Páginas

sexta-feira, 24 de julho de 2026

LUGARES: Alhambra | Granada



LUGARES: Alhambra
Calle Real de la Alhambra, Granada
Horários | Todos os dias, das 08:30 às 20:00 (01 de Abril a 14 de Outubro) e das 08:30 às 18:00 (15 de Outubro a 31 de Março)
Ingressos | € 22,27 (bilhete geral)


Estamos na Alhambra de Granada. Há muito que ficou para trás o controlo de entradas e estamos agora no coração daquele que é o lugar mais visitado de toda a Espanha. Franquear a Porta da Justiça é como cruzar uma fronteira entre tempos desiguais. Mandado erguer por Yusuf I em 1348, o arco que se ergue no seio do conjunto monumental continua a exigir silêncio antes mesmo de impor respeito. Na pedra sobrevivem a mão e a chave, símbolos da lei e da autoridade, enquanto uma pequena imagem cristã recorda que a História é feita de camadas. Diante do visitante abre-se não apenas uma fortaleza, não apenas um palácio, mas uma cidade palatina, coração político, militar e cerimonial do derradeiro reino islâmico da Península. O seu nome continua envolto em mistério. Talvez venha de al-Hamra, “a Vermelha”, pela tonalidade da terra e dos muros; talvez das tochas que iluminavam as obras nocturnas; talvez do cognome de Muhammad I, o fundador. Seja qual for a origem, a verdade é que a Alhambra parece nascer da própria colina. Onde havia apenas pedra, os soberanos nasridas fizeram nascer um oásis. Desviaram águas do Darro, plantaram ciprestes, roseiras, laranjeiras e jasmineiros, abriram pátios onde a água canta baixinho e transformaram um promontório austero numa visão do paraíso na terra.

Torna-se por demais evidente que este lugar foi concebido para impressionar, para encantar e para afirmar poder. Não um poder ruidoso, mas subtil: o de quem domina a arte de converter a luz, a água e a palavra em instrumentos de governação. Caminhemos até à Alcáçova, o núcleo mais antigo do conjunto. Aqui a Alhambra revela a sua primeira identidade: antes de ser palácio foi fortaleza. Os tijolos avermelhados das muralhas parecem guardar ainda o eco das sentinelas que vigiavam o vale. Das torres da Vela e de Menagem, Granada surge como um mapa vivo, estendido aos pés do visitante. O que mais surpreende, porém, não está à vista. Sob a superfície corre um mundo subterrâneo de galerias, silos, cisternas e passagens cuja extensão continua a alimentar lendas. Alguns corredores serviam soldados e criados; outros conduziam a masmorras onde prisioneiros aguardavam resgate ou troca. Há relatos de homens atirados para poços escuros, esquecidos durante anos. Ainda hoje os arqueólogos exploram estes espaços ocultos, onde a realidade e o mito se confundem. Foi talvez por um desses caminhos secretos que Muhammad V escapou à revolta que o expulsou do trono em 1359. Regressaria três anos mais tarde para inaugurar a idade de ouro nasrida e legar à posteridade os espaços mais apetecíveis da Alhambra. Torna-se evidente que a magnificência dos palácios repousava sobre uma complexa maquinaria humana. Acima, os embaixadores admiravam fontes e arabescos; abaixo, uma mole imensa de serviçais garantia o normal funcionamento de um autêntico sonho.

Subimos agora ao Mexuar, onde se administrava o poder. Era aqui que ministros, funcionários e magistrados davam forma burocrática às decisões do sultão. A Alhambra possuía uma sofisticada geografia social: cada grupo circulava por percursos distintos para que raramente se cruzassem. O poder também se organizava através da arquitectura. Atravessamos o Palácio de Comares e admiramos o magnífico Pátio dos Arrayanes. O espelho de água alongado reflecte colunas, galerias e céus com uma serenidade que mesmo as hordas de turistas não conseguem quebrar. Nas paredes multiplicam-se inscrições árabes: poemas, bênçãos, louvores, desejos de fortuna. Um estudioso chegou a afirmar que, se desaparecessem colunas e arcadas, a Alhambra continuaria de pé sustentada pelas palavras. Em cada friso repete-se o lema da dinastia: “Só Deus é vencedor”. Entramos depois no Salão dos Embaixadores, instalado na Torre de Comares. Era o coração político do reino. Aqui eram recebidas delegações estrangeiras destinadas a regressar aos seus países relatando maravilhas. O tecto representa simbolicamente os céus islâmicos e a ascensão da alma até à esfera divina. Séculos mais tarde, Washington Irving contemplaria as estrelas a partir destas proximidades, recolhendo histórias que transformariam a Alhambra numa referência universal do imaginário romântico. Graças a ele, princesas e sultões, fantasmas e tesouros ocultos passaram a habitar para sempre a memória destes lugares.

Chegamos enfim ao Pátio dos Leões, talvez a imagem mais reconhecível da Alhambra. Contudo, nada prepara verdadeiramente o visitante para esta experiência. O espaço organiza-se como uma representação do paraíso descrito pela tradição islâmica. Quatro canais dividem o pátio e convergem para a célebre fonte sustentada por doze leões de mármore. Em redor, uma floresta de colunas cria uma sensação de leveza impressionante. A pedra parece tecido; os arcos fazem lembrar cortinas agitadas por uma leve brisa. Nas salas adjacentes encontramos algumas das obras-primas do génio nasrida. A Sala das Duas Irmãs exibe uma cúpula de estalactites que parece dissolver a matéria em luz. A Sala dos Abencerrajes conserva a memória da mais famosa lenda sangrenta de Granada: a execução de uma poderosa linhagem nobiliárquica por ordem do Emir Boabdil. Durante séculos contou-se que a água da fonte corria vermelha pelo sangue dos condenados. Verdade ou ficção, a narrativa sobrevive porque combina os ingredientes favoritos da memória colectiva: amor, traição e tragédia. Ao lado, a Sala dos Reis recorda os dias em que embaixadas estrangeiras eram recebidas entre tapeçarias, perfumes e cerimónias destinadas a exibir riqueza e refinamento.

A visita termina no Generalife, refúgio estival dos sultões. Para aqui vinham quando o calor apertava entre os muros da cidade palatina. O som da água acompanha cada passo. Corre por levadas, salta nas fontes, refresca pátios e alimenta jardins onde cresce uma exuberante vegetação. O Pátio da Acequia permanece como uma das mais perfeitas expressões da arte islâmica de domesticar a paisagem sem a violentar. Tudo parece espontâneo, embora nada tenha sido deixado ao acaso. Ao longe distinguimos ainda o palácio renascentista de Carlos V, o grande intruso de pedra que a monarquia cristã implantou no coração do universo nasrida. Paradoxalmente, essa presença ajuda-nos a compreender a singularidade da Alhambra. Após a conquista de 1492, Isabel de Castela poderia tê-la destruído. Preferiu preservá-la. Mais tarde vieram o abandono, os soldados napoleónicos, os habitantes pobres que ocuparam salas vazias, e finalmente a redescoberta patrimonial. A Alhambra sobreviveu porque nunca deixou de ser habitada, amada ou imaginada. Quando sai, o visitante leva consigo mais do que a recordação de um monumento. Leva a sensação rara de ter percorrido uma cidade construída entre a História e o sonho, onde a água escreve, a pedra recita os mais belos poemas e o tempo, ainda que por instantes, se detém para nosso espanto e fascínio.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

CINEMA: "O Convite" | Olivia Wilde



CINEMA: “O Convite” / “The Invite”
Realização | Olivia Wilde
Argumento | Cesc Gay, Will McCormack e Rashida Jones
Fotografia | Adam Newport-Berra
Montagem | Anthony Boys, Yorgos Mavropsaridis
Interpretação | Seth Rogen, Olivia Wilde, Penélope Cruz, Edward Norton, Skip Howland, Mel Powell, Rachel Thurow, Mario Valdez
Produção | Ben Browning, Megan Ellison, David Permut
Estados Unidos | 2026 | Comédia, Drama, Romance | 107 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 8
22 Jul 2026 | qua | 16:20


