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quarta-feira, 4 de março de 2026

CONCERTO: “Telemann: Camaleão” | New Collegium



CONCERTO: “Telemann: Camaleão”
New Collegium
Direcção musical | Cláudio Ribeiro
Com | Inês d’Avena (Flautas de bisel), Sara DeCorso (Violino), Nina Hitz (Violoncelo), Cláudio Ribeiro (Cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela da Misericórdia
01 Mar 2026 | dom | 18:00


No quadro do chamado “gosto misto” que marcou o Barroco germânico, poucos compositores encarnaram tão plenamente o ideal camaleónico quanto Georg Philipp Telemann. Se, em 1730, Johann Sebastian Bach sublinhava a necessidade de os músicos alemães dominarem os estilos italiano e francês, Telemann fez dessa exigência um programa estético ao assimilar a retórica da “ouverture francesa”, a teatralidade concertante italiana, o contraponto germânico e até inflexões polacas, fundindo-os numa linguagem surpreendentemente fluida e vivaz. Escrevendo para formações as mais diversas, o genial compositor demonstrou conhecer por dentro a respiração e a matéria de cada instrumento, explorando-lhes as cores próprias com uma naturalidade que ainda hoje soa moderna. Acrescente-se que a fama de Telemann, imensa em vida, assentou tanto na inventividade como na inteligência editorial, bastando para tal lembrar a publicação periódica “Der getreue Music-Meister”, laboratório de géneros e afectos numa altura em que a música se tocava muito dentro de portas, sem olhar a linhagens religiosas ou a extractos sociais.

Foi essa paleta, ampla e plena de originalidade e bom gosto, que os neerlandeses do New Collegium trouxeram, ao cair da tarde de domingo, à Capela da Misericórdia de Ovar, encerrando o primeiro de dois fins de semana da segunda edição do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar. Desde o Prélude do 6.º Quatuor (TWV 43:e4), com o seu recorte solene e ritmo pontuado, até à vitalidade concertante da Sonata em Sol maior (TWV 42:G7), foi amplamente reconhecível uma respiração comum entre Inês d’Avena, Sara DeCorso, Nina Hitz e Claudio Ribeiro: emotiva, sensível e comovente ao mesmo tempo. A harmonia, clara, nunca estática, encontrou sustentação num contínuo atento, enquanto o jogo rítmico - alternando a elegância francesa e a impulsividade italiana - se desenhava com precisão coreográfica. No Trio em lá menor (TWV 42:a4), o Largo abriu espaço a um cromatismo insinuante; no Vivace, a escrita fugada ganhou leveza sem perder rigor. Já o Duetto (TWV 40:111), superlativamente interpretado, revelou cumplicidades tímbricas subtis entre a flauta doce e o violino, numa alternância de delicadeza e vivacidade nascidas do gesto partilhado.

O ponto axial do concerto foi a suite construída a partir de “Der getreue Music-Meister”: um mosaico de andamentos - “L’hiver: Gravement - Vîte - Largo - Alla breve - Lento - Pastourelle” - que expôs, como num espelho multifacetado, as metamorfoses camaleónicas do compositor. Aqui, a arquitectura fez-se respiração partilhada: cada número pareceu nascer do anterior por subtil inflexão rítmica ou por desvio harmónico calculado, como se o discurso se reorganizasse continuamente sem perder a unidade. Destaque para a Pastourelle e para a sua claridade campestre, desenhada com elegância tímbrica e articulação nítida, a lançar sobre os presentes um sopro de modernidade. Já no “encore”, o Trio em ré menor, inspirado no folclore da Silésia e durante séculos atribuído a Georg Philipp Telemann, soou como epílogo irónico e quase cúmplice: hoje sabe-se ser Pierre Prowo o seu autor, mas a energia que dele se desprende e os seus contornos modais integraram-se sem fricção no universo apresentado. Como se o camaleão, afinal, pudesse também ser máscara. E a música, mais do que assinatura, uma arte de respiração comum.

terça-feira, 3 de março de 2026

CONCERTO: “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval” | Ensemble Med



CONCERTO: “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”
Ensemble Med
Direcção musical | Daniela Tomaz
Com | Daniela Tomaz (flautas, adufe), Joana Godinho (canto), Sérgio Calisto (viola d’amore a chiavi e nyckelharpa), Laurent Safar (percussão)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Bar do Centro de Artes de Ovar
28 Fev 2026 | sab | 21:00


Mais do que um imenso espaço líquido, ao longo de séculos o Mediterrâneo foi praça pública onde mercadores, peregrinos, exércitos e poetas teceram uma rede de trocas que moldou decisivamente a história cultural dos povos que o habitaram. Das rotas que ligavam o Levante às costas atlânticas da Ibéria chegaram especiarias, técnicas, cosmologias e, com elas, palavras que ainda hoje habitam a língua portuguesa, heranças árabes, hebraicas e latinas que sobreviveram às fronteiras políticas e às ortodoxias religiosas. Essa sedimentação fez-se também de música, dos modos melódicos que atravessaram sinagogas, mesquitas e catedrais aos ritmos que acompanharam o labor agrícola e a celebração litúrgica ou às práticas de transmissão oral que resistiram à erosão do tempo. O legado cultural mediterrânico é, por isso, uma corrente viva que continua a renovar-se na tradição. A língua que falamos, os cantares que reconhecemos como nossos, os timbres que associamos ao sagrado ou ao profano são testemunhos dessa convivência antiga, tantas vezes tensa, tantas vezes fecunda, que faz da diversidade um motor criativo. É essa memória partilhada - frágil e resiliente ao mesmo tempo - que programas como “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval” convocam, lembrando-nos que a identidade ibérica se construiu no encontro e na escuta.

No Bar do Centro de Artes de Ovar, essa história ganhou corpo e respiração. O ambiente descontraído, de copo ou chávena na mão, e a proximidade cúmplice entre intérpretes e público, dissolveu qualquer ideia cristalizada de que a música medieval pertence apenas à penumbra das igrejas ou ao fausto dos palácios. O Ensemble Med apresentou um percurso que, do Cancionero Musical del Palacio às melodias sefarditas recolhidas por Isaac Levy, das inflexões do makam turco às Cantigas de Santa Maria, fez do concerto uma verdadeira cartografia sonora. Mesmo nas peças de natureza litúrgica, a pulsação rítmica e a entrega dos músicos foram capazes de imprimir-lhes uma dimensão festiva, quase dançável, como se cada modo antigo escondesse uma chama ainda viva, pronta a reacender-se ao primeiro fôlego. Foi um concerto marcado pelo rigor histórico, mas nunca rígido; houve estudo e pesquisa, mas sobretudo partilha. As percussões insinuaram pontes invisíveis entre margens, as cordas desenharam arabescos de fina filigrana e os sopros coloriram o espaço com uma paleta capaz de evocar mercados, pátios e claustros. A generosidade dos executantes sentiu-se na forma como ofereceram cada frase ao público, num gesto franco e hospitaleiro que foi espelho da própria matriz mediterrânica do programa.

