Páginas

sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: "Hoje, 3 de Maio" | Patrícia Portela



LIVRO: “Hoje, 3 de Maio”,
de Patrícia Portela
Ed. Editorial Caminho, Maio de 2026


“Para sobreviveres, tens de fuzilar ou ser fuzilado. E tu aceitas ou recusas a ordem dos eventos, mas não podes ficar indiferente. E por isso fuzilas(-te).
Numa praça, num tribunal, num parlamento, numa arena, mas também numa escola. Em casa, na rua, a caminho do trabalho, num lugar recôndito, num lugar público, num subterrâneo.
3 de maio repete-se. Hoje, amanhã e depois. Repetiu-se ontem. Repete-se sempre.”

Começarei por dizer que “Hoje, 3 de Maio” dificilmente existiria sem a atribuição a Patrícia Portela da 2.ª Bolsa Literária da Embaixada de Portugal em Espanha, o que permitiu à escritora passar um mês no Museu Nacional do Prado, em Madrid, durante o ano de 2022. Dessa convivência quotidiana com a pintura de Goya nasceu muito mais do que um exercício de interpretação histórica ou artística. Nasceu uma investigação sobre o olhar, sobre a memória e sobre a capacidade de preservarmos a nossa humanidade perante a repetição da barbárie. “Hoje, 3 de Maio” abre uma fissura no tempo. Patrícia Portela conduz o leitor numa viagem onde passado, presente e futuro coexistem em estado de permanente inquietação. Eternizado por Goya, o levantamento madrileno de 1808 não surge como mero episódio encerrado na moldura dos tempos, mas como uma ferida que não cessa de sangrar e doer. Mais do que narrar os factos, o romance interroga a sua própria natureza, lembrando que a verdade raramente avança em linha recta. Cada página funciona como uma câmara de ecos onde os mortos falam com os vivos, os vivos respondem aos que ainda estão por nascer e os acontecimentos reflectem-se uns nos outros, como espelhos colocados frente a frente e que fazem com que nos projectemos até ao infinito.

Além da densidade, acutilância e imaginação, a escrita de Patrícia Portela possui uma qualidade profundamente polifónica. Não se limita a contar: escuta. Escuta os carrascos e as vítimas, os fantasmas e os arquivos, os soldados e os pintores, os visitantes de museu e as mulheres que entram numa papelaria para levantar uma encomenda. As vozes sucedem-se, cruzam-se, contradizem-se, ampliam-se, formando uma composição coral de extraordinária complexidade. Há momentos em que a narrativa assume o tom de um depoimento histórico; noutros, mergulha no monólogo íntimo, na alucinação, na sátira ou na meditação filosófica. Daqui resulta uma obra onde cada discurso convoca um novo discurso, onde cada pergunta abre uma nova galeria de perguntas. Essa multiplicidade formal encontra correspondência numa impressionante diversidade de géneros. “Hoje, 3 de Maio” move-se com igual naturalidade entre o épico e o coloquial, a ficção e o ensaio, o lirismo e o drama, o thriller e a farsa. O livro é simultaneamente romance, investigação, elegia, manifesto e dispositivo cénico, o que vale por dizer que poucas obras contemporâneas dispõem de uma tão rara capacidade para mudar de registo sem perder unidade, fazendo da heterogeneidade uma forma superior de coerência.

Partindo da contemplação obsessiva de “Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808”, de Goya, a autora leva a que o livro se expanda até adquirir uma dimensão universal. O que tem numa tela o seu ponto de partida transforma-se numa cartografia da violência humana. As mães da Praça de Maio surgem ao lado das vítimas do genocídio em Gaza; Cristo perante Pilatos encontra-se com os escombros da Guerra da Ucrânia; o Massacre de Lisboa de 1506 dialoga com os instantes decisivos do 25 de Abril na Rua do Arsenal. Nada aqui é gratuito ou ornamental. Patrícia Portela estabelece ligações inesperadas entre acontecimentos separados por séculos e continentes, revelando continuidades morais que a História oficial, cada vez mais, procura ocultar. A sua escrita demonstra que a violência muda de uniforme, de língua e de bandeira, mas nunca abdica dos seus mecanismos fundamentais. O quadro de Goya converte-se, assim, numa espécie de espelho universal, onde regressam incessantemente as mesmas perguntas: quem dispara, quem obedece, quem observa, quem se insurge, quem se resigna, quem cala. O livro obriga-nos a reconhecer que a distância histórica não constitui uma absolvição e que a condição de espectador pode muito bem ser uma forma de cumplicidade.

“Hoje, 3 de Maio” demonstra que a literatura continua a ser um dos poucos lugares onde a complexidade do mundo pode manifestar-se sem rodeios. Nele, o tempo torna-se matéria porosa, atravessada por vozes, imagens e memórias que se contaminam mutuamente. Dessa recusa da linearidade nasce uma poderosa reflexão sobre a responsabilidade histórica, sobre aquilo que escolhemos recordar e sobre o que preferimos deixar afundar-se na sombra. Ler este livro é compreender que nenhum acontecimento termina verdadeiramente quando acaba; continua a reverberar através dos tempos, à espera de novos olhos que o reconheçam. Livro de pensamento e de imaginação, de indignação e de beleza, de arquivo e de vertigem, esta é uma obra de enorme generosidade, que agita e desassossega, mas que, como poucas, é absolutamente inspiradora, capaz de transformar uma pintura num tribunal moral e um instante histórico numa pergunta dirigida ao nosso próprio tempo. Ao fechar estas páginas, fica-se com a sensação de que Goya continua diante de nós, fósforo aceso na escuridão, pequenina luz bruxuleante que ilumina não apenas o que fomos, mas sobretudo o que somos e o que viremos a ser.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

VISITA GUIADA: Rota das Igrejas Fernandinas de Córdova



VISITA GUIADA: Rota das Igrejas Fernandinas
Ingressos | € 6,00, bilhete normal; € 15,00, incluindo entrada na Mesquita-Catedral de Córdova
Horários | De segunda a sexta-feira, das 10h00 às 14h00 e das 15h00 às 18h00 (horários sujeitos a cultos)
Site | https://mezquita-catedraldecordoba.es/en/


A Rota das Igrejas Fernandinas constitui um dos percursos patrimoniais mais fascinantes de Córdova, permitindo compreender a profunda transformação urbana e religiosa da cidade após a sua conquista por Fernando III de Castela, em 1236. As chamadas “igrejas fernandinas” nasceram de uma estratégia simultaneamente espiritual, política e territorial: consolidar o domínio cristão sobre uma cidade durante séculos marcada pela presença islâmica e reorganizar o espaço urbano através da criação de novas paróquias. Distribuídas pelos antigos bairros medievais, estas igrejas desempenharam um papel determinante na integração dos novos habitantes e na definição da identidade cristã da cidade. Mais do que simples templos, constituem marcos da reorganização social de Córdova no século XIII e testemunham um período de extraordinária convivência de influências arquitectónicas. Uma visita ao longo da rota permite descobrir edifícios que conjugam o gótico inicial castelhano com elementos mudéjares herdados da tradição construtiva islâmica, criando uma linguagem artística singular. Percorrer esta rota é, por isso, viajar por um momento decisivo da história andaluza, observando como a arquitectura se converteu num instrumento de afirmação política e cultural. Ao mesmo tempo, o conjunto revela uma surpreendente unidade estilística que transforma cada igreja numa peça essencial de um vasto mosaico patrimonial.

O itinerário pode ter o seu início na Igreja de San Nicolás de la Villa, uma das mais emblemáticas da cidade e excelente introdução ao universo fernandino. O primeiro elemento que capta a atenção é a sua imponente torre, construída já em época posterior, mas que domina visualmente o bairro envolvente. No interior, importa observar a estrutura sóbria das naves e a forma como o espaço conserva a clareza funcional típica das primeiras igrejas erguidas após a Reconquista. A poucos minutos encontra-se a Igreja de San Miguel, considerada um dos melhores exemplos do modelo arquitectónico fernandino. Aqui merecem especial atenção a fachada principal, de inspiração gótica, e os delicados elementos mudéjares que testemunham a permanência de mestres construtores islâmicos. O visitante atento descobrirá uma notável harmonia entre verticalidade e simplicidade decorativa. Segue-se a Igreja de San Juan y Todos los Santos, popularmente conhecida como Trinidad, cuja implantação urbana revela a importância da rede paroquial na organização da cidade medieval. O seu portal e a elegância das proporções arquitectónicas constituem pontos de observação obrigatórios para compreender a evolução estética destes templos ao longo dos séculos.

