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segunda-feira, 2 de março de 2020

CONCERTO: Solistas da Orquestra Gulbenkian | Ludwig van Beethoven



CONCERTO: Solistas da Orquestra Gulbenkian 
Ludwig van Beethoven 
Programa | “Trio para Cordas, em Ré maior, op. 9 n.º 2”, “Septeto para Sopros e Cordas, em Mi bemol maior, op. 20” 
Intérpretes | Maria Balbi (violino), Leonor Braga Santos (viola), Varoujan Bartikian (violoncelo), Manuel Rego (contrabaixo), Iva Barbosa (clarinete), Ricardo Ramos (fagote), Kenneth Best (trompa) 
Fundação Calouste Gulbenkian – Grande Auditório 
23 Fev 2020 | dom | 12:00


A verdadeira arte permanece imperecível, disse Ludwig van Beethoven (1770 – 1827), sendo esta uma citação que se aplica integralmente à sua música. Ele foi um humanista, um incompreendido na sua maneira de pensar, um visionário musical - e ainda é um dos compositores mais tocados no mundo de hoje. Mesmo perdendo progressivamente a audição quando ainda não tinha 30 anos, Beethoven não deixou de compor. Algumas das suas obras mais famosas foram escritas quando estava praticamente surdo, nomeadamente a 9.ª Sinfonia, concluída em 1824, cujo último movimento exalta os ideais europeus de liberdade, paz e solidariedade e é, desde 19 de Janeiro de 1972, o Hino da União Europeia. No ano em que se celebra o 250.º aniversário do nascimento do compositor, percebemos o quanto Beethoven tem de popularidade e de relevância através da multiplicidade de eventos que se desenrolam em todas as partes do mundo, não apenas no campo da música, mas também na dança, no teatro, na pintura e numa série de projectos artísticos tendentes a assinalar a efeméride. As salas portuguesas não são excepção e, uma vez mais, tivemos o privilégio de escutar a música de Beethoven, desta vez no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, numa interpretação do “Trio para Cordas, em Ré maior, op. 9 n.º 2” e do “Septeto para Sopros e Cordas, em Mi bemol maior, op. 20”, pelos Solistas da Orquestra Gulbenkian.

No início de 1798, quando Beethoven compôs os seus três Trios para Cordas, op. 9, a sua reputação em Viena não estava ainda consolidada. Embora se tivesse já destacado em vários dos principais salões aristocráticos da cidade como pianista virtuoso, tocando a sua própria música e improvisando, não era fácil ao jovem compositor fugir da sombra dos génios de Mozart e Haydn. Percebe-se, pois, que o Divertimento para Trio de Cordas K. 563, de Mozart, tivesse servido de modelo para os trios de Beethoven, embora isso não lhe retire qualquer valor. Em particular o segundo trio do Opus 9, cujo modelo em quatro andamentos se funda em Haydn, é uma peça brilhante, o violino de Maria Balbi a envolver o público. O “allegretto” de abertura é marcado por um impulso fortemente lírico na escrita para o violino, mas o acompanhamento incessante empresta ao movimento uma atmosfera inquieta. O segundo movimento, com o seu ritmo fluente, mergulha-nos numa dança misteriosa. Um “Menuetto” animado leva-nos até ao “Rondo” final, no qual Beethoven atribui o tema principal ao violoncelo.

É sabido que o “Septeto para Sopros e Cordas, em Mi bemol maior, op. 20”, de Beethoven – escrito para um ensemble de de violino, viola, violoncelo, contrabaixo, clarinete, fagote e trompa – foi uma das seus mais célebres e frequentemente executadas obras durante o século XIX. Composto em 1799 e dedicado à imperatriz Maria Teresa, a peça teve um sucesso imediato o que, paradoxalmente, irritou o compositor que viria a criticar a sua suposta falta de estilo, alegando não ser digna de atenção. E foi precisamente esta peça que os Solistas da Orquestra Gulbenkian interpretaram maravilhosamente, a mistura harmoniosa das cordas e dos sopros a prenderem a atenção do vasto auditório.

Tal como a peça anterior, também este Septeto deve muito aos modelos de Mozart, embora não se inspire em nenhuma peça em particular. Os dois primeiros movimentos trazem-nos sobretudo as melodias delicadas e serenas extraídas do violino e do clarinete. O trabalho a solo dos restantes instrumentos evidencia-se nos andamentos seguintes, sobretudo o clarinete e a trompa no trio que preenche o terceiro andamento – “Tempo di menuetto – o mais popular do Septeto à data da sua apresentação. O “Andante” que preenche o quarto andamento tem, na sua estrutura melódica, uma importância enorme na História da Música, visto representar uma peça clássica que serve de modelo à arte folclórica. As cinco variações do tema são apresentadas, cada uma, numa combinação diferente de instrumentos e um maior desenvolvimento do tema leva a uma conclusão repentina e inesperadamente abrupta. Segue-se um Scherzo “Allegro molto e vivace” com uma secção de trio apenas, dominada pelo violoncelo. O “Andante com moto alla marcia” final inclui uma série de incursões surpreendentes, duma sombria, quase fúnebre introdução a um “Presto” agitado, sério e divertido ao mesmo tempo.

[Foto: Solistas da Orquestra Gulbenkian © Gulbenkian Música - Jorge Carmona | gulbenkian.pt]

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