Entre a pulsação do adufe de Laurent Safar, a sonoridade única das nyckelharpa de Sérgio Calisto e a doçura das flautas de Daniela Tomaz, foi  a voz de Joana Godinho que sobressaiu, erguendo-se como um fio de ouro. Capaz de se expandir na energia contagiante do Coro das Maçadeiras e logo depois saber recolher-se na intimidade contemplativa de uma Cantiga de Santa Maria - onde cada sílaba nos é oferecida como que suspensa numa oração sussurrada -, a cantora demonstrou uma versatilidade rara, aliando clareza tímbrica a uma expressividade intensamente comunicativa e empática. A sua prestação nunca cedeu ao exotismo fácil, antes caminhou, com verdade e firmeza, na senda de um legado onde cristãos, judeus e muçulmanos partilham uma mesma respiração histórica. Também por isso, o concerto foi mais do que uma sucessão de peças de uma longa e intensa jornada entre oriente e ocidente: foi manifesto discreto contra o esquecimento, uma afirmação de que a música antiga deixa de ser antiga quando se torna presente em corpos vivos e vozes que a reinventam. No final, entre aplausos calorosos e sorrisos cúmplices, ficou a sensação de que aquele bar, à semelhança de tantos cafés de outras épocas, foi por momentos ágora efémera, lugar onde a memória colectiva se celebra não como peso, mas como promessa.

segunda-feira, 2 de março de 2026

CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann” | Musurgia Ensemble



CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann”
Musurgia Ensemble 
Direcção musical | João Francisco Távora
Com | João Francisco Távora (Flauta de Bisel), Marta Gonçalves (Traverso), Xurxo Varela (Viola da Gamba), Rodolfo Richter (Violino I), Sergio Suárez (Violino II), Mário Braña (Viola), Marta Jiménez Ramírez (Violoncelo), Hélder Sousa (Cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
27 Fev 2026 | sex | 21:00


Na Leipzig do segundo quartel do século XVIII, a música habitava profusamente igrejas e palácios, mas era igualmente possível escutar a sua respiração no burburinho do Café Zimmermann, no coração da elegante Katharinenstrasse, graças à paixão pela música do dono do Café, o senhor Gottfried Zimmermann. Imaginemo-nos a franquear a porta desse edifício barroco e a sorver o aroma do café acabadinho de torrar, enquanto olhamos em volta e percebemos o rumor expectante de uma burguesia letrada. As mesas alinham-se sob a luz de velas vacilantes, enquanto damas e cavalheiros se acomodam para escutar o Collegium Musicum, dirigido por Johann Sebastian Bach ou, antes dele, pelo seu fundador, Georg Philipp Telemann. Os jovens intérpretes afinam os seus instrumentos, trocam olhares cúmplices. Um cravo ensaia discretamente uma cadência e dá-se início ao concerto: uma abertura solene, talvez uma suite francesa, seguida de um diálogo vibrante de cordas e sopros e de uma ária secular insinuando ironias mundanas. Entre goles de café e apartes sussurrados, a cidade aprende a ouvir-se a si mesma. Não há bilhete a pagar, apenas a promessa de duas horas de invenção sonora, sustentadas pela hospitalidade do anfitrião e pela curiosidade de um público que ali encontra, simultaneamente, entretenimento e elevação.

Mais do que uma recriação, foi a evocação dessa memória que o Musurgia Ensemble chamou à Igreja Matriz de Ovar, na abertura da segunda edição do CásterAntiqua. O “desconcerto” inicial na proposta implícita a que o público se reposicionasse como se de um café setecentista se tratasse não foi mero artifício cénico. Foi, isso sim, um convite a abraçar, com outra disposição do corpo e do espírito, uma música com tanto de presença como de pertença. Inteligentemente urdido, o programa poderia muito bem ter ecoado no próprio Café Zimmermann há três séculos, de tal forma as peças escolhidas são das mais representativas do barroco tardio. A Suite em Si bemol Maior, op. 1 nº3, de Johann Caspar Ferdinand Fischer abriu espaço à elegância coreográfica das danças francesas; os concertos em Lá menor TWV 52:a1 e Mi menor TWV 52:e1, de Telemann, desenharam contrastes de afectos; e as sinfonias e páginas orquestrais de Bach - da BWV 175 à BWV 150, do Oratório da Páscoa BWV 249/2 à Suite Orquestral nº 3 BWV 1068 - transfiguraram a densidade teológica em gesto instrumental. Na nave ampla do templo vareiro, a acústica expandiu o que outrora teria sido intimidade de salão, sem trair nunca o espírito de partilha tão característico das mais brilhantes academias musicais setecentistas.

A qualidade do concerto confirmou o Musurgia Ensemble como guardião atento e criativo da música antiga. Fundado em 2020 por João Francisco Távora e Hélder Sousa, o agrupamento alia investigação e prática historicamente informada a uma pulsação viva, comprometida e revigorada, nunca museológica. O cuidado com a harmonia revelou-se na clareza das vozes intermédias. O ritmo, firme mas elástico, sustentou as danças sem rigidez, os diálogos instrumentais a surgirem como conversas inteligentes, feitas de animados momentos de pergunta e resposta. Particularmente memorável foi o encontro tímbrico entre a flauta de bisel de João Francisco Távora e o traverso de Marta Gonçalves: dois sopros, duas cores, duas respirações que se entrelaçaram com naturalidade, ora em contraste, ora em fusão luminosa. Houve momentos em que o som pareceu suspender o tempo, deixando-se surpreender num Largo em suspenso ou numa Gavotte de sorriso discreto e graça plena. Nesse equilíbrio entre rigor e imaginação, o Musurgia Ensemble mostrou-se hábil no seu compromisso com o passado, tornando-o presente, pulsante e necessário. Um extraordinário concerto de abertura do Festival, a fazer adivinhar dois fins de semana que se afiguram memoráveis.

domingo, 1 de março de 2026

CONCERTO: Música de Câmara | Escola Profissional de Música de Espinho



CONCERTO: Música de Câmara
Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção musical | Trevor McTait
Com | Leonor Neves (piano), Pedro Castro (violino), Angel Luna (trompa), Luisa Margalho (violino), Maria Helena Perez (violino), Leonor Colaço (flauta), Beatriz Santos (fagote), Viviana Pereira (piano), Matilde Rocha (piano), Miguel Martins (violino) e Joana Pinto (violoncelo)
ReabilitaSons 2026
Centro de Reabilitação do Norte
26 Fev 2026 | qui | 17h30


No retomar da parceria entre a Escola Profissional de Música de Espinho e o Centro de Reabilitação do Norte, o “ReabilitaSons” voltou a afirmar-se, muito mais do que um ciclo de concertos, como uma declaração de princípios sobre a reabilitação integral. À luz das recomendações da Organização Mundial de Saúde e do sublinhar do papel determinante das artes na promoção da saúde mental e física, iniciativas desta natureza têm vindo a revelar-se instrumentos terapêuticos subtis, mas de profunda eficácia. Foi isso que se percebeu ao final da tarde da passada quinta feira, com a música a saber intrometer-se num espaço habitualmente marcado por rotinas clínicas e desafios exigentes e a introduzir uma suspensão no tempo, abrindo nele rasgos de beleza e transcendência. Utentes, familiares e profissionais tiveram o privilégio de partilhar o mesmo silêncio expectante e o mesmo aplauso caloroso, dissolvendo hierarquias na comunhão estética. A cultura foi, não ornamento, antes extensão do cuidar no que tem de estimulação da memória, convocação de emoções, reforço de vínculos e demonstração da capacidade de restituir aos doentes uma dimensão de participação activa na vida comunitária.

Fazer de cada concerto um gesto de inclusão e um exercício de esperança, levando a reabilitação física ao encontro de uma reabilitação emocional e social mais ampla e humanizada, voltou a ser o grande desígnio, com o programa a evidenciar inteligência na construção e diversidade nas propostas. A abertura com o Trio n.º 1 de Duvernoy, no diálogo entre piano, violino e trompa, trouxe clareza formal e elegância melódica, num Adagio de linhas cantáveis seguido de um Allegretto leve e comunicativo. De seguida, a célebre “Träumerei”, de Robert Schumann, aqui em arranjo para dois violinos, pairou sobre a sala com a delicadeza de uma confidência, explorando a respiração conjunta das intérpretes. O Larghetto do Trio (A.507) de Gaetano Donizetti revelou um lirismo operático transposto para a música de câmara, com flauta e fagote a entrelaçarem-se sobre o suporte atento do piano. Um momento de sublime beleza e encanto que nem uma arreliadora falha técnica conseguiu beliscar. A Sonata para dois violinos, Op.56, de Sergei Prokofiev, no seu Andante cantabile, expôs um equilíbrio subtil entre tensão e doçura, exigindo maturidade expressiva e rigor técnico que os dois violinos tão bem souberam assumir.