A maturidade de um realizador vê-se na forma como domina o espaço, o ritmo e os actores. É isso que Olivia Wilde mostra nesta adaptação do espanhol “Sentimental”, de Cesc Gay, transformando um simples jantar entre dois casais numa experiência cinematográfica tão divertida quanto desconfortável. A premissa é de uma simplicidade quase teatral: Angela e Joe vivem um casamento que o tempo esgotou, com a irritação e as frustrações a substituírem a cumplicidade e a proximidade. A visita dos vizinhos do andar de cima, um casal descomplexado que encara o amor e a sexualidade de forma radicalmente diferente, desencadeia uma sucessão de revelações que expõem fragilidades, desejos reprimidos e pequenas hipocrisias. Ao compreender que o verdadeiro espectáculo não está na acção, mas nas palavras, nos silêncios e nos olhares, Olivia Wilde explora de forma exemplar o estado emocional das personagens, fazendo a câmara deslizar pelos espaços da casa, observar através de espelhos, pousar nos tapetes e enquadrar portas entreabertas, criando uma sensação permanente de proximidade e clausura que acrescenta tensão a cada diálogo.

O maior triunfo de “O Convite” reside na extraordinária química do quarteto protagonista. Olivia Wilde revela uma vulnerabilidade surpreendente na pele de Angela, equilibrando insegurança, humor e desespero sem nunca perder autenticidade. Seth Rogen confirma que o seu talento vai muito além da comédia mais popular, compondo um homem cínico, amargo e profundamente humano, cuja incapacidade de comunicar se transforma na principal fonte de riso e tristeza. Penélope Cruz é o elemento catalisador da narrativa, irradiando charme, inteligência e serenidade, enquanto Edward Norton oferece uma das interpretações mais inesperadas da sua carreira recente, encontrando na leveza cómica um território onde raramente o vimos tão confortável. A dinâmica entre os quatro actores é irrepreensível, sustentada por diálogos vivos, sobrepostos e ritmados, que preservam a espontaneidade de uma conversa real. O argumento de Rashida Jones e Will McCormack revela uma rara precisão na escrita, permitindo que cada intervenção faça avançar simultaneamente o humor e o conflito dramático. O resultado é uma comédia adulta que evita o escândalo fácil e a provocação gratuita, preferindo explorar as fissuras das relações contemporâneas com inteligência, ironia e uma honestidade por vezes incómoda.

Embora o ponto de partida possa sugerir uma simples farsa sobre casais e relações abertas, “O Convite” revela-se muito mais do que isso. Por detrás de uma sucessão de momentos hilariantes e embaraçosos, esconde-se uma reflexão subtil sobre o desgaste da vida em comum, a distância que se instala entre duas pessoas que deixaram de se escutar e a coragem necessária para enfrentar aquilo que realmente se foi perdendo. Wilde evita julgamentos morais e recusa respostas fáceis, permitindo que o espectador descubra gradualmente que nenhuma das personagens está totalmente certa ou errada. O humor nasce precisamente desse desconforto, da identificação com situações absurdas que, no fundo, possuem uma inquietante verdade. É um filme que provoca gargalhadas, mas também convida à introspecção, equilibrando com notável elegância a leveza da comédia e a melancolia do drama. Sem recorrer a grandes reviravoltas, o filme conquista o espectador pela força do texto, pela precisão da encenação e pela excelência das interpretações. No final, fica a sensação de que aceitámos um simples convite para jantar e acabámos por assistir a um dos retratos mais perspicazes e divertidos das relações amorosas dos últimos tempos.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

LUGARES: Real Monasterio de San Jerónimo | Granada



LUGARES: Real Mosteiro de S. Jerónimo
Calle Rector López Argüeta 9, Granada
Horários | Horário de Verão, de Segunda-feira a Sábado, das 10h00 às 13h00 e das 16h00 às 19h00; Domingos e Feriados, das 11h00 às 13h00 e das 16h00 às 19h00. Horário de Inverno, de Segunda-feira a Sábado, das 10h00 às 13h00 e das 15h00 às 18h00; Domingos e Feriados, das 11h00 às 13h00 e das 15h00 às 18h00
Ingressos | € 7,00, bilhete normal; € 33,00, bilhete combinado (inclui Catedral de Granada, Capela Real, Mosteiro da Cartuxa, Abadia do Sacromonte, Mosteiro de S. Jerónimo e Igreja de San Nicolás + Torre)


Fundado em 1492 por vontade dos Reis Católicos, o Real Mosteiro de S. Jerónimo ergue-se como um dos mais notáveis testemunhos da Granada cristã saída da Reconquista. O propósito da Coroa era estabelecer na cidade a Ordem dos Jerónimos, congregação de origem espanhola que gozava de particular estima dos soberanos, dedicando-lhe um mosteiro onde toda a glória fosse atribuída exclusivamente a Deus. A intenção inicial passava por construí-lo em Santa Fé, no local onde se instalara o acampamento das tropas cristãs durante o cerco de Granada, mas as condições do terreno aconselharam a sua transferência para uma propriedade situada extramuros da cidade, doada pelos monarcas. As obras tiveram início em 1505 e avançaram com assinalável rapidez, permitindo que, em 1521, a primeira comunidade de monges ali se estabelecesse. A beleza do conjunto impressionou desde cedo os visitantes. Em 1526, o embaixador veneziano Andrea Navagero descrevia um mosteiro magnífico, rodeado por jardins, fontes e dois claustros de extraordinária elegância, onde laranjeiras, cedros perfumados, murtas e outras espécies transformavam o espaço num verdadeiro jardim renascentista.

Entrando no Mosteiro, é o Claustro Principal, também conhecido como Claustro Processional, que melhor traduz o quotidiano da antiga comunidade jerónima. De feição gótica, mas enriquecido por uma elegante decoração renascentista, este era o coração da vida conventual, onde os monges circulavam, meditavam e celebravam as procissões internas. Sobre a entrada permanece inscrito o lema que sintetiza o espírito da casa - Soli Deo honor et gloria -, acompanhado da data de 1593, recordando que toda a vida ali decorria em honra de Deus. Os jardins, pontuados por laranjeiras e harmoniosamente enquadrados pelas galerias do claustro, conservam grande parte do encanto descrito pelos viajantes do século XVI. Ao longo das paredes sucedem-se sete arcossólios concebidos como pequenas capelas, enriquecendo um espaço onde arquitectura, natureza e espiritualidade dialogam em perfeita sintonia. A poucos passos encontra-se o chamado Claustro da Imperatriz, assim designado por ali ter residido, em 1526, Isabel de Portugal, esposa de Carlos I de Espanha e imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico. Depois de vários abalos sísmicos sentidos na cidade, a soberana escolheu este mosteiro como refúgio seguro, permanecendo nele durante uma estadia que ficaria ligada à gravidez daquele que viria a ser Filipe II.

A visita prossegue ao longo das antigas dependências conventuais, espaços que revelam a organização rigorosa da vida monástica. O refeitório era o local onde a comunidade tomava as refeições em silêncio, enquanto a Sala Profundis recebia esse nome por nela ser entoado o Salmo 129 antes das refeições e em sufrágio dos irmãos falecidos. A Sala Capitular, destinada às reuniões da comunidade e às decisões mais importantes da vida do mosteiro, conserva a lápide sepulcral de Pedro Ramiro de Alva, prior da casa e arcebispo de Granada entre 1526 e 1528. Já na sacristia destaca-se uma imponente mesa em mármore proveniente de El Carmen de los Mártires, testemunho da riqueza artística acumulada ao longo dos séculos. A história do Mosteiro, contudo, conheceu períodos difíceis. Em consequência da desamortização decretada por Mendizábal, em 1835, os monges abandonaram o edifício, que foi transformado em quartel. Apenas na década de 1960 regressou à Ordem de S. Jerónimo, iniciando-se uma profunda campanha de recuperação que permitiu devolver-lhe a dignidade original. Desde 1977 é habitado por uma comunidade de madres jerónimas, que mantém viva a vocação espiritual do monumento.

