CONCERTO: Sérgio Godinho & Os Assessores
Com | Sérgio Godinho (voz), Nuno Rafael (direcção musical, guitarras eléctricas e acústicas, cavaquinho, percussão, coros), Miguel Fevereiro (guitarras eléctricas e acústicas, percussão, coros), Nuno Espírito Santo (baixo, guitarra, teclado, percussão), João Cardoso (teclados, samplers, coros), Jorge Costa (bateria, percussão)
Cine-Teatro de Estarreja
28 Mar 2026 | sab | 21:30
Há nomes que não cabem no tempo que ocupam, nem nos oportunos rótulos de épocas ou gerações. Sérgio Godinho é um desses raros casos em que a obra - entre memória e futuro, entre o íntimo e o colectivo - se torna lugar de encontro, presença e certeza. A sua música não é apenas herdeira de um tempo de sonho e encantamento que depressa se esfumou, tampouco se esgota na chamada “música de intervenção”. É, antes, uma cartografia sensível do humano, onde cabe o humor e a ternura, a ironia e a denúncia, a festa e a inquietação. Ao longo de mais de meio século, o escritor de canções soube compôr uma língua própria, feita de palavras que nos surgem simples, mas carregam nelas o mundo inteiro. Ao mesmo tempo, vem-nos brindando com um conjunto de melodias que nos visitam regularmente como se de um regresso a casa se tratasse. E talvez seja por isso que, em cada escuta, há sempre qualquer coisa de inaugural, como se “o primeiro dia” estivesse por acontecer, ali, ao virar de um simples verso. No Cine-Teatro de Estarreja, rodeado de “assessores”, Sérgio Godinho fez com que o milagre se repetisse sem ser nunca o mesmo das vezes anteriores.
Desde os primeiros versos de “Foi Aos 25 Dias De Abril”, o público mostrou que estava ali para celebrar, partilhar e cantar até que a voz doesse. Num alinhamento que cruzou o “novo” e o “menos novo”, desfilaram canções que são parte de nós, inscritas numa memória colectiva que, “com um brilhozinho nos olhos”, trata por tu a Rita, a Etelvina e o Casimiro, gosta de se juntar ao “coro das velhas” e rejeita “a coboiada em que é tudo do xerife”. Do palco, esse lugar onde a palavra ganha corpo, veio a força de uma obra que convoca e une, braço dado entre gerações, num coro que cresceu até se tornar “maré alta”. Ao longo de uma hora e meia, houve espaço para a evocação dos companheiros de caminho, para os fantasmas bons de outras canções, para o humor e para a dor, mas sobretudo houve essa extraordinária cumplicidade que transforma um concerto num acto comunitário. E quando as vozes se ergueram para cantar “a paz, o pão, a habitação, saúde, educação”, percebeu-se que não é só de música que se faz um concerto de Sérgio Godinho & Os Assessores. Nele impõe-se um gesto, um compromisso e uma lembrança viva de que há palavras que não perderão nunca o sentido.
Mais do que um exercício de memória, voltar a Sérgio Godinho é hoje um acto cívico de vigilância. Tantas vezes envoltas numa doçura quase distraída, as suas canções encerram alertas que ressoam com particular urgência num presente inquieto. Em versos que falam de desigualdade, de exploração, de indiferença ou de injustiça, há uma lucidez que atravessa décadas e se recusa a baixar a guarda. Quando escutamos “Grão da Mesma Mó” ou reconhecemos, em novas roupagens, a sombra dos “Vampiros” ou de “O Charlatão”, não é difícil percebermos que o mundo continua a exigir de nós a maior atenção e firmeza. Num tempo em que são visíveis enormes recuos, em que discursos fáceis procuram apagar conquistas tão difíceis, a obra de Sérgio Godinho permanece como um lugar de consciência, uma lembrança de que a liberdade não é um dado adquirido, antes exige trabalho contínuo nessa luta pela sua defesa. Por isso regressaremos sempre aos concertos de Sérgio Godinho e às suas canções, certos de que preservam bem viva a capacidade de questionar sobre o que estamos nós dispostos a fazer com o mundo que temos.