O fecho com o Trio com piano em Si bemol maior, K.254, de Wolfgang Amadeus Mozart, devolveu ao auditório a luminosidade clássica e a arquitetura transparente que caracterizam o génio de Salzburg. No Allegro assai, destacou-se a vivacidade do discurso e a articulação cuidada entre os três instrumentos, enquanto o Adagio trouxe recolhimento e nobreza de fraseado, num diálogo onde cada voz encontrou espaço e propósito. Ao longo de todo o concerto, os jovens músicos da Escola Profissional de Música de Espinho revelaram não apenas competência técnica, mas uma postura de entrega e consciência do contexto em que actuaram. Tocaram para um público particular, atento e emocionalmente investido, e souberam ajustar dinâmicas, respirações e silêncios a essa circunstância. Houve frescura, mas também responsabilidade artística; houve rigor, mas igualmente empatia. E nesse equilíbrio entre exigência e humanidade residiu a verdadeira grandeza da tarde: a música como ponte e cuidado, celebração e partilha.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

LIVRO: "Coração Sem Medo" | Itamar Vieira Júnior



LIVRO: “Coração Sem Medo”,
de Itamar Vieira Junior
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Janeiro de 2026


“Esses breves encontros renovavam seu ânimo para as batalhas cotidianas: trabalhar para ganhar o necessário para a vida, guiar seus filhos por bons caminhos, manter alguma integridade diante da desesperança. Acreditar num mundo mais justo, que talvez não desponte pleno nesta geração ou na seguinte, mas que algum dia desabrochará, assim como tudo o que é semeado. Um mundo que não se pareça com o sonho dos alienados, mas que possa mais unir do que dividir.”

Copiosa, repentina, a chuva cai sobre a cidade, apanhando desprevenidas as muitas pessoas que, àquela hora, se dirigem para o trabalho. Entre elas vamos encontrar Rita Preta, operadora de caixa de um supermercado, dividida entre a necessidade de enfrentar a intempérie rumo ao emprego e a vontade de regressar a casa. Enquanto espera que a chuva abrande, os olhos acompanham a força da correnteza que forma autênticos rios à sua frente. O fluxo torna-se então o rio da sua infância, local de brincadeiras, mas também de tragédia. Ali começam a formar-se os lugares de Água Negra, Caxangá, Chapada Velha ou Paraguaçu e as figuras do velho Zeca Chapéu Grande, de Donana e Carmelita, das irmãs Bibiana e Belonísia, de Luzia e Moisés. É “Torto Arado” e “Salvar o Fogo” que se insinuam, os dois primeiros volumes da “Trilogia da Terra” que agora se fecha com este “Coração Sem Medo”, obra do multipremiado escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior. Com habilidade rara, o autor tece neste seu livro uma forte ligação entre passado e presente, ao mesmo tempo que “pensará nos que ficaram pelo caminho, nos que sofreram para viver dia após dia, nos que cantaram e dançaram para afastar o destino, nos que se ergueram para defender o considerado justo.”

Em “Coração Sem Medo”, Itamar Vieira Junior desloca a terra para o asfalto e, nesse gesto, amplia o mapa afectivo e político da sua já incontornável obra literária. Se em “Torto Arado” o chão era rasgado por enxadas, aqui ele pulsa nos pavimentos escaldantes da cidade de Salvador, onde, como em tantas outras cidades do Brasil, a periferia é território de luta e vertigem. A estranheza inicial - ver um Itamar “urbano” – converte-se muito rapidamente em assombro fértil: o autor mantém intacta a subtileza e elegância da sua linguagem, mas faz com que ela reverbere por entre autocarros sobrelotados, corredores de supermercado, esquadras de polícia, hospitais, necrotérios ou becos esconsos, perdidos numa noite eterna. É num cenário de caos que a figura de Rita Preta emerge como força motriz de um romance que funciona quase como um thriller social, não pelo suspense artificioso, mas pelo medo estrutural que se infiltra como personagem. O desaparecimento de Cid, o filho mais velho de Rita Preta, não inaugura apenas uma busca desesperada; escancara um país onde as suspeitas antecedem os factos e a culpa tem menos a ver com os actos e mais com a cor da pele. A cada novo desenvolvimento, percebemos o quanto a engrenagem racista normaliza este e outros crimes e faz das muitas ausências um ruído ensurdecedor.

Rita Preta, caixa de supermercado, mãe que cria sozinha os seus três filhos, carrega no corpo os genes da perda e da resistência. Neta e bisneta de mulheres que aprenderam a sobreviver, nela se condensa a memória de um Brasil que atravessa o tempo sem conseguir libertar-se da violência fundadora. A cada porta que se fecha na sua cara, a cada agente da polícia que a desacredita, a cada político que a ignora, a narrativa cose passado e presente, mostrando que, para as mães da periferia, as pobres e desvalidas, os tempos da ditadura nunca deixaram de existir. Há algo de épico nessa odisseia íntima: não a epopeia dos heróis celebrados, mas a das mulheres anónimas que ousam enfrentar a insensibilidade de sistemas altamente burocratizados, instituições corrompidas e comunidades silenciadas. Sem concessões, Itamar Vieira Júnior constrói personagens densas e oferece-lhes uma linguagem com tanto de lirismo como de acidez. O romance é sufocante porque é real; dói porque tudo nele é reconhecível. O medo do desconhecido, o não ter um corpo para enterrar, o saber-se pequeno diante de um sistema corrupto, tudo isso é narrado sem melodrama, com uma poesia que não pretende suavizar a ferida, antes iluminá-la. Convidado a acreditar - ou não (!) - na inocência de Cid, o leitor percebe-se cúmplice de um imaginário social que culpabiliza e pune, antes de acolher e entender.

Nos capítulos finais, a recusa de um desfecho pacificador transforma-se em gesto ético. Não há justiça plena, apenas a insistência radical em prosseguir o caminho. Rita Preta aprenderá que sobreviver é também negar ao ódio a última palavra. É retirar do peito a lama espessa do rancor para que a violência não a consuma por dentro. A ambiguidade que paira sobre a sua trajectória, essa espécie de suspensão entre morte e permanência, tem o condão de ampliar a sua dimensão simbólica: Rita Preta torna-se memória activa, presença que resiste. A educação dos filhos que ficam, a descoberta tardia de uma neta, o trabalho de casa em casa como podologista, todos os pequenos movimentos que compõem o seu quotidiano, são peças que trazem sentido ao que antes foi apenas vazio. A terra, agora coração, é espaço inviolável e ainda assim magoado. Itamar Vieira Júnior encerra a trilogia sem curar as feridas; como Donana e Zeca Chapéu Grande, ele prefere semear perguntas. Num país que normaliza o desaparecimento dos seus jovens negros, “Coração Sem Medo” é denúncia e oração, é luto e ressurgimento. Lê-lo é aceitar o desconforto de encarar um Brasil na sua essência mais crua e reconhecer que, enquanto houver Ritas, haverá também a teimosa esperança de que possamos dar um novo rumo à História.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar



CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Musurgia Ensemble, Ensemble Med, New Collegium, William Carter, Ensemble Allettamento, Duo Suzanne e Coro CásterAntiqua
Direcção artística | João Francisco Távora, Hélder Sousa
Igreja Matriz, Bar do Centro de Artes de Ovar, Capela da Misericórdia, Capela do Calvário, Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, Centro de Artes de Ovar
27 e 28 de Fevereiro, 01, 05, 06, 07 e 08 de Março de 2026 


Arranca hoje a segunda edição do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, pelo que importa espreitar um programa que, ao longo das próximas duas semanas, promete fazer voltar a atenção dos melómanos para o fascinante mundo da música dos séculos XVI, XVII e XVIII. Como um rio subterrâneo que regressa à superfície, a música antiga reencontra abrigo em alguns dos mais emblemáticos lugares do património ovarense, convocando histórias de sonho e magia e memórias que não cessam de vibrar. Apresentado ao público no passado dia 20 de Fevereiro, o Festival traz com ele uma renovada promessa de qualidade e variedade, cruzando artistas e agrupamentos nacionais como o Musurgia Ensemble e o Ensemble Med, com os neerlandeses do New Collegium ou os espanhóis do Ensemble Allettamento, entre outros. Numa cidade comprometida com o sopro da história e aberta à respiração funda dos instrumentos de antanho, o público vai poder fazer de cada concerto uma travessia, de cada espaço um eco ampliado do tempo. E, tal como sucedeu na primeira edição do CásterAntiqua, vai poder fruir da música antiga não como peça de museu, mas como chama viva que ilumina o nosso próprio tempo, interrogando-o e completando-o.

