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quarta-feira, 8 de abril de 2026

CINEMA: "Os Domingos" | Alauda Ruiz de Azúa



CINEMA: “Os Domingos” / “Los Domingos”
Realização | Alauda Ruiz de Azúa
Argumento | Alauda Ruiz de Azúa
Fotografia | Bet Rourich
Montagem | André Gil
Interpretação | Blanca Soroa, Patricia López Arnaiz, Miguel Garcés, Juan Minujín, Mabel Rivera, Nagore Aranburu, Irina Robledo Espinosa, Nora Careaga Iglesias, Neizan Alonso Hernández, Leire Zuazua, María Rodríguez Maribona Delgado, Guille Zani
Produção | Manuel Calvo, Marisa Fernández Armenteros, Sandra Hermida, Nahikari Ipiña
Espanha, França | 2025 | Drama, Thriller | 115 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 18
06 Abr 2026 | seg | 16:05


Ainara, uma brilhante e idealista jovem de 17 anos, tem de escolher o curso que quer seguir. Porém, ao sentir-se cada vez mais próxima de Deus, pondera abraçar a vida monástica. Há um gesto inaugural em “Os Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa, que parece inverter, com serenidade quase desconcertante, a gramática habitual do cinema que tem na adolescência e na juventude o seu foco. Onde tantas narrativas procuram a ruptura, a fuga ou o grito, aqui instala-se o contrário: uma inclinação íntima, quase silenciosa, para o recolhimento. Ainara não quer experimentar o mundo, antes abdicar dele. E essa escolha, que poderia ser tratada como se de uma excentricidade ou desvio se tratasse, surge filmada com uma limpidez desarmante, sem ironias nem qualquer forma de dramatismo. O que está em causa é a decisão enquanto abalo e não tanto a fé enquanto doutrina, um pequeno terramoto doméstico que expõe fissuras antigas. A realizadora prefere observar a repercussão do gesto, a forma como ele reverbera na família, do que explicá-lo. E assim, Ainara torna-se um enigma, um centro imóvel em torno do qual tudo começa a oscilar.

Esse abalo revela-se sobretudo na coreografia dos afectos familiares, as mais diversas reacções como espelhos individuais de uma forma diferente de sentir e interpretar o mundo. O pai, Iñaki, adopta uma tolerância a roçar a fuga, uma aceitação liberal que encobre a incapacidade de confronto. Já Maite, a tia, emerge como a verdadeira força dramática do filme, erguendo uma recusa que não é apenas ideológica, mas visceral, nascida de um amor que se confunde com o medo da perda. A oposição entre ambas não constrói vilões nem heróis, antes desenha um duelo entre certezas inconciliáveis: a fé e o cepticismo, a entrega e a resistência, a clausura e a informalidade, a tradição e a modernidade. À mesa, nos silêncios e nas frases suspensas, o filme encena um teatro de tensões feito de gestos que carregam anos de não-dito, sugerindo, com toda a subtileza, que o fervor secular pode ser tão rígido quanto o religioso e que há dogmas também na recusa dos dogmas.

Formalmente, o filme sustenta essa ambiguidade com uma encenação depurada, a câmara no lugar de quem observa sem julgar, o tempo como que dilatado nos interstícios das relações. A vida quotidiana - festas adolescentes, ensaios de coro, conversas banais, os primeiros beijos - entrelaça-se com a ideia de recolhimento, criando um contraste delicado entre o ruído do mundo e o apelo do silêncio. Neste jogo de espelhos, Ainara permanece opaca, recusando oferecer à narrativa a chave do seu próprio mistério. Entre a repetição, a disciplina e a renúncia, não há romantização no convento, apenas a exposição do seu rigor. É essa lucidez que torna a escolha de Ainara mais radical, quase incompreensível. Blanca Soroa compõe-a com uma quietude firme, uma contenção eloquente, enquanto Patricia López Arnaiz dá a Maite uma densidade vibrante, feita de incertezas e contradições. Sem oferecer respostas nem redenções fáceis, “Os Domingos” deixa o espectador entregue a um silêncio habitado e àquilo que, no fundo, talvez nunca possa compreender.

terça-feira, 7 de abril de 2026

CERTAME: Ovar em Jazz 2026



CERTAME: Ovar em Jazz 2026
Com | Anna Setton Quartet, Carlos Bica Quarteto, Marius Preda, Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal com John O'Gallagher
Centro de Artes de Ovar
08 > 11 Abr 2026


A partir de amanhã, e até ao próximo sábado, a cidade de Ovar volta a ser o epicentro do jazz nacional com a chegada do Ovar em Jazz, este ano a cumprir a sua oitava edição. Capaz de projectar a cidade no circuito internacional e de atrair tanto nomes consagrados como novas propostas artísticas, o festival recebeu, ao longo das suas anteriores edições, nomes como os de Amaro Freitas, Ricardo Toscano, Mário Costa, Marc Ribot, João Lencastre, Carmen Souza, Abe Rábade, Hugo Carvalhais, Carlos Bica, Andy Sheppard, Stefano Battaglia, Maria João, Danilo Pérez ou Tigran Hamasyan, entre muitos outros. Espelhando a sua consistência e ambição artística, prepara-se agora para mais quatro dias do melhor jazz, afirmando-se como um espaço de encontro entre a tradição e a vanguarda. Sob o lema “Jazz sem Fronteiras”, o certame volta a apostar no cruzamento de linguagens, geografias e gerações musicais, propondo, mais do que uma sucessão de concertos, uma experiência imersiva que se irá desdobrar entre Auditório, Caixa de Palco e Bar do Centro de Artes, envolvendo o público numa vivência plural e contínua.

À semelhança dos anos anteriores, a edição de 2026 mantém uma elevada linha de exigência, apresentando um cartaz que cruza nomes nacionais e internacionais de reconhecido mérito. Entre os destaques encontra-se o virtuoso romeno Marius Preda, que vamos poder ouvir na noite de sexta feira e que traz ao festival o projecto “Phenomenon”, síntese de mais de três décadas de carreira, onde o címbalo ganha protagonismo num diálogo entre tradição clássica, influências folk e improvisação contemporânea. A abrir o certame, já esta quarta feira, a cantora brasileira Anna Setton marca presença com um quarteto que funde jazz com bossa nova e MPB, num registo sofisticado e luminoso. Carlos Bica regressa ao festival com “11:11”, projecto de forte identidade melódica e intensidade expressiva, reafirmando o seu lugar como uma das figuras maiores do jazz português. Também a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal regressa ao festival, desta vez na companhia do saxofonista nova-iorquino John O’Gallagher, num encontro que cruza tradição e contemporaneidade e que promete encerrar em beleza esta edição do certame.

Para além dos concertos em sala, o Ovar em Jazz expande-se pelos mais diversos espaços do Centro de Artes, incorporando a gravação ao vivo do programa “Notas Azuis”, da Antena 3, com curadoria de Rui Miguel Abreu, bem como DJ sets, mostras de vinil e projectos emergentes. Iniciativas como o Ovar Jazz Collective, orientado por João Martins, reforçam a aposta na criação e valorização do talento local, estabelecendo pontes entre formação e performance. Ao mesmo tempo, propostas como Mantis, Fourward ou Oxímoro evidenciam a vitalidade de uma cena que recusa fronteiras estilísticas e procura novas formas de expressão. Neste equilíbrio entre memória e experimentação, o festival prossegue o seu trajecto de afirmação como espaço singular de liberdade criativa e de encontro cultural, entendendo o jazz não apenas como género musical, mas como linguagem aberta e em permanente transformação. O programa completo pode ser consultado na página Ovar/Cultura, em https://cultura.cm-ovar.pt/pt/menu/734/ovar-em-jazz.aspxAté jazz!

segunda-feira, 6 de abril de 2026

CONCERTO: “A Reforma de Mendelssohn” | Orquestra XXI



CONCERTO: “A Reforma de Mendelssohn”
Orquestra XXI
Piano e direcção musical | Dinis Sousa
Auditório de Espinho
04 Abr 2026 | sab | 18:00


Numa quadra atravessada por incertezas, tensões e uma difusa sensação de transição, o concerto de final de tarde do passado sábado, no Auditório de Espinho, assumiu um particular simbolismo. Integrado no período pascal - momento de recolhimento, mas também de renovação -, este programa da Orquestra XXI trouxe consigo uma ideia de recomeço que extravasou o mero gesto artístico. Há, nesta formação, algo de profundamente comovente: um colectivo extraordinariamente jovem, disperso pelos grandes centros musicais europeus, que regressa ciclicamente ao nosso país para reafirmar uma identidade comum. Sob a direcção de Dinis Sousa, a Orquestra XXI revela uma maturidade interpretativa que contrasta com a sua juventude, apresentando um som coeso, vibrante e intensamente comunicativo. Não se trata apenas de competência técnica - amplamente demonstrada -, mas de uma consciência estilística e de uma entrega expressiva que colocam este agrupamento num patamar de relevância raro no panorama nacional.

