CONCERTO: Do Cabo do Mundo
Com | Carlos César Motta (direcção musical e percussão), Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse (vozes), Pablo Marques e Kito Siqueira (sopros), João Pitta (violão), Pri Azevedo (teclados e acordeão), Rolando Semedo (baixo), Lizz Marchi e Daniel Félix (percussão)
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2026 | sab | 18:00
“Arrepia, arrepia
E arrepia sim senhor”
Fausto Bordalo Dias, in “O Barco Vai De Saída”
“Um sonho lindo”, daqueles que permanecem para lá da festa no palco, assim foi o concerto do projecto Do Cabo do Mundo, ao final da tarde de sábado, no derradeiro dia do FESTA – Sons da Lusofonia. Entre o rio e a cidade, a partida e o encontro, a viagem e o sonho, o espectáculo resultou numa única travessia “por este rio acima”, feita de palavras e sons que transportaram o público muito além das margens da memória. “Isto que é de uns / também é de outros” fez da partilha o fundamento de um concerto de homenagem a Fausto Bordalo Dias, interpretado com emoção por artistas de diferentes latitudes, todos eles imigrantes, unidos pela mesma língua da música e pelo mesmo desejo de celebrar um dos maiores cantautores portugueses “do passado, do presente e do futuro”. O público percebeu isso desde o primeiro instante. Cantou, dançou e respondeu a cada refrão como se as canções lhe pertencessem desde sempre, confirmando que as obras verdadeiramente universais não conhecem tempos nem fronteiras. Quando “Meu sonho / quanto eu te quero” ecoou entre vozes e percussões, o rio desembocou naturalmente na cidade. “Ali está a cidade”, cantou-se, uma cidade que já não era apenas Lisboa, mas também Maputo, Praia, Rio de Janeiro, Luanda, Ovar ou qualquer outra onde alguém tenha chegado, carregando consigo saudades, sonhos e esperança.
“Mas sobretudo a cidade é um som”, escreveu Fausto, e nunca um verso pareceu tão exacto. Durante pouco mais de uma hora, o Parque Urbano foi esse lugar improvável onde todas as geografias se reconhecem numa mesma melodia. Idealizado pelos músicos Carlos Cesar Motta e Fred Martins, com a participação de criadores oriundos de diferentes geografias, Do Cabo do Mundo reinterpreta o legado de Fausto, acrescentando uma nova vida às suas obras e enriquecendo-as com o pulsar de ritmos africanos e brasileiros que parece sempre terem estado ali, à espera de serem revelados. “Foi Por Ela”, o momento mais luminoso do concerto, é disso a prova provada. A canção renasce envolta numa cadência afro-brasileira de irresistível elegância, como se as águas do Atlântico finalmente fechassem o círculo iniciado na infância angolana de Fausto, ele que nasceu no meio do oceano, a bordo do navio “Pátria”. O público sentiu ali “o tropical sentido na lapela”, mas houve sobretudo uma compreensão profunda da canção, dessa declaração de entrega absoluta - “foi por ela que eu deixei de ser quem era” -, agora cantada por vozes que conhecem na pele o significado da travessia. Também “Namoro”, com a sua irresistível leveza mestiça, prolongou esse encontro entre continentes, celebrando o amor como território onde todas as fronteiras se esbatem.
Esta ideia encontrou a sua mais clara tradução nas palavras breves, mas profundamente significativas, de Selma Uamusse: “Os imigrantes amam Portugal e esperam que Portugal os ame.” Nada poderia resumir melhor o espírito de Do Cabo do Mundo. Fausto sempre escreveu sobre viagens, encontros e desencontros, sobre os esplendores e as misérias da aventura humana, e este colectivo mostrou como essas canções continuam extraordinariamente actuais. Talvez por isso “Rosalinda” tenha adquirido uma força avassaladora. Ouvir que “os que mandam no mundo / só vivem querendo ganhar”, é perceber que o tempo pouco alterou as injustiças denunciadas por Fausto. A resposta luminosa a esse desencanto veio do palco, com as vozes de Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse, as percussões de Carlos César Motta, Lizz Marchi e Daniel Félix, os metais de Pablo Marques e Kito Siqueira, o violão de sete cordas de João Pitta, os teclados e acordeão de Pri Azevedo e o baixo de Rolando Semedo a mostrarem a música como lugar de encontro, resistência e esperança. O público voltou a responder em uníssono, transformando cada refrão numa afirmação colectiva de pertença. Não foi nostalgia, tão pouco tributo. Foi o provar que estas canções continuam vivas porque continuam a encontrar novos corpos, novas vozes e novas histórias para as habitar.
E como toda a viagem exige uma partida para justificar o regresso, “O Barco Vai de Saída” abriu a derradeira etapa deste percurso. As palavras de Fausto – “levo-te comigo”, “pra lá do Equador”, “no espantoso trono das águas”, “vou “ — ganharam um peso renovado nas vozes de quem conhece intimamente o significado de atravessar oceanos em busca de melhor vida. A tempestade, os medos, a esperança e a coragem, como tão bem “cantou” Ana Luísa Amaral, confundiram-se com as muitas histórias de migração que continuam a escrever-se todos os dias. Depois veio o “encore” inevitável, a transformar “Navegar, Navegar” numa autêntica “profissão de fé”. “Quem conquista sempre rouba, quem cobiça nunca dá”, advertiu Fausto, antes de lembrar que também foi “mercadoria” e que trouxe “um olhar peregrino”. Foi impossível não escutar nesses versos um apelo à dignidade de todos os que atravessam fronteiras, ontem como hoje. Quando o concerto terminou, o público continuou a cantar, prolongando “Navegar, Navegar” para lá dos derradeiros aplausos. Porque todos sabemos que a viagem está longe de chegar ao fim. Continua rio acima, mar adentro, do cabo do mundo até onde valer a pena chegar, até onde a música de Fausto nos levar.