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domingo, 10 de maio de 2026

CONCERTO: Adam Ben Ezra Duo



CONCERTO: Adam Ben Ezra Duo
Com | Adam Ben Ezra (contrabaixo, piano, flauta transversal), Michael Olivera (bateria e percussões)
Convidado | João Barreto (piano)
Campus Jazz 2026 - Festival de Jazz da Universidade de Aveiro
Ciclo Tons Inteiros
Cineteatro Alba
08 Mai 2026 | sex | 21:30


O Campus Jazz está de regresso, disposto a reafirmar a crescente centralidade da região de Aveiro no circuito nacional do jazz. Mais do que um simples cartaz de concertos, o festival consolida-se como um verdadeiro dispositivo cultural e pedagógico, articulando espectáculos, masterclasses, workshops, exposições, jam sessions e concursos internacionais, numa programação que atravessa a cidade de Aveiro e se estende a alguns dos municípios vizinhos. Enquanto entidade organizadora, a Universidade de Aveiro demonstra uma visão cultural ambiciosa, capaz de pensar o jazz não apenas como património musical, mas como linguagem contemporânea em permanente mutação. O alinhamento desta edição - onde surgem nomes como Gilad Hekselman, Amaro Freitas, Rita Payés e Adam Ben Ezra - confirma essa amplitude de horizontes. Integrado no ciclo Tons Inteiros, o concerto no Cineteatro Alba surgia, por isso, como um dos momentos mais aguardados da programação. O duo formado por Adam Ben Ezra e o baterista cubano Michael Olivera apresentava-se ancorado no recente álbum “Heavy Drops”, trabalho que prolonga a exploração tímbrica e rítmica que o músico israelita vem desenvolvendo há mais de uma década em torno do contrabaixo, instrumento que transformou numa espécie de centro gravitacional de múltiplas linguagens musicais.

Desde os primeiros minutos percebeu-se que o concerto assentaria numa lógica de acumulação rítmica e textural, mais do que numa construção narrativa propriamente jazzística. Temas como “Heavy Drops”, “Escape Route”, “Free Fly” ou “Taming the Bull” revelaram um Adam Ben Ezra tecnicamente irrepreensível, senhor de um domínio absoluto sobre o contrabaixo, explorando-o simultaneamente como instrumento melódico, percussivo e harmónico. O problema residiu menos na execução - invariavelmente impressionante - do que na relativa previsibilidade estrutural de vários momentos do alinhamento. A insistência em células rítmicas repetitivas, sustentadas por loops electrónicos e por uma bateria frequentemente mais física do que subtil, acabou por produzir uma sensação de redundância sonora que retirou algum impacto ao concerto. Michael Olivera mostrou enorme competência técnica e um sentido rítmico musculado, mas raramente o diálogo com o contrabaixo de Ben Ezra alcançou o risco e a imprevisibilidade que o jazz, enquanto linguagem aberta, habitualmente reclama. Pelo contrário, muitos dos temas aproximaram-se de uma estética híbrida onde o funk, certas inflexões mediterrânicas e até uma discreta matriz klezmer se sobrepuseram claramente ao vocabulário jazzístico.

O momento mais forte da noite surgiu quando o concerto abandonou parte do aparato electrónico e regressou a uma linguagem mais despojada e acústica. A homenagem ao centenário de Miles Davis e John Coltrane, integrada na programação do próprio Campus Jazz 2026, ofereceu ao público uma interpretação particularmente conseguida de “So What”, contando com a participação do jovem pianista e compositor aveirense João Barreto. Foi nesse instante que o concerto encontrou um verdadeiro espaço de respiração, escuta e tensão criativa. Sem necessidade de artifícios cénicos ou sobreposição redundante de camadas electrónicas, os músicos revelaram uma outra profundidade interpretativa, assente na subtileza dinâmica, na economia do gesto e na capacidade de construir silêncio e expectativa. Apesar do virtuosismo evidente de Adam Ben Ezra e da energia contagiante de Michael Olivera, o concerto oscilou demasiadas vezes entre a exibição instrumental e uma estética de fusão que, não sendo desinteressante, pareceu por momentos excessivamente formatada. O público reconheceu o mérito dos músicos com aplausos cordiais, embora sem o entusiasmo necessário para forçar um encore que parecia esperado.

