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segunda-feira, 28 de julho de 2025

CONCERTO: Pedro Moutinho



CONCERTO: Pedro Moutinho
Com | André Dias (guitarra portuguesa), Pedro Soares (guitarra), Ni Ferreirinha (baixo acústico), Pedro Moutinho (voz)
Festival do Pão de Ló de Ovar
Jardim Almeida Garrett
26 Jul 2025 | sab | 21:30


Em jeito de lançamento dos dois concertos que preencheram uma boa parte do programa do terceiro dia do Festival do Pão de Ló de Ovar, a tarde do passado sábado foi dedicada “à escuta do fado”, conversa integrada no extraordinário projecto que é o InOvar as Letras - À Escuta da Literatura. Neste seu desígnio de criar laços entre a música popular e a chamada música erudita, a “tertúlia de fado”, moderada por Ana Isabel Nistal Freijo, mostrou-se particularmente oportuna, não apenas pela possibilidade de reunir à volta do tema três personalidades fortemente envolvidas com o fado, mas também porque Ovar é uma referência no género, como Dino Marques tão bem lembrou ao mencionar os nomes do letrista António Campos e dos fadistas Clara d’Ovar, Zeni d’Ovar e Maria Albertina. Em ambiente descontraído, entre histórias e memórias, muitos temas vieram à baila, das diferenças entre o fado de Lisboa e o de Coimbra à experiência colectiva singular que são as casas de fado, de referências tão importantes como Ana Rosmaninho, Francisco Maurício, Alfredo Marceneiro ou Carlos Rocha, à constatação de que “os fados são primos”.

Coube a Pedro Moutinho a responsabilidade de preencher o serão, com um concerto feito de temas tradicionais do fado e uma ou outra piscadela de olho à canção dita ligeira. Nascido no seio de uma família com fortes ligações ao fado, irmão dos consagrados Hélder Moutinho e Camané, Pedro Moutinho propôs um alinhamento que percorreu uma discografia com mais de vinte anos - “Primeiro Fado” (Som Livre, 2003) foi o seu primeiro trabalho de estúdio -, fazendo as delícias do público graças ao seu talento, à emoção que se desprende da sua voz e à beleza dos temas escolhidos. “Lisboa mora aqui e as portas da cidade / Abrem-se à voz que sou com a chave duma rima”. “Lisboa Mora Aqui” foi o tema de abertura do concerto, com Pedro Moutinho a homenagear, por seu intermédio, grandes referências do fado, que viriam estender-se a Martinho d’Assunção, Carlos Rocha, Amália ou Carlos do Carmo. Conquistado, o público escutou “Maldição”, “Olhos Estranhos” e “Meu Amor sem Direcção”, atrevendo-se a dar a deixa ao fadista no refrão do “Fado da Contradição” - “se eu digo sim, tu dizes não / se eu digo não, tu dizes sim”.

Apesar de um ambiente menos adequado a escutar-se o fado nas condições que ele merece e exige, condicionando a desejável empatia entre o fadista e o público, o concerto teve momentos extraordinários, sendo de realçar a interpretação de temas como “A Rua da Esperança”, “Veio a Saudade”, “Um Resto de Mouraria” e, sobretudo, “Alfama”. Nestes, como noutros fados, ficou bem patente a apetência do artista para combinar modernidade e tradição, daí resultando um estilo único, uma assinatura inconfundível feita de talento, brilho e sentimento. Ao encontro de um universo de poemas e músicas, onde cabem os nomes de Amélia Muge, Manuela de Freitas, Maria do Rosário Pedreira, João Monge, Carminho, Teresinha Landeiro, Tiago Torres da Silva, Hélder Moutinho ou Aldina Duarte, Pedro Moutinho fez do tempo do concerto uma viagem por ruas e becos da cidade branca, narrando uma delicada história onde se cruzam saudades e maldições, amores e contradições, imprevistos e inquietações. Os músicos cotaram-se a bom nível e os dois temas do “encore” foram particularmente aplaudidos. As raras e delicadas nuances do fado a fazerem as delícias de muitos, que nem só de Pão de Ló vive o homem.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

CONCERTO: “Le Coup de Majesté - Músicas da época do jovem Luís XIV” | Le Poème Harmonique



CONCERTO: “Le Coup de Majesté - Músicas da época do jovem Luís XIV”
Le Poème Harmonique
Direcção musical | Vincent Dumestre
Com | Éva Zaïcik (mezzo-soprano), Camille Aubret e Louise Ayrton (violinos), Lucas Peres (viola da gamba), Simon Guidicelli (violone), Violaine Cochard (órgão e cravo), Vincent Dumestre (teorba)
Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça
Sacristia Manuelina do Mosteiro de Alcobaça
20 Jul 2025 | dom | 18:00


Estamos no Palácio do Louvre, no segundo quartel do século XVII. Aqui está situada a corte de França - Versalhes não passava, então, de uma aldeia - e Luis XIV acaba de ser coroado rei, iniciando um período de 72 anos correspondente àquele que viria a ser o mais longo reinado da História. Ali, entre o murmúrio do Sena e o ruído dos subúrbios, a vida cultural centra-se no canto e na dança, na pintura e no teatro, levada com desvelo à presença de um menino que não tem sequer cinco anos e a quem tudo fascina. Fascínio que se estende aos aposentos, onde as amas o mimam com histórias de encantar, ou às cozinhas do Palácio de onde saem cantigas, trazidas da rua por padeiros e cozinheiros que, entre patés e perdizes, dançam uma “bourrée” ou tocam pandeireta. Entretanto, em espaços privados, a música barroca encanta o pequeno rei e os membros da corte mais próximos. Foi ao encontro deste quotidiano refinado e requintado, dominado de forma muito particular pela música, que o agrupamento francês Le Poème Harmonique se apresentou em Alcobaça, disposto a recuar no tempo e a oferecer aos presentes uma proposta de viagem pelos ambientes da corte parisiense nos primórdios do reinado de Luis XIV.

Agora o tempo é outro e o espaço onde nos encontramos também. É na Sacristia Manuelina do Mosteiro de Alcobaça que os músicos que integram o Le Poème Harmonique se apresentam ao público, para um concerto que fecha um fim de semana extraordinário, quiçá o mais valioso da programação deste ano do Cistermúsica - Festival de Música de Alcobaça. Jóia arquitectónica, com um conjunto precioso de elementos barrocos e o seu inigualável portal manuelino (recuperado do catastrófico terramoto de 1755), a Sacristia mostrou-se o espaço perfeito para este verdadeiro “golpe de majestade”, envolvendo os presentes no espírito da época e predispondo à escuta atenta de um conjunto de peças que começou em Jean-Baptiste Lully e terminou em… Serge Gainsbourg. Com Vincent Dumestre na teorba e direcção musical, o concerto dividiu-se em duas partes, a primeira voltada para os compositores franceses e para uma fase tardia da juventude de Luis XIV. Foi então possível escutar um conjunto de peças de Michel-Richard de Lalande, Marc-Antoine Charpentier e Étienne Moulinié, para além do já referido Lully e de dois autores anónimos, que tiveram a ligá-las o tom contrastante entre a riqueza e a profusão de elementos tonais da música barroca e a singeleza das ilustrações campestres e dos poemas feitos de graça e leveza.

Com o foco nos compositores italianos da corte, muito por influência do Cardeal Mazarino, primeiro-ministro de França entre 1642 e 1661, recuamos ligeiramente à meninice do rei, para escutarmos Giovanni Battista Buonamente, Marco Uccellini e, sobretudo, Francesco Cavalli, em composições mais densas e complexas que as anteriores, com um carácter marcadamente operático. Cabe aqui falar da mezzo-soprano Éva Zaïcik, da força e harmonia de uma voz única, da sua enorme teatralidade, expressas desde o início do concerto mas que, nesta segunda metade, adquiriram um cunho sedutor, de verdadeiro êxtase. De uma enorme versatilidade, capaz de assumir com a mesma intensidade uma cena do mais puro lirismo ou uma passagem de extrema violência, Zaïcik impressionou pelos seus graves profundos, timbre radiante, sensibilidade inexcedível e entrega absoluta ao elemento cénico. Sem demérito para com os restantes elementos do agrupamento, todos eles irrepreensíveis na interpretação dos mais variados instrumentos, salientaria ainda a violinista Louise Ayrton, um jovem talento a seguir com atenção. O “encore” trouxe-nos o “Invicti, Bellate”, desse expoente máximo do barroco tardio que foi Antonio Vivaldi e, enfim, a enorme surpresa de escutar “La Javanaise”, de Gainsbourg, com instrumentos de outra época e a preciosa voz de uma cantora lírica, como que a fechar um ciclo (ou a dizer que isto anda tudo ligado). Um concerto memorável, o melhor do ano até à data.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

