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domingo, 2 de agosto de 2026

CONCERTO: “Uniko” | Kimmo Pohjonen & Orquestra Clássica de Espinho



CONCERTO: “Uniko”
Kimmo Pohjonen & Orquestra Clássica de Espinho
Com | Kimmo Pohjonen (acordeão), Teppo Ali-Mattila (concertino), Juusu Hannukainen (samples)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Praça Dr. José de Oliveira Salvador (Câmara Municipal de Espinho)
31 Jul 2026 | sex | 21:30


A verdadeira identidade de uma obra revela-se, as mais das vezes, na forma como sobrevive ao contexto que lhe deu origem. Concebida por Kimmo Pohjonen e Samuli Kosminen para o Kronos Quartet e estreada em Helsínquia, em 2004, “Uniko” faz parte desta rara categoria. Poderia ter permanecido prisioneira da extraordinária personalidade do agrupamento norte-americano, mas a sua apresentação no concerto de encerramento do Festival Internacional de Música de Espinho veio demonstrar precisamente o contrário. A substituição do Kronos Quartet pela Orquestra Clássica de Espinho não constituiu uma simples alteração de efectivos, antes modificou profundamente o modo como a obra continua a respirar, como distribui o peso das tensões e se mostra capaz de organizar o espaço sonoro. Onde o Kronos privilegiava a transparência da linha e a circulação do detalhe, a Orquestra Clássica de Espinho, embora numa formação mais reduzida que o habitual, soube projectar uma matéria mais compacta e de maior gravidade acústica. A escrita poderá ter perdido alguma delicadeza, mas realçou a plasticidade de um organismo vivo cuja força resulta menos do detalhe do que da energia acumulada em cada sucessiva vaga sonora. Descobriu-se, assim, uma segunda natureza de “Uniko”: menos íntima, quiçá, mas não menos verdadeira.

Essa transformação só foi possível porque Kimmo Pohjonen continua a afirmar-se como o centro de gravidade de uma obra seminal no âmbito da música contemporânea. Poucos intérpretes possuem hoje uma relação tão física com os seus próprios ambientes sonoros. O acordeonista finlandês não se limita a tocar, antes parece arrancar a música ao instrumento, como quem procura uma matéria primordial anterior à própria linguagem do som. O instrumento expande-se muito para além daquilo que dele habitualmente se espera, confundindo-se com a respiração, com o grito, com a ressonância metálica da electrónica ou com o rumor quase telúrico que nos é oferecido por Samuli Kosminen. Longe de ser ornamento ou demonstração de virtuosismo técnico, a tecnologia é aqui prolongamento natural do gesto instrumental, dilatando o espaço acústico e multiplicando perspectivas auditivas sem quebrar a continuidade do discurso. A Orquestra Clássica de Espinho compreendeu essa lógica com inteligência rara, abrindo espaço à exuberância cénica do solista e respondendo com a afirmação de uma sonoridade ampla, homogénea e generosa, sem perder densidade nem abdicar da sua própria identidade. A relação deixou de ser a de um solista acompanhado por uma orquestra, para se tornar a de um único corpo sonoro em permanente diálogo e mutação.

Essa capacidade de transformar a percepção do tempo faz de “Uniko” uma obra singular. Não há verdadeiras cesuras entre os seus oito andamentos, nem momentos de pausa que permitam ao ouvinte recuperar qualquer distância crítica. Tudo decorre como um fluxo contínuo, feito de acumulações, erosões e metamorfoses, cada episódio parecendo conter já a semente daquele que se lhe sucederá. É uma música que não procura agradar nem surpreender; limita-se a existir com uma coerência tão absoluta que acaba por impor as suas próprias regras de escuta. Na praça fronteira à Câmara Municipal de Espinho, completamente preenchida por um público que acompanhou o concerto com invulgar concentração, essa experiência adquiriu uma dimensão quase ritual. A prolongada ovação final celebrou, naturalmente, a extraordinária prestação de Kimmo Pohjonen, de Samuli Kosminen e da Orquestra Clássica de Espinho. Mas celebrou também algo mais difícil de definir: a confirmação de que o Festival Internacional de Música de Espinho continua a ser um dos raros lugares onde a curiosidade artística prevalece sobre a convenção e onde o risco continua a encontrar, felizmente, um público disposto a escutá-lo.

domingo, 26 de julho de 2026

CONCERTO: “Schubert” | Elisabeth Leonskaja



CONCERTO: “Schubert”
Com | Elisabeth Leonskaja (piano)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
24 Jul 2026 | sex | 21:30


Quando falamos de Franz Schubert, um dos nomes que imediatamente ocorre é o de Elisabeth Leonskaja, autêntica lenda viva do piano e cuja relação com o compositor austríaco ultrapassa a afinidade estética e se aproxima de uma verdadeira identificação artística. O recital integrado no Festival Internacional de Música de Espinho, que teve lugar na noite da passada sexta-feira, confirmou-o com a naturalidade de quem não pretende impor qualquer tipo de visão, antes deixar que a música revele a sua própria verdade. Discípula de uma tradição pianística centro-europeia que privilegia a arquitetura do discurso, a densidade do som e a rejeição de qualquer efeito superficial, Leonskaja construiu um Schubert simultaneamente íntimo e monumental, sem perder de vista um natural tom melancólico, como se de um discreto horizonte de luz se tratasse. O silêncio entre frases, o peso de cada modulação e a respiração das grandes linhas melódicas tornaram evidente uma maturidade interpretativa rara, fruto de décadas de convivência com este repertório. Num festival que continua a afirmar-se como um dos mais relevantes espaços do nosso país dedicados à música erudita, a presença de uma artista desta dimensão constituiu um momento de particular significado.

Obra das menos exploradas do repertório schubertiano, a Sonata em Si maior, D. 575, abriu o programa com uma elegância despojada, revelando um compositor muito jovem, mas já capaz de fazer conviver luminosidade clássica e inesperadas sombras harmónicas. Elisabeth Leonskaja evitou quaisquer leituras excessivamente galantes, preferindo sublinhar a fluidez do discurso e a permanente sensação de canto que atravessa toda a obra. Essa mesma capacidade de fazer respirar a melodia encontrou um notável contraponto na Wanderer-Fantasie, em Dó maior, D. 760, uma das páginas mais ousadas do compositor, onde avulta a convivência do impulso quase orquestral da escrita pianística com um inabalável rigor estrutural. A pianista enfrentou as exigências técnicas da obra sem qualquer ostentação, transformando o virtuosismo num instrumento expressivo e de uma rara organicidade. Impressionou sobretudo a clareza da polifonia, a construção orgânica dos diferentes episódios e a forma como a célebre transformação temática emergiu como percurso inevitável, conduzindo o ouvinte através de uma narrativa de permanente tensão interior.

