CINEMA: “Hamnet”
Realização | Chloé Zhao
Argumento | Chloé Zhao, Maggie O’Farrell
Fotografia | Lukasz Zal
Montagem | Chloé Zhao, Affonso Gonçalves
Interpretação | Jessie Buckley, Paul Mescal, Jacobi Jupe, Emily Watson, Zac Wishart, James Lintern, Joe Alwyn, Justine Mitchell, Eva Wishart, Effie Linnen, David Wilmot, Freya Hannan-Mills, Dainton Anderson, James Skinner, Louisa Harland, Elliot Baxter, John Mackay
Produção | Nicolas Gonda, Pippa Harris, Liza Marshall, Sam Mendes, Steven Spielberg
Reino Unido, Estados Unidos | 2025 | Drama, Biografia, História, Romance | 125 Minutos | Maiores de 12 Anos
Cinemas NOS Amoreiras - Sala 1
09 Fev 2026 | seg | 15:20
Chloé Zhao chega a “Hamnet” com a autoridade de quem sempre filmou os seus personagens a partir das margens, sejam elas geográficas, sociais ou mesmo emocionais. A adaptacão que faz do romance homónimo de Maggie O’Farrell, leva-a a evitar deliberadamente o “biopic” tradicional e a optar por olhar William Shakespeare de viés, através da sua mulher, Agnes (ou será Anne?) Hathaway, a figura quase mítica enraizada na natureza. O filme abre com um gesto programático - o nome “Hamnet” antes de qualquer rosto - estabelecendo desde logo a equivalência simbólica entre o filho perdido e a obra futura, entre vida e criação. Zhao constrói um mundo sensorial, dominado por silêncios, rituais domésticos e uma relação quase panteísta com a paisagem rural inglesa do século XVI. A fotografia de Lukasz Zal reforça essa imersão, enquanto Agnes surge como uma presença intuitiva, ligada às forças telúricas, frequentemente tratada pelos outros como “bruxa”, mas vista como guardiã de um saber ancestral. É nessa harmonia inicial, quase suspensa no tempo, que o filme investe grande parte da sua energia, apostando num ritmo lento e contemplativo que privilegia a observação em detrimento da progressão narrativa.
O coração emocional de “Hamnet” reside na relação entre os gémeos Hamnet e Judith, filmados como duas metades de um mesmo organismo, ligados por uma intimidade silenciosa que antecipa a tragédia. A opção por representar a doença e a morte, não como um evento clínico, mas como um “mal” quase metafísico, insere o filme numa zona ambígua entre o realismo histórico e a fábula. É também aqui que Zhao atinge alguns dos seus momentos mais fortes, apostando numa direcção de grande delicadeza, sustentada pela interpretação comovente do jovem Jacobi Jupe. No entanto, essa mesma opção estética expõe uma fragilidade do filme: a insistência num tom elegíaco constante, sublinhado por uma banda sonora por vezes intrusiva e que transforma a dor em dispositivo emocional repetido. O luto de Agnes e William é filmado como um processo assimétrico - ela implode, ele foge para Londres e para o teatro - mas a exploração dessa diferença nem sempre ganha a densidade psicológica prometida. Se, por um lado, podemos ver aqui um estudo profundo sobre as múltiplas formas de viver a perda, por outro sente-se que o filme demora excessivamente, confundindo contenção com estagnação.
Vamos ter de esperar pela sequência final, já no Globe Theatre, para vermos “Hamnet” encontrar a sua verdadeira síntese. Quando Agnes assiste à representação da tragédia “Hamlet”, o filme articula finalmente, de forma clara e poderosa, a ideia que sempre o atravessou: a arte como espaço de transfiguração da dor, não como cura, mas como respiração possível. A “mise en abyme” - o público a observar um público - reforça a dimensão colectiva da tragédia e da catarse, lembrando que o teatro, como o cinema, é um lugar de partilha emocional. Ainda assim, Zhao não resiste a um certo excesso, seja no uso da música de Max Richter, seja na construção de um clímax pensado para comover de forma quase programática. “Hamnet” é, sem dúvida, um filme belo, sensível e tecnicamente irrepreensível, mas também um objecto calculado para a temporada de prémios que agora começa, o que lhe retira espontaneidade e verdade. Entre a elegia íntima e o melodrama, Zhao assina uma obra tocante e imperfeita, que confirma o seu talento humanista, mesmo quando se aproxima perigosamente da solenidade excessiva.