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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O MELHOR DE 2025: CONCERTOS



10. António Zambujo
XXII Encontro de Culturas
Praça da República, Serpa
07 Jun 2025 | sab | 22:00

“ (…) Mas se “Cidade”, álbum editado em 2023 e que integra apenas músicas compostas e escritas por Miguel Araújo, foi uma espécie de fio condutor do concerto, foi com “Guia” que tudo começou, o cantor a “atravessar o oceano” e a encontrar “terra firme” precisamente em Serpa, numa Praça repleta de alegria e entusiasmo, na expectativa de uma grande noite.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-antonio-zambujo.html



9. Lina_ & Marco Mezquida
Misty Fest
Casa da Música - Sala 2
14 Nov 2025 | sex | 21:30

“ (…) Ao longo de quase uma hora e meia, “O Fado” abriu-se em certeza e diálogo, unindo e reinventando, revelando uma simbiose perfeita com outros géneros e ritmos - da música tradicional aos sons do Brasil, da canção espanhola às marchas de Santo António. Reconhecidamente rica e expansiva, a voz de Lina_ ofereceu-se pura e límpida, ganhando asas e elevando-se nos acordes cristalinos do piano, tecnicamente irrepreensível, ainda que redundante e menos contido aqui e ali. Mesmo assim, Marco Mezquida soube encontrar o equilíbrio entre o lirismo subtil e uma abordagem quase sinfónica, criando uma tensão estrutural que encheu o palco e seduziu o público.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/concerto-lina-marco-mezquida.html



8. The Art of Song vol.2 - Between Sacred and Profane
Com | Filipe Raposo (piano e composição musical), Rita Maria (voz e composição musical)
Auditório de Espinho – Academia
23 Fev 2025 | dom | 18h00

“ (…) Extraída de “Galinhas do Mato”, o último álbum editado em vida por Zeca Afonso, “Alegria da Criação” abriu o concerto e foi dele “pedra de toque”. Escutar em fundo a voz e adufe de Idalina Gameiro (também o adufe de Emília Antunes) como uma ladainha, sobre a qual se impõe a pureza das cordas (vocais de Rita Maria e do piano de Filipe Raposo), é no mínimo arrepiante. Os ritos e os mitos que se estendem ao longo do concerto levam-nos de regresso à origem, explicando mistérios, apaziguando e reconfortando, conferindo significado e valor à nossa existência.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/concerto-art-of-song-vol2-between.html



7. Dino d’Santiago
Casa da Criatividade
12 Jun 2025 | qui | 21:30

“ (…) Ao longo de quase duas dezenas de temas, Dino d’Santiago e a sua banda definiram o pendor da festa, oferecendo a um público esfuziante de entusiasmo momentos de verdadeira igualdade, celebração e partilha. De uma energia sem limites, o artista começou por cantar “Nos tradison” e vincar a importância de olhar para trás, para os valores e para a tradição, se queremos seguir em frente.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-dino-dsantiago.html



6. A garota não
Com | Cátia Mazari Oliveira (guitarra e voz), Sérgio Miendez (guitarra e baixo), João Mota (teclados, guitarra, baixo e voz) e Diogo Arranja Sousa (bateria)
Centro Cultural de Paredes
25 Out 2025 | Sab | 21:30

“ (…) A apresentar “Ferry Gold”, o seu mais recente trabalho discográfico, A garota não tornou a bater na tecla da música de intervenção com uma frescura e vivacidade como há muito se não via, o que faz do seu projecto um dos mais estimulantes, emotivos e inspiradores da nova música portuguesa. Marcado pela consciência social, pela recusa da complacência e pela denúncia da injustiça, desigualdade e discriminação, o seu trabalho é fruto de uma trajectória pessoal, de quem viveu a precariedade nas mais diversas formas e teve de ser fazer à vida com “uma força a crescer-lhe nos dedos e uma raiva a nascer-lhe nos dentes”.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concerto-garota-nao.html



5. Voz e Guitarra
Com | Carolina Deslandes (voz), Feodor Bivol (guitarra)
Cineteatro António Lamoso
09 Mai 2025 | sex | 21:30

