Páginas

sexta-feira, 12 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: “Daniel Faria: Oito estações da Noite Escura”



EXPOSIÇÃO: “Daniel Faria: Oito estações da Noite Escura”,
de Nuno Higino, José Rui Teixeira, Raquel Patriarca, Andreia C. Faria, Paulo José Miranda, Maria Brás Ferreira, Rosa Alice Branco, Miguel Neves Oliveira, Paulo Neves, Celeste Ferreira, Avelino Leite, Nazaré Álvares, Agostinho Santos, Avelino Sá, Margarida Almeida
Curadoria | José Rui Teixeira
Centro Cultural de Paredes
12 Abr 2026 > 18 Abr 2027


“Daniel Faria: Oito estações da Noite Escura” não se deixa habitar como uma exposição; atravessa-se como quem desce uma sombria encosta levando nas mãos uma pequenina luz bruxuleante. Cada estação é menos um lugar do que uma suspensão, um apeadeiro entre a carne e o seu desaparecimento, entre a palavra dita e o seu eco subterrâneo. O itinerário concebido por José Rui Teixeira prolonga o movimento interior de “Dos Líquidos”, onde Daniel Faria escreve a matéria como quem tacteia um corpo em dissolução: a raiz, o musgo, a resina, os fluidos da terra e do sangue confundem-se numa gramática da perda e da revelação. A noite é sombra, mas é também uma forma extrema de claridade. Herdada de São João da Cruz, a “Noite Escura” surge como experiência de desapossamento, caminho de combustão mística onde o sujeito só alcança a visão depois de desaprender os nomes do mundo. As obras plásticas e os textos convidados não são uma mera ilustração da poesia de Daniel Faria: prolongam-lhe a respiração mineral. Em Miguel Neves Oliveira ou Paulo Neves, como nos fragmentos de Nuno Higino e José Rui Teixeira, sente-se que a matéria está sempre prestes a desaparecer dentro da sua própria fulguração, como se o visível tivesse sido tocado por uma fadiga sagrada.

Ao longo das oito estações, o corpo torna-se lentamente sepulcro e semente. Há em toda a exposição uma liturgia da escuta, uma pedagogia do silêncio que aproxima Daniel Faria dos místicos, mas também dos poetas para quem a linguagem nasce do seu próprio esgotamento. Raquel Patriarca escreve que “o silêncio não conhece a noite”; essa suspensão do tempo repercute-se nas peças de Celeste Ferreira e Avelino Leite, onde a forma parece emergir de um escuro anterior à memória. A noite de Daniel Faria nunca é decorativa ou simbólica: é orgânica, terrestre. Inspira, expira. Em “Dos Líquidos”, a água, a seiva e o sangue constituem uma cosmologia humilde onde tudo se vira para Deus antes de regressar à terra. Essa circulação reencontra-se nas obras de Nazaré Álvares e Agostinho Santos, onde o invisível ganha espessura táctil, como se cada objecto estivesse ainda coberto pela cinza de uma criação recente. Os textos de Andreia C. Faria e Paulo José Miranda aprofundam essa sensação de limiar: entre o dentro e o fora, entre claridade e apagamento, o homem permanece incompleto, aberto como uma ferida. A exposição insiste, assim, na ideia de que a espiritualidade não ascende, antes se inclina, desce, abeira-se da humidade e da ruína para encontrar aí a pureza da luz.

A última estação abre-se como um túmulo vazio. Não é o triunfa da ressurreição, antes uma discreta deslocação da matéria. “O corpo saído para o dia nada guarda”, escreve Rosa Alice Branco, destacando uma espécie de pureza luminosa que a exposição procura preservar. Daniel Faria surge aqui não apenas como poeta da transcendência, mas como alguém que compreendeu profundamente a fragilidade dos corpos e o modo como o divino se infiltra nas coisas mínimas: uma mão diante do espelho, a roupa gasta, o cheiro da terra molhada. As obras de Margarida Almeida e Avelino Sá encerram esse percurso sem o concluir verdadeiramente; deixam o visitante num estado de suspensão semelhante ao da oração ou do luto. Oito estações tornam-se então oito modos de aprender a morrer para o excesso de ruído do mundo. E talvez seja essa a experiência mais intensa desta exposição: devolver à poesia o seu antigo poder de iniciação, fazendo da leitura uma travessia nocturna onde cada palavra arde devagar, como uma lamparina junto ao sepulcro. Entre a raiz absoluta e o mais alto apagamento, Daniel Faria continua a falar-nos de um lugar onde a noite não termina — apenas floresce.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Vivian Maier - Antologia” | Vivian Maier



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Vivian Maier - Antologia”,
de Vivian Maier
Curadoria | Tessa Demichel
Produção | Terra Esplêndida
Centro Português de Fotografia
27 Mar > 30 Ago 2026


Mais do que assinalar o centenário do nascimento de Vivian Maier, esta exposição antológica parece convocar um fantasma. Nas mais de cento e quarenta imagens, a artista surge-nos não como biografia resolvida, mas como rasto, como uma sucessão de provas materiais de uma existência que se quis lateral ao mundo. Há, desde logo, um paradoxo inaugural nessa obra gigantesca: meticulosamente acumulada e simultaneamente subtraída ao olhar do público, a exposição não dissolve esse enigma, antes o intensifica ao organizar-se em núcleos que sugerem coerência onde talvez tenha existido apenas pulsão. O visitante atravessa as quatro amplas salas do Centro Português de Fotografia como quem percorre um arquivo íntimo violado pelo acaso, recordando que tudo começou com um leilão, um gesto administrativo que abriu uma caixa de Pandora visual. A curadoria opta por não explorar em excesso esta origem, preferindo deixar que as imagens sustentem o peso da revelação. E sustentam-no: cada fotografia parece conter uma reserva de silêncio, como se tivesse esperado décadas pelo instante de ser vista.

No núcleo mais formalista, percebe-se que Vivian Maier, mais do que procurar apenas o mundo, procurava um sistema de o ordenar. O enquadramento frontal, a economia de elementos ou a geometria quase involuntária dos objectos apontam para uma disciplina do olhar que roça a obstinação. Há imagens em que o referente se esvazia, cedendo lugar a linhas, ritmos, tensões discretas. Poder-se-ia acusar esta abordagem de frieza, de uma certa indiferença ao “assunto”, mas seria talvez ignorar que, na artista, a forma é já um princípio ético. Fotografar de frente, medir distâncias, insistir na justeza do equilíbrio, são gestos que recusam tanto o sentimentalismo como a dramatização. A exposição põe o dedo na ferida ao sublinhar esta dimensão, mostrando como o formalismo não é fuga, mas método de aproximação. Ao reduzir o mundo a relações visuais essenciais, Maier parece dizer que ver é, acima de tudo, escolher onde termina o excesso.

O núcleo dedicada aos retratos — sobretudo de mulheres, idosos, sem-abrigo — faz com que a tensão se desloque. Palavra-chave da prática artística de Vivian Maier, a distância torna-se ambígua, basculando entre a protecção e a intrusão. Há imagens roubadas, de relance, onde o sujeito permanece resguardado por uma espécie de véu invisível; noutras, o confronto é directo, quase brusco, como se a fotógrafa testasse os limites da tolerância alheia. Este jogo de aproximação e recuo expõe uma ética instável, por vezes desconfortável, que a exposição não procura suavizar. Pelo contrário, deixa ver a assimetria social inscrita em muitos destes encontros, bem como uma certa identificação com os mais vulneráveis e a ironia dirigida aos que exibem um ar ostentatório. Importa reconhecer que Vivian Maier é tudo menos inocente. A sua câmara participa, interfere, provoca. Nessa fricção ganham os retratos espessura, mostrando-se não apenas como documentos, mas acontecimentos. Reflexo, sombra ou silhueta, são inúmeros os casos em que a própria artista faz questão de se infiltrar na imagem, contaminando o rosto do outro com a sua presença espectral, como se todo o retrato fosse, inevitavelmente, um autorretrato disfarçado.