O percurso culmina na igreja, cuja imponência sintetiza a evolução artística do conjunto. O templo apresenta uma única nave rectangular, dividida em quatro tramos, ladeada por capelas laterais. A estrutura pertence ainda ao gótico final, mas o Altar-Mor anuncia já o pleno Renascimento, reflectindo a transição estética que marcou a arquitectura espanhola do século XVI. No século XVIII, tectos e paredes foram revestidos por exuberantes pinturas murais executadas entre 1723 e 1735 pela oficina de Juan de Medina, enriquecendo o interior com uma notável cenografia barroca. É, porém, a Capela-Mor que concentra o maior simbolismo histórico, acolhendo os túmulos de Gonzalo Fernández de Córdoba, o célebre Gran Capitan, e de sua esposa, María Manrique, duquesa de Sessa. Militar brilhante ao serviço dos Reis Católicos, Gonzalo destacou-se nas grandes campanhas militares do final do século XV e do início do século XVI, tornando-se uma das figuras mais prestigiadas da história de Espanha. É o final de uma visita a um Mosteiro onde arquitectura, arte, memória e espiritualidade se entrelaçam, preservando intacto um dos mais preciosos legados monumentais de Granada.

terça-feira, 21 de julho de 2026

LUGARES: Pátios de Córdova



LUGARES: Pátios de Córdova
Vários locais
Horários | Variáveis de acordo com cada pátio; a informação detalhada pode ser consultada em https://patios.cordoba.es/como-visitar-informacion/
Ingressos | Visita livre e gratuita


Muito mais do que meros elementos arquitectónicos, os pátios cordoveses são o verdadeiro coração da casa e um dos mais expressivos símbolos da identidade de Córdova. A sua origem remonta às primeiras habitações com pátio da antiga Mesopotâmia, aperfeiçoadas pelo mundo greco-romano, que concentrava no espaço central, rodeado por colunas, a vida familiar e o acolhimento dos visitantes. Com a chegada dos muçulmanos à Península, esta tradição adquiriu uma nova dimensão. As fachadas tornaram-se discretas, voltadas para um interior resguardado, enquanto os pátios se enchiam de água, luz e vegetação, com fontes, azulejos e delicadas gelosias que concorriam para a criação de um ambiente de frescura indispensável ao clima andaluz. Após a conquista cristã de 1236, esta organização da casa foi preservada, enriquecendo-se, ao longo dos séculos, com elementos mudéjares, renascentistas, barrocos e neoclássicos. Assim nasceu uma arquitectura singular, onde convivem o mármore, o empedrado, os vasos floridos, os poços, as antigas cancelas, os capitéis reaproveitados e o inconfundível pavimento de seixo cordovês, formando um conjunto de extraordinária harmonia.

Distribuídos pela cidade velha de Córdova, cada pátio revela uma personalidade própria, moldada pela história dos edifícios e das famílias que os habitaram. Uns pertencem a antigos palácios senhoriais, conventos ou monumentos, como o célebre Pátio das Laranjeiras ou o Palácio de Viana, cujos doze pátios ilustram diferentes épocas e estilos arquitectónicos. Outros nasceram em casas mais modestas e, sobretudo durante o século XX, transformaram-se nas chamadas casas de vizinhos, onde o pátio era o espaço comum em torno do qual se organizava a vida quotidiana. Era ali que se encontravam cozinhas, lavadouros e instalações sanitárias partilhadas, mas também onde se conversava, se festejava e se fortaleciam os laços de vizinhança. As paredes cobertas de vasos, os canteiros floridos, as árvores de fruto e o murmúrio constante da água conferiam beleza a um espaço concebido para ser vivido. Ainda hoje os pátios distinguem-se entre exemplares de arquitectura antiga, que preservam a sua estrutura tradicional, e outros de arquitectura renovada, testemunhando a capacidade de Córdova para conservar a essência do seu património sem deixar de acompanhar a evolução urbanística.

A abertura dos pátios ao público teve o seu início em 1918, dando origem, poucos anos depois, ao Concurso de Pátios promovido pela municipalidade. Após um início modesto, marcado por interrupções, nomeadamente durante a Guerra Civil, o certame consolidou-se a partir de finais da década de 1940, tornando-se uma das celebrações mais emblemáticas da cidade. O crescente interesse levou ao aumento dos prémios, ao aperfeiçoamento dos critérios de avaliação e à valorização da autenticidade, privilegiando a riqueza floral, o respeito pela arquitectura tradicional, o cuidado ornamental e o esforço dos moradores. Ao longo das décadas, a festa ultrapassou o carácter competitivo para afirmar um património vivo, onde a hospitalidade cordovesa se exprime na generosa abertura das casas aos visitantes. O reconhecimento internacional chegou em 2012, quando a Festa dos Pátios foi inscrita pela UNESCO na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade, distinção que reforçou o prestígio desta tradição. Visitar Córdova, em particular durante o mês de Maio é, por isso, entrar num universo onde património e memória, os perfumes das flores e o convívio quotidiano, se fundem numa experiência única, reveladora do que Córdova tem de mais identitário e íntimo.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

CONCERTO: “The Last Sky” | Anouar Brahem



CONCERTO: “The Last Sky”
Com | Anouar Brahem (oud), Django Bates (piano), Anja Lechner (violoncelo), Mats Eilertsen (contrabaixo)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
18 Jul 2026 | sab | 21:30

“Where should we go after the last frontiers?
Where should the birds fly after the last sky?
Where should the plants sleep after the last breath of air?
We will write our names with scarlet steam.
We will cut off the hand of the song to be finished by our flesh.
We will die here, here in the last passage.
Here and here our blood will plant its olive tree.”
Mahmoud Darwish, “The Earth Is Closing In On Us”

Quase na recta final do FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho, o compositor e oudista tunisino Anouar Brahem trouxe ao Auditório de Espinho o seu mais recente trabalho discográfico, “After the Last Sky”, confirmando que a sua música continua a ocupar um território onde tradição e contemporaneidade se misturam e confundem como matéria de um mesmo pensamento musical. Inspirado no verso do poeta palestiniano Mahmoud Darwish – “Where should the birds fly after the last sky?” -, o concerto olhou com o necessário distanciamento o drama humanitário de Gaza, assumindo-se como uma reflexão de cariz político e cujo alcance universal tocou as cordas do exílio, da perda, da memória e da resistência. Fazendo da contenção uma forma de profundidade, Anouar Brahem optou pela subtileza de uma escrita onde cada silêncio pesou tanto como cada nota. De “Remembering Hind” a “Edward Said's Reverie”, passando por “Never Forget”, “The Sweet Oranges of Jaffa” ou pelo tema que dá título ao concerto, a música derramou-se de forma deliberadamente lenta, permitindo que cada frase respirasse naturalmente e que o público pudesse descobrir, sem pressas, os delicados equilíbrios entre composição e improvisação.

Se Anouar Brahem se afirmou como centro gravitacional do concerto, a excelência do quarteto residiu precisamente na ausência de hierarquias ostensivas. Django Bates confirmou, uma vez mais, a sua extraordinária capacidade para encontrar cores harmónicas inesperadas, alternando momentos de delicada transparência com subtis desvios rítmicos que privilegiaram as margens agudas do piano e evitaram acomodações do discurso. No contrabaixo, Mats Eilertsen foi uma bela surpresa, sustentando toda a arquitectura sonora com uma autoridade discreta e uma notável economia de meios. O maior aplauso, porém, vai para Anja Lechner, que com o seu violoncelo soube acrescentar a “The Last Sky” uma dimensão camerística que o distingue claramente dos anteriores trabalhos de Brahem. Funcionando simultaneamente como prolongamento melódico dos restantes instrumentos e como voz autónoma, o violoncelo foi capaz de manter um diálogo profícuo com o oud e com o piano, fazendo emergir momentos de notável cumplicidade. O oud e o contrabaixo estiveram em evidência no inesquecível “The Eternal Olive Tree”, tema que soube afirmar-se como uma meditação serena sobre permanência e resiliência.