CONCERTO: "Redescobrindo Palestrina" | La Grande Chapelle



CONCERTO: “Redescobrindo Palestrina”
La Grande Chapelle
Direcção musical | Albert Recasens
Com | Raquel Mendes e Axelle Bernage (sopranos), David Feldman e Marco van Baaren (altos), Jeremie Coleau e Joan Francesc Folqué (tenores), Pieter Stas e Guillaume Orly (baixos), Marta Vicente (violone) e Jorge López Escribano (órgão)
Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça
Salão da Biblioteca do Montebelo Mosteiro de Alcobaça Historic Hotel
19 Jul 2025 | sab | 21:30


Há mais de três décadas a ligar património, música e comunidade, o Cistermúsica – Festival de Música de Alcobaça é a demonstração viva do valor e interesse dos chamados “pequenos festivais”, da sua capacidade de se agigantarem e reflectirem a inegável dimensão universal da música, espelhada não só na qualidade e diversidade dos agrupamentos e artistas envolvidos, mas também no contraste de estilos que contribuem para a riqueza da sua programação. Ancorado na música erudita, o Festival deste ano tinha no agrupamento espanhol La Grande Chapelle, sob a direcção do maestro Albert Recasens, um dos seus maiores trunfos e as expectativas não saíram goradas. O numeroso público que encheu o belíssimo Salão da Biblioteca do Montebelo Mosteiro de Alcobaça Historic Hotel foi brindado com uma noite de redescoberta desse “mestre moderno” que foi Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525 – 1594), um prolífico autor de missas, hinos e motetos para a Igreja Católica e considerado hoje o mais importante compositor de música sacra do século XVI.

No ano em que se celebra o 500.º aniversário do nascimento de Palestrina, escutar a sua obra é recuar aos finais do Renascimento enquanto período áureo da música religiosa um pouco por toda a Europa e mergulhar na enorme revolução vivida no seio da Igreja, com o Concílio de Trento a afirmar-se, consistente e firme, como resposta à Reforma Protestante. Sobretudo, é valorizar o “exercício de diplomacia” de que se revestiu a associação da música de Palestrina com os princípios da retórica tridentina, é perceber a ênfase colocada na oratória sem que os princípios da harmonia e do ritmo saíssem beliscados, é tomar consciência da importância do conteúdo afectivo e dramático das peças, da sua inteligibilidade, ao encontro de uma resposta mais emocional no ouvinte. Mostrando uma consciência plena das novas tendências da música sacra no final do século XVI, Palestrina produziu um corpo considerável de música policoral, com muitas das suas composições a permanecerem até hoje praticamente desconhecidas do público. Foi sobre esse repertório escondido que La Grande Chapelle se concentrou, trazendo até Alcobaça um conjunto de peças verdadeiramente preciosas.

Demonstração plena da riqueza da polifonia renascentista, daquilo que representa, de como soa e se sente, da sua intensidade e beleza, o momento proporcionado pelo agrupamento espanhol colheu os frutos da sua demanda: proporcionar uma viagem de elevação e espiritualidade através da música do compositor romano. Face aos desafios musicais e expressivos das peças, o coro mostrou-se imaculadamente equilibrado, as vozes envoltas numa harmonia luminosa que arrastou o público a lugares fortemente introspectivos e de reflexão. O comedimento da linguagem musical de Palestrina viu-se compensado pela intensidade emocional das linhas vocais. Salmos, responsórios, antífonas, motetes, sequências e ofertórios abriram espaço nas mentes do público, ao encontro de momentos de verdadeiro júbilo. Ninguém ficou indiferente à expressividade, fulgor e virtuosismo da soprano bracarense Raquel Mendes, cuja voz límpida arrebatou o público em peças exigentes como “O bone Jesu”, “Crucem sanctam subiit” ou o excepcional “Regina coeli”, que o grupo repetiu num “encore” mais do que reclamado. Num espaço magnífico, um concerto que abriu as portas do céu.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

CONCERTO: Berta Rojas



CONCERTO: Berta Rojas
Festival Internacional de Guitarra de Aveiro
Centro Cultural e de Congressos de Aveiro
13 Jul 2025 | dom | 18:00


Consabidamente, a cultura não tem sido merecedora, por parte da nossa classe dirigente, da atenção e dos apoios devidos, ocupando o lugar de parente pobre aos olhos de uma parte importante da sociedade portuguesa. Acabam por ser as autarquias locais ou entidades privadas a descobrir as realidades de um vasto leque de projectos altamente meritórios, assumindo-os na qualidade de mecenas e garantindo as condições necessárias para que as coisas aconteçam. Está neste caso o Festival Internacional de Guitarra de Aveiro, em ano de estreia, que ao longo de uma semana transformou a cidade num palco de cordas mil, graças a um diversificado conjunto de manifestações musicais e artísticas em torno da guitarra. Concertos, masterclasses, cinema, um Encontro Nacional de Professores de Guitarra e uma Conferência Internacional foram núcleos de um evento estrategicamente pensado e que soube posicionar-se, desde a primeira hora, com a ambição de vir a tornar-se uma referência no panorama dos festivais de guitarra a nível internacional.

Cabeça de cartaz do certame, a guitarrista paraguaia Berta Rojas subiu ao palco do Centro de Congressos de Aveiro ao final da tarde do passado domingo para o concerto de encerramento. Trazia consigo o reconhecimento do público e da crítica como uma das mais renomadas intérpretes de guitarra clássica da actualidade, alicerçado na conquista de um Grammy Latino para Melhor Álbum Clássico, com o seu trabalho “Legado” (2022). E foi precisamente por aqui que a artista começou, interpretando duas peças de Ida Presti, compositora clássica francesa e, para muitos, “a maior guitarrista do século XX, e possivelmente de todos os tempos”. Títulos à parte, Presti desempenhou um papel extraordinário ao mostrar o valor da mulher num mundo dominado, quase em exclusivo, por homens, abrindo portas a que muitas outras mulheres mostrassem o seu potencial e valor e singrassem no mundo da música. “Segovia” e “Danse Rythmique” foram os dois temas tocados, intercalados por “Idylle pour Ida”, de John Duarte. Na primeira parte do concerto seria ainda possível escutar, de Federico Moreno Torroba, “Sonatina”, sendo evidente o significado da escolha destas peças, mas sobretudo a técnica excepcional e a habilidade expressiva de Berta Rojas. Navegando cuidadosamente pelas melodias flutuantes das peças, a guitarrista pôs em destaque a sensibilidade rítmica dos compositores, o seu talento melódico e um suave - mas colorido - cromatismo.

A segunda parte do concerto foi toda ela dedicada a Agustin Barrios Mangoré, virtuoso guitarrista e compositor clássico paraguaio, amplamente considerado um dos maiores intérpretes e indiscutivelmente o compositor mais prolífico para guitarra de sempre. Berta Rojas foi exímia na interpretação das várias peças eleitas para o alinhamento desta segunda metade, em particular a incontornável “Catedral” e, já no “encore”, um maravilhoso “Choro da Saudade”. No ouvido ficam influências da música folclórica sul-americana e centro-americana nas composições de Agustin Barrios, mas também texturas que vão beber aos clássicos, nomeadamente a Johann Sebastian Bach. Comovente, hipnótica, a música interpretada com tanta maestria e emoção convida-nos a ver nela um elemento aglutinador de esforços e talentos, independentemente dos nomes, nacionalidades, épocas ou cor da pele de quem deu o seu contributo para o estudo, evolução e consolidação dos mais variados estilos musicais em torno deste instrumento tão amplamente divulgado. Um enorme concerto de uma enorme guitarrista, marcado pela negativa pelas péssimas condições do Auditório, com assentos desconfortáveis e a rangerem ao mínimo movimento, uma sala impossível de calor, espectadores indiferentes à necessidade de desligarem os telemóveis e um fotógrafo que fez da sua câmara uma metralhadora e rivalizou em protagonismo com a artista.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia (II)



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia (II)
Com | CRUA, Juliana Linhares, Fogo Fogo e Mário Lúcio
Parque Urbano de Ovar
12 Jul 2025 | sob | 16:00 às 00:00


Tal como havia começado, chegou ao fim em festa o FESTA - Sons da Lusofonia, que este ano viu cumprida a sua décima edição. E se ontem trouxe aqui as impressões do primeiro dia, no qual pontificaram A garota não, os Cara de Espelho e os Cacique 97, hoje falo dos concertos das CRUA, de Juliana Linhares, dos Fogo Fogo e de Mário Lúcio. De fora, porque não tive oportunidade de os apreciar, ficam Asa Cobra e os Sétima Legião. Mas comecemos pelas CRUA, belíssimo conjunto de cinco vozes no feminino, que se apresentaram com a proposta de uma viagem pela música tradicional, do Minho à Galiza, de Monsanto ao Paúl. De adufe na mão (ou de peneira, vá, que é uma prova de diversidade democrática), Diana Ferreira Martins, Liliana Abreu, Rita Só, Silvana Dias e Rita Sá puxaram pelas vozes e mostraram o quanto de belo pode haver na tradição, ao mesmo tempo que trocaram ideias “sobre este mundo que anda bem louco, mas se calhar consegue estar aqui um bocadinho melhor”. “Moleira”, “Meninas” e “Burriña” abriram o concerto, tornando mais quente a tarde e mais próximos os amigos. Amigos que se se fizeram presentes no bombo de Tiago Sami ou na (maravilhosa) voz de Sara Yasmine, ou que, mesmo ausentes, estiveram na FESTA, casos da Barcia de Mera, Maria Teresa Horta ou uma comunidade sénior do Porto, nesse muito belo “Em Casa”. “Eu hei-de morrer cantando, já que chorando nasci” deu o tom à “Moda da Tosquia”, o concerto fechando com “Ceifeira” e muitos amigos em palco, de longe e de aqui, de agora e de sempre.

