando à circulação de ideias e à capacidade da imagem para produzir pensamento.

Esta leitura manifesta-se na própria arquitectura expositiva, cujos núcleos se sucedem sem fronteiras rígidas, permitindo que cada obra prolongue ou contradiga a anterior. A presença de artistas como Paula Rego, Christian Boltanski, Cindy Sherman, Leon Golub, Chéri Samba, Gonçalo Mabunda ou Mónica de Miranda evidencia diferentes formas de abordar a violência, a memória, o corpo, a identidade ou a herança colonial, enquanto autores portugueses como Daniel Blaufuks, Helena Almeida, João Louro, Rui Chafes, Pedro Cabrita Reis ou José Pedro Croft oferecem perspectivas que oscilam entre a introspecção, a crítica política e a reflexão sobre a condição humana. De forma sensível, Paula Cabaleiro evita que estes temas se transformem num catálogo de causas contemporâneas, embora a exposição convoque questões como a guerra, as migrações, o avanço dos discursos extremistas, a devastação ambiental ou a desinformação. Fá-lo através da complexidade própria da criação artística, recusando tanto a ilustração como a retórica panfletária. Cada obra mantém a sua autonomia formal e conceptual, contribuindo para um discurso colectivo assente, em larga medida, na ambiguidade. Nessa tensão entre beleza, desconforto e pensamento, encontra “Sem Terra à Vista” a sua maior consistência crítica.

Num momento em que muitos projectos curatoriais procuram responder à actualidade através de enunciados excessivamente programáticos, “Sem Terra à Vista” distingue-se por confiar na inteligência do público e na capacidade das obras para permanecerem abertas à interpretação. A Colecção Norlinda e José Lima confirma-se, uma vez mais, como um acervo cuja diversidade permite sucessivas revisitações, revelando novas leituras sem esgotar os seus significados. A exposição demonstra igualmente a maturidade de Paula Cabaleiro enquanto curadora, capaz de construir um discurso sólido sem sacrificar a singularidade de cada artista nem reduzir a arte a instrumento ilustrativo de um argumento político. O visitante sai com poucas certezas e inúmeras perguntas — talvez o sinal mais evidente de uma exposição bem conseguida. Perante um mundo fragmentado, onde o ruído mediático tende a simplificar a realidade e a neutralizar o pensamento crítico, esta mostra recorda que a arte continua a ser um dos raros lugares onde a complexidade não constitui um obstáculo, mas uma necessidade. Sem oferecer promessas de redenção, “Sem Terra à Vista” aponta para uma possibilidade mais modesta, mas talvez mais urgente: recuperar o exercício da dúvida, da memória e da imaginação como formas de resistência perante um horizonte onde, efectivamente, continua a não haver terra à vista.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

EXPOSIÇÃO: "Horror Vacui"



EXPOSIÇÃO: “Horror Vacui”
Vários artistas
Curadoria | Marta Jecu
Centro de Arte Oliva
21 Mar 2026 > 24 Jan 2027


Há um aparente paradoxo em “Horror Vacui”, patente no Centro de Arte Oliva: apesar da extraordinária densidade formal das cerca de noventa esculturas reunidas, a exposição não se limita a falar de excesso, mas sobretudo daquilo que esse excesso procura conter. É pelo menos isso que a curadoria de Marta Jecu parece querer dizer ao partir do conceito clássico de “horror vacui” para construir uma reflexão onde o vazio deixa de ser apenas um problema estético e se converte numa inquietação existencial. Humanas, animais, híbridas, mecânicas, espirituais ou monstruosas, as figuras ocupam o espaço como manifestações de uma necessidade ancestral de dar corpo ao invisível. Provenientes da Colecção Treger Saint Silvestre, um dos mais relevantes acervos europeus dedicados à criação autodidacta, popular e marginal, estas obras recusam uma leitura disciplinada pela história oficial da arte. O seu território é outro: o da imaginação compulsiva, da crença, da memória, da obsessão e do impulso criador enquanto necessidade vital. O percurso expositivo transforma-se, assim, numa sucessão de encontros com entidades que parecem existir num limiar entre o objecto escultórico e o organismo vivo, convocando o visitante para uma experiência onde a estranheza se instala sem nunca se resolver plenamente.