Como quem franqueia uma porta há muito fechada, o Festival tem o seu início na Igreja Matriz com “Um Outro Café Zimmermann”, pelo Musurgia Ensemble. Sediado em Ovar, o agrupamento promete recriar o fervor musical da Leipzig setecentista, onde pairam, cúmplices, sobre a partilha sonora, os espíritos de Georg Philipp Telemann e de Johann Sebastian Bach. No sábado à noite o Bar do Centro de Artes de Ovar acolhe um “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”, evocando a confluência das religiões cristã, judaica e árabe, numa geografia onde a música é ponte e memória. O fim de semana termina na Capela da Misericórdia, ao final da tarde de domingo, com o concerto do New Collegium a dar a ver um Telemann camaleónico, de múltiplas máscaras e afectos. Entrando na segunda semana do Festival, o consagrado alaudista britânico William Carter convida-nos a imaginar um serão íntimo “no salão musical de Bach”, a prometer transformar a Capela do Calvário num espaço de intimidade e confidência. Será na quinta-feira, dia 05 de Março, pelas 21h00.

Na sexta-feira o Festival regressa à Igreja Matriz com as cordas dedilhadas do Ensemble Allettamento a conduzirem os presentes por “Folias, Chaconas e Fandangos”, danças que se espalharam por praças e palácios, moldando-se ao engenho de compositores que souberam fazer do ostinato uma arte de infinita metamorfose. Mas o CásterAntiqua não é apenas evocação: é também criação e promessa. A residência artística acolhida no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, atribuída por concurso internacional, dará palco, na tarde de sábado, ao Duo Suzanne, um jovem agrupamento emergente disposto a revelar-se entre a experiência e a ousadia. Também a comunidade encontra o seu lugar neste desígnio, o Coro CásterAntiqua, as sessões educativas e as visitas guiadas ao património a convergirem para que a música antiga não seja relíquia, mas pertença.

Ao Coro CásterAntiqua, sob a direcção do maestro Jorge Luís Castro, caberá a responsabilidade de encerrar o Festival, chamando ao Centro de Arte de Ovar, pelas 16h00 de domingo, Dia Internacional da Mulher, a música da compositora italiana Maddalena Casulana e várias outras vozes femininas que a História, por desatenção ou preconceito, deixou na penumbra. Fruto de dois meses de trabalho com a comunidade ovarense, o alinhamento do concerto irá estender-se entre madrigais e palavras, no que pode ser visto como uma homenagem, mas também uma reparação simbólica, devolvendo luz à criação feminina no Renascimento europeu e convidando o público a escutar com outros ouvidos, quiçá mais atentos e mais justos, alguns exemplares notáveis de uma realidade escondida. Assim se cumpre o desígnio maior desta segunda edição do CásterAntiqua: fazer do passado um horizonte habitável, onde tradição e contemporaneidade prometem entrelaçar-se num mesmo fôlego. Não se tratará apenas de revisitar repertórios antigos, mas de os reinscrever na vida presente da cidade, fazendo de cada igreja, de cada museu, de cada sala um lugar de encontro e comunhão, de dádiva e partilha.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: "Crónicas de uma Lisboa desconhecida"



EXPOSIÇÃO: “Crónicas de uma Lisboa desconhecida”
Curadoria | Paulo Almeida Fernandes
Museu de Lisboa - Palácio Pimenta
25 Jun 2025 > 22 Mar 2026


Patente no Palácio Pimenta – um dos cinco núcleos do Museu de Lisboa –, a exposição “Crónicas de uma Lisboa desconhecida” anuncia-se como uma revelação: “a cidade como nunca a vemos”. A promessa é ambiciosa e, em larga medida, cumprida. No Pavilhão Preto, o visitante percorre um mapa antigo que serve de chão e de metáfora, convocando uma Lisboa moderna e contemporânea, entre o final do século XVIII e os anos 1980. O roteiro, organizado em doze núcleos, propõe uma deriva geográfica e afectiva que começa no Terreiro do Paço - a monumental sala de vistas da cidade - para logo desviar o olhar para episódios laterais, como a insólita apanha da minhoca fotografada em 1972 por António Rafael. A estratégia curatorial, assumida por Paulo Almeida Fernandes e defendida por Joana Sopusa Monteiro, directora do Museu de Lisboa, aposta menos na “grande narrativa” e mais na micro-história, menos no ícone e mais no detalhe. O resultado é uma exposição que prefere o buraco da fechadura à janela avarandada, a nota de rodapé ao capítulo central. Uma escolha que, sendo arriscada, se revela coerente com a ambição de desmontar a imagem cristalizada da capital.

Ao longo do percurso cruzam-se bairros e tempos: o Chiado e o incêndio de 1988, as Avenidas Novas e a memória da primeira Feira Popular, a zona do Beato e a Manutenção Militar na Revolução dos Cravos. Mas é nas figuras convocadas que a exposição ganha densidade narrativa. O balonista italiano Vincenzo Lunardi, a poetisa Carolina Coronado ou a discreta primeira directora de museu Julieta Ferrão surgem ao lado de nomes maiores como os de Amália Rodrigues e Carlos Paredes, mas sempre por ângulos inesperados: a tentativa frustrada de transformar a Casa dos Bicos numa casa de fados ou a prisão no Hospital Dona Estefânia. Ao recentrar o discurso em episódios marginais, a mostra questiona a própria construção da memória urbana. Ainda assim, por vezes, a acumulação de pequenas histórias dilui a tensão crítica: o visitante oscila entre o encanto da curiosidade e a sensação de dispersão, como se a cidade infinita prometida se tornasse também excessivamente fragmentada.

Há, contudo, um mérito inegável nesta operação: mais de 95% das peças expostas estavam em reserva. Curvímetros, réguas de cálculo, caixas de bolachas ou máquinas de engomadoria emergem do silêncio das reservas para reclamar estatuto patrimonial. Ao iluminar o que permanecia na sombra, o Museu de Lisboa reafirma-se como laboratório de leitura da cidade contemporânea. A exposição amplia, assim, a sua vocação de exercício narrativo, ao encontro do gesto político de valorização do acervo e de revisão de hierarquias museológicas. Para uma mais íntima visita a cada um dos núcleos desta cidade escondida, tem o visitante ao seu dispor um conjunto de apontamentos da autoria de João Soares, António Raminhos, Isabel Almasqué ou Pedro Bebiano Braga, entre outros. “Crónicas de uma Lisboa desconhecida” pode não oferecer uma visão totalizante — nem o pretende —, mas devolve ao público a consciência de que a identidade urbana se constrói tanto com monumentos como com objectos banais, tanto com mitos como com episódios falhados. E, nessa recusa do óbvio, reside o seu maior mérito.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: "Edições Selecionadas. 2008 - 2024" | Alexandre Farto aka Vhils




EXPOSIÇÃO: “Edições Selecionadas. 2008 - 2024”,
de Alexandre Farto aka Vhils
Curadoria | Pedro Ferreira
MUDE - Museu Design Lisboa
17 Dez 2025 > 03 Mai 2026


Inaugurada no final do ano passado, a exposição “Edições Selecionadas. 2008 - 2024”, de Alexandre Farto aka Vhils, funciona como um mapa arqueológico de quase duas décadas de trabalho. São setenta e três obras que condensam um percurso iniciado na erosão das superfícies urbanas e expandido para múltiplos suportes, sem nunca abandonar a obsessão pelo rosto humano enquanto território estético e político. Dos dioramas aos azulejos, dos cartazes às risografias e publicações, o que se apresenta é, mais do que uma selecção de edições, a sedimentação de um método. Vhils sempre trabalhou por subtracção - escavando, perfurando, detonando -, com o fim de revelar camadas invisíveis da cidade. Aqui, essa lógica mantém-se, mas é traduzida para o espaço museológico com rigor quase laboratorial. O MUDE, ele próprio dedicado às linguagens do design e da cultura material, torna-se num lugar de fricção entre a rua e a instituição, o efémero e o arquivo, o gesto insurgente e a edição seriada.