Juliana Linhares preencheu o segundo concerto da tarde e foi, garantidamente, uma das maiores surpresas do Festival. Cantora, compositora e actriz, foi mulher e foi coragem nas músicas que interpretou, carregando-as de beleza e de uma alegria incontidas. Tirando partido de uma voz potente e de uma presença em palco fortemente teatral, a artista soube cruzar os ritmos tradicionais nordestinos com a grandeza melódica e poética de compositores como Alceu Valença, Zé Ramalho, Chico César, Zeca Baleiro ou Tom Zé, condimentando-os com um conjunto de notas operáticas e vaudevilescas. Mas nem só de música e performance se fez o concerto, visto Juliana Linhares ter na sua poesia outro ponto forte, com muitos dedos apontados ao preconceito e às diferenças que a sociedade teima em estabelecer no seu seio. Fazendo incidir o alinhamento no seu álbum “Nordeste Ficção” - um Hino ao Nordeste e à afirmação do seu lugar na imensa nação que é o Brasil -, a cantora ofereceu-nos verdadeiras pérolas em “Meu Amor Afinal de Contas” e “Embrulho” - duas parcerias com Zeca Baleiro e Chico César, respectivamente -, “Armadilha” (extraordinário o intróito instrumental do guitarrista Elísio Freitas) e “Tareco e Mariola”. Piscando o olho ao próximo trabalho de estúdio, Juliana Linhares mostrou “Emaranhado”, para logo “regressar ao passado” com “Aburguesar”, “Nordeste Ficção” e É Mais em Baixo / Lambada da Lambida”. “Frivião” fechou o concerto, mas não termino sem falar de “Bolero de Isabel”, com poemas pintalgados do linguajar nordestino, em rimas verdadeiramente deliciosas.

Se Juliana Linhares navegou nas asas da surpresa, os Fogo Fogo vieram com a certeza de um concerto inesquecível. Primeira banda a repetir a presença no FESTA (depois de uma participação memorável em 2022), os Fogo Fogo puseram a carne toda no assador, mostrando o porquê de serem lídimos representantes do funaná, mas não só. Cultores da lusorritmía, na sua música confluem o samba e o semba, a morna e a marrabenta, o carimbó e o fado. Mas, ainda que o ritmo seja o pai de tudo, a palavra traduz o ritmo e daí que a música dos Fogo Fogo, sendo para dançar, seja igualmente para cantar. E foi isso que pudemos apreciar ao final da tarde de sábado, num concerto que encerrou um conjunto de momentos inesquecíveis. Voltar ao baile, voltar à pista, ser ponto de encontro de corpos que se dão em gesto e partilha, foi esta a proposta da banda à qual o público aderiu de forma incondicional. Dançou, dançou, dançou, cantou e voltou a dançar, levantou o pó do chão e, depois de tanta comunhão e partilha, concluiu que “isto já ninguém nos tira”. Francisco Rebelo no baixo, João Gomes nos teclados, Danilo Lopes e David Pessoa nas guitarras e voz e Edu Mundo na bateria foram incríveis no compromisso com a sua música e com o seu público, elevando a FESTA a um patamar de grandeza superior. Para que conste, “Shaft” abriu o concerto e “Sentimento” colocou-lhe um ponto final. Pelo meio ficaram “Nhô Buli”, “Ca Ta Da”, “Nha Riqueza” (tema que dá nome ao último álbum da banda), “Pomba”, Terra Bufa” ou “Oh Minina”. E ainda “É Si Propi”, o palco invadido pelos fãs, numa demonstração única de festa e amizade.

Falo, enfim, do concerto de Mário Lúcio, cantautor, pintor, poeta e político cabo-verdiano, que praticamente encerrou esta edição do FESTA - Sons da Lusofonia. Natural do Tarrafal, na Ilha de Santiago, Mário Lúcio trouxe a Ovar os sons de “Independance”, o seu novíssimo trabalho, num regresso às danças folclóricas anteriormente proibidas e à abertura do país às músicas populares urbanas de Angola, Congo, Guiné, Nigéria, Gana e Senegal. Foi um concerto decididamente festivo, através do qual Mário Lúcio teve o prazer de recordar os primórdios da independência, uma época da sua infância cheia de alegria e de música. No preciso dia em que S. Tomé e Principe festejou os 50 anos da sua independência, os países lusófonos não ficaram esquecidos, Cabo Verde à cabeça, “Cabo Verde, a casa do Mundo”. Com Jery Bidan na guitarra, Dilson Groove na bateria e Ricardo Campos no baixo, o artista trouxe-nos o tema que dá nome ao novo álbum logo a abrir o concerto, ao qual se seguiram “Rabidante”, “Maka Maka” e “Mati Mati”. “Tema de Minis”, “Tabankabé”, “Nha Bio” e “Doce Guerra” aqueceram ainda mais os ânimos e foram muitos aqueles que, na mole imensa de público, fizeram questão de entregar os corpos à dança. “Ilha de Santiago”, talvez o tema mais conhecido do cantor, fez as delícias de todos, o concerto a fechar com a interpretação de “Tabankamor”, “Goré” e “Amo Xintadu”. Uma despedida do FESTA em grande, com a organização a merecer um forte aplauso pela forma como soube levar avante dois dias de grande animação, muita música e comunhão entre todos. Para o ano há mais!

domingo, 13 de julho de 2025

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia (I)



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia
Com | A Garota Não, Cara de Espelho, Cacique 97
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2025 | sex | 18:00 às 00:30


O FESTA – Sons da Lusofonia regressou a Ovar para a sua décima edição. Ponto de encontro de toda a comunidade, ao longo de dois emotivos e intensos dias o Parque Urbano da cidade transformou-se num espaço de celebração da diversidade, inclusão e participação activa, através de um conjunto de actividades voltadas para os mais diversos públicos. Ponto alto da FESTA, os concertos viram-se repartidos por três palcos, reunindo artistas brasileiros, cabo-verdianos, moçambicanos e portugueses, para dez momentos musicais a trazerem consigo a promessa de comunhão em torno da melhor música. Novidade nesta edição do FESTA foi o “Lugar das Infâncias”, uma aldeia para brincar e descobrir um mundo plural e tolerante, onde os mais novos e suas famílias se sentiram convidados a explorar a diversidade cultural através de histórias, brincadeiras, gestos, sons e silêncios. O jornalista Rui Miguel Abreu repetiu a presença no FESTA, moderando um vasto conjunto de conversas que se abriram em criação, memória, liberdade e futuro, num “Dar à Língua” que aproximou artistas e público. E foi justamente por aqui que o FESTA teve o seu início, com os Cara de Espelho a fazerem a antevisão do primeiro de dois concertos previstos para a noite do primeiro dia e com a apresentação do Livro “Festa - Sons da Lusofonia: Da Revolução ao Ritmo - 50 anos do 25 de Abril em Sons Lusófonos”, um trabalho que reúne todos aqueles que passaram pelas conversas em 2024, edição muito especial a assinalar o cinquentenário do dia inicial inteiro e limpo.

Depois de um dia cinzento e chuvisquento, o Sol disse “olá” à tarde de sexta feira e foram muitos aqueles que responderam à chamada para o concerto de abertura do FESTA. No fantástico anfiteatro natural em frente ao Palco Verde, uma numerosa assistência dispôs-se a ouvir A garota não, a sua música, as palavras sempre incisivas e mordazes apontadas a uma certa classe dirigente que teima em negar os valores da liberdade, igualdade, justiça e democracia, afirmando o seu poder pela opressão e exploração dos mais fracos e vulneráveis. Com Sérgio Miendes e João Mota nas guitarras e Diogo Sousa na bateria, A garota não fez questão de mostrar que “não é não”, na denúncia de “um país que não é para mães”, onde “toda a gente aceita o saque” e “há bestas no lugar de deputados”. Do novíssimo “Ferry Gold”, os temas são “disparados” com força e raiva, penetrando as consciências do público e arrancando-lhe aplausos vigorosos. Seguiu-se um “medley” com cinco temas do segundo álbum de estúdio da artista, “2 de Abril”, e de novo o retomar de “Ferry Gold”, no “train a curtir Coltrane” para se concluir que “a vida é uma roleta com cinco balas no tambor”. A terminar, pois que se privatize o mar e o céu, a justiça e a lei, a nuvem que passa, o sonho (sobretudo se for diurno e de olhos abertos). “E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos”. A mim parece-me bem!

