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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

CONCERTO: Egberto Gismonti



CONCERTO: Egberto Gismonti
Convidado especial | Daniel Murray
Auditório de Espinho – Academia
03 Dez 2024 | ter | 21:30


O concerto chegava ao fim. Egberto Gismonti pousava os dedos pela última vez nas teclas do piano e o público, o mesmo público que o chamou insistentemente ao palco e “forçou” dois encores, escutava-o agora num silêncio reverencial. A sequência de acordes levava-nos ao encontro de uma das valsas que António Gismonti, avô de Egberto, compôs “há 80 ou 90 anos”. Patriarca da família, foi ele o responsável pela música inculcada nos genes da numerosa descendência, que soube fazer dela um espaço de liberdade, partilha e gratidão. Num raro momento de coloquialidade - “dividir conversas”, chamou-lhe o artista -, foi emocionante ouvi-lo referir-se àquilo que cada um de nós, espectadores, faz com a música que escutamos, confessando-se “muito devedor” a todas as pessoas que, em sítios tão diferentes, “colocaram lá no seu caderninho, no seu telefone, uma marquinha dizendo espaço tal às tantas horas”. Olhando nos olhos os espectadores que, numa noite chuvosa, cansados após um dia de trabalho, enfrentando filas de trânsito, fizeram questão de o receber com um sorriso, Egberto Gismonti falou numa dívida que tem a ver com “responsabilidade, identidade e afecto”, que lhe dá a alegria de conhecer novas pessoas e que renova a sua esperança num mundo melhor. Um momento que marca, não apenas o concerto da noite da passada terça feira no Auditório de Espinho, mas toda uma temporada que está prestes a terminar. 

Neste regresso a Espinho, Egberto Gismonti não veio sozinho, trazendo com ele Daniel Murray, um profundo conhecedor do seu universo musical e um dos mais talentosos violonistas da sua geração. Ao longo de quase uma hora e meia de concerto, os dois artistas tiveram a oportunidade de se mostrarem a solo ou em diálogo, oferecendo uma música onde popular e erudito se misturaram e confundiram. Num exercício de entrega total à música, a abordagem primordial revelou-se do domínio da clássica, mas foi genial a forma como deixou que a mesma se escapasse para o campo da música tradicional, levando-a a percorrer os caminhos dos batuques dos índios amazónicos, do choro carioca, do frevo pernambucano, dos nordestinos forró e baião. E há, ainda, essa aproximação íntima ao jazz, com os (muitos) espaços abertos à improvisação e onde veio ao de cima a sua classe e experiência, cimentadas numa carreira de mais de cinquenta anos, com cerca de sete dezenas de álbuns gravados e colaborações com nomes incontornáveis como os de Charlie Haden, Jan Garbarek, John McLaughlin, Keith Jarrett ou Herbie Hancock, e outros menos previsíveis como Sapaim, mentor espiritual da tribo Yawalapiti. Desta mescla de géneros se fez o concerto, sem alinhamento definido mas com a certeza de que a música é o guia e o norte, a religião e a fé.

À excepção de “Retrato em Branco e Preto”, tema incontornável da discografia de António Carlos Jobim, não saberia identificar as músicas que fizeram parte do alinhamento do concerto. Sentado ao piano ou com o violão de dez cordas nas mãos, os longos cabelos brancos presos na inseparável touca, o que Egberto Gismonti fez foi empreender uma viagem afectiva pelo mundo da música, percorrendo um conjunto de temas que lhe são queridos - e onde marcam presença, além dos nomes já referidos, Chico Buarque e Dorival Caymmi, Villa-Lobos e Pixinguinha -, mistura do popular com o erudito - quase posso jurar que por aqui passou “Strawa no Sertão”, o seu maxixe, a sua zabumba. A sós em palco com o piano ou o violão, ou na companhia de Murray, Egberto Gismonti foi desfiando as suas influências indígenas e orientais, cruzando-as com a música clássica e a música de vanguarda, num caleidoscópio coeso e verdadeiramente original. Entre a admiração e a diversão, o público não se cansou de aplaudir calorosamente cada tema interpretado, mantendo uma enorme atenção ao longo de todo o concerto – o que não impediu, infelizmente, que um espectador passasse uma boa parte do tempo a descascar rebuçados e a poluir o sublime da música com os estalidos irritantes do celofane. E chegamos à parte final, àquele momento único cuja generosidade e humildade a todos tocou profundamente. Mas disso já aqui falei.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

CONCERTO: "La Capriola"



CONCERTO: La Capriola
Camille Fritsch, Charlotte Gerbitz, Dorine Lepeltier-Kovács e Manon Papasergio
Auditório de Espinho – Academia
10 Nov 2024 | dom | 18:00


Movimento de renovação nos planos económico, religioso, social, cultural e político, o Renascimento teve início em Itália no século XV e prolongou-se até finais do século XVI. A verdadeira revolução deu-se em Florença, mas cidades como Milão, Roma, Génova, Urbino, Verona, Ferrara ou Veneza conheceram igualmente um grande desenvolvimento intelectual e artístico neste período. Foi um tempo de redescoberta da Antiguidade Clássica, de desenvolvimento do conceito de humanismo e da crença na vida activa em vez da contemplativa, com o progressivo abandono de uma perspectiva teocêntrica e a adopção de uma visão centrada no Homem. Em Veneza, na Basílica de São Marcos, a Capella Marciana foi criada no início do século XIV e logo se tornou o centro da vida musical veneziana. Aqui os compositores renascentistas souberam focar-se em novas cadências harmónicas, na introdução de linhas melódicas independentes e interligadas e no embelezamento das composições com várias formas de ornamentação e suspensão, preparando o cenário para a música ousada, dinâmica e fortemente cromática do período barroco que viria a seguir.

Foi esta nova forma de conectar a música e a palavra, fazendo evoluir novas concepções musicais com o recurso a técnicas instrumentais inovadoras, que o Consort La Capriola – Camille Fritsch (voz), Charlotte Gerbitz (violino e viola), Dorine Lepeltier-Kovács (violino tenor) e Manon Papasergio (violino baixo e harpa dupla) – trouxe ao Auditório de Espinho, ao final da tarde do passado domingo. Levados numa viagem feita de ousadia e desafio mútuo, os espectadores viveram e sentiram a adequação de uma música inovadora à magnificência do templo que a viu nascer. Fazendo do concerto um tempo de convívio entre o amor e a bondade do sagrado e o escárnio e maldizer do profano, o ensemble quis demonstrar a fusão entre o humano e o divino através da música, abrindo diálogos com a Terra, a Água, o Ar e o Fogo, densos e leves à vez, e oferendo ao público novos espaços, novos contextos e novas formas de reviver o Renascimento.