A etapa seguinte conduz às igrejas de San Pedro e de Santiago, dois dos espaços mais ricos da rota. A Igreja de San Pedro destaca-se pela monumentalidade da sua fachada e pela importância histórica associada ao culto dos Mártires de Córdova. O interior apresenta um interessante diálogo entre as sucessivas campanhas construtivas que enriqueceram o edifício ao longo dos séculos, sem lhe retirar a essência medieval. Vale a pena determo-nos na cabeceira e nos detalhes escultóricos preservados. Já a Igreja de Santiago constitui um dos mais belos exemplos da síntese entre o gótico e o mudéjar. A sua torre e o portal principal revelam uma notável elegância formal, enquanto o interior surpreende pela luminosidade e pela sensação de equilíbrio espacial. Estes dois monumentos permitem compreender como as igrejas fernandinas não foram construções estáticas, mas organismos vivos que acompanharam as transformações religiosas, artísticas e sociais da cidade. A observação cuidada dos materiais, dos arcos e dos sistemas decorativos oferece uma leitura privilegiada das influências culturais que marcaram a Andaluzia medieval.

Prosseguindo o percurso, surgem as igrejas de Santa Marina de Aguas Santas e de San Lorenzo, frequentemente consideradas entre as mais belas do conjunto. Santa Marina impressiona desde o primeiro olhar pela pureza das suas linhas arquitectónicas e pelo carácter fortificado da sua aparência exterior. A fachada principal é um extraordinário exemplo do gótico inicial andaluz, enquanto o interior preserva uma atmosfera de recolhimento que convida à contemplação. A Igreja de San Lorenzo, por seu lado, é célebre pela magnífica rosácea que ilumina a fachada principal e pela qualidade dos seus elementos decorativos. A riqueza visual deste templo permite perceber como algumas igrejas fernandinas alcançaram elevados níveis de sofisticação artística sem perder a sobriedade original. Durante a visita, é importante observar a integração destes edifícios no tecido urbano histórico, uma vez que cada um deles funcionava como centro de vida comunitária. As praças, ruas e antigos espaços de mercado que os rodeiam ajudam a reconstituir o quotidiano da Córdova medieval, acrescentando profundidade histórica à experiência patrimonial.

A conclusão da rota pode fazer-se nas igrejas de San Andrés e de San Pablo, esta última profundamente transformada mas igualmente reveladora da evolução histórica do conjunto. Em San Andrés destacam-se a serenidade do interior e a conservação de numerosos elementos medievais que permitem apreciar a autenticidade do modelo fernandino. San Pablo, associada ao antigo convento dominicano, testemunha uma fase posterior de enriquecimento monumental da cidade, funcionando como complemento ideal para compreender a diversidade patrimonial cordovesa. No final do percurso, torna-se evidente que as igrejas fernandinas são muito mais do que um conjunto de edifícios religiosos. Representam um capítulo fundamental da construção histórica de Córdova e constituem um dos mais completos laboratórios de observação da arquitectura medieval espanhola. Através delas é possível acompanhar o encontro entre tradições cristãs e islâmicas, compreender os mecanismos de reorganização urbana após a Reconquista e apreciar um legado artístico de enorme valor. Para o visitante contemporâneo, esta rota oferece uma leitura clara e envolvente da cidade, transformando cada igreja numa janela aberta sobre quase oito séculos de história.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

LUGARES: Igreja de San Nicolás, Granada



LUGARES: Igreja de San Nicolás
Calle Mirador de San Nicolás 1, Albaicín, Granada
Horários | Todos os dias, das 11:00 às 13:00 e das 18:00 às 21:30
Ingressos | € 3,00 (ingresso normal, inclui subida à Torre)


A Igreja de San Nicolás ergue-se no coração do Albaicín, o mais emblemático bairro histórico de Granada, como um testemunho singular da complexa história religiosa e cultural da cidade. A sua origem remonta aos primeiros anos do século XVI, quando foi criada uma das paróquias resultantes da reorganização cristã de Granada após a conquista dos Reis Católicos. Concluído em 1525, o templo adoptou uma linguagem arquitectónica gótico-mudéjar, síntese perfeita entre a tradição construtiva cristã e a herança islâmica ainda muito presente na cidade. A própria implantação da igreja, num dos pontos mais elevados do antigo núcleo árabe, reforça essa continuidade histórica, sendo provável que tenha sido edificada sobre o espaço anteriormente ocupado por uma mesquita. Ao longo dos séculos, San Nicolás conheceu períodos de prosperidade e de declínio, enfrentando terramotos, incêndios, tempestades e profundas transformações urbanas. Particularmente devastador foi o incêndio de 1932, que destruiu grande parte da sua riqueza artística e arquitectónica. Seguiram-se décadas de abandono, projectos inacabados e sucessivas campanhas de recuperação, até que, já no século XXI, uma ambiciosa intervenção devolveu ao edifício a sua dignidade patrimonial. O resultado é um templo que preserva a memória das suas feridas históricas, transformando-as num poderoso discurso de renovação e esperança.

Hoje, entrar na Igreja de San Nicolás é iniciar uma verdadeira viagem pela arte cristã universal. Longe de se limitar às expressões da tradição ibérica, o templo surpreende pela diversidade de linguagens espirituais e estéticas que acolhe. O altar-mor apresenta uma impressionante composição inspirada na tradição iconográfica bizantina e ucraniana, obra dos artistas Ivanka Demchuk e Arsen Bereza, onde a Ressurreição de Cristo dialoga com episódios da vida de São Nicolau. A partir desse núcleo central, o visitante descobre um conjunto de capelas que constituem uma autêntica cartografia da cristandade. A capela arménia, criada por Hayk Grigoryan, evoca a história do primeiro Estado cristão do mundo através de símbolos profundamente enraizados na tradição daquele povo. Noutra capela, o sacerdote e iconógrafo libanês Abdo Badwi apresenta um tríptico inspirado na tradição siro-maronita, aproximando o visitante das antigas comunidades cristãs do Médio Oriente. Já a capela etíope, assinada por Adefris Geletu Wolde, transporta-nos para um universo visual marcado pelas cores intensas e pelo simbolismo característico da igreja ortodoxa etíope. Em conjunto, estas obras fazem da igreja um espaço raro de encontro entre culturas, sensibilidades e tradições cristãs provenientes de diferentes continentes.

Esse carácter ecuménico constitui, precisamente, um dos aspectos mais notáveis da actual configuração de San Nicolás. Mais do que um simples local de culto, o templo apresenta-se como um espaço de diálogo entre diversas expressões da fé cristã, reunindo referências provenientes das tradições católica latina, bizantina, arménia, maronita e etíope. A mensagem que emerge deste percurso artístico ultrapassa as fronteiras geográficas e confessionais, sublinhando a dimensão universal do cristianismo e a riqueza das suas múltiplas manifestações culturais. Também a intervenção contemporânea realizada no presbitério reforça essa ideia de abertura. A cúpula translúcida “Caelum”, concebida pelo artista granadino Jesús Conde Ayala, introduz uma linguagem visual moderna que dialoga com a arquitectura histórica do edifício. A luz torna-se aqui matéria espiritual e elemento simbólico, envolvendo o espaço numa atmosfera de transcendência. O visitante passa, assim, da sobriedade das estruturas gótico-mudéjares para a expressividade dos ícones orientais e para a ousadia da arte sacra contemporânea, num percurso que demonstra como a tradição religiosa pode continuar a inspirar novas formas de criação artística sem perder a sua essência.