Inteligentemente concebido em torno da espiritualidade e da ideia de travessia, o programa abriu com o evocativo “Mar Calmo e Próspera Viagem, Op, 27”, de Felix Mendelssohn, cuja quietude inicial virá a dar lugar a uma energia luminosa, quase redentora. Seguiu-se o “Concerto para piano e orquestra n.º 1 em Ré menor, BWV 1052”, de Johann Sebastian Bach, com o próprio Dinis Sousa ao piano, numa leitura de grande clareza estrutural e refinamento tímbrico. Foi, contudo, no segundo andamento que se atingiu um momento de particular suspensão, uma página de beleza serena, o tempo como que a dilatar-se e a permitir à música respirar com uma naturalidade quase orgânica. Já na Sinfonia n.º 5 em Ré maior, Op. 107 “A Reforma”, Mendelssohn revelou-se plenamente como ponte de união do rigor clássico e da expressividade nascente do romantismo. O seu segundo andamento, de inspiração quase popular, trouxe uma leveza contrastante, como se a tradição se reinventasse num gesto de proximidade e humanidade, oferecendo um raro momento de intimidade no seio de uma obra de forte densidade simbólica.

No seu todo, o concerto afirmou-se como um acontecimento de elevada qualidade artística, mas também como um acto de resistência cultural. Numa semana particularmente difícil para o Auditório de Espinho - confrontado com a incompreensível recusa de apoio por parte da Direcção-Geral das Artes para o próximo quadriénio -, este momento adquiriu uma dimensão quase política. Ao longo de décadas, esta instituição construiu uma programação consistente e ambiciosa, trazendo a Espinho alguns dos mais relevantes nomes da cena clássica e jazzística internacional. O que ontem se ouviu em palco foi também o resultado desse trabalho continuado, dessa visão sustentada que agora parece ser ignorada por decisões difíceis de compreender. Perante tal cenário, resta sublinhar o contraste gritante entre a excelência artística vivida na sala e a fragilidade das estruturas que a tornam possível. E, sobretudo, reconhecer que, enquanto houver projectos como a Orquestra XXI e públicos dispostos a esgotar salas, haverá sempre uma razão para acreditar na persistência e na necessidade de projectos como os do Auditório de Espinho.

domingo, 5 de abril de 2026

CINEMA: "Entroncamento" | Pedro Cabeleira



CINEMA: “Entroncamento”
Realização | Pedro Cabeleira
Argumento | Pedro Cabeleira, Diogo Figueira
Fotografia | Leonor Teles
Montagem | Pedro Cabeleira
Interpretação | Ana Vilaça, Cleo Diára, Rafael Morais, Henrique Barbosa, Tiago Costa, Sérgio Coragem, André Simões, Beatriz Almeida, Maria Gil, Luís Filipe Eusébio, João Craveiro, Carlos Sabado, Bruno Santos, Nuno Rogério, Jairo Sousa, Márcio Ferrão, Carlos Carvalho
Produção | Vasco Esteves, Edyta Janczak-Hiriart, Abel Ribeiro Chaves
Portugal | 2025 | Drama | 131 Minutos | Maiores de 16 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 7
02 Abr 2026 | qui | 15:05


Retrato de um certo interior esquecido do nosso país, “Entroncamento”, de Pedro Cabeleira, habita um território onde o crime parece ser a extensão natural de vidas sem alternativa. Ao longo de mais de duas horas, o filme acompanha Laura no seu regresso a uma cidade marcada pela estagnação económica, pela disfuncionalidade do tecido familiar, pela precariedade laboral e pela tendência crescente para o pequeno delito. Entre o desencanto e a resignação, o quotidiano impõe-se como força dominante, anulando qualquer gesto que aspire à ruptura. A promessa de recomeço esbarra numa realidade onde o trabalho mal garante a sobrevivência, ao passo que o roubo ou o tráfico de droga se mostram capazes de oferecer ganhos imediatos sem sobressaltos de maior. Dispensando moralismos fáceis, é neste ambiente de marginalidade que o filme se estabelece, mostrando em cada um dos protagonistas seres vulneráveis, sensíveis, que se movem por instinto e não por uma particular ideia de ambição desmedida.

Formalmente, Pedro Cabeleira aposta num naturalismo rigoroso, quase documental, visível na câmara crua, nos diálogos orgânicos e na recusa de artifícios narrativos clássicos. O filme privilegia a circulação entre personagens e histórias, fragmentando-se em torno de vidas que nunca chegam a mostrar uma verdadeira espessura. Parece haver uma tensão constante entre a vontade de retratar uma comunidade e a dificuldade, na grande maioria dos casos, de aprofundar trajectórias individuais, mas “Entroncamento” consegue momentos de notável observação nos pequenos gestos, na violência verbal, nos silêncios carregados que dizem mais do que qualquer confronto explícito. Marcado por barreiras conjunturais e estruturais, pela indiferença institucional e por dificuldades de toda a ordem, o ambiente social emerge com nitidez, sublinhado por uma estética sombria que a fotografia de Leonor Teles acentua, reforçando a ideia de um mundo fechado sobre si próprio, onde até a luz parece escassa.

Nesta contenção reside a força de “Entroncamento”, com o realizador a desmontar a dimensão mítica do crime, apresentando-o como gesto banal, quase mecânico, inscrito na rotina de um viver sem horizontes. Com a sua determinação silenciosa, Laura encarna essa ambiguidade simultaneamente lúcida e enigmática, capaz de manipular relações de poder, mas presa a um percurso que nunca se completa verdadeiramente. Há um extraordinário cuidado nos diálogos e são muitas as camadas inscritas no argumento, entre as quais avulta a realidade social e política de um concelho que é porta-bandeira dos fascismos e populismos que crescem no nosso país. Olhando para tudo isto, é inegável o talento de Pedro Cabeleira para encontrar as muitas pontas de um emaranhado tecido, espécie de mosaico de vidas autênticas que se cruzam e descruzam, alheias aos sinais de “pare, escute e olhe”. Um filme a merecer visão atenta, até porque nele se impõe Ana Vilaça num papel de grande solidez e impacto.

sábado, 4 de abril de 2026

LIVRO: "A Educação Física" | Rosario Villajos



LIVRO: “A Educação Física”,
de Rosario Villajos
Texto original | “La educación física”, © Rosario Villajos, 2023
Tradução | Rui Elias
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Janeiro de 2026


“Ao virar-se para o espelho, Catalina viu um rapaz. Um rapaz bonito. Um com quem talvez gostasse de sair e a quem deixaria deitar as cinzas do cigarro na bebida, porque algumas raparigas da escola dizem que isso é afrodisíaco, e ela gostaria de experimentar na pele o que é ter líbido. Olhou-o bem, tentando penetrar naqueles olhos através do seu reflexo, e apercebeu-se de que era um rapaz sem qualquer desejo sexual. Um que não cheirava mal dos pés nem escondia a Playboy debaixo da cama.”

Há romances que se leem como quem atravessa uma cálida tarde de Outono; e há outros, como “A Educação Física”, de Rosario Villajos, que se instalam no íntimo do leitor como um corpo estranho, insistente, doloroso, recusando à leitura o seu carácter apaziguador, quase terapêutico. Situada na indistinta periferia de uma qualquer cidade espanhola dos anos noventa, a narrativa condensa-se nas poucas horas de um trajecto à boleia, mas dilata-se na espessura interior de uma adolescência sitiada. Aos dezasseis anos, Catalina não sente as horas e os minutos apenas com a pressa de quem precisa urgentemente de chegar a casa. Nas suas memórias e na sua presença, é de vigilância, de medo e de culpa o lugar que atravessa, o tempo medido por um toque de recolher e o espaço pelo risco constante de existir num corpo feminino. Simultaneamente crua e lírica, a escrita constrói-se neste ambiente de suspensão, como se cada gesto pudesse precipitar uma queda. E, com precisão cirúrgica, convoca o rumor social de uma época marcada por silêncios cúmplices e pânicos colectivos.

