Retrospectiva de um nome maior do fotojornalismo, “Leica Years” traz a fotografia de Alfredo Cunha ao Museu Nacional Soares dos Reis. Assinalando os cinquenta anos das Leica Galleries e convocando uma certa mitologia associada à marca alemã, a mostra é um desfilar de imagens icónicas que, no seu conjunto, desenham uma cartografia afectiva da história recente portuguesa e mundial, construída a partir de fragmentos descontínuos de memória, tensão e permanência. Alfredo Cunha não monumentaliza os acontecimentos, antes aproxima-se deles, o olhar permanentemente colado à matéria humana das situações. Seja nos rostos fatigados do interior português, nos instantes decisivos da Revolução de Abril ou nos cenários de África ou do Médio Oriente, as suas imagens não cessam de relevar a densidade silenciosa que subsiste na violência, na fragilidade e nas carências. As imagens expostas mostram que o estilo de Alfredo Cunha não depende da espectacularidade do enquadramento ou do dramatismo artificial da composição, mas sim da capacidade rara de reconhecer o instante exacto em que o real se torna imagem duradoura.
Ao percorrer a exposição, torna-se evidente que o fotojornalismo de Alfredo Cunha não se limita ao registo factual dos acontecimentos. Mesmo nas imagens mais reconhecíveis, existe uma atenção obstinada aos pequenos sinais laterais, aos detalhes aparentemente marginais que sobrevivem ao contexto imediato da imagem. O fotógrafo trabalha frequentemente no limiar entre documento e metáfora, e é isso que impede estas imagens de envelhecerem como simples arquivos históricos. Há nelas uma dimensão humana que ultrapassa a circunstância temporal. Muitas das fotografias apresentadas em “Leica Years” possuem a crueza do testemunho directo, mas simultaneamente revelam uma depuração formal que aproxima Alfredo Cunha da tradição humanista europeia. Não por acaso surgem ecos de Cartier-Bresson, Doisneau ou Eugene Smith, ainda que sem qualquer mimetismo académico. O fotógrafo português partilha com esses autores a convicção de que a fotografia é menos uma captura do instante do que uma forma de interpretação moral do mundo. Essa ética do olhar atravessa toda a exposição.
Alfredo Cunha pertence a uma geração de fotógrafos para quem olhar implica uma responsabilidade ética e política concreta. O seu trabalho nasce da proximidade física com os acontecimentos, da permanência no terreno, da disponibilidade para escutar antes de captar. Nas aldeias esquecidas, nos pescadores, nos trabalhadores rurais, nas crianças ou nos refugiados, existe sempre uma atenção à dignidade dos sujeitos fotografados. Alfredo Cunha não estetiza a pobreza nem instrumentaliza o sofrimento; observa-o com frontalidade e contenção, revestindo-o de uma enorme carga política. É nessa dimensão que “Leica Years” encontra a sua maior relevância. Mais do que celebrar uma carreira exemplar ou homenagear a longevidade das Leica Galleries, a exposição devolve centralidade a uma ideia hoje ameaçada: a de que a fotografia pode ainda funcionar como instrumento de memória crítica. Recusando qualquer leitura pacificada, as imagens de manifestações e conflitos permanecem actuais, reafirmando a urgência contemporânea do olhar de Alfredo Cunha. Aqui reside a principal qualidade de “Leica Years”, ao recordar que certas imagens sobrevivem não porque pertencem à história, mas porque continuam a ferir o presente.