[Foto: © Diego Garcia | https://www.cm-albergaria.pt/evento-46/adam-ben-ezra-duo]

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

CONCERTO: Ricardo Ribeiro com Orquestra Filarmonia das Beiras



CONCERTO: Ricardo Ribeiro com Orquestra Filarmonia das Beiras
Direcção musical | Leandro Alves
Arranjos | João Martins
Ciclo de Fado 2023
Cineteatro Alba
25 Nov 2023 | sab | 21:30


Quatro anos depois de “Respeitosa Mente”, um álbum surgido em contraciclo com a sua vocação fadista, Ricardo Ribeiro está de regresso com “Terra Que Vale o Céu”, voltando a abraçar o género que o celebrizou e que faz dele um dos mais notáveis intérpretes da “canção nacional”. Quatro anos é também o tempo que medeia entre a sua anterior passagem por Albergaria-a-Velha e esta ocorrida na noite de sábado onde, no Cineteatro Alba, brilhou ao lado da Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direcção do maestro Leandro Alves, e de um trio de cordas onde pontificaram Carlos Manuel Proença (viola), Daniel Pinto (viola baixo) e Luís Guerreiro (guitarra portuguesa). Uma noite de puro deleite para um público que praticamente esgotou a sala, de regresso às raízes mais profundas da tradição fadista, de reencontro com uma voz e um canto inconfundíveis. Uma noite de “fado antigo que sabe a novo, mas ao mesmo tempo um fado novo que sabe a antigo”, citando Rui Vieira Nery e as palavras que escreveu a propósito do mais recente trabalho do artista.

Com a consciência sábia do passado e os olhos abertos para o presente e para o futuro, Ricardo Ribeiro teve para oferecer uma parte do seu mundo interior, inspirado pelo sul, cingindo num abraço o Mediterrâneo e o Oriente. Como quem escava a terra do próprio peito, o fadista foi ao encontro da tradição, trazendo à superfície fados como o “Acácio”, o “Azenha” ou o “Franklim”, num estilo interpretativo onde cabe uma boa dose de novidade. Pedro Homem de Melo, Rosa Lobato Faria e Ary dos Santos ofereceram, a par de Amélia Muge, Paulo de Carvalho, Carminho, Tozé Brito e outros, as palavras que depois nos seriam devolvidas em músicas da tradição fadista, mas também de enormes compositores como João Paulo Esteves da Silva ou Rão Kyao. Do próprio Ricardo Ribeiro pudemos escutar algumas composições, nomeadamente “Vira-Voltas” e “Tronco e Raíz”, este último um extraordinário pedaço de intimidade, com o pequenino Francisco ao colo, a harmónica de Luís Trigo a vincar o lirismo das palavras e da música, num ponto final no alinhamento do concerto absolutamente inesquecível.

No saboroso desfiar das páginas íntimas que Ricardo Ribeiro escolheu partilhar com o público, começámos por escutar “Antes Só”, um muito saudado encontro com o enorme Artur Ribeiro. “Soneto de Mal Amar” permitiu visitar o álbum “Hoje é Assim, Amanhã Não Sei” (2016), mas não ficou por aqui o exercício de recordar este trabalho, já que dele também se escutou “Nos Dias de Hoje” e, no primeiro de dois encores, o muito divertido “Fadinho Alentejano”. Do álbum “Largo da Memória” (2013) ouviu-se “Entrega” e “Porta do Coração”, álbum de 2010, emprestou ao concerto “Moreninha da Travessa”, o seu tema mais conhecido. Para além de “Antes Só”, Ricardo Ribeiro deu a conhecer sete temas do seu novo disco, dos quais destacaria, pela beleza das palavras e pelas sonoridades meridionais, “Terras Dum Mar Interior” e “Tirai os Olhos de Mim”, este último musicando um poema de Gil Vicente. O concerto viria a terminar em apoteose, numa segunda vinda ao palco de Ricardo Ribeiro, com um muito reclamado “Mondadeiras”, tema que firmou a união do fado e do cante, do corpo e da alma, do norte e do sul, do sol e do sal. Inesquecível!

