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quarta-feira, 5 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Francisco Relógio - Pinturas e Desenhos Inconjuntos 1955-1997”



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “Francisco Relógio - Pinturas e Desenhos Inconjuntos 1955-1997”,
de Francisco Relógio
Curadoria | Nuno Faria
Centro de Arte Oliva, São João da Madeira
24 Out 2025 > 11 Jan 2026


Natural de Vila Verde de Ficalho, no Alentejo, Francisco Relógio (1926–1997) construiu uma trajectória singular na arte portuguesa da segunda metade do século XX. Formado na Escola Industrial Fonseca Benevides, em Lisboa, foi um dos participantes nas primeiras Exposições de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian (1957 e 1961), revelando desde cedo uma voz própria. A sua obra inicial, de raiz neo-realista, afirmava um compromisso social e humano, mas Relógio rapidamente ultrapassou essa matriz, abrindo espaço a uma linguagem de maior liberdade formal. A figura humana — e em particular a mulher — assume um papel simbólico e poético, mais próximo da metáfora do que da descrição. O desenho, rigoroso e expressivo, torna-se o eixo da sua prática, estruturando composições que aliam densidade gráfica e lirismo visual. Esta evolução, entre o realismo e a geometrização, reflete a busca incessante de um equilíbrio entre o impulso figurativo e a experimentação plástica, definindo a autonomia estética que marca toda a sua carreira.

Relógio foi um artista em permanente reinvenção. Entre o abstraccionismo e a figuração, o realismo mágico e o fulgor Pop, soube integrar referências internacionais sem abdicar da sua identidade visual. O seu trabalho estendeu-se a múltiplas linguagens — pintura, desenho, cerâmica, cenografia e azulejaria — com intervenções emblemáticas em edifícios e espaços públicos. Ao invés de traduzir dispersão, essa pluralidade reflecte uma compreensão ampla da arte como território de encontro entre forma, matéria e vivência colectiva. Entre o rigor e o afecto, a sua obra manifesta uma rara coerência: nela a experimentação convive com a serenidade, e a cor, o traço e o espaço dialogam numa gramática visual de intensa humanidade. Profundamente ligado à cultura popular, Relógio valorizava o diálogo e o trabalho partilhado: o regresso a Vila Verde de Ficalho, onde fundou uma comunidade artística ainda activa, é demonstrativo da importância que atribuía à troca e à continuidade.

A exposição “Pinturas e Desenhos Inconjuntos”, apresentada em S. João da Madeira, depois de Serpa e Almada, procura oferecer um olhar abrangente sobre a vida e a obra de Francisco Relógio, reinscrevendo-o com clareza no panorama da arte portuguesa do século XX. Mais do que uma homenagem, esta mostra propõe um reencontro com um criador que soube conciliar o gesto intuitivo com a construção rigorosa, a dimensão simbólica com a presença do real. A parceria entre os municípios envolvidos traduz um compromisso de valorização do património artístico nacional e de difusão de uma obra que permanece actual pela sua coerência e diversidade. Ao revelar a consistência e a singularidade do seu percurso artístico, a exposição convida o público a revisitar um universo plástico de profunda sensibilidade e equilíbrio, onde a forma é sempre expressão de pensamento. Em Francisco Relógio, a arte surge como espaço de liberdade e de pertença — um território em que o humano se faz imagem e memória partilhada.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

CONCERTO: “Entre Paredes” | Bernardo Moreira Sexteto & Orquestra de Jazz de Espinho


CONCERTO: “Entre Paredes”
Bernardo Moreira Sexteto & Orquestra de Jazz de Espinho
Com | Bernardo Moreira (contrabaixo), Tomás Marques (saxofone), Mário Delgado (guitarra), João Moreira (trompete), João Silva (bateria), Ricardo Dias (piano)
Artista convidada | Estela Alexandre (piano)
Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical | Carlos Azevedo
Novembro Jazz 2025
Casa da Criatividade
01 Nov 2025 | sab | 21:30


Celebrar o centenário de Carlos Paredes é, inevitavelmente, revisitar uma das vozes mais singulares da música portuguesa. No concerto que marcou a abertura da sétima edição do Novembro Jazz 2025, na Casa da Criatividade, Bernardo Moreira retomou esse diálogo iniciado há mais de duas décadas, quando editou “Ao Paredes Confesso” (2002) e, mais tarde, “Entre Paredes” (2021). Desta vez, porém, a homenagem ganhou nova dimensão através da parceria com a Orquestra de Jazz de Espinho, sob a direcção de Carlos Azevedo. Os arranjos, assinados por jovens nomes como Estela Alexandre e Tomás Marques, e por figuras consagradas como Pedro Moreira e o próprio Azevedo, revelaram uma orquestra em pleno domínio expressivo, capaz de cruzar o rigor da escrita com o sopro da improvisação. Neste ambiente de silêncio e vertigem feito, a música de Carlos Paredes encontrou um corpo colectivo, forte e solidário, que teve no contrabaixo de Bernardo Moreira a sua âncora poética e um poderoso dínamo emocional.

Falar de Carlos Paredes é falar de liberdade — e foi precisamente essa ideia que atravessou todo o concerto. A guitarra portuguesa de doze cordas, reinventada por ele como voz e não mero acompanhamento, ressoou na linguagem do jazz como se ambos partilhassem um mesmo código genético: a improvisação como forma de pensar o mundo. Mesmo sem estar presente, o espírito de Paredes pareceu guiar os músicos nesse território de harmonia e risco, onde o jazz se afirma como espaço de encontro entre tradição e modernidade. As reinterpretações de “Mudar de Vida” e “Canto de Amor”, os dois temas que abriram o concerto, ou os icónicos “Verdes Anos” ou “António Marinheiro”, não buscaram a fidelidade literal, mas antes a reinvenção, o gesto de tocar de novo como se de uma primeira vez se tratasse, algo que, afinal, o próprio Paredes fazia. A Orquestra de Jazz de Espinho tornou-se, assim, extensão desse espírito improvisador, convertendo o fado em matéria orquestral e o jazz em língua franca da emoção e fascínio.