Foi, contudo, na Sonata em Lá maior, D. 959, uma das derradeiras obras-primas de Schubert, que o recital atingiu a sua dimensão mais profunda. Leonskaja soube habitar esta música com uma serenidade que apenas os grandes intérpretes conseguem alcançar, compreendendo que o drama schubertiano nasce menos do contraste do que da lenta transformação da matéria musical. O célebre Andantino revelou-se como o verdadeiro centro emocional da interpretação, fazendo crescer a inquietação sem perder a contenção, até à explosão quase visionária da secção central, para depois regressar a uma paz apenas aparente. Nos andamentos extremos, a pianista conciliou amplitude formal e espontaneidade, preservando a continuidade do pensamento musical mesmo nos momentos de maior expansão, como no Scherzo (Allegro vivace). Retomado no encore, o Andantino foi saboreado com devoção por um público que soube mostrar-se grato por momentos tão elevados e de enorme beleza. No final, ficou a sensação de termos escutado um Schubert profundamente humano, despojado de romantismos estéreis e restituído à sua essência: um compositor para quem não há beleza sem fragilidade, nem esperança sem a consciência de uma inexorável finitude.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

CONCERTO: “The Last Sky” | Anouar Brahem



CONCERTO: “The Last Sky”
Com | Anouar Brahem (oud), Django Bates (piano), Anja Lechner (violoncelo), Mats Eilertsen (contrabaixo)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
18 Jul 2026 | sab | 21:30

“Where should we go after the last frontiers?
Where should the birds fly after the last sky?
Where should the plants sleep after the last breath of air?
We will write our names with scarlet steam.
We will cut off the hand of the song to be finished by our flesh.
We will die here, here in the last passage.
Here and here our blood will plant its olive tree.”
Mahmoud Darwish, “The Earth Is Closing In On Us”

Quase na recta final do FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho, o compositor e oudista tunisino Anouar Brahem trouxe ao Auditório de Espinho o seu mais recente trabalho discográfico, “After the Last Sky”, confirmando que a sua música continua a ocupar um território onde tradição e contemporaneidade se misturam e confundem como matéria de um mesmo pensamento musical. Inspirado no verso do poeta palestiniano Mahmoud Darwish – “Where should the birds fly after the last sky?” -, o concerto olhou com o necessário distanciamento o drama humanitário de Gaza, assumindo-se como uma reflexão de cariz político e cujo alcance universal tocou as cordas do exílio, da perda, da memória e da resistência. Fazendo da contenção uma forma de profundidade, Anouar Brahem optou pela subtileza de uma escrita onde cada silêncio pesou tanto como cada nota. De “Remembering Hind” a “Edward Said's Reverie”, passando por “Never Forget”, “The Sweet Oranges of Jaffa” ou pelo tema que dá título ao concerto, a música derramou-se de forma deliberadamente lenta, permitindo que cada frase respirasse naturalmente e que o público pudesse descobrir, sem pressas, os delicados equilíbrios entre composição e improvisação.

Se Anouar Brahem se afirmou como centro gravitacional do concerto, a excelência do quarteto residiu precisamente na ausência de hierarquias ostensivas. Django Bates confirmou, uma vez mais, a sua extraordinária capacidade para encontrar cores harmónicas inesperadas, alternando momentos de delicada transparência com subtis desvios rítmicos que privilegiaram as margens agudas do piano e evitaram acomodações do discurso. No contrabaixo, Mats Eilertsen foi uma bela surpresa, sustentando toda a arquitectura sonora com uma autoridade discreta e uma notável economia de meios. O maior aplauso, porém, vai para Anja Lechner, que com o seu violoncelo soube acrescentar a “The Last Sky” uma dimensão camerística que o distingue claramente dos anteriores trabalhos de Brahem. Funcionando simultaneamente como prolongamento melódico dos restantes instrumentos e como voz autónoma, o violoncelo foi capaz de manter um diálogo profícuo com o oud e com o piano, fazendo emergir momentos de notável cumplicidade. O oud e o contrabaixo estiveram em evidência no inesquecível “The Eternal Olive Tree”, tema que soube afirmar-se como uma meditação serena sobre permanência e resiliência.

O silêncio quase reverencial que envolveu toda a sala ao longo do concerto tornou-se parte integrante da própria execução. As palavras dirigidas ao público foram escassas, sobressaindo a comunicação estabelecida integralmente através da música. Muito reclamado, o “encore” trouxe com ele “Vague”, síntese perfeita de um concerto contemplativo, mas que nunca perdeu de vista as dúvidas e inquietações expressas por Mahmoud Darwish e que são, afinal, as nossas próprias dúvidas e inquietações. Numa época em que o jazz contemporâneo vem privilegiando a complexidade estrutural ou a afirmação individual dos intérpretes, escutar Anouar Brahem foi precioso. Na sua forma de, através da música, desacelerar o tempo, eliminar o supérfluo e devolver ao silêncio uma função expressiva essencial, encontrou o público algo intrínseco à sua própria razão de existir. O resultado foi muito além do simples encontro entre o jazz e a música de raiz árabe, assumindo-se como espaço de encontro e de memória, como síntese madura entre diferentes tradições culturais. Em Espinho, Anouar Brahem reafirmou a sua singularidade enquanto criador e intérprete, demonstrando que a beleza, quando sustentada pela inteligência, rigor e humanidade, pode ser uma forma profundamente eficaz de resistência.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

CONCERTO: ars ad hoc



CONCERTO: ars ad hoc
Com | Ricardo Carvalho (flauta), Horácio Ferreira (clarinete), Diogo Coelho (violino), Gonçalo Lélis (violoncelo), João Casimiro Almeida (piano)
FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
22 Jun 2025 | dom | 18:00


Espaço para a criação e divulgação da grande música de câmara, o ars ad hoc surgiu em 2018, no contexto da “Arte no Tempo” e foca boa parte da sua actividade na interpretação de nova música para diferentes formações, interpretando e estreando, com regularidade, obras de compositores nacionais e estrangeiros, trabalhando sempre que possível em contacto directo com os criadores que, por vezes, escrevem música propositadamente para este agrupamento. Com programação de Diana Ferreira, o ars ad hoc é formado por músicos que, depois de se terem notabilizado em Portugal, complementaram os seus estudos no estrangeiro: Ricardo Carvalho (flauta), Horário Ferreira (clarinete), Diogo Coelho e Matilde Loureiro (violino), Ricardo Gaspar e Francisco Lourenço (viola) e Gonçalo Lélis (violoncelo). Foi justamente este agrupamento o convidado do Festival Internacional de Música de Espinho para fechar um fim de semana recheado de propostas aliciantes e riquíssimas a muitos títulos.