Há ainda um conjunto de secções dedicadas aos autorretratos, à rua e à infância que completam o percurso com uma espécie de declaração tácita: fotografar era, para Vivian Maier, uma forma de existir. Nos espelhos, vitrinas e poças de luz, a sua figura surge fragmentada, recusando a frontalidade, como se a identidade fosse sempre um desvio. Nas ruas de Nova Iorque e Chicago, a multidão transforma-se em matéria dramática mínima — gestos, olhares, roupas — onde o extraordinário se infiltra no banal sem grande alarde. E nas crianças, talvez por afinidade biográfica, encontra-se uma suspensão rara, um território onde o olhar é abertura, mas pode ser também defesa. A passagem à cor e ao filme, já tardia, introduz uma leveza inesperada, quase lúdica, sem romper com a lógica anterior, antes prolongando-a, como se a experiência cromática fosse apenas outra maneira de testar o real. No fim, a exposição deixa uma impressão persistente: a de que Maier nunca procurou “fazer obra”, mas sim habitar o intervalo entre ver e ser vista. Nesse intervalo, incerto e fértil, o seu trabalho não cessa de nos interpelar.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE ILUSTRAÇÃO: “Breviário Ilustrado do Tempo Contado”



EXPOSIÇÃO DE ILUSTRAÇÃO: “Breviário Ilustrado do Tempo Contado”,
de Sara Feio, Abigail Ascenso, Rachel Caiano, Uma Joana, Anabela Dias, Bárbara R., Mantraste, Helena Zália, Danuta Wojciechowska, Ricardo Ladeira, Sara Bandarra, Gonçalo Viana, Fedra Sandra, Carlo Giovani, Marta Torrão, Mafalda Milhões, Teresa Cortez, Cátia Vidinhas, Alex Gozblau, André Neves, Marta Madureira, Sebastião Peixoto, Margarida Botelho, Ana Biscaia, Tiago Galo
Curadoria | Mafalda Milhões
Rota Olhares e Contares do Lado de Lá
Festival Literário Correntes d'Escritas
Cine-Teatro Garrett, Póvoa de Varzim
21 Fev > 28 Fev 2026


Há projectos que nascem de uma pergunta simples e acabam por redesenhar um território inteiro. “Breviário Ilustrado do Tempo Contado” parte desse gesto inaugural de imaginar que as estátuas que habitam praças, rotundas e jardins poderiam, afinal, falar. Assim sendo, que histórias contariam sobre os espaços que guardam? Que memórias recolheram ao longo de anos ou décadas de silêncio? A partir dessa hipótese quase literária, o projecto da curadora Mafalda Milhões constrói uma proposta singular de mediação cultural: transformar monumentos quotidianos em matéria narrativa e visual. No centro desta ideia está também o território — Pombal, Castanheira de Pera e Sertã — reunido sob o signo sensorial do chamado Território 5 Sentidos. Em regiões marcadas pela baixa densidade populacional e por uma oferta cultural frequentemente intermitente, iniciativas como esta funcionam como pequenos faróis, convocando artistas, escritores e comunidades para reimaginar os lugares onde vivem. O processo é simples e ao mesmo tempo profundamente simbólico: primeiro os autores escrevem o território, depois vinte e cinco ilustradores escutam essas palavras e devolvem-nas na forma de imagens, transformando o património em experiência sensível.

A trajectória de Mafalda Milhões ajuda a compreender a dimensão deste gesto. Ilustradora, editora, livreira e mediadora de leitura, o seu trabalho tem insistido na ideia de que a cultura pode nascer longe dos grandes centros e irradiar a partir deles. Este “breviário”, mais do que um catálogo de imagens, torna-se assim um atlas afectivo onde o desenho funciona como forma de escutar os lugares e de devolver às comunidades uma narrativa visual sobre si próprias. As obras reunidas na exposição percorrem esse território imaginado como quem folheia um caderno de memórias partilhadas. Cada ilustrador aproxima-se de uma estátua ou monumento como quem se aproxima de uma personagem silenciosa, tentando adivinhar-lhe a respiração interior. Em torno do Soldado Desconhecido de Pombal, por exemplo, Anabela Dias transforma a memória da Guerra Colonial numa evocação íntima. Já Margarida Botelho olha para o Pelourinho da Sertã como quem observa um pequeno cosmos. Noutra latitude sensível, Ana Biscaia aproxima-se da figura do padre Manuel Antunes com um gesto quase meditativo. Há ainda a delicadeza poética de Tiago Galo, que imagina as estátuas a escutar as conversas dos pássaros, ou o olhar de André Neves, que convida o espectador a ver para além da cegueira das esculturas e a ouvir aquilo que apenas o coração reconhece.

Entre pelourinhos reinventados, monumentos ao emigrante carregados de ausência, cravos que se transformam em pássaros de liberdade ou heróis de pés de barro observados por pequenas criaturas irónicas, o conjunto constrói um mosaico onde história, memória e imaginação se entrelaçam. Cada ilustração acrescenta uma camada de humanidade à pedra, lembrando que os monumentos não são apenas marcas no espaço público, mas depósitos de vidas, partidas, regressos e sonhos colectivos. Apresentado no contexto das Correntes d’Escritas “Breviário Ilustrado do Tempo Contado” encontrou na Póvoa de Varzim um lugar deveras significativo. Um encontro literário dedicado à palavra torna-se também espaço para a imagem e para a ideia de que ler um território pode acontecer através de muitas linguagens. O projecto regressa à sua própria origem: nasceu do encontro entre escritores e ilustradores, vindo a abraçar um festival onde a literatura continua a ser ponto de partida para novas formas de criação. Há também um gesto simbólico neste movimento geográfico. Se o projecto nasce em territórios afastados dos grandes centros culturais, a sua presença num evento internacional como as Correntes d’Escritas amplia essa voz periférica, fazendo chegar ao litoral histórias vindas do interior. Quando alguém decide escutar o silêncio dos lugares, até as estátuas acabam por contar histórias.

terça-feira, 9 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “É Preciso Espaço Para Falhar” | Márcia



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “É Preciso Espaço Para Falhar”,
de Márcia
Centro de Artes de Ovar
25 Abr > 31 Jul 2026


“Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada”
Márcia (excerto do poema “A Pele Que Há Em Mim”, 2010)

Inaugurada no passado dia 25 de Abril, “É Preciso Espaço para Falhar” transforma a galeria de exposições do Centro de Artes de Ovar num território de suspensão. Ali, o desenho, a pintura, a fotografia e a instalação, da autoria de Márcia, insinuam-se como presença, quase corpo, quase respiração. Dando a ver uma faceta menos conhecida do grande público, Márcia revela-se numa espécie de continuidade subterrânea entre a escrita das suas canções e os trabalhos agora expostos, nos quais se percebe a mesma tendência para transformar a fragilidade em matéria expressiva, a mesma recusa da superfície imediata, o mesmo desejo de procurar no íntimo uma forma de verdade. Se nas suas canções, Márcia trabalha o silêncio, a suspensão e a palavra contida, aqui fá-lo através da cor, da linha e da composição. “É Preciso Espaço Para Falhar” não surge, por isso, como exercício lateral de uma artista conhecida, mas como revelação de um mesmo universo interior expresso noutra gramática. Há nesta exposição um território de procura, insistência e imperfeição, uma consciência aguda de que a criação nasce frequentemente da falha, da fissura e da tentativa inacabada.

O título da exposição funciona como uma verdadeira carta de intenções. Aqui, falhar deixa de significar insuficiência para passar a significar disponibilidade, espaço aberto para experimentar, hesitar, procurar e, sobretudo, permanecer vulnerável diante do acto criativo. Muitas das obras parecem nascer de um território doméstico e emocional cuidadosamente preservado, como se o atelier da artista fosse simultaneamente refúgio, confissão e palco interior. Em várias composições, objectos banais emergem discretamente da penumbra simbólica: uma cadeira vazia, uma guitarra abandonada num canto, uma chávena de café pousada sobre a mesa. Elementos quotidianos, quase invisíveis à primeira vista, mas que acabam por estruturar silenciosamente a relação afectiva da artista com o seu próprio espaço. Não são adereços, antes vestígios da sua presença, sinais de uma vida em curso que continua para lá da tela. Essa capacidade de transformar objectos comuns em lugares emocionais faz com que a exposição nunca resvale para o hermetismo conceptual; mesmo nas obras mais simbólicas existe sempre qualquer coisa de profundamente humano que nos devolve ao reconhecimento de nós próprios.