Constituído por quatro talentosas intérpretes, o Consort La Capriola teve para oferecer um conjunto de peças de compositores que participaram activamente na vida musical da Capella Marciana, revisitando um período particularmente vibrante, atractivo e inovador da história da música. Dando a escutar obras de Adrian Willaert, Claudio Merulo, Andrea Gabrieli, Claudio Monteverdi, Cipriano de Rore, Girolamo Dalla Casa, Giovanni Bassano, Francesco Dalla Viola e Giovanni Battista Bovicelli, o agrupamento fez reviver práticas antigas como o Ensemble de Violinos, formação praticamente esquecida, mas que teve no período da Renascença o seu apogeu. Além disso, ofereceu aos presentes a possibilidade de escutar a sonoridade de uma verdadeira raridade como é o caso da harpa dupla. Lançando mão das múltiplas combinações entre os seus quatro elementos, ou em simples apontamentos solísticos, La Capriola soube ser sinónimo de equilíbrio, cumplicidade e atenção mútua. E partilha, importa dizer, não apenas na “voz” dos instrumentos, mas também na voz de Camille Fritsch, cuja presença, expressividade e qualidade interpretativa não deixaram ninguém indiferente.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

CONCERTO: Avi Avital & Omer Klein



CONCERTO: Avi Avital & Omer Klein
FIME - 50º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
07 Jul 2024 | dom | 18:00


A programação desta edição “redonda” do Festival Internacional de Música de Espinho tem dedicado particular atenção aos espaços subversivos e transformadores onde a música erudita, o jazz e a pop global se misturam e confundem. São espaços de criação em liberdade, nos quais se evidenciam o virtuosismo dos músicos e as suas enormes qualidades de improvisadores, a par com esse desejo de “escavar” as peças clássicas, de lhes "sugar o tutano" e ir além do que é dado por adquirido. Foi assim com a recombinação das "Quatro Estações" de Vivaldi", por Max Richter, trazida por Daniel Rowland e a Camerata OCE, com a revisitação da obra de Mahler por Uri Caine e o FIMEnsemble ou com o abraço a Chopin e a Mozart pelo genial Paquito d’Rivera (isto para falar apenas dos concertos aos quais assisti nesta edição do Festival). Voltou a ser assim com este dupla improvável que juntou o bandolinista Avi Avital e o pianista Omer Klein, e que “ousou” oferecer uma releitura inovadora e livre de obras de Johann Sebastian Bach.

Primeiro solista de bandolim a ser indicado para um Grammy clássico, Avi Avital foi comparado a Andres Segovia pela excelência do seu instrumento e a Jascha Heifitz pelo seu virtuosismo. Apaixonado e “explosivamente carismático” (New York Times) na performance ao vivo, ele é a força motriz que preside actualmente à consolidação do repertório de bandolim. Nascido em Be'er Sheva, no sul de Israel, Avital começou a praticar bandolim aos oito anos de idade “por influência dos seus vizinhos” e logo se juntou à florescente orquestra jovem de bandolins fundada e dirigida pelo violinista russo Simcha Nathanson. Estudou na Academia de Música de Jerusalém e no Conservatório Cesare Pollini em Pádua com Ugo Orlandi, sendo por estes tempos que travou conhecimento com Omer Klein e com a sua forma original de abordar a música, “empurrando os principais conceitos do Jazz para o futuro”. Se, para Avital, o horror estava em falhar uma nota, Klein via na pauta uma imensidão de oportunidades para “falhar”, ou seja, “para fazer diferente”. Estava aberto um caminho de comunhão de ideias e interesses que não mais cessou de dar frutos.

Aquilo que o público pode perceber na tarde do passado domingo foi o quanto o virtuosismo e a imaginação barrocos e contemporâneos podem iluminar um recital sem barreiras geográficas e estilísticas. Alinhando o programa com um conjunto de peças maioritariamente de sua autoria, Avi Avital e Omer Klein convidaram a uma viagem em que as sonoridades das músicas tradicionais e populares da Ásia Ocidental e do norte de África se cruzaram com as músicas escritas da Europa Central. Com um tom marcadamente jazzístico, “Niggun” resgatou-nos dos ambientes de “souks” e bazares impostos por “Zanzama”, o tema inicial do concerto. Num contínuo expressivo e de permanente surpresa, “Après un Rêve” foi uma incursão no universo idílico de Fauré e “Avi’s Song” levou-nos até uma Jerusalém em festa. A “Partita nº2, em Ré menor, BWV 1004”, de Johann Sebastian Bach, foi tocada na íntegra por Avi Avital, mas viu os seus andamentos intervalados por peças exclusivas de Omer Klein, fruto da sua extraordinária capacidade de improvisação. Foi o momento alto do concerto, aquele que mais desafiou os espectadores através da abertura de novos horizontes sobre a música do compositor mais influente de sempre. “Espagna” e “Yemen”, temas de Omer Klein, fizeram do “encore” um tempo de júbilo, fechando da melhor forma um concerto inolvidável.

sábado, 4 de novembro de 2023

CONCERTO: La Grande Chapelle



CONCERTO: La Grande Chapelle
Direcção musical | Albert Recasens
Auditório de Espinho
03 Nov 2023 | sex | 21:30


Nascido em Ávila, em 1548, Tomás Luis de Victoria foi um compositor espanhol que formou, com Giovanni Palestrina e Orlando di Lasso, a tríade que dominou a música de quinhentos. Preparou-se para o sacerdócio no Collegium Germanicum de Roma, para onde fora enviado por Filipe II. Aí estudou com Palestrina, a quem sucedeu na direção musical do Seminário Romano, e veio a assumir, alguns anos mais tarde, a capelania da igreja de San Girolamo della Carità, como assistente de S. Filipe Neri. Os últimos anos da sua vida passou-os em Madrid, no Convento de las Descalzas Reales, ao serviço da imperatriz Maria de Áustria, viúva de Maximiliano II, como mestre de capela e organista. Foi lá que, em 1603, compôs uma das suas melhores e mais refinadas obras, um requiem para o funeral da sua patrona, cujo emprego de contrastes tonais antecipa as concepções harmónicas do barroco.