“ (…) Cruzando canções que ilustram treze anos de uma carreira recheada de belíssimos momentos, com alguns exemplares de um novíssimo álbum a sair ainda este mês, Carolina Deslandes provou que os sonhos de uma artista e uma artista de sonho podem ser uma e a mesma coisa. “Dois Dedos de Testa” abriu as hostilidades de forma afirmativa - “Quero ser dona da festa / Tenho dois dedos de testa” - e deu o mote para um concerto fortemente intimista, de emoções à flor da pele.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/concerto-voz-e-guitarra-carolina.html



4. Pedro Abrunhosa
Centro de Arte de Ovar
13 Jun 2025 | sex | 21:30

“ (…) Em Ovar, num Centro de Artes há muito esgotado, o artista começaria por saudar o público, afirmando ser a sua presença “o maior tributo à cultura portuguesa”. Uma cultura que, referiria, “nunca foi tão importante para defender a soberania, a democracia e, sobretudo, a paz.” E foi sob o signo da Paz que o concerto decorreu, com a música a carregar consigo mensagens onde as palavras “paz”, “luz” e “amor” foram signos e símbolos de um enorme momento: Íntimo, profundo, intenso, vivo, espiritual.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-pedro-abrunhosa.html



3. Jorge Palma & Júlio Resende
Cine-Teatro de Estarreja
21 Jun 2025 | sab | 21:30

“ (…) Os acordes que precederam “O Meu Amor Existe”, tema de abertura do concerto, faziam antever algo de muito especial. Ainda que facilmente reconhecíveis, Júlio Resende soube revesti-los de um lirismo único, uma quase pureza, transportando o público ao “grau zero” da criação. Mas foi quando as palavras, frágeis e incertas, se soltaram da garganta de Jorge Palma, que o concerto se estabeleceu nesse lugar único onde os homens e os deuses se tocam.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-jorge-palma-julio-resende.html



2. Inspirar
Danças Ocultas
Com | Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo, Francisco Miguel
Misty Fest 2025
Teatro Aveirense
12 Dez 2025 | sex | 21:30

“ (…) A música dos Danças Ocultas nunca é sombria, mesmo quando se move na melancolia. Nela encontramos sempre uma fresta de luz, uma promessa de clareza no meio da contenção. Não é música para consumo rápido, mas para escuta profunda, exigente e, paradoxalmente, reconfortante. Mais do que um simples concerto, o que se viveu no Teatro Aveirense foi uma experiência de partilha sensível, onde os acordes pareceram procurar um lugar íntimo na memória daqueles que tiveram o privilégio de os escutar. Inspirar, como o título bem sugere, foi gesto de recolha, de interiorização, contrastando com a trilogia de álbuns anteriores, mais voltados para fora, para o “respirar” como movimento de saída.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/concerto-inspirar-dancas-ocultas.html



1. Meredith Monk
Com | Meredith Monk (voz e teclados), Katie Geissinger (voz), Allison Sniffin (voz, violino e teclados)
Auditório de Espinho – Academia
14 Out 2025 | ter | 21:30

“ (…) O que à primeira escuta pode parecer uma música “simples”, revela-se, na verdade, como um refinado processo de despojamento, reduzindo a composição ao essencial, na busca de uma forma de pureza quase espiritual. Depurada ao máximo, esta, como todas as restantes peças que compuseram o concerto, não conta uma história no sentido narrativo convencional, antes convoca sensações, estados de alma, geografias interiores. A voz, esse enorme instrumento, é moldada com uma liberdade quase xamânica — como se Monk quisesse cantar antes das palavras, antes da gramática, antes mesmo da consciência de ser. Há algo de poeira e terra molhada, de vento nas montanhas, de infância da humanidade em cada composição.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concerto-meredith-monk.html

sábado, 14 de junho de 2025

CONCERTO: Dino d'Santiago



CONCERTO: Dino d’Santiago
Casa da Criatividade
12 Jun 2025 | qui | 21:30


“Venho de longe… Mas não sou estrangeiro.
Fui para o estrangeiro… Mas não sou estrangeiro.”
Dino d'Santiago