Ao longo do percurso expositivo percebe-se também o amadurecimento técnico e expressivo de uma artista que, apesar de se apresentar publicamente pela primeira vez neste território, trabalha estas linguagens há décadas. O desenho, o pastel seco, a pintura e a instalação coexistem sem hierarquias rígidas, unidos por um gesto emocional de enorme coerência. Algumas obras mantêm a fragilidade experimental dos primeiros gestos; outras revelam já um domínio seguro da composição e da cor, sobretudo nas obras de maior formato, onde os contornos negros e a vibração cromática criam atmosferas complexas. Márcia não procura impressionar através do virtuosismo técnico nem construir uma persona de artista visual desligada de uma vida dedicada à música. No silêncio da ampla galeria do Centro de Artes, perceberá o visitante que Márcia continua a cantar, tendo apenas trocado a melodia pela cor, a palavra pela matéria do olhar. A exposição estará patente ao público até ao final de Julho e é merecedora de visita atenta e dedicada.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: Colecção do Museu Bordalo Pinheiro



EXPOSIÇÃO: Colecção do Museu Bordalo Pinheiro
Museu Bordalo Pinheiro
Inauguração a 15 Jan 2026. Exposição de Longa Duração


No passado dia 15 de Janeiro, o Museu Bordalo Pinheiro abriu as portas à sua nova Exposição de Longa Duração, propondo uma leitura renovada da vida e obra de Rafael Bordalo Pinheiro. Logo na sala inaugural, “A Situação… pela Lente de Bordalo”, o visitante é transportado para a segunda metade do século XIX, tempo de revoluções tecnológicas, expansão da imprensa e intensificação das trocas internacionais. É nesse mundo em aceleração que o artista constrói o seu olhar crítico. A monarquia constitucional, a alternância partidária e o peso da Igreja surgem como alvos recorrentes da sua crónica humorística semanal, onde texto e imagem se entrelaçam numa análise mordaz da actualidade. Bordalo acompanha atentamente conflitos europeus, ambições coloniais e tensões diplomáticas, revelando um patriotismo inflamado, simultaneamente crítico dos governos e atento ao papel económico das colónias. Liberal, anti-monárquico e socialmente comprometido, sonha com a República e com um país mais justo, mas fá-lo sem abdicar da complexidade das suas posições. O riso, aqui, não é mero entretenimento: é ferramenta de intervenção, lente de aumento das fragilidades do sistema e convite insistente à mudança.

Em “Jogos de Humor: do Desenho à Cerâmica” e “Figuras e Personagens”, as duas salas seguintes, a exposição aprofunda a dimensão inventiva de Bordalo e a amplitude do seu talento. Mestre da caricatura, atento às correntes internacionais e dotado de sólido conhecimento técnico, desenvolve uma linguagem gráfica própria, marcada por exageros expressivos, metamorfoses surpreendentes e composições arrojadas que exploram o potencial narrativo da página. O visitante acompanha o processo que vai da figura isolada à construção de sequências, antecipando soluções da banda desenhada moderna. Muitos desses jogos visuais transitam para a cerâmica, onde personagens e símbolos ganham volume e presença física. Entre as criações mais emblemáticas destaca-se o Zé Povinho, síntese irónica do povo português, simultaneamente ingénuo, resignado e capaz de súbita irreverência. Ao seu lado surge a Maria da Paciência, figura que oscila entre o comentário moral e a voz da tradição lisboeta. Políticos, escritores e actores são retratados com acuidade física e psicológica, renovando-se a cada situação desenhada ou modelada. Nesta galeria de tipos e personagens percebe-se como Bordalo construiu um universo próprio, a sátira transformada em crónica social e a arte em memória crítica de um tempo.

A cidade ganha protagonismo em “Os Palcos de Lisboa” e “Comédia Político-Burlesca”, onde se percebe como Rafael Bordalo Pinheiro transforma o quotidiano num grande cenário crítico. Lisboa é simultaneamente tema, palco e personagem: uma capital em mutação, que se quer moderna e cosmopolita, mas onde persistem bolsas de pobreza, desigualdades profundas e marcas de ruralidade. Bordalo observa-a por dentro - nos teatros, nas redacções, nas ruas, nas procissões e nos arraiais - e por fora, atento às suas transformações urbanas, às montras, aos cartazes, às novas sociabilidades burguesas. A política surge como uma encenação permanente, uma “comédia político-burlesca” em vários actos, onde ministros e deputados vestem papéis conforme a conveniência e trocam de máscara ao sabor das maiorias parlamentares. O teatro funciona como metáfora estruturante: há palcos e bastidores, ilusões e truques de cena, aplausos e vaias. Nesse grande espetáculo do absurdo, o Zé Povinho tanto aparece adormecido na plateia como reage com o célebre manguito, gesto que se tornaria ícone de contestação. A sátira à dívida pública, às obras faraónicas, às eleições manipuladas ou às crises governativas convive com referências às modas, aos costumes e às festas populares, compondo um fresco vibrante e mordaz da sociedade portuguesa oitocentista.

O percurso culmina em “Tragicomédia sem Limites” e “O Lápis como Arma”, núcleos que sublinham a dimensão mais combativa e, simultaneamente, mais incómoda da obra de Bordalo. Nada nem ninguém escapa ao seu olhar: instituições, figuras públicas, práticas religiosas, preconceitos sociais e raciais, estereótipos de género. Algumas dessas imagens, hoje confrontadas com novas sensibilidades, obrigam o visitante a questionar os limites do humor e a reconhecer nelas o espelho de uma mentalidade do século XIX. A exposição não as oculta; contextualiza-as, convidando à reflexão crítica sobre o riso como arma ambivalente, libertadora e, por vezes, violenta. Num período de crescente repressão, com a imprensa sob ameaça de censura e o espaço público vigiado, Bordalo assumiu o desenho como instrumento de intervenção cívica. O lápis tornou-se metáfora e prática de resistência. Denunciou abusos de poder, expôs incoerências, celebrou feitos anónimos e instigou a mudança. Mais do que uma retrospectiva biográfica, esta nova Exposição de Longa Duração afirma a actualidade de um criador total - caricaturista, ceramista, empresário, homem de teatro - cujo humor continua a interpelar-nos. Ao sair, o visitante percebe que rir, em Bordalo, nunca foi um gesto inocente: foi sempre uma forma de pensar o país e de o imaginar diferente.

domingo, 7 de junho de 2026

“Inventarium: Derivas da Forma” | Ana Aragão



EXPOSIÇÃO: “Inventarium: Derivas da Forma”,
de Ana Aragão
Esculturas | Frederico Diz
Casa Comum – Reitoria da Universidade do Porto
13 Abr > 12 Set 2026


Patente ao público na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto desde o passado dia 13 de Abril, a exposição “Inventarium: Derivas da Forma” inscreve-se num território onde o desenho se emancipa da sua condição de esboço para se afirmar como matriz plena de possibilidades. Distribuído por três salas, o percurso propõe um diálogo aberto entre a bidimensionalidade e o volume, construindo uma narrativa onde a linha deixa de ser gesto para se tornar génese. Densos na sua aparente leveza, os desenhos de Ana Aragão afirmam-se como dispositivos conceptuais em permanente expansão, recusando o fechamento formal e abrindo-se a sucessivas reinterpretações. Ao transitar para a escultura pelas mãos de Frederico Diz, este universo gráfico não se esgota nem se ilustra; antes se desloca, ganha corpo e contradiz a ideia de que a tridimensionalidade constitui um ponto de chegada. Há, neste gesto curatorial, uma inteligência subtil: a de expor o processo sem o cristalizar, permitindo que o visitante acompanhe a deriva das formas como quem observa um pensamento a acontecer.