Base do concerto da noite de ontem no Auditório de Espinho, o “Officium Defunctorum” teve no agrupamento de música antiga “La Grande Chapelle”, sob a direcção do musicólogo e maestro Alberto Recasens, um conjunto de intérpretes de excelência. Combinando rigor histórico e uma forte expressividade, o momento afastou-se do conceito generalista de concerto, para se transformar numa “experiência artístico-espiritual”, tal como a classificou Albert Recasens nas breves palavras que dirigiu ao público nos momentos iniciais. Palavras que lembraram, nomeadamente, o final do Renascimento enquanto período áureo da música religiosa ibérica, a enorme revolução vivida no seio da Igreja com o Concílio de Trento como resposta à Reforma Protestante e a associação da música com os princípios da retórica, a ênfase das peças colocada na oratória e menos na harmonia e no ritmo, realçando o seu conteúdo afectivo e dramático e a sua inteligibilidade ao encontro de uma resposta mais emocional no ouvinte.

Demonstração plena da riqueza da polifonia renascentista, daquilo que representa, de como soa e se sente, da sua intensidade e beleza, o momento proporcionado pelos músicos de “La Grande Chapelle” colheu os frutos daquilo a que se propôs: representar uma viagem de elevação e espiritualidade. Face aos desafios musicais e expressivos que a peça colocava, o coro mostrou-se imaculadamente equilibrado, as vozes envoltas numa harmonia luminosa que arrastou o público a lugares fortemente introspectivos e de reflexão. O comedimento da linguagem musical viu-se compensado pela intensidade emocional das linhas vocais. Leituras, responsórios, antífonas, abriram espaço nas nossas mentes e levaram-nos para longe, para uma Catedral em Arezzo ou uma Abadia em Sisteron, uma “Anunciação” de Fra Angelico ou um “Ecce Homo” de Caravaggio, um salmo que nos diz: “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.” Inesquecível.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

segunda-feira, 31 de julho de 2023

CONCERTO: Orquestra Gulbenkian



CONCERTO: Orquestra Gulbenkian
Com | Viktoria Postnikova (piano)
Direcção musical | Valentin Uryupin
45º Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim
Cine-Teatro Garrett
29 Jul 2023 | sab | 21:00


Chegou ao fim a 45ª edição do Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim. A culminar três intensas semanas da melhor música, o concerto de encerramento esteve a cargo da Orquestra Gulbenkian, sob a direcção do conceituado maestro e clarinetista russo Valentin Uryupin, a pisar palcos portugueses pela primeira vez. O Prelúdio da ópera cómica de Modest Mussorgsky “A Feira de Sorochyntsi” abriu um programa que teve no “Concerto para piano n.º 2 em dó menor, Op. 18”, de Sergei Rachmaninoff, o seu ponto mais alto. Depois de um breve intervalo, a Orquestra interpretou a Suite de “O Pássaro de Fogo”, de Igor Stravinsky, na sua versão em dez andamentos de 1945, colocando um ponto final numa noite absolutamente mágica.

Indo directamente para o “Concerto para piano n.º 2 em dó menor, Op. 18”, de Sergei Rachmaninoff, o mínimo que se pode dizer é que foi um momento absolutamente ímpar, de tal forma a orquestra, o seu director e a solista, a enorme Viktoria Postnikova, se alinharam harmoniosamente para nos dar a escutar uma das mais extraordinárias peças do repertório clássico. Exímia executante de Rachmaninoff, tão intensa nas passagens rápidas como versátil nos andamentos tempestuosos ou nos tempos de maior acalmia, a pianista soube dar cor e brilho a uma peça marcadamente romântica, carregada de lirismo, riquíssima na sua configuração melódica, vivamente apelativa, refrescante, apaziguadora. Ao longuíssimo aplauso que o público lhe rendeu, chamando-a ao palco inúmeras vezes, respondeu Postnikova com um “miminho” em forma de encore, sublinhando a singularidade do momento e prolongado o êxtase.

A encerrar o programa, a Suite de “O Pássaro de Fogo”, de Igor Stravinsky, mostrou-se à altura das circunstâncias. Estamos aqui perante uma peça escrita em apenas seis meses para a companhia Ballets Russes, de Diaghilev, a partir de um conto fantástico tradicional russo. Os ambientes que o compositor tão bem soube recriar são apresentados em todo o seu esplendor, convidando o público a acompanhar a história do Príncipe Ivan, do seu grande rival, o feiticeiro Kachtchei e dessa personagem irreal, metade mulher / metade ave, mediadora entre os mundos do fantástico e do real, que é o Pássaro de Fogo. A obra permitiu atentar no rigor e virtuosismo de um apreciável número de solistas, mas sobretudo na vivacidade e alegria que Uryupin colocou na condução da Orquestra Gulbenkian. Um concerto memorável que marca a edição de 2023 do FIMPV e a história do próprio Festival.

[Foto: Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim | https://www.facebook.com/festivalmusicapovoadevarzim]

quinta-feira, 20 de julho de 2023

CONCERTO: "Winterreise"



CONCERTO: “Winterreise”,
de Franz Schubert
Com | Ian Bostridge (tenor) e Luís Duarte (piano)
FIME - 49º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho
16 Jul 2023 | dom | 18:00


Numa altura em que o FIME - 49º Festival Internacional de Música de Espinho está a chegar ao fim, tempo para recordar o concerto que, ao final da tarde do passado domingo, fez as delícias dos melómanos que praticamente esgotaram o Auditório da Academia de Música. Preenchido pela obra de Franz Schubert “Winterreise” (“Viagem de Inverno”), o programa propôs uma viagem íntima, abordando o caminho, a morte e o Inverno. Um legado maior do compositor, que dele fez uma metáfora para a vida, aliando a experimentação musical ao impulso poético de Wilhelm Müller, cujo lirismo ilustra a poesia do Romantismo germânico. Segundo de três ciclos de canções escritos por Schubert e o preferido do compositor, “Viagem de Inverno” foi-nos trazido pela voz de Ian Bostridge, obcecado confesso da peça e um intérprete que transformou a forma de ouvir este ciclo. Com Luís Duarte no piano, o tenor levou-nos numa intensa e tortuosa viagem pelo Romantismo, mostrando o quanto o vento gelado, o frio inóspito e a noção de finitude própria de uma paisagem invernal, podem combinar com uma morna tarde de Verão.

