LIVRO: “A Sombra das Árvores no Inverno”,
de Carla Pais
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Leya, Abril de 2026
“Eram bonitas as manhãs de domingo.
A mãe colhia margaridas brancas para enfeitar a mesa. Ajeitava sempre a jarra junto à cesta do pão que o pai comprava à saída da missa. A senhora Neyrolles, uma padeira velhota que gostava de servir os filhos de Deus ao domingo, guardava a baguete mais tostadinha para a mãe, hábitos antigos de quem conhece de cor as freguesas. A mãe regalava-se com o cheiro quente do pão e dizia-nos que uma mesa com pão e margaridas era uma mesa farta. O pai anuía e, por isso se esmerava com o jardim só para a ver feliz. Passava o sábado a regar os canteiros e a podar as rosas que trepavam as paredes. Às vezes chamava-nos para lhe empurrarmos a cadeira ou lhe apanharmos o boné que caía. A mãe espreitava pela janela e sorria, acho que eram os olhos do meu irmão que lhe davam aquele ímpeto de sorrir porque, depois de o meu irmão morrer, a mãe nunca mais sorriu. Até domingo passado: sorriu como se o meu irmão tivesse voltado a abrir os olhos.”
Bastam umas poucas páginas de leitura para nos darmos conta de que Carla Pais não é escritora de uma só história. Ela lembra-nos que cada vida traz consigo outras vidas e outras perdas, outras geografias, os silêncios que a antecedem, fazendo disso “santo e senha” de “A Sombra das Árvores no Inverno”, romance vencedor do Prémio LeYa 2025. Ao longo de quase trezentas páginas, a autora constrói um vasto território narrativo onde o íntimo e o histórico, o familiar e o geopolítico, Paris e a Síria, a infância e a devastação, se reflectem mutuamente, como espelhos partidos que, apesar de tudo, persistem em devolver alguma da imagem humana. O seu engenho reside na arte de cruzar narrativas sem lhes retirar singularidade, de fazer convergir destinos aparentemente remotos até compreendermos que - na ficção como na vida - isto anda tudo ligado. Céline, Aïsha, Nádia e as muitas personagens que gravitam em torno destas três mulheres não são peças de uma tese sobre a imigração, a guerra ou o extremismo: são pessoas às quais o discurso público tantas vezes concentra numa palavra ou numa categoria, mas a quem importa devolver um rosto, uma memória, o próprio nome.
Há uma dimensão decisiva na escrita de Carla Pais: a da recusa da desumanização. A confusão entre “refugiado” e “terrorista”, cujo crescimento um pouco por toda a Europa vemos acontecer, alimentado pela retórica do ódio tão querida aos movimentos de extrema-direita, não é apenas o ponto de partida do livro, antes transforma-se numa interrogação moral que atravessa todas as suas páginas: quem é esse outro que nos habituámos a não ver? A literatura surge então como arte do resgate, uma espécie de voz que chama por aqueles que ficaram para trás enquanto o grande comboio da humanidade avança cada vez mais rápido. Carla Pais não responde à questão de forma discursiva ou panfletária. Responde-lhe com a imaginação, com o gesto doloroso de entrar na pele de uma mãe que perde um filho para uma ideologia que nunca lhe ensinou ou de sentir como próprios os filhos que uma mãe sabe que não voltará a abraçar. Dessa forma, a dimensão social nunca esmaga a intimidade. A História chega sempre através de um corpo, de uma ausência, de uma criança escondida, de uma mesa onde alguém oferece café, de uma mão que acolhe outra mão.
Uma das qualidades maiores da autora é a habilidade para se mostrar contundente sem se tornar cruel, dolorosa sem condenar o leitor ao desespero. Carla Pais dá mostras de conhecer profundamente o inverno - um território atravessado pelo luto, injustiça, orfandade, abandono e culpa -, mas recusa tratá-lo como destino definitivo. Mesmo quando a narrativa nos leva aos lugares mais sombrios, permanece nela uma nota de bondade que não é ingénua, porque conhece o horror. Uma compreensão que não absolve a violência, mas procura perceber as suas feridas. Uma esperança que não chega como milagre, mas como cuidado paciente dos afectos. Há famílias que se desfazem e outras que se escolhem. Há crianças que testemunham aquilo que os adultos já não encontram palavras para descrever. Há quem sobreviva porque alguém acolhe. E, no centro desse movimento conjugado, dessa brutalidade lírica, o amor surge menos como abstracção do que como gesto salvífico concreto: cuidar, esperar, amparar, continuar. A ternura não é o contrário da tragédia, mas sim o que a torna suportável.
Também a linguagem participa plenamente nessa ética. Carla Pais, que se revela uma escritora de causas e uma mulher de emoções, transporta para a prosa a concentração, a musicalidade e o poder imagético da poesia, trabalhando a frase como quem sabe que nela pode caber tanto a denúncia como o abrigo. A língua é, em si, uma arma, mas é igualmente uma forma de reparação: pode nomear o horror sem o reproduzir, aproximar mundos sem os simplificar, fazer da dor uma matéria de pensamento e não apenas de comoção. Daí a sensação de que “A Sombra das Árvores no Inverno” é um romance feito de muitas camadas, que cresce na memória e pede releituras que têm essa capacidade de revelar novos sentidos nas suas ligações, repetições e ecos. Carla Pais reúne fragmentos, histórias, países, mães e filhos, mortos e sobreviventes, até lhes encontrar uma respiração comum. Quando o leitor fecha o livro, depois de atravessar tanta perda, permanece nele uma certeza discreta, quase sussurrada: há invernos que parecem intermináveis, mas à sombra das árvores há algo que persiste, obstinadamente, em preparar uma nova primavera.