O que torna esta obra particularmente incisiva não é apenas o retrato geracional, mas a forma como o corpo emerge, campo de muitas batalhas e território pronto a ser invadido. Nesta viagem ao coração da adolescência, ler “A Educação Física” é reconhecer a engrenagem de um sistema que transforma o corpo da mulher num perigo a conter, num problema a corrigir, num erro a justificar. Catalina não habita o seu corpo: arrasta-o, como se lhe tivesse sido imposto, alvo de indecifráveis expectativas, violências alheias e olhares que dele se apropriam. A família, a escola, a rua, enfim, as mais diversas instâncias, participam dessa expropriação subtil e brutal, na qual o desejo masculino se impõe e se esbate a subjectividade feminina. Sem ornamentos nem eufemismos, Rosario Villajos expõe a pedagogia informal do medo: a menstruação como tabu, o sexo como ameaça, a liberdade como imprudência. E, no entanto, é nessa mesma asfixia que a narrativa encontra a sua força crítica, revelando como a culpa se infiltra de forma persistente e se instala como mecanismo de controlo e repressão.

Há, contudo, uma dimensão mais funda, quase elegíaca, que atravessa o romance e que se condensa na consciência de uma perda, não apenas da inocência, mas de uma possibilidade de habitar o mundo sem medo. Rosario Villajos escreve com uma lucidez que recusa a nostalgia fácil, preferindo antes raspar com as unhas as fissuras de uma educação sentimental feita de interditos e equívocos. Neste apontar de dedo à família, à escola e à sociedade, o resultado é um texto incómodo, por vezes sufocante, mas necessário, que ecoa para além da sua época e interpela o presente com rara nitidez. No limite, Catalina não é apenas uma adolescente dos anos noventa. É uma figura recorrente, quase arquetípica, que persiste enquanto o corpo feminino continuar a ser disputado, interpretado e disciplinado por vozes que não são as suas. Na recusa em oferecer uma redenção fácil, obrigando-nos antes a permanecer, vigilantes, dentro dessa inquietação, encontra “A Educação Física” o seu lado mais cru e duro, mas também o mais belo e urgente.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

TEATRO: “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” | Victor Hugo Pontes



TEATRO: “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem”
A partir da obra de Manuel António Pina
Direcção | Victor Hugo Pontes
Dramaturgia | Jacinto Lucas Pires, Victor Hugo Pontes
Música | A garota não
Cenografia | Fernando Ribeiro
Figurinos | Luís Carvalho
Interpretação | Ana Afonso Lourenço, Catarina Carvalho Gomes, Daniel Teixeira Pinto, Jorge Mota, Joana Carvalho, José Santos, Marco Olival, Patrícia Queirós, Pedro Frias, Siobhan Fernandes
Produção | Teatro Nacional São João
80 Minutos | Maiores de 6 Anos
Teatro Nacional de São João
29 Mar 2026 | dom | 16:00


Começaria por dizer que “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” é uma preciosidade, uma peça de visão obrigatória. Nascida de um encontro particularmente feliz entre a matéria viva e fecunda de Manuel António Pina e o exercício de dramaturgia finamente “costurado” por Jacinto Lucas Pires e Victor Hugo Pontes, respeita a fragmentação e a deriva próprias do universo literário do jornalista e escritor, apostando na criatividade como matriz e na dispersão como método. Estruturada num tecido coerente de tensões, ecos e ressonâncias, ela traz-nos os gatos de Manuel António Pina, obviamente, mas também a ingenuidade aparente, a curiosidade e o questionamento constante próprios da infância, os trocadilhos e ambiguidades que fazem da linguagem um jogo, o inesperado (e poético) que brota do meio do banal, e sempre - mas sempre! - um humor fino, por vezes quase imperceptível, capaz de desmontar todas as certezas. Longe de ser apenas técnica, a construção dramatúrgica torna-se o próprio lugar de pensamento de um espectáculo onde cada fragmento encontra o seu peso específico numa arquitectura fluida e em constante recomposição.

É igualmente notável a forma como a essência de coreógrafo de Victor Hugo Pontes atravessa todo o espectáculo, conferindo-lhe uma identidade singular onde palavra, música e corpo se entrelaçam de modo indissociável. A dança não surge como ornamento, mas como pensamento em movimento, um contraponto expressivo que dá corpo às zonas de indeterminação do texto. A excelência da composição musical, assinada por A garota não, vem intensificar o valor e alcance da peça, funcionando não como mero suporte, mas como um plano sensível autónomo que respira com a cena, abrindo fendas emocionais e ampliando o alcance do que é dito, mas sobretudo do que permanece por dizer. E há, também (ou sobretudo) um conjunto de actores em estado de graça, capazes de habitar o espaço com uma precisão física e sensorial que transforma cada gesto, cada pausa e cada deslocação em matéria significativa. O movimento, a pose, a mímica e as qualidades vocais são mostrados com uma delicadeza rara, acentuando a unidade impressionante do colectivo, a escuta comum que sustenta o risco e a instabilidade da proposta, permitindo que o espectáculo se mantenha vivo, permeável e em constante transformação diante do espectador.

No centro de tudo, permanece a extraordinária obra de Manuel António Pina, cuja força se impõe não apenas como ponto de partida, mas como urgência renovada. A peça não se limita a divulgar o autor: convoca-o, interroga-o e, sobretudo, reabre a necessidade da sua descoberta - ou redescoberta - num tempo que tantas vezes esquece a complexidade da linguagem e a força do pensamento poético. Atravessada por um tom nostálgico e introspectivo, a peça mergulha directamente na singularidade do universo do escritor, uma zona de permanente desajuste, habitada por sábios que recusam certezas e se mostram inteiros na sua clareza e fragilidade. Ao expor a dúvida como método e a imperfeição como motor, “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” devolve-nos à essência inquieta da escrita de Manuel António Pina, fazendo dela uma experiência partilhada, sensível e profundamente contemporânea. O resultado é uma criação que recusa a estabilidade e a clausura, afirmando-se como travessia e como gesto de resistência. Um convite a desacelerar, a escutar de novo e a reencontrar, no intervalo entre palavras e corpos, esse lugar inaugural onde o sentido ainda se constrói de pernas para o ar. Sempre em aberto, sempre em risco.

[Foto: Teatro Nacional São João | https://www.facebook.com/TeatroNacionalSaoJoao]

quinta-feira, 2 de abril de 2026

CINEMA: "O Rapaz da Ilha de Amrum" | Fatih Akin



CINEMA: “O Rapaz da Ilha de Amrum” / “Amrum”
Realização | Fatih Akin
Argumento | Fatih Akin, Hark Bohm
Fotografia | Karl Walter Lindenlaub
Montagem | Andrew Bird
Interpretação | Jasper Billerbeck, Laura Tonke, Lisa Hagmeister, Kian Köppke, Lars Jessen, Detlev Buck, Matthias Schweighöfer, Diane Kruger, Dirk Böhling, Hark Bohm, Tony Can, Rita Feldmeier, Marek Harloff, Morten Bo Heine, Max Hopp, Polli Leuner, Jorid Lukaczik
Produção | Fatih Akin, Monique Akin, Ann-Kristin Bardi, Lara Förtsch, Ann-Kristin Homann, Herman Weigel
Alemanha | 2025 | Drama, Guerra, História | 93 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 4
01 Abr 2026 | qua | 16:30


Entre a memória pessoal e o retrato colectivo de um país em ruínas, “O Rapaz da Ilha de Amrum”, de Fatih Akin, tem como ponto de partida as recordações de Hark Bohm e instala-se nos derradeiros dias da Segunda Guerra Mundial para observar o colapso de uma ordem através do olhar de uma criança. Na ilha frísia que dá título ao filme, o conflito chega apenas como um eco distante, mas as suas consequências insinuam-se em cada gesto quotidiano. O jovem Nanning, alter ego do próprio Bohm, vê o seu universo ruir quando a mãe, fervorosa crente no regime nazi, reage com desespero à morte de Hitler. A câmara fixa-se no rosto do rapaz, captando o instante em que a realidade deixa de coincidir com aquilo que lhe fora ensinado. Nesse momento, o cinema revela a sua capacidade singular de condensar o mundo numa expressão, transformando a experiência íntima em espelho de uma tragédia histórica de contornos muito mais vastos.