Depois do marcante “A Bela Moleira”, “Viagem de Inverno” reforçou a condição de Schubert como um mestre do “lied” do século XIX. Escritos para tenor e piano e baseados em poemas de Wilhelm Müller, ambos os ciclos de canções abrangem um amplo espectro emocional relacionado com o amor. Mas enquanto o ciclo anterior tem um teor eminentemente narrativo, “Viagem de Inverno” revela um carácter intimista, mergulhando no mais profundo do Ser. O seu pendor depressivo e sombrio levou o compositor a considerá-lo um ciclo de "canções verdadeiramente terríveis", não apenas pelos assuntos que aborda, mas também pelo próprio processo de composição. Entre a esperança e o desespero, a vontade de uma relação e a mais sombria solidão, são vários os momentos verdadeiramente marcantes no curso desta viagem. A fatalidade insinua-se no início do ciclo e estará presente ao longo de toda a obra. Um período de contemplação é rapidamente substituído por um momento de verdadeiro perigo, da mesma forma que a expectativa em forma de uma carta se vê toldada pela presença de um bando de corvos. Nada parece mitigar a solidão em que o viajante se vê mergulhado.

Ian Bostridge é um aclamado tenor inglês, bem conhecido pelas suas actuações como cantor de ópera e lieder, e recitalista de música. Na sua carreira internacional conta com interpretações como solista em obras para a Deutsche Oper, Teatro alla Scala, Opera National de Paris, Bayerische Staatsoper, Wiener Staatsoper, English Natinal Opera ou Royal Opera House. Entre as suas inúmeras apresentações conta-se “Winterreise” com Pappano, em La Monnaie e fez também uma digressão coreana de “Winterreise” com Julius Drake e uma digressão europeia com a Orchestra of the Age of Enlightenment. Muitas das suas gravações ganharam os principais prémios internacionais de gravação e foram indicadas para quinze Grammys. A gravação para Pentatone de “Winterrreise”, com Thomas Adès, ganhou a Gravação Vocal do Ano 2020 no International Classical Music Awards. Foi nomeado Comandante da Ordem do Império Britânico em 2004. Luís Duarte desenvolveu os seus estudos musicais sob a orientação de Fausto Neves, Luís Filipe Sá, Madalena Soveral e László Baranyay e Rita Wagner (Academia Franz Liszt, Budapeste). Apresentou-se em vários países europeus, trabalhou com encenadores e solistas e colabora regularmente com a Casa da Música. Lançou em Janeiro de 2021 o álbum “Portuguese Music For Piano Duo”, recentemente galardoado como “Melhor Álbum de Música Clássica” pelos Prémios Play 2022.

[Foto: Festival Internacional de Música de Espinho | https://www.facebook.com/fimespinho]

domingo, 2 de julho de 2023

CONCERTO: Orquestra Metropolitana de Lisboa | Christian Lindberg



CONCERTO: Orquestra Metropolitana de Lisboa
Trombone e direcção musical | Christian Lindberg
FIME - 49.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho
30 Jun 2023 | sex | 21:30


Christian Lindberg é uma referência maior da música dos nossos dias. O virtuosismo de trombonista e a irreverência de compositor e arranjador deram o mote para este concerto que pôs o músico à frente da Orquestra Metropolitana de Lisboa. O programa começou por nos oferecer a abertura “As Hébridas”, Opus 26, também conhecida como “A Gruta de Fingal “, poema sinfónico composto por Felix Mendelssohn em 1830, uma peça de forte pendor romântico. Seguiu-se “Golden Eagle”, concerto para trombone e orquestra da autoria do próprio Lindberg e que podemos ver como um catálogo das possibilidades expressivas do trombone no século XXI, evidenciando o papel do solista numa obra espetacular e de grande impacto. Após um breve intervalo, a segunda parte do concerto fez nova incursão pelo período Romântico, “visitando” os “Quadros de Uma Exposição”, de Modest Mussorgsky, com arranjos de Christian Lindberg (tal como fizeram vários outros compositores, de Maurice Ravel aos Emerson, Lake and Palmer.

Christian Lindberg foi eleito em 2015 como melhor instrumentista de sopros metal da história da emissora de rádio clássica mais importante do mundo, a “Classic FM”, e em 2016 recebeu o “International Classic Music Award”, anteriormente concedido a Esa-Pekka Salonen, Krzysztof Penderecki e Charles Dutoit. Depois de ter estreado mais de 300 obras para trombone, gravado mais de 150 álbuns como solista ou criado o “Christian Lindberg International Solo Competition”, foi eleito o melhor instrumentista de metais do século XX, juntamente com Miles Davis e Louis Armstrong. Além de instrumentista, Lindberg também desenvolveu uma carreira de sucesso como maestro e foi nessa dupla qualidade que se apresentou no Auditório de Espinho em mais um concerto integrado no 49.º Festival Internacional de Música da cidade. A sua energia e ritmo em palco foram contagiastes e determinantes para uma grande noite de música clássica, pontuada pela composição da sua autoria, uma verdadeira viagem entre muitos mundos, entre o misterioso e o onírico, o temerário e o contemplativo.

Sinónimo de qualidade e versatilidade, a Orquestra Metropolitana de Lisboa é a pedra angular de um projecto que se estende além do formato habitual de uma orquestra clássica. Multiplica-se com frequência em agrupamentos de música de câmara e junta-se regularmente aos alunos da sua própria Academia para formar uma orquestra de dimensão sinfónica. Esta plasticidade tem-lhe permitido interpretar um leque de repertório que se estende do barroco à contemporaneidade, passando pela ópera e pelas grandes sinfonias românticas. A Espinho trouxe um conjunto de 38 músicos, cuja qualidade e virtuosismo foram determinantes na superior interpretação das peças que Christian Lindberg dirigiu. Tal como em tantas outras ocasiões, a Orquestra soube ir ao encontro do público melómano que esgotou por completo o Auditório de Espinho, acrescentando alegria e entusiasmo a uma noite verdadeiramente especial.