[Foto: Cineteatro Alba | https://www.facebook.com/CineteatroAlba]

sábado, 24 de junho de 2023

TEATRO: "Teoria das Três Idades"



TEATRO: “Teoria das Três Idades”
Criação e interpretação | Sara Barros Leitão
Assistência à criação e produção | Patrícia Gonçalves
Cenografia e figurinos | Catarina Barros
100 Minutos | Maiores de 12 anos
Cineteatro Alba
23 Jun 2023 | sex | 21:30


Figura central na história do teatro português, a mais antiga companhia de teatro profissional do país ainda em atividade, o TEP - Teatro Experimental do Porto celebrou no passado dia 18 de Junho sete décadas de vida. Na mesma data, em 2018, Sara Barros Leitão estreava na Sala do Tribunal do Mosteiro de S. Bento da Vitória este “Teoria das Três Idades”, espectáculo que o jornal Público elegeu como um dos melhores da temporada. Cinco anos volvidos, a actriz reata o diálogo com o passado através da revisitação do seu trabalho, confrontando-se com o que escreveu e criou e avaliando o que era e a forma como pensava. Recortes de jornal, cortes da censura, atas, contratos, fotografias, gravações e programas de espetáculos, relatórios de contas e demais material de arquivo, alcançam um novo protagonismo e o público volta a ser confrontado com histórias e memórias, vidas e sonhos, lutas e conquistas, que traçam a história do TEP, ao mesmo tempo que acompanham a evolução da sociedade portuguesa, entre a repressão e o preconceito, a indignação e o sonho de liberdade.

Os laços de parentesco entre “Teoria das Três Idades” e “Monólogo de uma Mulher Chamada Maria com a sua Patroa”, a anterior criação de Sara Barros Leitão, são evidentes. A mesma paixão pelos documentos que se escondem nos arquivos, a mesma capacidade de articular histórias com a minúcia de quem compõe um puzzle, a imaginação a servir de motor à ficção e a imiscuir-se no real, a forte presença em palco, aquela empatia com o público no apelo às memórias de todos a partir das histórias de cada um. O início da peça é desarmante. Estão ali os fundamentos científicos da catalogação e as boas práticas de conservação de documentos, mas está também a ansiedade de mergulhar nos arquivos e a emoção da descoberta, o todo “embrulhado” num humor fino que se irá estender pela peça adentro. Está em marcha a história do TEP, feita de apoios perdidos, apoios ganhos, casa própria, casa alheia, casa que arde, nova casa, casa que mete água, casa em obras. Uma história de palcos, teatros, auditórios, salas de ensaio, armazéns e a vida toda guardada em caixas. Uma história onde entram Shakespeare, Ionesco, Sófocles e autores contemporâneos. Também romances, choros e a PIDE à porta.

Brilhante contadora de histórias, Sara Barros Leitão vai substituir a “catalogação científica” por uma “catalogação emocional”. A correspondência geral passa a integrar a categoria “sócios indignados”; no lugar da “censura” cria-se a categoria da “clandestinidade das metáforas e das pausas enquanto esperamos pela liberdade”; onde estão as tabelas de ensaio, cartas, documentos, circulares, passam a estar “luta pela profissionalização”, “o que devemos a quem veio antes de nós” ou, muito simplesmente, “sonhos”. Em cada papel há uma centena de possibilidades. Cada papel leva a uma história, que leva a outra história, que leva a outra história ainda. Das “chamadas à tabela” na peça “A Batalha Naval” às sucessivas sessões da Assembleia-Geral Ordinária de 1967, do pedido de demissão da posição de sócio por “falta de regalias” à circular de um encenador que denuncia a presença de pessoas estranhas nos ensaios, da reivindicação dos actores por um dia de descanso semanal ao domingo à censura do actor por falta injustificada ao ensaio, é esmagador aquilo que faz a história da peça, a história do TEP. “A Bem da Nação”, a Comissão [de Censura] aprova a representação da peça, “devendo ser suprimidas as palavras merda e socorro”. Outras vezes a censura reprova. Outras, ainda, reprova aquilo que, “por lapso”, tinha aprovado.

Roga-se que um actor preso pela PIDE possa ser libertado para actuar “no próximo domingo”. Pede-se que Brecht e outros dramaturgos possam ser representados no nosso País, “como já acontece em Espanha e noutros países”. Até que o dia inicial, inteiro e limpo, se impõe. O discurso do 1º de Maio é o momento mais alto da peça. Novas tarefas são impostas ao Teatro Experimental do Porto, no quadro de um Portugal renovado. É urgente um teatro que sirva o povo e, para isso, há que “reestruturar toda a actividade, todas as bases funcionais, criar grupos de trabalho, formar uma companhia ampla e sólida para levar por diante o trabalho que nos está destinado”. A exaltação na voz é evidente. “2 de Maio de 1974. Por motivo de rouquidão do actor não se realizou o espectáculo.” Os momentos finais são tudo menos exaltantes. O TEP vive as dificuldades de sempre, agravadas por um pavoroso incêndio que destruiu a sua casa. A cultura continua a não fazer parte das prioridades governativas e os apoios tardam em concretizar-se. Cai o pano, fecha-se mais um ciclo e há um nó que nos tapa a garganta. Sara Barros Leitão cumpre o importante papel de chamar a atenção para as realidades que, continuamente, asfixiam a cultura. Quem a ouve?