Uma vez que falei em aliciante, todos concordaremos que um recital de música de câmara dedicado aos modernismos não deixa de ser uma proposta aliciante. Proposta que o público, em muito considerável número, abraçou com entusiasmo, disposto a acompanhar a viagem musical pelos caminhos da tradição dos modernismos, contrapondo os seus primeiros passos às inovações espectralistas. “Prélude à l’après midi d’un faune”, de Claude Debussy, revelou-se uma escolha acertada num programa com um inegável cunho didáctico, já que falamos de uma peça cujo papel disruptivo no cenário musical de finais do século XIX e início do século XX é inegável, assinalando o nascimento da chamada “música moderna”. Num arranjo de Tim Mulleman, os músicos defenderam com brilhantismo uma peça irreverente e ousada na sua aparente falta de estrutura e toque quase improvisado. No bailar dos acordes, o público acompanhou com deleite as tentativas vãs de um fauno de seduzir duas ninfas, por entre o canto dos pássaros, o coaxar das rãs e a música que o próprio fauno extrai da sua flauta (notável a interpretação de Ricardo Carvalho).

Nenhuma composição do século XX se eleva com mais determinação acima das provações e tribulações terrenas do que o quarteto para violino, violoncelo, clarinete e piano que Olivier Messiaen completou e executou no campo de prisioneiros de guerra onde foi encerrado em Janeiro de 1941, o Stalag VIII A, perto de Görlitz, na Baixa Silésia. Tristan Murail quis homenagear o seu mestre, compondo alguns anos depois “Stallag VIIIa”, tema seguinte no alinhamento do concerto, interpretado pelo agrupamento com brilhantismo e que resultou numa experiência vivificadora pelo que acrescentou de diversidade modernista. Também ele aluno de Messiaen, Gerard Grisey compôs “Talea”, a terceira peça interpretada pelo ars ad hoc e cujo ímpeto dramático, textura espectral e vozes polifónicas independentes alcançou a excelência no trabalho dos músicos, com destaque para o “trovejar” do piano de João Casimiro Almeida. “Três andamentos de Pétrouchka”, de Igor Stravinsky, fechou o ciclo, acrescentando o olhar neoclassicista às tendências das composições anteriores e abrindo novos e mais vastos caminhos à Modernidade. Um enorme concerto, com um alinhamento inteligentemente trabalhado e interpretações a roçar o brilhantismo. Bravo!

quinta-feira, 25 de julho de 2024

CONCERTO: Dee Dee Bridgewater | We Exist!



CONCERTO: Dee Dee Bridgewater | We Exist!
FIME – 50.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
22 Jul 2024 | seg | 22:00


Há uma gargalhada a romper o silêncio. Há um punho que se ergue contra a intolerância e o preconceito. Há palavras que são expressão de raiva e de dor. E há um grito que afirma a vontade de todas as mulheres: Nós Existimos! [“We Exist!”] Sim, o quarteto de Dee Dee Bridgewater trouxe a Espinho a sua música, naquele que foi um dos momentos mais aguardados do FIME e que colocou um ponto final numa edição memorável. Mas, mais do que “o timbre quente, a dicção impecável e o swing irrepreensível” desta autêntica lenda viva do jazz e das suas três acompanhantes, o concerto constituiu uma declaração de princípios no reconhecimento daquilo que nos distingue e uma tomada de consciência das lutas que mulheres como Bridgewater travaram e continuam a travar em sociedades onde o racismo, a xenofobia e a misoginia são autênticas feridas abertas nos ideais de liberdade, igualdade e justiça que dizem defender.

Oferecer terá sido, porventura, a palavra mais escutada em duas horas (!) de concerto. À dádiva da música juntou-se a dádiva da palavra e da voz, vertida em gratas memórias de uma geografia afetiva onde não faltou um inesquecível jantar de marisco e as palavras apaixonadas de quem lamenta a iminente separação e vive na esperança do reencontro. Ao lado das muito jovens Carmen Staaf (direcção musical, piano, teclados), Rosa Brunello (contrabaixo, baixo eléctrico) e Evita Polidoro (bateria), Dee Dee Bridgewater revisitou alguns temas icónicos das chamadas “canções de protesto”, lembrando o impacto do activismo e da música no curso da História e apelando à consciencialização social. Ainda antes de começar, a cantora mencionou o seu quarteto como a certeza da presença das mulheres no mundo do jazz [“we exist!”] e saudou a (possível) candidata do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos da América, Kamala Harris, dizendo-se “excitada”.

“People Make The World Go Round”, tema de 1971 da banda “The Stylistics”, deu o mote a uma noite inesquecível, chamando para primeiro plano as injustiças num mundo dominado pelo poder do dinheiro. Percy Mayfield e Ray Charles subiram à cena com “The Danger Zone”, extraordinário blues que olha a realidade histórica da América no início dos anos 1960, expressando medo e decepção pela discriminação e pelo ódio racial que teimavam em manter-se. No momento seguinte, foi a vez de Roberta Flack e Donny Hathaway se mostrarem em “Trying Games”, um grito de denúncia com o dedo apontado a cada um de nós: “People always talking about man's inhumanity to man / But what is you tryin' to do to make this a better land?”. Pegando no seu instinto em busca das suas raízes africanas, algures no Mali, Dee Dee Bridgewater acrescentou palavras suas à música de Wayne Shorter e ofereceu-nos “Long Time Ago / Footprints”, dando a ver as pegadas como algo passível de nos fazer recuar no tempo e abraçar as mais gratas recordações.

