CINEMA: “Projecto Global”
Realização | Ivo M. Ferreira
Argumento | Hélder Beja, Ivo M. Ferreira
Fotografia | Vasco Viana
Montagem | Sandro Aguilar
Interpretação | Jani Zhao, Rodrigo Tomás, José Pimentão, Gonçalo Waddington, Isac Graça, João Catarré, Ivo Canelas, Hugo Bentes, Isabél Zuaa, João Estima, João Pedro Mamede, Pedro Marujo, Adriano Luz, Ana Tang, Lee Zhao Ferreira, Bibi Gomes, Daniel Viana
Produção | Sandro Aguilar, Luís Urbano
Portugal, Luxemburgo | 2026 | Drama, Thriller | 140 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 13
27 Abr 2026 | seg | 15:05
“Projecto Global”, de Ivo M. Ferreira, instala-se num ponto de fricção da história recente portuguesa: o rescaldo da Revolução de Abril e a lenta erosão das suas promessas. Entre o ímpeto transformador de 1974 e o desencanto que marca o início da década de 80, o filme observa o nascimento e a deriva das Forças Populares 25 de Abril como sintoma de um mal-estar colectivo. O realizador escapa à tentação do didactismo, preferindo mergulhar o espectador numa atmosfera de clandestinidade, na qual a política se confunde com a vida quotidiana e a radicalização surge menos como ruptura súbita do que como consequência de um acumular de frustrações. A passagem do activismo de rua à violência armada é tratada não como inevitabilidade histórica, mas como como uma espécie de fatalismo, a trajectória possível num país onde a democracia se revela, para alguns, insuficiente. Nesse sentido, o gesto-limite que cristaliza o desespero social e se traduz no suicídio de um operário, funciona como detonador simbólico de uma escalada que o filme acompanha sem juízos simplistas, expondo o modo como o idealismo se pode converter numa lógica fechada sobre si própria.
No centro da narrativa, Rosa (Jani Zhao) emerge como figura de tensão permanente entre afecto e ideologia. Actriz, mãe e militante, é através dela que o filme articula os custos da clandestinidade, recusando separar o político do íntimo. A relação com Jaime (Rodrigo Tomás) e o triângulo que se estabelece com Marlow (José Pimentão) - o polícia encarregado de a perseguir - introduzem uma ambiguidade eficaz, ainda que nem sempre plenamente desenvolvida. Se Rosa ganha espessura emocional, já as personagens masculinas oscilam entre funções mais esquemáticas, servindo antes o conflito do que o aprofundando. Essa fragilidade estende-se a uma estrutura narrativa por vezes dispersa, povoada por figuras secundárias que surgem e desaparecem sem o necessário lastro dramático. Ainda assim, Ivo M. Ferreira compensa essa irregularidade com um apurado sentido de mise-en-scène: a reconstituição de época, o trabalho de câmara e o desenho dos espaços criam um universo denso, onde a invisibilidade e o disfarce são regras de sobrevivência. Longe do espectáculo, a acção é seca e contida, reforçando a ideia de uma violência que se infiltra no quotidiano em vez de o interromper.
“Projecto Global” recusa respostas fáceis e instala-se numa zona cinzenta onde a distinção entre resistência e terrorismo se revela dúbia e particularmente instável. O filme sugere que a convicção de estar do lado certo da história pode legitimar, aos olhos de quem a sustenta, práticas moralmente insustentáveis. Ao mesmo tempo, não abdica de mostrar o fascínio do gesto revolucionário, a sedução de uma causa que promete restituição e justiça. Essa ambivalência é talvez o seu traço mais interessante: longe de condenar ou glorificar, o realizador expõe um processo de desagregação política, afectiva e ética que atinge tanto os militantes como o próprio tecido social que os envolve. A ambição do fresco histórico faz com que, a espaços, o filme se perca numa certa desordem narrativa, mas mantém-se relevante a forma como convoca o presente. Num tempo em que regressam discursos de excepção e tentações autoritárias, “Projecto Global” lembra que aquilo que separa a luta legítima da deriva violenta é, não só ténue, mas perigosamente volúvel.