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segunda-feira, 9 de março de 2026

CONCERTO: “Bach e o seu legado: Sonatas para traverso” | Duo Suzanne



CONCERTO: “Bach e o seu legado: Sonatas para traverso”
Duo Suzanne
Com | Teresa Costa (traverso), Katerina Orfanoudaki (cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
07 Mar 2026 | sab | 16:00


O acolhedor espaço do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, cujos aposentos guardam murmúrios literários de um tempo outro, foi palco de um itinerário sonoro que teve como centro gravitacional o mestre supremo do barroco tardio e do contraponto: Johann Sebastian Bach. Em torno do seu génio nasceu e cresceu uma constelação de discípulos e herdeiros que prolongaram a sua linguagem, como se cada um transportasse consigo um fragmento da sua arquitectura musical. Assim aconteceu com Johann Gottfried Müthel, último aluno directo do mestre de Leipzig, cuja escrita permite entrever um horizonte sensível, quase pré-clássico, de uma expressividade capaz de se expandir para além da disciplina contrapontística. Também Johann Philipp Kirnberger, teórico e fiel guardião da tradição bachiana, dedicou a sua vida a sistematizar e preservar o legado do mestre, como quem recolhe num tratado aquilo que primeiro aprendeu pela escuta e pela prática. Entre estes ecos ergue-se ainda a figura singular de Anna Amalie von Preußen, princesa, mecenas e compositora, cuja formação se fez igualmente sob a sombra tutelar de Bach e dos seus discípulos.

Ao encontro deste leque restrito de compositores, o programa apresentado pelo Duo Suzanne, neste que foi o penúltimo concerto da segunda edição do CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar, desenhou uma pequena genealogia sonora, com quatro Sonatas que, como ramos de uma mesma árvore, revelaram a persistência de uma linguagem musical capaz de atravessar gerações, transformando-se sem jamais perder a sua raiz. O concerto foi o culminar de uma residência artística promovida no âmbito do festival, iniciativa que funciona como uma verdadeira marca distintiva ao abrir espaço a jovens formações emergentes através de uma “open call” internacional. Seleccionado entre treze candidaturas, o Duo Suzanne encontrou neste contexto o lugar para amadurecer um programa original, ao mesmo tempo que recebia mentoria de músicos ligados ao festival. O resultado foi o que se ouviu: quatro peças musicais servidas com rigor, imaginação e frescura, atentamente escutadas por um público numeroso que, na intimidade do Museu, soube beber cada compasso com a devoção silenciosa de quem reconhece que a música antiga continua, afinal, intensamente viva.

Ao longo de quase uma hora, o traverso de Teresa Costa desenhou linhas de respiração clara e flexível, deixando cada frase nascer com naturalidade quase orgânica, enquanto o cravo de Katerina Orfanoudaki sustentou e iluminou o discurso com uma elegância rítmica e harmónica de grande delicadeza. Entre ambas estabeleceu-se um diálogo atento, feito de escuta e confiança, o timbre aveludado do traverso entrelaçado na cintilação articulada do cravo. Na cumplicidade musical entre ambas residiu mais do que uma afinidade interpretativa, percebendo-se uma homenagem silenciosa a Suzanne - musa inspiradora que dá nome ao agrupamento - e a tantas outras mulheres cuja voz foi historicamente obscurecida ou apagada. “Suzanne” convoca a memória de Susana, personagem do Livro de Daniel cuja história atravessou séculos de produção artística. A narrativa inspirou músicos e pintores, como na intensa representação de Artemisia Gentileschi, cuja versão de 1610 fixa no olhar de Susana uma angústia que atravessa o tempo. Não é difícil reconhecer, nesse gesto artístico, uma afirmação de resistência feminina contra a violência e a injustiça. Também o Duo Suzanne pareceu dialogar com essa herança simbólica, oferecendo aos presentes um momento musical encantador e legando-lhes uma centelha de esperança num mundo mais justo e melhor.

domingo, 8 de março de 2026

CONCERTO: “De Folias, Chaconas e Fandangos” | Ensemble Allettamento



CONCERTO: “De Folias, Chaconas e Fandangos”
Ensemble Allettamento
Com | Carlos Oramas (teorba e guitarra barroca), Mario Braña (violino), Sergio Suárez (violino), Elsa Pidre (violoncelo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
06 Mar 2026 | sex | 21:00


Os séculos XVII e XVIII herdaram da tradição popular alguns dos seus mais persistentes impulsos rítmicos, transformando-os em matéria de invenção musical de extraordinária riqueza. Entre esses gestos que atravessaram fronteiras sociais e geográficas destacam-se a folia, a chacona e o fandango, três formas que nasceram do movimento do corpo e da celebração colectiva antes de encontrarem lugar nos salões aristocráticas e no imaginário instrumental barroco. A folia, em particular, constitui um dos exemplos mais fascinantes dessa transfiguração cultural. Muito antes de ser esquema harmónico solene, capaz de sustentar sucessivas variações, viveu como dança popular exuberante, associada à energia das festas e a uma certa vertigem coreográfica. Não deixa de ser revelador que, já no início do século XVI, Gil Vicente a mencionasse no seu “Auto da Sibila Cassandra”, testemunhando a presença da “folia” no universo festivo do quotidiano. O mesmo se poderia dizer da chacona ou do fandango, danças de carácter vivo e teatral, profundamente ligadas ao gesto e à pulsação rítmica. Todos estes géneros partilham uma origem comum: o encontro entre música e movimento, entre improvisação e estrutura, entre a espontaneidade das gentes e a sofisticação das linguagens barrocas. Escutá-los hoje é escutar também a memória de um percurso histórico em que a música absorveu, refinou e perpetuou a energia de antigas danças, convertendo-as em verdadeiros laboratórios de expressão.

Foi precisamente esse universo de ressonâncias ibéricas e europeias que o Ensemble Allettamento trouxe, na noite de ontem, à Igreja Matriz de Ovar, no âmbito do CásterAntiqua. O programa desenhou uma viagem através de diferentes geografias sonoras, abrindo com a imaginação instrumental de Giovanni Girolamo Kapsberger, cujas “arpeggiate” e “toccatas” deixaram logo perceber a liberdade inventiva do barroco inicial. Seguiram-se as danças de Andrea Falconieri e o refinamento guitarrístico de Francesco Corbetta, antes de o repertório ibérico ganhar particular evidência nas páginas de Santiago de Murcia e de Gaspar Sanz. Neste último, o tema “Canários e Jácaras” proporcionou um dos momentos mais luminosos da noite, graças ao virtuosismo e à expressividade de Carlos Oramas, cuja interpretação fez cintilar cada gesto rítmico com naturalidade contagiante. Merece também destaque a inclusão no programa do compositor português Pedro Lopes Nogueira, presença preciosa que recorda como estas danças e esquemas harmónicos se disseminavam entre culturas e repertórios, revelando a vitalidade das trocas musicais na Península. O percurso culminou com páginas de Antonio Vivaldi, entre as quais o Concerto em Ré maior RV 93 e, sobretudo, a célebre Sonata Op. 1 n.º 12 “La Follia”, interpretada com entusiasmo e grande cumplicidade entre os músicos, cujos instrumentos dialogaram em permanência, num tecido de harmonias ricas, feito de graça e luminosidade. Já no encore, o ensemble ofereceu ainda uma delicada chacona de Arcangelo Corelli, extraída da Sonata Op. 2 n.º 12, encerrando o concerto com um gesto de elegância serena.