[Foto: Festival Internacional de Música de Espinho | https://www.facebook.com/fimespinho]

sexta-feira, 24 de junho de 2022

CONCERTO: "Ravel et le Jazz"



CONCERTO: “Ravel et le Jazz”
Belmondo Quintet | Orquestra Clássica de Espinho
Direcção musical | Diogo Costa
48º FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Praça do Progresso, Espinho
17 Jun 2022 | sex | 22:00


O Festival Internacional de Música de Espinho vestiu-se com as cores do jazz no arranque da sua 48ª edição. Do jazz, mas também da música clássica, numa combinação arrojada que teve o condão de harmonizar as duas grandes matrizes da entidade organizadora do Festival, a Academia de Música de Espinho. Ambiciosa, a aposta num concerto iminentemente eclético teve nos compositores modernistas franceses, sobretudo em Maurice Ravel, mas também em Claude Debussy e Erik Satie, uma extraordinária âncora, com base na qual Lionel Belmondo modelou um conjunto de arranjos subtis e de enorme qualidade e bom gosto. Lionel Belmondo que, com os seus saxofones e flauta, liderou o quinteto que pontificou neste concerto de abertura, tendo a seu lado o irmão Stéphane Belmondo (trompete e fliscorne), Laurent Fickelson (piano), Sylvain Romano (contrabaixo) e Tony Rabeson (bateria), coadjuvantes perfeitos numa noite inspirada. Em torno do quinteto, a parte e o todo em simultâneo, a Orquestra Clássica de Espinho, sob a direcção do maestro Diogo Costa, mostrou-se igual a si própria: sóbria, sólida, irrepreensível.

Escrita inicialmente para piano por Claude Debussy, em 1914, a suite “Six Épigraphes Antiques” tem em “Pour l’Egyptienne” um dos seus mais belos movimentos. Foi este o tema de abertura do concerto, ficando desde cedo demonstrada a adequação de géneros no seu desenvolvimento, muito por culpa do virtuosismo de Lionel Belmondo e restantes membros do quinteto. A Orquestra soube envolver em sonoridades doces os apontamentos jazzísticos, o todo resultando num momento de puro prazer a prenunciar um concerto inesquecível. Seguiu-se “Berceuse sur le nom de Gabriel Fauré”, de Maurice Ravel, e o êxtase repetiu-se. Stéphane Belmondo expressou a sua enorme qualidade num longo solo de trompete, mas foi Laurent Fickelson quem mais se fez notar, o piano dividido entre a dolente linguagem clássica e os ritmos vibrantes do jazz. Prelúdio do 1º acto de “Les Fils des Étoiles”, de Erik Satie, “La Vocation” foi mais um momento mágico, tal como o foram “Le Plus Que Lent”, de Debussy, ou “Yusef’s Tree”, uma peça escrita por Lionel Belmondo e que é um tributo a Yusef Lateef, a par de Milton Nascimento uma das figuras do jazz que mais tem influenciado o agrupamento.

Exploração empolgante dos cruzamentos entre universos musicais, “Ravel et le Jazz” foi, já o disse, um enorme concerto. Sob o manto da modernidade, os temas clássicos tomam formas inesperadas. Rompendo com a tradição, os sons e ritmos desenvolvidos de um e outro lado do Atlântico no primeiro quartel do século passado mostram, afinal, ter muito mais em comum do que aquilo que poderíamos supor. Só por isto, todas as palavras de reconhecimento que possa dirigir à organização do Festival serão poucas. Mas há também esse pormenor de vital importância que é a oferta do Concerto à cidade, prosseguindo no extraordinário esforço de valorizar a cultura e, em particular, a música, aproximando-a daqueles que menos acesso têm a ela. O novo espaço da Praça do Progresso albergou um numeroso público, mostrando-se perfeitamente adequado a este tipo de manifestações. Resta falar dos mais novos, dos alunos da Academia, os músicos de amanhã. Foi deles o primeiro grande momento, cantando em conjunto um tema que foi, em si mesmo, um hino à alegria. Que venham mais concertos como este!

[Foto: Filipe Pereira, Festival Internacional de Música de Espinho | https://www.facebook.com/fimespinho]

domingo, 27 de junho de 2021

CONCERTO: "3 Mestres, 3 Sonatas" | Frank Peter Zimmermann, Martin Helmchen




CONCERTO: “3 Mestres, 3 Sonatas” | Frank Peter Zimmermann, Martin Helmchen
FIME - 47º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório da Academia de Música de Espinho
22 Jun 2021 | ter | 21:00


Julgo não correr um risco em demasia ao afirmar que a esmagadora maioria das pessoas presentes no magnífico concerto da passada terça feira, no Auditório da Academia de Música de Espinho, teria permanecido hipnotizada horas e horas a escutar o piano de Martin Helmchen e o violino de Frank Peter Zimmermann, caso tal tivesse sido possível. Na sua forma “clássica” de devolver a grande música, a dupla mostrou-se de tal forma envolvente e sedutora que o tempo fluiu rapidamente sem termos disso dado conta. Ao mesmo tempo, é tão evidente a harmonia do conjunto que mesmo as notas mais delicadas e imperceptíveis se espalham pelo Auditório com uma clareza absolutamente cristalina. Resultado: Um concerto único, verdadeiramente apaixonante e redentor, a lembrar-nos o quanto a música clássica faz parte das nossas vidas.

O que mais se destaca em Helmchen e Zimmermann é que, apesar de pertencerem a diferentes gerações de músicos, ambos coincidem na sua resistência em render-se às modas do mercado. Não há “ismos” que resumam a sua forma de tocar, antes são as suas próprias convicções e essa autenticidade, essa franqueza, que realmente fascina aqueles que têm o privilégio de os escutar. Ao Auditório da Academia de Música de Espinho, no âmbito do 47º Festival Internacional de Música da cidade, Helmchen e Zimmermann trouxeram um programa composto exclusivamente por Sonatas para violino e piano de Ludwig van Beethoven, numa altura em que ainda se fazem sentir os ecos do 250º aniversário do nascimento do grande compositor. Foi, assim, possível escutar as Sonatas números 8, 9 “Kreutzer” e 10, três peças extremamente exigentes do ponto de vista da sua execução mas irresistíveis na sua vivacidade, harmonia e emoções que delas se derramam.

Com Zimmermann e Helmchen, Beethoven soa cheio de elegância. Como um pintor exaltado perante a tela em branco, o violino vai traçando linhas destras e precisas que o piano se encarrega de preencher de cor e alegria. Fluida e sorridente, a música vive do fraseado distinto do violino, dos seus vibratos subtis, que o piano, ágil e maleável, se encarrega de acompanhar. É fascinante ver como Helmchen traduz para o piano as suaves e claras propostas de Zimmermann, com ele articulando de forma transparente, em concordância absoluta, respirarando em uníssono, interpretando o texto musical de forma lúcida e com venerável respeito pelo compositor. Uma chuva de aplausos fechou esta noite preciosa, os espectadores recompensados ​​por Helmchen e Zimmermann com um extraordinário encore, o Adagio da Sonata para Violino e Piano nº 1 Op. 78, “Regensonate”, de Johannes Brahms. O final mais que perfeito!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

CONCERTO: Sílvia Pérez Cruz + Concerto Milha Inês Filipe



CONCERTO: Sílvia Pérez Cruz + Concerto Milha Inês Filipe
Casa da Cultura de Ílhavo
18 Dez 2020 | sex | 21:00


“¿Dónde está tu pájaro, plumita?
—Mi pájaro es un sueño. Se ha volado.
—¿Volverá?
—Nunca se va: Vuela y permanece,
Como vuela y permanece todo lo soñado.”