Longe de enveredar por um discurso moralizador, Fatih Akin opta por uma narrativa de iniciação que acompanha Nanning numa espécie de peregrinação improvisada nos trilhos da sobrevivência. A busca por um simples pão branco com manteiga e mel - desejo derradeiro de uma mãe em absoluta negação - converte-se numa jornada que mistura inocência e pragmatismo, troca e apropriação, num cenário onde a escassez e a precariedade ditam as regras. A ilha surge como um microcosmos fechado, quase um carrossel onde o tempo gira sobre si próprio, enquanto o colapso do III Reich permanece em pano de fundo. Nesse espaço ambíguo, entre a brutalidade latente e a aparente normalidade, o rapaz aprende que os adultos são falíveis e que as certezas ideológicas se esboroam perante a carência. A guerra, mais do que evento histórico, torna-se ruído distante que molda silenciosamente comportamentos e relações.

É também nessa tensão entre o íntimo e o colectivo que “O Rapaz da Ilha de Amrum” se afirma como um retrato de amadurecimento marcado pela desilusão, mas não desprovido de esperança. A paisagem agreste do Norte da Alemanha, com a sua beleza austera e uma melancolia persistente, funciona como extensão emocional das personagens, reforçando a ideia de isolamento e pertença. Ao mesmo tempo, o filme inscreve-se numa tendência contemporânea do cinema alemão que revisita o passado recente através de narrativas sensoriais e contemplativas. Sem abdicar da dureza dos factos, Akin constrói uma obra que privilegia o humano sobre o político, sugerindo que crescer implica aceitar a complexidade moral passada de pais para filhos. No percurso errático de Nanning, entre a lealdade familiar e o despertar ético, desenha-se não apenas o fim de uma infância, mas o início de uma consciência. Um filme de uma beleza surpreendente, a merecer uma ida ao cinema.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

CONCERTO: Sérgio Godinho & Os Assessores



CONCERTO: Sérgio Godinho & Os Assessores
Com | Sérgio Godinho (voz), Nuno Rafael (direcção musical, guitarras eléctricas e acústicas, cavaquinho, percussão, coros), Miguel Fevereiro (guitarras eléctricas e acústicas, percussão, coros), Nuno Espírito Santo (baixo, guitarra, teclado, percussão), João Cardoso (teclados, samplers, coros), Jorge Costa (bateria, percussão)
Cine-Teatro de Estarreja
28 Mar 2026 | sab | 21:30


Há nomes que não cabem no tempo que ocupam, nem nos oportunos rótulos de épocas ou gerações. Sérgio Godinho é um desses raros casos em que a obra - entre memória e futuro, entre o íntimo e o colectivo - se torna lugar de encontro, presença e certeza. A sua música não é apenas herdeira de um tempo de sonho e encantamento que depressa se esfumou, tampouco se esgota na chamada “música de intervenção”. É, antes, uma cartografia sensível do humano, onde cabe o humor e a ternura, a ironia e a denúncia, a festa e a inquietação. Ao longo de mais de meio século, o escritor de canções soube compôr uma língua própria, feita de palavras que nos surgem simples, mas carregam nelas o mundo inteiro. Ao mesmo tempo, vem-nos brindando com um conjunto de melodias que nos visitam regularmente como se de um regresso a casa se tratasse. E talvez seja por isso que, em cada escuta, há sempre qualquer coisa de inaugural, como se “o primeiro dia” estivesse por acontecer, ali, ao virar de um simples verso. No Cine-Teatro de Estarreja, rodeado de “assessores”, Sérgio Godinho fez com que o milagre se repetisse sem ser nunca o mesmo das vezes anteriores.

Desde os primeiros versos de “Foi Aos 25 Dias De Abril”, o público mostrou que estava ali para celebrar, partilhar e cantar até que a voz doesse. Num alinhamento que cruzou o “novo” e o “menos novo”, desfilaram canções que são parte de nós, inscritas numa memória colectiva que, “com um brilhozinho nos olhos”, trata por tu a Rita, a Etelvina e o Casimiro, gosta de se juntar ao “coro das velhas” e rejeita “a coboiada em que é tudo do xerife”. Do palco, esse lugar onde a palavra ganha corpo, veio a força de uma obra que convoca e une, braço dado entre gerações, num coro que cresceu até se tornar “maré alta”. Ao longo de uma hora e meia, houve espaço para a evocação dos companheiros de caminho, para os fantasmas bons de outras canções, para o humor e para a dor, mas sobretudo houve essa extraordinária cumplicidade que transforma um concerto num acto comunitário. E quando as vozes se ergueram para cantar “a paz, o pão, a habitação, saúde, educação”, percebeu-se que não é só de música que se faz um concerto de Sérgio Godinho & Os Assessores. Nele impõe-se um gesto, um compromisso e uma lembrança viva de que há palavras que não perderão nunca o sentido.

Mais do que um exercício de memória, voltar a Sérgio Godinho é hoje um acto cívico de vigilância. Tantas vezes envoltas numa doçura quase distraída, as suas canções encerram alertas que ressoam com particular urgência num presente inquieto. Em versos que falam de desigualdade, de exploração, de indiferença ou de injustiça, há uma lucidez que atravessa décadas e se recusa a baixar a guarda. Quando escutamos “Grão da Mesma Mó” ou reconhecemos, em novas roupagens, a sombra dos “Vampiros” ou de “O Charlatão”, não é difícil percebermos que o mundo continua a exigir de nós a maior atenção e firmeza. Num tempo em que são visíveis enormes recuos, em que discursos fáceis procuram apagar conquistas tão difíceis, a obra de Sérgio Godinho permanece como um lugar de consciência, uma lembrança de que a liberdade não é um dado adquirido, antes exige trabalho contínuo nessa luta pela sua defesa. Por isso regressaremos sempre aos concertos de Sérgio Godinho e às suas canções, certos de que preservam bem viva a capacidade de questionar sobre o que estamos nós dispostos a fazer com o mundo que temos.

terça-feira, 31 de março de 2026

CONCERTO | PERFORMANCE: “Poesia de Sons na Música das Palavras”



CONCERTO | PERFORMANCE: “Poesia de Sons na Música das Palavras”
Coordenação | Maria João Cartaxo
Com | João Martins (bateria), Inês Lamela (piano e teclados), Gabriel Neves (saxofone)
Declamadores | Andreia Lopes, Aurora Gaia, Carlos Baldaia, Carlos Rainha, Diogo Costa Leal, Diogo Pinto, Eva Estrela, Fernando Pinto, Hélder Ramos e Joaquim Margarido
Dia Nacional dos Centros Históricos | Semana da Leitura / Plano Nacional de Leitura
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
28 Mar 2026 | sab | 16:00


Entre as paredes vivas do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, um raro instante de comunhão brotou. Nele, a palavra respirou música e a música encontrou corpo na palavra, como se ambas regressassem a uma origem comum, anterior a tempos e silêncios. “Poesia de Sons na Música das Palavras” foi mais do que um concerto-performance. Foi um território sensível onde as sílabas ganharam pulsação e os sons aprenderam a dizer, num diálogo íntimo e colectivo, que fez da arte um gesto partilhado. Como sugeria o eco de Voltaire, a poesia revelou-se música da alma e a música, poema em expansão, numa celebração que rasgou fronteiras e convocou o público nessa travessia. Houve ritmo nas pausas, melodia nos olhares e uma espécie de respiração comum que se instalou entre quem disse e quem escutou, nesse propósito de abraçar instantes e dissolver distâncias. A palavra, dita por vozes múltiplas, deixou de pertencer a quem a escreveu para passar a habitar o coração do público. Nesse instante, a Casa tornou-se mais do que memória literária. Ela foi presente vivo, laboratório de criação, mesa posta onde a arte se deixou saborear. O momento foi de encontro, mas foi sobretudo um princípio, uma semente lançada à terra fértil da comunidade, trazendo em si a certeza da germinação em futuras celebrações de cometimento, reinvenção e partilha do indizível.