Mas se o interior da igreja impressiona pela sua riqueza simbólica, a torre constitui um dos seus maiores atractivos turísticos. A subida ao campanário recompensa o visitante com uma das mais célebres panorâmicas de Espanha. Do alto, o olhar abrange a totalidade da Alhambra e do Generalife, com a majestosa Sierra Nevada a desenhar-se no horizonte, enquanto a cidade de Granada se estende aos pés do observador. Poucos lugares conseguem oferecer uma síntese tão perfeita entre património arquitectónico, paisagem natural e memória histórica. Não é por acaso que milhares de visitantes procuram diariamente este ponto privilegiado do Albaicín, transformando-o num dos locais mais fotografados da Andaluzia. A vista a partir da torre permite compreender a relação entre os diferentes períodos que moldaram Granada, desde a herança islâmica até à afirmação da cidade cristã. Nesse instante, a Igreja de San Nicolás deixa de ser apenas um monumento religioso para se afirmar como um extraordinário miradouro sobre a história, a arte e a identidade granadina. É precisamente essa conjugação entre espiritualidade, património e paisagem que faz deste templo um dos lugares mais fascinantes e inesquecíveis da cidade.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Tumulto” | Agostinho Santos



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Tumulto”,
de Agostinho Santos
Curadoria | Inês Falcão
Auditório Municipal de Gondomar
06 Jun > 01 Ago 2026


Começaria por dizer que “Tumulto”, a exposição que Agostinho Santos apresenta no Auditório Municipal de Gondomar, não é uma mostra para ser vista com ligeireza nem para satisfazer expectativas de conforto estético. Atravessá-la é aceitar um confronto com as inquietações do presente e com aquilo que de mais frágil habita a condição humana. Guerras, doenças, envelhecimento, violência, desigualdades, medo: os temas anunciam-se desde logo, mas seria redutor entendê-los apenas como matéria de denúncia social. Em Agostinho Santos, a realidade nunca surge como mera ilustração do mundo. O artista trabalha-a como quem a atravessa e a sofre, convocando para o desenho e para a pintura uma intensidade emocional que escapa à distância analítica e ao comentário circunstancial. As figuras multiplicam-se, fundem-se, contaminam-se umas às outras, como se cada corpo transportasse em si a memória de muitos outros corpos. O resultado é um universo visual onde a deformação se torna linguagem e onde a exuberância formal convive com uma profunda inquietação existencial. Mais do que representar o tumulto, Agostinho Santos parece procurar o lugar exacto onde ele nasce, esse território obscuro onde o humano se confronta com os seus limites, os seus fantasmas e as suas contradições.

Há muito que a obra do artista vem construindo uma reflexão persistente sobre o mal-estar do mundo, mas em “Tumulto” essa dimensão adquire uma particular densidade. As composições parecem organizadas segundo uma lógica de permanente transformação, como se nada pudesse permanecer fixo ou concluído. Rostos geram rostos, criaturas emergem de outras criaturas, gestos prolongam-se em novos gestos, numa espécie de fervilhar orgânico que recorda certas visões medievais do Paraíso e do Inferno, mas também a tradição da Arte Popular e da Arte Bruta que tão profundamente marcam o imaginário do pintor. Não estamos, porém, perante uma visão desesperada da existência. Por detrás do ruído, da turbulência e da aparente desordem, percebe-se uma procura incessante de sentido. O tumulto de Agostinho Santos não é apenas exterior; é igualmente interior, espiritual, resultado de um combate travado entre o medo e a esperança, entre a vulnerabilidade e a resistência. As obras funcionam como cartografias emocionais de um tempo em permanente sobressalto, mas também como exercícios de sobrevivência afectiva. Há nelas qualquer coisa de ritual, de exorcismo íntimo, como se o acto de desenhar e pintar permitisse ao artista domesticar os monstros que reconhece no mundo e em si próprio.

Nessa medida, a exposição encontra a sua grande força na capacidade de transformar a inquietação em possibilidade de encontro. Num tempo dominado pela velocidade da informação, pela banalização da violência e pela indiferença perante o sofrimento alheio, Agostinho Santos insiste em devolver rosto e humanidade àquilo que tantas vezes preferimos não ver. As suas figuras interrogam-nos silenciosamente e obrigam-nos a tomar posição perante aquilo que observamos. Não há aqui neutralidade possível. O visitante é chamado a participar, a reconhecer-se naquele vasto cortejo de seres híbridos, vulneráveis e excessivos que povoam as superfícies. Nesse sentido, “Tumulto” afirma-se como uma exposição profundamente política, não no sentido partidário do termo, mas enquanto exercício de consciência e de responsabilidade colectiva. A arte surge como espaço de resistência contra a anestesia moral do presente e como instrumento de reflexão sobre aquilo que nos une enquanto comunidade humana. Ao sair da exposição, permanece a sensação de termos atravessado um território povoado por sombras e sobressaltos, mas onde subsiste, ainda assim, uma obstinada confiança na empatia, na solidariedade e na capacidade do ser humano para encontrar serenidade no centro do próprio caos.

terça-feira, 23 de junho de 2026

TEATRO: "O Beijo no Asfalto" | Nélson Rodrigues



TEATRO: “O Beijo no Asfalto”,
de Nélson Rodrigues
Encenação | Tónan Quito
Cenografia | José Capela
Figurinos | Elisabete Leão
Interpretação | Allex Miranda, Bárbara Meirelles, Beto Coville, Dai Ida, Gabriel Delfino Marques, Genário Neto, Joyce Souza, Julia Prado, Luciano Luz. Participação especial de Santa Barba (Paulo Pinto)
Produção | Teatro Nacional São João
105 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Nacional São João
21 Jun 2026 | dom | 16:00


Arandir, um homem comum, acede ao pedido de um desconhecido atropelado por um autocarro em hora de ponta e beija-o na boca nos instantes finais da sua vida. Aquilo que poderia ser entendido como um acto de misericórdia transforma-se, porém, num escândalo público. A partir desse momento, a peça acompanha a destruição progressiva do protagonista, vítima de uma máquina social alimentada pela suspeita, pelo preconceito e pela necessidade de encontrar significados ocultos onde talvez exista apenas humanidade. Inspirada num episódio real que marcou profundamente o dramaturgo, a obra desloca rapidamente o foco do acontecimento para as narrativas que se constroem à sua volta. O beijo deixa de pertencer aos seus intervenientes e passa a ser propriedade da imprensa, da polícia, da vizinhança e da própria família. O que está em causa não é apenas um facto, mas a disputa pelo seu sentido, numa sucessão de versões, rumores e interpretações que tornam impossível o acesso a uma verdade definitiva.

Estreada em 1961, numa sociedade profundamente conservadora e moralista, a peça tocou num nervo exposto do Brasil urbano. Mais do que uma preocupação política, as reacções exaltadas que suscitou foram reveladoras de um incómodo moral perante a hipótese de intimidade entre dois homens. Contudo, reduzir “O Beijo no Asfalto” a uma peça sobre homossexualidade seria empobrecer a sua ambição dramática. O texto expõe uma sociedade obcecada pela vigilância da vida privada, com o desejo, a culpa, o ressentimento e a repressão a circularem por detrás das fachadas da respeitabilidade. A tragédia de Arandir nasce tanto da homofobia latente como da incapacidade colectiva de aceitar a complexidade dos afectos humanos. Nelson Rodrigues mostra a sua faceta de observador implacável das paixões escondidas e dos mecanismos sociais que transformam fragilidades íntimas em instrumentos de condenação pública. O amor impossível de Aprígio, o ciúme, a humilhação e o medo da revelação, inscrevem-se numa geografia emocional onde cada personagem se vê a braços com os seus próprios fantasmas.

A extraordinária actualidade da peça decorre sobretudo da reflexão sobre o poder dos discursos públicos. O verdadeiro motor da tragédia é a aliança entre uma imprensa sensacionalista e uma autoridade policial disposta a fabricar factos para servir os seus próprios interesses. O beijo converte-se numa manchete; a manchete converte-se em verdade; e a verdade passa a valer mais do que os acontecimentos que lhe deram origem. Muito antes da era das redes sociais, Nelson Rodrigues descreve com notável lucidez os mecanismos de amplificação da suspeita, da difamação e do julgamento colectivo. O que a peça mostra é uma sociedade onde os boatos circulam mais depressa do que os factos e onde a reputação de um indivíduo pode ser destruída pela mentira, transformada em verdade à custa da sua repetição incessante. Nesse sentido, “O Beijo no Asfalto” revela-se de uma contemporaneidade inquietante. A crítica ao moralismo, à manipulação mediática e à fabricação de narrativas continua a encontrar eco num presente em que a exposição pública e a condenação sumária são marcas do quotidiano.

