DANÇA: “How to Kill… For the Sake of Dying”
Conceito e direcção artística | Xana Novais
Sonoplastia, manipulação live | Diogo Melo
Assistente de direcção | Carolina Vouga
Direção técnica e som | José Afonso Monteiro
Luz | Lui L’Abatte
Interpretação | Xana Novais, Ana Rita Xavier, Cru Encarnação, Rita Soeiro, Zinnia Nomura e Fibi Eyewalker
Produção | COISAS coletivo & V.E.R.M.E.
120 Minutos | Maiores de 18 Anos
Festival Internacional DDD - Dias da Dança
Teatro Campo Alegre - Auditório
19 Abr 2026 | dom | 17:00
No fecho da 10.ª edição do Festival Internacional DDD — Dias da Dança, “How to Kill… For the Sake of Dying”, de Xana Novais, afirmou-se como um gesto radical a oscilar entre a liturgia e a provocação, entre o dispositivo cénico e a experiência limite. Desde o início, ficou bem patente uma recusa em estabilizar o olhar, o espectáculo a convocar um imaginário onde o trágico e o erótico se deixassem contaminar, como se uma hipótese improvável - Georges Bataille frente a Sarah Kane, numa partida de xadrez, sobre os escombros da história da arte - ganhasse corpo. O que emerge é um parque de diversões sombrio, em cujo espaço a moralidade surge continuamente tensionada e o impossível se infiltra no campo do sensível. Entre tribunais que decretam a morte em nome do amor, museus que prometem eternidade em nome da arte e funerais que se convertem em dispositivos de ressurreição, Xana Novais constrói uma gramática própria, na qual o corpo deixa de ser apenas presença para se tornar argumento e campo de disputa. Não se trata de representar a morte, mas de a interrogar enquanto ficção reversível, abrindo fissuras na ideia de fim.
Atravessando etapas, residências e processos acumulados ao longo do tempo, o percurso que conduz a esta criação torna-se visível na densidade da proposta. Não estamos perante um objecto fechado, mas diante de um organismo em permanente mutação, o gesto performativo carregando em si a memória da sua própria construção. Algures entre o sagrado e o profano, entre a dor e o prazer, os corpos são lugares de cortes, tensões e fricções, assumindo-se, em simultâneo, como arma, amuleto e obra. As cenas organizam-se como territórios de partilha e risco, onde os elementos — agulhas, líquidos, voz, carne — participam numa economia simbólica feita de contenção e excesso. Em palco, os intérpretes não funcionam como extensão natural uns dos outros, antes como agentes de contaminação, disseminando pelo espaço e pelo público uma energia que convoca tanto a adesão quanto a repulsa. Este jogo de aproximação e recuo é central: o espectador deixa de ocupar um lugar passivo para se confrontar com o seu próprio posicionamento ético, moral e sensorial, num dispositivo que o implica, independentemente da resistência que oferece.
Há em “How to Kill… For the Sabe of Dying” uma dimensão de confronto que não procura consenso nem conforto. O prólogo instala desde logo um regime de visibilidade que poderá ferir sensibilidades, convocando o sangue, a nudez e imagens de forte carga física e simbólica. Mas reduzir a peça ao seu potencial de choque seria ignorar a complexidade do que está em causa. O que Xana Novais propõe é uma investigação sobre o “gosto pelo sofrimento” - esse território ambíguo onde a repulsa e o fascínio se tocam - e sobre o modo como o olhar contemporâneo participa activamente nessa dinâmica. Ao expor corpos que se oferecem e se defendem, que se afirmam e se desconstroem, a peça inscreve-se numa reflexão mais ampla sobre a visibilidade, a vulnerabilidade e o poder. Não se esperem daqui respostas fáceis, antes uma experiência que exige do espectador uma negociação constante com os seus próprios limites, confiando-lhe a responsabilidade de olhar e de sustentar esse olhar até ao fim.
[Foto: © Rita Baleia | https://www.festivalddd.com/current-event/how-to-killfor-the-sake-of-dying-1772198048701/]