[Foto: TNSJ | https://www.tnsj.pt/]

segunda-feira, 27 de março de 2023

CONCERTO: Dino d'Santiago



CONCERTO: Dino d’Santiago
Cineteatro Alba
25 Mar 2023 | sab | 21:30


Defensor acérrimo dos princípios da liberdade, igualdade e justiça, Dino d’Santiago é uma referência maior para muitos portugueses que veem nele um verdadeiro farol na luta contra o preconceito, o racismo e a xenofobia. O reconhecimento vem de todos os sectores da sociedade que pugnam pelos valores da democracia e o jornal Expresso acaba de juntar o nome do artista à restrita lista dos “100 portugueses mais influentes dos últimos e dos próximos 50 anos”, ao lado de Mário Soares ou Inês Laíns, José Saramago ou Catarina Vasconcelos, Maria João Pires ou Tiago Guedes. Pelo exemplo de coragem e pelo que representa naquilo que defende, Dino d’Santiago será sempre alguém merecedor de todo o tempo que lhe possamos dispensar. Mas porque a sua arte é a música e nela coloca toda a sua intencionalidade, o caminho só pode ser o de juntarmos a nossa à sua enorme energia. E eis-nos a caminho de Albergaria-a-Velha em noite de chuva miudinha, para um momento imperdível que, sabemos de antemão, será profundamente inspirador.

Em grande, as expectativas não sairão goradas. Podemos sempre dizer que o som estava demasiado alto para uma sala pequena, que as luzes não pararam de ferir os olhos dos espectadores ou que é uma “batota” a música de fundo e os coros serem gravados. Mas o que é isso quando, num arrepio, escutamos: “Eu choro quando vejo a dimensão do teu sacrifício / O ofício de ser perfeita que não passa de um suplício / Se não fosses tão forte estarias acamada num hospício / Oxi en kre sabi kuze kie ser Mudjer / Ninguém quer saber o que insinuas ou porque amas / És só um objeto, não queremos saber das tuas luas / Mulheres só valem nuas dizem as nossas mentes turvas / Podes mostrar mais, nu ta odja sô bu kurvas.” São os versos de “Badia”, tema de abertura do seu mais recente álbum de estúdio, escutadas sensivelmente a meio do espectáculo, a coroar palavras igualmente vivas e sentidas num poema de Carlota de Barros: “ (…) Eis a mulheres... / estão aí todas / somos nós... / altivas... orgulhosas... frementes de amor... / tão confiantes... sorriso nos olhos / se amadas... / respeitadas... livres... libertadas / Aí estão / resistentes... firmes... empenhadas... lutadoras.”

“Quando cheguei, não havia galhos pra pousar as minhas penas mamã!” Foi com um voo longo, em si mesmo uma proposta de viagem, que teve início o concerto. Uma viagem que privilegiou “Badiu”, mas que soube harmonizar-se com os dois trabalhos anteriores, “Kriola” e “Mundu Nôbu”, através de um alinhamento adaptado na perfeição a um ritmo “non stop”. “Voei de Mim”, “Raboita Sta. Catarina” e “Sofia” foram exemplos de união numa música que não deixa ninguém indiferente e que levou a plateia (e o balcão) do Cineteatro Alba ao rubro. Veio depois “Nôs Funaná” e a certeza de que isto anda tudo ligado, “Branku ku Prètu, 1 Gerason di Oru”. “Lá Fora” e “Esquinas” tocaram pela força das palavras e “Roda”, “Nova Lisboa” e “Txuputi” voltaram a “sobrevoar” toda a discografia de Dino d’Santiago. Os temas fortes do concerto foram “dedicados a todas as mulheres, que mesmo vivendo num mundo extremamente machista, conseguem ser sempre amor maior”. “Tudo Certo” foi palavra de esperança a fechar o alinhamento e “Mundu Nôbu” preencheu uma parte do “encore”. A outra parte viu a muito jovem Laura Fontoura em palco a cantar o poema “Eu Sei…”, imortalizado na voz de Sara Tavares. “Se eu voar sem saber onde vou / Se eu andar sem conhecer quem sou / Se eu falar e a voz soar com a manhã / Eu sei...”. A viagem prossegue (a luta continua)!