Nos poemas - diversos como constelações dispersas e, ainda assim, ligados por invisíveis linhas de sentido -, foi possível encontrar uma unidade feita de desejo, perda, reinvenção e espanto. Da flor de sílabas de Nuno Júdice nasceu o próprio gesto criador, como se cada poema declamado fosse colhido no instante exacto em que a linguagem se fez vida. Dessa matéria brotou, também, a saia infinita de liberdade e infância, onde cabem relâmpagos, paz e revolução, numa dança luminosa que atravessa o corpo e o mundo. Houve quem pedisse um novo amanhã, rasgando o real com imagens febris - girassóis-coração, ventos, constelações -, numa urgência de existir para além dos limites; e quem, na dureza da ausência e da pobreza, reinventasse o Natal como último reduto do amor, no qual o outro é abrigo. A dor íntima, quase indizível, cruzou-se com o erotismo da espera, com o corpo preparado como oferenda e ausência, com a memória que regressa em palavras mortas e silêncios cheios. Entre papoilas e bicicletas, entre rosas levadas no risco do caminho e diálogos nocturnos onde o amor hesita mas resiste, desenhou-se um mapa profundamente humano, feito de dádiva e perda, desejo e resistência, luta e liberdade. E nele, a lição serena de aceitar o mundo inteiro, contraditório e natural, como quem aprende a respirar dentro da própria imperfeição.

No Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, a arte deixou de ser objecto distante para se tornar experiência comum, tecido vivo entre pessoas que se escutaram e se revelaram. Poema após poema, essa aura ganhou uma energia quase palpável, literatura e música entrelaçadas como se sempre tivessem pertencido uma à outra. O “milagre” deveu-se, em grande medida, ao trabalho de coordenação de Maria João Cartaxo e à inspirada colaboração de João Martins, Inês Lamela e Gabriel Neves, cuja sensibilidade na composição e interpretação das peças musicais foi sólida argamassa capaz de unir os poemas, de os iluminar e expandir, oferecendo-lhes novas camadas de sentido, como se cada nota abrisse espaço para outra respiração da palavra. Ao lado dessa construção sonora, ergueu-se a força dos declamadores: vozes seguras, maduras, de presença firme, convivendo com outras ainda em nascimento, mais frágeis talvez, mas igualmente verdadeiras. Nesse encontro de experiências, residiu a beleza maior do momento, porquanto a comunidade é feita de risco, de escuta, de partilha. “Poesia de Sons na Música das Palavras” revelou-se uma novidade necessária e fecunda, capaz de gerar continuidade, de criar raízes e de deixar no horizonte, em firme promessa, frutos densos, inesperados, perfumados de humanidade.

segunda-feira, 30 de março de 2026

TEATRO: "A Ratoeira" | Agatha Christie



TEATRO: “A Ratoeira”
Texto | Agatha Christie
Encenação | Paulo Sousa Costa
Cenário, Adereços e Figurinos | Fred Klaus
Interpretação | João Didelet, Leonor Alcácer, João Vilas, João Baptista, Luís Pacheco, Sara Cecília, Sérgio Moura Afonso e Sofia de Portugal
Produção | Yellow Star Company
140 Minutos (com intervalo) | Maiores de 12 Anos
Centro de Artes de Ovar
27 Mar 2026 | sex | 21:30


Há fenómenos teatrais que desafiam a lógica da efemeridade do palco e “A Ratoeira” é disso um exemplo acabado. Estreada em 1952, no West End londrino, a peça de Agatha Christie permanece em cartaz há mais de sete décadas, acumulando dezenas de milhares de representações e consolidando-se como a produção teatral de maior longevidade da história, com assento no Guiness Book of Records. Não se trata apenas de um sucesso comercial, mas de um verdadeiro ritual cultural, sustentado por um pacto tácito entre palco e plateia: o de preservar o segredo do desfecho. Esse carácter quase iniciático transforma cada sessão numa experiência simultaneamente colectiva e íntima, na qual o espectador é convidado a integrar uma tradição que atravessa gerações. É essa herança, precisamente, que a companhia Yellor Star convoca ao levar à cena, em sessão única, num Centro de Arte de Ovar com lotação esgotada, a sua versão deste clássico, evocando não só o texto original, mas também o peso simbólico de uma obra que se tornou instituição. O envolvimento do público é, como foi possível confirmar, o grande trunfo de uma peça que suscitou animadas conversas no intervalo e alimentou conjecturas até ao último instante.

A encenação apresentada em Ovar revelou um cuidado evidente na recriação do universo fechado e claustrofóbico de Monkswell Manor, perante um conjunto de situações que, em vagas sucessivas, se mostraram sob o signo da suspeita. A cenografia e o desenho de luz apostam numa atmosfera densa, remetendo para a Inglaterra rural dos anos 50, enquanto o ritmo narrativo respeita a progressão clássica do “whodunnit”: apresentação gradual das personagens, instalação do crime e subsequente intensificação do suspense. Tal como nas produções londrinas, Paulo Sousa Costa dedica uma atenção particular ao equilíbrio entre tensão e leveza, com momentos de humor físico e caricatural a pontuar o enredo. Essa oscilação, longe de diluir o mistério, reforça-o, permitindo que o público se aproxime das figuras em cena, ora desconfiando, ora defendendo a sua inocência. A encenação aposta, assim, numa fidelidade estilística que não procura reinventar o texto, antes reactivá-lo junto de um público contemporâneo. O espectáculo cumpre o seu desígnio: entretém, intriga e envolve.

No plano interpretativo - e à semelhança do que tínhamos visto no excepcional “A Noite”, a partir de José Saramago -, o elenco da Yellow Star Company demonstrou uma enorme solidez e versatilidade, ainda que nem sempre escapasse à tentação de acentuar em demasia certos traços mais estereotipados. Do casal anfitrião aos excêntricos hóspedes, as personagens surgiram como arquétipos reconhecíveis, o que, sendo parte integrante da escrita de Agatha Christie, exige dos actores uma maior subtileza e contenção. Nos casos em que esse equilíbrio foi alcançado, o resultado revelou-se eficaz: cada gesto, cada pausa, cada inflexão, contribuiu para adensar a teia de suspeitas. A progressão até ao clímax foi conduzida com competência, culminando numa revelação que, apesar de reconhecida no imaginário colectivo, mantém a capacidade de surpreender e provocar reacções audíveis na sala. Num tempo em que o teatro procura constantemente novas linguagens, há algo de reconfortante em revisitar uma obra que resiste pela força da sua construção. Em Ovar, essa resistência traduziu-se numa sala esgotada e num público rendido — prova de que, mesmo à distância de mais de setenta anos, a ratoeira continua a fechar-se com precisão.

domingo, 29 de março de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #103



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #103
Com | Carlos Lobo, Rodrigo Lavorato e Jo Castro
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
26 Mar 2026 | qui | 21:30


As noites Shortcutz Ovar são momentos incomparáveis de festa e celebração do cinema português em versão curta. À qualidade da programação, junta-se a presença de um público entusiasta e conhecedor, o que faz da Escola de Artes e Ofícios o ponto de encontro ideal para quem aprecia e valoriza as pequenas pérolas que, mês após mês, vão sendo dispensadas na tela. Assim foi, uma vez mais, na noite da passada quinta-feira, numa sessão que contou com três filmes de ficção verdadeiramente desafiantes no seu pendor de inquietação e provocação. Ainda que diversas, as propostas convergiram numa mesma atenção ao íntimo como espaço político e sensível. Explorando territórios de transição - corpos, faixas etárias, geografias -, os três filmes mostraram que a identidade não é um dado adquirido, antes algo construído a partir do contacto com o outro, com o espaço e com o próprio desejo. No gesto de uma certa errância, de permanência em trânsito, percebeu-se de forma clara o quanto as narrativas viveram daquilo que as uniu, muito mais do que o que tiveram a separá-las. Entre a fusão e o deslocamento, entre a distância e a descoberta, a sessão foi ao encontro do público, instigando-o a encontrar respostas para uma mesma inquietação: como habitar o mundo, o corpo e o outro, quando nada parece definitivo?