Se os murais que espalhou pelo mundo - de Lisboa a Xangai, de São Paulo a Londres - consagraram Vhils como um dos nomes incontornáveis da arte urbana contemporânea, esta mostra evidencia algo mais subtil: a consistência conceptual que sustenta a diversidade formal. Nele, a multiplicação técnica não é dispersão, antes insistência. Possuidor de uma técnica inconfundível, explora o azulejo contemporâneo a ponto de o reinventar, fragmenta cartazes como quem desmonta a propaganda visual do quotidiano, constrói dioramas como se fossem cápsulas de memória social. Há sempre uma tensão entre destruição e revelação, entre ruína e identidade. Os rostos anónimos que emergem das superfícies corroídas são retratos de comunidades invisibilizadas, marcas de uma globalização que homogeneíza fachadas mas não apaga biografias. Ao trazer essas imagens para o formato de edição, Vhils democratiza o acesso sem diluir a intensidade, criando objectos que circulam como testemunhos portáteis de uma prática originalmente inscrita na escala monumental.

“Edições Selecionadas. 2008 - 2024” não é, por isso, uma retrospectiva convencional. É antes um ensaio sobre permanência. Ao reunir obras produzidas ao longo de dezasseis anos, a exposição revela como a pesquisa de Vhils permanece fiel a um núcleo ético: dar visibilidade ao que está soterrado. No contexto do MUDE, essa ética ganha uma nova e mais expressiva leitura. A edição, muitas vezes associada ao mercado e ao que é replicável, surge aqui como estratégia de resistência, como forma de preservar a memória de gestos que, na rua, estão condenados ao desgaste do tempo ou à voragem imobiliária. O visitante percorre a mostra como quem folheia um atlas de cicatrizes urbanas, reconhecendo nas superfícies escavadas não apenas uma técnica apurada, mas um compromisso com a história colectiva inscrita na matéria. Entre o realista e o poético, a exposição confirma a actualidade e a urgência do olhar de Vhils, afirmando-o como alguém capaz de transformar a erosão em linguagem e a memória em relevo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Josefa de Maltezinho



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Josefa de Maltezinho
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
18 Fev 2026 | qui | 17:00


A vigésima nona sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, promovidas pelo Centro de Reabilitação do Norte, voltou a provar que a palavra é, tantas vezes, o mais eficaz dos remédios. Na tarde de 18 de Fevereiro, as paredes habituadas ao silêncio abriram-se a uma respiração mais funda, feita de escuta e partilha. Dirigida muito especialmente aos utentes internados e às suas famílias, a iniciativa tem sido esse território de confluência onde o bem-estar se constrói devagar, como quem cose uma ferida com pontos de luz. Mas é, também, um momento de encontro com o livro enquanto objecto que acrescenta saber e enriquecimento, que desafia a clausura da doença e convida a viajar à descoberta de paisagens com outras e novas cores, longe do negro da imobilidade e da dependência, do branco asséptico de corredores e enfermarias. Cada sessão é uma pequena travessia, cada convidado um farol aceso na margem. Um farol que, na tarde da passada quarta-feira, teve nome literário e voz de mulher.

Josefa de Maltezinho, pseudónimo de Julieta Aleluia, nasceu no Porto, mas foi em Aveiro que aprendeu a soletrar o mundo e a permanecer. Professora do Ensino Básico, formada pela Universidade de Aveiro, guardou durante décadas cadernos e versos, como quem guarda sementes à espera de serem lançadas à terra na estação propícia. Em 2013 publicou “Água Corrente”, a que se seguiu o romance “Maçã com Bicho”. Regressou depois à poesia com “Porque um Rio Também se Cansa”, publicou em Espanha a edição bilingue “Otoño de Visita”, e continuou o seu caminho com “Uma Garfada de Sol no Umbigo”, “Fracturas Expostas”, “Solidão Assistida ou a Brutalidade do Quotidiano” e “Pela Lente do Repórter”. Em Julho de 2025, com a chancela da Editora Exclamação, deu à estampa “Elisa”, obra que serviu de ponto de partida para uma conversa que se quis inteira e sem rede.

Dos doentes e para os doentes, a tertúlia fez-se viva, intensa e livre. Antes de qualquer apresentação formal, os presentes quiseram saber tudo sobre a convidada, como se a curiosidade fosse uma urgência vital. A Teresa e o Alberto, a Diana, a Paula e tantos outros que fizeram questão de erguer a voz como quem segura na mão um espelho, reflectiram, opinaram, inquiriram e partilharam as suas inquietações sobre o papel da mulher, a sua educação para a resignação, a sua secundarização histórica, os lentos processos de emancipação. Olhando o romance “Elisa”, o moderador evocou Alfred Hitchcock e o seu “Janela Indiscreta” para colocar os presentes na pele de um James Stewart a observar vidas alheias através de uma janela imaginária: a mulher romena com a criança ao colo, abrigando-se da chuva; a outra que, entre gritos domésticos, é agredida. Em paralelo, emergiu a memória de tempos em que secretárias do Ministério dos Negócios Estrangeiros, enfermeiras, hospedeiras da TAP Air Portugal ou professoras não podiam ser casadas. Falou-se de Maio de 2000, data em que a violência doméstica passou a constituir crime público, mas também da persistência de mentalidades que ainda murmuram que “entre marido e mulher não se mete a colher”.

Na segunda parte da sessão, a poesia tomou a sala como um sopro. A leitura partilhada revelou uma autora multifacetada, atenta às imagens de violência que nos entram pela casa adentro à hora do jantar, trazidas pelos noticiários, mas igualmente sensível ao rumor de um tasco “à moda antiga” do Porto, onde a vida é servida em copos de três e as conversas se saboreiam sem tempo. A palavra poética, ali, não foi ornamento: foi bisturi e foi abraço. Interrogou-nos no que temos de mais cru, convidando cada um a revisitar a sua própria história. E quando a escritora encerrou a sessão com um elogio à iniciativa — pela cultura, pelo bem-estar de quem não se encontra nas melhores condições físicas e tanto precisa destes incentivos — percebeu-se que não foi apenas literatura o que ali se celebrou, antes a possibilidade de, mesmo em contexto de fragilidade, se continuar a crescer. Como uma resposta afirmativa e livre ao desejo de que cada livro aberto possa ser uma janela menos indiscreta e mais luminosa sobre a esperança.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

CONCERTO: Camané



CONCERTO: Camané
Com | Camané (voz), José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola), Paulo Paz (contrabaixo)
Teatro Aveirense
21 Fev 2026 | sab | 21:30


Camané subiu ao palco do Teatro Aveirense para mostrar o quanto a depuração pode arrastar em si a intensidade mais vertiginosa. Nada de gestos largos, nenhum artifício cénico a distrair a escuta, apenas a voz, erecta e sóbria, a rasgar o silêncio como uma lâmina, a talhar na penumbra a matéria invisível da emoção. Fiel a uma trajectória que fez da palavra território sagrado e da contenção instrumento dramático, Camané desenhou o concerto como rito de contenção e verdade. Instantes houve em que a sala pareceu suspensa no fio de um verso - “o amor quando se revela” -, como se a revelação fosse menos epifania do que espaço aberto na memória. Cada pausa foi acção, cada sílaba um gesto ético, cada inflexão uma escolha estética irrevogável. Nesse recolhimento atento, a emoção não se derramou, antes condensou-se até ganhar raízes. E foi nessa condensação, quase ascética, que o espectáculo encontrou grandeza rara, fazendo do silêncio não ornamento, mas pulsação secreta, nervo exposto que sustentou toda a arquitectura da noite.