A encenação de Tónan Quito compreende plenamente essa modernidade sem abdicar da dimensão trágica e passional do universo rodrigueano. Evitando leituras simplificadoras ou meramente ilustrativas, a peça sublinha a ambiguidade das personagens e a permanente tensão entre verdade e representação (o enunciado das didascálias é maravilhoso). O trabalho do elenco brasileiro revela-se notável pela intensidade emocional, pelo rigor do ritmo e pela capacidade de fazer emergir tanto a violência como a vulnerabilidade inscritas no texto. As interpretações conferem espessura humana a figuras que poderiam facilmente resvalar para a caricatura, tornando palpável o sofrimento, o desejo e a solidão que as movem. Ao mesmo tempo, a encenação encontra um equilíbrio feliz entre a especificidade histórica da obra e a sua ressonância contemporânea, permitindo que o público reconheça no Brasil dos anos sessenta inquietações que permanecem actuais. O resultado é um espectáculo de grande força, que honra a complexidade da escrita de Nelson Rodrigues e confirma a vitalidade duradoura desta obra-prima do teatro brasileiro.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

CONCERTO: Raquel Tavares



CONCERTO: Raquel Tavares
Com | Raquel Tavares (voz), Pedro Viana (guitarra portuguesa), Bernardo Viana (viola de fado), Fernando Araújo (viola baixo)
Auditório Municipal de Gondomar
20 Jun 2026 | sab | 21:30


Cinco anos após ter interrompido o seu percurso discográfico e de palco enquanto fadista, Raquel Tavares regressou ao Fado com a convicção de quem nunca verdadeiramente dele se afastou. No Auditório de Gondomar, perante uma sala cheia e manifestamente predisposta a acolher este reencontro, a cantora apresentou-se com uma segurança artística desarmante, fazendo da noite uma homenagem ao Fado e às suas maiores referências, mas também um momento de catarse, emotivo e inspirador. O espectáculo abriu de forma particularmente feliz com “Lisboa”, ainda de cortinas fechadas, deixando que a voz surgisse antes da figura e que versos como “Vejo do cais mil janelas / da minha velha Lisboa” desenhassem, na imaginação do público, a geografia sentimental da capital fadista. Quando o palco finalmente se revelou, já Raquel Tavares tinha conquistado a plateia. Ao longo da noite, foi alternando temas emblemáticos do seu repertório, como “Zanguei-me com o Meu Amor”, “A Janela do Meu Peito” ou “Fama de Alfama”, com momentos de partilha pessoal que ajudaram a contextualizar o seu percurso. Fê-lo sempre com uma humildade rara em artistas da sua dimensão, evocando as suas origens nos “tascos” e “botecos” de Lisboa e levando os espectadores de Gondomar numa viagem às colectividades e casas de fado de Alfama. “Não há público como o do Norte”, afirmou, arrancando uma das muitas ovações da noite. E percebeu-se que não era uma frase feita: havia uma cumplicidade genuína entre artista e audiência, alimentada por uma comunicação espontânea e por uma presença em palco de enorme intensidade.

Um dos aspectos mais interessantes do concerto centrou-se na forma como Raquel Tavares transformou o espectáculo numa evocação da sua própria história. Falar na vitória na Grande Noite do Fado, aos doze anos de idade, foi uma forma de lembrar as raízes de uma carreira construída desde muito cedo. Particularmente emocionante foi a recuperação de “Olhos Garotos”, fado gravado numa cassete de 1997 e posteriormente incluído no seu álbum de estreia, em 2006. A audição de excertos dessas diferentes etapas constituiu um dos momentos mais reveladores da noite, permitindo observar a evolução de uma voz que soube manter intacta a sua identidade expressiva. Acompanhada com rigor e sensibilidade por Pedro Viana, na guitarra portuguesa, Bernardo Viana, na viola de fado, e Fernando Araújo, na viola baixo, a fadista prestou igualmente homenagem a algumas das maiores figuras da história do género, de Amália Rodrigues a Alfredo Marceneiro, de Lucília e Carlos do Carmo a Ada de Castro, Anita Guerreiro e Fernanda Maria, reservando uma especial reverência para Beatriz da Conceição. Foi igualmente nesse contexto que ganhou particular significado a apresentação dos temas que compõem “Deles Por Mim (e à antiga)”, um disco assumidamente tradicional, gravado ao vivo em estúdio e centrado numa ideia tão simples quanto ousada: uma mulher interpretar poesia originalmente escrita para vozes masculinas. Em “Ai Se os Meus Olhos Falassem”, “O Amor é Água que Corre” ou “Pontas Soltas”, Raquel Tavares não se limitou a revisitar clássicos; reinterpretou-os à luz da sua personalidade artística, revelando novas leituras e novas ironias, particularmente evidentes na mordaz “Mulher Deixada”.

Foi já na recta final que o concerto atingiu uma dimensão verdadeiramente memorável. Em “Fado da Ironia”, Raquel Tavares confrontou directamente os anos de ausência, transformando em arte as dúvidas e comentários que acompanharam a sua pausa. Os versos “Olhem só, eu não morri / eu só fiz mesmo uma pausa” soaram como uma declaração de princípios e um ajuste de contas sereno com quem apressadamente decretara o fim do seu percurso fadista. A resposta do público foi imediata e calorosa, preparando o caminho para uma interpretação arrebatadora de “Meu Amor de Longe”, recebida como um dos grandes momentos da noite. A sensação que ficou foi a de um regresso pleno, sem necessidade de proclamações grandiosas, sustentado apenas pela evidência do talento e da maturidade artística. Num muito reclamado “encore”, e num registo mais festivo, a marcha “São João Bonito” colocou toda a sala de pé, numa celebração colectiva dos Santos Populares a unir palco e plateia num mesmo coro. Entre balões imaginários e refrões populares, encerrava-se uma noite que teve tanto de reencontro como de afirmação. Raquel Tavares regressou ao fado sem procurar reinventá-lo nem reinventar-se. Fê-lo, como o título do seu novo disco sugere, “à antiga”: com verdade, com respeito pela tradição e com a consciência de que, no fado, a autenticidade continua a ser o valor mais difícil de imitar. Em Gondomar, ficou a prova de que a pausa terminou, mas a voz permaneceu intacta.

domingo, 21 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Celebrar o Douro, Sempre" | Emerenciano



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Celebrar o Douro, Sempre”,
de Emerenciano
Biblioteca Municipal de Ovar
05 Mai > 04 Jul 2026


O vinho é de moscatel, alvarelhão, penaguiota, malvasia fina, e mana das fragas à ordem de vozes imperiosas como a de Moisés quando feria a pedra de Horeb - a vara mágica do patriarca substituida agora por um alvião de saibramento.
Miguel Torga

“Celebrar o Douro, Sempre – 20 Escritores / 20 Anos do Douro Património da Humanidade”, conjunto de trabalhos do artista plástico Emerenciano, é um exercício de memória cultural que procura revisitar a identidade de uma região através daqueles que a escreveram, interpretaram e eternizaram na literatura. Nascido de uma iniciativa conjunta da Associação dos Amigos do Museu do Douro, do Museu do Douro e da Tertúlia João de Araújo Correia, o projecto reúne vinte escritores cuja obra permanece indissociável da paisagem humana e física do Alto Douro Vinhateiro. A iniciativa encontra em Emerenciano Rodrigues o intérprete visual desta galeria literária, propondo uma leitura que ultrapassa a simples representação fisionómica. Os retratos revelam-se como construções simbólicas onde a figura humana é atravessada por signos, cores e elementos gráficos que remetem para o universo da escrita, entendida pelo artista como uma das mais extraordinárias invenções da humanidade. Cada rosto afirma a singularidade do escritor representado, mas o conjunto adquire uma unidade plástica que transforma a mostra num discurso coerente sobre a criação, a memória e o território. O Douro surge, assim, não apenas como paisagem, mas como matéria narrativa, espaço de trabalho, de sofrimento e de beleza, sucessivamente recriado pela literatura e agora devolvido ao olhar através da pintura.