Os Cara de Espelho abriram as hostilidades do segundo momento deste dia inaugural, alinhando pelo diapasão da música de denúncia e protesto, tão necessária nos dias que correm. Banda revelação no ano passado com o lançamento do álbum homónimo, os Cara de Espelho começaram por assumir a sua condição, sendo o reflexo do numeroso público que fez questão de os aplaudir. Reflexo, afinal, de quem olha para si e não gosta do que vê, que tem na banda uma via aberta à reivindicação e ao murro na mesa. Na voz de Maria Antónia Mendes, “Mitó para os amigos”, “Tratado de Paz” foi o primeiro tema da noite, ao qual se seguiram “Cara Que é Tua” e um poderoso “Corridinho Português”, “a juntar a malta numa boa”, porque “triste é quem fica a ver dançar”. Animado, o concerto prosseguiu quase em forma de comício. Na plateia, “livres criaturas” gritavam “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, enquanto no palco se louvavam as benesses dos paraísos fiscais e se rogava a S. Pedro que “[nos] receba no seu Portal das Finanças”. Com as letras e músicas de Pedro da Silva Martins e a magia dos instrumentos de Carlos Guerreiro, Nuno Prata e Sérgio Nascimento, entre outros, o concerto levou-nos do “Fadistão” ao “Ministério do Anonimato”, até parar no “Dr. Coisinho” e na sua “coisificação do dedo”, a plateia com os dedos médios de ambas as mãos espetados no ar, numa coreografia impressiva que as luzes amplificaram. Na despedida, um alerta para as varejeiras - “[que] anseiam pobreza, fomentam o asco, a náusea e o nojo” - e uma pergunta: “Em qual de vós é que ela vai poisar?”

A fechar a noite, os Cacique 97, banda pioneira do Afrobeat, ofereceram um magnífico momento, feito de ritmo, história e força coletiva. Espécie de “Best of” dos seus dois álbuns de estúdio - “Cacique 97” (2009) e “We Used to be Africans” (2016) -, o concerto mostrou uns “caciques” em grande forma, pondo em palco um género popularizado em África na década de 1970 e que se espalhou ao mundo. Fiel ao conceito musical do género e ao seu cunho político de denúncia e protesto, esta big band não esqueceu o papel criador do multi-instrumentista e nigeriano Fela Kuti, num impactante e revelador “Come from Nigeria”. Liderada pelo guitarrista e vocalista Milton Gulli, a banda manteve em diálogo constante, livre e rico, uma poderosa secção rítmica, onde pontificou Marisa Gulli (que dá também apoio nas vozes), com um naipe de metais firme e assertivo, cruzando o groove africano com a alma lusófona, num som de combate e celebração. Ritmos quentes, letras de intervenção e uma energia contagiante era tudo o que o público esperava, reagindo com o embalar dos corpos e algumas coreografias improvisadas sobre o anfiteatro verde de um Parque Urbano em ebulição. “American Cop”, “Jorge de Capadocia”, “Get no Stronger”, “13”, “Dragão” ou “Letter to the Martyrs”, novíssimo single da banda e que denuncia a ocupação, a colonização e o genocídio do povo da Palestina, foram temas trazidos a palco com enorme força, numa despedida em grande do FESTA, ao final do seu primeiro dia.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

CONCERTO: "Miroirs Vénitiens" | Orquestra Barroca da Academia de Ambronay



CONCERTO: “Miroirs Vénitiens”
Orquestra Barroca da Academia de Ambronay
Direcção Musical e violino | Amandine Beyer
Com | Laurène Patard-Moreau (violino), Paolo Martino Delmarco (violino), Enesh Dzhanykova (violino), Marta Guillen Pegueroles (violino), Joseph Lowe (violino), Hanna Crudele (violino), Tatiana Bechlitch-Szönyi (violino), Phaik Tzhi Chua (violino), Natascha Pichler (violino), Laura Vila Mayoral (violino), Mario Carpintero (viola), Mario Guedes Gutiérrez (viola), Luis Manuel Vicente Beltrán (viola), Moeko Aiba (violoncelo), Lucie Cazes (violoncelo), Nikita Ruzhavinskii (violoncelo), Ron Veprik (contrabaixo), Jorge  Vela-Hurtado Sánchez (fagote), Jorge  Silva (cravo), Giorgia Zanin (teorba)
FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
06 Jul 2025 | dom | 18:00


Projecto de cooperação europeia de longo prazo, o S-EEEMERGING reúne mais de vinte organizações apostadas em apoiar jovens agrupamentos de música antiga na emergência e sustentabilidade das suas carreiras. O foco não reside apenas no incentivo à criação e desenvolvimento de novos projectos, no apoio à aquisição e desenvolvimento de competências e na construção de relações fortes com outros artistas, repertórios, públicos, lugares e instituições, mas também na sustentabilidade e preservação do meio ambiente, nas dinâmicas das culturas e lugares, na auto-suficiência e bem-estar dos artistas. Foi neste âmbito que um grupo de jovens talentos musicais rumou a Torroella de Montgrí para uma residência artística sob a direcção da violinista Amandine Beyer, numa co-produção entre o Ambronay - Centre culturel de rencontre e o Festival Torroella. O resultado pôde ser apreciado ao final da tarde de domingo no Auditório de Espinho - Academia, juntando a harmonia, a complexidade e os ornamentos musicais do Barroco, à graça, energia e talento de uma orquestra feita de jovens, todos eles com provas dadas e um enorme futuro à sua frente.

Torroella de Montgrí, Cidade da Música. Foi aqui, no extremo nordeste da Catalunha, à sombra de um dos mais renomados Festivais de Música Antiga da Europa, que vinte jovens de vários países se reuniram para trabalhar um exigente programa em torno do Barroco veneziano. Oriundos de países como França, Reino Unido, Espanha, Japão, Canadá, Rússia ou Portugal, abraçaram com entusiasmo o fulgor das composições de Dall’Abaco e Vivaldi, Hasse e Tomaso Albinoni, com a audácia própria da juventude, mas sobretudo a certeza das suas enormes qualidades. Coube ao português Jorge Silva, cravista deste agrupamento, dirigir as primeiras palavras ao público, focando-se na apresentação das várias partes do concerto e lembrando, com emoção, os quinze dias de trabalho conjunto, as relações estabelecidas no seio do grupo e a enorme cumplicidade em torno de um ideal que todos perseguem: Abraçar a música e espalhar por todos os quadrantes a sua mensagem de paz, tolerância e harmonia.

A música concertante do Barroco tardio constituiu o prato forte de um concerto que fundiu virtuosismo e artifício. Transcendendo fronteiras e marcando a música da época, a linguagem expressiva do Barroco italiano soube verter-se em teatralidade e expressividade, explorando os contrastes que permeiam o estilo concertante e misturando a arquitectura com a espontaneidade inventiva. O concerto da Orquestra Barroca da Academia de Ambronay foi disto um excelente exemplo, trazendo para diante Evaristo Felice Dall’Abaco, notável compositor deste período, mas muito pouco escutado. Dele foi interpretado, logo na abertura, o Concerto para violino e orquestra em Ré Maior, Op. 6 n.º 12 e, quase a fechar o alinhamento, o Concerto grosso em Ré Maior, op. 5 n.º 6, duas obras notáveis que fizeram as delícias do público. Num programa dominado por António Vivaldi - notável o Concerto para dois violoncelos em Sol Menor, RV. 531, com Lucie Cazes e Nikita Ruzhavinskii como solistas -, foi ainda possível escutar a “Sinfonia a 5 em Sol Maior, Op. 2 n.º 1, de Tomaso Albinoni, e a “Sinfonia a 4 em Sol Menor, Op. 5 n.º 6, de Johann Adolph Hasse. O “encore” traria ainda Vivaldi e o seu Concerto para violino RV. 372a, “Per Chiareta” - Andante, com Amandine Beyer como solista. Maravilhoso.

domingo, 6 de julho de 2025

CONCERTO: Trios de Schubert | Pedro Burmester, Pedro Meireles, Filipe Quaresma



CONCERTO: Trios de Schubert
Com | Pedro Burmester (piano), Pedro Meireles (violino), Filipe Quaresma (violoncelo)
FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
04 Jul 2025 | sex | 21:30


A caminhar para o fim, o 51º FIME - Festival Internacional de Música de Espinho teve para oferecer aos amantes da grande música um concerto verdadeiramente imperdível na noite da passada sexta-feira. Interpretados por Pedro Burmester (piano), Pedro Meireles (violino) e Filipe Quaresma (violoncelo), os Trios com piano n.º 1 e n.º 2, de Franz Schubert, chamaram ao Auditório de Espinho um público atento e interessado que voltou a esgotar a lotação da sala. Fazendo gala de uma enorme sensibilidade, cumplicidade e virtuosismo, os três instrumentistas mergulharam no universo intimista e nostálgico do compositor, expressando com emoção o espírito imaginativo, lírico e melódico que fizeram dele uma das traves mestras da passagem do estilo clássico para o romântico e que o tornam, muito justamente, num dos maiores compositores do século XIX. Escritas pouco antes da sua morte, estas duas obras de Schubert têm a uni-las o facto de serem compostas por quatro andamentos e terem uma escala incomumente grande para trio com piano, levando mais de quarenta minutos cada uma para serem executadas. Isso, e um certo sabor de improviso, o que as torna vivas, espontâneas, calorosas, sentimentais e imaginativas.