A atmosfera da Igreja Matriz de Ovar contribuiu decisivamente para a intensidade desta experiência musical. Marcado pela solenidade das suas proporções e pela generosa ressonância acústica, o espaço acolheu o público num silêncio quase reverencial, desses silêncios que antecedem a música como quem prepara o espírito para a escuta. Ao longo do concerto, foi possível ler nos rostos atentos uma mistura de concentração e alegria, como se cada nova dança abrisse uma pequena janela sobre o passado e sobre a vitalidade expressiva do barroco. A qualidade do Ensemble Allettamento revelou-se nessa cumplicidade artística: os dois violinos e o violoncelo formaram a base de um tecido sonoro flexível e vibrante, sustentando com elegância a arquitectura musical de cada peça. No centro desse diálogo destacou-se Carlos Oramas, cuja presença como solista fez brilhar as cordas da teorba e da guitarra barroca com uma expressividade rara. O seu toque, simultaneamente preciso e imaginativo, desenhou linhas de grande delicadeza sobre o manto sonoro do conjunto, equilibrando virtuosismo e subtileza. Quando as últimas notas se dissiparam no ar, permaneceu a sensação de que aquelas antigas folias, chaconas e fandangos tinham cumprido novamente a sua vocação primordial, a de reunir intérpretes e ouvintes numa mesma alegria partilhada, levando a beleza da música ao encontro do seu eco mais humano.

sábado, 7 de março de 2026

CONCERTO: “No Salão de Bach” | William Carter



CONCERTO: “No Salão de Bach”
Com | William Carter (alaúde)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela do Calvário
05 Mar 2026 | qui | 21:00


No arranque da segunda metade do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, a organização elegeu o ambiente intimista e de recolhimento da Capela do Calvário para a apresentação a solo do consagrado alaudista norte-americano William Carter. Depois de aqui termos escutado, no ano passado, um conjunto de obras-primas do Barroco na flauta de bisel de Robert Ehrlich e no cravo de Alexander von Heißen, este foi um retomar da viagem a um dos mais fascinantes períodos da história da música, tendo sido possível apreciar o quanto de subtileza, graça, harmonia e beleza a música pode conter quando devolvida em acordes de rara mestria e virtuosismo. Tornada espaço de afinidades electivas e de emoções contidas, a Capela do Calvário foi palco privilegiado de evocação de um tempo em que os acordes reverberaram na intimidade dos salões, alimentando uma respiração comum entre William Carter e todos aqueles que tiveram o privilégio de o escutar. Instrumento de murmúrios e sombras luminosas, o alaúde foi a voz de uma conversa que atravessou séculos, oferecendo-se com a naturalidade de quem fala com fluência uma língua antiga, feita de madeira, cordas e silêncio.

O programa já insinuava a ideia de reinvenção, a música como matéria viva capaz de se reimaginar e de voltar ao convívio do público sempre livre e renovada. Foi isto que pudemos apreciar “no salão musical de Bach”, uma viagem que teve o seu início muito antes de Bach e que se prolongou para além dele, como se o compositor alemão surgisse no centro de uma constelação de mestres do alaúde. Nesta fascinante viagem, foi a arquitectura sonora do compositor que se impôs como pedra de toque. Para quem raramente escreveu a pensar nas limitações do intérprete, antes imaginou uma música que fosse além das fronteiras naturais dos instrumentos, Bach soube, como ninguém, transportar para o alaúde obras originalmente concebidas para violino ou violoncelo, criando verdadeiras transmutações sonoras que trouxeram uma nova vida musical a um vasto conjunto de peças. Foi nesse território que William Carter se moveu com rara elegância. O seu toque, de uma serenidade quase contemplativa, fez sobressair a continuidade melódica e a subtileza das danças escondidas na escrita bachiana, da leveza de um Adágio à tensão de uma Fuga ou à vertigem de um Presto.

As páginas de Esaias Reusner franquearam as portas do salão com a elegância austera do século XVII, prelúdios e pavanas a ensaiarem a respiração de uma dança processional lenta, solene e majestosa. A música de Sylvius Leopold Weiss trouxe ao programa a plenitude do instrumento, espalhando acordes, ora meditativos, ora cintilantes, capazes de reverberações medievalistas num universo de dança e fantasia. Mais atrás no tempo, o repertório de Ennemond Gaultier evocou a delicadeza francesa do alaúde barroco, cada acorde desenhado com o sentido de suspender o tempo. A pouco conhecida “La Cascade”, uma “chaconne” alegre e plena de lirismo no seu desígnio de mostrar até que ponto definhamos sem um pouco de música (e de vinho), foi um momento de felicidade suprema conduzido por William Carter de forma intensa, entusiástica e sensível. E assim o concerto terminou tal como começara, envolto numa atmosfera encantatória, onde cada nota pareceu suspensa no ar por instantes mais longos do que o tempo. No dedilhar subtil do alaúde, nada pareceu demonstrativo em William Carter; tudo soou simples, fluido, inevitável. E a música, simplesmente, aconteceu.

sexta-feira, 6 de março de 2026

CINEMA: “O Caso dos Estrangeiros” | Brandt Andersen



CINEMA: “O Caso dos Estrangeiros” / “I Was a Stranger”
Realização | Brandt Andersen
Argumento | Brandt Andersen
Fotografia | Jonathan Sela
Montagem | Jeff Seibenick
Interpretação | Yasmine Al Massri, Yahya Mahayni, Omar Sy, Ziad Bakri, Constantine Markoulakis, Jason Beghe, Massa Daoud, Carlos Chahine, Ayman Samman, Thanos Tokakis, Fares Helou, Rami Farah, Jay Abdo, Mahmoud Bakri, Ward Helou, Saleh Bakri, Salah Hanoun
Produção | Brandt Andersen, Ossama Bawardi, Ryan Busse, Charlie Endean
Jordânia, Territórios Palestinianos Ocupados, Estados Unidos | 2024 | Drama | 104 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 10
02 Mar 2026 | seg | 13:35


“O Caso dos Estrangeiros”, primeira longa-metragem realizada por Brandt Andersen, chega aos ecrãs envolto numa ambição rara: transformar a crise dos refugiados sírios num thriller de contornos épicos. Fragmentada em cinco capítulos, a narrativa cruza destinos entre Aleppo e Esmirna, Atenas e Chicago, numa estrutura não linear que pretende adensar o suspense e sublinhar a interdependência das histórias. Como objecto fílmico, o resultado chega a ser quase banal. Andersen prefere o sublinhado ao silêncio, a situação-limite ao aprofundamento, a tese à ambiguidade. As personagens - a médica, o soldado, o passador, o poeta, o salvador - surgem menos como seres humanos plenos do que como peças num tabuleiro moral cuidadosamente disposto. Há uma inclinação evidente para o maniqueísmo: vítimas luminosas, algozes embrutecidos, redentores fatigados. A câmara é eficaz, a montagem nervosa, mas a construção dramática denuncia a urgência de convencer em detrimento da paciência de compreender.

Ainda assim, reduzir o filme à sua dimensão panfletária seria injusto. Andersen revela competência na direcção de actores e um sentido de ritmo que impede a dispersão total. A abertura em Chicago, sob a sombra simbólica de um arranha-céus reconhecível, estabelece de imediato o alcance político da narrativa, ligando a guerra distante às tensões migratórias do Ocidente. Nos segmentos centrados na médica e no pai que arriscam a travessia do mar Egeu, o realizador encontra momentos de genuína intensidade, deixando que o horror fale por si. A opção por evitar uma análise geopolítica de contextualização afigura-se como um factor de empobrecimento da narrativa, mas abre espaço a que possamos concentrar o olhar no sofrimento concreto. O problema é que cada capítulo termina quando começa a ganhar espessura, sacrificando a complexidade em nome do impacto imediato. Fica a sensação de que a história pedia menos artifício e mais tempo de respiração.