O grande mérito da exposição reside na forma como evita reduzir estas obras à categoria confortável da excentricidade ou da curiosidade pura e simples. Muitos dos autores representados - de Rosa Ramalho a Reinata Sadimba, de José de Guimarães a Serge Jolimeau, passando por Giovanni Batistta Podestá, Michel Gouery, Poteau Dieudonné ou Susanne Themlitz - pertencem a universos criativos profundamente distintos, tanto geográfica como culturalmente. Contudo, a montagem propõe um diálogo que privilegia afinidades sensíveis em detrimento de genealogias académicas. A matéria gasta, a presença manual, a imperfeição assumida e a expressividade quase ritual aproximam trabalhos produzidos em contextos radicalmente diferentes, revelando uma linguagem comum onde o corpo funciona como recipiente de medos, desejos, memórias e forças invisíveis. Relegando para segundo plano quaisquer narrativas cronológicas ou estilísticas, Marta Jecu preocupou-se em organizar um campo de tensões onde cada escultura parece responder à anterior, ampliando uma sensação de contágio visual que reforça a ideia de comunidade imaginária. O resultado é uma paisagem povoada por alter egos, máscaras e presenças tutelares que desafiam as categorias tradicionais da arte contemporânea e reforçam a singularidade de cada gesto autoral.

Se, por um lado, “Horror Vacui” afirma uma clara resistência aos valores modernistas da depuração, do silêncio e da síntese, por outro evita transformar essa oposição numa mera declaração programática. O excesso aqui apresentado não é sinal de acumulação gratuita; manifesta-se antes como estratégia de sobrevivência perante a incerteza do mundo. A presença do texto de Gonçalo M. Tavares, difundido sob a forma de peça sonora ao longo do percurso, reforça essa dimensão filosófica, funcionando menos como interpretação das obras do que como prolongamento da sua atmosfera inquietante. Há, em toda a exposição, uma consciência de que estas figuras não representam simplesmente personagens, mas modos de habitar o desconhecido. É nessa capacidade de suspender fronteiras entre arte popular, arte bruta, criação contemporânea e imaginário colectivo que reside a força desta exposição. Mais do que celebrar a exuberância formal das esculturas ou desvendar o seu significado, “Horror Vacui” convida a pensar o excesso como condição humana: uma tentativa incessante de preencher o vazio com narrativas, símbolos e corpos, sabendo de antemão que nenhum deles será capaz de o apagar.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

LUGARES: Mezquita-Catedral de Córdoba



LUGARES: Mezquita-Catedral de Córdoba
Calle Cardenal Herrero 1, Córdoba
Horários | Todos os dias, das 10h00 às 19h00
Ingressos | € 15,00 (bilhete normal)


Atravessar a Porta do Perdão e percorrer o interior da Mesquita-Catedral de Córdova é viajar através da história, visitando um extraordinário legado arquitectónico, histórico e religioso, no qual sucessivas civilizações deixaram gravada a sua identidade. O local começou por albergar uma basílica visigótica dedicada a São Vicente, erguida entre os séculos VI e VII, antes de, em 785, o emir omíada Abd al-Rahman I adquirir o terreno para ali fundar a grande mesquita da capital do Al-Andalus. Refugiado na Península Ibérica após a queda da sua dinastia em Damasco, o soberano procurava afirmar o poder do novo emirado através de uma obra sem paralelo no Ocidente islâmico. A construção inicial foi sendo ampliada ao longo de mais de dois séculos por sucessivos governantes, entre eles Abd el-Rahman II, al-Hakam II e al-Mansur, até transformar o edifício numa das maiores mesquitas do mundo. Cada ampliação acrescentou novas naves, refinou a decoração e reforçou a magnificência do conjunto, convertendo-o num símbolo político, religioso e cultural da civilização islâmica na Península. Ainda hoje, apesar das profundas transformações posteriores, permanece legível essa evolução arquitectónica, permitindo ao visitante percorrer, passo a passo, diferentes épocas condensadas num único monumento.

O primeiro impacto ao entrar na antiga sala de oração continua a ser avassalador. Diante do olhar estende-se uma verdadeira floresta de colunas, superior a oitocentas, sobre as quais repousam os célebres arcos bicolores de tijolo vermelho e pedra calcária clara, solução engenhosa que permitiu elevar a cobertura sem comprometer a estabilidade da construção. Muitas destas colunas provêm de edifícios romanos e visigóticos, testemunhando a reutilização de materiais característica da época. À medida que avançamos, percebemos que a luz, cuidadosamente filtrada, cria um ambiente de recolhimento quase intemporal. Entre os pontos de maior interesse destaca-se o mihrab mandado construir por al-Hakam II no século X. Longe de ser apenas um nicho orientado para Meca, trata-se de uma pequena câmara octogonal ricamente revestida por mosaicos dourados executados por artesãos enviados pelo imperador bizantino. Ao lado encontra-se a maqsura, espaço reservado ao soberano durante a oração, onde delicados rendilhados de pedra revelam um requinte artístico que continua a surpreender especialistas de todo o mundo. Poucos monumentos conseguem traduzir com semelhante intensidade o esplendor alcançado pelo Califado de Córdova, então um dos mais florescentes centros culturais da Europa medieval.