Mais como fantasma do que como prática, o trabalho de Ana Aragão encontra na arquitectura o seu campo de tensão. As suas “anagrafias” urbanas, traçadas com uma minúcia quase obsessiva, não pretendem representar cidades no sentido convencional, mas sim cartografar experiências. Cada linha parece carregar uma memória, cada aglomerado sugere uma vivência, e é nessa ambiguidade, entre o rigor técnico e a imaginação afectiva, que reside a força da sua obra. Não se trata de edifícios, mas de vestígios humanos; não de plantas, mas de pulsações. Ao deslocar estas composições para o espaço escultórico, a exposição assume o risco de traduzir o íntimo em objecto. E, surpreendentemente, fá-lo sem trair a essência do desenho. As esculturas não impõem uma leitura, antes prolongam a hesitação original, preservando a ideia de cidade como organismo incompleto e mutável. O resultado é uma geografia emocional que se constrói tanto na precisão da linha como na sua capacidade de sugerir o indizível.

Entre a obstinação e a euforia, como alguém que se recusa a aceitar os limites da página, a artista constrói um universo onde cada linha é, simultaneamente, começo e desvio. É precisamente nesta ambição expansiva que a exposição enfrenta o seu maior desafio. Ao insistir na ideia de sistema aberto, de obra em permanente desdobramento, tem-se a percepção de que a tensão que torna os desenhos de Aragão tão singulares tende a diluir-se. A passagem ao volume, embora conceptualmente coerente, nem sempre mantém a mesma intensidade poética, por vezes aproximando-se de uma literalidade que o desenho sabiamente evita. Ainda assim, há momentos de verdadeira revelação, em que a transposição não só funciona como amplifica a experiência original, conferindo-lhe uma presença inesperada. O que permanece, no final, é a convicção de que Ana Aragão não desenha para representar, mas para pensar. Inventário de formas, este “Inventarium” é sobretudo um ensaio sobre a sua infinita possibilidade.

sábado, 6 de junho de 2026

LIVRO: “O Processo” | Dulce de Souza Gonçalves



LIVRO: “O Processo”,
de Dulce de Souza Gonçalves
Ed. Gradiva Publicações, Outubro de 2025


“ (...) - Tem sido algo muito intenso descobrir tudo isto, falar com todas estas pessoas. Ganhei um enorme respeito e consciência da dimensão deste legado. A nossa geração não sabe, nem consegue conceber, o que este país foi. Talvez por isso não nos indignemos para além da indignação.”

A atribuição do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2024 a “O Processo”, de Dulce de Souza Gonçalves, encontra justificação plena na forma como combina uma narrativa desenvolta, o rigor histórico e a profundidade humana. Estruturado em sete tomos que acompanham uma trajectória simultaneamente íntima e colectiva, o romance parte de um episódio familiar para construir uma cuidada reflexão sobre a repressão política nos derradeiros anos do Estado Novo. Alter ego da escritora, a narradora Carolina assume a tarefa de reconstituir os tempos de luta e resistência do tio Carlos, até à sua prisão e tortura pelos esbirros da PIDE/DGS, convertendo uma investigação documental numa demanda moral e existencial. Escapando aos lugares-comuns da ficção histórica e a uma previsível narrativa panfletária, a autora opta por explorar as zonas de sombra da experiência humana, interrogando as fronteiras entre coragem e fragilidade, memória e esquecimento, verdade e reconstrução. O resultado é um romance emotivo e envolvente, que tem na pesquisa histórica o seu fio condutor e elemento estruturante de uma narrativa capaz de transformar ausências, silêncios e lacunas arquivísticas em matéria literária de enorme qualidade.

A escrita de Dulce Souza Gonçalves distingue-se igualmente pela maturidade com que aborda um dos temas mais difíceis da história da resistência antifascista: a capitulação sob tortura. Num contexto em que a memória pública tende frequentemente a procurar heróis infalíveis, “O Processo” revela uma admirável capacidade de compreensão da complexidade humana. A questão do “falar” nos interrogatórios da polícia política atravessa toda a narrativa sem que a autora ceda à tentação do julgamento retrospectivo ou da exploração sensacionalista do sofrimento. Pelo contrário, a obra procura compreender os mecanismos da violência psicológica e os limites da resistência individual, reconhecendo que a sobrevivência é, muitas vezes, feita de escolhas impossíveis. Paralelamente, o romance retrata uma geração marcada pela clandestinidade, pelo exílio, pela esperança revolucionária e pelas desilusões subsequentes, compondo um fresco social de grande amplitude. As histórias de amor que, em paralelo, atravessam a narrativa, bem como o retrato das relações familiares e dos conflitos ideológicos da época, acrescentam à obra a espessura necessária, equilibrando-a nessa linha imprecisa que separa a realidade da ficção.

Mas “O Processo” é também um romance sobre a própria construção da memória e sobre o acto de escrever. Carolina não procura apenas descobrir o que aconteceu ao tio; procura compreender quem é e de que forma o passado continua a habitar o presente. A investigação histórica transforma-se gradualmente numa reflexão sobre identidade, herança e pertença, conferindo à narrativa uma dimensão universal. Da matéria de que é feito “O Livro”, até ao momento em que verá a luz do dia, Dulce de Souza Gonçalves faz do processo de escrita matéria partilhável, vertendo o próprio leitor no cerne da criação literária. A prosa revela-se simultaneamente fluida e reflexiva, capaz de alternar entre momentos de grande intensidade emocional e passagens de aguda lucidez intelectual. Sem perder de vista o contexto político dos anos finais da ditadura, a autora constrói um romance profundamente humano, questionando documento e testemunho, memória e realidade, História e ficção, e levando-os a dialogar com as questões centrais da historiografia contemporânea. Desta forma, “O Processo” afirma-se como uma das mais interessantes obras recentes dedicadas ao advento do Estado Novo, provando que a literatura continua a ser um instrumento privilegiado de reflexão e tomada de consciência daquilo que fomos e somos.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: “A Mulher e a Constituição”



EXPOSIÇÃO: “A Mulher e a Constituição”,
de Albertina Santos, Alzira Neves, Ana Fernandes, Ana Gomes, Ana Maria Fernandes/A.fe, Balbina Mendes, Carmo Diogo, Celeste Ferreira, Céu Costa, Conceição Tavares, Cristina Alves, Cristina Sardoeira, Dina Aguiar, Dulce Barata Feyo, Eduarda Ferreira, Elizabeth Leite, Emília Carvalho, Emília Duque, Estela Gomes, Evelina Oliveira, Felícia, Fernanda Araújo, Filomena Silva Campos, Gina Marrinhas, Hermínia Cândido, Inês Sousa Cardoso, Isabel Babo, Isabel Braga, Isabel Cabral, Isabel Lima, Isabel Mourão Alves, Isabel R. Dolgon, Joana Antunes, Júlia Pintão, Leonor Sousa, Luísa Pinheiro, Luísa Prior, Madalena Macedo, Mafalda Rocha, Manuela Bronze, Maria José Rodrigues, Mónica Silva, Nazaré Álvares, Nucha Cardoso, Odete Pinheiro, Otília Santos, Rosa Bela Cruz, Rosa Dixe, Teresa Gil, Violante Saramago Matos
Curadoria | Rosalina Santos
Centro Cultural de Paredes
02 Abr > 31 Jul 2026


Exposição colectiva patente no Centro Cultural de Paredes, “A Mulher e a Constituição” nasce de uma coincidência histórica que ultrapassa o mero calendário comemorativo. Cinquenta anos depois da aprovação da Constituição da República Portuguesa de 1976, regressa ao espaço público uma reflexão que continua longe de estar encerrada: a da condição feminina em democracia. O enquadramento histórico desta mostra lembra, com uma clareza desconfortável, o quão recente é a consagração legal da igualdade entre homens e mulheres em Portugal. Antes da Constituição democrática, o país habituara-se a uma ordem jurídica onde as diferenças eram não apenas aceites, mas institucionalizadas. A mulher dependia da autorização do marido para viajar, trabalhar ou conservar a nacionalidade; professoras precisavam de consentimento ministerial para casar; enfermeiras casadas podiam ser afastadas da profissão; o adultério feminino podia ainda justificar a violência masculina perante a lei. A memória destas disposições, hoje quase inacreditáveis, percorre silenciosamente a exposição, funcionando como subtexto político de todas as obras reunidas.