Ao percorrer geografias diversas da sua discografia, Camané teceu o alinhamento do concerto como quem atravessa estações de uma mesma viagem interior, costurando tradição e reinvenção de forma lúcida e inteligente. A guitarra portuguesa de José Manuel Neto, a viola de Carlos Manuel Proença e o contrabaixo de Paulo Paz mostraram-se irrepreensíveis na construção de um tecido sonoro depurado, de transparência quase líquida, os acordes a surgirem como extensões orgânicas da respiração do fadista. A cumplicidade com Neto revelou-se em subtis oscilações de dinâmica, ora sustentando um dramatismo contido, ora abrindo clareiras de leveza melancólica, como em “Com Que Voz”, as palavras de Luís Vaz de Camões transmudadas em tristeza e dor. “Te Juro” foi promessa a ganhar densidade moral, “Fado Sagitário” fez o destino soar a constelação íntima, “Amar Não Custa” mostrou o quanto de afirmação estética pode residir na simplicidade e “Saudades Trago Comigo” não foram apenas verso, mas condição humana partilhada. Nada sobrou, nada faltou: tudo foi rigor melódico, dicção cristalina e uma intensidade a raiar o incêndio.

Pelo palco passaram as palavras de Sebastião Belfort Cerqueira, Manuela de Freitas, José Carlos Ary dos Santos, Pedro Homem de Mello, Alexandre O’Neill ou Pessoa, numa travessia que foi do “Fado Alfacinha” ao “Fado da Bica”, do “Fado Cravo” ao “Fado Moliceiro”, sem esquecer a “Casa da Mariquinhas”, como se cada fado fosse casa habitada por fantasmas luminosos. O contraponto de modernidade surgiu na poesia de Pedro Abrunhosa, enquanto a herança de José Mário Branco se impôs num conjunto de temas inspirados, com destaque para os incontornáveis “A Guerra das Rosas” e “Ela Tinha Uma Amiga”, momentos de tensão subtil e contida. “Fado Peniche” e “Sei de Um Rio” colheram aplausos prolongados, como se o público resistisse a regressar ao tempo comum. Mais do que concerto, esta hora e meia com Camané foi experiência de comunhão exigente, foi tradição e risco de mãos dadas, memória e presente entrelaçados. Foi narrativa contínua onde cada verso encontrou o seu exacto peso específico e cada silêncio disse mais do que qualquer excesso poderia ousar. Memorável!

domingo, 22 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: “A Marginália de Amadeo” | Amadeo Souza-Cardoso



EXPOSIÇÃO: “A Marginália de Amadeo”,
de Amadeo Souza-Cardoso
Curadoria | Samuel Silva
Sociedade Nacional de Belas Artes
30 Jan > 28 Fev 2026


O que retemos de Amadeo ao demorarmos o nosso olhar sobre a sua inquietude criativa desde tenra idade? O que nos revela a sua marginália? Patente na Sociedade Nacional de Belas Artes, a exposição “A Marginália de Amadeo” parte dessas interrogações para deslocar o foco das composições consagradas para as franjas do gesto, para o risco aparentemente distraído, para o desenho que nasce no canto da página. Ao recentrar a obra do pintor nas suas margens, a mostra propõe uma revisão crítica do modernismo português, no preciso lugar onde o traço hesita, falha ou se interrompe, onde revela a sua energia primordial. A incerteza torna-se método; o esboço, território de liberdade. Dos tempos de infância, nos manuais escolares guardados na biblioteca da Casa de Manhufe, emergem figuras satíricas, deformações caricaturais, pequenas cenas mordazes. Há humor e crueldade benigna, mas também uma atenção aguda ao detalhe, uma pulsão gráfica que antecede a pintura e a contamina. O que parecia acessório ganha estatuto de centro. A margem deixa de ser limite para se afirmar como campo de ensaio e laboratório de linguagem, onde a dúvida se teatraliza e o desenho se assume como gesto infinito, sempre em aberto.

Organizada em quatro núcleos cromáticos, a exposição conduz o visitante por territórios distintos dessa inquietação. No “amarelo-milho”, o humor e as metamorfoses surpreendem pela precocidade, com os seus narizes exagerados, professores caricaturados, objectos do quotidiano investidos de teatralidade. No “azul-cobalto turquesa”, a animália e as paisagens revelam uma “anima” em expansão. Cavalos, aves, touros e criaturas híbridas convivem com rios, comboios e casas, numa geografia afectiva que oscila entre o real e o imaginado. O núcleo “preto”, dedicado ao retrato e ao autorretrato, expõe a veia crítica do artista, visível desde cedo na forma como interpela figuras de autoridade e estruturas de poder. Já o “vermelho veneziano” encerra a vertigem verbicovisual: assinaturas reescritas até à exaustão, monogramas, jogos caligráficos, a palavra transformada em imagem. Pelo caminho, cruzam-se postais, cartas e pinturas paradigmáticas, compondo um arquivo vivo onde o risco e a dúvida são assumidos como motores de criação. A margem, aqui, é espaço de insubmissão e questionamento.

Um dos momentos mais eloquentes da mostra coloca em diálogo a pintura “Canção Popular” com um postal enviado a Constantin Brancusi. A moldura original, encomendada por Amadeo aos tanoeiros de Manhufe, é intervencionada com letras e algarismos que extravasam o plano pictórico, convertendo o quadro em objecto expandido. Tal gesto ecoa a ruptura operada por Brancusi ao libertar a escultura do pedestal. Em ambos avulta a insurgência contra a margem enquanto fronteira estanque. A imagem de uma onda que rebenta sobre o paredão de Biarritz - escolhida para o postal - funciona como metáfora dessa pulsão transbordante. Também no interior de livros, como “Cavar em ruínas” de Camilo Castelo Branco, surgem retratos desenhados nas guardas, testemunho de uma leitura activa e interventiva. A marginália revela, assim, um artista que nunca aceita o suporte como dado adquirido: intervém, comenta, corrige, ironiza. O espaço da página torna-se arena crítica, onde a intimidade do traço convive com a ousadia conceptual.

A exposição culmina com a projecção do manuscrito ilustrado “A lenda de São Julião Hospitaleiro”, a partir do texto de Gustave Flaubert, realizado na Bretanha em 1912. Não se trata de mera adaptação, mas de interpretação plástica e subjectiva, onde literatura, pintura e design gráfico se fundem numa síntese experimental rara no contexto português. Ao reunir um vasto conjunto de obras - muitas inéditas, provenientes de colecções privadas, do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso e da própria família, a mostra inscreve-se no projecto “Paisagens Visuais”, apoiado pela Direcção-Geral das Artes, e propõe uma itinerância que reforça o diálogo com o território. Na Sociedade Nacional de Belas Artes, “A Marginália de Amadeo” afirma-se como chave de leitura maior: revela um artista livre, irreverente, experimental, para quem a criação começa precisamente onde a norma termina. Demorar o olhar sobre essas margens é reconhecer que nelas pulsa o coração inquieto da modernidade.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

LIVRO: “Furriel Não É Nome de Pai. Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial” | Catarina Gomes



LIVRO: “Furriel Não É Nome de Pai. Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial”,
de Catarina Gomes
Ed. Tinta-da-china, Maio de 2018 (3.ª edição revista e aumentada, Janeiro de 2026)


“A passagem do tempo trocara números, baralhara postos e a ordem dos apelidos. Fernando sabia agora que, ao contrário dos dados que Rosa reunira, o pai marinheiro navegava numa LDM 408, não numa 405, não tinha o posto de artilheiro, mas de fogueiro, e, sim, chamava-se Monteiro, mas não era esse o seu último apelido. Não sabe quantos telefonemas fez, quantas mensagens enviou, quantas horas passou no arquivo, muito tempo. Pensando bem, não tanto assim. Fernando alcançou em menos de quatro meses o que Rosa perseguia há mais de vinte anos. ‘Eu, se tivesse tempo, descobria mais malta, mais velhotes’, diz-me, animado com o seu êxito. ‘Os pais estão é a acabar’.”