Dino d'Santiago é hoje uma das figuras centrais da música portuguesa. O seu trabalho veste-se de originalidade e contemporaneidade, sem nunca esquecer as origens cabo-verdianas e os sons da tradição. A sua forte presença em palco impele-nos a segui-lo com o olhar, a apreciar um bailar harmonioso que parece crescer a cada instante, um punho cerrado que fala de igualdade e de justiça, o sorriso luminoso de quem oferece com vivo prazer o melhor que tem dentro de si. Na sua voz quente e poderosa, as palavras surgem com a subtileza de um sussurro, o ímpeto de um grito, a força de um hino. Palavras que trazem em si a herança de Cesária, Bana ou Os Tubarões, que a sabem fundir com a energia e o ritmo de Paulo Flores, Julinho Ksd ou Calema. Palavras feitas de histórias e de memórias, fincadas num presente que nos diz que nada está garantido, que olham o futuro e nos incutem a “vender o medo para comprar coragem”. Neste embalo, manso e louco ao mesmo tempo, vemos como vão sendo quebradas todas as barreiras musicais e sociais, unindo a criança e o idoso, o rico e o pobre, o preto e o branco, num todo em cuja diversidade reside a maior riqueza.

Que bom que foi poder escutá-lo assim na noite da passada quinta feira, em São João da Madeira, num espectáculo especialmente criado para comemorar os doze anos da Casa da Criatividade. Ao longo de quase duas dezenas de temas, Dino d’Santiago e a sua banda definiram o pendor da festa, oferecendo a um público esfuziante de entusiasmo momentos de verdadeira igualdade, celebração e partilha. De uma energia sem limites, o artista começou por cantar “Nos tradison” e vincar a importância de olhar para trás, para os valores e para a tradição, se queremos seguir em frente. “En bua di mi / Um voo longi longi longi longi longi / Kanto kin txiga en ka atxa ramu pa descansa nha pena mamã!” foram palavras do refrão de “Voei de mim”, a pedir braços que acolham no fim da jornada e não muros que se ergam e vozes que insultem. Crioulo e português de mãos dadas, o concerto prosseguiu com “Esquinas”, punho fechado que estoira forte na mesa, denúncia do racismo estrutural que mina a nossa sociedade e lembra que “nem todo o tuga é luso / Nem todas as quinas são vanglória / Aceno ao corpo negro com quem cruzo / nossos corpos são também pátria”.

Das ilhas de Santiago, Fogo, Maio e Brava à cidade de Lisboa, a música e as palavras deram-se as mãos num balanço cheio desse novo funk que é o funaná, perguntando-se “de onde veio toda essa gente, eu não sei / Dizem que tamos na moda, ma n ka krê sabê / Ali sta tudu dretu, ma não tou nessa / De vender a sodadi ou a morabeza”. Em palco, a guitarra de Djodje Almeida, o baixo de Pety Gau, a bateria de Emílio Lobo e as vozes e o balanço de Alícia Rosa e Elísio Pereira, tornavam ainda mais distinta e única a música de Dino D’Santiago. Com o concerto a caminhar para o final, “Distinu” clamou por liberdade e “Mundo Nôbu” aspirou a um mundo melhor. Ao exemplo de coragem e determinação de Beyoncé e Jay-Z foi o artista buscar inspiração para um dos seus temas mais conhecidos, “Como Seria” e “Kriolu” foi esse abraço entre todos, tão forte quanto necessário, “branco ku pretu um gerason di oru”. Já no “encore”, envergando um bonito chapéu, numa oferta do Museu da Chapelaria, Dino d’Santiago cantou “Oji é oji”, dedicando este tema a todos os trabalhadores anónimos que, em todos os lugares, contribuem para um mundo mais justo e melhor. “Djonsinho Cabral” foi um definitivo carregar de baterias, a afirmação da igualdade na diferença, o grito derradeiro contra as injustiças e a barbárie. Gaza não ficou esquecida!

segunda-feira, 17 de abril de 2023

CONCERTO: "A Cor da Liberdade"