Com curadoria de Rosalina Santos, a mostra reúne cinquenta artistas mulheres, convocadas para responder plasticamente a meio século de democracia constitucional. O resultado evita a armadilha da ilustração celebratória e opta por um território de inquietação, onde coexistem memória, denúncia, identidade e resistência. As obras apresentadas recusam uma linguagem uniforme e afirmam a pluralidade do olhar feminino contemporâneo. Há pintura que parte do corpo como território político; outras obras interrogam o silêncio doméstico, a herança patriarcal ou a erosão das conquistas sociais; algumas aproximam-se da abstração lírica, enquanto outras optam por um registo simbólico e frontal. Essa diversidade torna-se uma das maiores forças da exposição: não existe uma mulher, nem uma narrativa única sobre emancipação. Existe antes uma constelação de experiências e sensibilidades que revelam como o feminino permanece atravessado por tensões sociais, laborais, afectivas e culturais, devolvendo ao presente a consciência de que os direitos adquiridos não são abstracções jurídicas, mas conquistas concretas, demoradas e frágeis.

O aspecto mais significativo de “A Mulher e a Constituição” reside no facto de não apresentar respostas definitivas. Ao invés de proclamar uma vitória histórica consumada, a exposição insiste nas zonas de fricção entre igualdade legal e realidade quotidiana sempre presentes. Cinquenta anos depois da Constituição, o país continua confrontado com disparidades salariais, violência doméstica, precariedade laboral feminina e sub-representação em múltiplos espaços de decisão. O discurso artístico destas cinquenta mulheres não surge, por isso, como exercício ornamental ou celebratório, mas como gesto crítico e profundamente político. Há nesta colectiva uma dimensão de testemunho geracional, mas também de vigilância democrática. O que se observa na vasta galeria de exposições do Centro Cultural de Paredes não é apenas pintura. É a afirmação de uma voz colectiva que reclama memória, presença e continuidade. Assinada no feminino, esta exposição recorda que a democracia não se esgota no texto constitucional. Cumpre-se, ou falha, na experiência concreta dos corpos, das vidas e das liberdades.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “Gravidade e(m) Suspensão” | Nazaré Álvares



EXPOSIÇÃO DE EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “Gravidade e(m) Suspensão”,
de Nazaré Álvares
Curadoria | Agostinho Santos
Casa da Cultura de Paredes
03 Mai > 13 Jun 2026


“Muito relacionada com a observação da contemporaneidade, usando a tela enquanto espaço de anotação e denúncia, Nazaré Álvares age com bravura ainda que toda a sua mensagem tenha que ver que nos sentimos predados, em risco, sucumbindo. Digo bravura porque as suas imagens são fortes, a sua figuração assume o feio e o incompleto, não se adorna para efeitos prazerosos, não há cosmética na sua obra. Tudo é debaixo da máscara. De alguma maneira, tudo é mostrado como por debaixo de todos os disfarces.”
Valter Hugo Mãe

Patente na Casa da Cultura de Paredes até ao próximo dia 13, a exposição “Gravidade e(m) Suspensão” mostra Nazaré Álvares como uma das vozes mais inquietas e insubmissas no actual panorama da pintura portuguesa contemporânea. Reunindo desenho e pintura numa convivência orgânica, a artista regressa a dois núcleos temáticos que têm marcado o seu trabalho recente - o auto-retrato e a imagem da torre de Babel - para os submeter a uma tensão simultaneamente íntima e simbólica. A arista escapa à armadilha da revisitação historicista, transformando os seus trabalhos num exercício de deslocação contemporânea, onde o peso da tradição é continuamente corroído por uma linguagem pictórica nervosa, crua e emocionalmente exposta. Há uma gravidade evidente nestas obras, não apenas no sentido material da tinta espessa, da pincelada pesada e da densidade do desenho, mas sobretudo na dimensão existencial que percorre cada figura. Toda a mostra parece oscilar entre o peso do corpo e uma estranha suspensão psicológica, como se as figuras habitassem um espaço intermédio entre a queda e a permanência. Suspensos entre resistência e vulnerabilidade, os corpos gastos e os rostos inquietos são aqui matéria e desconforto.

Existe em toda a exposição uma recusa deliberada do decorativismo e uma insistência quase ética na verdade emocional da representação. Nazaré Álvares parece interessar-se menos pela imagem exterior do rosto do que pelas marcas invisíveis da experiência humana - fadiga, memória, solidão, desgaste -, transformando o retrato num espaço de exposição interior raramente confortável. A artista trabalha o próprio rosto como território de confronto. Rejeitando exercícios narcísicos ou autobiográficos inconsequentes, cada obra parece colocar em causa a estabilidade da identidade. Vincadamente expressionistas, estes rostos mostram uma frontalidade difícil de sustentar na erosão emocional que deles se desprende. Pinceladas interrompidas, zonas aparentemente inacabadas, sobreposições violentas de tinta e uma paleta contida, dominada por negros, ocres e vermelhos densos, constroem figuras cuja carne é, simultaneamente, presença física e ferida psicológica. O desenho acompanha esta intensidade sem funcionar como mero suporte preparatório; pelo contrário, prolonga a dimensão diarística e confessional da pintura. As linhas surgem tensas, fragmentadas, como se registassem pensamentos ainda em estado bruto.

A presença recorrente da torre de Babel introduz uma dimensão mais ampla e simbólica no percurso da exposição. Longe de surgir como simples referência erudita à tradição ocidental, Babel aparece aqui como metáfora da instabilidade contemporânea, da incomunicabilidade e da permanente fragmentação do sujeito. Ao colocar estas estruturas verticais em diálogo com os auto-retratos, Nazaré Álvares estabelece uma ponte subtil entre e a vulnerabilidade individual e o colapso colectivo. A suspensão sugerida no título ganha uma nova força, não apenas pela sugestão do estado psicológico das figuras, mas também pela sensação civilizacional de desequilíbrio e ruína latente que exprime. Formalmente, a artista demonstra um domínio técnico sólido, perceptível tanto na construção compositiva como na relação entre desenho e pintura, ao serviço de uma fortíssima tensão expressiva. Essa ausência de artifício complacente faz de “Gravidade e(m) Suspensão” uma exposição particularmente relevante pelo que se desprende de uma pintura lenta, física e emocionalmente exigente, na qual olhar é confrontar.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Leica Years" | Alfredo Cunha



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Leica Years”,
de Alfredo Cunha
Museu Nacional Soares dos Reis
09 Mai > 26 Jul 2026


Retrospectiva de um nome maior do fotojornalismo, “Leica Years” traz a fotografia de Alfredo Cunha ao Museu Nacional Soares dos Reis. Assinalando os cinquenta anos das Leica Galleries e convocando uma certa mitologia associada à marca alemã, a mostra é um desfilar de imagens icónicas que, no seu conjunto, desenham uma cartografia afectiva da história recente portuguesa e mundial, construída a partir de fragmentos descontínuos de memória, tensão e permanência. Alfredo Cunha não monumentaliza os acontecimentos, antes aproxima-se deles, o olhar permanentemente colado à matéria humana das situações. Seja nos rostos fatigados do interior português, nos instantes decisivos da Revolução de Abril ou nos cenários de África ou do Médio Oriente, as suas imagens não cessam de relevar a densidade silenciosa que subsiste na violência, na fragilidade e nas carências. As imagens expostas mostram que o estilo de Alfredo Cunha não depende da espectacularidade do enquadramento ou do dramatismo artificial da composição, mas sim da capacidade rara de reconhecer o instante exacto em que o real se torna imagem duradoura.