Paradoxalmente, é nessa simplicidade quase esquemática que reside a força maior de “O Caso dos Estrangeiros”. A mensagem é frontal, quase “martelada”, mas dificilmente poderia ser mais actual ou urgente. Num tempo em que o discurso anti-imigração volta a ganhar terreno, em que a empatia é, segundo alguns, “a maior fraqueza do Ocidente” e em que a compaixão é cada vez mais um recurso escasso, o filme insiste na humanidade de quem procura escapar da guerra e da fome e na responsabilidade moral de quem recebe ou rejeita sucessivas vagas de migrantes. Não converterá os já convertidos nem transformará consciências empedernidas, mas funciona como documento emocional de uma época marcada por deslocações forçadas e fronteiras cerradas. Pode ser um filme demasiado denunciado, demasiado consciente de si como alegoria; mas é também uma chamada de atenção poderosa de que, por detrás das estatísticas e das palavras de ordem, há cada vez mais vidas suspensas entre a guerra e a esperança.

quinta-feira, 5 de março de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #102



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #102
Com | Alice Eça Guimarães, André Silva Santos, Nuno Amorim, Patrícia Sobreiro, Rodrigo Alves
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
26 Fev 2026 | qui | 21:30


Franqueadas as portas da décima temporada, o Shortcutz Ovar continua a afirmar-se como um verdadeiro ponto de encontro da comunidade cinéfila vareira e de todos aqueles que encontram na sétima arte um território de descoberta e liberdade criativa. Lançado em 2017, o projecto encontrou em Ovar um espaço fértil para crescer, consolidando-se ao longo da última década como uma montra privilegiada do cinema português contemporâneo. Sessão após sessão, o certame tem dado palco a uma impressionante diversidade de propostas - do foto-filme ao documentário, da imagem animada à ficção pura e dura, sem esquecer as novas linguagens que cruzam cinema e inteligência artificial -, reflectindo a vitalidade e a constante reinvenção do formato curto. Ao longo do tempo, o Shortcutz Ovar soube catalisar as atenções e fidelizar um público cada vez mais atento e participativo, que não abdica da experiência colectiva da sala escura e que reconhece, com entusiasmo, o talento que cruza o ecrã. Celebrar esta nova temporada é, por isso, celebrar uma história de resistência cultural, de afirmação do cinema feito entre nós e de confiança num futuro onde as curtas continuam a ter, em Ovar, casa, voz e plateia. Assim foi, uma vez mais, nesta primeira sessão do ano, numa Escola de Artes e Ofícios a rebentar pelas costuras, tornada espaço de partilha e debate propícios à construção de uma relação de proximidade rara entre criadores e público.

Contrariando a lógica dominante de reservar à imagem animada o arranque da temporada, o Shortcutz Ovar abriu este novo ano com a quietude inquieta de “J’existe - Porto”, um quase foto-filme documental de Patrícia Sobreiro. Em pouco mais de dez minutos, a realizadora compõe um testemunho biográfico e intimista que nasce das suas viagens à Invicta e que transforma a cidade em matéria sensível. Sob o seu olhar, o Porto surge como casa e espelho interior, território afectivo onde cada rua parece guardar um vestígio de memória e cada rosto convocado teima em resistir ao apagamento. Num gesto assumidamente artesanal, de recusa do ruído da indústria e da voragem da produção formatada, o filme constrói-se na fricção entre a contemplação e a denúncia, entre a beleza plástica das imagens e a inquietação que as atravessa. Há enquadramentos que evocam a luz difusa de Turner, como se o casario e o rio pairassem suspensos numa névoa romântica. É sob essa superfície diáfana que pesa a consciência de uma cidade ameaçada pela gentrificação e pela turistificação, fenómenos que diluem identidades e empurram para as margens figuras genuínas que ajudam a compor o rosto da cidade e a representam. O que Patrícia Sobreiro nos oferece com esta sua curta é um acto de resistência delicada, um sussurro visual que reivindica o direito de olhar e de se demorar num mundo demasiado apressado. O direito de existir.

Amplamente aguardado - ou não fosse Alice Eça Guimarães um nome consagrado da animação portuguesa e uma realizadora querida do público do Shortcutz Ovar -, “Porque Hoje É Sábado” não frustrou as expectativas. O público distinguiu-o como melhor filme da sessão, o que se percebe não só pela verdade que se derrama da abordagem a um tema pleno de actualidade, como pela qualidade e colorido da animação, nalguns quadros a fazer lembrar um enigma de Escher. Aqui, o sábado - palavra roubada ao “Dia da Criação”, de Vinicius de Moraes - despe a ideia de repouso para voltar a ser rotina. A realizadora constrói um filme que é como um grito contido, um eco que vibra nas paredes da casa e no interior da protagonista, cercada por tarefas que se repetem com a obstinação de um castigo mitológico. Há, na coreografia exaustiva do quotidiano, qualquer coisa de sísifo moderno, o limpo que volta a sujar-se, o dia que recomeça sem que o anterior tenha nunca chegado ao fim. Vibrante e inquieta, a animação traduz a vertigem da chamada “carga mental”, esse trabalho invisível que organiza o mundo enquanto consome quem o sustenta. Entre filhos, refeições e listas intermináveis, a mulher tenta oferecer a si própria a dádiva de um tempo que se fragmenta, lhe escorre das mãos e nunca é seu. “Porque Hoje É Sábado” transforma essa frustração num retrato sensível da sobrecarga que ainda marca tantas mulheres, contrariando a ideia de uma igualdade tão apregoada, mas ainda distante da realidade.

A finalizar a sessão, “Sol Menor”, primeira obra de ficção de André Silva Santos, desenha-se como uma elegia contida às paisagens urbanas de São João da Madeira, um município que carrega em si as marcas de uma pós-industrialização silenciosa, feita de fábricas desactivadas e memórias que ecoam como notas longínquas. É Primavera, mas a estação não irrompe; insinua-se apenas numa sonata tocada em surdina, numa carta por abrir, nos vasos com plantas que respiram sobre os parapeitos das janelas. A câmara acompanha a progressão lenta do “Vouguinha”, como se o tempo tivesse aprendido a caminhar sobre carris gastos. Samuel, 38 anos, professor de flauta, move-se entre o sopro que ensina e o silêncio que o habita, repetindo rituais de luto pela falta de Luísa, companheira de música e de vida. Cada gesto é um compasso suspenso; cada parte do dia, uma pauta onde a ausência escreve a sua própria melodia. A visita do irmão virá abrir uma fractura discreta na rotina, um desvio possível no seu itinerário imóvel. Contudo, Samuel permanece figura cristalizada, homem-estação à espera de um comboio que talvez nunca chegue a partir. E, ainda assim, é dessa suspensão que brota um sentido de comunidade: das ruas que se enchem de pessoas para ver passar a procissão, das janelas que aos poucos se acendem com o anoitecer, dos pequenos rituais partilhados que tecem o sentido de pertença. Como a cidade, Samuel resiste, feito acorde menor que, na sua tristeza, guarda uma promessa ténue de redenção.

quarta-feira, 4 de março de 2026

CONCERTO: “Telemann: Camaleão” | New Collegium



CONCERTO: “Telemann: Camaleão”
New Collegium
Direcção musical | Cláudio Ribeiro
Com | Inês d’Avena (Flautas de bisel), Sara DeCorso (Violino), Nina Hitz (Violoncelo), Cláudio Ribeiro (Cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela da Misericórdia
01 Mar 2026 | dom | 18:00


No quadro do chamado “gosto misto” que marcou o Barroco germânico, poucos compositores encarnaram tão plenamente o ideal camaleónico quanto Georg Philipp Telemann. Se, em 1730, Johann Sebastian Bach sublinhava a necessidade de os músicos alemães dominarem os estilos italiano e francês, Telemann fez dessa exigência um programa estético ao assimilar a retórica da “ouverture francesa”, a teatralidade concertante italiana, o contraponto germânico e até inflexões polacas, fundindo-os numa linguagem surpreendentemente fluida e vivaz. Escrevendo para formações as mais diversas, o genial compositor demonstrou conhecer por dentro a respiração e a matéria de cada instrumento, explorando-lhes as cores próprias com uma naturalidade que ainda hoje soa moderna. Acrescente-se que a fama de Telemann, imensa em vida, assentou tanto na inventividade como na inteligência editorial, bastando para tal lembrar a publicação periódica “Der getreue Music-Meister”, laboratório de géneros e afectos numa altura em que a música se tocava muito dentro de portas, sem olhar a credos religiosos ou a extractos sociais.