Espontânea e natural, com uma gargalhada desarmante e um apurado sentido de humor, Dee Dee Bridgewater voltou ao jantar de marisco e ao delicado ofício de descascar gambas – um momento que definiu como uma experiência gastronómica “orgasmática” –, antes de prosseguir com “Mississippi Goddam”, um hino activista da causa negra escrito por Nina Simone em 1964, um grito de revolta contra o assassinato de quatro crianças negras numa igreja de Birmingham, no estado do Alabama, no ano anterior. “My skin is black / My arms are long / My hair is woolly / My back is strong / Strong enough to take the pain / Inflicted again and again” são palavras de Nina Simone e do forte e poderoso “Four Women”, talvez o momento mais alto da noite. Até ao final do concerto ouve ainda tempo para escutar “Afro Blue”, um tema de Mongo Santamaria que Bridgewater dedicou a uma das traves mestras da organização do Festival, André Gomes, e ainda “Compared to What” e, já no encore, “Spain”, temas evocativos de nomes tão importantes como Les McCann e Eddie Harris, Al Jarreau e Chico Korea. No final, a artista reafirmou a sua raiva, insatisfação e desapontamento com a política do seu país e deixou-nos aquilo que deve ser interpretado como um pedido e, sobretudo, como um conselho: “Keep your country safe!”

sexta-feira, 12 de julho de 2024

CONCERTO: Avi Avital & Omer Klein



CONCERTO: Avi Avital & Omer Klein
FIME - 50º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
07 Jul 2024 | dom | 18:00


A programação desta edição “redonda” do Festival Internacional de Música de Espinho tem dedicado particular atenção aos espaços subversivos e transformadores onde a música erudita, o jazz e a pop global se misturam e confundem. São espaços de criação em liberdade, nos quais se evidenciam o virtuosismo dos músicos e as suas enormes qualidades de improvisadores, a par com esse desejo de “escavar” as peças clássicas, de lhes "sugar o tutano" e ir além do que é dado por adquirido. Foi assim com a recombinação das "Quatro Estações" de Vivaldi", por Max Richter, trazida por Daniel Rowland e a Camerata OCE, com a revisitação da obra de Mahler por Uri Caine e o FIMEnsemble ou com o abraço a Chopin e a Mozart pelo genial Paquito d’Rivera (isto para falar apenas dos concertos aos quais assisti nesta edição do Festival). Voltou a ser assim com este dupla improvável que juntou o bandolinista Avi Avital e o pianista Omer Klein, e que “ousou” oferecer uma releitura inovadora e livre de obras de Johann Sebastian Bach.

Primeiro solista de bandolim a ser indicado para um Grammy clássico, Avi Avital foi comparado a Andres Segovia pela excelência do seu instrumento e a Jascha Heifitz pelo seu virtuosismo. Apaixonado e “explosivamente carismático” (New York Times) na performance ao vivo, ele é a força motriz que preside actualmente à consolidação do repertório de bandolim. Nascido em Be'er Sheva, no sul de Israel, Avital começou a praticar bandolim aos oito anos de idade “por influência dos seus vizinhos” e logo se juntou à florescente orquestra jovem de bandolins fundada e dirigida pelo violinista russo Simcha Nathanson. Estudou na Academia de Música de Jerusalém e no Conservatório Cesare Pollini em Pádua com Ugo Orlandi, sendo por estes tempos que travou conhecimento com Omer Klein e com a sua forma original de abordar a música, “empurrando os principais conceitos do Jazz para o futuro”. Se, para Avital, o horror estava em falhar uma nota, Klein via na pauta uma imensidão de oportunidades para “falhar”, ou seja, “para fazer diferente”. Estava aberto um caminho de comunhão de ideias e interesses que não mais cessou de dar frutos.

Aquilo que o público pode perceber na tarde do passado domingo foi o quanto o virtuosismo e a imaginação barrocos e contemporâneos podem iluminar um recital sem barreiras geográficas e estilísticas. Alinhando o programa com um conjunto de peças maioritariamente de sua autoria, Avi Avital e Omer Klein convidaram a uma viagem em que as sonoridades das músicas tradicionais e populares da Ásia Ocidental e do norte de África se cruzaram com as músicas escritas da Europa Central. Com um tom marcadamente jazzístico, “Niggun” resgatou-nos dos ambientes de “souks” e bazares impostos por “Zanzama”, o tema inicial do concerto. Num contínuo expressivo e de permanente surpresa, “Après un Rêve” foi uma incursão no universo idílico de Fauré e “Avi’s Song” levou-nos até uma Jerusalém em festa. A “Partita nº2, em Ré menor, BWV 1004”, de Johann Sebastian Bach, foi tocada na íntegra por Avi Avital, mas viu os seus andamentos intervalados por peças exclusivas de Omer Klein, fruto da sua extraordinária capacidade de improvisação. Foi o momento alto do concerto, aquele que mais desafiou os espectadores através da abertura de novos horizontes sobre a música do compositor mais influente de sempre. “Espagna” e “Yemen”, temas de Omer Klein, fizeram do “encore” um tempo de júbilo, fechando da melhor forma um concerto inolvidável.

terça-feira, 9 de julho de 2024

CONCERTO: Paquito d'Rivera



CONCERTO: Paquito d’Rivera
Com | Paquito d’Rivera (saxofone e clarinete), Pepe Rivero (piano), Sebastián Valverde (vibrafone), Gastón Joya (contrabaixo), Georvis Pico (percussão)
Convidado | Alexei León (flauta)
FIME - 50º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
06 Jul 2024 | sab | 22:00


A fazer fé nas suas palavras, há demasiado tempo que Paquito d’Rivera não visitava o nosso país. Daí que esta sua presença fosse aguardada com enorme expectativa e os bilhetes para o concerto no Auditório de Espinho tenham esgotado muito rapidamente. Afinal, não é todos os dias que há a possibilidade de escutar uma referência do jazz, cuja longa e premiada carreira internacional faz dele “uma instituição no mundo global da música”. Desde criança que Paquito d’Rivera parecia destinado a tornar-se numa figura icónica, quer porque a riqueza musical do caribe lhe corre nas veias, quer porque a sua família cultivava a música (o pai praticava saxofone “vinte e seis horas por dia”) e desde muito novo o incentivou a tocar. O futuro acabaria por confirmá-lo, numa carreira de mais de seis décadas ao longo da qual acabaria por garantir, por direito próprio, o estatuto de estrela maior no firmamento do jazz.

Foi esta enorme personalidade da cena jazzística mundial que o público teve a oportunidade de escutar na noite do passado sábado, começando por ouvi-lo falar das saudades que já tinha do nosso vinho verde e do bacalhau e percebendo nas suas palavras o lamento por ter esperado tanto tempo pelo regresso a Portugal. Alternando entre o saxofone e o clarinete, Paquito d’Rivera fez assentar na improvisação uma música que atravessa as barreiras estilísticas do jazz de inspiração latina e a música erudita. Numa noite de ritmos quentes e festivos, essa plasticidade fez-se sentir de forma intensa, reforçada pela qualidade e cumplicidade de um quarteto onde pontificaram o pianista Pepe Rivero, o vibrafonista Sebastián Valverde, o contrabaixista Gastón Joya e o baterista Georvis Pico, reforçado em dois momentos (um deles já no encore) pelo flautista Alexei León, a título de convidado.