A visita conduz-nos inevitavelmente ao momento que alterou para sempre a identidade deste edifício. Em 1236, Fernando III de Castela conquistou Córdova e consagrou imediatamente a antiga mesquita ao culto cristão. Ao contrário do que sucedeu noutros locais da Península, o templo islâmico não foi demolido; adaptou-se progressivamente às novas funções religiosas, preservando grande parte da sua estrutura original. Nos séculos seguintes surgiram capelas, retábulos e altares, mas foi no século XVI que ocorreu a transformação mais marcante, com a construção da nave e do transepto renascentistas no coração da antiga sala de oração. A decisão gerou polémica ainda durante as obras e a tradição atribui ao imperador Carlos V uma frase célebre, lamentando que tivesse sido destruído algo único para erguer uma construção que poderia existir em qualquer outro lugar. Verdadeira ou não, a observação resume o debate que perdura até aos nossos dias. O contraste entre o espaço islâmico e a arquitectura cristã não representa apenas um choque estético; constitui igualmente o reflexo material de séculos de convivência, conflito, conquista e transformação que moldaram a história da Península Ibérica.

Hoje, a Mesquita-Catedral de Córdova é simultaneamente templo católico, património mundial da UNESCO e o terceiro monumento mais visitado de Espanha (só superado pela Alhambra de Granada e pela Sagrada Família, em Barcelona). Milhões de pessoas atravessam anualmente os seus pátios e galerias, fascinadas pela singularidade de um edifício onde Oriente e Ocidente dialogam sem perder a respectiva identidade. Antes de abandonar o conjunto monumental, vale a pena demorar o olhar no Pátio das Laranjeiras, herdeiro do antigo sahn islâmico, onde a água das fontes e o perfume das árvores continuam a evocar a função purificadora que antecedia a oração. Da antiga torre do minarete, hoje integrada no campanário cristão, observa-se a malha urbana de Córdova e compreende-se melhor a importância desta cidade como ponte entre culturas. Obra-prima arquitectónica, a Mesquita-Catedral é um autêntico livro de pedra, onde cada coluna, cada arco e cada inscrição testemunham quase doze séculos de história. Poucos lugares conseguem narrar, de forma tão eloquente, a complexidade da civilização ibérica, fazendo da visita não apenas uma experiência estética, mas também uma viagem pela memória colectiva da Europa e do Mediterrâneo.

terça-feira, 28 de julho de 2026

LUGARES: Capilla Real de Granada



LUGARES: Capilla Real de Granada
Calle Oficios s/n, Granada
Horários | De segunda-feira a sábado, das 10:00 às 19:00; domingos, das 11h30 às 19h00
Ingressos | € 7,00 (bilhete normal)


Poucos monumentos condensam de forma tão eloquente o nascimento da Espanha moderna quanto a Capela Real de Granada. Erguida por vontade expressa dos Reis Católicos, pouco depois da conquista definitiva do derradeiro reduto muçulmano da Península Ibérica, este espaço não foi pensado apenas como panteão régio: representava uma declaração política destinada a perpetuar a memória da vitória cristã sobre o Reino Nasrida e a afirmar a unidade religiosa da Coroa. Ao aproximarmo-nos da sua fachada, integrada no complexo da antiga mesquita maior transformada em catedral, percebemos desde logo que cada pedra encerra um significado. Granada deixava de ser a capital de um sultanato islâmico para se converter no palco onde Isabel de Castela e Fernando de Aragão fixavam, para a posteridade, a narrativa da Reconquista. A decisão de aqui repousarem, contrariando outras possibilidades então em discussão, conferiu ao edifício um peso simbólico sem paralelo. A Capela Real tornou-se, assim, muito mais do que um templo funerário; converteu-se num verdadeiro manifesto de Estado, onde o poder temporal e a fé católica caminham lado a lado, reflectindo um período em que religião, política e identidade nacional eram dimensões inseparáveis de uma mesma realidade histórica.