O resultado foi um concerto de densidade rara, em que o lirismo se aliou à experimentação sem perder o sentido de pertença. Mais do que um tributo, tratou-se de uma reflexão em forma de música sobre o que significa ser português e contemporâneo, à luz de um legado que não cessa de nos estimular e inspirar. Se Carlos Paredes procurava “a verdade no som”, Bernardo Moreira e a Orquestra de Jazz de Espinho mostraram que essa verdade permanece viva, transmutando-se, abrindo-se a novos timbres e a novas cores. Na noite do passado sábado, o público de São João da Madeira foi brindado com a possibilidade de sentir essa vibração suspensa no tempo, algures entre a memória e o instante, entre o rigor da escrita e a respiração da improvisação - notável o exercício intenso e livre de “Serenata no Tejo” que encerrou o concerto. No final, quedamo-nos com a certeza de que o jazz português não é um género em si mesmo ou uma categoria estilística, antes uma atitude estética e ética: a de quem, como Carlos Paredes, faz da liberdade uma forma de arte.

sábado, 14 de junho de 2025

CONCERTO: Dino d'Santiago



CONCERTO: Dino d’Santiago
Casa da Criatividade
12 Jun 2025 | qui | 21:30


“Venho de longe… Mas não sou estrangeiro.
Fui para o estrangeiro… Mas não sou estrangeiro.”
Dino d'Santiago

Dino d'Santiago é hoje uma das figuras centrais da música portuguesa. O seu trabalho veste-se de originalidade e contemporaneidade, sem nunca esquecer as origens cabo-verdianas e os sons da tradição. A sua forte presença em palco impele-nos a segui-lo com o olhar, a apreciar um bailar harmonioso que parece crescer a cada instante, um punho cerrado que fala de igualdade e de justiça, o sorriso luminoso de quem oferece com vivo prazer o melhor que tem dentro de si. Na sua voz quente e poderosa, as palavras surgem com a subtileza de um sussurro, o ímpeto de um grito, a força de um hino. Palavras que trazem em si a herança de Cesária, Bana ou Os Tubarões, que a sabem fundir com a energia e o ritmo de Paulo Flores, Julinho Ksd ou Calema. Palavras feitas de histórias e de memórias, fincadas num presente que nos diz que nada está garantido, que olham o futuro e nos incutem a “vender o medo para comprar coragem”. Neste embalo, manso e louco ao mesmo tempo, vemos como vão sendo quebradas todas as barreiras musicais e sociais, unindo a criança e o idoso, o rico e o pobre, o preto e o branco, num todo em cuja diversidade reside a maior riqueza.

Que bom que foi poder escutá-lo assim na noite da passada quinta feira, em São João da Madeira, num espectáculo especialmente criado para comemorar os doze anos da Casa da Criatividade. Ao longo de quase duas dezenas de temas, Dino d’Santiago e a sua banda definiram o pendor da festa, oferecendo a um público esfuziante de entusiasmo momentos de verdadeira igualdade, celebração e partilha. De uma energia sem limites, o artista começou por cantar “Nos tradison” e vincar a importância de olhar para trás, para os valores e para a tradição, se queremos seguir em frente. “En bua di mi / Um voo longi longi longi longi longi / Kanto kin txiga en ka atxa ramu pa descansa nha pena mamã!” foram palavras do refrão de “Voei de mim”, a pedir braços que acolham no fim da jornada e não muros que se ergam e vozes que insultem. Crioulo e português de mãos dadas, o concerto prosseguiu com “Esquinas”, punho fechado que estoira forte na mesa, denúncia do racismo estrutural que mina a nossa sociedade e lembra que “nem todo o tuga é luso / Nem todas as quinas são vanglória / Aceno ao corpo negro com quem cruzo / nossos corpos são também pátria”.

Das ilhas de Santiago, Fogo, Maio e Brava à cidade de Lisboa, a música e as palavras deram-se as mãos num balanço cheio desse novo funk que é o funaná, perguntando-se “de onde veio toda essa gente, eu não sei / Dizem que tamos na moda, ma n ka krê sabê / Ali sta tudu dretu, ma não tou nessa / De vender a sodadi ou a morabeza”. Em palco, a guitarra de Djodje Almeida, o baixo de Pety Gau, a bateria de Emílio Lobo e as vozes e o balanço de Alícia Rosa e Elísio Pereira, tornavam ainda mais distinta e única a música de Dino D’Santiago. Com o concerto a caminhar para o final, “Distinu” clamou por liberdade e “Mundo Nôbu” aspirou a um mundo melhor. Ao exemplo de coragem e determinação de Beyoncé e Jay-Z foi o artista buscar inspiração para um dos seus temas mais conhecidos, “Como Seria” e “Kriolu” foi esse abraço entre todos, tão forte quanto necessário, “branco ku pretu um gerason di oru”. Já no “encore”, envergando um bonito chapéu, numa oferta do Museu da Chapelaria, Dino d’Santiago cantou “Oji é oji”, dedicando este tema a todos os trabalhadores anónimos que, em todos os lugares, contribuem para um mundo mais justo e melhor. “Djonsinho Cabral” foi um definitivo carregar de baterias, a afirmação da igualdade na diferença, o grito derradeiro contra as injustiças e a barbárie. Gaza não ficou esquecida!

terça-feira, 19 de novembro de 2024

CONCERTO: Eduardo Cardinho | “Not Far From Paradise”



CONCERTO: Eduardo Cardinho | “Not Far From Paradise”
Com José Diogo Martins, João Mortágua, Francisco Santos, Diogo Alexandre, Iuri Oliveira
Novembro Jazz 2024
Casa da Criatividade
15 Nov 2024 | sex | 21:30


Quase a fechar o ano, o Auditório da Casa da Criatividade volta a ser palco do Novembro Jazz, festival cuja programação abarca, em seis dias de intensa actividade, oito concertos que dão prova do que de melhor se faz no panorama do mais jovem e fresco jazz português. À aposta no talento nacional, o Novembro Jazz acrescenta a vertente da ligação à comunidade, oferecendo a oportunidade de descobrir a beleza da liberdade sofisticada que existe no Jazz, nas suas mais variadas dimensões. Complementarmente, assistimos ao cruzamento de parcerias de elevado potencial que se traduzem noutro tipo de iniciativas: feiras de vinil e djsets, apresentações de jovens músicos locais em combinação com jovens ilustradores que mostrarão o seu trabalho em palcos inovadores, e ainda uma distinta exposição de fotografia de Márcia Lessa, focada no talento feminino no jazz, num conjunto de belíssimas imagens que podem ser vistas em dois espaços distintos de S. João da Madeira [o programa desta sexta edição do festival pode ser consultado AQUI].