Com um alinhamento variado e versátil, esta foi uma noite em que o jazz e a música clássica quiseram dar-se as mãos. O primeiro momento desta ligação surgiu com “Nocturno en la Celda”, uma composição de Pepe Rivero a partir do Noturno em Mi-bemol maior, de Chopin. Mas foi com Mozart e o segundo andamento do concerto para Clarinete e Orquestra, que essa união se impôs de forma intensa e viva, primeiro com a “descoberta” de que “se trata de um blues”, e depois pondo os presentes na sala a trautear algumas das mais emblemáticas peças do “Joãozinho”. Temas como “El Basstronauta”, “Fantasia Impromptu”, que Rivero escreveu em memória de Ernesto Lecuona, “Miriam”, de Bebo Valdés, “I Missed You Too”, a celebrar o reencontro de Paquito d’Rivera e Chucho Valdés, ou “Mambo Influenciado”, do próprio Chucho, mesclaram um concerto “clássico” com o melhor do jazz. A rematar, dois temas “do maior compositor de jazz do século XX”, Dizzy Gillespie, foram “a cereja no topo do bolo”, a sala inteira a cantar e a celebrar a fraternidade em torno da música. Memorável!

domingo, 7 de julho de 2024

CONCERTO: Sissoko Segal Parisien Peirani



CONCERTO: Sissoko Segal Parisien Peirani
FIME – 50º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
05 Jul 2024 | sex | 21:30


Entrados na segunda metade do FIME - 50º Festival Internacional de Música de Espinho, o fim de semana não poderia ter tido um melhor começo. No palco da Academia, quatro músicos “perdidos” encontraram-se para tocarem músicas que são, ao mesmo tempo, reflexo de proximidade e de distância. Com a kora de Ballaké Sissoko, o violoncelo de Vincent Segal, o acordeão de Vincent Peirani e o saxofone de Émile Parisien, o grupo subiu ao palco com a proposta de uma viagem musical tão vasta quanto surpreendente, fazendo transitar o público entre a Europa e o Oriente, a África e a América Latina. Uma viagem épica à qual os presentes aderiram de forma incondicional, navegando por mares da tradição erudita e popular, pintados das cores e influências que cada músico quis acrescentar da sua própria experiência. Unidos pela espontaneidade e pela improvisação, o jazz e a cumbia, os blues e o tango, mostraram-se breves e livres, elevando a qualidade e capacidades de quatro músicos de excelência que têm no ouvido o instrumento rei e cujo virtuosismo se exprime, antes de mais, através da sua cumplicidade.

Começando pelo violoncelista Vincent Segal, vale a pena referir que é um daqueles músicos versáteis que tanto encontramos num álbum de Sting ou de Cesária Évora, como na banda sonora de um filme ou num tema para um espectáculo de dança. A sua mais importante colaboração, contudo, é aquela que o liga ao mestre da kora, o maliano Ballaké Sissoko, numa sedutora fusão neoclássica das tradições de África e da Europa. Por outro lado, há o saxofonista soprano francês Émile Parisien e o virtuoso do acordeão Vincent Peirani, maravilhosamente expressivos, que há muito tempo embarcam juntos em longas digressões e revelam uma empatia mútua altamente desenvolvida que os torna ágeis e auto-suficientes. Juntar as duas duplas resulta num verdadeiro acontecimento, nem jazz nem tradição, nem clássico nem vanguardista, mas um pouco de tudo isso, fundando um território poético autónomo onde o simples mas poderoso desejo de se ouvirem uns aos outros resulta no nascimento de uma singular canção a oito mãos.

A verdadeira magia é, como facilmente se percebe, do foro do colectivo. Ambos os duos atingem uma rara intimidade criativa, aquela sensação de dois instrumentos a entrelaçar-se, como se governados por uma mente musical. Em grande medida, isto é devido a um rigoroso equilíbrio entre virtuosismo e contenção. Cada um dos músicos é mestre em conter-se e em deixar a música fluir. Olhando o alinhamento do concerto, “Ta Nyé”, o tema de abertura, revelou-se uma peça reflexiva fundada na tradição, marcada por lufadas de kora verdadeiramente refrescantes. “Izao”, que Peirani escreveu para o seu filho, mostrou um toque de música dos Balcãs. “Orient Express” homenageou o malogrado músico austríaco Joe Zawinul, recriando uma das suas músicas mais icónicas, mesmo não tendo por perto uma bateria. E houve ainda “Esperanza”, a fechar o alinhamento como se de uma cumbia colombiana embriagada se tratasse. No encore, “Amenhotep” trouxe-nos o único tema essencialmente jazzístico do concerto e foi a cereja no topo do bolo. Grande noite esta, tal como a de outros franceses, lá longe em Hamburgo, felizes nos penaltis de um Europeu de Futebol.

terça-feira, 2 de julho de 2024

CONCERTO: Mahler Redux | Uri Caine & FIMEnsemble



CONCERTO: Mahler Redux | Uri Caine & FIMEnsemble
Com | Uri Caine (piano e composição), Pedro Meireles (violino), José Soares (saxofone), Ricardo Formoso (trompete), José Carlos Barbosa (contrabaixo), Mário Costa (bateria)
50º FIME – Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
28 Jun 2024 | sex | 22:00


Uri Caine é, reconhecidamente, um dos mais inovadores pianistas do jazz dos Estados Unidos da América. Uma personalidade que faz do cruzamento de géneros e domínios musicais “a sua praia” e que trouxe ao FIME uma proposta verdadeiramente singular. Rodeado de um conjunto de músicos de primeira água - desde logo o conceituado violinista portuense Pedro Meireles, entre um “cacho” de grandes nomes da área do jazz, casos de José Soares (saxofone), Ricardo Formoso (trompete), José Carlos Barbosa (contrabaixo) e Mário Costa (bateria) -, Uri Caine partiu para uma releitura original das obras de Gustav Mahler, abordando uma parte do seu variado repertório, das sinfonias às canções. Um concerto “arriscado”, não pela sua vertente jazzística, que se adivinhava de grande qualidade, mas por ser passível de não agradar aos puristas da música clássica e, em particular, aos indefectíveis de Mahler. A estrondosa ovação final, porém, pareceu dissipar quaisquer dúvidas, levando-me a crer que todos sairam satisfeitos da sala. Bem, talvez nem todos.