Ao transpormos o portal principal, desenhado por Enrique Egas no mais refinado gótico tardio castelhano, o olhar é imediatamente conduzido para um espaço de invulgar verticalidade, onde a luz desempenha um papel cuidadosamente calculado. As nervuras das abóbadas elevam-se como ramos de pedra, conduzindo simbolicamente o visitante da dimensão terrena para a esperança da vida eterna. Apesar de coexistir cronologicamente com os primeiros sinais da Renascença, a linguagem arquitectónica permanece profundamente fiel ao gótico, talvez por melhor traduzir a espiritualidade que os seus promotores pretendiam afirmar. O ferro trabalhado da magnífica grade de Bartolomé de Jaén estabelece uma fronteira física e espiritual entre a nave e o presbitério, recordando que o espaço reservado aos túmulos régios possui uma dignidade singular. Cada elemento decorativo, das mísulas aos capitéis, dos vitrais à delicada escultura ornamental, participa num discurso iconográfico pensado ao detalhe. Não há exuberância gratuita; existe antes uma pedagogia visual destinada a ensinar, como faziam tantas igrejas medievais, através da pedra, da luz e da arte sacra, transformando a arquitectura num instrumento de catequese e de exaltação do poder régio.

O coração da visita encontra-se inevitavelmente diante dos impressionantes mausoléus executados por Domenico Fancelli e Bartolomé Ordóñez. Sobre o mármore de Carrara repousam Isabel e Fernando, acompanhados, em túmulos próximos, por Joana I e Filipe, o Belo, compondo um dos mais extraordinários conjuntos funerários da Europa. O contraste entre a serenidade idealizada das figuras jacentes e a cripta austera situada sob os monumentos oferece uma poderosa reflexão sobre a natureza efémera do poder humano. Mas a Capilla Real guarda igualmente um espólio de valor incalculável. A sacristia-museu conserva objectos de devoção pessoal dos soberanos, tecidos litúrgicos, jóias, livros e um notável conjunto pictórico onde figuram nomes como Botticelli, Perugino ou Hans Memling, testemunhando as intensas ligações culturais da monarquia hispânica com os grandes centros artísticos europeus. Entre estes objectos sobressai o estandarte real utilizado na conquista de Granada, relíquia simultaneamente militar, política e religiosa, cuja presença continua a evocar um dos episódios mais decisivos da História peninsular.

Concluir esta visita significa compreender que a Capela Real permanece viva não apenas pela excelência do seu património artístico, mas sobretudo pela densidade da memória que conserva. Aqui cruzam-se o final da Idade Média, o nascimento da monarquia espanhola, o impulso missionário que acompanharia a expansão ultramarina e uma visão profundamente providencial da História. O visitante contemporâneo pode admirar a perfeição das suas proporções, a riqueza da escultura ou a qualidade das suas obras de arte; contudo, dificilmente permanecerá indiferente ao ambiente de solenidade que continua a envolver este recinto cinco séculos depois da sua fundação. Entre o silêncio das capelas, o brilho discreto do mármore e a penumbra cuidadosamente desenhada pelas altas janelas, percebe-se que este é um lugar onde a arquitectura foi concebida para perpetuar uma mensagem. A Capela Real de Granada não celebra apenas a morte de quatro soberanos; celebra uma ideia de reino, de fé e de continuidade histórica que moldou profundamente o destino de Espanha e deixou uma marca indelével na identidade política, religiosa e cultural do Ocidente.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

LUGARES: Catedral de Granada



LUGARES: Catedral de Granada
Plaza de las Pasiegas, Granada
Horários | De segunda-feira a sábado, das 10:00 às 18:45; domingos, das 15h00 às 18h45
Ingressos | € 7,00 (bilhete normal)


Ao transpormos o amplo adro da Catedral de Granada, percebemos de imediato que o vasto edifício que se abre à nossa frente é muito mais do que um templo cristão. Edificado no coração da antiga medina islâmica, precisamente no local onde existiu a Mesquita Maior da cidade, o monumento condensa séculos de poder, fé e transformação política. A decisão de ali construir uma grande catedral não foi apenas um capricho dos Reis Católicos, antes respondeu a uma opção urbanística e representou a afirmação simbólica da nova ordem religiosa e política instaurada após o fim do último reino muçulmano da Península. Foi o imperador Carlos V quem deu o impulso definitivo à obra, desejando fazer de Granada um dos grandes centros espirituais do seu vastíssimo império. As obras tiveram início em 1523, sob a direcção do arquitecto Enrique Egas, mas rapidamente passaram para as mãos de Diego de Siloé, cuja visão revolucionária alterou profundamente o projecto inicial. Em vez de insistir na tradição gótica, então dominante em Castela, Siloé introduziu uma linguagem plenamente renascentista, inspirada nos modelos italianos, inaugurando um novo paradigma arquitectónico em Espanha. O resultado é um edifício onde a monumentalidade nasce da exuberância decorativa, mas sobretudo da harmonia das proporções, da luz cuidadosamente dirigida e da extraordinária sensação de equilíbrio que acompanha cada passo do visitante.