Depois de aqui ter estado em Setembro de 2023 a apresentar “Aos Dezasseis”, o seu filme de estreia, Carlos Lobo abriu a sessão com “Ofélia”, insistindo numa certa ideia poética de juventude e na necessidade de percepção do “eu” como condição de sobrevivência. O realizador mostrou a sua atracção pela contemplação e o silêncio, estabelecendo o filme no instável território do desejo, aqui a emergir como força motriz, mas também como campo de tensão, risco e transformação. De mera figurante em “Aos Dezasseis”, a figura de proa neste “Ofélia”, Ofélia Oliveira é o espelho de uma narrativa inspirada na obra do artista visual Ovartaci (1894 – 1985) e escrita com as palavras do amor e da liberdade: liberdade a sério, “liberdade de mudar e decidir”. Uma semana após a aprovação de três projectos-lei para alterar a lei da identidade de género - um marcado retrocesso social e civilizacional que mostra o quanto esta nova direita odeia os corpos livres, porquanto odeia a liberdade como um todo -, “Ofélia” veio provar a sua enorme delicadeza no que tem de belo e livre, mas também a sua actualidade e pertinência na chamada de atenção para os riscos que, de forma crescente, se erguem como uma ameaça à democracia e aos valores de Abril. O filme foi eleito pelo público como o melhor da sessão.

Se “Ofélia” exibiu uma dimensão política apreciável, “Quem se Move”, uma primeira obra da brasileira Stephanie Ricci, ergueu-a de forma explícita, quase contundente. Nesta história de uma imigrante brasileira em Lisboa que “enfrenta a difícil escolha entre permanecer ilegal numa cidade que se torna cada vez mais estranha ou retornar ao lar do qual fugiu”, percebemos a ligação directa entre a repressão do corpo e a ilegalização dos imigrantes, enquanto componentes articulados de uma cartilha muito mais vasta, apostada no cercear dos direitos, liberdades e garantias que, cada vez mais, são só para alguns. Aqui, o desejo desloca-se. Deixa de se dirigir apenas ao outro para se expandir numa procura mais difusa: de pertença, de estabilidade, de lugar. Ao longo de uma noite errante, a protagonista move-se entre espaços, línguas e afectos, confrontando-se com a impossibilidade de fixação. A intimidade surge fragmentada, assente em encontros breves que tentam enganar essa instabilidade, enquanto o corpo carrega o peso da condição migrante e provisória, questionando-se sobre aquilo que trás consigo e o que foi obrigado a deixar para trás. Um filme, também ele, essencial, num momento particularmente difícil para as comunidades migrantes, vítimas de barreiras estruturais que agridem e de práticas intolerantes que excluem e desumanizam.

Dissolvente, intensamente físico e exploratório, “Crua + Porosa”, um filme de Ágata de Pinho, fechou a sessão e, paradoxalmente, abriu-a em carne viva num “after-session” que prolongou as sensações de uma invulgar experiência de cinema. Prémio para Melhor Primeira Obra na 7.ª temporada do Shortcutz Ovar, “Azul”, o anterior trabalho da realizadora, encontra eco neste “Crua + Porosa”, espécie de “segundo tomo de uma história complexa”, um filme que começa onde “Azul” termina. Intenso, excessivo, nele o “work in progress” é matéria e desejo. Ágata de Pinho e Jo Castro escrevem o filme na pele, nos fluidos, nos gestos, fazendo do exercício interpretativo uma experiência sensorial capaz de dissolver as fronteiras entre o ser e o estar, entre um corpo e outro corpo. Em “Crua + Porosa”, o sentir precede o pensar, a imagem torna-se quase táctil. Amar é desafiar os próprios limites, é substituir o ardor por uma ideia de fusão. Performativo, orgânico, visceral, o filme escapa a todas as formas de classificação. Do fascínio da cor à beleza dos enquadramentos, dos códigos implícitos a uma estética provocadora, das referências ao sempiterno David Cronenberg às visitas ao universo de Nagisa Oshima, mas também de Julia Ducournau, “Crua + Porosa” não se explica. Oferece-se apenas, num convite a que o habitemos. Um momento extraordinário de cinema, a provar que vale a pena correr riscos.

sábado, 28 de março de 2026

LIVRO: "A Lentidão do Mundo" | Filipa Leal



LIVRO: “A Lentidão do Mundo”,
de Filipa Leal
Ed. Nova Mymosa, Janeiro de 2026


“Em quinhentos anos, por exemplo, se descascássemos uma laranja por dia, teríamos descascado cento e oitenta e duas mil e quinhentas laranjas. Eu gosto de descascar laranjas, mas o tempo passa tão depressa. Mesmo o tempo das laranjas. Só o mundo é lento, lentíssimo. Deixa-nos passar primeiro, como um cavalheiro, abre a porta e indica-nos a entrada, e depois a saída. Quase todos entramos e saímos a chorar. E depois vêm outros, saem outros, e assim sucessivamente.”

Como classificar um livro assim? Teatro? Ficção? Um coral onde três vozes se entrelaçam como correntes de água que nunca chegam verdadeiramente a confluir? Quanto mais mergulhamos em “A Lentidão do Mundo”, mais sentimos a recusa em qualquer classificação pacífica, como se a própria forma fosse já uma resposta ao seu tema: o tempo não se deixa conter, e a linguagem também não. Integrado na preciosa Colecção Crateras - Ficção, da Editora Nova Mymosa, o texto nasce de uma residência da Malvada Associação Artística, em Évora, em 2024, e transporta consigo um sopro de experimentação, uma abertura ao risco, uma escuta atenta do espaço e dos corpos. Posteriormente levado à cena na BlackBox do Espaço do Tempo e no Teatro do Bairro, numa criação de Nuno Nolasco, Ana Luena e José Miguel Soares, o texto revela a sua vocação cénica sem jamais abdicar de uma densidade literária que o sustenta. Há didascálias implícitas no respirar das frases, há pausas que são quase silêncios habitados, e tudo isso constrói uma obra que vive entre páginas e palco, sem jamais se fixar.

As três vozes - a mulher que limpa a piscina, o nadador profissional, o homem sentado - não são apenas personagens: são estados do corpo perante o tempo. A primeira move-se rente à terra, à água que não domina, inventando uma coreografia de sobrevivência e delicadeza; o segundo vive na tirania da performance, o corpo simultaneamente instrumento e cárcere; o terceiro arrasta o peso da memória e da omissão, como se cada gesto fosse demasiado tarde. A água, elemento central, surge ora como ameaça, ora como promessa, ora como espelho impossível. E é nesse jogo que a autora inscreve uma reflexão subtil sobre classe, desejo, herança e falha, porque o medo da água, como se diz, pode ser um luxo, mas também uma condenação. A escrita de Filipa Leal é aqui de uma limpidez enganadora: por baixo da aparente simplicidade, acumulam-se camadas de sentido, quais folhas e pétalas recolhidas da piscina. Cada frase parece respirar, hesitar, voltar atrás, como se pensar fosse já uma forma de resistência à pressa do mundo.

No fundo, o que este texto interroga é a possibilidade de habitarmos o tempo sem sermos devorados por ele. A “lentidão do mundo” não é apenas um título: é uma hipótese ética, quase uma utopia íntima. Enquanto os corpos se esgotam - no treino, na doença, na velhice, no amor perdido - o mundo permanece, impassível, quase distraído, abrindo e fechando portas. Nesta percepção há qualquer coisa de profundamente comovente, a ideia de que tudo passa depressa demais para quem vive, e devagar demais para quem observa. E, no entanto, é nesse descompasso que a obra encontra a sua beleza mais funda. Quando, no final, se propõe ensinar a nadar - ou talvez a parar -, o gesto adquire uma dimensão quase redentora: aprender a mover-se na água ou no tempo é, afinal, aprender a não sucumbir. “A Lentidão do Mundo” é, assim, um texto que se escuta mais do que se lê, que se sente mais do que se explica. E que, como um eco, permanece muito depois de virada a última página.

sexta-feira, 27 de março de 2026

CINEMA: “Riefenstahl” | Andres Veiel



CINEMA: “Riefenstahl”
Realização | Andres Veiel
Argumento | Andres Veil
Fotografia | Toby Cornish
Montagem | Alfredo Castro, Stephan Krumbiegel, Olaf Voigtländer
Interpretação | Ulrich Noethen, Leni Riefenstahl, Albrecht Knaus, Raimund le Viseur, Ernest A. Ostro, Dieter Wild, Heinrich Breloer, Joseph Goebbels, Rudolf Hess, Adolf Hitler, Horst Kettner, Elfriede Kretschmer, Ray Müller, Hansjürgen Rosenbauer, Albert Speer, Willy Zielke
Produção | Sandra Maischberger
Alemanha | 2024 | Documentário | 115 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 17
23 Mar 2026 | seg | 13:25