O silêncio quase reverencial que envolveu toda a sala ao longo do concerto tornou-se parte integrante da própria execução. As palavras dirigidas ao público foram escassas, sobressaindo a comunicação estabelecida integralmente através da música. Muito reclamado, o “encore” trouxe com ele “Vague”, síntese perfeita de um concerto contemplativo, mas que nunca perdeu de vista as dúvidas e inquietações expressas por Mahmoud Darwish e que são, afinal, as nossas próprias dúvidas e inquietações. Numa época em que o jazz contemporâneo vem privilegiando a complexidade estrutural ou a afirmação individual dos intérpretes, escutar Anouar Brahem foi precioso. Na sua forma de, através da música, desacelerar o tempo, eliminar o supérfluo e devolver ao silêncio uma função expressiva essencial, encontrou o público algo intrínseco à sua própria razão de existir. O resultado foi muito além do simples encontro entre o jazz e a música de raiz árabe, assumindo-se como espaço de encontro e de memória, como síntese madura entre diferentes tradições culturais. Em Espinho, Anouar Brahem reafirmou a sua singularidade enquanto criador e intérprete, demonstrando que a beleza, quando sustentada pela inteligência, rigor e humanidade, pode ser uma forma profundamente eficaz de resistência.

domingo, 19 de julho de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão # 107 - Festa dos Premiados



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #107 
Festa dos Premiados 2025
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
17 Jul 2026 | sex | 21:30


Há um ano escrevia, neste mesmo espaço, sobre a Festa dos Premiados do Shortcutz Ovar, sublinhando a vitalidade de um projecto que, sessão após sessão, tem vindo a conquistar um público cada vez mais numeroso e fiel. Na noite da passada sexta-feira, a Escola de Artes e Ofícios voltou a encher-se para celebrar o melhor da 9.ª temporada, encerrando mais um ciclo de afirmação daquela que é, muito justamente, uma das maiores referências nacionais dedicadas ao cinema em versão curta que se faz entre nós. Ao longo do último ano passaram pelo Shortcutz Ovar vinte e quatro filmes, entre os quais sete primeiras obras e cinco filmes de imagem animada, numa programação marcada pela forte presença do documentário e por um número assinalável de comédias, sempre escolhidas com o rigor e a sensibilidade a que Tiago Alves e Ana Castro já nos habituaram. Num tempo em que ver cinema em comunidade se tornou quase um acto de resistência, o Shortcutz Ovar continua a oferecer um raro espaço de encontro entre realizadores, espectadores e filmes, contribuindo para formar um público atento e exigente. Muito desse mérito pertence também ao Município de Ovar e aos responsáveis pela área da Cultura, cujo apoio consistente tem permitido consolidar um projecto singular que, temporada após temporada, continua a afirmar o cinema português como património vivo, próximo e necessário.

Talvez não tenha sido por acaso que o palmarés deste ano tenha desenhado uma inesperada geografia da casa e da memória. Escolha do público, Maria, Maria, de Benjamim Quadros Costa, levou-nos até Belgais para descobrir não apenas a pianista Maria João Pires, mas também a intimidade de um lugar onde criação artística se confunde com afecto, heranças e liberdade, fazendo do diálogo entre neto e avó o verdadeiro coração do filme. Já Uma Mãe Vai à Praia, distinguido como Melhor Primeira Obra, confirmou Pedro Hasrouny como um realizador de enorme sensibilidade, desmontando com humor subtil e grande inteligência os preconceitos que recaiem sobre a maternidade, o corpo e os modelos familiares, num exercício cinematográfico onde Cláudia Jardim oferece uma interpretação de extraordinária contenção. Também T-Zero, de Vicente Niró, vencedor na categoria de Animação, encontrou na casa o centro da sua inquietação, transformando a crise da habitação numa poderosa alegoria sobre a gentrificação, a turistificação e a perda de identidade das cidades, lembrando-nos que a especulação imobiliária não destrói apenas edifícios: desfaz comunidades, memórias e modos de vida.

Se T-Zero denuncia uma cidade que expulsa quem nela sempre viveu, Amanhã Não Dão Chuva, distinguido com uma Menção Especial, recolhe os fragmentos de uma memória que lentamente se dissolve. Com um delicado trabalho de desenho a carvão, Maria Trigo Teixeira acompanha o percurso de uma mulher consumida pela demência, fazendo do próprio desenho uma metáfora das recordações que se esbatem sem nunca desaparecerem por completo. Num registo radicalmente distinto, mas igualmente marcado pela inquietação, Atom & Void, de Gonçalo Almeida, recebeu o Prémio Especial do Júri pela ousadia da sua proposta estética. Bastam nove minutos para transformar uma aranha na silenciosa protagonista de uma perturbadora fábula pós-apocalíptica, onde fotografia, desenho sonoro e luz convocam um universo entre o terror e a ficção científica, devolvendo ao espectador uma reflexão profundamente contemporânea sobre a fragilidade da condição humana e os limites de um progresso que insiste em ignorar as suas próprias consequências. A distinção unânime atribuída pelo júri reconheceu justamente uma visão artística invulgar, reveladora de um cineasta disposto a explorar caminhos pouco percorridos pelo cinema português.

O momento maior da noite chegaria com a atribuição do Prémio de Melhor Curta a Tão Pequeninas, Tinham o Ar de Serem Já Crescidas, de Tânia Dinis, talvez o filme que melhor sintetiza o espírito desta temporada. Fortemente ancorada no documentário, a realizadora devolve voz às mulheres que, ainda meninas, deixaram as aldeias do Norte para servir nas casas da cidade, resgatando uma memória colectiva demasiado tempo remetida ao silêncio. Entre fotografias, testemunhos e arquivos, revelam-se vidas de trabalho precoce, sacrifício e invisibilidade, mas também de uma extraordinária resistência e dignidade. O filme recusa olhar estas mulheres como figuras do passado; antes as aproxima do presente, lembrando que a exploração, o preconceito e a desigualdade apenas mudaram de rosto. Talvez por isso tenha reunido o consenso do júri, ao qual o público juntou o seu forte e prolongado aplauso. Mais do que distinguir os melhores filmes da temporada, a Festa dos Premiados voltou a demonstrar que a curta-metragem portuguesa atravessa um dos períodos mais criativos da sua história recente. O futuro de que tantas vezes se fala está aí e continua a encontrar, na última quinta-feira de cada mês, uma casa de portas abertas em Ovar. Após a pausa estival, lá estaremos de novo em Setembro.

sábado, 18 de julho de 2026

LIVRO: "Se Esta Rua Falasse" | James Baldwin



LIVRO: “Se Esta Rua Falasse”,
de James Baldwin
Título original | If Beale Street Could Talk” (© 1974, James Baldwin)
Tradução | José Mário Silva
Ed. Alfaguara, Setembro de 2018 (3.ª republicação, Agosto de 2022)


“Instala-se um silêncio, e ficamos a olhar um para o outro. Estamos a olhar um para o outro quando a porta atrás do Fonny se abre, e o homem aparece. Este é sempre o pior momento, quando o Fonny tem de se levantar e virar, e eu tenho de me levantar e virar. Mas o Fonny encara isto a bem. Levanta-se e ergue o punho. Sorri e fica ali de pé, por um momento, olhando-me nos olhos. Algo passa dele para mim, é amor e coragem. Sim. Sim. Vamos conseguir, seja como for. Seja como for. Levanto-me, com um sorriso, e ergo o punho. Ele regressa ao inferno. Eu caminho para o deserto do Sara.”