Concluído em 1828, o Trio com piano n.º 1, em Si Bemol Maior, D. 898, só viria a ser publicado em 1836 como Opus 99, oito anos após a morte de Schubert. O primeiro andamento, Allegro moderato, apresenta-se em forma de sonata, com um primeiro tema caracterizado por ritmos pontuados e durações de frases irregulares, enquanto o segundo tema, em contraste, apresenta melodias líricas e frases regulares. A secção de desenvolvimento expande ambos os temas, tornando-se por vezes turbulenta e apresentando versões fragmentadas do tema principal numa sucessão de tonalidades, cada uma mais próxima da tonalidade central do que a anterior. Andante un poco mosso, o segundo andamento, segue o estilo de uma canção de gôndola, com uma melodia cadenciada e ritmo oscilante. Como alguns dos outros movimentos lentos tardios de Schubert, há uma secção contrastante mais turbulenta para, de pronto, a calma ser restaurada. Scherzo: Allegro, o terceiro andamento, segue a forma clássica do minueto. O scherzo propriamente dito apresenta um contraponto pesado, com os três instrumentos imitando-se constantemente, ao passo que a secção do trio é uma valsa descontraída. No último andamento, Rondo: Allegro vivace - Presto, predomina um ritmo de dois compassos, a música terminando com uma coda marcada Presto.

O Trio com piano nº 2, em Mi Bemol Maior, D. 929, data de Novembro de 1827 e foi também uma das últimas composições concluídas por Franz Schubert. Publicado pela Probst como Opus 100 no final de 1828, pouco antes da morte do compositor, e apresentado pela primeira vez numa festa privada, em Janeiro de 1828, para celebrar o noivado do amigo de escola de Schubert, Josef von Spaun, o Trio foi uma das raras composições do período final de Schubert que teve a possibilidade de ouvir serem executadas antes de sua morte. Tal como na peça anterior, também aqui o primeiro andamento, Allegro, se apresenta em forma de sonata. Sobejamente conhecido, Andante com motto, o segundo andamento, assume uma forma ternária dupla assimétrica e viu o tema principal ser usado como musica central no filme “Barry Lyndon”, de Stanley Kubrick, e numa enorme quantidade de outros filmes, séries e documentários. O terceiro andamento, Scherzo: Allegro moderato é uma peça animada em formato ternário duplo padrão. O quarto andamento, Allegro moderato, é em forma de sonata rondo e nele Schubert incluiu, em dois interlúdios, o tema de abertura do segundo movimento numa versão alterada.

O final da interpretação desta última peça teve num veemente e prolongado aplauso a eloquente demonstração do apreço do público pelo excepcional serão proporcionado. Os músicos responderam agradecidos com a interpretação do Notturno para Trio com piano, do mesmo Schubert, uma peça inicialmente pensada para o segundo andamento do Trio com piano n.º 1 e que acabou por ser recomposta e assumir uma faceta completamente nova. Ficou o Notturno - ou “Adagio”, para alguns - “pendurado”, mas não esquecido, a ponto de ser oferecido ao público num extraordinário “encore”. Beethoven dizia que as peças de Schubert o faziam sentir-se no paraíso, e foi um vislumbre do paraíso que Burmester, Meireles e Quaresma ofereceram aos presentes, com uma peça emotiva, rica em matizes sonoros, de uma grande harmonia e que, verdadeiramente, nos fez ver aquilo que somos. Franz Schubert morreu a 19 de Novembro de 1828, em Viena, com 31 anos de idade. Está sepultado no cemitério de Währinger, muito próximo de Ludwig van Beethoven, compositor que venerou em vida. No seu epitáfio, escrito pelo poeta Franz Grillparzer, podemos ler: “A arte da música enterrou aqui grandes riquezas, e esperanças ainda maiores”.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

CONCERTO: ars ad hoc



CONCERTO: ars ad hoc
Com | Ricardo Carvalho (flauta), Horácio Ferreira (clarinete), Diogo Coelho (violino), Gonçalo Lélis (violoncelo), João Casimiro Almeida (piano)
FIME - Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
22 Jun 2025 | dom | 18:00


Espaço para a criação e divulgação da grande música de câmara, o ars ad hoc surgiu em 2018, no contexto da “Arte no Tempo” e foca boa parte da sua actividade na interpretação de nova música para diferentes formações, interpretando e estreando, com regularidade, obras de compositores nacionais e estrangeiros, trabalhando sempre que possível em contacto directo com os criadores que, por vezes, escrevem música propositadamente para este agrupamento. Com programação de Diana Ferreira, o ars ad hoc é formado por músicos que, depois de se terem notabilizado em Portugal, complementaram os seus estudos no estrangeiro: Ricardo Carvalho (flauta), Horário Ferreira (clarinete), Diogo Coelho e Matilde Loureiro (violino), Ricardo Gaspar e Francisco Lourenço (viola) e Gonçalo Lélis (violoncelo). Foi justamente este agrupamento o convidado do Festival Internacional de Música de Espinho para fechar um fim de semana recheado de propostas aliciantes e riquíssimas a muitos títulos.

Uma vez que falei em aliciante, todos concordaremos que um recital de música de câmara dedicado aos modernismos não deixa de ser uma proposta aliciante. Proposta que o público, em muito considerável número, abraçou com entusiasmo, disposto a acompanhar a viagem musical pelos caminhos da tradição dos modernismos, contrapondo os seus primeiros passos às inovações espectralistas. “Prélude à l’après midi d’un faune”, de Claude Debussy, revelou-se uma escolha acertada num programa com um inegável cunho didáctico, já que falamos de uma peça cujo papel disruptivo no cenário musical de finais do século XIX e início do século XX é inegável, assinalando o nascimento da chamada “música moderna”. Num arranjo de Tim Mulleman, os músicos defenderam com brilhantismo uma peça irreverente e ousada na sua aparente falta de estrutura e toque quase improvisado. No bailar dos acordes, o público acompanhou com deleite as tentativas vãs de um fauno de seduzir duas ninfas, por entre o canto dos pássaros, o coaxar das rãs e a música que o próprio fauno extrai da sua flauta (notável a interpretação de Ricardo Carvalho).

Nenhuma composição do século XX se eleva com mais determinação acima das provações e tribulações terrenas do que o quarteto para violino, violoncelo, clarinete e piano que Olivier Messiaen completou e executou no campo de prisioneiros de guerra onde foi encerrado em Janeiro de 1941, o Stalag VIII A, perto de Görlitz, na Baixa Silésia. Tristan Murail quis homenagear o seu mestre, compondo alguns anos depois “Stallag VIIIa”, tema seguinte no alinhamento do concerto, interpretado pelo agrupamento com brilhantismo e que resultou numa experiência vivificadora pelo que acrescentou de diversidade modernista. Também ele aluno de Messiaen, Gerard Grisey compôs “Talea”, a terceira peça interpretada pelo ars ad hoc e cujo ímpeto dramático, textura espectral e vozes polifónicas independentes alcançou a excelência no trabalho dos músicos, com destaque para o “trovejar” do piano de João Casimiro Almeida. “Três andamentos de Pétrouchka”, de Igor Stravinsky, fechou o ciclo, acrescentando o olhar neoclassicista às tendências das composições anteriores e abrindo novos e mais vastos caminhos à Modernidade. Um enorme concerto, com um alinhamento inteligentemente trabalhado e interpretações a roçar o brilhantismo. Bravo!

terça-feira, 17 de junho de 2025

CONCERTO: Pedro Abrunhosa



CONCERTO: Pedro Abrunhosa
Centro de Artes de Ovar
13 Jun 2025 | sex | 21:30


“ (…) A canção não pode continuar a ser apenas entretenimento. Tem de questionar. Já não há lugar para romantismos. Para ilusões.”
Pedro Abrunhosa

Na ressaca dos concertos que celebraram os 30 anos do álbum “Viagens” e que esgotaram o Pavilhão Rosa Mota e a Meo Arena em finais do ano passado, Pedro Abrunhosa regressou a Ovar trazendo na manga alguns dos sucessos desse álbum de estreia, a par com muitos outros que percorreram a quase totalidade da sua discografia e são a demonstração da sua genialidade como compositor, letrista e comunicador. Em Ovar, num Centro de Artes há muito esgotado, o artista começaria por saudar o público, afirmando ser a sua presença o maior tributo à cultura portuguesa”. Uma cultura que, referiria, “nunca foi tão importante para defender a soberania, a democracia e, sobretudo, a paz.” E foi sob o signo da Paz que o concerto decorreu, com a música a carregar consigo mensagens onde as palavras “paz”, “luz” e “amor” foram signos e símbolos de um enorme momento: Íntimo, profundo, intenso, vivo, espiritual. Com Cláudio Souto na direcção musical e nos teclados, Bruno Macedo na guitarra, Miguel Barros no baixo, Pedro Martins na bateria e Patrícia Antunes e Patricia Silveira nos coros, o artista levou o público por caminhos de comunhão e partilha, dando e recebendo em igual medida, falando desta cumplicidade como uma experiência maravilhosa: “Venho aos concertos para vos ouvir”, afirmou, sob uma chuva de aplausos.