CONCERTO: “A Cor da Liberdade”
Banda Amizade – Banda Sinfónica de Aveiro
Coral Vera Cruz, Coral Polifónico de Aveiro, Coro de Santa Joana, Orfeão da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, Coro Infantil Voz Nua, Círculo Experimental de Teatro de Aveiro, Grupo Experimental de Música e Dança de Aveiro
Artistas convidados | Rui Oliveira, Dino d’Santiago
Direcção artística | Carlos Marques, João Curto
Produção | URAP - União de Resistentes Antifascistas Portugueses
Teatro Aveirense
16 Abr 2023 | dom | 18:00


“Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha.” Dominado pelas cores da liberdade, o concerto que teve lugar no Teatro Aveirense, ao final da tarde de ontem, fez-se em festa e júbilo num sentido cantar Abril. Em palco, a Banda Amizade – Banda Sinfónica de Aveiro, sob a direcção do maestro Carlos Marques, viu-se acompanhada por um vasto número de vozes – dos coros ao teatro e à dança –, o todo abrilhantado pela presença de dois ilustres representantes da “gerason di oro”, Rui Oliveira e Dino d’Santiago. À qualidade das interpretações juntou-se o valor e significado das palavras, fazendo do espectáculo uma sentida homenagem “aos trabalhadores, camponeses, intelectuais e estudantes que, das mais variadas formas, resistiram, enfrentaram e lutaram durante os 48 anos da ditadura em Portugal”. Um espectáculo que serviu igualmente para assinalar os 50 anos do 3º Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, evento determinante no derrube do fascismo e um dos momentos mais altos da luta pela liberdade no nosso País.

“E, por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.” A força das palavras de Jorge de Sena, na sua “Carta a Meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya”, o “Cantar da Emigração” de Adriano Correia de Oliveira entoado em fundo, abriu da melhor forma o espectáculo. De seguida, foi tempo de escutar uma belíssima selecção de “Canções Heróicas”, de Fernando Lopes Graça, a preencher toda a primeira parte do programa. Oportunidade sublime para recordar a poesia de Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, José Gomes Ferreira, João José de Mello Cochofel Aires de Campos ou Arquimedes da Silva Santos, em temas emblemáticos como “Mãe Pobre” “Canto de Esperança”, “Convite”, “Combate” e “Jornada”. Num breve “intermezzo”, declamaram-se os poemas “E Havia Outono?”, de Fernando Assis Pacheco e “Nambuangongo Meu Amor”, de Manuel Alegre, antes de nova série de “heróicas”, nas quais se incluíram “Canto de Paz”, “Canção do Camponês”, “Ronda” e o sempre arrepiante “Acordai”, voltarem a empolgar-nos.

Já sem os corais da cidade em palco, teve início a segunda parte do concerto com a declamação de um excerto do poema “Cantiga de Abril”, de Jorge de Sena (que viria a ser retomado mais tarde) e “Fábula da Fábula”, de Miguel Torga. Prolongando o valor e significado do momento, Rui Oliveira, o primeiro dos dois convidados especiais, ofereceu-nos, na sua profunda e bem timbrada voz, três canções de Adriano Correia de Oliveira. “Emigração”, “E Alegre Se Fez Triste” e “As Balas” foram escutados em profundo silêncio, as palavras de Manuel Alegre, Manuel da Fonseca e do próprio Adriano a calarem bem fundo em cada um dos presentes. Dino d’Santiago respondeu a uma fortíssima ovação com três músicas de Cabo Verde que lhe são particularmente queridas. Com “Porton di nos Ilha”, do mítico grupo “Os Tubarões”, homenageou o pai e todos aqueles que se viram obrigados a deixar a sua terra em busca de uma vida melhor. Depois veio “Sodade”, incontornável tema que notabilizou Cesária Évora e que fala da ida forçada de cabo-verdianos para as roças de S. Tomé e Príncipe nos anos 50 do século passado. Finalmente, “Kriolu”, composição do próprio Dino d’Santiago, na qual “Branku ku pretu um gerason di oru” é toda uma via programática rumo a uma sociedade que se quer mais fraternal, justa e livre.