Na noite da passada sexta-feira, as atenções centraram-se em Eduardo Cardinho e no seu mais recente álbum de originais, “Not Far From Paradise”, naquela que foi a última etapa da digressão que, desde Julho passado, levou o músico e os seus companheiros de estrada a percorrer o país de Norte a Sul. No palco da Casa da Criatividade o vibrafonista não esteve sozinho, apresentando-se ao lado de José Diogo Martins (teclados), Iuri Oliveira (percussões), Diogo Alexandre (bateria), Francisco Santos (baixo eléctrico) e João Mortágua (saxofone alto). E foi justamente do saxofone que surgiram as primeiras notas de emoção, com Mortágua a tirar o melhor partido das suas qualidades de intérprete ímpar, da sua energia e talento, transformando-os numa música com uma força enorme, desafiante e entusiasmante ao mesmo tempo. Por seu lado, Eduardo Cardinho ia mostrando o porquê de ser um dos músicos mais criativos da sua geração, encetando com José Diogo Martins e João Mortágua diálogos profícuos que se estenderiam a toda a secção rítmica. O público, esse, ia reagindo de forma intensa e retribuía com aplausos vivos a notória qualidade interpretativa de cada tema.

Depois de “It Was Just a Dream”, tema de abertura do concerto, “Anxiety” constituiu um grande momento de jazz, o casamento perfeito entre ritmo e harmonia, o virtuosismo de Cardinho a vir à tona em diálogos enérgicos ou em apontamentos solísticos de extraordinária qualidade. A variedade de ambientes sonoros viria a constituir-se como uma das grandes marcas do concerto, com particular destaque para os ritmos brasileiros que souberam acrescentar novas texturas e maior intensidade e beleza. Cadinho onde se fundem as sonoridades mais diversas, o vibrafone foi pássaro em cujas asas o público se deixou levar, ao encontro de exóticas e muito belas paisagens. “November 17th” (o título remete para o dia em que o avô de Cardinho faleceu) e “Life Contemplation” foram duas viagens suaves, em contraciclo com a vertigem de “Distorted Thoughts”, a arte do improviso ao serviço da música e dos músicos. O regresso à “normalidade” veio com “The Beauty of Simple Things” (notáveis as variações de género no seio da própria música), que “Hope”, um tema melodioso e tranquilo, reforçaria. A fechar o concerto, “Jungle Bees” foi a prova do real valor, tanto do todo quanto das partes. Uma grande noite de jazz.

sexta-feira, 5 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO: “Für, Fur, Fur, Fúria de Viver”



EXPOSIÇÃO: “Für, Fur, Fur, Fúria de Viver”,
de Renato Ferrão
Curadoria | Andreia Magalhães
Centro de Arte Oliva 
26 Jan > 07 Abr 2024


“Für, Fur, Fur, Fúria de Viver” é, até à data a maior exposição de Renato Ferrão, congregando projetos criados entre 2007 e 2024. Ao mesmo tempo que oferece uma panorâmica do percurso do artista, iniciado há cerca de 25 anos, a mostra apresenta a criação de novo trabalho produzido neste contexto. O trabalho de Ferrão é sobretudo constituído por projectos concebidos para as exposições, onde habitualmente apresenta apenas uma obra, geralmente instalações formadas por vários componentes, objectos e imagens, ou por um conjunto de obras relacionados entre si, subordinadas a uma mesma ideia. Como tal não é habitual podermos rever as suas obras anteriormente expostas, mas é possível entre projectos perceber como é que muitas obras vão dando origem às seguintes. Algumas das imagens, das ideias e processos vão sendo assimiladas, transformadas e ressurgem noutros projetos. É neste fluxo que o seu trabalho se tem desenvolvido, sendo na presente exposição possível ver uma trajetória marcada por fases distintas, mas entre as quais se estabelecem estas relações de transmutação.

Uma parte significativa das esculturas que Renato Ferrão realizou até 2010 integra objetos quotidianos projetados no espaço: pratos, cadeiras, candeeiros e móveis de grandes dimensões são suspensos por intermédio de elásticos e cabos extensores, explorando fenómenos de tensão que desafiam as leis da gravidade, reagindo e agindo sobre os lugares de exposição. É o caso de “alguns momentos paralisam forças #1”, que aqui tem uma versão diferente da originalmente apresentada na exposição “Emissores reunidos: Senhor fantasma, vamos falar” (Fundação de Serralves, Porto, 2009), então formada por duas secretárias instaladas em salas distintas. Esta perceção de paralisação do tempo e do movimento viria a alterar-se com a criação de esculturas cinéticas com movimentos internos, também realizadas a partir de materiais recuperados e motores, mantendo essa ideia de tensão e de ancoramento das esculturas no espaço através de ligações de fios e cabos, como se pode ver na peça central de “Peças de substituição”, para esta exposição integrada numa jaula de metal.

É também nesta fase que começa a trabalhar mais com a matriz de imagens, com as placas tipográficas encontradas, e com as quais experimenta processos de impressão, replicação, erro, distorção e desaparecimento. Em simultâneo, a imagem projetada começou a ganhar crescente expressão na sua obra, inicialmente obtida com recurso a efeitos de luz, lâmpadas e lentes, em associação com materiais encontrados, como o saco de batatas fritas ou a garrafa de whisky que projetam imagens ilusórias e abstractas. Posteriormente começou a construir projetores em caixas de madeira que acomodam sistemas mecânicos e elétricos, lentes e imagens fotográficas, muitas vezes apropriadas ou decorrentes de registos fotográficos que documentam idiossincrasias da cidade onde habita. As imagens que o interessam são muitas vezes populares ou vernaculares, fotografadas a partir da televisão, personagens de banda desenhada, imagens kitsch, pinturas ou calendários em cafés e bares, e todo o tipo de existências marginais a olhares mais desatentos, como por exemplo a “aldeia de gatos”, um aglomerado de construções feitas por pessoas para abrigo dos gatos de rua.

Para esta exposição Renato Ferrão criou várias obras, que estão relacionadas com a principal instalação, intitulada “Fúria de viver”, à qual o título da exposição alude, e que por sua vez recupera o título de um filme de Nicholas Ray. A obra retrata um dia na cidade, desde o amanhecer até ao anoitecer, na vida do seu personagem principal, e nela ensaiam-se novas formas de trabalhar a sequenciação e apreensão dos vários planos. “Fúria de viver” relaciona-se com processos iniciados em “Estudo das passagens”, onde começou a criar obras de natureza narrativa. Renato Ferrão estudou escultura na FBAUP. Foi um dos artistas fundadores do Salão Olímpico juntamente com Carla Filipe, Eduardo Matos, Isabel Ribeiro e Rui Ribeiro. Expõe regularmente desde 1998, destacando-se os projetos de exposição realizados em espaços independentes como Sismógrafo (Porto) e institucionais, como Serralves, Museu da Eletricidade, Galeria Municipal do Porto, Culturgest e Anozero, Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra. Em 2011, recebeu o Prémio de Artes Plásticas União Latina e, em 2020, foi nomeado para o Prémio Amadeo Souza Cardoso. Está representado na coleção da Fundação de Serralves, na Câmara Municipal do Porto e coleção de Arte Contemporânea do Estado.