Oito meses após o inicialmente previsto, o público ilhavense pode finalmente escutar Sílvia Pérez Cruz na apresentação de “Farsa (Género Imposible)”, o seu mais recente trabalho discográfico. Para a cantora, este foi um momento privilegiado de voltar a cantar fora do espaço virtual, expondo as suas inquietações face à dualidade do que mostramos e daquilo que realmente somos, de como sobrevive a fragilidade interior nestes tempos em que o superficial é tão arrasador e em que já muito pouco é o que parece ser. Quanto ao público, teve a oportunidade única de escutar poemas de enorme significado e beleza, numa voz que é um verdadeiro “caso de estudo”, despejando no mais fundo de nós as emoções mais simples e mais puras.

Com uma luz crua sobre si, apenas voz, a cantora começou por nos oferecer “Que me van aniquilando”, um tema de 1977 de Enrique Morente, que a vincula a uma matriz do “novo flamenco” da qual é legítima herdeira. Depois vieram pássaros e sonhos em “Plumita”, primaveras em “Els dracs busquen l’abril” e flores em “La Flor”. Veio também esse incrível “Grito pelao” – “del grito / del canto. / Silencio, vacío y parao / sola / sin faro / y em Trafalgar. / Del grito pelao...” – e então demo-nos conta de termos embarcado numa viagem interplanetária de destino incerto. Com “Estimat”, “Tango de la Vía Láctea” e “Ensumo l’abril” viajámos nas asas do sonho para lá do espaço sideral. Em transe escutámos “Pena Salada”, “Tres locuras” e “Par Coeur + The Womb” antes de encetarmos o regresso. “The Sound of Silence” ainda nos deixou a pairar por momentos, mas “Mañana”, num poema sublime de Ana María Moix, fez-nos assentar o corpo tremente em terra firme.

O final fez-se com “For a fatherless son”, letra de Sylvia Plath, e ainda “Todas las madres del mundo”, a que se seguiu “Intemperie”, num muito reclamado “encore”. E agora? O que fica desta “farsa”? Fica o poder da palavra e da música, aqui de mãos dadas com outras disciplinas artísticas como o teatro, o cinema, a dança, a poesia, a pintura ou o cinema de animação. Fica uma intensa nota de experimentalismo, corolário lógico dos muitos anos de pesquisa por caminhos próprios de paixão pela música. Fica, sobretudo, uma voz de sonho, ímpar, que tudo pode e tudo arrasta, que se afirma como o mais completo e sublime de todos os instrumentos. Uma palavra também para Inês Filipe, jovem pianista ilhavense a quem foi proporcionada uma breve apresentação de trechos do repertório pianístico clássico e que se mostrou irrepreensível na interpretação de peças de Debussy e Rachmaninov. É uma pena que a estes Concertos Milha não seja dado outro enquadramento e melhores condições. Importa repensar estratégias no futuro. O público e, sobretudo, os jovens artistas merecem melhor.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #19



1. “Um presente de Natal, um filme oferecido à cidade”. É assim que os promotores do Shortcutz Ovar falam da sua proposta para a noite de sexta feira, dia 18 de Dezembro, no Centro de Artes de Ovar. Preenchendo a sessão #44 do certame, “Listen” é o filme convidado e contará com as presenças da realizadora Ana Rocha de Sousa e da actriz principal, Lúcia Moniz. Vencedor dos prémios Leão do Futuro e Prémio Especial do júri da secção Orizzonti da recente Mostra de Veneza e eleito pelos membros da Academia Portuguesa do Cinema para concorrer ao Óscar de Melhor Filme Internacional em 2021, o filme passa-se nos arredores de Londres e narra a história de um casal português que luta pela união da família depois de ver os serviços sociais britânicos porem em causa o tratamento dado aos seus três filhos. A entrada é livre no limite dos lugares disponíveis e mediante marcação obrigatória na bilheteira do Centro de Artes de Ovar ou através de mensagem por messenger ou pelo email ovar@shortcutznetwork.com. Tudo para conferir em https://www.facebook.com/events/752440588954611/.

2. No âmbito da celebração do 250° aniversário do nascimento de Ludwig van Beethoven (1770-1827), o Duo Tramma-Facchini apresenta-se no próximo domingo, pelas 19h00, na Casa das Artes, Porto. A festejar vinte anos de actividade em Duo, Ludovico Tramma (violinista) e Fiammetta Facchini (pianista) propõem um programa que incluirá a Sonata em lá maior op.30 nº 1, a Sonata em dó menor op.30 nº 2 e a Sonata em sol maior op.30 nº 3. Doutorados na Universidade de Aveiro no âmbito da Música, ramo Performance, são ambos pluridiplomados no país de origem (Itália), tendo concluído, respetivamente, o Curso Superior de Violino, Viola d’Arco e Música de Câmara (Ludovico) e Piano, Cravo e Música de Câmara (Fiammetta). A sessão contará com a participação extraordinária do compositor Cândido Lima que irá apresentar as peças. A entrada é livre e sujeita à lotação da sala. Saiba mais em https://casadasartes.gov.pt/em-breve-24/.