Foi essa paleta, ampla e plena de originalidade e bom gosto, que os neerlandeses do New Collegium trouxeram, ao cair da tarde de domingo, à Capela da Misericórdia de Ovar, encerrando o primeiro de dois fins de semana da segunda edição do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar. Desde o Prélude do 6.º Quatuor (TWV 43:e4), com o seu recorte solene e ritmo pontuado, até à vitalidade concertante da Sonata em Sol maior (TWV 42:G7), foi amplamente reconhecível uma respiração comum entre Inês d’Avena, Sara DeCorso, Nina Hitz e Claudio Ribeiro: emotiva, sensível e comovente ao mesmo tempo. A harmonia, clara, nunca estática, encontrou sustentação num contínuo atento, enquanto o jogo rítmico - alternando a elegância francesa e a impulsividade italiana - se desenhava com precisão coreográfica. No Trio em lá menor (TWV 42:a4), o Largo abriu espaço a um cromatismo insinuante; no Vivace, a escrita fugada ganhou leveza sem perder rigor. Já o Duetto (TWV 40:111), superlativamente interpretado, revelou cumplicidades tímbricas subtis entre a flauta doce e o violino, numa alternância de delicadeza e vivacidade nascidas do gesto partilhado.

O ponto axial do concerto foi a suite construída a partir de “Der getreue Music-Meister”: um mosaico de andamentos - “L’hiver: Gravement - Vîte - Largo - Alla breve - Lento - Pastourelle” - que expôs, como num espelho multifacetado, as metamorfoses camaleónicas do compositor. Aqui, a arquitectura fez-se respiração partilhada: cada número pareceu nascer do anterior por subtil inflexão rítmica ou por desvio harmónico calculado, como se o discurso se reorganizasse continuamente sem perder a unidade. Destaque para a Pastourelle e para a sua claridade campestre, desenhada com elegância tímbrica e articulação nítida, a lançar sobre os presentes um sopro de modernidade. Já no “encore”, o Trio em ré menor, inspirado no folclore da Silésia e durante séculos atribuído a Georg Philipp Telemann, soou como epílogo irónico e quase cúmplice: hoje sabe-se ser Pierre Prowo o seu autor, mas a energia que dele se desprende e os seus contornos modais integraram-se sem fricção no universo apresentado. Como se o camaleão, afinal, pudesse também ser máscara. E a música, mais do que assinatura, uma arte de respiração comum.

terça-feira, 3 de março de 2026

CONCERTO: “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval” | Ensemble Med



CONCERTO: “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”
Ensemble Med
Direcção musical | Daniela Tomaz
Com | Daniela Tomaz (flautas, adufe), Joana Godinho (canto), Sérgio Calisto (viola d’amore a chiavi e nyckelharpa), Laurent Safar (percussão)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Bar do Centro de Artes de Ovar
28 Fev 2026 | sab | 21:00


Mais do que um imenso espaço líquido, ao longo de séculos o Mediterrâneo foi praça pública onde mercadores, peregrinos, exércitos e poetas teceram uma rede de trocas que moldou decisivamente a história cultural dos povos que o habitaram. Das rotas que ligavam o Levante às costas atlânticas da Ibéria chegaram especiarias, técnicas, cosmologias e, com elas, palavras que ainda hoje habitam a língua portuguesa, heranças árabes, hebraicas e latinas que sobreviveram às fronteiras políticas e às ortodoxias religiosas. Essa sedimentação fez-se também de música, dos modos melódicos que atravessaram sinagogas, mesquitas e catedrais aos ritmos que acompanharam o labor agrícola e a celebração litúrgica ou às práticas de transmissão oral que resistiram à erosão do tempo. O legado cultural mediterrânico é, por isso, uma corrente viva que continua a renovar-se na tradição. A língua que falamos, os cantares que reconhecemos como nossos, os timbres que associamos ao sagrado ou ao profano são testemunhos dessa convivência antiga, tantas vezes tensa, tantas vezes fecunda, que faz da diversidade um motor criativo. É essa memória partilhada - frágil e resiliente ao mesmo tempo - que programas como “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval” convocam, lembrando-nos que a identidade ibérica se construiu no encontro e na escuta.

No Bar do Centro de Artes de Ovar, essa história ganhou corpo e respiração. O ambiente descontraído, de copo ou chávena na mão, e a proximidade cúmplice entre intérpretes e público, dissolveu qualquer ideia cristalizada de que a música medieval pertence apenas à penumbra das igrejas ou ao fausto dos palácios. O Ensemble Med apresentou um percurso que, do Cancionero Musical del Palacio às melodias sefarditas recolhidas por Isaac Levy, das inflexões do makam turco às Cantigas de Santa Maria, fez do concerto uma verdadeira cartografia sonora. Mesmo nas peças de natureza litúrgica, a pulsação rítmica e a entrega dos músicos foram capazes de imprimir-lhes uma dimensão festiva, quase dançável, como se cada modo antigo escondesse uma chama ainda viva, pronta a reacender-se ao primeiro fôlego. Foi um concerto marcado pelo rigor histórico, mas nunca rígido; houve estudo e pesquisa, mas sobretudo partilha. As percussões insinuaram pontes invisíveis entre margens, as cordas desenharam arabescos de fina filigrana e os sopros coloriram o espaço com uma paleta capaz de evocar mercados, pátios e claustros. A generosidade dos executantes sentiu-se na forma como ofereceram cada frase ao público, num gesto franco e hospitaleiro que foi espelho da própria matriz mediterrânica do programa.

Entre a pulsação do adufe de Laurent Safar, a sonoridade única das nyckelharpa de Sérgio Calisto e a doçura das flautas de Daniela Tomaz, foi  a voz de Joana Godinho que sobressaiu, erguendo-se como um fio de ouro. Capaz de se expandir na energia contagiante do Coro das Maçadeiras e logo depois saber recolher-se na intimidade contemplativa de uma Cantiga de Santa Maria - onde cada sílaba nos é oferecida como que suspensa numa oração sussurrada -, a cantora demonstrou uma versatilidade rara, aliando clareza tímbrica a uma expressividade intensamente comunicativa e empática. A sua prestação nunca cedeu ao exotismo fácil, antes caminhou, com verdade e firmeza, na senda de um legado onde cristãos, judeus e muçulmanos partilham uma mesma respiração histórica. Também por isso, o concerto foi mais do que uma sucessão de peças de uma longa e intensa jornada entre oriente e ocidente: foi manifesto discreto contra o esquecimento, uma afirmação de que a música antiga deixa de ser antiga quando se torna presente em corpos vivos e vozes que a reinventam. No final, entre aplausos calorosos e sorrisos cúmplices, ficou a sensação de que aquele bar, à semelhança de tantos cafés de outras épocas, foi por momentos ágora efémera, lugar onde a memória colectiva se celebra não como peso, mas como promessa.

segunda-feira, 2 de março de 2026

CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann” | Musurgia Ensemble



CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann”
Musurgia Ensemble 
Direcção musical | João Francisco Távora
Com | João Francisco Távora (Flauta de Bisel), Marta Gonçalves (Traverso), Xurxo Varela (Viola da Gamba), Rodolfo Richter (Violino I), Sergio Suárez (Violino II), Mário Braña (Viola), Marta Jiménez Ramírez (Violoncelo), Hélder Sousa (Cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
27 Fev 2026 | sex | 21:00


Na Leipzig do segundo quartel do século XVIII, a música habitava profusamente igrejas e palácios, mas era igualmente possível escutar a sua respiração no burburinho do Café Zimmermann, no coração da elegante Katharinenstrasse, graças à paixão pela música do dono do Café, o senhor Gottfried Zimmermann. Imaginemo-nos a franquear a porta desse edifício barroco e a sorver o aroma do café acabadinho de torrar, enquanto olhamos em volta e percebemos o rumor expectante de uma burguesia letrada. As mesas alinham-se sob a luz de velas vacilantes, enquanto damas e cavalheiros se acomodam para escutar o Collegium Musicum, dirigido por Johann Sebastian Bach ou, antes dele, pelo seu fundador, Georg Philipp Telemann. Os jovens intérpretes afinam os seus instrumentos, trocam olhares cúmplices. Um cravo ensaia discretamente uma cadência e dá-se início ao concerto: uma abertura solene, talvez uma suite francesa, seguida de um diálogo vibrante de cordas e sopros e de uma ária secular insinuando ironias mundanas. Entre goles de café e apartes sussurrados, a cidade aprende a ouvir-se a si mesma. Não há bilhete a pagar, apenas a promessa de duas horas de invenção sonora, sustentadas pela hospitalidade do anfitrião e pela curiosidade de um público que ali encontra, simultaneamente, entretenimento e elevação.