segunda-feira, 6 de novembro de 2023

EXPOSIÇÃO: "A Revolução na Noite"


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EXPOSIÇÃO: “A Revolução na Noite”
Arte moderna, Arte contemporânea e Arte bruta e outsider, vários artistas
Curadoria | Ana Anacleto
Centro de Arte Oliva
21 Out 2023 > 12 Mai 2024


Cumprida uma década sobre a abertura ao público, o Centro de Arte Oliva assinala a efeméride com “A Revolução na Noite”, uma extraordinária exposição onde são mostradas obras pertencentes a três colecções de arte com características e enquadramentos distintos: a Colecção de Arte Moderna e Contemporânea Norlinda e José Lima, a Colecção de Arte Moderna e Contemporânea da Coleção Millennium bcp e a Colecção de Arte bruta e outsider Treger Saint Silvestre. Com características e enquadramentos distintos, as obras obedecem a uma criteriosa escolha que tem por base a publicação do “Primeiro Manifesto Surrealista” de André Breton, ao mesmo tempo que se assinala o centenário do nascimento de Cesariny. Curiosidade, descoberta e possibilidade são eixos que o olhar curatorial pretendeu valorizar, atento ao poder da imaginação e entregando-se à “criação de uma narrativa aberta e livre, simultaneamente propiciatória de desdobramentos em pequenas teias de narrativas singulares.”

Atravessando um arco temporal amplamente alargado – pondo mesmo de parte a ideia de uma cronologia com limites definidos – e evitando enquadramentos históricos rígidos ou academicamente firmados, “A Revolução na Noite” propõe-se a uma análise do gesto surrealista e dos ecos do seu ideário, através de sucessivos movimentos de avanço, de paragem e de recuo, privilegiando as possibilidades de relação dialógica entre obras, períodos, géneros e gerações. Ao longo de um percurso sinalizado de A a Y, o visitante depara-se com um vasto conjunto de obras de quase cento e vinte artistas, portugueses e estrangeiros, dispostas intencionalmente de forma a proporcionar diálogos entre cada uma delas. A proposta resulta num exercício fascinante, as barreiras de género e de estilo esbatidas, a busca da verdade que se esconde na arte a irmanar obras supostamente distintas e afinal tão próximas.

O exercício de cruzar os trabalhos de Eduardo Nery e Jorge Molder, Paula Rego e Nancy Spero, Graça Morais e Rosa Ramalho ou Jorge Barradas e Anna Zemánková pode ser mais frutuoso do que passar tardes e tardes em museus e galerias em busca daquilo que talvez nem nós próprios saibamos. Independentemente da qualidade das obras expostas, do papel que ocupam na história da Arte e da importância dos nomes em questão, é todo um manancial de possibilidades que se abre ao olhar do visitante, num convite à livre interpretação das narrativas que os vários conjuntos encerram. Há, naturalmente, um trabalho curatorial extraordinariamente apurado, um primor de sensibilidade de alguém que se preocupou em preparar uma exposição a pensar naquilo que, enquanto visitante, gostaria de poder apreciar. Cindy Sherman e Nan Goldin não surgem naquela parede por acaso, da mesma forma que não é aleatória a disposição de um Almada na mesma “sala” onde encontramos um Picasso. Ide ver e dizei-me alguma coisa. O melhor é ir já, porque a vontade de lá voltar vai surgir naturalmente e, depois, pode já ser tarde.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

EXPOSIÇÃO: "Escuridão Flamejante"



EXPOSIÇÃO: “Escuridão Flamejante”,
de Gaëlle Rouard
Curadoria | Andreia Magalhães
Centro de Arte Oliva
07 Jul > 19 Nov 2023


No Centro de Arte Oliva, está patente ao público uma exposição absolutamente imperdível. Intitula-se “Escuridão Flamejante” e ocupa duas salas do piso superior, numa das quais se mostra um vasto conjunto de fotogramas, colecção da artista, e na outra “Darkness, Darkness, Burning Bright”, filme de 2022 processado manualmente. Um díptico-instalação que surge da conversão do seu maior projecto até à data e que resulta numa nova abordagem da sua obra. Começando pelos fotogramas, eles constituem uma faceta menos conhecida da produção artística de Gaëlle Rouard e surgem em exposição agrupados por géneros, das plantas aos insectos, das rochas aos répteis ou aos mamíferos. Realizadas ao longo dos últimos três anos, estas imagens são criadas a partir da exposição de objectos e elementos naturais à luz e emulsões químicas, sendo algumas posteriormente intervencionadas com pintura e colagem. O resultado é de uma extraordinária beleza, cada fotograma um objecto delicado e sensível que bebemos com o olhar e pelo qual nos apaixonamos.

Feito de vastos caminhos floridos, ramos frescos, bosques cheios de perfumes, vozes dos pássaros e sussurros do vento, “Darkness, Darkness, Burning Bright” tem para oferecer ao espectador uma paisagem nocturna e crepuscular, onde animais e vegetação emanam luzes iridescentes. Três anos de captação, processamento e edição foi o tempo necessário para a finalização do filme, a que se somaram nove meses para a criação do som. Cada plano do filme  é cuidadosamente composto e resulta da combinação de imagens fixas com imagens em movimento, tendo sido já descrito como uma sucessão de quadros vivos onde os efeitos visuais, de acordo com as palavras de Maximilien Luc Proctor, “conferem uma luminosidade alienígena ao mundo natural”. Filmado em 16 mm e convertido posteriormente para vídeo, o filme divide-se em dois atos - “Prelude” e “Oraison” - e tem uma duração de trinta e nove minutos.

