Entre os dias 24 e 29 de Junho, o Porto viveu uma relação particularmente feliz com a literatura. O BABELL, evento que chamou à cidade escritores, leitores, ideias e diferentes formas de pensar a literatura, revelou-se muito mais do que uma sucessão de encontros ou uma circunstância de calendário: foi, sobretudo, uma proposta cultural de inequívoco alcance, pela dimensão da programação e, sobretudo, pela qualidade e refinamento das propostas. Numa cidade que tem sabido afirmar-se como território de cultura, a literatura encontrou aqui uma casa aberta, capaz de acolher vozes, geografias e sensibilidades muito distintas, aproximando autores e públicos sem abdicar da variedade, qualidade e exigência. É num vasto programa paralelo, feito de exposições, conversas e outras derivações da palavra escrita, que vamos encontrar “Imagens Cativas”, exposição de fotografia que, até 05 de Outubro, toma conta de uma das salas do Centro Português de Fotografia. Num edifício onde a imagem se cruza historicamente com a ideia de memória, o fotógrafo argentino Daniel Mordzinski propõe-nos uma galeria de rostos que nos vêm dizer que a literatura, quando aberta a outras linguagens, pode ganhar novas formas de presença, de diálogo e de descoberta.
É a segunda vez que me encontro diante das fotografias de Daniel Mordzinski. A primeira foi em Lisboa, em Fevereiro de 2022, na exposição “Navegantes da Jangada de Pedra”, integrada nas “Correntes d’Escritas”. Se então a impressão dominante era a de uma extraordinária viagem pela literatura ibero-americana, “Imagens Cativas” confirma e aprofunda aquilo que torna Mordzinski um fotógrafo singular: a sua capacidade de fazer do retrato muito mais do que um registo documental. Há uma técnica apurada, naturalmente, um domínio admirável da luz, do enquadramento, do espaço e do instante, mas é na relação com o retratado que a sua arte verdadeiramente se cumpre. O artista não parece fotografar escritores; parece conversar com eles através da câmara. Dessa conversa nasce uma cumplicidade que lhes permite abandonar, por instantes, a pose previsível do autor consagrado. É então que surgem o gesto inesperado, o olhar oblíquo, o sorriso suspenso, a expressão de inquietação ou de ironia. Pequenos sinais que, nas suas mãos, deixam de ser acaso para se transformarem em narrativa. O fotógrafo dos escritores é, afinal, também um fotógrafo das suas máscaras e das personagens que por detrás delas se escondem.
A força de “Imagens Cativas” reside precisamente nesta ligação tão especial entre fotógrafo e fotografado. Diante de Gabriel García Márquez, Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Margaret Atwood, Isabel Allende ou Mario Vargas Llosa, entre tantos outros, não estamos apenas perante retratos de homens e mulheres que a literatura tornou célebres. Estamos perante uma espécie de prolongamento visual das suas obras. Mordzinski possui o raro dom de encontrar, no corpo do escritor, qualquer coisa da criatura que este criou, como se uma personagem pudesse, por instantes, atravessar a fronteira da ficção e instalar-se no rosto, no gesto ou na postura do seu criador. São pequenas narrativas, quase contos comprimidos no instante de um click, que fazem com que cada retrato contenha uma pergunta sobre o autor e a sua obra. Daniel Mordzinski fotografa pessoas, mas procura personagens; fotografa rostos, mas interroga imaginários. Fá-lo com uma delicadeza reveladora, conseguindo que aqueles que tantas vezes vimos como nomes nas capas dos livros regressem, por um instante, à condição humana de quem nos olha nos olhos e, através desse olhar, se revelem nas personagens que aprendemos a amar.