CONCERTO: Orquestra Jazz de Matosinhos & Cristina Branco
Direcção musical | Pedro Guedes
Voz | Cristina Branco
Madeiras | José Luís Rego, João Guimarães, Mário Santos, José Pedro Coelho, Rui Teixeira
Trompetes | Luis Macedo, Javi Pereiro, Rogério Ribeiro, João Pedro Dias
Trombones | Daniel Dias, Andreia Santos, Rui Bandeira, Gonçalo Dias
Secção Rítmica | Miguel Meirinhos (piano), Hugo Ferreira (guitarra), Bernardo Moreira (contrabaixo), Gonçalo Ribeiro (bateria)
Azeméis Jazz & Blues 2026
TeMA - Teatro Municipal de Oliveira de Azeméis
23 Out 2026 | sex | 21:30
Se há concertos que ultrapassam largamente as expectativas, este foi um deles. Depois de duas experiências pessoais em tempos recentes no mínimo decepcionantes, Cristina Branco soube transcender-se, surpreendendo o ouvido e arranhando as zonas mais fundas da sensibilidade daqueles que tiveram o privilégio de a escutar. Perante uma plateia que cedo percebeu estar diante de uma proposta musical desafiante e consistente, o encontro da Orquestra de Jazz de Matosinhos com Cristina Branco foi um momento de qualidade artística invulgar e de forte presença empática. Referência incontornável do jazz nacional, a formação matosinhense voltou a demonstrar a excelência de um colectivo que faz da precisão, da inteligência interpretativa e da riqueza tímbrica os alicerces de uma identidade inconfundível. A solidez do conjunto não apagou o brilho individual dos seus músicos, antes o amplificou, oferecendo espaço à expressividade de solistas como Mário Santos, José Luís Rego, José Pedro Coelho, João Guimarães, Hugo Ferreira, Miguel Meirinhos ou Bernardo Moreira. Sobre esta arquitectura sonora, de notável elasticidade e apurado sentido de equilíbrio, ergueram-se os arranjos magistrais de Carlos Azevedo, Luís Figueiredo, Pedro Guedes, José Pedro Coelho e Mário Laginha, capazes de abrir novas paisagens a canções que habitam há muito a memória colectiva. No centro de tudo esteve Cristina Branco e a sua voz límpida, um timbre luminoso, uma maneira de dizer que acolhe a tradição sem se deixar aprisionar por ela, algures entre o fado, a canção portuguesa e a liberdade do jazz. Não se tratou, pois, de um simples encontro de universos, mas de uma convergência feliz de sensibilidades, em que cada elemento encontrou o seu lugar sem abdicar da própria singularidade.
A escolha do repertório conferiu à noite uma espessura particular, convocando sobretudo os cancioneiros de José Afonso e Sérgio Godinho, dois nomes maiores de uma música portuguesa que nunca aceitou reduzir-se à condição de mero entretenimento. De “Senhor Arcanjo” a “Teresa Torga”, de “Carta a Miguel Djéje” a “Com um brilhozinho nos olhos”, passando pela inquietação de “Bomba-relógio” e pela delicadeza de “Espalhem a notícia”, as canções foram-se despindo das suas vestes habituais para ganhar novas dimensões, como se o jazz lhes revelasse significados até então adormecidos. A escrita orquestral não procurou ornamentar o que já era essencial, antes explorar-lhe as nervuras, acentuando tensões, abrindo silêncios e multiplicando cambiantes, sem trair a força das palavras nem a identidade melódica de cada composição. A incursão por “As Mondadeiras”, tema tradicional com arranjo de Mário Laginha, e por “Quando julgas que me amas”, com poema de António Lobo Antunes, ou “Hoje eu canto”, sobre palavras de Maria do Rosário Pereira, alargou ainda mais o horizonte de um alinhamento onde a literatura e a música se reconheceram como formas complementares de interrogar o mundo. Houve, nesta sucessão de canções, uma coerência que ultrapassou a mera justaposição de temas: a de uma cultura musical que não teme o risco, que sabe revisitar a memória sem a transformar em relíquia e que encontra na reinvenção uma forma de fidelidade. Cristina Branco habitou este território com uma naturalidade admirável, sem excessos nem artifícios, encontrando forças na contenção expressiva e fazendo da clareza da sua voz o fio condutor de uma narrativa simultaneamente íntima e colectiva.
Foi, contudo, a meio do concerto, quando Cristina Branco interrompeu por instantes o curso da música para ler um texto que se revelou uma espécie de manifesto, que a noite encontrou uma das suas mais significativas chaves de leitura. Ao lembrar Sophia de Mello Breyner e a poesia como “não aceitação fundamental”, a cantora alargou o sentido do espectáculo para lá da excelência musical, reivindicando a palavra como espaço de resistência e a arte como lugar de encontro contra a indiferença, a opressão e a estreiteza das lógicas que tudo submetem à produtividade e ao lucro. “Os canalhas não simpatizam com poesia”, concluiu, numa frase que dispensa explicações e que pareceu ressoar, retrospectivamente, em cada canção de José Afonso ou Sérgio Godinho, ganhando actualidade nas acampadas do Rossio ou da Praça D. João I. Porque também a música, quando recusa a neutralidade, pode ser uma forma de desassossego, tal como um verso, repetido por muitas vozes, pode transformar-se em gesto de insubmissão. A Orquestra de Jazz de Matosinhos soube dar corpo a essa inquietação sem converter a música em ilustração de uma ideia, preservando-lhe a autonomia estética e fazendo da exuberância instrumental um exercício de escuta e cumplicidade. Cristina Branco, por seu lado, confirmou que a sua voz não vive apenas da beleza do timbre, mas da inteligência com que veste cada palavra e da sensibilidade com que aproxima universos aparentemente distantes. A encerrar a quinta edição do Azeméis Jazz & Blues, este foi um concerto em que a memória de uma grande interpretação ficou no ouvido, mas também a certeza de que a poesia, a canção e o jazz continuam a ser territórios onde a liberdade encontra abrigo. E isso, nos tempos que correm, não é coisa de somenos.