“Hoje, meio século passado sobre o derrube do fascismo, quando novas velhas ideias ressurgem na tentativa de adulterar as conquistas de Abril e o regime democrático consagrado na Constituição da República Portuguesa, importa continuar a trilhar o caminho dos que nos antecederam, com novas gerações de homens e mulheres empenhados em defender os valores de Abril, por um País mais justo, soberano, desenvolvido e igualitário.” Foi isso que todos vimos e sentimos já nos momentos finais, com os meninos e meninas do Coro Infantil Voz Nua a oferecerem a todos os presentes “Galinhas do Mato”, de José Afonso. Na ternura que se espalhou pelo sorriso de todos, percebeu-se uma particular nota de esperança num futuro melhor e mais justo. Aos aplausos somaram-se os gritos de “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, que ecoavam ainda nas mentes de cada um à saída do Teatro Aveirense. Connosco vieram peças soltas das muitas músicas escutadas, como veio um forte sentimento de gratidão que, no meu caso, se traduziu num apertado abraço a Rui Oliveira. Connosco vieram, sobretudo, as cores do poema: “Saem tanques para a rua, / sai o povo logo atrás: / estala enfim altiva e nua, / com força que não recua, / a verdade mais veraz. / Qual a cor da liberdade? / É verde, verde e vermelha.”

segunda-feira, 27 de março de 2023

CONCERTO: Dino d'Santiago



CONCERTO: Dino d’Santiago
Cineteatro Alba
25 Mar 2023 | sab | 21:30


Defensor acérrimo dos princípios da liberdade, igualdade e justiça, Dino d’Santiago é uma referência maior para muitos portugueses que veem nele um verdadeiro farol na luta contra o preconceito, o racismo e a xenofobia. O reconhecimento vem de todos os sectores da sociedade que pugnam pelos valores da democracia e o jornal Expresso acaba de juntar o nome do artista à restrita lista dos “100 portugueses mais influentes dos últimos e dos próximos 50 anos”, ao lado de Mário Soares ou Inês Laíns, José Saramago ou Catarina Vasconcelos, Maria João Pires ou Tiago Guedes. Pelo exemplo de coragem e pelo que representa naquilo que defende, Dino d’Santiago será sempre alguém merecedor de todo o tempo que lhe possamos dispensar. Mas porque a sua arte é a música e nela coloca toda a sua intencionalidade, o caminho só pode ser o de juntarmos a nossa à sua enorme energia. E eis-nos a caminho de Albergaria-a-Velha em noite de chuva miudinha, para um momento imperdível que, sabemos de antemão, será profundamente inspirador.

Em grande, as expectativas não sairão goradas. Podemos sempre dizer que o som estava demasiado alto para uma sala pequena, que as luzes não pararam de ferir os olhos dos espectadores ou que é uma “batota” a música de fundo e os coros serem gravados. Mas o que é isso quando, num arrepio, escutamos: “Eu choro quando vejo a dimensão do teu sacrifício / O ofício de ser perfeita que não passa de um suplício / Se não fosses tão forte estarias acamada num hospício / Oxi en kre sabi kuze kie ser Mudjer / Ninguém quer saber o que insinuas ou porque amas / És só um objeto, não queremos saber das tuas luas / Mulheres só valem nuas dizem as nossas mentes turvas / Podes mostrar mais, nu ta odja sô bu kurvas.” São os versos de “Badia”, tema de abertura do seu mais recente álbum de estúdio, escutadas sensivelmente a meio do espectáculo, a coroar palavras igualmente vivas e sentidas num poema de Carlota de Barros: “ (…) Eis a mulheres... / estão aí todas / somos nós... / altivas... orgulhosas... frementes de amor... / tão confiantes... sorriso nos olhos / se amadas... / respeitadas... livres... libertadas / Aí estão / resistentes... firmes... empenhadas... lutadoras.”