Ao percorrer a exposição, torna-se evidente que o fotojornalismo de Alfredo Cunha não se limita ao registo factual dos acontecimentos. Mesmo nas imagens mais reconhecíveis, existe uma atenção obstinada aos pequenos sinais laterais, aos detalhes aparentemente marginais que sobrevivem ao contexto imediato da imagem. O fotógrafo trabalha frequentemente no limiar entre documento e metáfora, e é isso que impede estas imagens de envelhecerem como simples arquivos históricos. Há nelas uma dimensão humana que ultrapassa a circunstância temporal. Muitas das fotografias apresentadas em “Leica Years” possuem a crueza do testemunho directo, mas simultaneamente revelam uma depuração formal que aproxima Alfredo Cunha da tradição humanista europeia. Não por acaso surgem ecos de Cartier-Bresson, Doisneau ou Eugene Smith, ainda que sem qualquer mimetismo académico. O fotógrafo português partilha com esses autores a convicção de que a fotografia é menos uma captura do instante do que uma forma de interpretação moral do mundo. Essa ética do olhar atravessa toda a exposição.

Alfredo Cunha pertence a uma geração de fotógrafos para quem olhar implica uma responsabilidade ética e política concreta. O seu trabalho nasce da proximidade física com os acontecimentos, da permanência no terreno, da disponibilidade para escutar antes de captar. Nas aldeias esquecidas, nos pescadores, nos trabalhadores rurais, nas crianças ou nos refugiados, existe sempre uma atenção à dignidade dos sujeitos fotografados. Alfredo Cunha não estetiza a pobreza nem instrumentaliza o sofrimento; observa-o com frontalidade e contenção, revestindo-o de uma enorme carga política. É nessa dimensão que “Leica Years” encontra a sua maior relevância. Mais do que celebrar uma carreira exemplar ou homenagear a longevidade das Leica Galleries, a exposição devolve centralidade a uma ideia hoje ameaçada: a de que a fotografia pode ainda funcionar como instrumento de memória crítica. Recusando qualquer leitura pacificada, as imagens de manifestações e conflitos permanecem actuais, reafirmando a urgência contemporânea do olhar de Alfredo Cunha. Aqui reside a principal qualidade de “Leica Years”, ao recordar que certas imagens sobrevivem não porque pertencem à história, mas porque continuam a ferir o presente.

terça-feira, 2 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “Cavaleiro Faria, um desenhador português do século XVIII”



EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “Cavaleiro Faria, um desenhador português do século XVIII”,
de Cavaleiro Faria
Museu Nacional Soares dos Reis
23 Abr > 28 Jun 2026


Na sequência das recentes exposições dedicadas aos “Desenhos de Mestres Europeus em Colecções Portuguesas”, “Cavaleiro Faria, um desenhador português do século XVIII” vem confirmar a atenção que o Museu Nacional Soares dos Reis dá ao desenho. A mostra surge ao abrigo do programa “Museu Nacional de Arte Antiga no Museu Nacional Soares dos Reis” e através dela é manifesta a intenção de devolver à discussão pública uma figura singular do desenho português setecentista. Envolto durante décadas na incerteza, o nome do artista conhecido pela assinatura “Eques Faria” surge agora plenamente identificado como Inocêncio de Faria e Aguiar, funcionário do Conselho da Fazenda, Cavaleiro da Ordem de Cristo e homem ligado à administração régia. A revelação da sua identidade não esgota, contudo, o fascínio da obra. Pelo contrário, amplia-o, porque o que surpreende nestes desenhos realizados a pena e tinta castanha é precisamente a tensão entre o rigor burocrático da escrita e a liberdade errante da pena.

Sem formação académica conhecida e desenhando num quase anonimato, Cavaleiro Faria construiu uma obra profundamente moderna na forma como regista o quotidiano. As romarias, as estalagens, os exercícios militares, as aldeias ou as ruínas clássicas mostram-se como fragmentos vivos de uma sociedade em transformação, captados por um artista que parece desenhar com o intuito de compreender o mundo e de, em simultâneo, o reinventar graficamente. A importância desta mostra reside ainda na possibilidade de reenquadrar o desenho português no contexto mais vasto da tradição europeia dos séculos XVII e XVIII, um tempo em que Nicolas Poussin, Charles Le Brun, Giovanni Battista Tiepolo ou Jean-Honoré Fragonard, entre outros, deslocavam o desenho para um espaço de intimidade, dando primazia à imaginação antes mesmo da matéria pictórica. É precisamente essa autonomia do desenho que a obra de Cavaleiro Faria convoca. Embora afastado das grandes escolas europeias e das encomendas oficiais da pintura histórica, o artista português partilha com esses mestres a capacidade de fazer do gesto gráfico uma linguagem plena, através da qual a economia de meios intensifica a expressividade do olhar.

A recuperação de um olhar periférico sobre o século XVIII português é outro dos aspectos relevantes nesta exposição. Enquanto grande parte da produção artística da época permaneceu ligada à representação religiosa ou aristocrática, os desenhos de Cavaleiro Faria aproximam-se da observação social e da experiência do quotidiano. Neles percebe-se um país atravessado por deslocações, festas populares, cenários rurais e gente anónima, quase como se o artista antecipasse uma sensibilidade documental que apenas séculos mais tarde se tornaria dominante. Adaptada da primeira exposição monográfica dedicada ao artista, organizada pelo Museu Nacional de Arte Antiga, o conjunto de obras apresentadas confirma a singularidade de uma prática artística privada, silenciosa e persistente. Mais do que revelar um amador talentoso, a exposição permite reconsiderar o próprio estatuto do desenho na história da arte portuguesa. O mérito do Museu Nacional de Arte Antiga e do Museu Nacional Soares dos Reis está precisamente em devolver centralidade a um artista que, desenhando à margem das academias e do prestígio oficial, acabou por criar um dos testemunhos gráficos mais originais do Portugal iluminista.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

CONCERTO: Orquestra Jazz de Matosinhos & Manuela Azevedo



CONCERTO: Orquestra Jazz de Matosinhos & Manuela Azevedo
Direcção Musical | Pedro Guedes
Centro de Artes e Espectáculos Vale de Cambra
29 Mai 2026 | sex | 21:30


É com prazer renovado que regressamos ao Centro de Artes e Espectáculos de Vale de Cambra. Funcional, acolhedora e dotada de excelentes condições técnicas, a sala tem vindo a afirmar-se como um dos mais interessantes equipamentos do distrito de Aveiro, sustentando uma programação diversificada e criteriosa que sabe como conquistar públicos cada vez mais alargados. Foi particularmente gratificante encontrar na plateia vários rostos conhecidos, sinal evidente de que o CAE começa a integrar o circuito habitual daqueles que não temem as distâncias na busca de propostas culturais de qualidade, tendência que o concerto da Orquestra Jazz de Matosinhos com Manuela Azevedo confirmou plenamente. O projecto que une a cantora à OJM teve o seu início em Julho de 2014 e soma já cerca de duas dezenas de apresentações, integrando-se numa linha de trabalho que tem distinguido a formação matosinhense ao longo dos anos: convidar vozes oriundas de universos musicais diversos e submetê-las ao desafio de dialogar com o universo sonoro de uma big band de jazz. É um conceito tão simples quanto fértil e que tem permitido revisitar repertórios conhecidos através de arranjos originais que ampliam horizontes estéticos e revelam novas leituras das canções. Neste caso, a escolha de Manuela Azevedo - uma das vozes mais singulares e reconhecíveis da música portuguesa contemporânea - revelou-se particularmente feliz, tanto pela versatilidade da intérprete como pela inteligência do repertório seleccionado, construindo uma ponte consistente entre o jazz e a pop, o rock e demais geografias musicais.

carta branca concedida a Manuela Azevedo na definição do alinhamento constitui um dos aspectos mais interessantes do projecto e ajuda a compreender a sua personalidade artística. O programa apresentado em Vale de Cambra revelou uma cultura musical vasta, ecléctica e que segue na linha do risco e na recusa de toda e qualquer previsibilidade. De “My Melancholy Baby”, clássico norte-americano popularizado na voz de Ella Fitzgerald, a “Who Do You Think You Are”, de Elvis Costello, passando pela ousadia de “I Am the Walrus”, dos Beatles, ou pela elegância de “Chez Les Yé Yé”, de Serge Gainsbourg, o concerto desenhou um percurso tão inesperado quanto coerente. A presença de Tom Waits, Rufus Wainwright, Janelle Monáe ou Queens of the Stone Age testemunhou uma abertura rara a linguagens distintas, sempre filtradas por um apurado sentido de escolha. Pelo meio, a cantora não esqueceu referências fundamentais da canção em língua portuguesa, como Sérgio Godinho, Manel Cruz e Chico Buarque, nem a sua própria história nos Clã, revisitando “A Paz Não Te Cai Bem” e encerrando, já em clima de celebração, com “Dançar na Corda Bamba”. O resultado foi uma sucessão de canções que, libertas dos seus contextos originais, ganharam novas cores e novos significados. O concerto afirmou-se, assim, como uma declaração de amor à canção enquanto território aberto à reinvenção permanente, expondo simultaneamente o excelente gosto musical de Manuela Azevedo e a sua capacidade para habitar repertórios muito diferentes sem lhes negar nunca a sua própria identidade.