“A.M.O.R.”, do álbum “Contramão” (2013), foi a pedra de toque de um concerto que gritou bem alto contra a ignorância, a intolerância, a violência de género, os crimes de ódio, todas as barreiras que se erguem em função de raças, credos ou ideologias diferentes. Porque importa não esquecer, “Balada de Gisberta” falou dos mais fracos dos fracos, para dizer que “o amor é tão longe / e a dor é tão perto”. Num arranjo contido, “É preciso ter calma” pediu “olhar” para dar “amor” e “Não te ausentes de mim” clamou “que a tua luz se acenda em mim”. “Leva-me p’ra casa” fechou um ciclo de canções de tom intimista, ao longo dos quais o músico se manteve ao piano e sobressaíram os acordes da guitarra de Bruno Macedo. Com direito a “falsa partida”, “Fazer o que ainda não foi feito” teve o condão de pôr o público a soltar a voz, “somos um beijo que demora / porque amanhã é sempre tarde demais”. Tarde demais, “sobretudo para as coisas importantes como a paz, talvez a coisa mais importante das nossas vidas, a paz que eu quero celebrar hoje”, disse Pedro Abrunhosa, enquanto a palavra, gigante, se acendia no ecrã. As canções seguintes mantiveram o cariz celebratório e, tanto “Se eu fosse um dia o teu olhar”, quanto “Vem ter comigo aos Aliados”, voltaram a ter no público um interlocutor privilegiado, a paz e o amor sempre presentes.

Num recuo a 1995, ao álbum “F” e a esse incontornável “Talvez foder”, o músico lembra “os mortos em Gaza, os feridos em Israel, os fascistas em Lisboa e em Moscovo”, e pergunta: “E tu e eu o que é que temos que fazer? (talvez foder)”. Talvez valha a pena parar para pensar naquilo que foi um gesto de rebeldia mas que, há 30 anos, já falava de Gaza, que“foder” é uma obscenidade mas “mais obscenas são as bombas a cair sobre as crianças, sobre os hospitais. Obsceno é aquilo que está a acontecer, este genocídio terrível sobre o povo palestiniano e que nos envergonha a todos”, afirmou Abrunhosa. E, lembrando acontecimentos recentes - “nazis que em Lisboa e no Porto espancam barbaramente pessoas que apenas tentam ajudar” -, o artista exortou a que “não façamos silêncio para que a violência não se torne normal: O silêncio é a porta aberta ao caos, é a morte da democracia.” A canção seguinte foi, ainda e sempre, de celebração de um mundo mais justo, livre e fraterno, no qual “ainda há fogo dentro / ainda há frutos sem veneno / ainda há luz na estrada”, e foi também uma primeira oportunidade (haveria mais) para perceber as vozes fantásticas de Patrícia Antunes e Patrícia Silveira.

De Leonard Cohen ouviu-se “Hallelujah” e prestou-se homenagem ao Papa Francisco, na certeza de que “ninguém sai de onde tem paz” e “nenhum de nós pode considerar-se cristão e fechar os olhos a esta tragédia”, disse Pedro Abrunhosa, referindo-se à atitude genocida de Israel sobre a Palestina. A caminhar para o final do concerto, escutaram-se dois temas do álbum “Viagens” - “Não Posso Mais” e “Socorro” -, a que se seguiu um “medley” que incluiu temas dançáveis dos Bee Gees, dos “The Animals” e de Janis Joplin (Bob Dylan também já por aqui tinha passado) e se passearam, de mãos dadas, o country e o reggae, a folk e o hip-hop, o gospel e os blues, o tradicional e o erudito. “Ilumina-me” foi o culminar de um concerto cheio de luz, mas que não se ficaria por aqui. De uma generosidade sem limites, o cantor voltaria ao palco, primeiro sozinho e depois, de novo, com a banda, para interpretar mais quatro temas, começando por “Eu não sei quem te perdeu”. Completamente rendido, o público acompanhou o cantor no mais belo dos refrães, “e uma asa voa / a cada beijo teu / esta noite / sou dono do céu”. Seguiram-se “Para os braços da minha mãe” e “Lua”, para tudo terminar com o belíssimo “Tudo o que te dou”, também do álbum “Viagens”, e que nos deixa com uma muito bela imagem: “Pára, recomeça, faz-me acreditar”. Aleluia!

sábado, 14 de junho de 2025

CONCERTO: Dino d'Santiago



CONCERTO: Dino d’Santiago
Casa da Criatividade
12 Jun 2025 | qui | 21:30


“Venho de longe… Mas não sou estrangeiro.
Fui para o estrangeiro… Mas não sou estrangeiro.”
Dino d'Santiago

Dino d'Santiago é hoje uma das figuras centrais da música portuguesa. O seu trabalho veste-se de originalidade e contemporaneidade, sem nunca esquecer as origens cabo-verdianas e os sons da tradição. A sua forte presença em palco impele-nos a segui-lo com o olhar, a apreciar um bailar harmonioso que parece crescer a cada instante, um punho cerrado que fala de igualdade e de justiça, o sorriso luminoso de quem oferece com vivo prazer o melhor que tem dentro de si. Na sua voz quente e poderosa, as palavras surgem com a subtileza de um sussurro, o ímpeto de um grito, a força de um hino. Palavras que trazem em si a herança de Cesária, Bana ou Os Tubarões, que a sabem fundir com a energia e o ritmo de Paulo Flores, Julinho Ksd ou Calema. Palavras feitas de histórias e de memórias, fincadas num presente que nos diz que nada está garantido, que olham o futuro e nos incutem a “vender o medo para comprar coragem”. Neste embalo, manso e louco ao mesmo tempo, vemos como vão sendo quebradas todas as barreiras musicais e sociais, unindo a criança e o idoso, o rico e o pobre, o preto e o branco, num todo em cuja diversidade reside a maior riqueza.

Que bom que foi poder escutá-lo assim na noite da passada quinta feira, em São João da Madeira, num espectáculo especialmente criado para comemorar os doze anos da Casa da Criatividade. Ao longo de quase duas dezenas de temas, Dino d’Santiago e a sua banda definiram o pendor da festa, oferecendo a um público esfuziante de entusiasmo momentos de verdadeira igualdade, celebração e partilha. De uma energia sem limites, o artista começou por cantar “Nos tradison” e vincar a importância de olhar para trás, para os valores e para a tradição, se queremos seguir em frente. “En bua di mi / Um voo longi longi longi longi longi / Kanto kin txiga en ka atxa ramu pa descansa nha pena mamã!” foram palavras do refrão de “Voei de mim”, a pedir braços que acolham no fim da jornada e não muros que se ergam e vozes que insultem. Crioulo e português de mãos dadas, o concerto prosseguiu com “Esquinas”, punho fechado que estoira forte na mesa, denúncia do racismo estrutural que mina a nossa sociedade e lembra que “nem todo o tuga é luso / Nem todas as quinas são vanglória / Aceno ao corpo negro com quem cruzo / nossos corpos são também pátria”.