A presença desta exposição em Ovar reveste-se de um significado particular. Ao longo dos anos, o projecto tem percorrido localidades ligadas afectivamente aos autores seleccionados, encontrando na cidade vareira razões históricas e culturais para integrar esse itinerário. Entre elas destaca-se a relação de João de Araújo Correia com Ovar e a admiração que manifestou pelo seu povo, bem como a defesa que fez da criação da Casa-Museu Júlio Dinis. Mas a ligação entre Ovar e o Douro é ainda mais profunda e antiga. Durante décadas, os vareiros estabeleceram intensas relações comerciais com a região duriense, levando para o interior o peixe que sustentava economias e aproximava comunidades. Essas afinidades ficaram registadas na literatura, na memória colectiva e até na toponímia local, constituindo uma herança comum que a exposição convoca de forma subtil. Ao mesmo tempo, a mostra recorda o papel determinante dos homens e mulheres que moldaram a paisagem duriense ao longo dos séculos, transformando um território agreste numa das mais notáveis paisagens culturais do mundo. Os retratos de autores como Guerra Junqueiro, Miguel Torga, Agustina Bessa-Luís ou José Régio funcionam, neste contexto, como pontos de entrada para uma reflexão mais ampla sobre a capacidade da literatura em preservar a memória dos lugares e sobre a forma como a arte pode reactivar esses legados junto de novos públicos.

Vale também a pena olhar para esta exposição e perceber de que forma se inscreve no percurso artístico de Emerenciano. Licenciado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, o pintor definiu, após o regresso da guerra colonial em Angola, uma linguagem singular baseada na aproximação da pintura à escrita, opção que marcou decisivamente mais de cinco décadas de criação. Tal como noutras séries recentes, também aqui as letras deixam de ser mero complemento visual para se tornarem matéria constitutiva da imagem. A escrita invade os rostos, percorre os espaços do desenho e estabelece uma rede de significados que obriga o observador a ultrapassar a superfície da representação. Esta dimensão conceptual, presente em exposições como “Querer Dizer”, “O Livro” ou “A Verdade Entre Mentiras”, regressa agora ao serviço da literatura duriense. Não se trata apenas de homenagear escritores, mas de questionar os mecanismos através dos quais a palavra se transforma em memória, identidade e património. A pintura de Emerenciano continua a afirmar-se como um território de diálogo entre ver e ler, entre imagem e pensamento, convocando o público para uma experiência que exige atenção e envolvimento. Num tempo marcado pela velocidade e pelo consumo instantâneo das imagens, “Celebrar o Douro, Sempre” propõe precisamente o contrário: uma contemplação demorada, onde arte, literatura e história convergem para recordar que os lugares sobrevivem enquanto houver quem os conte e quem os represente.

sábado, 20 de junho de 2026

LIVRO: "Casa dos Mortos" | Maria José Oliveira



LIVRO: “Casa dos Mortos”,
de Maria José Oliveira
Ed. Edições Tinta-da-china, Abril de 2026


“Procedeu a acareações e a sessões de reconhecimento presencial, pediu diligências judiciais, instaurou autos de corpo de delito directo e indirecto, requereu exames de sanidade e registou lesões corporais visíveis. Constituiu como arguidos ou identificou como ‘presumidos delinquentes’ dezenas de pides, alguns dos quais tinham já abandonado a instituição ou haviam sido deslocados para a ‘metrópole’. Interrogou alguns dos que foram capturados na ‘Operação Zebra’ e ouviu confissões sobre a recorrente prática de torturas nos interrogatórios, mutilações, sobrelotação das cadeias, mortes por asfixia, castigos corporais, fome, ausência de tratamento médico e a memória traumática de um cão esfomeado que durante a noite era introduzido nas celas da subdelegação em Nampula para estropiar os reclusos.”

A descoberta, na Torre do Tombo, da documentação produzida pela Comissão de Apuramento de Responsabilidades do Pessoal da ex-DGS em Moçambique, constitui um relevante acontecimento historiográfico e serve de ponto de partida a “Casa dos Mortos”, conjunto de textos publicados entre Junho e Agosto de 2025 no suplemento dominical P2 do jornal “Público” e reunidos agora em livro. Da autoria da jornalista e investigadora Maria José Oliveira, nele se revela a essência de um arquivo perdido, mas sobretudo a desgraça de um país que preferiu perder a memória. Ao longo de milhares de páginas, militares portugueses recolheram, logo após o 25 de Abril de 1974, depoimentos de vítimas, familiares, testemunhas e até de agentes da polícia política, documentando detenções arbitrárias, desaparecimentos, execuções sumárias, torturas sistemáticas e práticas que hoje caberiam sem dificuldade na definição de crimes contra a Humanidade. O mais perturbador não é apenas a violência descrita, mas o facto de esta investigação ter permanecido praticamente invisível durante meio século. Enquanto Portugal cultivava uma narrativa benevolente do seu passado ultramarino, estes documentos permaneciam encerrados em caixas poeirentas, como se o esquecimento fosse uma forma de absolvição. O livro de Maria José Oliveira vem romper esse silêncio e confrontar-nos com uma evidência que nos deve envergonhar a todos: a repressão colonial não foi um acidente marginal nem um excesso episódico da guerra; foi uma estrutura organizada de dominação, sustentada por instituições do Estado português.

A actualidade destas revelações torna-se ainda mais evidente quando confrontada com os resultados da recente sondagem da Universidade Católica para a Renascença. Segundo o estudo, a maioria dos portugueses considera que Portugal não deve apresentar um pedido oficial de desculpas pela colonização. A conclusão é reveladora não apenas de uma posição política, mas sobretudo de um défice de conhecimento histórico. Como pode uma sociedade recusar um gesto de reconhecimento quando desconhece a dimensão dos factos que o fundamentam? A leitura do trabalho de Maria José Oliveira desmonta muitas das narrativas auto-indulgentes que persistem no espaço público português. Os testemunhos recolhidos em 1974 descrevem queimaduras, mutilações, afogamentos simulados, fome deliberada, violações, espancamentos e assassinatos cometidos sob autoridade colonial. Não estamos aqui perante interpretações ideológicas ou revisões retrospectivas: trata-se de documentação produzida por oficiais portugueses, poucos meses depois da queda da ditadura. Perante este património probatório, a recusa de um pedido de desculpas deixa de poder ser interpretada como simples divergência de opinião. Surge antes como sintoma de uma amnésia colectiva alimentada durante décadas por uma pedagogia nacional incapaz de encarar o lado mais sombrio do império.

As consequências desse esquecimento não pertencem apenas ao passado. Em Moçambique, como noutros antigos territórios colonizados, as feridas da violência portuguesa permanecem inscritas na memória individual, familiar e comunitária. Muitas das vítimas identificadas pela comissão procuravam apenas saber onde tinham sido enterrados os seus pais, irmãos ou filhos. Outras carregavam no corpo marcas permanentes das torturas sofridas. A ausência de justiça, a destruição deliberada de arquivos e o desaparecimento de inúmeros responsáveis impediram qualquer processo efectivo de reparação moral ou jurídica. É neste contexto que a questão do pedido de desculpas deve ser colocada. Não como um exercício simbólico destinado a satisfazer modas contemporâneas, mas como um acto mínimo de responsabilidade histórica. Nenhum pedido apagará os crimes documentados em “Casa dos Mortos”, mas a sua ausência prolonga uma negação que continua a contaminar as relações de Portugal com as suas antigas colónias. Enquanto o país colonizador insistir em recordar apenas as glórias da expansão e ignorar os mecanismos de opressão que a sustentaram, dificilmente poderá exigir que os outros esqueçam aquilo que sofreram.