James Baldwin sempre me seduziu pela verdade da sua escrita e pela precisão e lucidez do seu olhar. A dimensão sociológica e política do seu pensamento, a forma como denuncia o racismo estrutural, sem artifícios, através de situações simples que expõem, com uma força devastadora, a violência entranhada no quotidiano, torna a sua escrita incómoda e fascinante à vez. É essa clareza — simultaneamente serena e dilacerante — que torna a sua obra tão necessária quanto inesquecível. Esta verdade está patente, uma vez mais, em “Se Esta Rua Falasse”, uma história aparentemente simples através da qual o autor constrói um dos mais contundentes retratos da América racializada da segunda metade do século XX. Tish e Fonny, amigos de infância que descobrem no amor uma promessa de futuro, vêem o seu projecto de vida abruptamente interrompido quando o jovem é acusado de violação e metido na prisão. A partir daí, o romance transforma-se numa reflexão profunda sobre a desigualdade, a arbitrariedade da justiça e a vulnerabilidade dos cidadãos negros perante instituições que parecem concebidas para os marginalizar.

Quinto romance de James Baldwin, “Se Esta Rua Falasse” não trata apenas da denuncia de um erro judicial. O livro expõe a lógica de um sistema onde a presunção de culpa recai frequentemente sobre os mesmos corpos e a mesma cor da pele. Nesse território, feito de sujeição, vergonha e humilhação, a verdade torna-se secundária perante o preconceito. O drama de Fonny adquire, assim, uma dimensão colectiva, convertendo-se no símbolo de milhares de vidas esmagadas por uma engrenagem social que perpetua a exclusão sob a aparência da legalidade. Contudo, reduzir o romance a uma denúncia política seria ignorar aquilo que lhe confere a sua força mais duradoura. Em contraponto ao peso da injustiça, Baldwin coloca o amor como forma de resistência. O sentimento que une Tish e Fonny preserva uma energia vital que permite enfrentar o medo, a afronta e a incerteza. A gravidez de Tish introduz uma poderosa dimensão simbólica: enquanto o sistema tenta destruir uma vida, outra prepara-se para nascer.

A família fecha-se em torno do casal, no que constitui um dos aspectos mais poderosos da obra. Pais, irmãos e amigos mobilizam-se numa demonstração de solidariedade que revela a importância dos laços afectivos nas comunidades oprimidas. James Baldwin possui o dom de conciliar intensidade emocional e lucidez analítica sem sacrificar nenhuma delas. A narração de Tish aproxima o leitor das experiências mais íntimas das personagens, criando uma sensação de proximidade que amplifica a dimensão dos acontecimentos. O autor evita o melodrama fácil e prefere uma linguagem depurada, directa e profundamente humana, cada frase carregada de ternura, revolta e compaixão. Essa contenção estilística torna ainda mais poderosa a crítica social que percorre o romance. Em simultâneo, a obra ultrapassa largamente o contexto histórico em que foi escrita. Embora enraizada na realidade afro-americana, fala de mecanismos de exclusão, de relações de poder e da luta pela dignidade que permanecem reconhecíveis em muitas sociedades contemporâneas.

Décadas após a sua publicação, o romance preserva uma impressionante actualidade. A persistência dos debates em torno do racismo estrutural, da violência policial e das desigualdades no acesso à justiça confirma a relevância das questões levantadas por James Baldwin. Mais do que um documento sobre uma época, “Se Esta Rua Falasse” é uma obra literária de grande alcance social e moral, capaz de transformar uma experiência particular numa reflexão universal sobre o amor, a liberdade e a resistência. Contam-se pelos dedos de uma mão os escritores capazes de articular com semelhante clareza a relação entre o íntimo e o político, entre a dor individual e a realidade colectiva. “Se Esta Rua Falasse” é um livro que denuncia sem ser panfletário, emociona sem ser lamechas e recorda que, mesmo perante a injustiça mais brutal, a Humanidade continua a encontrar formas de sobreviver e de afirmar a sua dignidade.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

CINEMA: “Franz” | Agnieszka Holland



CINEMA: “Franz”
Realização | Agnieszka Holland
Argumento | Marek Epstein, Agnieszka Holland
Fotografia | Tomasz Naumiuk
Montagem | Pavel Hrdlicka
Interpretação | Peter Kurth, Daniel Dongres, Idan Weiss, Aaron Friesz, Marika Malá, Anna Císarovská, Marta Dancingerová, Sandra Korzeniak, Josef Trojan, Katharina Stark, Jiří Panzner, Marek Pospíchal, Ivan Trojan, Vladimír Javorský, Karel Dobrý, Ondřej Malý
Produção | Sarka Cimbalova, Agnieszka Holland
República Checa, Polónia, Alemanha, França, Turquia | 2025 | Drama, Biografia, História | 127 Minutos | Maiores de 16 Anos
Vida Ovar - Castello Lopes
13 Jul 2026 | seg | 18:55


Com frequência vemos o quanto as biografias cinematográficas tendem a procurar explicações definitivas para vidas que resistem a ser encerradas numa narrativa linear. Agnieszka Holland recusa esse caminho em “Franz”, preferindo fazer da impossibilidade de compreender plenamente Franz Kafka o próprio motor do filme. Em vez de alinhar cronologicamente os episódios fundamentais da sua existência - a relação dilacerante com o pai, os amores impossíveis, a amizade decisiva de Max Brod ou a doença que o consumiria -, a realizadora constrói um mosaico fragmentário onde memória, ficção, sonho e presente convivem sem hierarquias. A estrutura descontínua, pontuada por depoimentos directos das personagens para a câmara e por sucessivos saltos temporais, afasta-se deliberadamente dos cânones do “biopic” convencional, em busca de uma linguagem cinematográfica que dialogue com a própria escrita kafkiana. Mais do que contar uma vida, a realizadora procura reproduzir a forma como essa vida foi sendo reinterpretada, apropriada e transformada ao longo de um século, aceitando que Kafka permanece, pela sua própria natureza, uma figura irredutivelmente incompleta.

Esta opção formal encontra plena correspondência na extraordinária dimensão visual do filme. Dominada por ocres sombrios, negros densos e enquadramentos amplos, a fotografia de Tomasz Naumiuk cria um universo simultaneamente realista e onírico, no qual as angústias íntimas do escritor se confundem com o imaginário das suas obras. Sem recorrer aos clichés habituais do surrealismo, Agnieszka Holland faz emergir imagens que parecem brotar directamente da sensibilidade de Kafka: um insecto que convoca “A Metamorfose”, a perturbadora materialização de “Na Colónia Penal”, ou breves momentos de humor absurdo que recordam uma faceta frequentemente esquecida do escritor. Idan Weiss, notável na sua primeira grande interpretação para cinema, evita qualquer tentação hagiográfica, compondo um Kafka vulnerável, tímido, curioso e profundamente humano. O conflito permanente com a figura autoritária do pai, interpretado com intensidade por Peter Kurth, nunca surge como uma explicação simplista da obra, mas antes como uma tensão permanente que atravessa a personalidade do escritor sem a reduzir a um exercício de causalidade psicológica.