Se o repertório constituiu um dos grandes trunfos da noite, a execução musical elevou o espectáculo a um patamar de excelência difícil de igualar. Com direcção musical de Pedro Guedes, a Orquestra Jazz de Matosinhos voltou a demonstrar o porquê de ocupar um lugar singular no panorama nacional, exibindo uma precisão colectiva irrepreensível, uma notável riqueza tímbrica e uma capacidade única de servir a música pela música. Os arranjos de Telmo Marques, Carlos Azevedo, Pedro Guedes e José Pedro Coelho são reveladores de inteligência, subtileza e imaginação, transformando cada tema num objecto artístico autónomo, respeitador da essência original, mas suficientemente ousado para justificar uma nova escuta. A cumplicidade entre a cantora e os músicos foi crescendo ao longo da actuação, produzindo momentos de grande naturalidade e comunicação e que tiveram o ponto alto na extraordinária interpretação de “Broken Bicycles / Junk”, de Tom Waits / Paul McCartney. Manuela Azevedo respondeu com uma interpretação segura, expressiva e emocionalmente generosa, adaptando-se com assinalável eficácia às exigências de um contexto musical tão específico. O público percebeu-o desde cedo e acompanhou o espectáculo com atenção, entusiasmo e calor, recompensando cada momento com aplausos sinceros e transformando a sala numa extensão da própria música. Uma grande noite em Vale de Cambra!

domingo, 31 de maio de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #105



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #105
Com | Marta Reis Andrade, Joãozinho da Costa, Diogo Salgado
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
28 Mai 2026 | qui | 21:30


Concluída que está a primeira metade da décima temporada, o Shortcutz Ovar continua a afirmar-se como um espaço privilegiado de descoberta do melhor cinema português em formato curto, seja ele de ficção ou documental, de imagem animada ou ancorado num território híbrido de nem sempre fácil catalogação. Para um público fiel e cúmplice, a última quinta-feira do mês reveste-se de um ritual de prazer cinéfilo que passa por reservar a noite, atravessar a cidade, deixar-se abraçar pelo aconchego da Escola de Artes e Ofícios e, entre conversas e risos, reforçar essa proximidade única que liga o ecrã à plateia. Curiosamente, o sentimento de deslocação, pertença e abrigo que move os espectadores do Shortcutz Ovar, encontrou nos filmes exibidos na passada quinta-feira linhas paralelas. “Cão Sozinho”, “Sabura” e “Vultosos Cumes”, as três curtas exibidas, tiveram a uni-las os encontros e reencontros, encruzilhadas e lugares, identidades e afectos, a deriva das personagens em busca de ser, repousar ou sonhar com um lugar a que possam chamar casa.

“Cão Sozinho”, de Marta Reis Andrade, abriu a sessão em tom de fábula, oferecendo uma narrativa intimista, marcada pela perda e o abandono. A história real de um cão deixado sozinho em casa, cruza-se com a viuvez do avô Adriano e com o regresso da realizadora de Londres, cidade onde experimentou uma solidão funda. A emotiva conversa que Marta Reis Andrade manteve com o público do Shortcutz Ovar foi ao encontro do antigo sonho de “ser personagem de desenho animado”, desejo que ganha corpo numa obra profundamente autobiográfica e emocionalmente desarmante, ancorada na memória, no medo e na necessidade urgente de apego. A referência a Andrei Tarkovski - “só vale a pena fazermos um filme se tivermos algo a acrescentar à vida” - surge como verdadeira declaração de princípios para uma curta-metragem que encontra no cuidar uma forma de resistência ao sofrimento. De solidão nos fala “Cão Sozinho”, mas também da possibilidade de sarar as feridas do mundo através do carinho, da proximidade e do gesto simples de um abraço. Uma homenagem comovente à velhice, à fragilidade e à importância de continuarmos a amar antes da inevitabilidade.

Depois de “Mistida”, em 2023, Falcão Nhaga regressou à competição do Shortcutz Ovar com “Sabura”, a história de amor de um casal guineense transformada em retrato maior das deslocações, pertenças e fracturas do ser migrante hoje. Tony e Cadija são esse corpo em trânsito que segue “de mala às costas à procura dos sonhos”, mas que encontra pelo caminho precariedade, invisibilidade e hostilidade. Falcão Nhaga filma rostos, silêncios e gestos com uma delicadeza rara, fazendo da cidade um espaço de encontros improváveis, onde convivem diferenças de género, religião, condição social e identidade cultural. A referência à mutilação genital feminina ou um ambiente cada vez mais hostil, alimentado pela ascensão da direita ultra-conservadora e da extrema-direita populista, são sombras que atravessam o filme. Ao mesmo tempo, o realizador filma com enorme sensibilidade uma Lisboa plural, mestiça, periférica e profundamente humana. Nesse gesto reside a força simbólica da obra, a insistência de criadores e actores luso-africanos em desbravar caminho e reclamar visibilidade para histórias que sempre fizeram parte da cidade, mas que raramente ocupam o centro da narrativa.

A sessão encerrou com “Vultosos Cumes”, a mais recente curta-metragem de Diogo Salgado. Cruzando o realismo social com uma dimensão quase fantasmática da memória, o realizador parte de uma experiência profundamente autobiográfica, marcada pela emigração e pela ausência masculina no seio familiar, para vincar a ideia de distância, seja ela física, afectiva ou imagética. O filme acompanha um jovem serralheiro na sua primeira viagem para França, integrando um universo laboral duro, cinzento e mecanizado. Há em “Vultosos Cumes” uma tentativa deliberadamente artificiosa de transformar a distância em linguagem cinematográfica, quer através da luz irreal e das sequências filmadas em estúdio, quer pela construção de um espaço suspenso entre o concreto e o imaginado, um verdadeiro “lugar-não lugar”, simultaneamente familiar e abstracto. O olhar inaugural dos mais novos sobre os Alpes, o encantamento pela beleza agreste e nevada da paisagem, contrasta com a dureza silenciosa do trabalho e da condição emigrante, incapaz ainda de reconhecer o peso dessa realidade. Um poema em forma de filme, feito de sonho, bilhete postal e fascínio, mas também de ausência, poeira e perda da inocência.

sábado, 30 de maio de 2026

LIVRO: “A Chuva Que Lança a Areia do Saara” | Ana Margarida de Carvalho



LIVRO: “A Chuva Que Lança a Areia do Saara (Variações Sobre a Exaustão)”,
de Ana Margarida de Carvalho
Edição | Sofia Fraga
Ed. Companhia das Letras, Setembro de 2025


“ (…) um padre ávido de milagres, uma mulher velha com arroubos de paixão, um cobarde violador, uma casa-farol, uma intervenção angélica forjada, um lobo que nunca existiu, um cão que abandonou o dono, um rio contrariado, uma queda-d'água desviada, uma floresta reduzida a pó e lamas, uma obra desmedida feita de exaustão e ossos quebrados, e um burlão de meia-idade, abastado e caprichoso, com um apelido falso formado por aglutinação. E, no meio disto, um marido que entrou na aldeia com as quatro pernas no chão e regressou com uma e meia, mais rude, menos sapiente das coisas dos livros, mais letrado nas coisas da existência.”