Enfim, é tempo de prestar o devido tributo ao trabalho de Maria José Oliveira por trazer à luz do dia as vozes das vítimas, procurando amplificá-las como forma possível de lhes fazer justiça. O livro divide-se em sete capítulos que mostram uma máquina repressiva que prendeu, torturou, matou e fez desaparecer cidadãos moçambicanos em nome da preservação de uma ordem colonial condenada pela História. Ao longo das pouco mais de centena e meia de páginas, a autora foca-se na organização do material que lhe veio parar às mãos, levando o leitor numa espécie de viagem aos territórios do terror, de Nampula à Beira, da Machava à ilha do Ibo. É impossível ficar-se indiferente à dimensão dos factos, da mesma forma que é impossível não nos indignarmos perante a crueldade dos actos. E volto à questão inicial. Perante estas evidências, a discussão já não deveria centrar-se em saber se Portugal deve ou não pedir desculpa. A verdadeira questão é outra: como é possível que, conhecendo-se tão pouco do que aconteceu, ainda haja quem considere dispensável esse gesto elementar de reconhecimento? O problema não reside no excesso de memória, mas na sua persistente insuficiência. Porque implica abandonar definitivamente o conforto do mito lusotropical e aceitar que o colonialismo português não foi mais humano nem mais benigno do que outros projectos imperiais. As páginas de “Casa dos Mortos” mostram precisamente isso.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

LUGARES: Sinagoga del Agua



LUGARES: Sinagoga del Agua
Calle Roque Rojas, 2 - Úbeda (Jaén)
Horários | Todos os dias, das 10:30 às 13:30 e das 17:00 às 19:15
Ingressos | € 6,00, bilhete normal


No coração do centro histórico de Úbeda, cidade andaluza Património Mundial da UNESCO, encontra-se um dos espaços mais surpreendentes da herança judaica espanhola: a Sinagoga da Água. A sua descoberta, em 2007, ocorreu de forma completamente fortuita, quando o empresário Fernando Crespo iniciou obras de reabilitação em vários imóveis antigos com o objectivo de os transformar em apartamentos, lojas e parques de estacionamento. À medida que os trabalhos avançavam, começaram a surgir elementos arquitectónicos inesperados: arcos medievais ocultos por paredes posteriores, uma galeria feminina, poços de água e um banho ritual judaico. Perante a importância do achado, o projecto imobiliário foi abandonado e deu lugar a um cuidadoso processo de recuperação patrimonial. Desde 2010, o conjunto está aberto ao público, atraindo visitantes de todo o mundo. Embora alguns especialistas continuem a discutir a classificação definitiva do monumento, muitos dos elementos identificados correspondem claramente à tipologia das sinagogas medievais da Península Ibérica. O ambiente convida a imaginar a intensa vida comunitária que aqui decorreu antes da expulsão dos judeus em 1492. As sucessivas ocupações cristãs e muçulmanas deixaram igualmente marcas visíveis, criando um espaço onde diferentes épocas e culturas dialogam entre si. Cada detalhe parece revelar uma nova camada da história de Úbeda, cidade que durante séculos guardou este património quase em segredo.

A visita começa na chamada Sala do Inquisidor, um espaço cujo nome evoca uma das maiores ironias da história local: numa das fachadas vizinhas conserva-se ainda o brasão do Santo Ofício, instituição responsável pela perseguição dos judeus após a sua expulsão dos reinos espanhóis. Este primeiro compartimento, juntamente com o pátio, a adega e os fornos, poderá ter integrado a antiga residência do rabino da comunidade. Prosseguindo o percurso, o visitante alcança o pátio central, verdadeiro eixo de distribuição de todo o complexo. Aqui destacam-se duas colunas originais perfeitamente preservadas, ornamentadas com motivos vegetais que recordam a palmeira ou Árvore da Vida, uma das imagens mais recorrentes na simbologia judaica. Nos capitéis surgem alusões à Menorá, o candelabro de sete braços que constitui um dos símbolos mais antigos do Judaísmo. É também neste espaço que se encontra a chamada Porta da Alma, acesso principal à área de cultos. Parte dos seus elementos — colunas, degraus e segmentos do arco — são originais, enquanto outros tiveram de ser reconstruídos após a localização das peças dispersas em paredes erguidas durante séculos de transformações arquitectónicas. Sobre o arco sobressai uma estrela de David esculpida em pedra, reforçando a identidade do lugar.

A partir da Porta da Alma entra-se na grande sala sinagogal, organizada em três naves separadas por arcos ogivais originais que permaneceram escondidos durante séculos no interior das habitações construídas posteriormente. O espaço apresenta a sobriedade característica das sinagogas medievais espanholas, concebidas não apenas para a oração, mas também para o estudo, a administração da comunidade e a resolução de questões jurídicas sob orientação do rabino e dos anciãos. Um dos elementos mais interessantes encontra-se na parte superior de uma das naves: a Galeria das Mulheres. Sustentada por quatro colunas originais e parcialmente oculta por portadas de madeira, era o local reservado às mulheres durante as cerimónias religiosas. O tecto de madeira pintada conserva ainda vestígios da decoração antiga, contribuindo para a atmosfera de recolhimento que caracteriza o conjunto. Ao longo do percurso surgem diversos poços, num total de sete, testemunhando a importância da presença de água subterrânea na concepção do edifício. Dois deles conservam ainda água e os seus rebordos originais. Os guias costumam chamar a atenção para esta relação entre arquitectura e recursos hídricos, um aspecto fundamental na tradição judaica, onde a água assume um papel central nos rituais de purificação e renovação espiritual.

O ponto culminante da visita encontra-se no Mikveh, o banho ritual de purificação, acessível através de um estreito corredor escavado na rocha. Escondido sob aquilo que durante muito tempo se julgou ser apenas uma antiga adega, este espaço revela uma das descobertas mais impressionantes de todo o complexo. Coberto por uma discreta abóbada de pedra, o Mikveh possui uma escadaria talhada directamente na rocha que conduz a uma nascente de água natural, corrente e permanente, condição indispensável para a validade ritual deste tipo de edifícios. Homens e mulheres utilizavam este banho em momentos específicos da vida religiosa, desde a preparação para festividades até acontecimentos familiares marcantes. A visita prossegue depois pela adega e pelos fornos, onde ainda se observam grandes recipientes semi-enterrados destinados ao armazenamento de azeite, vinho kosher e outros alimentos. Os vestígios da antiga cozinha sugerem a preparação de pão ázimo e a conservação de refeições para o Shabbat. O percurso termina numa pequena exposição de objectos ligados ao culto judaico, entre os quais réplicas da Torá, Menorás, mezuzot e outros símbolos da tradição hebraica. Mais do que um monumento, a Sinagoga da Água oferece uma viagem à memória de uma comunidade desaparecida, permitindo compreender uma dimensão muitas vezes esquecida da história cultural da Andaluzia.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: “Kerygma. El arte de evangelizar”



EXPOSIÇÃO: “Kerygma. El arte de evangelizar”
Arte Sacra Devocional
Catedral de Granada
08 Mai > 28 Nov 2026


Na monumentalidade renascentista da Catedral de Granada, “Kerygma. El arte de evangelizar” apresenta-se como um dos mais ambiciosos exercícios de valorização do património religioso andaluz das últimas décadas. Integrada nas comemorações do centenário da Real Federação de Irmandades e Confrarias de Granada, a mostra reúne mais de uma centena de peças entre escultura, pintura, ourivesaria, têxteis e documentação histórica, propondo um percurso que atravessa cinco séculos de cultura e devoção. O visitante inicia a viagem nos capítulos “Origens” e “Irmandades Passionistas e Vias Sacras”, ao longo dos quais se procura demonstrar que a Semana Santa granadina não é uma tradição tardia nem periférica, mas um fenómeno cujas raízes mergulham nos finais do século XV e nos alvores da modernidade espanhola. Aqui, a exposição cumpre eficazmente o seu propósito pedagógico, relacionando a organização das primeiras confrarias penitenciais com a construção de uma identidade urbana profundamente marcada pela Reconquista e pela afirmação do catolicismo tridentino. A narrativa tende a privilegiar uma leitura celebratória das origens, relegando para segundo plano as tensões sociais, políticas e religiosas que moldaram o surgimento destas associações. Ainda assim, a qualidade das obras reunidas, muitas delas raramente acessíveis ao público por se encontrarem em clausura ou fora dos circuitos museológicos, permite compreender como a devoção foi também um poderoso instrumento de representação colectiva, capaz de transformar imagens de culto em autênticos símbolos de pertença comunitária.