Mais do que uma recriação, foi a evocação dessa memória que o Musurgia Ensemble chamou à Igreja Matriz de Ovar, na abertura da segunda edição do CásterAntiqua. O “desconcerto” inicial na proposta implícita a que o público se reposicionasse como se de um café setecentista se tratasse não foi mero artifício cénico. Foi, isso sim, um convite a abraçar, com outra disposição do corpo e do espírito, uma música com tanto de presença como de pertença. Inteligentemente urdido, o programa poderia muito bem ter ecoado no próprio Café Zimmermann há três séculos, de tal forma as peças escolhidas são das mais representativas do barroco tardio. A Suite em Si bemol Maior, op. 1 nº3, de Johann Caspar Ferdinand Fischer abriu espaço à elegância coreográfica das danças francesas; os concertos em Lá menor TWV 52:a1 e Mi menor TWV 52:e1, de Telemann, desenharam contrastes de afectos; e as sinfonias e páginas orquestrais de Bach - da BWV 175 à BWV 150, do Oratório da Páscoa BWV 249/2 à Suite Orquestral nº 3 BWV 1068 - transfiguraram a densidade teológica em gesto instrumental. Na nave ampla do templo vareiro, a acústica expandiu o que outrora teria sido intimidade de salão, sem trair nunca o espírito de partilha tão característico das mais brilhantes academias musicais setecentistas.

A qualidade do concerto confirmou o Musurgia Ensemble como guardião atento e criativo da música antiga. Fundado em 2020 por João Francisco Távora e Hélder Sousa, o agrupamento alia investigação e prática historicamente informada a uma pulsação viva, comprometida e revigorada, nunca museológica. O cuidado com a harmonia revelou-se na clareza das vozes intermédias. O ritmo, firme mas elástico, sustentou as danças sem rigidez, os diálogos instrumentais a surgirem como conversas inteligentes, feitas de animados momentos de pergunta e resposta. Particularmente memorável foi o encontro tímbrico entre a flauta de bisel de João Francisco Távora e o traverso de Marta Gonçalves: dois sopros, duas cores, duas respirações que se entrelaçaram com naturalidade, ora em contraste, ora em fusão luminosa. Houve momentos em que o som pareceu suspender o tempo, deixando-se surpreender num Largo em suspenso ou numa Gavotte de sorriso discreto e graça plena. Nesse equilíbrio entre rigor e imaginação, o Musurgia Ensemble mostrou-se hábil no seu compromisso com o passado, tornando-o presente, pulsante e necessário. Um extraordinário concerto de abertura do Festival, a fazer adivinhar dois fins de semana que se afiguram memoráveis.

domingo, 1 de março de 2026

CONCERTO: Música de Câmara | Escola Profissional de Música de Espinho



CONCERTO: Música de Câmara
Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção musical | Trevor McTait
Com | Leonor Neves (piano), Pedro Castro (violino), Angel Luna (trompa), Luisa Margalho (violino), Maria Helena Perez (violino), Leonor Colaço (flauta), Beatriz Santos (fagote), Viviana Pereira (piano), Matilde Rocha (piano), Miguel Martins (violino) e Joana Pinto (violoncelo)
ReabilitaSons 2026
Centro de Reabilitação do Norte
26 Fev 2026 | qui | 17h30


No retomar da parceria entre a Escola Profissional de Música de Espinho e o Centro de Reabilitação do Norte, o “ReabilitaSons” voltou a afirmar-se, muito mais do que um ciclo de concertos, como uma declaração de princípios sobre a reabilitação integral. À luz das recomendações da Organização Mundial de Saúde e do sublinhar do papel determinante das artes na promoção da saúde mental e física, iniciativas desta natureza têm vindo a revelar-se instrumentos terapêuticos subtis, mas de profunda eficácia. Foi isso que se percebeu ao final da tarde da passada quinta feira, com a música a saber intrometer-se num espaço habitualmente marcado por rotinas clínicas e desafios exigentes e a introduzir uma suspensão no tempo, abrindo nele rasgos de beleza e transcendência. Utentes, familiares e profissionais tiveram o privilégio de partilhar o mesmo silêncio expectante e o mesmo aplauso caloroso, dissolvendo hierarquias na comunhão estética. A cultura foi, não ornamento, antes extensão do cuidar no que tem de estimulação da memória, convocação de emoções, reforço de vínculos e demonstração da capacidade de restituir aos doentes uma dimensão de participação activa na vida comunitária.

Fazer de cada concerto um gesto de inclusão e um exercício de esperança, levando a reabilitação física ao encontro de uma reabilitação emocional e social mais ampla e humanizada, voltou a ser o grande desígnio, com o programa a evidenciar inteligência na construção e diversidade nas propostas. A abertura com o Trio n.º 1 de Duvernoy, no diálogo entre piano, violino e trompa, trouxe clareza formal e elegância melódica, num Adagio de linhas cantáveis seguido de um Allegretto leve e comunicativo. De seguida, a célebre “Träumerei”, de Robert Schumann, aqui em arranjo para dois violinos, pairou sobre a sala com a delicadeza de uma confidência, explorando a respiração conjunta das intérpretes. O Larghetto do Trio (A.507) de Gaetano Donizetti revelou um lirismo operático transposto para a música de câmara, com flauta e fagote a entrelaçarem-se sobre o suporte atento do piano. Um momento de sublime beleza e encanto que nem uma arreliadora falha técnica conseguiu beliscar. A Sonata para dois violinos, Op.56, de Sergei Prokofiev, no seu Andante cantabile, expôs um equilíbrio subtil entre tensão e doçura, exigindo maturidade expressiva e rigor técnico que os dois violinos tão bem souberam assumir.

O fecho com o Trio com piano em Si bemol maior, K.254, de Wolfgang Amadeus Mozart, devolveu ao auditório a luminosidade clássica e a arquitetura transparente que caracterizam o génio de Salzburg. No Allegro assai, destacou-se a vivacidade do discurso e a articulação cuidada entre os três instrumentos, enquanto o Adagio trouxe recolhimento e nobreza de fraseado, num diálogo onde cada voz encontrou espaço e propósito. Ao longo de todo o concerto, os jovens músicos da Escola Profissional de Música de Espinho revelaram não apenas competência técnica, mas uma postura de entrega e consciência do contexto em que actuaram. Tocaram para um público particular, atento e emocionalmente investido, e souberam ajustar dinâmicas, respirações e silêncios a essa circunstância. Houve frescura, mas também responsabilidade artística; houve rigor, mas igualmente empatia. E nesse equilíbrio entre exigência e humanidade residiu a verdadeira grandeza da tarde: a música como ponte e cuidado, celebração e partilha.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

LIVRO: "Coração Sem Medo" | Itamar Vieira Júnior



LIVRO: “Coração Sem Medo”,
de Itamar Vieira Junior
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Janeiro de 2026


“Esses breves encontros renovavam seu ânimo para as batalhas cotidianas: trabalhar para ganhar o necessário para a vida, guiar seus filhos por bons caminhos, manter alguma integridade diante da desesperança. Acreditar num mundo mais justo, que talvez não desponte pleno nesta geração ou na seguinte, mas que algum dia desabrochará, assim como tudo o que é semeado. Um mundo que não se pareça com o sonho dos alienados, mas que possa mais unir do que dividir.”