Que extraordinário livro este, que nos convida a mergulhar no ambiente insano de uma imensa pedreira, tateando no meio da poeira que o vento espalha, das vozes truncadas, das imagens abruptas, dos homens e mulheres em permanente mutação. Há na escrita de Ana Margarida de Carvalho um movimento torrencial, uma escrita que leva tudo à sua frente, que abre fendas, suspende frases e as deixa tombar no branco da página como pedras arrancadas à montanha. “Como se a terra corresse inteirinha atrás de mim”. Essa dimensão telúrica corresponde à própria condição humana que o romance perscruta, de falhas feita, de interrupções, de equívocos e feridas jamais cicatrizadas. Tal como em “Não Se Pode Morar nos Olhos de um Gato”, o romance abriga um microcosmos que é espelho cruel da Humanidade: homens esmagados pelo trabalho, mulheres consumidas pelo desejo ou pela perda, corpos amputados, animais exaustos, rios desviados, florestas reduzidas a lama. Tudo vibra numa espécie de cosmogonia trágica onde natureza e homem se confundem, ora em harmonia primitiva, ora numa guerra sem quartel.

Num tempo dominado pelo imediatismo e pela indigência verbal, é uma felicidade depararmo-nos com uma escrita assim. Ana Margarida de Carvalho escreve contra a corrente, contra o facilitismo, contra a pobreza imaginativa do presente. Desenhadas numa arquitectura narrativa de assombrosa complexidade, as personagens são de uma espessura prodigiosa. Nenhuma surge de forma acessória; todas carregam consigo um mundo inteiro de contradições, de memórias, de humilhações e de fantasmas. “É só inquietação, inquietação”. A autora escreve como quem modela um pedaço de barro cru. Camada após camada, as suas personagens são escavadas até que delas brote qualquer coisa de intrinsecamente verdadeiro. Firmino, sobretudo, é uma dessas figuras. Simultaneamente bode expiatório, criatura grotesca e comovedora, alvo da brutalidade alheia e da piedade materna, ele concentra em si a dimensão mais funda do romance, a do humano reduzido à sua vulnerabilidade essencial. A passagem em que a mãe o lava, lhe sopra “a areia dos olhos e dos ouvidos” e lhe suporta o fedor com infinita compaixão, possui uma força quase bíblica, como se a ternura pudesse ainda sobreviver no meio da degradação mais absoluta.

O mesmo sucede com Bartolomeu, cujos olhos “de útero vegetal” carregam “algas e húmus, vestígios mortos de amor pela vida”. O extraordinário diálogo em torno da palavra “escrúpulo” - essa pedrinha cravada na sandália dos legionários - vale por um tratado sobre moral e consciência: “Os poderosos não têm escrúpulos”, diz Ana Margarida de Carvalho, deixando no leitor uma sensação rara de assombro e gratidão. Raramente a literatura portuguesa contemporânea encontrou metáforas tão inesperadas e fecundas para descrever o desejo, a melancolia e a erosão do tempo. Pelo meio, multiplicam-se referências veladas à poesia, à música e à tradição oral, pequenas cintilações intertextuais que recompensam o leitor atento. “Eu não meti o barco ao mar para ficar pelo caminho”, saborosa piscadela de olho ao romance inaugural “Que Importa a Fúria do Mar”, ecoa como memória subterrânea de um cancioneiro colectivo, ampliando ainda mais a dimensão mítica do romance.

Mas o que verdadeiramente deslumbra é a imaginação delirante da autora, essa capacidade única de fundir o sublime e o grotesco, o épico e o abjecto, a beleza luminosa e a fealdade extrema. Em “A Chuva Que Lança a Areia do Saara” há frases que parecem transportadas pelo fragor das torrentes, impregnadas de maresia, de pólvora, de suor, de sangue e de terra revolvida. Lírica ou brutal, a linguagem move-se como um organismo vivo, por vezes próxima de um poema em prosa, noutras de uma espécie de canto telúrico saído das entranhas da terra. “Se do Império os mortos vais contar, são tantas as parcelas para somar”. É um verdadeiro milagre a forma como a autora consegue transformar uma pedreira num palco metafísico onde se discutem poder, culpa, escrúpulo, exploração, amor e transcendência. É impossível não reconhecer, nesta escrita excessiva, expressiva, exigente, uma voz inteligente e extraordinariamente talentosa. Se há justiça neste mundo, então não parecerá desmedido afirmar que Ana Margarida de Carvalho poderá um dia vir a ser muito justamente considerada entre os nomes maiores da literatura universal.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Tentos de Luz” | Tadeu Vilani



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Tentos de Luz”,
de Tadeu Vilani
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Casa da Cultura de Avintes
08 > 31 Mai 2026


Numa altura em que a presente edição do iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes se aproxima do fim, mergulhamos com Tadeu Vilani na vastidão da pampa sul-americana, espaço onde o homem mede diariamente a sua resistência contra a dureza da terra, do clima e do trabalho. Em “Tentos de Luz”, os animais e o território não são apenas elementos económico ou paisagísticos, mas centro gravitacional de uma cultura construída sobre a disciplina e a sobrevivência colectiva. Há nestas fotografias uma tensão constante entre a brutalidade das lides dos animais e a dimensão quase irreal da paisagem: horizontes intermináveis, poeiras suspensas, corpos moldados pelo vento e pela fadiga. O preto e branco saturado intensifica esse confronto, transformando cada cena num território emocional denso, rostos e gestos rasgados pela luz como que reveladores de uma memória ancestral. Tadeu Vilani aproxima-se dos trabalhadores rurais e olha-os de uma forma simultaneamente documental e profundamente humana, recusando o exotismo fácil para fixar a dignidade silenciosa de quem vive em permanente relação de dependência com a terra e os animais.

Mais do que um levantamento etnográfico, “Tentos de Luz” oferece um retrato social da comunidade gaúcha e da sua persistência histórica no Cone Sul. As fotografias evidenciam o carácter comunitário do trabalho rural, homens, mulheres e crianças envolvidos numa dinâmica marcada pela transmissão de saberes, pela solidariedade e por uma resistência física quase ritualizada. A criação de gado implica um quotidiano de enorme exigência corporal, atravessado por jornadas longas, intempéries e risco permanente. O fotógrafo encontra nesses contextos uma dimensão de pertença e de identidade que ultrapassa a mera dureza laboral. Os rituais ligados às cavalgadas, às marcações do gado, aos encontros familiares e às celebrações populares revelam uma cultura onde o esforço se mistura com o orgulho e a memória. As festas populares, os olhares cerrados, as mãos endurecidas e os corpos em movimento compõem uma narrativa visual sobre a continuidade de uma forma de vida ameaçada pelas transformações sociais e pela modernização agrícola. Em cada imagem, percebe-se o esforço em preservar não apenas uma actividade económica, mas um universo simbólico inteiro.

A força de “Tentos de Luz” reside igualmente na impressionante precisão técnica de Tadeu Vilani, capaz de transformar momentos de extrema imprevisibilidade em composições de grande rigor formal. O fotógrafo trabalha no limite físico da acção, aproximando-se perigosamente dos cavalos, dos rebanhos e da violência dos movimentos, num exercício onde o sangue-frio e a experiência são determinantes. Há imagens em que a poeira parece engolir a cena e outras em que a luz explode sobre os corpos, criando atmosferas verdadeiramente irreais. Esse domínio absoluto do instante serve a espectacularidade visual, mas sobretudo a intensidade humana das fotografias. Vilani conhece profundamente o território que documenta e essa intimidade permite-lhe captar, com extremo realismo, a concentração de um cavaleiro, o cansaço depois da lide, o silêncio antes da celebração. O resultado é uma obra de enorme densidade emocional e estética, capaz de afirmar a fotografia documental como instrumento de memória, resistência e reconhecimento cultural. Em Avintes, “Tentos de Luz” constitui uma reflexão poderosa sobre a identidade e a permanência humana perante a vastidão do mundo.