Na reflexão sobre o legado de Kafka alcança “Franz “ a sua maior originalidade. Agnieszka Holland intercala a narrativa biográfica com incursões ao presente, mostrando museus, lojas de recordações, audioguias interactivos e até restaurantes de fast-food que exploram comercialmente a imagem do escritor. O humor destas sequências esconde uma observação mordaz sobre a transformação de um homem reservado numa marca global, venerada, consumida e frequentemente esvaziada da sua complexidade. Se, como alguém afirma no filme, por cada palavra escrita por Kafka foram escritas dez milhões sobre a sua vida e obra, então o verdadeiro protagonista já não é apenas o escritor, mas também o mito construído em seu redor. Holland evita tanto a canonização como a desconstrução iconoclasta, preferindo mostrar que nenhuma interpretação conseguirá esgotar o enigma. “Franz” não procura explicar Kafka; procura pensar como ele, adoptando uma linguagem fragmentária, inquieta e profundamente livre. O resultado é um retrato invulgarmente ambicioso, simultaneamente íntimo e caleidoscópico, que encontra na recusa das respostas fáceis a sua maior força cinematográfica. Uma bela surpresa. 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
Com | António Zambujo (voz e viola), João Salcedo (piano), João Moreira (trompete), José Miguel Conde (clarinete) e Francisco Brito (contrabaixo)
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2026 | sab | 21:30


António Zambujo foi o nome maior da última noite do FESTA – Sons da Lusofonia, chamando ao Parque Urbano de Ovar uma multidão que respondeu à chamada da organização com expectativa e entusiasmo. O recinto encheu-se para receber um dos mais populares e consensuais intérpretes da música portuguesa contemporânea, dono de um percurso singular que soube cruzar o fado, o cante alentejano, a música popular brasileira e a canção de autor, construindo uma identidade artística imediatamente reconhecível. Desde os primeiros passos, em Beja, passando pela consagração nacional e internacional, Zambujo é hoje uma referência incontornável da música de expressão portuguesa, acumulando distinções e uma legião de admiradores dos dois lados do Atlântico. Em Ovar, essa popularidade fez-se sentir desde o primeiro instante, perante uma assistência numerosa e calorosa, que ergueu a voz em praticamente todas as canções e respondeu com entusiasmo permanente a um concerto pensado para equilibrar memória e novidade. É que o músico aproveitou a ocasião para apresentar uma parte substancial de “Oração ao Tempo”, o seu mais recente trabalho discográfico, sem nunca perder de vista os temas que marcaram diferentes fases da sua carreira e que continuam a ocupar um lugar privilegiado nos corações do seu público.

O alinhamento começou precisamente por afirmar essa vontade de olhar para o presente, abrindo com “Palma da Mão”, seguindo-se “Prescrição”, “Nossa Alma é Siamesa”, “Regresso à Infância” e a faixa-título “Oração ao Tempo”, numa sequência onde sobressaíram a habitual contenção interpretativa e o rigor de uma banda que privilegia o detalhe e a subtileza dos arranjos. A partir daí, o cantor foi convocando sucessivos momentos de reconhecimento imediato, revisitando “Guia”, “Catavento da Sé”, “Zorro”, “Apelo”, “Reader’s Digest”, “O Tiro pela Culatra”, “Lote B”, “Algo Estranho Acontece” e “Visita de Estudo”, compondo uma verdadeira viagem pela evolução do seu repertório. Entre canções houve espaço para a boa disposição, para o humor despretensioso que caracteriza a sua presença em palco e até para interromper o concerto e cantar os parabéns a uma espectadora muito especial, gesto espontâneo que conquistou de imediato a plateia. A proximidade com o público voltou a revelar-se uma das maiores virtudes do cantor alentejano, cuja simplicidade reforça a enorme qualidade musical de um espectáculo construído sobre interpretações elegantes, uma voz de timbre inconfundível e uma naturalidade que dispensa qualquer gesto cénico.

“Pica do 7”, um dos momentos mais aguardados da noite, encerrou o alinhamento principal sob uma prolongada ovação, mas o público não permitiu que a despedida fosse definitiva. No “encore”, António Zambujo regressou para prestar a já habitual homenagem a Max, interpretando “Rosinha dos Limões” e recordando um dos artistas que mais influenciaram a sua carreira. Seguiu-se “Gota de Água”, evocação das suas raízes alentejanas e da profunda ligação ao cante, património que continua a atravessar discretamente grande parte da sua obra. O fecho aconteceu com “No Rancho Fundo”, numa leitura simultaneamente emotiva e festiva que funcionou como perfeita celebração da lusofonia, tema agregador de um festival que, desde a sua criação, tem feito da diversidade cultural do espaço lusófono a sua principal razão de existir. Foi um final de enorme simbolismo para um concerto sólido, coerente e musicalmente irrepreensível, que confirmou António Zambujo como um dos grandes embaixadores da canção portuguesa contemporânea e constituiu, sem surpresa, o ponto mais alto desta edição do FESTA – Sons da Lusofonia, correspondendo plenamente às expectativas de um público que encheu o Parque Urbano de Ovar para testemunhar mais uma noite memorável.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

CONCERTO: Do Cabo do Mundo



CONCERTO: Do Cabo do Mundo
Com | Carlos César Motta (direcção musical e percussão), Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse (vozes), Pablo Marques e Kito Siqueira (sopros), João Pitta (violão), Pri Azevedo (teclados e acordeão), Rolando Semedo (baixo), Lizz Marchi e Daniel Félix (percussão)
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2026 | sab | 18:00


“Arrepia, arrepia
E arrepia sim senhor”
Fausto Bordalo Dias, in “O Barco Vai De Saída”

“Um sonho lindo”, daqueles que permanecem para lá da festa no palco, assim foi o concerto do projecto Do Cabo do Mundo, ao final da tarde de sábado, no derradeiro dia do FESTA – Sons da Lusofonia. Entre o rio e a cidade, a partida e o encontro, a viagem e o sonho, o espectáculo resultou numa única travessia “por este rio acima”, feita de palavras e sons que transportaram o público muito além das margens da memória. “Isto que é de uns / também é de outros” fez da partilha o fundamento de um concerto de homenagem a Fausto Bordalo Dias, interpretado com emoção por artistas de diferentes latitudes, todos eles imigrantes, unidos pela mesma língua da música e pelo mesmo desejo de celebrar um dos maiores cantautores portugueses “do passado, do presente e do futuro”. O público percebeu isso desde o primeiro instante. Cantou, dançou e respondeu a cada refrão como se as canções lhe pertencessem desde sempre, confirmando que as obras verdadeiramente universais não conhecem tempos nem fronteiras. Quando Meu sonho / quanto eu te quero ecoou entre vozes e percussões, o rio desembocou naturalmente na cidade. Ali está a cidade, cantou-se, uma cidade que já não era apenas Lisboa, mas também Maputo, Praia, Rio de Janeiro, Luanda, Ovar ou qualquer outra onde alguém tenha chegado, carregando consigo saudades, sonhos e esperança.

Mas sobretudo a cidade é um som, escreveu Fausto, e nunca um verso pareceu tão exacto. Durante pouco mais de uma hora, o Parque Urbano foi esse lugar improvável onde todas as geografias se reconhecem numa mesma melodia. Idealizado pelos músicos Carlos Cesar Motta e Fred Martins, com a participação de criadores oriundos de diferentes geografias, Do Cabo do Mundo reinterpreta o legado de Fausto, acrescentando uma nova vida às suas obras e enriquecendo-as com o pulsar de ritmos africanos e brasileiros que parece sempre terem estado ali, à espera de serem revelados. Foi Por Ela, o momento mais luminoso do concerto, é disso a prova provada. A canção renasce envolta numa cadência afro-brasileira de irresistível elegância, como se as águas do Atlântico finalmente fechassem o círculo iniciado na infância angolana de Fausto, ele que nasceu no meio do oceano, a bordo do navio “Pátria”. O público sentiu ali o tropical sentido na lapela, mas houve sobretudo uma compreensão profunda da canção, dessa declaração de entrega absoluta - foi por ela que eu deixei de ser quem era -, agora cantada por vozes que conhecem na pele o significado da travessia. Também Namoro, com a sua irresistível leveza mestiça, prolongou esse encontro entre continentes, celebrando o amor como território onde todas as fronteiras se esbatem.