Copiosa, repentina, a chuva cai sobre a cidade, apanhando desprevenidas as muitas pessoas que, àquela hora, se dirigem para o trabalho. Entre elas vamos encontrar Rita Preta, operadora de caixa de um supermercado, dividida entre a necessidade de enfrentar a intempérie rumo ao emprego e a vontade de regressar a casa. Enquanto espera que a chuva abrande, os olhos acompanham a força da correnteza que forma autênticos rios à sua frente. O fluxo torna-se então o rio da sua infância, local de brincadeiras, mas também de tragédia. Ali começam a formar-se os lugares de Água Negra, Caxangá, Chapada Velha ou Paraguaçu e as figuras do velho Zeca Chapéu Grande, de Donana e Carmelita, das irmãs Bibiana e Belonísia, de Luzia e Moisés. É “Torto Arado” e “Salvar o Fogo” que se insinuam, os dois primeiros volumes da “Trilogia da Terra” que agora se fecha com este “Coração Sem Medo”, obra do multipremiado escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior. Com habilidade rara, o autor tece neste seu livro uma forte ligação entre passado e presente, ao mesmo tempo que “pensará nos que ficaram pelo caminho, nos que sofreram para viver dia após dia, nos que cantaram e dançaram para afastar o destino, nos que se ergueram para defender o considerado justo.”

Em “Coração Sem Medo”, Itamar Vieira Junior desloca a terra para o asfalto e, nesse gesto, amplia o mapa afectivo e político da sua já incontornável obra literária. Se em “Torto Arado” o chão era rasgado por enxadas, aqui ele pulsa nos pavimentos escaldantes da cidade de Salvador, onde, como em tantas outras cidades do Brasil, a periferia é território de luta e vertigem. A estranheza inicial - ver um Itamar “urbano” – converte-se muito rapidamente em assombro fértil: o autor mantém intacta a subtileza e elegância da sua linguagem, mas faz com que ela reverbere por entre autocarros sobrelotados, corredores de supermercado, esquadras de polícia, hospitais, necrotérios ou becos esconsos, perdidos numa noite eterna. É num cenário de caos que a figura de Rita Preta emerge como força motriz de um romance que funciona quase como um thriller social, não pelo suspense artificioso, mas pelo medo estrutural que se infiltra como personagem. O desaparecimento de Cid, o filho mais velho de Rita Preta, não inaugura apenas uma busca desesperada; escancara um país onde as suspeitas antecedem os factos e a culpa tem menos a ver com os actos e mais com a cor da pele. A cada novo desenvolvimento, percebemos o quanto a engrenagem racista normaliza este e outros crimes e faz das muitas ausências um ruído ensurdecedor.

Rita Preta, caixa de supermercado, mãe que cria sozinha os seus três filhos, carrega no corpo os genes da perda e da resistência. Neta e bisneta de mulheres que aprenderam a sobreviver, nela se condensa a memória de um Brasil que atravessa o tempo sem conseguir libertar-se da violência fundadora. A cada porta que se fecha na sua cara, a cada agente da polícia que a desacredita, a cada político que a ignora, a narrativa cose passado e presente, mostrando que, para as mães da periferia, as pobres e desvalidas, os tempos da ditadura nunca deixaram de existir. Há algo de épico nessa odisseia íntima: não a epopeia dos heróis celebrados, mas a das mulheres anónimas que ousam enfrentar a insensibilidade de sistemas altamente burocratizados, instituições corrompidas e comunidades silenciadas. Sem concessões, Itamar Vieira Júnior constrói personagens densas e oferece-lhes uma linguagem com tanto de lirismo como de acidez. O romance é sufocante porque é real; dói porque tudo nele é reconhecível. O medo do desconhecido, o não ter um corpo para enterrar, o saber-se pequeno diante de um sistema corrupto, tudo isso é narrado sem melodrama, com uma poesia que não pretende suavizar a ferida, antes iluminá-la. Convidado a acreditar - ou não (!) - na inocência de Cid, o leitor percebe-se cúmplice de um imaginário social que culpabiliza e pune, antes de acolher e entender.

Nos capítulos finais, a recusa de um desfecho pacificador transforma-se em gesto ético. Não há justiça plena, apenas a insistência radical em prosseguir o caminho. Rita Preta aprenderá que sobreviver é também negar ao ódio a última palavra. É retirar do peito a lama espessa do rancor para que a violência não a consuma por dentro. A ambiguidade que paira sobre a sua trajectória, essa espécie de suspensão entre morte e permanência, tem o condão de ampliar a sua dimensão simbólica: Rita Preta torna-se memória activa, presença que resiste. A educação dos filhos que ficam, a descoberta tardia de uma neta, o trabalho de casa em casa como podologista, todos os pequenos movimentos que compõem o seu quotidiano, são peças que trazem sentido ao que antes foi apenas vazio. A terra, agora coração, é espaço inviolável e ainda assim magoado. Itamar Vieira Júnior encerra a trilogia sem curar as feridas; como Donana e Zeca Chapéu Grande, ele prefere semear perguntas. Num país que normaliza o desaparecimento dos seus jovens negros, “Coração Sem Medo” é denúncia e oração, é luto e ressurgimento. Lê-lo é aceitar o desconforto de encarar um Brasil na sua essência mais crua e reconhecer que, enquanto houver Ritas, haverá também a teimosa esperança de que possamos dar um novo rumo à História.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar



CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Musurgia Ensemble, Ensemble Med, New Collegium, William Carter, Ensemble Allettamento, Duo Suzanne e Coro CásterAntiqua
Direcção artística | João Francisco Távora, Hélder Sousa
Igreja Matriz, Bar do Centro de Artes de Ovar, Capela da Misericórdia, Capela do Calvário, Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, Centro de Artes de Ovar
27 e 28 de Fevereiro, 01, 05, 06, 07 e 08 de Março de 2026 


Arranca hoje a segunda edição do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, pelo que importa espreitar um programa que, ao longo das próximas duas semanas, promete fazer voltar a atenção dos melómanos para o fascinante mundo da música dos séculos XVI, XVII e XVIII. Como um rio subterrâneo que regressa à superfície, a música antiga reencontra abrigo em alguns dos mais emblemáticos lugares do património ovarense, convocando histórias de sonho e magia e memórias que não cessam de vibrar. Apresentado ao público no passado dia 20 de Fevereiro, o Festival traz com ele uma renovada promessa de qualidade e variedade, cruzando artistas e agrupamentos nacionais como o Musurgia Ensemble e o Ensemble Med, com os neerlandeses do New Collegium ou os espanhóis do Ensemble Allettamento, entre outros. Numa cidade comprometida com o sopro da história e aberta à respiração funda dos instrumentos de antanho, o público vai poder fazer de cada concerto uma travessia, de cada espaço um eco ampliado do tempo. E, tal como sucedeu na primeira edição do CásterAntiqua, vai poder fruir da música antiga não como peça de museu, mas como chama viva que ilumina o nosso próprio tempo, interrogando-o e completando-o.

Como quem franqueia uma porta há muito fechada, o Festival tem o seu início na Igreja Matriz com “Um Outro Café Zimmermann”, pelo Musurgia Ensemble. Sediado em Ovar, o agrupamento promete recriar o fervor musical da Leipzig setecentista, onde pairam, cúmplices, sobre a partilha sonora, os espíritos de Georg Philipp Telemann e de Johann Sebastian Bach. No sábado à noite o Bar do Centro de Artes de Ovar acolhe um “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”, evocando a confluência das religiões cristã, judaica e árabe, numa geografia onde a música é ponte e memória. O fim de semana termina na Capela da Misericórdia, ao final da tarde de domingo, com o concerto do New Collegium a dar a ver um Telemann camaleónico, de múltiplas máscaras e afectos. Entrando na segunda semana do Festival, o consagrado alaudista britânico William Carter convida-nos a imaginar um serão íntimo “no salão musical de Bach”, a prometer transformar a Capela do Calvário num espaço de intimidade e confidência. Será na quinta-feira, dia 05 de Março, pelas 21h00.

Na sexta-feira o Festival regressa à Igreja Matriz com as cordas dedilhadas do Ensemble Allettamento a conduzirem os presentes por “Folias, Chaconas e Fandangos”, danças que se espalharam por praças e palácios, moldando-se ao engenho de compositores que souberam fazer do ostinato uma arte de infinita metamorfose. Mas o CásterAntiqua não é apenas evocação: é também criação e promessa. A residência artística acolhida no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, atribuída por concurso internacional, dará palco, na tarde de sábado, ao Duo Suzanne, um jovem agrupamento emergente disposto a revelar-se entre a experiência e a ousadia. Também a comunidade encontra o seu lugar neste desígnio, o Coro CásterAntiqua, as sessões educativas e as visitas guiadas ao património a convergirem para que a música antiga não seja relíquia, mas pertença.