Em “Furriel Não É Nome de Pai”, Catarina Gomes transforma uma das zonas mais silenciadas da Guerra Colonial - travada entre 1961 e 1974 em Angola, Moçambique e Guiné - em território de investigação. Partindo de um conflito que mobilizou quase um milhão e meio de homens, a autora centra-se nas crianças nascidas de relações entre militares portugueses e mulheres africanas, marcadas pelo estigma de “filhos de tuga” ou “restos de tuga”. Longe de se limitar ao retrato emocional, Catarina Gomes ancora cada história num trabalho minucioso feito de anos de entrevistas, de cruzamento de arquivos, de contactos com associações locais como a “Fidju di Tuga” e de um acompanhamento de processos feitos de encontros e desencontros. O livro prolonga o percurso iniciado no jornal Público - e que viria a dar lugar à série documental Filhos de Tuga, exibida pela RTP -, consolidando uma investigação que dura há décadas. O resultado é uma cartografia humana do abandono, onde números, nomes e lugares - de Bissau a Lichinga, de Ingoré a Metangula — ganham espessura histórica, social e política.

A força do livro reside na forma como a autora doseia informação e emoção. Casos como o de Fernando, que tomou “furriel” por nome próprio do pai até à idade adulta, funcionam como chaves narrativas que abrem para uma realidade mais vasta. A cada testemunho - gémeos que guardam uma fotografia desbotada, filhos que apenas conhecem uma patente e um apelido - segue-se o enquadramento estrutural: a desigualdade colonial, a facilidade com que a hierarquia militar favorecia encontros fugazes, a persistência de versões auto-justificativas - “queriam levar os filhos consigo, as famílias africanas é que nunca deixavam. Sabe como é, África. A culpa não foi dos pais”. Catarina Gomes desmonta estes enredos recorrentes sem recorrer ao julgamento sumário. A autora prefere expor padrões, revelar contradições e deixar que a repetição dos relatos componha um retrato colectivo. Numa escrita clara, quase depurada, os dados surgem no momento exacto, iluminando a experiência individual sem a esmagar.

Mais do que recuperar memórias, a autora interpela o presente. Ao acompanhar cartas enviadas a embaixadas, homenagens simbólicas a “pais desconhecidos” e a expectativa depositada em irmãos portugueses que possam reconhecer laços, o livro questiona o papel do Estado e o direito à filiação e à nacionalidade. A ausência quase total de respostas paternas — “nenhum pai me contactou”, escreve — transforma-se num dado tão eloquente quanto qualquer estatística. Há, no texto, uma desilusão contida, mas também a convicção de que revelar nomes como Califa Tcham, Elizabete Malú, Mandica, Maimuna Djau, Lucia Robene ou Fernando Hengar da Silva, e de os cruzar com os de Filomena Viegas, Sara Prado, Jorge Bento ou de um tal Pimpão, é um gesto de reparação. Com rigor investigativo e uma prosa simples, mas incisiva, “Furriel Não É Nome de Pai” afirma-se como jornalismo de referência: um trabalho que, mais de meio século depois do fim da guerra, obriga Portugal a confrontar-se com as consequências humanas do seu passado colonial.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade” | Nadir Afonso



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade”,
de Nadir Afonso
Comissária | Alexandra Silvano
Sociedade Nacional de Belas-Artes
04 Fev > 14 Mar 2026


“O raciocínio compreende, a sensibilidade sente. A arte é a única disciplina que exige as duas faculdades: uma sensibilidade intuitiva, elaborada e elevada ao nível do raciocínio mas não o raciocínio que tenta em vão compreender a exactidão essencial. E foi este o trabalho isolado, único da minha vida.”
Nadir Afonso

Entre o regresso e a repetição vai um abismo que só a grande arte consegue abrir. Voltar a ver “Território de Absoluta Liberdade”, agora na Sociedade Nacional de Belas-Artes, depois da apresentação no Museu do Côa, não é um mero exercício de confirmação; é antes a prova de que a obra de Nadir Afonso resiste à memória e desafia o hábito. Com algumas excepções, os trabalhos são os mesmos, mas o olhar nunca o é. E é precisamente nessa fricção, entre o já visto e o inesperado, que se revela a força de um percurso construído ao longo de mais de sete décadas, assente numa convicção rara, a de que a arte obedece a leis universais de criação. A itinerância da mostra — que passou também pelo Museu Amadeo de Souza-Cardoso e seguirá para a Galeria Nova Ogiva — reforça essa ideia de permanência em movimento. O que se desloca não é apenas um conjunto vasto de obras, mas um pensamento plástico coerente, imune a modas e circunstâncias, que encontra em cada espaço novas tensões e ressonâncias.

Formado em Arquitectura pela Universidade do Porto, colaborador de Le Corbusier em Paris e de Oscar Niemeyer no Brasil, Nadir Afonso cedo percebeu que o seu território não poderia ser o da função, mas o da intuição estética. A ruptura definitiva com a arquitectura, em 1965, marca mais do que uma mudança pessoal e profissional: afirma uma posição filosófica. Para o artista, a cidade não é lugar, é ideia; não é urbanismo, é geometria pensada. As telas reunidas nesta exposição — sobretudo as de grande formato da fase final — mostram uma depuração extrema, onde linhas e planos cromáticos se articulam com um rigor matemático e uma vibração sensível. Há nelas ecos das vanguardas europeias, do abstraccionismo geométrico ao cinetismo, mas há sobretudo uma fidelidade inabalável a um programa pessoal: a descoberta das leis objectivas da beleza. Cada composição parece propor uma cartografia do invisível, uma arquitectura mental onde nada falta e nada sobra.

Se a curadoria propõe uma leitura simultaneamente cronológica e sensorial, o visitante é convocado para algo mais exigente: um confronto com a ideia de liberdade enquanto disciplina. “Território de Absoluta Liberdade” não celebra o gesto espontâneo, mas a construção rigorosa de um mundo autónomo, erguido contra a arbitrariedade. Entre o surrealismo inicial, as fases organicistas e os “Espacillimités”, até ao realismo geométrico maduro, reconhece-se uma coerência que desmente qualquer dispersão. A liberdade de Nadir não é a do improviso, mas a da fidelidade a uma verdade interior que se quer universal. Talvez por isso voltar ao mesmo lugar nunca seja redundante: cada reencontro com estas cidades imaginadas produz uma inquietação renovada. Ao regressar às mesmas obras, descobrimos que não são elas que mudaram - somos nós. E é nesse desfasamento, nesse intervalo entre a obra fixa e o olhar móvel, que a pintura de Nadir Afonso continua a afirmar-se como um dos mais sólidos e perturbadores capítulos da arte portuguesa do século XX.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

CINEMA: "Sem Alternativa" | Park Chan-wook



CINEMA: “Sem Alternativa” / “Eojjeolsuga eobsda”
Realização | Park Chan-wook
Argumento | Park Chan-wook, Lee Kyoung-mi, Don McKellar, Jahye Lee
Fotografia | Kim Woo-hyung
Montagem | Kim Ho-bin, Kim Sang-beom
Interpretação | Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Woo Seung Kim, So Yul Choi, Park Hee-soon, Lee Sung-min, Yeom Hye-ran, Cha Seung-won, Im Tae-poong, Kim Hyung-mook, Woo Jung-won, Oh Gwang-Rok, Lee Yong-nyeo, Oh Dal-su, Lee Seok-hyeong, Yoon Ga-yi, Yoo Yeon-seok
Produção | Jisun Back, Park Chan-wook, Alexandre Gavras, Michèle Ray-Gavras
Coreia do Sul | 2025 | Comédia, Crime, Drama, Thriller | 139 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 18
16 Fev 2026 | seg | 14:55


Comédia negra de Park Chan-wook, “Sem Alternativa” parte de um gesto aparentemente simples, mas esmagador: o despedimento de um homem cumpridor das regras do jogo e que se tinha na conta de alguém capaz de pôr a entrega e a lealdade acima de tudo. Após vinte e cinco anos de dedicação à empresa, Man-soo é descartado na sequência de uma reestruturação imposta por investidores estrangeiros. A ascensão meticulosa - a promoção celebrada com enguia grelhada no jardim, a casa remodelada, a estufa onde cultiva plantas como quem cultiva certezas - converte-se num cenário de ruína moral. A queda não é apenas económica; é ontológica. A crise avoluma-se e transforma-se em guerra silenciosa contra a dignidade, travada em escritórios assépticos e pautada por entrevistas humilhantes. O trabalho, que estruturava a identidade masculina e burguesa, dissolve-se num mercado saturado, onde qualificados e sobrequalificados disputam migalhas. Park Chan-wook filma esta derrocada com ironia verrinosa, expondo a insensibilidade do capitalismo, sempre disposto a “comer a carne” dos seus fieis servidores para os descartar de seguida.