Das ilhas de Santiago, Fogo, Maio e Brava à cidade de Lisboa, a música e as palavras deram-se as mãos num balanço cheio desse novo funk que é o funaná, perguntando-se “de onde veio toda essa gente, eu não sei / Dizem que tamos na moda, ma n ka krê sabê / Ali sta tudu dretu, ma não tou nessa / De vender a sodadi ou a morabeza”. Em palco, a guitarra de Djodje Almeida, o baixo de Pety Gau, a bateria de Emílio Lobo e as vozes e o balanço de Alícia Rosa e Elísio Pereira, tornavam ainda mais distinta e única a música de Dino D’Santiago. Com o concerto a caminhar para o final, “Distinu” clamou por liberdade e “Mundo Nôbu” aspirou a um mundo melhor. Ao exemplo de coragem e determinação de Beyoncé e Jay-Z foi o artista buscar inspiração para um dos seus temas mais conhecidos, “Como Seria” e “Kriolu” foi esse abraço entre todos, tão forte quanto necessário, “branco ku pretu um gerason di oru”. Já no “encore”, envergando um bonito chapéu, numa oferta do Museu da Chapelaria, Dino d’Santiago cantou “Oji é oji”, dedicando este tema a todos os trabalhadores anónimos que, em todos os lugares, contribuem para um mundo mais justo e melhor. “Djonsinho Cabral” foi um definitivo carregar de baterias, a afirmação da igualdade na diferença, o grito derradeiro contra as injustiças e a barbárie. Gaza não ficou esquecida!

terça-feira, 10 de junho de 2025

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
XXII Encontro de Culturas
Praça da República, Serpa
07 Jun 2025 | sab | 22:00


Admirador confesso da música de António Zambujo, do seu modo de cantar, da sua forma de comunicar com o público, já o escutei nas mais variadas ocasiões: em sala de espectáculos e ao ar livre, com grupos de cante alentejano e sem grupos de cante alentejano, em nome próprio ou como convidado, inclusive numa tertúlia, ao lado de um historiador e de outro músico, e até num “drive-in”. Daí que não enjeitasse a possibilidade de poder escutá-lo de novo, desta feita em Serpa, no âmbito do XXII Encontro de Culturas. Serpa que é, indiscutivelmente, um Município onde o Cante está mais arreigado, que mais tem pugnado pela salvaguarda e promoção deste seu vínculo histórico e cultural e onde está implantado o Museu do Cante Alentejano, com um Centro Interpretativo no qual o visitante é convidado a viajar pela história desta prática poético-musical, conhecer os seus aspectos mais importantes e ouvir e cantar modas que são hoje Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Foi a esta terra rica de tradições que António Zambujo regressou, trazendo na bagagem as músicas do seu mais recente álbum, “Cidade”, a par com muitas outras de um repertório que vai “viralizando” entre nós. Em palco, a acompanhar o músico, estiveram o pianista José Salcedo, o saxofonista José Miguel Conde, o trompetista João Moreira, o contrabaixista Emanuel Inácio e o guitarrista André Santos, cinco músicos de excepção que sabem interpretar na perfeição o estilo do músico e adaptar-se a novos e desafiantes arranjos. Mas se “Cidade”, álbum editado em 2023 e que integra apenas músicas compostas e escritas por Miguel Araújo, foi uma espécie de fio condutor do concerto, foi com “Guia” que tudo começou, o cantor a “atravessar o oceano” e a encontrar “terra firme” precisamente em Serpa, numa Praça repleta de alegria e entusiasmo, na expectativa de uma grande noite.“Sagitário” deu “a ler o Expresso (e a Bola)”, mas foi com “Catavento da Sé” que se começaram a ensaiar as primeiras vozes na plateia.

Num todo marcadamente romântico, “Reader’s Digest” foi uma espécie de ilha no meio de “Canção de Brazzaville”, “A Casa Fechada” e “Apelo”, músicas que a precederam. “Flagrante” e “Lua” proporcionaram fantásticos solos a José Miguel Conde e André Santos, abrindo espaço ao mais arrepiante momento da noite, com a praça inteira a cantar a “Gota de Água”. O momento impulsionou um trio de canções que tiveram, igualmente, uma boa resposta do público, nomeadamente “Zorro”, “Visita de Estudo” e o incontornável “Pica do Sete”. Seguiu-se o inescapável “momento Max”, homenagem ao cantor madeirense, uma das referências da música de António Zambujo, com “Bate o Pé” e “Nem às Paredes Confesso” e a particularidade de a primeira destas músicas ter sido interpretada por Emanuel Inácio, contrabaixista elevado à categoria de cantor, e muito bem. “No Rancho Fundo” foi uma revisitação dos concertos dos “ujos” em 2016 e “Dancemos um Slow” colocou um ponto final no alinhamento. Já no “encore”, sozinho em palco, António Zambujo dava uma voltinha na “Lambreta” e, de novo com a banda, terminaria em beleza com “Sinal da Cruz”, numa interpretação arrebatada de mais um dos grandes êxitos de Max.

terça-feira, 3 de junho de 2025

CONCERTO: Andreia Bocelli



CONCERTO: Andrea Bocelli
Com | Serena Gamberoni (voz), Rusanda Panfili (violino), Andrea Lykke (voz)
Orquestra Filarmonia das Beiras
Coro do Orfeão de Leiria, Coro Ninfas do Lis, Coro Misto da Associação Académica de Coimbra, Coro Coimbra Vocal, Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra
Direcção musical | Marcello Rota
Estádio Municipal de Leiria
31 Mai 2025 | sab | 21:30


Depois de ter esgotado a Altice Arena em 2017 e 2023 e o Estádio Cidade de Coimbra em 2021, Andrea Bocelli regressou a Portugal, desta feita a Leiria, trazendo consigo uma proposta de viagem pela história da música, das mais conhecidas árias e duetos do repertório operático, aos grandes êxitos da música ligeira, sobretudo italiana e espanhola. O suporte musical esteve a cargo da Orquestra Filarmonia das Beiras e de um conjunto de cinco coros das cidades de Coimbra e Leiria, sob a direcção de Marcello Rota. As peças instrumentais tiveram na violinista Rusanda Panfili uma executante de excepção, enquanto os duetos e alguns temas a solo foram assegurados pela soprano Serena Gamberoni e pela cantora pop Andrea Lykke. A produção do espectáculo tudo fez para proporcionar uma noite inesquecível aos quase 25.000 espectadores que encheram o Estádio Municipal de Leiria, com um alinhamento diversificado e muito inteligente, a par de um palco sumptuoso que se foi preenchendo de imagens de belo efeito, em contraciclo com uma organização que se “esqueceu” de partilhar com os espectadores, na página do evento, nas redes sociais ou através da criação de uma folha de sala, algo tão elementar como informações sobre o programa do concerto, a biografia das principais figuras em palco ou outros elementos julgados de interesse.

A primeira parte do concerto fez-se de algumas das mais icónicas peças do universo operático, mostrando um Andrea Bocelli em grande forma, tanto na sua espantosa técnica vocal, quanto na expressividade e sentimento que, como ninguém, sabe colocar nas suas interpretações. “La donna è mobile”, ária do terceiro acto da ópera “Rigoletto”, de Giuseppe Verdi, abriu o concerto em ambiente de festa e de celebração, numa altura em que o tenor italiano acaba de completar três décadas de intensa e bem sucedida carreira. Após o segundo tema, Bocelli cedeu o palco a Serena Gamberoni, uma voz praticamente desconhecida dos melómanos portugueses, mas uma soprano em ascensão e com presenças de reconhecido mérito em teatros como o La Scala de Milão, o Covent Garden de Londres ou o New National Theater de Tóquio. “O mio babbino caro”, da ópera “Gianni Schichi”, de Giacomo Puccini, foi um momento sublime, abrindo espaço a um dueto com Bocelli, “O soave fanciulla”, do primeiro acto da ópera “La Bohème”, de Giacomo Puccini, e que viria a transformar-se na mais romântica, sensível e comovente interpretação do concerto. Os momentos finais viram em palco a violinista Rusanda Panfili interpretar a peça “Csárdás”, de Vittorio Monti, numa demonstração clara da sua classe e virtuosismo.

Depois do intervalo, o primeiro momento foi assegurado pelos elementos da orquestra e do coro, numa extraordinária homenagem ao compositor italiano Nino Rota, enquanto no ecrã iam passando excertos de filmes como “Amarcord”, “La Strada” ou “La Dolce Vita”, todos com assinatura de Federico Fellini. Depois deste momento delicioso, Andrea Bocelli “abraçou” Luciano Pavarotti com a interpretação de “Funiculì, Funiculà”, um tema que teve o condão de pôr uma parte do público a trautear o refrão. Rusanda Panfili voltaria ao palco para nova peça interpretada a solo, seguindo-se um dueto com Bocelli no muito conhecido “En Aranjuez Com Tu Amor”. Em tempo de homenagens, Enrico Caruso não ficou esquecido com a interpretação de “Granada”, um tema que abriu espaço a Andrea Lykke e a um muito aplaudido “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”, da extraordinária Aretha Franklin. De novo em palco, Bocelli agradeceu timidamente a presença do público e avançou com “Vivo per lei”, em dueto com Andrea Lykke. Os muitos aplausos tiveram o condão de chamar ao palco o tenor, não uma, não duas, mas três vezes: Primeiro, com esse verdadeiro hino napolitano, de Itália e do Mundo, que é “O sole mio”, e depois com “Con te partirò”. A terminar uma noite verdadeiramente memorável, “Nessun dorma”, do terceiro acto da ópera “Turandot”, de Giacomo Puccini, foi a cereja no topo do bolo, consolidando o sentimento de exaltação da voz e da melhor música vivido ao longo de quase duas horas.