Ao Coro CásterAntiqua, sob a direcção do maestro Jorge Luís Castro, caberá a responsabilidade de encerrar o Festival, chamando ao Centro de Arte de Ovar, pelas 16h00 de domingo, Dia Internacional da Mulher, a música da compositora italiana Maddalena Casulana e várias outras vozes femininas que a História, por desatenção ou preconceito, deixou na penumbra. Fruto de dois meses de trabalho com a comunidade ovarense, o alinhamento do concerto irá estender-se entre madrigais e palavras, no que pode ser visto como uma homenagem, mas também uma reparação simbólica, devolvendo luz à criação feminina no Renascimento europeu e convidando o público a escutar com outros ouvidos, quiçá mais atentos e mais justos, alguns exemplares notáveis de uma realidade escondida. Assim se cumpre o desígnio maior desta segunda edição do CásterAntiqua: fazer do passado um horizonte habitável, onde tradição e contemporaneidade prometem entrelaçar-se num mesmo fôlego. Não se tratará apenas de revisitar repertórios antigos, mas de os reinscrever na vida presente da cidade, fazendo de cada igreja, de cada museu, de cada sala um lugar de encontro e comunhão, de dádiva e partilha.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: "Crónicas de uma Lisboa desconhecida"



EXPOSIÇÃO: “Crónicas de uma Lisboa desconhecida”
Curadoria | Paulo Almeida Fernandes
Museu de Lisboa - Palácio Pimenta
25 Jun 2025 > 22 Mar 2026


Patente no Palácio Pimenta – um dos cinco núcleos do Museu de Lisboa –, a exposição “Crónicas de uma Lisboa desconhecida” anuncia-se como uma revelação: “a cidade como nunca a vemos”. A promessa é ambiciosa e, em larga medida, cumprida. No Pavilhão Preto, o visitante percorre um mapa antigo que serve de chão e de metáfora, convocando uma Lisboa moderna e contemporânea, entre o final do século XVIII e os anos 1980. O roteiro, organizado em doze núcleos, propõe uma deriva geográfica e afectiva que começa no Terreiro do Paço - a monumental sala de vistas da cidade - para logo desviar o olhar para episódios laterais, como a insólita apanha da minhoca fotografada em 1972 por António Rafael. A estratégia curatorial, assumida por Paulo Almeida Fernandes e defendida por Joana Sopusa Monteiro, directora do Museu de Lisboa, aposta menos na “grande narrativa” e mais na micro-história, menos no ícone e mais no detalhe. O resultado é uma exposição que prefere o buraco da fechadura à janela avarandada, a nota de rodapé ao capítulo central. Uma escolha que, sendo arriscada, se revela coerente com a ambição de desmontar a imagem cristalizada da capital.

Ao longo do percurso cruzam-se bairros e tempos: o Chiado e o incêndio de 1988, as Avenidas Novas e a memória da primeira Feira Popular, a zona do Beato e a Manutenção Militar na Revolução dos Cravos. Mas é nas figuras convocadas que a exposição ganha densidade narrativa. O balonista italiano Vincenzo Lunardi, a poetisa Carolina Coronado ou a discreta primeira directora de museu Julieta Ferrão surgem ao lado de nomes maiores como os de Amália Rodrigues e Carlos Paredes, mas sempre por ângulos inesperados: a tentativa frustrada de transformar a Casa dos Bicos numa casa de fados ou a prisão no Hospital Dona Estefânia. Ao recentrar o discurso em episódios marginais, a mostra questiona a própria construção da memória urbana. Ainda assim, por vezes, a acumulação de pequenas histórias dilui a tensão crítica: o visitante oscila entre o encanto da curiosidade e a sensação de dispersão, como se a cidade infinita prometida se tornasse também excessivamente fragmentada.

Há, contudo, um mérito inegável nesta operação: mais de 95% das peças expostas estavam em reserva. Curvímetros, réguas de cálculo, caixas de bolachas ou máquinas de engomadoria emergem do silêncio das reservas para reclamar estatuto patrimonial. Ao iluminar o que permanecia na sombra, o Museu de Lisboa reafirma-se como laboratório de leitura da cidade contemporânea. A exposição amplia, assim, a sua vocação de exercício narrativo, ao encontro do gesto político de valorização do acervo e de revisão de hierarquias museológicas. Para uma mais íntima visita a cada um dos núcleos desta cidade escondida, tem o visitante ao seu dispor um conjunto de apontamentos da autoria de João Soares, António Raminhos, Isabel Almasqué ou Pedro Bebiano Braga, entre outros. “Crónicas de uma Lisboa desconhecida” pode não oferecer uma visão totalizante — nem o pretende —, mas devolve ao público a consciência de que a identidade urbana se constrói tanto com monumentos como com objectos banais, tanto com mitos como com episódios falhados. E, nessa recusa do óbvio, reside o seu maior mérito.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: "Edições Selecionadas. 2008 - 2024" | Alexandre Farto aka Vhils




EXPOSIÇÃO: “Edições Selecionadas. 2008 - 2024”,
de Alexandre Farto aka Vhils
Curadoria | Pedro Ferreira
MUDE - Museu Design Lisboa
17 Dez 2025 > 03 Mai 2026


Inaugurada no final do ano passado, a exposição “Edições Selecionadas. 2008 - 2024”, de Alexandre Farto aka Vhils, funciona como um mapa arqueológico de quase duas décadas de trabalho. São setenta e três obras que condensam um percurso iniciado na erosão das superfícies urbanas e expandido para múltiplos suportes, sem nunca abandonar a obsessão pelo rosto humano enquanto território estético e político. Dos dioramas aos azulejos, dos cartazes às risografias e publicações, o que se apresenta é, mais do que uma selecção de edições, a sedimentação de um método. Vhils sempre trabalhou por subtracção - escavando, perfurando, detonando -, com o fim de revelar camadas invisíveis da cidade. Aqui, essa lógica mantém-se, mas é traduzida para o espaço museológico com rigor quase laboratorial. O MUDE, ele próprio dedicado às linguagens do design e da cultura material, torna-se num lugar de fricção entre a rua e a instituição, o efémero e o arquivo, o gesto insurgente e a edição seriada.

Se os murais que espalhou pelo mundo - de Lisboa a Xangai, de São Paulo a Londres - consagraram Vhils como um dos nomes incontornáveis da arte urbana contemporânea, esta mostra evidencia algo mais subtil: a consistência conceptual que sustenta a diversidade formal. Nele, a multiplicação técnica não é dispersão, antes insistência. Possuidor de uma técnica inconfundível, explora o azulejo contemporâneo a ponto de o reinventar, fragmenta cartazes como quem desmonta a propaganda visual do quotidiano, constrói dioramas como se fossem cápsulas de memória social. Há sempre uma tensão entre destruição e revelação, entre ruína e identidade. Os rostos anónimos que emergem das superfícies corroídas são retratos de comunidades invisibilizadas, marcas de uma globalização que homogeneíza fachadas mas não apaga biografias. Ao trazer essas imagens para o formato de edição, Vhils democratiza o acesso sem diluir a intensidade, criando objectos que circulam como testemunhos portáteis de uma prática originalmente inscrita na escala monumental.