Cineasta e artista visual, Gaëlle Rouard tem vindo a realizar filmes desde 1991 e é uma autora reconhecida do cinema experimental europeu. A sua obra é marcada pela criação e exploração de vários métodos de processamento químico de película, criação de bandas sonoras e pelas suas performances ao vivo de projecção. “Darkness, Darkness, Burning Bright” é o seu último filme e estreou no Festival de Roterdão, tendo arrecadado o prémio do Istambul International Film Festival, o prémio da Competição Experimental do Curtas de Vila do Conde 2022 e o Best Sound Design do Ann Arbor Film Festival, em 2023. Curadora da exposição, Andreia Magalhães tem desenvolvido a sua atividade profissional nas áreas da gestão de coleções, programação e produção de exposições. Em Portugal, trabalhou no Museu da Faculdade de Belas Artes, no Museu Nacional de Soares dos Reis e no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Fora do país trabalhou, entre outros, no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque e no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Desde 2017 é directora artística do Centro de Arte Oliva.

terça-feira, 20 de junho de 2023

CONCERTO: Jorge Palma



CONCERTO: “Vida”
Jorge Palma (piano, guitarras acústicas, voz)
Com | Vicente Palma (piano, guitarras acústicas, voz), Gabriel Gomes (acordeão), João “Joca” Ferreira (bateria), Nuno Lucas (baixo), Francisco Palma (guitarras acústicas, voz), Pedro Vidal (guitarra elétrica, direcção musical)
Casa da Criatividade
16 Jun 2023 | sex | 21:30


Lançado há sensivelmente dois meses, “Vida”, o mais recente trabalho de estúdio de Jorge Palma, faz na estrada o seu caminho. O momento é marcante a muitos títulos, desde logo porque são doze os anos que separam “Com Todo o Respeito”, o anterior registo, deste novíssimo álbum de originais. Não espanta, pois, que os indefectíveis do cantor e compositor fizessem questão de dizer presente, esgotando por completo uma Casa da Criatividade também ela de parabéns, a festejar uma década de actividade ao serviço da cultura. Foi, pois, numa atmosfera de expectativa, de quase euforia, que os primeiros acordes se fizeram escutar e que “Vida” se materializou na voz do cantor, “causa de todas as causas / princípio de todo o princípio / final de todos os finais”. O poema flui, emotivo e livre, e com ele a certeza de que, apesar de tão grande hiato de tempo, o carácter e valores do artista, aquilo que nele existe, resiste e lhe serve de alimento, permanece inalterado. “Vida” será o primeiro diamante da noite e esses, sabemo-lo bem, são eternos.

Tema do novo disco, “Espécie de altar” foi “o senhor que se segue” no alinhamento, embalando o público numa composição harmoniosa, repleta de “coisas que em geral se dizem ao ouvido”. Com “Dormia tão sossegada” e “Jeremias, o Fora da Lei” (este último do álbum “O Lado Errado da Noite”, quase a fazer 40 anos), o público pode ensaiar a voz, dando mostras de querer se parte activa no processo. Não teríamos de esperar muito tempo para que tal acontecesse em pleno, mas antes escutou-se “Plantas na Lua”, “Estróina” e “Porque tu não estás”, três novíssimas que se impõem pela sua força e ritmo, em registos filiados na matriz musical de Jorge Palma, fortemente alicerçada no rock e nos blues. Veio então “Dá-me lume” e a temperatura subiu uns graus na sala, a prova provada que “o que conta no universo / é esse passo inseguro / e o paraíso no teu olhar”. Revivalista, “Uma Estação no inferno” vem dizer-nos que o tempo é coisa que não se pode esbanjar por não ser eterno. A fechar a primeira metade do alinhamento, “Só” faz-se encruzilhada, “junto à tempestade / onde os pés não têm chão / E as mãos perdem a razão”.

“Canção de Lisboa” impõe-se como um dos momentos mais belos do concerto, o piano e a voz de Jorge Palma na extraordinária companhia do acordeão de Gabriel Gomes. “Bairro do Amor”, tema gravado pela primeira vez em 1977 (!), é outro ponto alto, ao qual se segue aquela que é, para mim, a mais extraordinária composição de Jorge Palma, “Estrela do Mar”, as notas do piano envoltas num classicismo puro, o poema exaltante de beleza, “uma chama invisível incendiou-me o peito / qualquer coisa impossível fez-me acreditar”. Até ao final escutaríamos, do novo álbum, “Canção de Vida (para o Carlos do Carmo)”, que o fadista gravou no seu “E Ainda…”, e também “Amor Digital” e “Noites de rosas e vinho”. Pelo meio, mais quatro músicas sobejamente conhecidas – “Deixa-me rir”. “Frágil”, “Cara de Anjo Mau” e “Portugal, Portugal” – voltaram a fazer as delícias do público que não se cansou de puxar pela voz e de aplaudir. No encore, a emoção foi ao rubro quando, em palco com os filhos Vicente e Francisco, Jorge Palma ofereceu “3 Palmas na mão”. O final, apoteótico, fez-se de “Encosta-te a mim” e “A gente vai continuar”, duas pedras preciosas num reportório que é um verdadeiro tesouro. “Enquanto houver estrada para andar”…

quinta-feira, 1 de junho de 2023

EXPOSIÇÃO: "Teatro Anatómico"


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EXPOSIÇÃO: “Teatro Anatómico”,
a partir da Coleção Treger Saint Silvestre
Curadoria | João Sousa Cardoso
Centro de Arte Oliva
04 Mar > 31 Dez 2023


Em depósito de longo prazo no Centro de Arte Oliva desde 2014, a Colecção de arte bruta / outsider “Treger Saint Silvestre” é uma das mais relevantes coleções a nível europeu. Constituída por, aproximadamente, mil e quinhentas obras de trezentos e cinquenta artistas, reflecte a evolução de diferentes momentos históricos e ramificações das artes marginais aos circuitos do sistema artístico estabelecido, desde os clássicos da Arte Bruta à Arte Outsider e suas variantes. A coleção distingue-se pela enorme amplitude cronológica, demarcada por artistas nascidos em finais do século XIX até autores ativos na atualidade, diferenciando-se também pela alargada representatividade geográfica, que abrange os tradicionais “centros da arte bruta” da Europa Ocidental e América do Norte, expandindo-se a artistas oriundos de África, Ásia, Europa e América Latina Central, com destaque para a diversidade de artistas portugueses e brasileiros.

Apresentada através de um programa contínuo de exposições temporárias, a Colecção Treger Saint Silvestre volta a ser alvo de uma revisitação, desta vez pelo olhar atento de João Sousa Cardoso. O mesmo rigor, conhecimento e sensibilidade artística que o levou a encenar “A Ronda da Noite” de Agustina Bessa-Luís, na Fundação Calouste Gulbenkian (2022) e “Sequências Narrativas Completas”, no Teatro Nacional D. Maria II (2019) ou a dirigir o “Teatro Expandido!” (2015) no Teatro Municipal do Porto, é posto agora ao serviço desta exposição, numa criação “site-specific” onde a dramatização dos corpos, dos objetos e das presenças, dialoga com a tradição do teatro. Ao visitante oferece-se um espaço extraordinariamente concebido, que convida à deambulação, à apreciação detalhada de cada uma das peças, à sua observação dos mais variados ângulos. Se o quisermos, à sua dissecção.