“Quando cheguei, não havia galhos pra pousar as minhas penas mamã!” Foi com um voo longo, em si mesmo uma proposta de viagem, que teve início o concerto. Uma viagem que privilegiou “Badiu”, mas que soube harmonizar-se com os dois trabalhos anteriores, “Kriola” e “Mundu Nôbu”, através de um alinhamento adaptado na perfeição a um ritmo “non stop”. “Voei de Mim”, “Raboita Sta. Catarina” e “Sofia” foram exemplos de união numa música que não deixa ninguém indiferente e que levou a plateia (e o balcão) do Cineteatro Alba ao rubro. Veio depois “Nôs Funaná” e a certeza de que isto anda tudo ligado, “Branku ku Prètu, 1 Gerason di Oru”. “Lá Fora” e “Esquinas” tocaram pela força das palavras e “Roda”, “Nova Lisboa” e “Txuputi” voltaram a “sobrevoar” toda a discografia de Dino d’Santiago. Os temas fortes do concerto foram “dedicados a todas as mulheres, que mesmo vivendo num mundo extremamente machista, conseguem ser sempre amor maior”. “Tudo Certo” foi palavra de esperança a fechar o alinhamento e “Mundu Nôbu” preencheu uma parte do “encore”. A outra parte viu a muito jovem Laura Fontoura em palco a cantar o poema “Eu Sei…”, imortalizado na voz de Sara Tavares. “Se eu voar sem saber onde vou / Se eu andar sem conhecer quem sou / Se eu falar e a voz soar com a manhã / Eu sei...”. A viagem prossegue (a luta continua)!

sexta-feira, 4 de junho de 2021

CONCERTO: "Dino d'Santiago"



CONCERTO: Dino d’Santiago
Cine-Teatro de Estarreja
28 Mai 2021 | sex | 21:00


“Sofia pô más um prato na mesa pá mi,
pan pila kel katchupa sô sabi, pam bá paródia
oh Sofia
en ta sigui sabura ti manxi,
apollo g na si tempo dia flaba
ooh en ten sodadi, ooh ten sodadi!” 

A afirmação de que toda a energia, ritmo e força da música africana cabem no tempo de um concerto de pouco mais de uma hora parecerá, à primeira vista, uma impossibilidade. Mas só quem nunca viu um espectáculo de Dino d’Santiago, poderá pensar assim. Desta vez em Estarreja, perante uma sala meio-cheia — que o mesmo é dizer, com a lotação esgotada (!) —, o cantor de Quarteira voltou a provar que a sua música é de África feita, estendendo a nação kriola ao rincão português - “B.Leza e Noites Longas / e a Linha de Sintra / fala a língua da Cesária”. Com a pandemia a determinar condicionantes várias, em “tempo e modo”, Dino d’Santiago soube contornar a situação, imprimindo um ritmo alucinante ao concerto: encadeou as músicas umas nas outras e, quase sem tempo para retomar o fôlego, “despachou” a quase totalidade dos seus dois álbuns de originais - “Mundo Nôbu” (2018) e “Kriola” (2020) - e ainda dois ou três temas “de borla”. A plateia reagiu da única forma possível. De pé nos seus lugares, o corpo e a alma num frenesim, explodiu em festa e alegria. Há muito que todos ansiávamos por isto!

Secundado pelas extraordinárias vozes de Nayela Simões, Sol Lopes e Sofia Grácio, Dino d’Santiago fez questão de, através da sua música, exprimir as inquietações que continuamente afligem muitos indivíduos de origem africana, portugueses por direito próprio mas segregados por uma sociedade que insiste em manter vivos o hediondo do racismo e da xenofobia. Com poemas que nos dizem “pra quê negar assim o obvio / se o amor é que nos salva”, o cantor fez com que recordássemos que casos como o do estudante cabo-verdiano Luis Giovani Rodrigues ou do artista luso-guineense Bruno Candé, ainda tão pesados nos nossos corações, não foram mera ficção nem fruto do acaso. Por isso escutamos “ruspeta ser humano si krê cor eh diferenti! / ama tudu mundu amore eh eternamenti!” Ou “branco ku pretu um gerason di oru”, num convite à união e ao diálogo, à construção de caminhos comuns e de um mundu nôbu, “povo que lavas no rio” e “ken mostrabu es kaminhu longe” passeando de braço dado.