Esta ideia encontrou a sua mais clara tradução nas palavras breves, mas profundamente significativas, de Selma Uamusse: “Os imigrantes amam Portugal e esperam que Portugal os ame.” Nada poderia resumir melhor o espírito de Do Cabo do Mundo. Fausto sempre escreveu sobre viagens, encontros e desencontros, sobre os esplendores e as misérias da aventura humana, e este colectivo mostrou como essas canções continuam extraordinariamente actuais. Talvez por isso “Rosalinda” tenha adquirido uma força avassaladora. Ouvir que os que mandam no mundo / só vivem querendo ganhar, é perceber que o tempo pouco alterou as injustiças denunciadas por Fausto. A resposta luminosa a esse desencanto veio do palco, com as vozes de Luca Argel, Nani Medeiros, Nancy Vieira e Selma Uamusse, as percussões de Carlos César Motta, Lizz Marchi e Daniel Félix, os metais de Pablo Marques e Kito Siqueira, o violão de sete cordas de João Pitta, os teclados e acordeão de Pri Azevedo e o baixo de Rolando Semedo a mostrarem a música como lugar de encontro, resistência e esperança. O público voltou a responder em uníssono, transformando cada refrão numa afirmação colectiva de pertença. Não foi nostalgia, tão pouco tributo. Foi o provar que estas canções continuam vivas porque continuam a encontrar novos corpos, novas vozes e novas histórias para as habitar.

E como toda a viagem exige uma partida para justificar o regresso, O Barco Vai de Saída abriu a derradeira etapa deste percurso. As palavras de Fausto – “levo-te comigo”, “pra lá do Equador”, “no espantoso trono das águas”, “vou “ — ganharam um peso renovado nas vozes de quem conhece intimamente o significado de atravessar oceanos em busca de melhor vida. A tempestade, os medos, a esperança e a coragem, como tão bem “cantou” Ana Luísa Amaral, confundiram-se com as muitas histórias de migração que continuam a escrever-se todos os dias. Depois veio o “encore” inevitável, a transformar “Navegar, Navegar” numa autêntica “profissão de fé”. “Quem conquista sempre rouba, quem cobiça nunca dá”, advertiu Fausto, antes de lembrar que também foi “mercadoria” e que trouxe “um olhar peregrino”. Foi impossível não escutar nesses versos um apelo à dignidade de todos os que atravessam fronteiras, ontem como hoje. Quando o concerto terminou, o público continuou a cantar, prolongando Navegar, Navegar para lá dos derradeiros aplausos. Porque todos sabemos que a viagem está longe de chegar ao fim. Continua rio acima, mar adentro, do cabo do mundo até onde valer a pena chegar, até onde a música de Fausto nos levar.

terça-feira, 14 de julho de 2026

CONCERTO: Daniel Pereira Cristo + Comunidade



CONCERTO: Daniel Pereira Cristo + Comunidade
Com | Daniel Pereira Cristo (voz, cavaquinho), Tiago Simães (piano), João Dantas Ferreira (acordeão), Carolina Gomes (percussões) e elementos dos coros CásterAntiqua, Canto Décimo e Suspiro e do grupo de cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar – Palco Verde
10 Jun 2026 | sex | 19:00


Há concertos que se esgotam nos seus pressupostos e facilmente se apagam da memória. E depois há aqueles que permanecem, pela forma como se transformam em lugar de presença, dádiva e partilha. Está neste último caso o concerto de “Daniel Pereira Cristo + Comunidade”, não apenas pela qualidade da execução ou pelo simbolismo do repertório, mas porque conseguiu suspender, ainda que por instantes, a ilusão de que a cultura é um território de consumo, devolvendo-a à sua condição primordial enquanto lugar de pensamento, encontro e afecto. Entre todas as propostas que deram forma ao primeiro dia do FESTA - Sons da Lusofonia, e sem desprimor para com as demais, esta é aquela que quero destacar. Sem procurar impressionar pela dimensão da produção ou pela exuberância cénica, o concerto optou pelo caminho menos óbvio e, por isso mesmo, mais raro: o de fazer da música um espaço de pertença, no qual tradição, criação e comunidade encontram espaço numa mesma vivência. Num festival que, entre todos os seus pressupostos, faz da música que toca, [da] palavra que voa, [do] tempo que vive, [da] diversidade que se encontra a sua maior razão de ser, dificilmente imaginaríamos tradução mais consequente dessa autêntica carta de intenções.

Foi significativo que tudo tivesse começado muito antes de qualquer ideia de espectáculo. Saída do universo das Cantigas de Santa Maria, “Santa Maria, Strela do Dia” não emergiu como simples evocação do cancioneiro medieval, mas como afirmação de uma linhagem. Através dela, a tradição mostrou-se como raiz viva de uma música que, transformando-se incessantemente, continua a reconhecer-se na mesma seiva. Esta subtil ligação ao Festival de Música Antiga de Ovar fez, por isso, todo o sentido, como se ambos os festivais partilhassem, num mesmo arco temporal, oito séculos de criação musical e de diálogo entre géneros. A passagem para os cantares populares extraídos da banda sonora do filme “Mudar de Vida”, do realizador Paulo Rocha, aconteceu sem rupturas, como se Ovar e o Furadouro, os pescadores, as vozes religiosas, os cantos de trabalho e as melodias festivas fossem apenas diferentes rostos de uma mesma memória colectiva. Abraço caloroso à nossa terra e às nossas gentes, “Bendito”, “Encadeia”, “Aperta, Amor”, “Vareira” ou “Malhão” puderam ser escutados como matéria ainda habitada, capaz de reconhecer nas vozes de hoje a continuidade das vozes de ontem.

Quando Daniel Pereira Cristo assumiu plenamente a condução do concerto, acompanhado por Tiago Simães (piano), João Dantas Ferreira (acordeão) e Carolina Gomes (percussões), tornou-se claro que a comunidade nunca deixaria de ocupar o centro da narrativa. Mais polido ou mais regateiro, o coro foi a imagem visível de uma ideia de criação onde o individual encontra sentido na força do colectivo. Talvez possamos ver nesta forma de ser e de estar a maior singularidade do músico bracarense. A sua biografia fala de instrumentos tradicionais, de composição, de pesquisa e de uma permanente tensão entre passado e presente. Tudo isso é verdade, mas não chega. O que realmente o distingue é uma rara generosidade artística, uma disponibilidade para partilhar o palco, o saber e a responsabilidade da criação que reforçam a sua identidade autoral. Com apenas um workshop e três ensaios, Daniel Pereira Cristo conseguiu transformar mais de meia centena de participantes num organismo musical coeso, em cujo miolo soube cada voz encontrar o seu lugar de forma natural. E esta é uma qualidade que não se aprende nas escolas de música nem se escreve nos currículos: nasce da escuta, da empatia, da confiança e da capacidade de reconhecer talento nos outros, antes de procurar evidenciar o seu próprio talento. Obrigado, Daniel.

Por isso mesmo, o momento mais importante deste concerto não recaiu sobre uma canção em particular, embora “Saúde e Liberdade”“Que Força É Essa”“Confederação”, “Navegar, Navegar”, “Arriba o Monte” ou “Tens de Aprender a Dizer Não” tenham encontrado novas camadas de sentido nesta leitura colectiva. O essencial, contudo, aconteceu num plano menos visível. Uma vez mais o FESTA abriu espaço a um coro comunitário, levando-o a integrar de forma orgânica a programação do festival. Reunindo elementos do CásterAntiqua, do Canto Décimo, das Suspiro e dos cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar, o coro comunitário prolongou uma quase declaração de princípios que vem fazendo escola no nosso Município. Num tempo em que tantas instituições culturais confundem participação com representação simbólica, projectos como este são a demonstração de que a comunidade pode ser muito mais do que simples destinatária da programação, sendo ela própria matéria de criação artística. Nisto residiu a maior virtude de “Daniel Pereira Cristo + Comunidade”, ao recordar-nos que a tradição só permanece viva quando deixa de ser património para voltar a ser prática, quando deixa de ser memória para voltar a ser gesto partilhado.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia
Com | OSSN, Daniel Pereira Cristo + Comunidade, Carla Castelhano, Bárbara Bandeira, Blaya, Lucas Santtana, Cheny Wa Gune, Do Cabo Do Mundo, Expresso Transatlântico, António Zambujo e Stereossauro + Convidados
Parque Urbano de Ovar
10 e 11 Jul 2025 | sex e sab | 18:00 às 00:30