Inspirada no Teatro Anatómico de Pádua – o primeiro teatro anatómico permanente do mundo, inaugurado em 1595, exemplo do progresso científico no estudo da anatomia e modelo para os teatros anatómicos nas principais universidades da Europa –, que Goethe visitou e admirou na sua viagem a Itália, a mostra propõe a reflexão sobre uma colecção complexa, sinuosa e orgânica, desalinhada do campo da arte contemporânea, que tanto nos oferece um desenho de René Bértholo ou Alireza Maleki, como a fotografia de Albert Moser ou Tomasz Machcinsky, a pintura de Josef Wittlich, a escultura de Jean-Jules Chasse-Pôt ou a assemblagem de Marc Giai-Miniet, misturando-os com os trabalhos de três artistas convidados, André Sousa, Fernão Cruz e Horácio Frutuoso. Ao mesmo tempo, “Teatro Anatómico” convida a uma experiência local dos sentidos que implica os corpos e a materialidade das imagens, no tempo da economia virtual. E, num gesto político, a pensarmos a crueldade capaz de suspender os ciclos da barbárie.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

CONCERTO: Amaro Freitas



CONCERTO: Amaro Freitas
Novembro em Jazz 2022
Casa da Criatividade
04 Nov 2022 | sex | 21:30


Grande música. Grandes músicos. Um enorme concerto. Foi assim na abertura da quarta edição do Novembro em Jazz, evento da responsabilidade da autarquia de S. João da Madeira e que, ano após ano (excepção feita a 2020, ano em que o certame não se realizou devido à pandemia), chama à Casa da Criatividade grandes nomes da cena jazzística, tanto nacional como internacional. Foi o caso do pianista Amaro Freitas que, na noite da passada sexta feira, brindou o público com quase duas horas de muito e bom Jazz. Acompanhado por Hugo Medeiros, na bateria, e por Jean Elton, no contrabaixo, o músico pernambucano centrou o concerto no seu mais recente álbum, “Sankofa”, preenchendo o restante alinhamento com temas de “Rasif” e “Sangue Negro”, os seus dois trabalhos iniciais. Mediante um Jazz elegante e composições engenhosas e plenas de originalidade, Amaro Freitas levou os presentes numa viagem ao coração da sua música, na qual o nordeste brasileiro e as esplanadas de Nova Orleães, o frevo e o free jazz, Edu Lobo e Chick Corea se misturam e confundem.

O arranque foi dado por “Vila Bela”, um refúgio de dolência, harmonia e profundidade, como um cântico de pássaros de formidáveis cores ou um fio de água que, sussurrante, desliza por sobre os seixos do rio. Seguiu-se “Cazumbá”, imperioso, sôfrego, urgente, vivo, transformando a nota de intimidade inicial, o mar revolto, as asas enfim soltas. Com “Ayeye”, Amaro Freitas deu mostras de uma sofisticação e virtuosismo insuperáveis, oferecendo uma peça que nos aproxima de Bill Evans, Aziza Mustafa Zadeh ou Brad Mehldau. Na linha do tema anterior, “Baquaqua” acentuou o tom de celebração e júbilo, os terreiros em festa, corpos suados, sorrisos abertos de felicidade e partilha. “Nascimento” foi uma jóia preciosa, apaziguadora e reconfortante, enquanto “Sankofa” trouxe a cereja ao topo do bolo, inquietante no seu minimalismo fortemente estruturado, refrescante na sua essência experimentalista, improviso à flor da pele, um clamor de pureza e liberdade.

Última etapa de uma tournée pela Europa que, no espaço de trinta e cinco dias, levou o trio a palcos tão importantes como Odense, Amesterdão, Gotemburgo, Dublin, Barcelona, Manchester, Skopje, Tessalónica ou Antuérpia, o concerto da Casa da Criatividade foi único. Na memória vão ficar a forma como Amaro Freitas faz da música um veículo privilegiado de empatia, diálogo e partilha com o público, como é capaz de reduzir a parte útil do piano a meia dúzia de teclas no canto mais à direita, num dedilhar frenético que deslumbra e hipnotiza. Sobretudo, ficará na memória esse momento em que o pianista “aprisiona” cinco cordas, transformando o reduzido naipe num instrumento de percussão que faz soar a espaços, enquanto a sua música flui vibrante, de forma natural, numa combinação de sons e tons reveladora duma enorme originalidade e genialidade. Criativo, inventivo, um pouco à semelhança de Hermeto Pascoal, Amaro Freitas faz da exploração dos sons um jogo e uma brincadeira. E assim, brincando, sabe ser feliz e trazer a felicidade àqueles que o escutam.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

CONCERTO: António Zambujo



CONCERTO: António Zambujo
Casa da Criatividade
17 Set 2022 | sab | 21:30


“Melhor do que um Zambujo só mesmo dois.” À voz vinda do meio da assistência, respondeu António Zambujo com um discreto sorriso, mas ficou a certeza de que, bem no íntimo, deve ter sentido um enorme orgulho por ver o filho seguir-lhe as pisadas e, sem favor, ser acarinhado pelo público como Diogo Zambujo o foi. Começando pelo princípio, mal se percebeu que a programação da Casa da Criatividade iria incluir, lá para o meio de Setembro, um concerto de Zambujo, a procura por bilhetes foi tal que, em poucos dias, a sala esgotou. O cantor aceitou o desafio de fazer um segundo concerto, no mesmo local, mas desta vez à tarde. Daí que o jovem Diogo tenha sido chamado para assumir a primeira parte do concerto da noite, algo que aconteceu pela primeira vez na sua ainda breve carreira. Quando os primeiros acordes da viola se fizeram ouvir e a voz ecoou na sala, a surpresa não poderia ser maior. Rapidamente se percebeu que isto de ser “filho de peixe e saber nadar” não é letra morta, pelo menos neste caso. Mais do que servir para “aquecer os motores”, canções como “Primeiro Amor Sem Nome”, “Quem Tudo Quer Tudo Perde”, “Casa Pronta” [de Mallu Magalhães] e “Em Contramão” são a demonstração da qualidade e capacidades de Diogo Zambujo e um forte augúrio de uma carreira de enorme sucesso.