Não sou um conhecedor de Mahler. À boleia de um álbum de Karajan com a Filarmónica de Berlim, intitulado “Adagio”, é-me familiar o “adagietto” da 5ª sinfonia que abre o disco. Da 6ª sinfonia, a “Trágica”, retenho um recente concerto na Gulbenkian e a percussão com um inusitado instrumento, um maço, no andamento final. E penso que será tudo. A julgar pelas palmas a destempo que se foram sucedendo ao longo do concerto, acredito que haveria mais gente na sala para quem Mahler fosse pouco mais que um ilustre desconhecido. Talvez por isso, sinto que Uri Caine cometeu um erro crasso ao tentar fazer um concerto “non stop”, com as várias peças tocadas em sequência e a surgirem, aqui e ali, muito iguais, uma quase repetição umas das outras. Eu, ouvinte, perdi-me no programa que tinha entre mãos. Ainda captei as notas do já referido “adagietto”, mas vi-me a desistir do concerto devido à minha incapacidade de o poder apreciar na sua plenitude. Não teria custado nada umas palavrinhas ou, pelo menos, a projecção dos títulos das obras no início das mesmas. Assim, agarrei-me àquilo que foi possível: ao jazz em primeira (e única) instância.

Há uma marca evidente ao longo do concerto e essa tem a ver com o espaço para a improvisação e a transgressão de limites (aquele início que parece de afinação de instrumentos é disso um bom exemplo). Mahler, com a sua linguagem tardo-romântica baseada na criação de um colorido orquestral especial e que tanto marcou os modelos do Modernismo vienense, foi um transgressor. Percebo que Uri Caine, mais de um século depois, carregue também em si a marca da transgressão. Mas parece-me pouco provável que a provocação pós-moderna do pianista tenha tocado aqueles para quem a grandeza de Mahler reside na sua capacidade de construir estruturas sinfónicas a partir de material subterrâneo. Aceitando os méritos da peça, diria que o ensemble teve um comportamento exemplar. Há solos extraordinários e há Uri Caine, com uma enorme energia e a sua peculiar forma de percutir as teclas do piano. Há momentos de jazz cheios de swing que quase nos fazem levantar do assento, há outros que se mostram deslocados. Um concerto falhado? Cada um o dirá.


domingo, 23 de junho de 2024

CONCERTO: Daniel Rowland & Camerata OCE



CONCERTO: Daniel Rowland e Camerata OCE
FIME - 50º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
21 Jun 2024 | sex | 22:00


Considerado um dos Festivais de referência do género em Portugal, o FIME - Festival Internacional de Música de Espinho é um dos primeiros festivais de música clássica em Portugal, tendo realizado a sua primeira edição em 1964. Ao longo dos anos, o Festival consolidou uma programação em que a música erudita e o jazz se combinam, cruzando públicos e diversificando a oferta, apresentando concertos a solo, em música de câmara, ensembles diversos e orquestras, abrangendo desde a música barroca à contemporânea, sempre com uma forte aposta em repertórios de excepção e projectos artísticos de projecção internacional. Desta programação diversificada, imaginativa e transversal em termos de estilos e épocas, permito-me recordar, nos anos mais recentes, os concertos marcantes do Drumming GP & FIME Ensemble (com a interpretação da peça “Steve Reich: Music For 18 Musicais”), “Jan Garbarek ft Trilok Gurtu”, “Belmondo Quintet & Orquestra Clássica de Espinho”, “Vijay Iyer & Orquestra de Jazz de Espinho”, Michael Wollny Trio ou Kronos Quartet, entre muitos outros.

A abrir a segunda semana da sua edição número 50, em Dia Europeu da Música, a proposta do Festival Internacional de Música de Espinho não poderia ser mais aliciante. Com a Camerata OCE, no violino e direcção musical, Daniel Rowland justificou plenamente o interesse despertado e que esgotou a lotação do Auditório. Intérprete “versátil, carismático e aventureiro”, com um vasto repertório apresentado, Rowland pôs em palco o seu enorme engenho, intensidade e sentido dramático, fazendo do concerto um tempo de harmonia, energia e júbilo. A Sonata n.º 12, em Ré menor “La Folia” RV 63, de Antonio Vivaldi, a abrir o programa, foi disso um extraordinário exemplo. Dança renascentista ibérica, a “folia” serviu de veículo às fantasias e extravagâncias do Barroco, sendo Vivaldi um nome incontornável deste período e um dos compositores que mais acrescentou à sua variedade estilística. A sequência de mini-movimentos, alternando passagens rápidas e lentas, foi escrita para realçar o virtuosismo dos executantes, e os cinco músicos em palco fizeram jus à complexidade e beleza desta “loucura”, oferecendo dez minutos de grande qualidade que abriram espaço para os dois momentos seguintes.

“A piece to peace”, assim nomeada por Daniel Rowland, “Tenebrae”, do compositor argentino Osvaldo Golijov, preencheu o segundo momento do concerto, nela sendo perceptíveis referências ao canto litúrgico judaico, às melodias klezmer e ao nuevo tango de Astor Piazzolla. Acerca da peça, disse o músico ser “consequência de ter testemunhado duas realidades contrastantes num curto espaço de tempo, em setembro de 2000. Estava em Israel no início da nova vaga de violência que ainda hoje se mantém e, uma semana depois, levei o meu filho ao novo planetário de Nova Iorque, onde pudemos ver a Terra como um belo ponto azul no espaço. Queria escrever uma peça que pudesse ser ouvida de diferentes perspectivas. Isto é, se alguém escolher ouvi-la ‘de longe’, a música provavelmente ofereceria uma superfície ‘bonita’, mas, de uma distância metaforicamente mais próxima, poder-se-ia ouvir que, sob essa superfície, a música está cheia de sofrimento.” Foi este sentimento, num misto de leveza e dor, que Daniel Rowland e a Camerata OCE interpretaram magistralmente, oferecendo uma leitura lenta e silenciosa de uma peça que exprime a essência da própria Humanidade.