3.  Uma abastada família portuguesa adopta, por necessidade, um jovem rapaz brasileiro de ascendência indígena e para ele organiza uma festa de quinze anos, uma “quinceañera” – ritual social comum nas Américas –, um baile de debutantes de apresentação à sociedade portuguesa, que acabará tingido pela tragédia e pelo horror. Este é o tema de “Festa de 15 Anos”, peça de teatro que sobe ao palco do TeCA amanhã e se manterá em cena até domingo. Cruzando o privado e o político, “Festa de 15 Anos” interroga as heranças da colonização, o seu património moral, o fetichismo face às minorias, e revela a dificuldade em criarmos “sínteses que nos consolam e libertam enquanto indivíduos numa comunidade”. Com texto e encenação de Mickaël de Oliveira e interpretação de Albano Jerónimo, Ana Pinheiro, Carlos Melo, Diego Bagagal e outros, a peça tem uma duração de 01h45 e destina-se a um público maior de 14 anos. Mais informações em https://www.tnsj.pt/pt/espetaculos/5928/festa-de-15-anos.

segunda-feira, 2 de março de 2020

CONCERTO: Solistas da Orquestra Gulbenkian | Ludwig van Beethoven



CONCERTO: Solistas da Orquestra Gulbenkian 
Ludwig van Beethoven 
Programa | “Trio para Cordas, em Ré maior, op. 9 n.º 2”, “Septeto para Sopros e Cordas, em Mi bemol maior, op. 20” 
Intérpretes | Maria Balbi (violino), Leonor Braga Santos (viola), Varoujan Bartikian (violoncelo), Manuel Rego (contrabaixo), Iva Barbosa (clarinete), Ricardo Ramos (fagote), Kenneth Best (trompa) 
Fundação Calouste Gulbenkian – Grande Auditório 
23 Fev 2020 | dom | 12:00


A verdadeira arte permanece imperecível, disse Ludwig van Beethoven (1770 – 1827), sendo esta uma citação que se aplica integralmente à sua música. Ele foi um humanista, um incompreendido na sua maneira de pensar, um visionário musical - e ainda é um dos compositores mais tocados no mundo de hoje. Mesmo perdendo progressivamente a audição quando ainda não tinha 30 anos, Beethoven não deixou de compor. Algumas das suas obras mais famosas foram escritas quando estava praticamente surdo, nomeadamente a 9.ª Sinfonia, concluída em 1824, cujo último movimento exalta os ideais europeus de liberdade, paz e solidariedade e é, desde 19 de Janeiro de 1972, o Hino da União Europeia. No ano em que se celebra o 250.º aniversário do nascimento do compositor, percebemos o quanto Beethoven tem de popularidade e de relevância através da multiplicidade de eventos que se desenrolam em todas as partes do mundo, não apenas no campo da música, mas também na dança, no teatro, na pintura e numa série de projectos artísticos tendentes a assinalar a efeméride. As salas portuguesas não são excepção e, uma vez mais, tivemos o privilégio de escutar a música de Beethoven, desta vez no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, numa interpretação do “Trio para Cordas, em Ré maior, op. 9 n.º 2” e do “Septeto para Sopros e Cordas, em Mi bemol maior, op. 20”, pelos Solistas da Orquestra Gulbenkian.

No início de 1798, quando Beethoven compôs os seus três Trios para Cordas, op. 9, a sua reputação em Viena não estava ainda consolidada. Embora se tivesse já destacado em vários dos principais salões aristocráticos da cidade como pianista virtuoso, tocando a sua própria música e improvisando, não era fácil ao jovem compositor fugir da sombra dos génios de Mozart e Haydn. Percebe-se, pois, que o Divertimento para Trio de Cordas K. 563, de Mozart, tivesse servido de modelo para os trios de Beethoven, embora isso não lhe retire qualquer valor. Em particular o segundo trio do Opus 9, cujo modelo em quatro andamentos se funda em Haydn, é uma peça brilhante, o violino de Maria Balbi a envolver o público. O “allegretto” de abertura é marcado por um impulso fortemente lírico na escrita para o violino, mas o acompanhamento incessante empresta ao movimento uma atmosfera inquieta. O segundo movimento, com o seu ritmo fluente, mergulha-nos numa dança misteriosa. Um “Menuetto” animado leva-nos até ao “Rondo” final, no qual Beethoven atribui o tema principal ao violoncelo.

É sabido que o “Septeto para Sopros e Cordas, em Mi bemol maior, op. 20”, de Beethoven – escrito para um ensemble de de violino, viola, violoncelo, contrabaixo, clarinete, fagote e trompa – foi uma das seus mais célebres e frequentemente executadas obras durante o século XIX. Composto em 1799 e dedicado à imperatriz Maria Teresa, a peça teve um sucesso imediato o que, paradoxalmente, irritou o compositor que viria a criticar a sua suposta falta de estilo, alegando não ser digna de atenção. E foi precisamente esta peça que os Solistas da Orquestra Gulbenkian interpretaram maravilhosamente, a mistura harmoniosa das cordas e dos sopros a prenderem a atenção do vasto auditório.

Tal como a peça anterior, também este Septeto deve muito aos modelos de Mozart, embora não se inspire em nenhuma peça em particular. Os dois primeiros movimentos trazem-nos sobretudo as melodias delicadas e serenas extraídas do violino e do clarinete. O trabalho a solo dos restantes instrumentos evidencia-se nos andamentos seguintes, sobretudo o clarinete e a trompa no trio que preenche o terceiro andamento – “Tempo di menuetto – o mais popular do Septeto à data da sua apresentação. O “Andante” que preenche o quarto andamento tem, na sua estrutura melódica, uma importância enorme na História da Música, visto representar uma peça clássica que serve de modelo à arte folclórica. As cinco variações do tema são apresentadas, cada uma, numa combinação diferente de instrumentos e um maior desenvolvimento do tema leva a uma conclusão repentina e inesperadamente abrupta. Segue-se um Scherzo “Allegro molto e vivace” com uma secção de trio apenas, dominada pelo violoncelo. O “Andante com moto alla marcia” final inclui uma série de incursões surpreendentes, duma sombria, quase fúnebre introdução a um “Presto” agitado, sério e divertido ao mesmo tempo.

[Foto: Solistas da Orquestra Gulbenkian © Gulbenkian Música - Jorge Carmona | gulbenkian.pt]

domingo, 26 de janeiro de 2020

CONCERTO: Elevação de Estarreja a Cidade | Orquestra Filarmonia das Beiras



CONCERTO: “Elevação de Estarreja a Cidade”
Orquestra Filarmonia das Beiras
Maestro | Cláudio Ferreira
Solistas | Gabriel Antão (trombone), Ricardo Antão (eufónio)
Cine-Teatro de Estarreja
26 Jan 2020 | dom | 16:00


É indiscutível que o dia 26 de janeiro de 2005 permanecerá na história do Município de Estarreja. Era então publicada no Diário da República a Lei nº 3/2005 que oficializava a elevação de Estarreja à categoria de cidade. Daí que o dia de hoje seja um dia de festa para o Município, ao cumprirem-se 15 anos sobre a efeméride. A assinalar a data - e como vem sendo hábito -, a cidade ofereceu à população um concerto de música clássica, ao mesmo tempo mostrando que continua a valorizar os agentes culturais locais. Assim, convidou para o palco do Cine-Teatro de Estarreja a Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direcção do Maestro Cláudio Ferreira, tendo como solistas o trombonista Gabriel Antão e o eufonista Ricardo Antão, três talentos desta bonita quanto dinâmica terra e que tiveram o merecido destaque neste dia de celebração.

