O Festival Internacional de Música de Espinho persiste em afirmar, ano após ano, o estatuto que conquistou desde a sua criação, em 1964, como um marco incontornável da vida cultural da cidade e uma referência maior no panorama musical português. A abrir o segundo fim-de-semana da 52.ª edição do FIME, o Auditório de Espinho acolheu um recital de invulgar qualidade protagonizado pelo violinista Elias David Moncado e pelo pianista Thomas Hoppe, dois intérpretes de gerações distintas, mas artisticamente cúmplices, que ofereceram uma leitura exigente e profundamente expressiva de um programa tão diversificado quanto coerente. Do romantismo intimista de Johannes Brahms ao refinamento modernista de Maurice Ravel, passando pela monumental sonata de César Franck e culminando na exuberante “Carmen Fantasia” de Franz Waxman, o concerto revelou-se uma demonstração de virtuosismo ao serviço da música. A elegância da construção do programa permitiu estabelecer pontes entre diferentes linguagens estéticas, oferecendo ao público uma viagem por quase um século de criação musical.
A primeira parte evidenciou, desde logo, a maturidade interpretativa da dupla de intérpretes. Na “Sonata para violino e piano n.º 2, em Lá maior, Op. 100” de Johannes Brahms, Moncado fez sobressair um fraseado luminoso, de grande naturalidade, encontrando em Thomas Hoppe um parceiro de notável sensibilidade, cuja presença ao piano se afirmou muito para além do simples acompanhamento. O equilíbrio entre ambos revelou-se exemplar, permitindo que cada linha melódica respirasse com liberdade, num permanente diálogo de intenções e de cores tímbricas. A transição para a “Sonata para violino e piano n.º 2, em Sol maior, M. 77”, de Maurice Ravel, representou uma mudança radical de universo sonoro, explorada com inteligência e rigor. As influências jazzísticas do célebre andamento “Blues” foram abordadas com subtileza, evitando qualquer caricatura estilística, enquanto o fulgurante “Perpetuum mobile” colocou em evidência a extraordinária segurança técnica de Moncado, apoiada por um piano de impressionante precisão rítmica e clareza estrutural.
Após o intervalo assistiu-se ao momento alto do concerto, com a monumental “Sonata para violino e piano, em Lá maior”, de César Franck, a confirmar a profundidade artística da parceria, numa interpretação que conciliou intensidade emocional, amplitude arquitectónica e permanente sentido narrativo. A progressão cíclica da obra encontrou nos dois músicos uma leitura de grande unidade, sustentada por um equilíbrio exemplar entre tensão e lirismo, sem nunca perder a clareza das diferentes camadas discursivas. Thomas Hoppe voltou a afirmar-se como um pianista de recursos extraordinários, capaz de conjugar potência sonora com delicadeza de toque, enquanto Elias David Moncado impressionou pela riqueza tímbrica, pela afinação irrepreensível e pela expressividade de um som simultaneamente nobre e incisivo. O concerto encerrou com a arrebatadora “Carmen Fantasia”, de Franz Waxman, na célebre transcrição de Jascha Heifetz, autêntico desafio técnico que ambos superaram com assinalável brilhantismo. O prolongado aplauso da assistência confirmou o êxito de uma noite que honrou plenamente a tradição de excelência do Festival Internacional de Música de Espinho.