Ao reduzir o épico à escala doméstica, o realizador transforma o desemprego num campo de batalha íntimo, onde a sobrevivência se confunde com a preservação do orgulho. A partir desse abismo, o argumento, inspirado no romance “The Ax”, de Donald E. Westlake, radicaliza-se até ao grotesco: eliminar fisicamente a concorrência para recuperar o lugar perdido. A premissa poderia resvalar para o absurdo gratuito, mas o realizador converte-a numa alegoria cortante da competição neoliberal. Cada homicídio é menos um acto de psicopatia do que uma extensão lógica de um sistema que normaliza a exclusão. Park Chan-wook evita glorificar as elites, antes preferindo observar os que ficam à margem, esmagados por processos automatizados, pela dependência tecnológica e por uma ética corporativa que troca a lealdade pela eficiência algorítmica. A violência surge com um humor negro de filiação “hitchcockiana”, pontuada por música elegante e por uma “mise-en-scène” que alterna o bucolismo dos jardins com a frieza dos interiores modernos. A natureza - árvores plantadas, arrancadas, moldadas - faz eco do destino dos trabalhadores, cultivados enquanto úteis, descartados quando deixam de produzir fruto.

É, porém, no desempenho de Lee Byung-hun que o filme encontra a sua mais perturbadora humanidade. No papel do empregado despedido, o actor compõe aqui um homem comum corroído pela vergonha, pela suspeita de infidelidade e pela erosão da virilidade social. A sua máscara oscila entre a patetice e a ameaça, fazendo do riso um sintoma de desespero. Outrora celebrado pela violência operática de “Oldboy - Velho Amigo” ou, mais recentemente, pelo belíssimo “A Criada”, Park Chan-wook opta agora por uma narrativa mais linear, o que poderá frustrar quem espera a vertigem formal de filmes anteriores. Ainda assim, a contenção é sinal de maturidade. A sátira é mais difusa, menos explosiva, porém mais insidiosa. Retrato ácido de uma sociedade que confunde valor humano com empregabilidade, “Sem Alternativa” deixa no espectador o sabor amargo de quem olha à sua volta e, num mundo globalizado, sente estar a ver o mesmo filme dia após dia. No fim, a expressão “sem alternativa” soa menos a fatalidade do que a álibi colectivo. Ela serve de justificação à nossa rendição quotidiana a um sistema que exige tudo , oferecendo em troca quase nada.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

CINEMA: "A Voz de Hind Rajab" | Kaouther Ben Hania



CINEMA: “A Voz de Hind Rajab” / “Sawt Hind Rajab”
Realização | Kaouther Ben Hania
Argumento | Kaouther Ben Hania
Fotografia | Juan Sarmiento G.
Montagem | Qutaiba Barhamji, Kauother Bem Hania, Maxime Mathis
Interpretação | Saja Kilani, Motaz Malhees, Amer Hlehel, Clara Khoury, Nesbat Serhan, Ramy Brahem, Firas Khoury, Ali Talel Yacoub, Heba Bader, Oday Ayoyda, Mostfa Ben Abdallah, Ghassen Bel Haj, ,Hbiba El Baatout, Mariem El Draoui, Hedia Khayati, Jaweher Saad
Produção | Nadim Cheikhrouha, Odessa Rae, James Wilson
Tunisia, França, Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Arábia Saudita, Chipre | 2025 | Drama | 149 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 8
14 Fev 2026 | sab | 19:25


“Os media apresentam as mortes em Gaza como danos colaterais. Acho isso desumanizante e é por isso que o cinema, a arte e todas as formas de expressão são tão importantes para dar voz e rosto a essas pessoas”. As palavras de Kaouther Ben Hania, a realizadora deste necessário e urgente “A Voz de Hind Rajab”, persistem em ecoar na minha cabeça. A história parte de um facto real, ocorrido em finais de Janeiro de 2024, em torno das derradeiras horas de uma menina palestiniana de seis anos, isolada no interior de um automóvel crivado de balas no norte de Gaza, rodeada pelos cadáveres dos familiares, mantendo como único fio de vida o contacto telefónico com voluntários do Crescente Vermelho. Lançando mão das gravações autênticas dessas chamadas, a cineasta incorpora-as numa encenação ficcional que recria o interior da central de emergência. O dispositivo é poderoso e inquietante, com a realidade a romper as malhas da ficção e a anular qualquer distância confortável. À semelhança do que fizera em “Quatro Irmãs”, Kaouther Ben Hania cruza o documental e a dramatização, mas aqui abdica de qualquer ambição salvífica para apostar num embate frontal com o espectador. O resultado é um objecto cinematográfico que vive da urgência, do desespero e da repetição do horror, comprimindo noventa minutos num crescendo de aflição a raiar o insuportável.

Em Gaza, como em Auschwitz, é o mesmo grito que se eleva da imagem e, sobretudo, dos sons. Os disparos mataram os tios e quatro primos  de Hind Rajab, uma menina de seis anos que seguia no carro e que sobreviveu. São as três horas seguintes de contactos entre a criança e o ramo palestiniano do Crescente Vermelho, em Ramallah, que nos são dadas a sentir. Deste lado da linha, os profissionais esforçam-se por manter a menina calma até à chegada de uma ambulância que tarda, afundada num complexo de autorizações verdadeiramente kafkiano enquanto não chega a tão ansiada luz verde. Depois é a angústia de uma viagem de oito minutos, até  que  o som de uma explosão põe fim à tentativa de resgate com a morte dos dois paramédicos. A comoção é constante, física, visceral, convocando a reflexão e exigindo respostas à altura da violência do impacto. A utilização da verdadeira voz da criança confere uma autenticidade incandescente, transformando cada palavra num punhal cravado na consciência do público. O espectador reage, revolta-se, sofre ao pensar nas causas, nas responsabilidades difusas, no emaranhado político que sustenta a tragédia. Enquanto arte, o cinema assume o papel de grande amplificador do choque, recusando o papel de refém de um presente que consome e descarta emoções com a mesma rapidez com que as produz.

É impossível ignorar a força humana que atravessa o filme. As personagens da central - Omar, Rana, Mahdi, Nisreen - corporizam a impotência diante de uma burocracia que esmaga qualquer gesto solidário. O filme expõe a engrenagem absurda que exige a aprovação do exército e a definição de “rotas seguras” para salvar uma criança, revelando como a violência contemporânea é também administrativa, protocolar, quase higienizada nos seus procedimentos. É nesse contraste entre a urgência da menina e a frieza dos mecanismos que o filme encontra a sua dimensão mais perturbadora. Não são elementos abstractos que falham, mas estruturas, cadeias de comando, hesitações, receios de agravar o massacre. Kaouther Ben Hania assume um posicionamento político claro, mas fá-lo sobretudo através do sentir do espectador e não por via de discursos programáticos ou de contextualizações históricas redundantes. Ao concentrar-se num destino individual, converte a estatística em carne e voz, devolvendo singularidade ao que os noticiários transformam em fluxo contínuo de números. Aplaudido durante 24 minutos na apresentação em Veneza, onde arrebatou o Leão de Prata, “A Voz de Hind Rajab” permanecerá como documento inflamável do seu tempo. Um grito a ecoar, mesmo quando os noticiários, vorazes e impacientes, se preparam já para narrar o próximo horror.