[Foto: Município de Leiria | https://www.facebook.com/municipioleiria]

sexta-feira, 30 de maio de 2025

CONCERTO: Tó Trips & Fake Latinos



CONCERTO: Tó Trips & Fake Latinos
Com | Alexandre Frazão, António Quintino, Helena Espvall
Participação especial | João Cabrita, Luís Cunha
Casa da Música - Sala 2
28 Mai 2025 | qua | 21:30

“Uma mão cheia de músicas, de lugares de histórias de vida, por vezes mais escuras, outras mais luminosas, mais rítmicas, outras mais jazzy, sempre com um pé em Lisboa e outro fora. Onde o modo de tocar guitarra do passado se encontra com o de hoje! A minha música sempre foi um poderoso meio de dissidência para mim, sendo capaz de transformar sentimentos pessoais em formas de plenitude e de protesto. Ser eu próprio no mundo com a minha música e a minha guitarra!”
Tó Trips

Casa cheia na Sala 2 da Casa da Música para escutar Tó Trips e o seu novíssimo trabalho, “Dissidente”, o primeiro da carreira gravado em formato de quarteto. Com o guitarrista, em palco estiveram os Fake Latinos, um trio composto por Alexandre Frazão na bateria, António Quintino no contrabaixo e Helena Espvall no violoncelo, e, na parte final do concerto, João Cabrita no saxofone e Luís Cunha no trompete. Começando pelos “cúmplices” nesta bela jornada, tanto Quintino como Espvall prolongam as bem sucedidas aventuras de “Guitarra 66”, “Guitarra Makaka” e “Popular Jaguar”, mostrando-se irrepreensíveis na forma como sabem interpretar uma música rica de tons e cores, acrescentando-lhe densidade e intencionalidade. Em particular Espvall é incrível no “arranhar” do violoncelo, recheando cada peça de acordes misteriosos que convidam à contemplação e à viagem. Já Alexandre Frazão, um velho conhecido do guitarrista e do projecto Dead Combo, mostrou o porquê de ser só o melhor baterista da nossa praça, o que diz tudo do que foi a sua presença em palco e da sua interpretação atenta, inteligente, contida e fortemente eficaz. Luís Cunha e João Cabrita quebraram o intimismo do concerto, preenchendo-o com o calor dos metais e enriquecendo-o com uma mão cheia de solos enérgicos e arrebatados.

Fazendo da exploração das potencialidades das suas guitarras um modo de estar na música, Tó Trips fez valer em palco a sua identidade enquanto guitarrista, a sua forma exclusiva de tocar, espécie de impressão digital que o torna único e irrepetível. Sem escapar à sua assinatura autoral, o trabalho agora apresentado reflecte “evolução na continuidade”, sobretudo ao nível dos solos que aproximam a sua música do fado, na qual se percebem, como nunca, influências da guitarra de Paredes e do fado de Coimbra. E se estas “impressões” se iam insinuando em apontamentos solísticos reveladores da classe e virtuosismo do artista, tornaram-se evidentes no original “Levar com o mar nas Trombas”, primeiro de dois temas que preencheram o “encore” e que o guitarrista interpretou sozinho em palco. Mas já lá vamos. “Havana Alfama”, “Fiesta Triste” e Rua Escura” funcionaram como uma espécie de introdução marcada pela viagem entre paragens sempre distantes, sempre contrastantes, introduzindo os presentes num universo que estabelece pontes e rejeita muros, que faz da partilha um ideal e exalta valores humanistas, de igualdade e liberdade.

Neste universo, em rota de colisão com aquele cada vez mais ambíguo e falso em que nos movemos, “Dissidente” foi a pedra de toque de um concerto todo ele apostado em “meter um pauzinho na engrenagem”. E porque já aqui falei de fado, “Dissidente” é todo ele uma ode àquilo que fomos e somos, um hino à fraternidade, que se viu reforçado nos seguintes “Mornacola” e “Tango Surdina”, o abraço sincero e sentido às comunidades na diáspora de ambos os lados do grande mar Atlântico. A viagem prosseguiu com “Old Times Bunny”, um ligeiro desvio “para quem gosta de desenhos animados”, e com “À Beira Tejo com os meus Amigos Fantasma”. Também aqui cabe apreciar o refinamento do trabalho de Tó Trips, a sua qualidade de guitarrista de excepção, a amplitude dos seus universos musicais. Ampliar o olhar por sobre o público é ver como se deixa envolver pela música, como meneia a cabeça ao seu ritmo, em sinal de assentimento e gratidão. Já com Luís Cunha e João Cabrita em palco, “L.A. Chet” e “Kerouac” são dois outros grandes momentos em jeito de homenagem a duas personagens seminais na vida e obra do guitarrista. “Napoli Blue Dreams” e “Fake Latinos”, os dois temas mais longos do concerto, fecharam o alinhamento em grande estilo, os solos a sucederem-se e a levarem a sala ao rubro. “Pra lá de Marrakesh”, a fechar o “encore”, foi a cereja no topo do bolo desta viagem por mundos contrastantes, tão diferentes mas tão iguais entre si, por força de uma música de excepção.

domingo, 25 de maio de 2025

CONCERTO: “Variações do Brancø” | Filipe Raposo



CONCERTO: “Variações do Brancø”,
de Filipe Raposo
Teatro Viriato
23 Mai 2025 | sex | 21:00


“Precisamos para começar de um ponto de partida:
Costa ou paisagem, porto ou acontecimento, navegação ou relato.
O lugar donde partimos importa menos que aquele aonde chegamos.
Porque ora todos os mares parecem formar um só,
sobretudo quando é longa a viagem,
Ora cada um deles nos parece ser outro mar.”
Predrag Matvejevitch, in Breviário Mediterrânico

Terceiro volume da “Trilogia das Cores”, projecto do pianista, compositor e orquestrador Filipe Raposo, “Variações do Brancø” acaba de ver a luz do dia e o lançamento ao vivo teve lugar na noite da passada sexta-feira, em Viseu. Reflexão artística sobre a influência da cor ao longo da História, a “trilogia” teve o seu início com o vermelho (“Øcre” vol. 1, 2019), prosseguiu com o preto (“Øbsidiana vol. 2, 2022) e conclui-se agora com o branco (“Variações do Brancø” vol. 3, 2025). Para Filipe Raposo, “as cores surgem como chave do processo criativo, que, ao evocar o próprio nascimento da arte, se encontram presentes nas pinturas e gravuras rupestres, e ganham uma dimensão metafórica e simbólica na mitologia clássica”. Neste trabalho em particular, o branco evoca paisagens alvas, distâncias monótonas, vastas planícies geladas ou desertos de areias claras. Simbolicamente, representa o renascimento, a simplicidade e a restauração. Tanto pode ser luto e resiliência, tal como é entendido nalgumas culturas orientais, como a cor da página em branco que se abre à criatividade e à imaginação.

À semelhança dos volumes anteriores, “Variações do Brancø” é uma viagem, com a carga simbólica que tal desígnio carrega em si. Depois do “negro mais negro” da obsidiana, o branco representa um caminhar em direcção a sul, ao encontro da grande bacia mediterrânica e da sua cultura milenar. Tema de abertura do concerto, “A Idade do Pão” evocou um alimento presente em todas as geografias e que é tido como um símbolo de hospitalidade e partilha. A mesma hospitalidade e partilha gerada entre o artista que, numa sala de espectáculos, tem para oferecer o fruto do seu trabalho, recebendo do público atenção e aplauso. “Entre a cal e o sul” trouxe-nos esse elemento tectónico que, saído do interior da terra, embeleza e protege os espaços que habitamos. O elemento solsticial abriu-se em “Manhãs de S. João”, dividido entre o dia e a noite, a ordem e o caos, a luz e as trevas. “Da minha janela vejo o grande sul” foi um abraço a um sul latino e católico, que bebe vinho e é pobre, deixando para traz um norte germânico e protestante, amigo da cerveja e que é rico.

Simbólica, a lista vai-se afirmando ao longo da viagem: o branco-cal, o branco-pão, o branco-gelo, o branco-linho, o branco luz, ou a noite branca. Com “Búzios mudos, maus agouros”, foi de “sinistros prenúncios de um crime da humanidade contra si mesma” que nos falou uma música feita dos silêncios e dos “sibilinos murmúrios” que neles se insinuam. “Crepúsculo da tarde” foi errância e efemeridade da vida, fim de um ciclo, despedida. Já “Fiadas”, com a sua roca e o seu fuso, simbolizou a mulher e foi bem-estar futuro, abundância e mesmo fecundidade. “Noite branca”, enfim, foi a lua que surge no céu e que ilumina todos os homens - os de hoje e os de outrora. O sentido do trabalho de Filipe Raposo, a sua intencionalidade, as palavras que evoca, a sua qualidade discursiva, vão muito além da música que podemos escutar. Mostra-nos esse sul tão nosso, tão afectuoso e tranquilo, quanto arrebatado e exaltado. “Suão” colocou um ponto final no alinhamento, dizendo, como Mahmoud Darwish, que “os ventos mudam contra nós”. Um abraço à Palestina e ao seu povo, a coroar um concerto inesquecível.