Já com o pai António em palco, Diogo Zambujo despediu-se com “Escutando o Universo”, um tema com letra e música sua e que António Zambujo incluiu no seu mais recente trabalho, “Voz e Violão”. Enormes de talento e cumplicidade, Diogo e António deixam perceber, na combinação de uma voz mais pura com outra mais trabalhada e de fôlego inesgotável, na troca de olhares ou nas “bocas” que mandam um ao outro, uma parceria que está para durar. Retira-se Diogo, permanece António e as primeiras notas não se fazem esperar. A apresentar o seu último trabalho, “Voz e Violão”, António Zambujo presta uma significativa homenagem à música popular brasileira e, em particular, a João Gilberto, uma das suas maiores influências até hoje. Daí que a primeira música tivesse sabor a canela, “chamando ao palco” Chico Buarque e a sua “Valsinha” e dando início a um verdadeiro vai e vem entre as duas margens do grande mar atlântico. Marisa Monte, Yamandú Costa e Roberta Sá, Vinicius de Moraes e Baden Powell, Ary Barroso, Chitãozinho & Xororó, Benedito Seviero e Thomaz foram presença forte num alinhamento por onde passaram, inevitavelmente, o Fado de Max e Amália Rodrigues e o Cante Alentejano.

Sim, é verdade que voltou a escutar-se o “Zorro” e a “Lambreta”, “Pica do Sete” e “Multimilionário”, “Algo Estranho Acontece” e “Catavento da Sé”. Mas é sobretudo por isto que gostamos tanto de António Zambujo, que vamos a um concerto seu para cantar com ele músicas que passam por ser sempre novas, mesmo que as tenha ido buscar aos seus álbuns mais antigos (e que, em muitos casos, viviam já antes desses, na voz de outros músicos). Em S. João da Madeira essa verdade veio, uma vez mais, ao de cima. Com ela veio, também, a enorme presença do cantor diante do público, a forma ternurenta como acolheu em palco um casal, ele com uma “queixa de dezoito anos” e um pedido: “Queres voltar a casar comigo?” Ou ainda a forma como brincou com a situação depois de ter confirmado que estava tudo bem com uma senhora que deu uma queda na sala durante “O Catavento da Sé”. Nos “discos pedidos”, já no “encore”, “Som de Cristal” foi saudado com entusiasmo e o final, em apoteose, trouxe-nos aquela que é uma das melhores interpretações de “Foi Deus”, um tema de Alberto Janes, imortalizado na voz de Amália. Um grande concerto.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

CONCERTO: Rita Redshoes



CONCERTO: Rita Redshoes
Casa da Criatividade
06 Mai 2022 | sex | 21:30


Começámos a ouvir falar de Rita Redshoes por alturas de 2007, quando “Dream On Girl” a afirmou na colectânea “Novos Talentos – FNAC 2007”. Eleita Canção do Ano pela Rádio RADAR, ela foi uma espécie de trampolim para uma série de experiências e projectos que haveriam de resultar no ano seguinte em “Golden Era”, o seu primeiro álbum, e nos seguintes “Lights & Darks” em 2010, “Life Is a Second Of Love” (2014), “com pozinhos do Brasil e dos You Can’t Win Charlie Brown”, e ainda “Her” (2016), gravado em Berlim e produzido por Victor Van Vugt, que colaborou, entre outros, com PJ Harvey, Beth Orton, Nick Cave ou Depeche Mode. Mais recentemente, no passado mês de Novembro, publicou o seu quinto álbum de originais, “Lado Bom”, espécie de balanço entre a beleza e o medo, as alegrias e os fracassos, o amar e o ser amado. Um álbum integralmente escrito em português e que mereceu da Sociedade Portuguesa de Autores uma atenção muito especial, tendo-lhe sido outorgado o Prémio José da Ponte.

Curioso e expectante, foi assim que desemboquei na Casa da Criatividade para um concerto que trazia com ele a promessa de um “lado bom”. Os dias anteriores tinha-os passado a ouvir o disco e, naturalmente, queria mais. Queria assistir a um bom concerto, tirar o máximo partido do momento, mas sobretudo perceber aquela voz, a presença da cantora e a sua música, sentir-me tocado pela intimidade de um poema que me diz “Rosa / Um sonho tão antigo / Mas foi sempre contigo / Que o vi”. Nada disto, porém, percebi ou senti. Rita Redshoes foi incapaz de se aproximar do público, de gerar com ele a necessária empatia, cantando sem garra e refugiando-se no calor sentido na sala e no recente aniversário do teclista João Gomes para preencher os intervalos entre as músicas com um punhado de banalidades. As coisas na plateia equivaleram-se, o público mostrou-se pouco mais que apático e foi com alívio que se chegou ao final do concerto.

Uma semana passou e eu continuo a escutar o disco e a descobrir-lhe novos e preciosos pedacinhos. “Quem é que não se lançou / Sem medir uma queda? / Quem é que nunca falhou? / Que atire uma pedra”. Pensamentos como este que atravessa o tema “O Amor Não É Razão”, encontramos em “Sono”, “Rosa Flor” ou nesse lindíssimo “Contigo É Pra Perder”, originalmente cantada em dueto com Camané. E volto ao concerto, às belíssimas ilustrações que foram desfilando na tela, a temas como Choose Love”, “Hey Tom”, “The Beginning Song” ou “Captain of My Soul” que remetem para álbuns anteriores que conhecemos tão bem, aos músicos que tão bem cumpriram o seu papel, com destaque para a harpista Salomé Pais Matos, e pergunto-me porque é que não gostei do concerto. Será Rita Redshoes uma “cantora de estúdio” apenas? Estaria numa noite menos inspirada? Ou o problema estará em mim, deixando-me contaminar por um ambiente menos propício à fruição e à festa? Terei de dar o benefício da dúvida a Rita Redshoes e tirar as questões a limpo num próximo concerto. De uma coisa tenho a certeza: a sua música e os seus poemas tocam-me.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

CONCERTO: Marta Pereira da Costa



CONCERTO: Marta Pereira da Costa
Casa da Criatividade
25 Abr 2022 | seg | 17:00


Muitas foram as portas que Abril abriu. Dizemos isto com emoção, olhando à nossa volta e vendo as mais belas provas daquilo que a liberdade nos trouxe. A igualdade de género, com todas as beliscadelas que continuamente sofre, é disso um bom exemplo. Nas profissões mais relevantes, como na política ou na cultura, as mulheres têm sabido conquistar o seu lugar, abrindo novos e mais largos e airosos caminhos. Casos há, porém, em que a exclusividade masculina se continua a fazer sentir como é o caso dos profissionais de Guitarra Portuguesa. É do conhecimento geral que, historicamente, este instrumento sempre esteve associado ao homem como músico, e cingido maioritariamente ao Fado como linguagem. Rompendo com a tradição, Marta Pereira da Costa vem afirmar-se como a primeira e única mulher, a nível mundial, a tocar profissionalmente Guitarra Portuguesa no Fado, apresentando uma nova Guitarra Portuguesa como “voz” do seu projeto.

