“Triste é o povo que não consegue imaginar um futuro
Nós somos esse povo”
No dia 25 de Abril, o Cineteatro António Lamoso abriu as portas a Capicua para a apresentação de “Um Gelado Antes do Fim do Mundo”, o seu mais recente trabalho discográfico. Neste convocar da memória e do presente para um mesmo acto de resistência, o “dia inicial, inteiro e limpo” não foi mero pano de fundo, atravessando o espectáculo de ponta a ponta, qual fio invisível a ligar a palavra à liberdade conquistada em 1974. Entre canções e momentos declamados, Capicua soube construiu uma narrativa na qual a sobrevivência da poesia, em tempos de colapso, se afirma, além de afectivo e empático, como gesto marcadamente político. A abrir as hostilidades, “Chiaroscuro” foi retrato mordaz da vertigem contemporânea, enquanto “Souvenir” e “Circunvalação” resgataram a cidade do Porto, ora como espaço de exclusão, ora como território de pertença. Pelo meio, “Primavera” devolveu à Revolução a sua dimensão orgânica e urgente, lembrando que a utopia não é um luxo, mas uma necessidade.
Há muito que Capicua se firmou como uma das vozes mais singulares da música portuguesa, uma arquitecta de palavras cujo universo cruza o rap, a crónica e a intervenção cívica com uma densidade rara. Neste espectáculo, essa identidade surgiu depurada e expandida, numa fluidez que alternou entre o canto, a declamação e o remoque incisivo. Segura, mas nunca hermética, a sua presença em palco fez-se de uma vulnerabilidade assumida que aproximou e convocou. As influências literárias e musicais mostraram-se de forma explícita, não como citação, mas como respiração estética. A herança de Sophia de Mello Breyner revelou-se na limpidez ética e na relação com a natureza e a liberdade; a de Sérgio Godinho emergiu da canção de intervenção, na ironia e na atenção ao colectivo. Quando revisitou “Medo do Medo” ou interpretou “Que força é essa, amiga”, o concerto ganhou outra espessura, ligando diferentes gerações no que há de inquietação e combate nos dias que correm.
Musicalmente, o espectáculo confirmou a organicidade do disco: a convivência entre instrumentos analógicos e electrónica, entre o íntimo e o dançável, foi capaz de criar um percurso dinâmico e envolvente. Temas como “Gaudí” ou “Meia-Romã” ofereceram uma respiração feita de leveza e lirismo, enquanto “Brava” ou “Mátria” foram a reafirmação da urgência política de uma obra que nunca se demite do seu tempo. Houve, ainda assim, momentos em que a palavra - esse centro gravitacional de todo o espectáculo - se perdeu na sala por culpa de um som pouco cuidado, comprometendo a nitidez de uma escrita que exige escuta plena. É um lamento que não apaga o essencial: a força de um concerto que, em pleno 25 de Abril, celebrou a liberdade como prática viva e colectiva. No fim, ficou sobretudo a beleza de um encontro onde a música e a poesia se ergueram, vivas e livres, como abrigo e promessa.