Ao avançarmos pela nave central, o olhar é inevitavelmente conduzido para a luminosidade que invade todo o espaço, característica invulgar numa catedral espanhola do século XVI. Diego de Siloé concebeu um templo onde a arquitectura funciona quase como um discurso teológico: a claridade simboliza a presença divina e a vitória da fé sobre as trevas, ideia particularmente significativa numa cidade acabada de integrar definitivamente a Cristandade. As colunas coríntias elevam-se com impressionante elegância, sustentando uma cobertura onde os elementos clássicos convivem com soluções herdadas da tradição gótica, produzindo uma síntese arquitectónica de rara coerência. A cabeceira circular, inspirada nos grandes edifícios da Antiguidade, rompe igualmente com o modelo habitual das catedrais medievais e confere ao conjunto uma monumentalidade serena. Em redor distribuem-se diversas capelas, enriquecidas ao longo dos séculos com pinturas, esculturas, retábulos e alfaias litúrgicas que testemunham a importância económica e religiosa da arquidiocese granadina. Apesar das sucessivas campanhas construtivas, das alterações introduzidas por diferentes arquitectos e dos inevitáveis atrasos que fizeram prolongar as obras durante mais de cento e oitenta anos, o edifício preserva uma surpreendente unidade estética. É precisamente essa capacidade de integrar diferentes épocas sem perder identidade que transforma a Catedral de Granada num dos mais notáveis exemplos do Renascimento espanhol.

Mas compreender esta catedral implica também olhar para aquilo que permanece invisível aos olhos do visitante menos atento. Cada pedra recorda a profunda mudança religiosa ocorrida após a Reconquista, num período em que Granada se tornou palco privilegiado da afirmação do Catolicismo. Muito próximo daqui encontra-se a Capela Real, onde repousam Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, os monarcas cuja vitória sobre o reino Nasrida alterou definitivamente o mapa político e religioso da Península. Embora constitua um edifício autónomo, a sua proximidade física reforça a leitura da Catedral como um grande monumento dinástico, concebido para perpetuar a memória dos soberanos que concluíram o processo iniciado séculos antes com os reinos cristãos do Norte. A liturgia celebrada neste espaço adquiria, assim, uma dimensão simultaneamente espiritual e política, legitimando a autoridade régia perante Deus e perante os homens. Ao longo dos séculos, procissões, celebrações solenes, funerais e actos de grande significado institucional consolidaram o papel da catedral como centro da vida religiosa granadina. Mesmo hoje, quando milhares de visitantes percorrem diariamente estas naves, continua a ser um templo vivo, onde o património artístico convive naturalmente com a oração quotidiana, preservando uma continuidade espiritual rara entre passado e presente.

Terminamos a visita regressando ao exterior, onde a grandiosa fachada principal resume, de forma admirável, toda a história que acabámos de percorrer. Projectada já no século XVII por Alonso Cano, simultaneamente arquitecto, escultor e pintor, apresenta um desenho profundamente barroco, embora respeitando o espírito renascentista do conjunto. Os seus amplos arcos triunfais evocam simultaneamente a Jerusalém Celeste e o triunfo definitivo da Igreja, constituindo uma poderosa declaração visual dirigida à cidade. É difícil encontrar outro monumento espanhol onde arquitectura, religião e história se encontrem de forma tão inseparável. A Catedral de Granada não pretende apenas impressionar pela escala ou pela riqueza artística; procura narrar uma transformação civilizacional, testemunhando a passagem de uma cidade islâmica para um dos grandes centros do Catolicismo europeu. Ao abandonar este espaço, permanece a sensação de que cada geração acrescentou uma nova camada de significado ao edifício, sem apagar as anteriores. Talvez seja precisamente essa sobreposição de memórias — muçulmanas, renascentistas, imperiais e barrocas — que faz da Catedral de Granada um dos monumentos mais fascinantes da Europa, onde a pedra continua a contar, em silêncio, uma das mais decisivas histórias da humanidade.