Com uma forte adesão do público, o FESTA voltou a transformar o Parque Urbano de Ovar num amplo espaço de encontro entre a música de expressão lusófona, a natureza e a comunidade. Afirmando-se como uma das mais sólidas marcas identitárias da cultura ovarense, a 11.ª edição do festival reuniu milhares de pessoas em torno de uma programação que cruzou diferentes geografias, gerações e linguagens musicais, distribuída por três palcos e complementada por iniciativas que reforçaram a dimensão participativa do evento. Para além dos doze concertos, o “Lugar das Infâncias” voltou a afirmar-se como um espaço para todos, com oficinas, teatro, jogos e histórias, enquanto o “Espaço Conversas”, dinamizado pelo jornalista Rui Miguel Abreu, promoveu encontros informais entre artistas e público. A componente comunitária ganhou especial expressão no espectáculo de Daniela Pereira Cristo, desenvolvido com elementos dos coros Canto Décimo, Cáster Antiqua e Suspiro, bem como com o grupo de cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar, num projecto que reforçou a ligação do festival ao território e às colectividades locais. Mais do que uma sucessão de concertos, o FESTA voltou, assim, a afirmar-se como uma celebração da cultura em língua portuguesa, da partilha e da participação, proporcionando uma experiência vivida em família ou entre amigos, onde palco e plateia se encontraram num ambiente de proximidade e convivialidade.

A jornada inaugural abriu ao final da tarde de sexta-feira com OSSN, que apresentou um “live act” inspirado nas memórias e sonoridades cabo-verdianas, cruzando electrónica, ritmos hipnóticos e ambientes de forte carga evocativa. Seguiu-se um dos momentos mais marcantes desta edição, com Daniela Pereira Cristo a revisitar a música de raiz portuguesa num espectáculo construído em conjunto com dezenas de participantes locais, sublinhando a vocação comunitária do FESTA. Um pôr-do-sol exuberante viu Carla Castelhano assumir a banda sonora do recinto com um “dj set” que percorreu influências do jazz, da folk e das músicas do mundo e preparando o ambiente para os concertos da noite. Bárbara Bandeira foi a primeira cabeça-de-cartaz do FESTA, apresentando “Lusa: Acto II”, novíssimo trabalho que assinala uma nova etapa do seu percurso artístico e que conciliou os temas mais recentes com alguns dos maiores êxitos da cantora. O encerramento da primeira noite pertenceu a Blaya que, com “ARRAIÁ.L”, trouxe ao Parque Urbano um espectáculo marcado pela energia contagiante, cruzando o espírito dos arraiais portugueses com as festas juninas brasileiras, numa actuação de forte interacção com o público e que colocou milhares de pessoas a dançar pela noite fora.

O segundo dia evidenciou de forma ainda mais clara a matriz lusófona do festival, iniciando-se com Lucas Santtana, que apresentou os temas de “Brasiliano”, trabalho onde celebra a riqueza da língua portuguesa. Cheny Wa Gune prosseguiu a viagem musical através da fusão entre a tradição da timbila moçambicana e o afro-pop contemporâneo, antecedendo Do Cabo do Mundo, projecto que recria a obra de Fausto Bordalo Dias através da participação de músicos imigrantes residentes em Portugal e que se cotou como um dos pontos altos do certame. Expresso Transatlântico encerrou a programação da tarde com a energia do álbum “Trópico Paranóia”, voltando Carla Castelhano a assumir, ao início da noite, o habitual momento de transição entre os concertos. António Zambujo protagonizou o espectáculo mais aguardado do festival, percorrendo canções do seu mais recente disco, “Oração ao Tempo”, sem esquecer um vasto conjunto de temas que marcam a sua carreira e fizeram as delícias do público. O encerramento ficou entregue a Stereossauro que, acompanhado por um conjunto de convidados especiais, apresentou um espectáculo onde a electrónica dialogou com o património musical português. Foi o ponto final festivo numa edição que voltou a afirmar o FESTA como uma referência cultural da região e um espaço privilegiado de encontro entre artistas, público e comunidade.

domingo, 12 de julho de 2026

CONCERTO: Martín Sued & Orquestra Assintomática com Yamandu Costa



CONCERTO: “Saga” | Martín Sued & Orquestra Assintomática com Yamandu Costa
Com | Yamandu Costa (violão de sete cordas), Martín Sued (bandoneón, arranjos e direcção), Gustavo Cabrera (violino), Sandra Martins (violoncelo), Cristian Basto (contrabaixo), Sergio Escalera (piano), Alan Plachta (guitarra)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
10 Jul 2026 | sex | 21:30


O concerto de Martín Sued e da Orquestra Assintomática, com a participação especial de Yamandú Costa, constituiu um dos momentos mais singulares da primeira metade da 52.ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho. No centro das atenções esteve “Saga”, projecto discográfico que remonta a 2023 e que faz da exploração da identidade musical sul-americana o seu grande desígnio. Embora o bandoneón de Martín Sued evoque inevitavelmente o universo do tango, a sua linguagem composicional vai muito além dessa referência, integrando elementos da música de câmara, do jazz, da improvisação e de diversas expressões populares das músicas da América do Sul. Criada pelo próprio músico argentino, a Orquestra Assintomática funciona como um verdadeiro laboratório sonoro, em cujo cerne cada instrumento assume a construção de narrativas ricas em contrastes, alternando momentos de grande delicadeza com passagens de intensa energia rítmica. O resultado é uma música profundamente expressiva, cinematográfica e contemporânea, que se mostrou capaz de transportar o público através de diferentes paisagens emocionais, num todo de enorme coerência artística.

A presença de Yamandú Costa acrescentou uma dimensão muito especial a este projecto. Reconhecido internacionalmente como um dos maiores intérpretes do violão de sete cordas, o músico brasileiro distingue-se não apenas pelo virtuosismo extraordinário, mas também pela forma como alia técnica, sensibilidade e imaginação. Em “Saga”, contudo, o seu papel vai muito além da participação de um solista convidado. As composições apresentadas são da sua autoria, tendo sido desenvolvidas e orquestradas por Martín Sued para esta formação, criando um diálogo permanente entre o violão, o bandoneón e o restante ensemble. Em vez de uma sucessão de momentos de exibição individual, o que emerge é uma verdadeira conversa musical, em que cada intervenção contribui para um todo maior. Inspiradas na tradição do sul do Brasil, as composições convivem de forma natural com as influências argentinas, uruguaias e bolivianas, enquanto os espaços dedicados à improvisação surgem integrados na arquitectura das obras, dotando-as de uma permanente sensação de descoberta, espontaneidade e liberdade.

Marcado pela cumplicidade entre os músicos e por um equilíbrio perfeito entre o rigor da escrita e a liberdade criativa, o concerto afirmou-se como um excelente exemplo da linha artística que o FIME tem vindo a consolidar nas últimas edições: uma programação que valoriza o encontro entre diferentes culturas, linguagens e formas de criação musical. “Saga” não procurou reproduzir modelos tradicionais nem revisitar repertórios conhecidos. Antes propôs uma visão atual da música sul-americana, aberta ao diálogo com a música erudita contemporânea, o jazz e outras formas de expressão instrumental. Foi quase hora e meia de espectáculo pensado para ser vivido como uma peça em contínuo, cada tema ligado ao seguinte através de uma narrativa musical cuidadosamente construída. Os apreciadores da intensidade emocional de Astor Piazzolla encontraram certamente ecos desse universo, mas descobriram igualmente uma linguagem própria, marcada pela elegância dos arranjos, pela riqueza tímbrica da orquestra e pela capacidade de surpreender a cada momento. Mais do que um concerto de tango, de jazz ou de música popular, esta foi uma celebração da criatividade, da escuta e do encontro entre músicos que partilham uma visão artística profundamente contemporânea, oferecendo ao público uma experiência envolvente e sofisticada. Memorável!