“Edições Selecionadas. 2008 - 2024” não é, por isso, uma retrospectiva convencional. É antes um ensaio sobre permanência. Ao reunir obras produzidas ao longo de dezasseis anos, a exposição revela como a pesquisa de Vhils permanece fiel a um núcleo ético: dar visibilidade ao que está soterrado. No contexto do MUDE, essa ética ganha uma nova e mais expressiva leitura. A edição, muitas vezes associada ao mercado e ao que é replicável, surge aqui como estratégia de resistência, como forma de preservar a memória de gestos que, na rua, estão condenados ao desgaste do tempo ou à voragem imobiliária. O visitante percorre a mostra como quem folheia um atlas de cicatrizes urbanas, reconhecendo nas superfícies escavadas não apenas uma técnica apurada, mas um compromisso com a história colectiva inscrita na matéria. Entre o realista e o poético, a exposição confirma a actualidade e a urgência do olhar de Vhils, afirmando-o como alguém capaz de transformar a erosão em linguagem e a memória em relevo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Josefa de Maltezinho



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Josefa de Maltezinho
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
18 Fev 2026 | qui | 17:00


A vigésima nona sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, promovidas pelo Centro de Reabilitação do Norte, voltou a provar que a palavra é, tantas vezes, o mais eficaz dos remédios. Na tarde de 18 de Fevereiro, as paredes habituadas ao silêncio abriram-se a uma respiração mais funda, feita de escuta e partilha. Dirigida muito especialmente aos utentes internados e às suas famílias, a iniciativa tem sido esse território de confluência onde o bem-estar se constrói devagar, como quem cose uma ferida com pontos de luz. Mas é, também, um momento de encontro com o livro enquanto objecto que acrescenta saber e enriquecimento, que desafia a clausura da doença e convida a viajar à descoberta de paisagens com outras e novas cores, longe do negro da imobilidade e da dependência, do branco asséptico de corredores e enfermarias. Cada sessão é uma pequena travessia, cada convidado um farol aceso na margem. Um farol que, na tarde da passada quarta-feira, teve nome literário e voz de mulher.

Josefa de Maltezinho, pseudónimo de Julieta Aleluia, nasceu no Porto, mas foi em Aveiro que aprendeu a soletrar o mundo e a permanecer. Professora do Ensino Básico, formada pela Universidade de Aveiro, guardou durante décadas cadernos e versos, como quem guarda sementes à espera de serem lançadas à terra na estação propícia. Em 2013 publicou “Água Corrente”, a que se seguiu o romance “Maçã com Bicho”. Regressou depois à poesia com “Porque um Rio Também se Cansa”, publicou em Espanha a edição bilingue “Otoño de Visita”, e continuou o seu caminho com “Uma Garfada de Sol no Umbigo”, “Fracturas Expostas”, “Solidão Assistida ou a Brutalidade do Quotidiano” e “Pela Lente do Repórter”. Em Julho de 2025, com a chancela da Editora Exclamação, deu à estampa “Elisa”, obra que serviu de ponto de partida para uma conversa que se quis inteira e sem rede.

Dos doentes e para os doentes, a tertúlia fez-se viva, intensa e livre. Antes de qualquer apresentação formal, os presentes quiseram saber tudo sobre a convidada, como se a curiosidade fosse uma urgência vital. A Teresa e o Alberto, a Diana, a Paula e tantos outros que fizeram questão de erguer a voz como quem segura na mão um espelho, reflectiram, opinaram, inquiriram e partilharam as suas inquietações sobre o papel da mulher, a sua educação para a resignação, a sua secundarização histórica, os lentos processos de emancipação. Olhando o romance “Elisa”, o moderador evocou Alfred Hitchcock e o seu “Janela Indiscreta” para colocar os presentes na pele de um James Stewart a observar vidas alheias através de uma janela imaginária: a mulher romena com a criança ao colo, abrigando-se da chuva; a outra que, entre gritos domésticos, é agredida. Em paralelo, emergiu a memória de tempos em que secretárias do Ministério dos Negócios Estrangeiros, enfermeiras, hospedeiras da TAP Air Portugal ou professoras não podiam ser casadas. Falou-se de Maio de 2000, data em que a violência doméstica passou a constituir crime público, mas também da persistência de mentalidades que ainda murmuram que “entre marido e mulher não se mete a colher”.

Na segunda parte da sessão, a poesia tomou a sala como um sopro. A leitura partilhada revelou uma autora multifacetada, atenta às imagens de violência que nos entram pela casa adentro à hora do jantar, trazidas pelos noticiários, mas igualmente sensível ao rumor de um tasco “à moda antiga” do Porto, onde a vida é servida em copos de três e as conversas se saboreiam sem tempo. A palavra poética, ali, não foi ornamento: foi bisturi e foi abraço. Interrogou-nos no que temos de mais cru, convidando cada um a revisitar a sua própria história. E quando a escritora encerrou a sessão com um elogio à iniciativa — pela cultura, pelo bem-estar de quem não se encontra nas melhores condições físicas e tanto precisa destes incentivos — percebeu-se que não foi apenas literatura o que ali se celebrou, antes a possibilidade de, mesmo em contexto de fragilidade, se continuar a crescer. Como uma resposta afirmativa e livre ao desejo de que cada livro aberto possa ser uma janela menos indiscreta e mais luminosa sobre a esperança.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

CONCERTO: Camané



CONCERTO: Camané
Com | Camané (voz), José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola), Paulo Paz (contrabaixo)
Teatro Aveirense
21 Fev 2026 | sab | 21:30


Camané subiu ao palco do Teatro Aveirense para mostrar o quanto a depuração pode arrastar em si a intensidade mais vertiginosa. Nada de gestos largos, nenhum artifício cénico a distrair a escuta, apenas a voz, erecta e sóbria, a rasgar o silêncio como uma lâmina, a talhar na penumbra a matéria invisível da emoção. Fiel a uma trajectória que fez da palavra território sagrado e da contenção instrumento dramático, Camané desenhou o concerto como rito de contenção e verdade. Instantes houve em que a sala pareceu suspensa no fio de um verso - “o amor quando se revela” -, como se a revelação fosse menos epifania do que espaço aberto na memória. Cada pausa foi acção, cada sílaba um gesto ético, cada inflexão uma escolha estética irrevogável. Nesse recolhimento atento, a emoção não se derramou, antes condensou-se até ganhar raízes. E foi nessa condensação, quase ascética, que o espectáculo encontrou grandeza rara, fazendo do silêncio não ornamento, mas pulsação secreta, nervo exposto que sustentou toda a arquitectura da noite.

Ao percorrer geografias diversas da sua discografia, Camané teceu o alinhamento do concerto como quem atravessa estações de uma mesma viagem interior, costurando tradição e reinvenção de forma lúcida e inteligente. A guitarra portuguesa de José Manuel Neto, a viola de Carlos Manuel Proença e o contrabaixo de Paulo Paz mostraram-se irrepreensíveis na construção de um tecido sonoro depurado, de transparência quase líquida, os acordes a surgirem como extensões orgânicas da respiração do fadista. A cumplicidade com Neto revelou-se em subtis oscilações de dinâmica, ora sustentando um dramatismo contido, ora abrindo clareiras de leveza melancólica, como em “Com Que Voz”, as palavras de Luís Vaz de Camões transmudadas em tristeza e dor. “Te Juro” foi promessa a ganhar densidade moral, “Fado Sagitário” fez o destino soar a constelação íntima, “Amar Não Custa” mostrou o quanto de afirmação estética pode residir na simplicidade e “Saudades Trago Comigo” não foram apenas verso, mas condição humana partilhada. Nada sobrou, nada faltou: tudo foi rigor melódico, dicção cristalina e uma intensidade a raiar o incêndio.

Pelo palco passaram as palavras de Sebastião Belfort Cerqueira, Manuela de Freitas, José Carlos Ary dos Santos, Pedro Homem de Mello, Alexandre O’Neill ou Pessoa, numa travessia que foi do “Fado Alfacinha” ao “Fado da Bica”, do “Fado Cravo” ao “Fado Moliceiro”, sem esquecer a “Casa da Mariquinhas”, como se cada fado fosse casa habitada por fantasmas luminosos. O contraponto de modernidade surgiu na poesia de Pedro Abrunhosa, enquanto a herança de José Mário Branco se impôs num conjunto de temas inspirados, com destaque para os incontornáveis “A Guerra das Rosas” e “Ela Tinha Uma Amiga”, momentos de tensão subtil e contida. “Fado Peniche” e “Sei de Um Rio” colheram aplausos prolongados, como se o público resistisse a regressar ao tempo comum. Mais do que concerto, esta hora e meia com Camané foi experiência de comunhão exigente, foi tradição e risco de mãos dadas, memória e presente entrelaçados. Foi narrativa contínua onde cada verso encontrou o seu exacto peso específico e cada silêncio disse mais do que qualquer excesso poderia ousar. Memorável!