Composto por Nino Rota e apresentado pela primeira vez em 6 de Março de 1969 no Conservatorio di Musica “Giuseppe Verdi”, em Milão, o Concerto para Trombone e Orquestra abriu esta tarde de festa. Considerado uma das mais importantes obras para trombone do repertório clássico, o concerto estende-se ao longo de três curtos andamentos e é pontuado por um naipe de instrumentos bastante ligeiro, nomeadamente ao nível dos metais, deixando o caminho livre para o trombone solo, aqui tendo por intérprete Gabriel Antão. Embora não muito expressivo, o solista demonstrou um belíssimo controlo sobre toda a gama do instrumento, mostrando-se particularmente à vontade na exploração do registo alto do trombone no segundo andamento e nesse delicioso divertimento que é o terceiro andamento, digno de uma comédia de Fellini. Os aplausos pelo seu desempenho foram mais do que merecidos.

A segunda peça interpretada foi uma estreia e resultou duma encomenda do Município ao compositor estarrejense Alexandre Almeida. Intitulada “Antão e quê...? Divertimento para Trombone, Eufónio e Orquestra”, com os solistas Gabriel Antão e Ricardo Antão em trombone e eufónio, respectivamente, a peça saldou-se por um momento delicioso graças às suas inspiradas linhas melódicas e ao desempenho dos solistas. Ainda que resumindo-se a um único andamento, neste “Antão e quê...?” cabem os momentos de festa e de folia que pontuam a vida das gentes, como cabem o dramatismo dos elementos e a dor da perda. Fruto dum trabalho inspirado, os diálogos entre os dois instrumentos solistas e destes com a orquestra são harmoniosos e de uma enorme riqueza tímbrica e rítmica. Gabriel e Ricardo Antão mostraram-se ao mais alto nível na interpretação deste “divertimento”, sabendo transmitir à plateia a felicidade do momento. No final o público não se fez rogado, coroando músicos e compositor com uma enorme ovação.

E porque a tarde era de festa e de celebração, foi em festa que se encerrou o programa com a magnífica Sinfonia nº 4, Op. 90, “Italiana”, de Felix Mendelssohn. Sem desprimor para as peças anteriormente apresentadas, é com as alegres e festivas melodias do primeiro andamento desta sinfonia na cabeça que deixamos o teatro. Mas o carácter introspectivo e o bucolismo dos segundo e terceiro andamentos, associados ao enérgico quarto andamento, um “saltarello”, dança leve e alegre típica da Itália, fazem do todo um dos pontos altos do período romântico. Parabéns Estarreja por este 15º aniversário e parabéns a quem faz da cultura uma das prioridades do Concelho. A encomenda de uma peça clássica e a oferta do Concerto à cidade são disso prova clara.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

CONCERTO: 9ª. Sinfonia de Beethoven | Philharmonischer Kammerchor Berlin & Orquestra Filarmónica Portuguesa



CONCERTO: “9ª Sinfonia de Beethoven”
Philharmonischer Kammerchor Berlin & Orquestra Filarmónica Portuguesa
Maestro | Osvaldo Ferreira
Soprano | Sarah Behrendt
Mezzo-soprano | Lisa Wedekind
Tenor | Marco Alves dos Santos
Barítono | Christian Oldenburg
43º FIMUV – Festival Internacional de Música de Paços de Brandão
Grande Auditório do Europarque – Santa Maria da Feira
09 Jan 2020 | dom | 17:30


Quando se comemoram os 250 anos sobre o nascimento desse génio musical alemão que foi Beethoven, a Orquestra Filarmónica Portuguesa convidou o Coro de Câmara de Berlim e os solistas Sarah Behrendt, Lisa Wedekind, Marco Alves dos Santos e Christian Oldenburg para a interpretação da última sinfonia completa deste notável compositor, a Sinfonia nº 9 em Ré menor, Op. 125, também conhecida como “Coral”, “Nona Sinfonia” ou, simplesmente, “A Nona”. Inserido na programação do 43º FIMUV - Festival Internacional de Música de Paços de Brandão, organizado pelo CiRAC – Círculo Recreio, Arte e Cultura de Paços de Brandão, em parceria com a Festa das Fogaceiras 2020 – Santa Maria da Feira, o concerto chamou ao palco mais de 120 executantes, entre o coro e instrumentistas, dando corpo a uma obra exaltante, com tanto de significado como de vivacidade e magnificência.

O Coro de Câmara de Berlim tem-se posicionado, desde a sua fundação, como um dos mais extraordinários coros desta cidade alemã, provando isso mesmo perante uma plateia bem composta numa das melhores salas de toda a região norte. Embora a sua prestação se resumisse ao último andamento da obra, estes ambiciosos jovens estudantes de canto, na sua maioria, tiveram um desempenho com tanto de inspirador como de significativo, revelador do seu amor pela música coral, ao mais alto nível. Por seu lado, a muito jovem Orquestra Filarmónica Portuguesa, sob a direcção do maestro Osvaldo Ferreira, mostrou-se a um nível muito alto, os seus integrantes a honrarem um projecto diferenciador e inovador e a mostrarem o porquê de serem, na sua maioria, jovens instrumentistas premiados em concursos nacionais e internacionais.

O resto é essa maravilhosa sinfonia que nos transporta para outra dimensão. Desde logo romântica, coroada pelo extraordinário poema de Schiller que é a Ode à Alegria - aconselha-se o exercício de ler o poema e tentar acompanhar a música simultaneamente, porque a incarnação musical do poema, a genealidade de Beethoven na forma como o coloca em cena e os versos de Schiller são emotivos e comovedores. Do ponto de vista histórico, representa um salto desmesurado em todos os sentidos. Orquestralmente o naipe de instrumentos é muito mais vasto, incluindo piccolo e contrafagote, quatro trompas, três trombones e uma mais vasta secção de percussão. Mas mais que isso, tem coro, tem solistas, e tem uma duração de uma hora e 15 minutos que ultrapassa todos os limites da época. É Beethoven a superar-se a si próprio, a ir mais longe, a sobrepujar o seu tempo e a empurrar a música para um tempo que não chegará a viver, mantendo-se como figura tutelar determinante até aos dias de hoje.

[Foto: Europarque | facebook.com/Europarque/]