O percurso ganha densidade estética nos capítulos dedicados à dinastia dos Mora e à “Religiosidade Barroca”, verdadeiro núcleo conceptual da exposição. Se o barroco andaluz constituiu uma linguagem artística destinada a emocionar, persuadir e evangelizar através dos sentidos, poucas escolas o materializaram de forma tão intensa como a granadina. José de Mora, Diego de Mora e os seus continuadores surgem aqui como protagonistas de uma revolução visual que fez da escultura religiosa um veículo privilegiado de experiência espiritual. A reunião de imagens dispersas por igrejas, conventos e confrarias permite observar, num mesmo espaço, a extraordinária capacidade destes mestres para fundir dramatismo, elegância e intimidade. Rostos marcados pela dor contida, olhares suspensos entre o humano e o divino e uma delicada teatralidade formal revelam a singularidade da escola granadina perante outras correntes barrocas da Península. E mesmo que o discurso expositivo pareça assumir que a excelência artística decorre da sua função devocional, são muitas as obras que possuem autonomia estética suficiente para serem apreciadas para além do contexto religioso. Essa ambiguidade atravessa toda a exposição: entre museu e templo, entre contemplação artística e veneração, “Kerygma” prefere frequentemente a segunda hipótese, transformando a emoção espiritual no principal critério de interpretação.

Os capítulos “Ressurgir” e “Influências” procuram demonstrar como esta tradição sobreviveu às crises históricas, às transformações sociais e às mudanças de gosto artístico. A intenção é meritória, sobretudo ao evidenciar os processos de conservação patrimonial e os diálogos permanentes entre Granada e outros centros criativos da Andaluzia. O visitante percebe que a Semana Santa não constitui um legado cristalizado, mas uma realidade em contínua reinvenção, alimentada por sucessivas gerações de escultores, douradores, bordadores e confrades. Ainda que indirectamente, a abordagem questiona as implicações dessa constante reconstrução da memória, apresentando a continuidade como um valor absoluto. A selecção de peças e testemunhos privilegia uma narrativa linear de sobrevivência e esplendor, furtando-se a discutir rupturas, desaparecimentos ou conflitos patrimoniais que igualmente marcaram a história das confrarias. Ainda assim, a secção evidencia de forma convincente a capacidade das irmandades para se adaptarem aos tempos sem perderem a sua função agregadora. Mais do que simples guardiãs de objectos artísticos, estas instituições surgem como agentes activos na preservação de um imaginário colectivo que continua a moldar a paisagem cultural e religiosa andaluza.

A recta final, composta por “Miscelânea” e pelo capítulo dedicado ao Altar Itinerante e ao centenário federativo, funciona como síntese e celebração. Reunindo alfaias litúrgicas, bordados, peças de ourivesaria e documentos históricos, a penúltima secção oferece um olhar mais amplo sobre os elementos que sustentam o universo visual das confrarias para além da escultura. Já o encerramento assume sem reservas um carácter comemorativo, transformando a exposição numa homenagem institucional à Federação granadina e ao papel desempenhado pelas irmandades ao longo de um século. É neste ponto que “Kerygma” revela de forma mais evidente a sua dupla natureza. Por um lado, constitui uma operação patrimonial de enorme relevância, reunindo obras de valor excepcional e proporcionando leituras inéditas sobre a história artística de Granada. Por outro, nunca abandona a intenção catequética inscrita no próprio título, concebendo a arte como instrumento de evangelização e testemunho de fé. Esta opção pode revelar-se limitadora de algumas possibilidades de interpretação crítica, mas não diminui o impacto visual e emocional do conjunto. Entre a exposição de arte e o manifesto identitário, “Kerygma” confirma a vitalidade de uma tradição que continua a encontrar no barroco andaluz a sua expressão mais poderosa, recordando que, em Granada, a história da arte e a história da devoção permanecem indissociáveis.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

CINEMA: “Dois Procuradores” | Sergei Loznitsa



CINEMA: “Dois Procuradores” / “Zwei Staatsanwälte”
Realização | Sergei Loznitsa
Argumento | Georgy Demidov, Sergei Loznitsa
Fotografia | Oleg Mutu
Montagem | Danielius Kokanauskis
Interpretação | Alexander Kuznetsov, Ivgeny Terletsky, Timur Ibragimov, Gatis Rubins, Uldis Valteris, Ihor Cherniak, Andris Keiss, Vytautas Kaniusonis, Vygandas Vadeiša, Orest Pasko, Andrejs Zeiliss, Arturs Saldnieks, Aleksandr Filippenko, Laimonis Grincevics
Produção | Kevin Chneiweiss
França, Alemanha, Países Baixos, Letónia, Roménia, Lituânia, Ucrânia | 2025 | Drama, História, Thriller, Crime | 118 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida - Sala 8
14 Jun 2025 | dom | 19:05


Sergei Loznitsa regressa à ficção com Dois Promotores, adaptação de um romance de Georgy Demidov, físico soviético e sobrevivente do Gulag, para revisitar um dos períodos mais sombrios da história soviética: a Grande Purga de 1937, também conhecido como “Grande Terror”. A premissa não poderia ser mais simples. Alexander Kornev, jovem procurador recém-nomeado e movido por um idealismo quase ingénuo, entra na posse de uma carta escrita com sangue por um prisioneiro político que denuncia torturas e uma condenação forjada. O encontro com o velho bolchevique Stepniak desencadeia uma investigação que rapidamente se transforma numa viagem ao coração de um sistema concebido não para produzir justiça, mas para impedir que ela aconteça. Sergei Loznitsa afasta-se deliberadamente dos mecanismos convencionais do “thriller” político e constrói uma anatomia da opressão burocrática, onde cada corredor, cada gabinete e cada procedimento funcionam como instrumentos de uma violência psicológica indizível. O realizador interessa-se menos pelos excessos espectaculares do terror estalinista do que pela sua normalização administrativa, pela forma como o mal se instala na rotina e se esconde atrás de carimbos, regulamentos e esperas intermináveis.

A extraordinária força do filme reside na recusa do dramatismo fácil. Construído através de uma sucessão de conversas longas, filmadas com rigor geométrico e uma contenção quase ascética, “Dois Promotores” cria uma atmosfera de inquietação permanente. A composição dos enquadramentos, o formato quase quadrado da imagem (num rácio de 1,37:1), a paleta de cinzentos desbotados e o ritmo deliberadamente lento contribuem para uma sensação de clausura que se vive e sente. Kornev atravessa repartições, salas de espera e corredores como se percorresse um labirinto kafkiano onde cada porta aberta conduz a um novo impasse. Numa das sequências mais memoráveis, o protagonista permanece horas à espera de uma audiência enquanto o espaço à sua volta se esvazia lentamente, num exemplo perfeito da forma como Loznitsa transforma a passagem do tempo numa arma de desgaste. O realizador demonstra uma enorme confiança no poder da observação, preferindo sugerir a brutalidade em vez de a exibir. Mesmo os relatos de tortura ou as intimidações silenciosas dos guardas prisionais adquirem maior força precisamente porque nunca são explorados como espectáculo.

Mais do que uma reconstituição histórica, “Dois Promotores” impõe-se como uma reflexão perturbadora sobre os mecanismos universais do autoritarismo. A trajectória de Kornev é a de um homem que acredita nas instituições e que descobre, demasiado tarde, que estas foram capturadas por uma lógica de poder impermeável à verdade. A sua fé no Partido, na legalidade e na possibilidade de corrigir injustiças através dos canais oficiais revela-se uma ilusão cuidadosamente alimentada pelo próprio sistema. Loznitsa filma esse desmoronamento moral com uma precisão glacial, recusando qualquer sentimentalismo e mantendo o espectador preso à mesma impotência que aprisiona a personagem. Se por vezes o rigor formal ameaça transformar-se em monotonia, essa opção parece inseparável do projecto do filme: fazer sentir o peso esmagador de uma máquina estatal cuja eficácia depende precisamente da repetição, da exaustão e da resignação. O resultado é uma obra austera, exigente e profundamente inquietante, que recorda não apenas os horrores do passado soviético, mas também a facilidade com que qualquer sociedade pode aprender a conviver com a injustiça quando esta se apresenta sob a aparência da normalidade.

terça-feira, 16 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: Conjunto escultórico religioso em bronze | Venancio Blanco



EXPOSIÇÃO: Conjunto escultórico religioso em bronze,
de Venancio Blanco
Abadia del Sacromonte, Granada
Exposição permanente