A figura de Leni Riefenstahl permanece, quase vinte e cinco anos após a sua morte, como uma das mais inquietantes e ambíguas da história do cinema. Realizadora, actriz, bailarina e fotógrafa, a alemã construiu uma obra simultaneamente inovadora e profundamente comprometida com o regime nazi, circunstância que ensombra qualquer tentativa de avaliação puramente estética do seu legado. Filmes como “O Triunfo da Vontade” e “Olympia” não só redefiniram a linguagem cinematográfica através de técnicas de montagem, enquadramento e captação de massas, como também serviram de instrumento de exaltação ideológica. Ao longo da vida, Riefenstahl insistiu na separação entre arte e política, alegando desconhecimento dos crimes do regime que a financiou e promoveu. No entanto, essa narrativa defensiva, reiterada em entrevistas e memórias, revela-se frágil quando confrontada com documentos, imagens e testemunhos que sugerem uma proximidade efectiva com o poder nazi, incluindo relações directas com figuras como Adolf Hitler e Joseph Goebbels. A tensão entre génio artístico e cumplicidade política constitui, assim, o núcleo de uma controvérsia que nunca cessou de se reconfigurar.

É precisamente essa ambivalência que o documentarista Andres Veiel explora em “Riefenstahl”, obra apresentada fora de competição no Festival de Veneza, em Agosto de 2024, e construída a partir de um vasto espólio inédito, composto por cerca de 700 caixas de arquivos pessoais. Longe de uma biografia linear, o filme adopta uma estrutura fragmentária e situacional, cruzando excertos de entrevistas, telefonemas privados, cartas e imagens de arquivo com cenas dos próprios filmes da realizadora. Veiel opta por uma abordagem contida, deixando que as contradições de Riefenstahl emerjam das suas próprias palavras, frequentemente desmentidas pelas imagens que produziu. Ao invés de um julgamento explícito, o realizador propõe um confronto subtil entre discurso e evidência, revelando uma personalidade que oscila entre a auto-mitificação e a negação persistente. Episódios como a sua presença na Polónia em 1939 ou a utilização de figurantes ciganos em “Tiefland” são revisitados à luz de novos indícios, sugerindo níveis de conhecimento e responsabilidade mais profundos do que aqueles que a própria admitia.

Paralelamente, o filme traça o retrato de uma mulher que soube reinventar-se ao longo de décadas, mantendo um controlo rigoroso sobre a sua imagem pública. Da jovem actriz de filmes simples à cineasta consagrada do Terceiro Reich, passando pelas expedições fotográficas no Sudão ou pelos projectos subaquáticos na velhice, Riefenstahl encarnou uma modernidade inquietante, marcada pela capacidade de adaptação e pela recusa em abdicar de protagonismo. Mesmo nas suas incursões africanas, onde fotografou o povo Nuba com um olhar simultaneamente estético e problemático, reencontra-se a mesma lógica de idealização visual que marcou a sua obra anterior. Veiel sugere, assim, que a realizadora não só antecipou práticas contemporâneas de auto-promoção e financiamento artístico, como também ilustra, de forma paradigmática, os dilemas éticos da criação em contextos de poder autoritário. Entre verdade e ficção, memória e omissão, o retrato que emerge é o de uma artista que fez da própria vida uma encenação contínua. E cuja verdadeira face talvez permaneça, ainda hoje, irremediavelmente fora de campo.

quinta-feira, 26 de março de 2026

CONCERTO DE PÁSCOA: Requiem, de Gabriel Fauré



CONCERTO DE PÁSCOA: Requiem, de Gabriel Fauré
Orquestra Filarmonia das Beiras
Coro Sinfónico Inês de Castro
Direcção | Tiago Oliveira
Direcção coral | Artur Pinho Maria
Com | Leonor Barbosa de Melo (soprano), Luís Rendas Pereira (barítono)
XIV Ciclo de Requiem Coimbra 2026
Igreja Matriz de Ovar
22 Mar 2026 | dom | 17:30


Integrado na programação das Solenidades Quaresmais de Ovar, teve lugar no passado domingo, na Igreja Matriz, o Concerto de Páscoa pela Orquestra Filarmonia das Beiras e que contou com o Coro Sinfónico Inês de Castro. A abrir o momento, a Sinfonia n.º 49 em Fá menor, “La Passione”, de Joseph Haydn, ergueu-se como um portal meditativo, quase litúrgico, revelando uma inquietação que ultrapassou a mera forma e se inscreveu numa dramaturgia interior de rara intensidade. Com o Adagio inicial a substituir o habitual ímpeto inaugural, a peça pareceu inscrever a música num tempo suspenso, como se cada compasso fosse um passo dolorido na via-sacra. Percebeu-se nela uma emoção contida, um fervor recolhido e austero que convocou o silêncio tanto quanto a música. Sombria e inexorável, a progressão dos andamentos pareceu acompanhar o peso da cruz, a queda e o reerguer, culminando num “Presto” final cuja turbulência não dissipou a dor, antes a tornou mais aguda. Num concerto pascal, esta Sinfonia não só evocou a Paixão, mas foi também um convite à introspecção, à consciência da fragilidade humana e à aceitação do sofrimento como caminho para a redenção.

Se Haydn nos conduziu pela sombra densa da dor, o Requiem de Gabriel Fauré abriu-nos, com infinita delicadeza, a possibilidade da luz. Longe do dramatismo apocalíptico de outras leituras do texto litúrgico, Fauré concebeu uma obra onde a morte não é terror nem ruptura, antes repouso e transfiguração. Desde o “Introit et Kyrie”, cuja penumbra inicial se ilumina na promessa da “lux perpetua”, até ao etéreo “In Paradisum”, tudo pareceu encaminhar o público para uma aceitação serena do fim como princípio. De inspiração quase gregoriana, a escrita coral entrelaçou-se com uma orquestração de transparência rara, onde cada timbre soube respirar e dissolver-se num tecido harmónico de subtil beleza. O “Offertorium”, com a sua súplica reiterada, e o “Agnus Dei”, de pungente expressividade, revelaram um equilíbrio notável entre a dor e a esperança. E, no entanto, foi no “Pie Jesu” que o tempo verdadeiramente se suspendeu: uma linha pura, quase infantil na sua simplicidade, que se elevou como oração íntima, pedindo descanso eterno com uma ternura desarmante. Fauré não descreve a morte: Consola-a, envolve-a, humaniza-a.

Antes do concerto, nas breves palavras que dirigiu ao público, o maestro Tiago Oliveira lembrou que os aplausos devem surgir apenas no final de cada peça, preservando a unidade e o recolhimento da experiência musical. E, contudo, houve um instante em que essa regra pareceu, se não quebrada, pelo menos questionada pelo próprio coração: o “Pie Jesu”, precisamente, interpretado de forma delicada e sentida por Leonor Barbosa de Melo, mereceria, talvez, um gesto espontâneo de gratidão. Foi um momento de rara verdade, em que a música deixou de ser execução para se tornar revelação. De notar, ainda, o desempenho notável do Coro Sinfónico Inês de Castro, cuja coesão e riqueza tímbrica sustentaram com firmeza a arquitectura da obra, beneficiando da opção por uma formação instrumental reduzida, quase camerística. Longe de empobrecer o resultado, essa contenção conferiu maior clareza às linhas vocais e intensificou a intimidade do discurso. Na sombra de Haydn e na luz de Fauré, o concerto desenhou um arco perfeito entre a dor e a esperança, a morte e a promessa de ressurreição, deixando nos espíritos de quem assistiu ao concerto uma paz difícil de traduzir em palavras.

quarta-feira, 25 de março de 2026

TERTÚLIA | CONVÍVIO: Finissage das Exposições da Residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”



TERTÚLIA | CONVÍVIO: Finissage das Exposições da Residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”
Com | Ana Isabel Nistal Freijo, Solange Azevedo e Hélder Sousa
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
22 Mar 2026 | dom | 16:00


Sensível e íntimo, instigante e provocador, assim foi a finissage das exposições da residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”, momento de convívio e de memória feito de emoções e afecto. Com “um pé no passado e outro no futuro”, Ana Isabel Nistal Freijo, fez uma retrospectiva daquilo que foi o “Inovar as Letras - À Escuta da Literatura”, projecto cultural e residência artística que agora chega ao fim. Em ambiente de grande familiaridade, percebemos que o projecto não nasceu da fria arquitectura do pensamento, mas de um impulso íntimo, quase indizível, onde o coração se impôs como princípio e fim de todas as coisas. Com tudo o que foi acrescentando, o percurso foi marcado pelo reencontro com raízes biográficas e espirituais, nesse lugar onde a literatura e a música se entrelaçam na experiência de quem escuta e recria. Do deslumbramento inaugural pela palavra à maturidade da escuta contemporânea, ergueu-se uma ponte onde o ensino, a criação e a memória fluíram, dando corpo a uma ideia que encontrou no Museu Júlio Dinis não apenas um espaço físico, mas uma casa plural aberta ao sonho e à metamorfose.

