“Muito relacionada com a observação da contemporaneidade, usando a tela enquanto espaço de anotação e denúncia, Nazaré Álvares age com bravura ainda que toda a sua mensagem tenha que ver que nos sentimos predados, em risco, sucumbindo. Digo bravura porque as suas imagens são fortes, a sua figuração assume o feio e o incompleto, não se adorna para efeitos prazerosos, não há cosmética na sua obra. Tudo é debaixo da máscara. De alguma maneira, tudo é mostrado como por debaixo de todos os disfarces.”
Valter Hugo Mãe
Patente na Casa da Cultura de Paredes até ao próximo dia 13, a exposição “Gravidade e(m) Suspensão” mostra Nazaré Álvares como uma das vozes mais inquietas e insubmissas no actual panorama da pintura portuguesa contemporânea. Reunindo desenho e pintura numa convivência orgânica, a artista regressa a dois núcleos temáticos que têm marcado o seu trabalho recente - o auto-retrato e a imagem da torre de Babel - para os submeter a uma tensão simultaneamente íntima e simbólica. A arista escapa à armadilha da revisitação historicista, transformando os seus trabalhos num exercício de deslocação contemporânea, onde o peso da tradição é continuamente corroído por uma linguagem pictórica nervosa, crua e emocionalmente exposta. Há uma gravidade evidente nestas obras, não apenas no sentido material da tinta espessa, da pincelada pesada e da densidade do desenho, mas sobretudo na dimensão existencial que percorre cada figura. Toda a mostra parece oscilar entre o peso do corpo e uma estranha suspensão psicológica, como se as figuras habitassem um espaço intermédio entre a queda e a permanência. Suspensos entre resistência e vulnerabilidade, os corpos gastos e os rostos inquietos são aqui matéria e desconforto.
Existe em toda a exposição uma recusa deliberada do decorativismo e uma insistência quase ética na verdade emocional da representação. Nazaré Álvares parece interessar-se menos pela imagem exterior do rosto do que pelas marcas invisíveis da experiência humana - fadiga, memória, solidão, desgaste -, transformando o retrato num espaço de exposição interior raramente confortável. A artista trabalha o próprio rosto como território de confronto. Rejeitando exercícios narcísicos ou autobiográficos inconsequentes, cada obra parece colocar em causa a estabilidade da identidade. Vincadamente expressionistas, estes rostos mostram uma frontalidade difícil de sustentar na erosão emocional que deles se desprende. Pinceladas interrompidas, zonas aparentemente inacabadas, sobreposições violentas de tinta e uma paleta contida, dominada por negros, ocres e vermelhos densos, constroem figuras cuja carne é, simultaneamente, presença física e ferida psicológica. O desenho acompanha esta intensidade sem funcionar como mero suporte preparatório; pelo contrário, prolonga a dimensão diarística e confessional da pintura. As linhas surgem tensas, fragmentadas, como se registassem pensamentos ainda em estado bruto.
A presença recorrente da torre de Babel introduz uma dimensão mais ampla e simbólica no percurso da exposição. Longe de surgir como simples referência erudita à tradição ocidental, Babel aparece aqui como metáfora da instabilidade contemporânea, da incomunicabilidade e da permanente fragmentação do sujeito. Ao colocar estas estruturas verticais em diálogo com os auto-retratos, Nazaré Álvares estabelece uma ponte subtil entre e a vulnerabilidade individual e o colapso colectivo. A suspensão sugerida no título ganha uma nova força, não apenas pela sugestão do estado psicológico das figuras, mas também pela sensação civilizacional de desequilíbrio e ruína latente que exprime. Formalmente, a artista demonstra um domínio técnico sólido, perceptível tanto na construção compositiva como na relação entre desenho e pintura, ao serviço de uma fortíssima tensão expressiva. Essa ausência de artifício complacente faz de “Gravidade e(m) Suspensão” uma exposição particularmente relevante pelo que se desprende de uma pintura lenta, física e emocionalmente exigente, na qual olhar é confrontar.