Juntando passado e presente, “Vivaldi - The Four Seasons Recomposed”, de Max Richter, foi “a cereja no topo do bolo”, fechando da melhor forma uma noite memorável. A peça principia com o brilho de algo estranho e suave, uma névoa ambiente de cordas que é simultaneamente eletrónica e acústica. Depois, algo estranho acontece. Destas marés sónicas inconstantes, surge um conjunto de violinos - tocando fragmentos do concerto mais conhecido do mundo, a banda sonora de mil anúncios publicitários, o tema favorito do telefone em espera que “massacra” o nosso dia a dia. Sim, são as “Quatro Estações”, mas não como as conhecemos. Mantendo o espírito e muitos elementos da composição original, Max Richter recompô-la, estilizando as formas e a linguagem, misturando “Vivaldi puro” com passagens que parecem devedoras do minimalismo ou da música techno. Não é tempo de nos interrogarmos sobre o porquê de retocar, retrabalhar e reimaginar a obra-prima pictórica eterna de Vivaldi. Entreguemos-nos, simplesmente, à música, redescobrindo-a e redescobrindo-nos a nós próprios. Talvez assim aceitemos melhor o desconcerto de termos no alarme de um telemóvel entre a assistência o final “perfeito” de uma peça aberta à modernidade.

[Foto: FIME Espinho | https://www.facebook.com/fimespinho]

terça-feira, 25 de julho de 2023

CONCERTO: Michael Wollny Trio



CONCERTO: Michael Wollny Trio
Com | Michael Wollny (Piano), Eric Schäfer (bateria), Tim Lefebvre (contrabaixo)
FIME – 49º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho
21 Jul 2023 | sex | 21:30


As mãos de Michael Wollny. Poderia ser título de romance – daqueles que acabam em tragédia, com perdas irreparáveis das quais apenas restam dores fantasma -, mas neste caso é tudo menos ficção. As mãos de Michael Wollny são a mais pura verdade, tal como são ilusão e fantasia na forma como parecem multiplicar-se, como se tornam cúmplices do piano, como sabem despertar a magia da grande música. Atraem o olhar do espectador a partir do momento em que pousam nas teclas, obrigando-o a fixar-se nos seus movimentos, sejam eles um dedilhar breve e inocente ou o mais tresloucado frenesim. Como um prolongamento das mãos, o corpo persegue o movimento, acompanha a música e as suas nuances, amplia a emoção que se oferece em escalas inspiradas de harmonia e ritmo. Suada, a melena rebelde que cai sobre o rosto do pianista impõe uma nota de imprevisibilidade. Há nele uma intenção quase obsessiva de se reinventar através da música. Impressiona a sua forma visceral de atacar as teclas, de se fundir com cada acorde. De ser, ele próprio, música.

Michael Wollny descreve-se a si próprio como um pianista, improvisador, um músico interessado na partilha e na dinâmica dos grupos, compositor. A verdade é que o músico alemão tem vindo a construir uma das carreiras mais singulares e significantes no jazz europeu nas duas últimas décadas e a prova provada da sua classe e virtuosismo ficou bem patente na noite da passada sexta-feira, no Auditório de Espinho, naquele que foi o último concerto em sala da 49ª edição do FIME - Festival Internacional de Música de Espinho. Durante o tempo em que esteve em palco, de par com o contrabaixista americano Tim Lefebvre e o baterista alemão Eric Schäfer, Wollny fez uma viagem pelo seu multifacetado universo musical, revisitando duas décadas de uma bem sucedida carreira, onde se misturam e confundem os modelos clássicos com o jazz mais vanguardista. A nota de maior destaque do concerto foi, justamente, essa explosividade que resulta do formidável virtuosismo jazzístico / clássico de Wollny, aliado a uma apetência para, de forma livre, abraçar tudo o que pode e sabe, devolvendo-o em elegância, sofisticação e requinte.

O trio abriu o concerto com “Little Person”, de Jon Brion, as notas do piano a destacarem-se numa paisagem de murmúrios abstractos do contrabaixo e de pinceladas baralhadas da bateria. Ao compositor austríaco Alban Berg foi Wollny buscar “Nacht”, reforçando o tom romântico neste início de concerto e acrescentando-lhe uma nota de irreverência. Da sua autoria seguiu-se “Hauntology”, no qual se mostra por inteiro o talento, a sensibilidade e o bom gosto de Wollny, levando-nos a atentar em “Ghosts”, álbum onde este tema se insere. Ainda Paul Hindemith e o seu “Rufe in Der Horchender Nacht”, de novo a técnica magistral numa adaptação inspirada de um tema do repertório neoclássico de inícios do século XX. Das variações mais dolentes, desatadas em figuras de blues e funk, às explosões rítmicas feitas de acordes martelados e tempestades de percussão, o concerto resultou na demonstração de uma notável capacidade de improvisação aliada a um conhecimento profundo da música contemporânea. Um extraordinário concerto, daqueles que ficam para a vida.

[Foto: Festival Internacional de Música de Espinho | https://www.facebook.com/fimespinho]

quinta-feira, 20 de julho de 2023

CONCERTO: "Winterreise"



CONCERTO: “Winterreise”,
de Franz Schubert
Com | Ian Bostridge (tenor) e Luís Duarte (piano)
FIME - 49º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho
16 Jul 2023 | dom | 18:00


Numa altura em que o FIME - 49º Festival Internacional de Música de Espinho está a chegar ao fim, tempo para recordar o concerto que, ao final da tarde do passado domingo, fez as delícias dos melómanos que praticamente esgotaram o Auditório da Academia de Música. Preenchido pela obra de Franz Schubert “Winterreise” (“Viagem de Inverno”), o programa propôs uma viagem íntima, abordando o caminho, a morte e o Inverno. Um legado maior do compositor, que dele fez uma metáfora para a vida, aliando a experimentação musical ao impulso poético de Wilhelm Müller, cujo lirismo ilustra a poesia do Romantismo germânico. Segundo de três ciclos de canções escritos por Schubert e o preferido do compositor, “Viagem de Inverno” foi-nos trazido pela voz de Ian Bostridge, obcecado confesso da peça e um intérprete que transformou a forma de ouvir este ciclo. Com Luís Duarte no piano, o tenor levou-nos numa intensa e tortuosa viagem pelo Romantismo, mostrando o quanto o vento gelado, o frio inóspito e a noção de finitude própria de uma paisagem invernal, podem combinar com uma morna tarde de Verão.