A exposição permanente da obra religiosa de Venâncio Blanco na Abadia del Sacromonte, em Granada, constitui um feliz encontro entre escultura, arquitectura e espiritualidade. O visitante chega ao Pátio do Sagrado Coração e é imediatamente envolvido por uma atmosfera de serenidade que parece suspender o ritmo do mundo exterior. Não se trata apenas de um conjunto de esculturas colocadas num espaço histórico, mas de uma verdadeira experiência de contemplação, onde a pedra, o verde e o silêncio entram em diálogo com o bronze. A escolha deste lugar para acolher a colecção religiosa do escultor salmantino revela-se particularmente acertada, uma vez que a obra de Venâncio Blanco carece de espaço, de luz e de ar para manifestar plenamente a sua dimensão espiritual. O percurso que conduz o visitante às Santas Covas transforma-se numa espécie de peregrinação artística, pontuada por figuras que surgem quase naturalmente na paisagem. Desde o expressivo São Sebastião, surpreendido no instante do martírio mas envolto numa estranha alegria que recorda um movimento coreográfico, até às representações de São João da Cruz e Santa Teresa de Jesus, tudo contribui para uma sensação de harmonia entre o gesto escultórico e o lugar que o acolhe.

O grande mérito de Venâncio Blanco reside na extraordinária capacidade de conferir vida ao bronze. Poucos escultores contemporâneos alcançaram semelhante domínio da expressividade humana, transformando um material naturalmente pesado em formas dotadas de movimento, leveza e emoção. Esse talento torna-se particularmente evidente nas obras de maiores dimensões presentes no jardim da Abadia. A Santa Ceia impressiona, antes de mais, pela sua escala monumental, mas é na individualização das personagens que revela toda a sua força. Cada apóstolo reage de forma distinta ao gesto de Cristo repartindo o pão, compondo uma narrativa visual rica em tensão psicológica e humanidade. Em frente, a Pietà estabelece um diálogo silencioso com aquele conjunto escultórico, oferecendo um dos momentos mais comoventes da exposição. A figura de Maria sustenta o corpo morto do Filho sem qualquer teatralidade excessiva; pelo contrário, a composição sugere uma delicadeza tocante, como se a matéria se preparasse para abandonar o peso da morte e anunciar a ressurreição. Esta capacidade de fundir realismo e transcendência atravessa toda a mostra. As figuras possuem anatomias credíveis, gestos naturais e expressões profundamente humanas, mas nunca se esgotam na mera reprodução do real. Há nelas uma energia interior que as afasta do academismo e lhes confere uma presença rara, capaz de despertar simultaneamente admiração estética e recolhimento espiritual.

Essa mesma qualidade encontra a sua culminação no interior do edifício adjacente ao pátio, onde o visitante é confrontado com um impressionante Calvário que sintetiza muitas das virtudes da linguagem escultórica de Venâncio Blanco. A cena afasta-se das representações convencionais ao introduzir uma subtil narrativa dramática: enquanto o bom ladrão fixa Cristo após a promessa da salvação, Jesus inclina a cabeça na direcção do ladrão rebelde, num derradeiro gesto de misericórdia. É um detalhe de enorme elegância plástica e inteligência teológica, demonstrando a capacidade do escultor em interpretar os temas religiosos em vez de apenas os ilustrar. Também as homenagens musicais da escadaria, inspiradas na grande tradição barroca e evocando Bach, Händel e Mozart, revelam a amplitude do seu universo criativo, onde a música, a fé e a experiência humana convergem numa mesma visão poética. Num tempo em que grande parte da arte contemporânea parece afastar-se deliberadamente da emoção e da narrativa, a obra de Venâncio Blanco recorda que a excelência técnica e a profundidade espiritual continuam a constituir caminhos legítimos para a criação artística. A exposição permanente da Abadia del Sacromonte confirma-o de forma exemplar, oferecendo ao visitante não apenas um percurso escultórico de elevada qualidade, mas uma rara oportunidade de experimentar a beleza como forma de conhecimento e de transcendência.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

LUGARES: Museu Arqueológico de Córdoba



LUGARES: Museu Arqueológico de Córdoba
Plaza de Jerónimo Páez, 14003
Horários | De terça-feira a domingo, das 09:00 às 21:00
Ingressos | Grátis (residentes UE); € 1,50 (não residentes UE)


Córdoba é uma cidade onde a História se sedimentou em camadas sucessivas e nas quais se reconhecem as suas marcas identitárias. Fundada pelos Romanos e convertida em importante capital da Hispânia Bética, conheceu um período de extraordinário esplendor durante o domínio islâmico, quando se transformou na capital do Califado Omíada do Al-Andalus e num dos maiores centros culturais da Europa medieval. Judeus, muçulmanos e cristãos partilharam, ao longo de séculos, o mesmo espaço urbano, nem sempre em circunstâncias pacíficas, mas contribuindo decisivamente para a riqueza intelectual, artística e arquitectónica da cidade. A antiga judiaria, a Mesquita-Catedral e os numerosos vestígios arqueológicos espalhados pelo centro histórico testemunham esse encontro de culturas que moldou a personalidade cordobesa. É precisamente neste contexto que o Museu Arqueológico de Córdoba se afirma como uma das instituições mais relevantes para compreender a evolução da cidade. Instalado no palácio de estilo renascentista dos Páez de Castillejo e num edifício contíguo, o museu reúne um acervo que percorre vários milénios de ocupação humana, permitindo ao visitante acompanhar a transformação de Córdoba desde os primeiros povoamentos até à época moderna.

Ao longo de três pátios e oito salas, a visita reveste-se de uma viagem cronológica que revela a complexidade de uma urbe construída sobre as heranças de diferentes civilizações. Nos pisos superiores, a exposição permanente conduz o visitante através das sucessivas culturas que habitaram a região. As primeiras salas apresentam materiais pré-históricos e proto-históricos, incluindo utensílios líticos, cerâmicas e objectos provenientes de povoados que antecederam a chegada de Roma. Seguem-se as colecções ibéricas e romanas, núcleo central do museu e um dos mais importantes da Andaluzia. Entre as peças de maior relevo destacam-se esculturas monumentais, inscrições epigráficas, mosaicos e elementos arquitectónicos que ilustram a importância de Córdoba como capital da província Bética. Particular atenção merece a impressionante estátua de mármore representando uma figura feminina togada, bem como os retratos imperiais e os numerosos testemunhos da vida pública e privada da cidade romana. O percurso prossegue com as colecções visigóticas, islâmicas e medievais cristãs, onde se encontram capitéis, relevos, cerâmicas decoradas, moedas e objectos do quotidiano que documentam a continuidade da ocupação urbana. Estas peças permitem compreender de que modo cada civilização reutilizou espaços, materiais e tradições das anteriores, construindo uma memória colectiva que atravessou séculos e que permanece bem visível nas ruas da cidade.

A visita culmina no piso inferior, onde o Museu revela um dos seus tesouros mais notáveis: os vestígios do antigo teatro romano de Córdoba. Descoberta relativamente recente, esta estrutura constitui uma das mais importantes evidências da monumentalidade da cidade durante o período imperial. Integrado no próprio percurso museológico, o espaço arqueológico permite observar parte das fundações e da arquitectura original do edifício, cuja construção remonta ao século I antes de Cristo. Painéis interpretativos e recursos expositivos ajudam a reconstituir a dimensão de um teatro que chegou a figurar entre os maiores da Hispânia romana. Entre muros ancestrais, blocos de pedra e estruturas que permaneceram ocultas durante séculos sob edificações posteriores, o visitante percebe como a cidade contemporânea assenta literalmente sobre as cidades do passado. É uma experiência que ultrapassa a simples contemplação de objectos em vitrinas: aqui, a arqueologia surge como realidade física e tangível, permitindo descer ao subsolo da História. Ao ligar o acervo exposto nas galerias superiores ao contexto urbano que lhe deu origem, o Museu Arqueológico de Córdoba oferece uma leitura coerente e fascinante da evolução da cidade, afirmando-se como paragem indispensável para quem procura compreender a extraordinária herança cultural de uma das mais emblemáticas cidades da Península Ibérica.