LUGARES: Sinagoga del Agua
Calle Roque Rojas, 2 - Úbeda (Jaén)
Horários | Todos os dias, das 10:30 às 13:30 e das 17:00 às 19:15
Ingressos | € 6,00, bilhete normal
Site | https://sinagogadelagua.com/
No coração do centro histórico de Úbeda, cidade andaluza Património Mundial da UNESCO, encontra-se um dos espaços mais surpreendentes da herança judaica espanhola: a Sinagoga da Água. A sua descoberta, em 2007, ocorreu de forma completamente fortuita, quando o empresário Fernando Crespo iniciou obras de reabilitação em vários imóveis antigos com o objectivo de os transformar em apartamentos, lojas e parques de estacionamento. À medida que os trabalhos avançavam, começaram a surgir elementos arquitectónicos inesperados: arcos medievais ocultos por paredes posteriores, uma galeria feminina, poços de água e um banho ritual judaico. Perante a importância do achado, o projecto imobiliário foi abandonado e deu lugar a um cuidadoso processo de recuperação patrimonial. Desde 2010, o conjunto está aberto ao público, atraindo visitantes de todo o mundo. Embora alguns especialistas continuem a discutir a classificação definitiva do monumento, muitos dos elementos identificados correspondem claramente à tipologia das sinagogas medievais da Península Ibérica. O ambiente convida a imaginar a intensa vida comunitária que aqui decorreu antes da expulsão dos judeus em 1492. As sucessivas ocupações cristãs e muçulmanas deixaram igualmente marcas visíveis, criando um espaço onde diferentes épocas e culturas dialogam entre si. Cada detalhe parece revelar uma nova camada da história de Úbeda, cidade que durante séculos guardou este património quase em segredo.
A visita começa na chamada Sala do Inquisidor, um espaço cujo nome evoca uma das maiores ironias da história local: numa das fachadas vizinhas conserva-se ainda o brasão do Santo Ofício, instituição responsável pela perseguição dos judeus após a sua expulsão dos reinos espanhóis. Este primeiro compartimento, juntamente com o pátio, a adega e os fornos, poderá ter integrado a antiga residência do rabino da comunidade. Prosseguindo o percurso, o visitante alcança o pátio central, verdadeiro eixo de distribuição de todo o complexo. Aqui destacam-se duas colunas originais perfeitamente preservadas, ornamentadas com motivos vegetais que recordam a palmeira ou Árvore da Vida, uma das imagens mais recorrentes na simbologia judaica. Nos capitéis surgem alusões à Menorá, o candelabro de sete braços que constitui um dos símbolos mais antigos do Judaísmo. É também neste espaço que se encontra a chamada Porta da Alma, acesso principal à área de cultos. Parte dos seus elementos — colunas, degraus e segmentos do arco — são originais, enquanto outros tiveram de ser reconstruídos após a localização das peças dispersas em paredes erguidas durante séculos de transformações arquitectónicas. Sobre o arco sobressai uma estrela de David esculpida em pedra, reforçando a identidade do lugar.
A partir da Porta da Alma entra-se na grande sala sinagogal, organizada em três naves separadas por arcos ogivais originais que permaneceram escondidos durante séculos no interior das habitações construídas posteriormente. O espaço apresenta a sobriedade característica das sinagogas medievais espanholas, concebidas não apenas para a oração, mas também para o estudo, a administração da comunidade e a resolução de questões jurídicas sob orientação do rabino e dos anciãos. Um dos elementos mais interessantes encontra-se na parte superior de uma das naves: a Galeria das Mulheres. Sustentada por quatro colunas originais e parcialmente oculta por portadas de madeira, era o local reservado às mulheres durante as cerimónias religiosas. O tecto de madeira pintada conserva ainda vestígios da decoração antiga, contribuindo para a atmosfera de recolhimento que caracteriza o conjunto. Ao longo do percurso surgem diversos poços, num total de sete, testemunhando a importância da presença de água subterrânea na concepção do edifício. Dois deles conservam ainda água e os seus rebordos originais. Os guias costumam chamar a atenção para esta relação entre arquitectura e recursos hídricos, um aspecto fundamental na tradição judaica, onde a água assume um papel central nos rituais de purificação e renovação espiritual.
O ponto culminante da visita encontra-se no Mikveh, o banho ritual de purificação, acessível através de um estreito corredor escavado na rocha. Escondido sob aquilo que durante muito tempo se julgou ser apenas uma antiga adega, este espaço revela uma das descobertas mais impressionantes de todo o complexo. Coberto por uma discreta abóbada de pedra, o Mikveh possui uma escadaria talhada directamente na rocha que conduz a uma nascente de água natural, corrente e permanente, condição indispensável para a validade ritual deste tipo de edifícios. Homens e mulheres utilizavam este banho em momentos específicos da vida religiosa, desde a preparação para festividades até acontecimentos familiares marcantes. A visita prossegue depois pela adega e pelos fornos, onde ainda se observam grandes recipientes semi-enterrados destinados ao armazenamento de azeite, vinho kosher e outros alimentos. Os vestígios da antiga cozinha sugerem a preparação de pão ázimo e a conservação de refeições para o Shabbat. O percurso termina numa pequena exposição de objectos ligados ao culto judaico, entre os quais réplicas da Torá, Menorás, mezuzot e outros símbolos da tradição hebraica. Mais do que um monumento, a Sinagoga da Água oferece uma viagem à memória de uma comunidade desaparecida, permitindo compreender uma dimensão muitas vezes esquecida da história cultural da Andaluzia.