O concerto ficou marcado, tanto pela genialidade dos poemas e das músicas — as influências de Claudino Pereira, Kalaf Epalanga, Nelson Freitas, Djodje Almeida, Branko, Seiji, Toty Sa’Med e tantos outros nomes ilustres da música africana como uma forte evidência —, quanto pela energia e ritmo transbordantes a libertarem o público de dúvidas e constrangimentos, num quase regresso à normalidade, seja lá o que isso for. E ficou também marcado por um episódio com o seu quê de invulgar: um imprevisto com o som, cuja falha levou largos minutos a ser reparada. Dino d’Santiago não se deixou perturbar, chamou para a boca do palco as três vozes femininas e, a capella, a sala em absoluto silêncio, tornou tudo mais próximo ainda, mais íntimo, mais verdadeiro (o próprio cantor confessou-se impressionado com a intensidade do momento, com uma tão forte espiritualidade). Um momento que serviu, de forma inquestionavel, para provar a excelência da voz e evidenciar a pessoa extraordinária que é Dino d’Santiago. Ele há males que vêm por bem!

segunda-feira, 24 de junho de 2019

CONCERTO: Dino d'Santiago



CONCERTO: Dino d'Santiago
Teatro Aveirense
21 Jun 2019 | sex | 21:30


De energia feito, o concerto de Dino d'Santiago no Teatro Aveirense foi um momento de festa inexcedível. De festa e de boa música, trazida por este português, nascido em Quarteira, mas cujas raízes se podem encontrar na ilha de Santiago, em Cabo Verde. Desta combinação de culturas crescem e multiplicam-se um conjunto de ritmos e sons ancorados na alma lusófona e que vão do batuque e do funaná ao zouk, à morna, à coladera e ao fado. E tudo isto com muito soul, muito hip-hop e muito funk à mistura. Tudo ingredientes para levantar o público das cadeiras desde o primeiro instante e pôr toda a gente a dançar.

Entrando em palco sob os acordes de “Africa di Nôs”, Dino d'Santiago arrancou o concerto com “Nova Lisboa”, um dos temas mais fortes do seu mais recente album “Mundu Nôbu”. É uma canção com um ritmo contagiante e uma letra plena de significado, que nos fala duma cidade onde a mistura acontece, “deixa tarraxar mesmo sem saber”. Seguiu-se “Raboita Sta. Catarina” e, logo de seguida, “Tudo Certo”, um abraço a Branko, DJ e produtor, uma das figuras mais importantes na carreira de Dino d'Santiago, com quem apontou direcções desde o início dos Buraka Som Sistema.

A força da música subia mais e mais e pediam-se palmas e mais palmas, sem que houvesse tempo para palmas entre as canções que se sucediam a um ritmo alucinante. Dino d'Santiago estava imparável e dava trabalho ao ferro gaita. “Bô Eh Sabi”, “Fidju Poilon”, “Nôs Crença” e “Sô Bô”, do mais recente álbum, alternavam com “Nôs Tradiçon”, “Djonsinho Cabral” e “Pensa Na Oji”, do álbum “Eva”, de 2013. Pelo meio, Dino d'Santiago partilhava com o público dois novíssimos temas, prontos para integrar um terceiro álbum prometido para 2020.

O concerto entrava na recta final e oferecia agora os temas mais fortes. “Mundu Nôbu” e esse enorme sucesso intitulado “Como Seria” - fortemente inspirado na vida de um dos casais mais adorados do mundo da música, Beyoncé e Jay-Z – precederam o frenético “Funaná Na Mundu”, uma festa que fez sentir em palco a presença dos Karetus e do enorme Djodje. Último tema do alinhamento, “Nôs Funaná” foi a verdadeira apoteose, o cantor a deixar o palco e a postar-se na terceira fila da plateia, o público a deixar os lugares, a ocupar o espaço entre as cadeiras e o palco e a gritar “aqui começa um novo dia / Sé pam pidi oxi bu mon / Djam leba nôs funaná, eeeh”. A ovação arrastou-se por largos minutos e Dino d'Santiago voltou ao palco para o tão esperado “encore” onde começou por cantar “Sodade”, imortalizado por Cesária Évora e verdadeiro hino de cabo-verde e do mundo, com o qual encantou Madonna. Como um ciclo que se fecha, o tema final foi uma repetição da abertura, “Nova Lisboa”, ainda mais forte e vibrante, “se o batuku vai, deixa andar. (...) Qualé ideia? Mas qualé ideia?”. Inesquecível!

[Foto: Paulo Batista | facebook.com/paulo.batista]