No palco da Casa da Criatividade, a celebrar 48 anos de liberdade e democracia, Marta Pereira da Costa apresentou-se ao lado do pianista Alexandre Diniz para pouco mais de uma hora de grande música. As clareiras na plateia vieram comprovar, se tal fosse necessário, que a oferta de um concerto à cidade pode ter tanto de generoso e bom, como de pernicioso e malsão, mas quem se afirmou presente teve o gosto de ser brindado com doze temas criteriosamente escolhidos e superiormente interpretados, aos quais se deve acrescentar a incontornável “Grândola, Vila Morena”, já no encore, num arranjo de enorme beleza e emoção. Muito apropriadamente, “Terra” foi o tema escolhido para abrir o concerto, remetendo para uma composição original que Marta Pereira da Costa considera ser “uma homenagem à nossa terra, numa viagem de Norte a Sul” e que, ao mesmo tempo, é o tema de abertura do seu primeiro trabalho discográfico. Seguiu-se outro tema seu, “Movimento”, e “Encontro”, uma música de Rogério Charraz, inspirada e plena de sedução.

Ainda “a procissão vai no adro” e já a artista nos dá a escutar a melodia dos “Verdes Anos”, de Carlos Paredes, fundindo-a com “Summertime”, de Gershwin. Em acordes de uma textura límpida, o Fado e o Jazz deram-se as mãos com uma força inusitada, arrancando ao público uma sentida ovação. De José Lopes escutou-se o dolente “Fado Lopes” para, de seguida, mergulharmos em “Minha Alma”, aquela que foi a primeira música composta por Marta Pereira da Costa. Intimista por excelência, o concerto teve no tema “Memórias” um dos seus pontos mais altos, de tal forma a composição prima pela beleza e pelo sentimento que dela se derrama. “Dia de Feira” precedeu “E Depois do Adeus”, a senha do 25 de Abril como nunca a ouvíramos antes, inteira e limpa. “O Zeca” e “Rapsódia” trouxeram-nos as toadas imortais do Fado de Coimbra, a saudade de José Fontes Rocha, o eterno Luiz Goes e a inefável “Cantiga Para Quem Sonha”. O alinhamento deixou para o final “Além-Terra”, composta por Mário Pacheco, em mais um momento inesquecível. Depois foi a “Grândola” e o deixar a Casa da Criatividade, cravo rubro na mão, a vontade de cantar bem alto: “O povo é quem mais ordena / dentro de ti, ó cidade”.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

EXPOSIÇÃO DE DESENHO: "vi uma cadela minha com lobos" | Jaime



EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “vi uma cadela minha com lobos”,
de Jaime
Curadoria | Ângela Magalhães
Centro de Arte Oliva
09 Out 2021 > 20 Mar 2022


Em 1980, a Fundação Gulbenkian apresentou uma exposição monográfica composta por setenta e quatro desenhos do artista Jaime Fernandes. No texto do catálogo produzido para o efeito, da autoria do médico e psicanalista João dos Santos, propunha-se uma contextualização do universo do artista: “Não é uma exposição de desenhos que aqui se mostra. Mostra-se Jaime e o seu mundo visionado através das teias que o limitam. Mostra-se como, segundo os seus escritos, “oito vezes morreu já Jaime” e como oito vezes renasceram nele fantasmas cativos desde a eternidade.” É este universo, com tanto de onírico como de perturbador, que mais de quatro décadas depois reencontramos em “vi uma cadela minha com lobos”, mostra que reúne quarenta e duas obras provenientes de diversas coleções particulares e de instituições nacionais e internacionais, como a Fundação Calouste Gulbenkian e a Collection de l’Art Brut de Lausanne e que se dão a ver, por estes dias, no Centro de Arte Oliva, em São João da Madeira.

Numa espécie de antecâmara do espaço expositivo, há um filme que importa ver. Tome-se o visitante de vagares porque “Jaime”, de António Reis e Margarida Cordeiro, é imperdível. Se, por um lado, estamos perante uma obra seminal da filmografia da dupla de cineastas, uma peça documental que encabeçou o movimento vanguardista do Novo Cinema português, por outro mergulha-nos, com um enorme sentido visual e poético, no universo de Jaime Fernandes, português nascido em 1900, na freguesia do Barco (Covilhã, Beira Baixa) a quem, aos 38 anos, foi diagnosticada esquizofrenia paranóide, levando ao seu internamento no Hospital Miguel Bombarda, onde viria a falecer três décadas depois. Daí que, ao penetrar na sala onde estão expostos os desenhos de Jaime, o visitante bata de frente com a enorme estranheza de estar a ser visto, mais do que estar a ver, a superfície curva onde se perfila a maioria das obras como uma secção do panóptico do “asilo de loucos” para o qual se sente transportado.

Atentando nos desenhos apresentados, são de pequenas dimensões, maioritariamente feitos com esferográficas coloridas sobre papel. Os animais ocupam um espaço importante do universo de Jaime, sendo possível identificar cães, aves, cabras, cobras e outros répteis, a par de criaturas pisciformes, ciclópicas, híbridas. Por outro lado, a figura humana presente nos desenhos de Jaime surge na maioria das vezes sozinha e há nela aspectos que são comuns a quase todos os desenhos em que está presente. São os casos das linhas estáticas do corpo e dos pés de perfil, dos braços erguidos, da forma das cabeças e da linha do cabelo. Estes elementos recorrentes, a par dos automatismos gráficos, como as tramas de linhas e as garatujas que preenchem os fundos, tornam o desenhar propício à dimensão simbólica, enigmática para o observador.

Fazendo um esforço de seguir com o olhar o movimento da mão do artista, quase parece possível perceber aquilo que foi o nascimento do desenho. Percorrendo cada linha, cada traço, ousando imaginar onde principiou, que primeiro toque lhe deu origem, o visitante torna-se cúmplice dos ritmos em trânsito, dos gestos caligráficos, rodopiantes, movimentos que abrem caminhos em todas as direcções e sulcam as linhas do papel. Linhas que se entremeiam camada a camada, fazendo emergir da trama uma superfície plana e profunda, onde figuras e fundo por vezes se confundem, enredados em si mesmos. O efeito é hipnótico, as emoções fluem a ponto de nos sentirmos, nós mesmos enredados nas linhas dos desenhos. Fica claro que a vida de Jaime é indissociável dos seus desenhos, confidentes, talvez, da meada do seu pensamento, feita de fio que ora desprende, ora emaranha. Se olharmos o tempo justo para estes desenhos, é a mão de quem os fez que assoma. E não está parada. Tão pouco silenciosa.