“Toda a alma precisa de um corpo para se manifestar, e esse corpo é para nós o Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense”. Foi nesse corpo, vivo e acolhedor, que a alma do projecto se manifestou plenamente, sustentada pelo encontro entre impulsos criativos e vontades institucionais. O Museu revelou-se como lugar de confluência, a herança dinisiana projectada no presente através da experimentação artística. Entre Abril de 2025 e o passado domingo, as artes dialogaram de múltiplas formas, da celebração de projectos contemporâneos à encomenda de novas obras, das exposições às instalações sonoras que transformaram o espaço em matéria sensível. Cada gesto criativo - fosse nas composições, nas artes plásticas ou na palavra dita e cantada - constituiu um prolongamento desse legado, fazendo ressoar vozes que, mesmo ausentes, permanecem vivas na tessitura do projecto. Assim, o “Inovar as Letras” afirmou-se como território de criação partilhada, no qual tradição e invenção coexistiram num delicado equilíbrio, alimentado pelo estímulo e pela confiança de todos quantos nele acreditaram.

Mas foi sobretudo na comunidade que o projecto encontrou o seu centro de gravidade. Oficinas, conversas, ensaios abertos e concertos fizeram do público parte integrante do processo, assumindo-se como presença activa, cúmplice e transformadora: “Verdadeiros espectadores emancipados”, capazes de dar o seu contributo para uma obra colectiva em permanente construção. E, como num ciclo que se cumpre sob o signo das flores - símbolo de esperança, ilusão e efemeridade -, o projecto encerra levando consigo um delicado ramo de memórias. “Há flores assim que só os sentidos muito delicados lhes reconhecem o perfume”, escreveu Júlio Dinis em carta endereçada a sua tia. Assim parte esta experiência, e com ela uma nómada que deixa atrás de si uma fragrância leve, nesse gesto de partida residindo a promessa de que o que foi vivido continuará a ecoar, subtil e indelével, no coração de quem o escutou. Mas nele residindo também a certeza de que este não é “o fim do encantamento”. O gracioso virginal, cópia fiel de um instrumento de início do século XVII e cuja sonoridade Hélder Sousa tão delicadamente mostrou, é a prova de que “a procissão ainda vai no adro”.

terça-feira, 24 de março de 2026

TEATRO: "O Colar" | Sophia de Mello Breyner



TEATRO: “O Colar”
Texto | Sophia de Mello Breyner
Adaptação e encenação | Leandro Ribeiro
Coreografia | Eduarda Terra
Cenários, figurinos, desenho de luz, desenho de som | Leandro Ribeiro
Interpretação | João Assunção, Maria Silva, Francisco Fidalgo, Sara Oliveira, Sofia Miguel Costa, Maria Eduarda Terra, Simão Baldaia, Alexandre Pinto, Maria Inês Campos
Produção | Sol d’Alma - Associação de Teatro
90 Minutos | Maiores de 6 Anos
Auditório do Sol d’Alma
21 Mar 2026 | sab | 18:00


Ao olharmos o lado teatral de Sophia de Mello Breyner Andresen, reconhecemos nele um território breve mas revelador no interior da sua obra: apenas cinco peças, sendo “O Colar” (2001) a última, como se nesse gesto final se condensasse uma pulsação dramática sempre latente na sua escrita. Há, de facto, na sua poesia e na sua prosa — sobretudo na destinada à infância — uma teatralidade essencial, feita de vozes que se erguem com nitidez, de gestos que pedem corpo e espaço, vocação confirmada pelas sucessivas adaptações cénicas dos seus textos. Nesse sentido, saúde-se a escolha do Sol d’Alma em levar à cena “O Colar”, não como simples transposição, mas como revelação de algo que é material essencial no ADN da companhia: o apelo à presença, ao dizer incarnado. E, desde o primeiro instante, reconhece-se essa limpidez inconfundível numa linguagem depurada, quase austera, mas atravessada por uma densidade moral e simbólica que cintila como água ao sol, como se cada palavra tivesse sido longamente polida pela memória do mar.

Na tessitura desta adaptação, preserva-se essa claridade inaugural, ainda que atravessada por uma escolha estrutural importante: a supressão do terceiro acto. Tal economia, sendo eficaz na forma como concentra a acção na paixão de Vanina por Pietro Alvisi, altera necessariamente o ritmo respiratório da obra, comprimindo o seu fôlego mais amplo. Com esta decisão perde-se a dimensão contemplativa do amor da escritora pelo mar e pela Grécia, um espaço de suspensão que aqui se rarefaz. Perdem-se ainda alguns momentos de graça que a surpreendente Sofia Miguel Costa acrescenta à peça, brilhando no papel da Condessa Zeti e, em particular, nessa graciosa mestiçagem de português e italiano que anima os diálogos e lhes confere um sabor raro. Ainda assim, a mensagem passa sem sobressaltos, o palco a revelar-se como espelho ambíguo, onde visível e invisível se entrelaçam e cada gesto parece abraçar a própria sombra. Há, na palavra dita, uma musicalidade contida, um rigor quase clássico que sustém o excesso e lhe dá forma, conduzindo o espectador a uma região onde beleza e inquietação são matéria inseparável.

Interpretada pela seguríssima M7aria Silva, no centro da acção ergue-se Vanina, figura de sentimentos transparentes e desmesuradas emoções, criatura que acredita no poder do amor com uma inteireza quase feroz, como se o mundo pudesse ainda corresponder ao desenho do desejo. De um profundo lirismo, a sua linguagem revela essa condição inaugural, esse modo de estar que não admite fissuras. E, no entanto, é precisamente essa pureza radical que a expõe ao choque com o real. O colar, objecto e símbolo, concentra essa ambiguidade essencial: promessa de pertença e instrumento de captura, brilho que seduz e laço que prende. Ao aceitá-lo, Vanina entra num jogo de espelhos onde a identidade se fragmenta, onde o eu se descobre vulnerável à encenação do outro. Pietro Alvisi, na pessoa de João Assunção, surge como leveza indecisa, cantor do amor incapaz de o sustentar, enquanto as restantes figuras - entre a sedução e a norma, entre o impulso e a contenção - desenham um campo de forças que empurra e limita. É nesse movimento, quase imperceptível, que a peça atinge a sua verdade mais dolorosa: crescer é aprender a desconfiar do brilho, é reconhecer que nada do que é puro permanece intacto quando tocado pelo mundo.

Consciente dessa matéria subtil, Leandro Ribeiro acentua a teatralidade intrínseca da obra, explorando o seu lado mais íntimo e inquietante. Há uma percepção aguda de que viver é representar, de que as relações se organizam como espectáculo: gestos que são máscaras, palavras que procuram efeito, encontros cuidadosamente coreografados. Ao tornar visível esse artifício, o espectáculo não o anula, antes o ilumina. Os momentos musicais introduzem uma respiração orgânica, como marés que vão e voltam, enquanto os figurinos e a composição visual acrescentam densidade a um universo já por si carregado de sentido. O elenco sustenta essa arquitectura com uma notável homogeneidade, onde cada presença encontra o seu lugar sem ruído, e onde a palavra se torna corpo sem perder a sua transparência. Neste “O Colar”, o teatro cumpre a sua vocação mais elevada, a de criar um instante partilhado de revelação, efémero mas persistente, onde a beleza e a perda continuam, inseparáveis, a dialogar na memória de quem viu e escutou.

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