Depois do marcante “A Bela Moleira”, “Viagem de Inverno” reforçou a condição de Schubert como um mestre do “lied” do século XIX. Escritos para tenor e piano e baseados em poemas de Wilhelm Müller, ambos os ciclos de canções abrangem um amplo espectro emocional relacionado com o amor. Mas enquanto o ciclo anterior tem um teor eminentemente narrativo, “Viagem de Inverno” revela um carácter intimista, mergulhando no mais profundo do Ser. O seu pendor depressivo e sombrio levou o compositor a considerá-lo um ciclo de "canções verdadeiramente terríveis", não apenas pelos assuntos que aborda, mas também pelo próprio processo de composição. Entre a esperança e o desespero, a vontade de uma relação e a mais sombria solidão, são vários os momentos verdadeiramente marcantes no curso desta viagem. A fatalidade insinua-se no início do ciclo e estará presente ao longo de toda a obra. Um período de contemplação é rapidamente substituído por um momento de verdadeiro perigo, da mesma forma que a expectativa em forma de uma carta se vê toldada pela presença de um bando de corvos. Nada parece mitigar a solidão em que o viajante se vê mergulhado.

Ian Bostridge é um aclamado tenor inglês, bem conhecido pelas suas actuações como cantor de ópera e lieder, e recitalista de música. Na sua carreira internacional conta com interpretações como solista em obras para a Deutsche Oper, Teatro alla Scala, Opera National de Paris, Bayerische Staatsoper, Wiener Staatsoper, English Natinal Opera ou Royal Opera House. Entre as suas inúmeras apresentações conta-se “Winterreise” com Pappano, em La Monnaie e fez também uma digressão coreana de “Winterreise” com Julius Drake e uma digressão europeia com a Orchestra of the Age of Enlightenment. Muitas das suas gravações ganharam os principais prémios internacionais de gravação e foram indicadas para quinze Grammys. A gravação para Pentatone de “Winterrreise”, com Thomas Adès, ganhou a Gravação Vocal do Ano 2020 no International Classical Music Awards. Foi nomeado Comandante da Ordem do Império Britânico em 2004. Luís Duarte desenvolveu os seus estudos musicais sob a orientação de Fausto Neves, Luís Filipe Sá, Madalena Soveral e László Baranyay e Rita Wagner (Academia Franz Liszt, Budapeste). Apresentou-se em vários países europeus, trabalhou com encenadores e solistas e colabora regularmente com a Casa da Música. Lançou em Janeiro de 2021 o álbum “Portuguese Music For Piano Duo”, recentemente galardoado como “Melhor Álbum de Música Clássica” pelos Prémios Play 2022.

[Foto: Festival Internacional de Música de Espinho | https://www.facebook.com/fimespinho]

terça-feira, 18 de julho de 2023

CONCERTO: Stanley Clarke "N'4 EVER"



CONCERTO: Stanley Clarke “N’4 EVER”
FIME - 49.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho
17 Jul 2023 | seg | 21:30


Nascido em Filadélfia em 1951, Stanley Clarke desenvolveu desde muito novo um enorme interesse pela música. Começou por tocar acordeão e violino mas, aos onze anos de idade, decidiu agarrar-se a um instrumento mais consonante com o seu metro e oitenta de altura, acabando por se fixar no contrabaixo. Embora a sua formação musical fosse essencialmente clássica, ter assistido a um concerto com o saxofonista Byard Lancaster, ainda na década de 60 do século passado, levou-o a enveredar pelos caminhos do jazz. Não tardaria a conhecer Chick Corea e o resto é aquilo que se sabe: Com o teclista fundou a inovadora banda de fusão Return to Forever, ajudando a redefinir o som do jazz. Também embarcou numa bem sucedida carreira a solo, editando mais de 40 álbuns nos quais explorou uma vasta gama de sons, desde o funk e R&B ao post-bop e ao jazz modal. Foi distinguido com quatro prémios Grammy, tendo pisado o palco com Quincy Jones, Stan Getz, Art Blakey, Paul McCartney, Jeff Beck, Keith Richards, Aretha Franklin, Stevie Wonder, Chaka Khan, The Police, Herbie Hancock, Bob Marley, Miles Davis, entre muitos outros.

Foi esta verdadeira “lenda viva” que se apresentou na noite de ontem no Auditório de Espinho, trazendo consigo o prodigioso pianista georgiano Beka Gochiashvili e os não menos prodigiosos Emilio Modeste, no saxofone, Colin Cook, na guitarra e Jeremiah Collier, na bateria. Fazendo justiça ao jazz de fusão, a sua imagem de marca, Clarke centrou o alinhamento do concerto em “Romantic Warrior”, álbum de 1976 gravado ao lado de Chico Corea, Al di Meola e Lenny White, tendo para oferecer uma mistura de rock e funk, R&B e hip-hop, a vibração do samba, os ritmos quentes do Caribe, os sons urbanos de Chicago ou Nova Iorque e um toque vibrátil de electrónica. Levando ao limite as potencialidades da banda, Stanley Clarke fez do tempo do concerto uma experiência musical imersiva, vibrante e livre, capaz de arrancar entusiásticos aplausos ao espectador mais empedernido. Foi assim que vimos os corpos debruçados para a frente num balancear irrefreável, as mentes rendidas ao fascínio de uma música que não se escuta todos os dias, as gargantas prontas para transformar o gozo em grito, as mãos num tremular constante dispostas a retribuir toda a força e energia que crescia do palco.

Nomear os pontos altos do concerto será sempre tarefa ingrata, tantos e tão intensos eles foram. Mas fica na memória a felicidade de Stanley Clarke quando o público aplaudia um solo de um dos jovens membros da banda, estimulando-os a “mostrarem-se” mais, visto o seu valor ser indiscutível. De igual modo, é incrível o desempenho do próprio Clarke tanto no contrabaixo como no baixo eléctrico, tocados com igual força e alegria. A energia de Jeremiah Collier é outro aspecto marcante do concerto, ele que “perdeu” o seu chapéu “LA” mas “ganhou” uns óculos espelhados. Há ainda um diálogo incrível entre o contrabaixo e a bateria no último tema do alinhamento, um solo de guitarra acústica de Colin Cook também nesta última peça e ainda um momento único de Gochiashvili na sua Yamaha, num tema de Charlie Mingus, “Goodbye Pork Pie Hat”, escrito em memória de Lester Young. As últimas palavras diferem do tom geral de entusiasmo deste apontamento e têm a ver com a chamada da jovem Natasha Agrama ao palco, para cantar “You’re Everything”, um tema escrito por Chick Corea. Um verdadeiro equívoco já que, sem voz e sem alma, da cantora ficaram os esgares e uma falta de presença indisfarçável. Cinco minutos confrangedores, verdadeira nódoa caída no melhor pano.

[Foto: Festival Internacional de Música de Espinho | https://www.facebook.com/fimespinho]