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segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

TEATRO: "Guião Para um País Possível"



TEATRO: “Guião para um País Possível”
Dramaturgia e encenação | Sara Barros Leitão
Interpretação | João Melo, Margarida Carvalho
Desenho de luz | Cárin Geada
Composição musical | Pedro João
Figurinos | Cristina Cunha
Concepção de cenografia | António Quaresma, Susete Rebelo
Produção | Cassandra
Duração 100 minutos | Maiores de 12 Anos
Fábrica das Ideias, Gafanha da Nazaré
20 Jan 2024 | sab | 21:30


“O principal risco para a democracia não está nos autoritários, que serão sempre uma minoria, está naqueles que lhes quiserem dar a mão”. As palavras do deputado do partido Livre, Rui Tavares, durante as cerimónias no Parlamento do 49º aniversário do 25 de Abril, foram as primeiras de muitas que ajudaram a dar forma a este “Guião para um País Possível”. Escrita e encenada por Sara Barros Leitão e interpretada por João Melo e Margarida Carvalho, a peça foi levada à cena na Gafanha da Nazaré, em noite de casa cheia (e com o Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, a assistir na plateia), transformando o bonito e bem cuidado espaço da Fábrica das Ideias na Casa da democracia. Ali recordámos debates e votações, discursos e intervenções, apartes e insinuações, insubordinações e gestos pouco ortodoxos. Ali revisitámos momentos marcantes da vida democrática do nosso país, cruzámos os nossos passos com os de tribunos ilustres, acompanhámos a “dança das cadeiras” e percebemos o impacto que a aprovação das leis pode ter no nosso dia-a-dia em matéria de direitos sociais, laborais e humanos.

O propósito de “Guião para um País Possível” não é o de propor um balanço do que foram os últimos cinquenta anos da nossa democracia, antes ajudar-nos a olhar para o que foi feito – por quem, de que forma, com que fins, a que preço – e pedir que façamos o nosso próprio juízo. Portanto, nada melhor do que mergulharmos no espaço do hemiciclo e, guiados por dois funcionários que têm por missão transcrever tudo o que ali é dito, recordarmos episódios recentes e menos recentes da vida parlamentar. Construída em “flashback”, a peça recupera o abandono do plenário pela bancada do partido de extrema-direita, a votação da declaração do Estado de Emergência graças à COVID-19, os “presentes no sapatinho” de Assunção Cristas e António Costa, a reposição dos feriados e outros direitos sociais pela “geringonça”, um aceso debate entre Pedro Passos Coelho e António Costa, as corrosivas intervenções da deputada Natália Correia ou a despedida emocionada da deputada Odete Santos. Ou ainda, tumultos nas galerias, o cerco ao Parlamento ou a primeira sessão plenária após as eleições livres de 25 de Abril de 1976.

Inteligentemente desenhada, com uma forte componente didática e uma interpretação notável de João Melo e Margarida Carvalho, a peça é um repositório de momentos que muitos saberão reconhecer. Com grande entrega e rigor, os actores vão desenrolando o novelo da História e espalhando “tesourinhos” pela sala, mostrando o quanto a generosidade, a inteligência e a argúcia são fundamentos do combate político, tal como a hipocrisia, a mentira e a falta de escrúpulos. A rábula em que, entre incentivos e apupos, os políticos se “mimam” com os mais variados epítetos – “malcriado”, “é só conversa”, “está a delirar”, “caiu-lhe a máscara”, “trapaceiro”, “fascista é a tua mãe”, “olhe, vá à merda” – resulta numa divertida “peixeirada” que arrancou ao público saborosas gargalhadas. Por outro lado, calou fundo na plateia o discurso do deputado Santinho Pacheco a propósito do chumbo à lei da Eutanásia. Genial, o final traz-nos os ecos de “E Depois do Adeus”, uma das senhas da Revolução, enquanto mostra o princípio do fim do Estado Novo graças a um adereço que se desconjunta. Um “Guião” imperdível, uma bela e sentida homenagem aos cinquenta anos do 25 de Abril!

[Foto: ©Teresa Pacheco Miranda | https://www.cassandra.pt/guiao-para-um-pais-possivel]

sábado, 24 de junho de 2023

TEATRO: "Teoria das Três Idades"



TEATRO: “Teoria das Três Idades”
Criação e interpretação | Sara Barros Leitão
Assistência à criação e produção | Patrícia Gonçalves
Cenografia e figurinos | Catarina Barros
100 Minutos | Maiores de 12 anos
Cineteatro Alba
23 Jun 2023 | sex | 21:30


Figura central na história do teatro português, a mais antiga companhia de teatro profissional do país ainda em atividade, o TEP - Teatro Experimental do Porto celebrou no passado dia 18 de Junho sete décadas de vida. Na mesma data, em 2018, Sara Barros Leitão estreava na Sala do Tribunal do Mosteiro de S. Bento da Vitória este “Teoria das Três Idades”, espectáculo que o jornal Público elegeu como um dos melhores da temporada. Cinco anos volvidos, a actriz reata o diálogo com o passado através da revisitação do seu trabalho, confrontando-se com o que escreveu e criou e avaliando o que era e a forma como pensava. Recortes de jornal, cortes da censura, atas, contratos, fotografias, gravações e programas de espetáculos, relatórios de contas e demais material de arquivo, alcançam um novo protagonismo e o público volta a ser confrontado com histórias e memórias, vidas e sonhos, lutas e conquistas, que traçam a história do TEP, ao mesmo tempo que acompanham a evolução da sociedade portuguesa, entre a repressão e o preconceito, a indignação e o sonho de liberdade.

Os laços de parentesco entre “Teoria das Três Idades” e “Monólogo de uma Mulher Chamada Maria com a sua Patroa”, a anterior criação de Sara Barros Leitão, são evidentes. A mesma paixão pelos documentos que se escondem nos arquivos, a mesma capacidade de articular histórias com a minúcia de quem compõe um puzzle, a imaginação a servir de motor à ficção e a imiscuir-se no real, a forte presença em palco, aquela empatia com o público no apelo às memórias de todos a partir das histórias de cada um. O início da peça é desarmante. Estão ali os fundamentos científicos da catalogação e as boas práticas de conservação de documentos, mas está também a ansiedade de mergulhar nos arquivos e a emoção da descoberta, o todo “embrulhado” num humor fino que se irá estender pela peça adentro. Está em marcha a história do TEP, feita de apoios perdidos, apoios ganhos, casa própria, casa alheia, casa que arde, nova casa, casa que mete água, casa em obras. Uma história de palcos, teatros, auditórios, salas de ensaio, armazéns e a vida toda guardada em caixas. Uma história onde entram Shakespeare, Ionesco, Sófocles e autores contemporâneos. Também romances, choros e a PIDE à porta.

Brilhante contadora de histórias, Sara Barros Leitão vai substituir a “catalogação científica” por uma “catalogação emocional”. A correspondência geral passa a integrar a categoria “sócios indignados”; no lugar da “censura” cria-se a categoria da “clandestinidade das metáforas e das pausas enquanto esperamos pela liberdade”; onde estão as tabelas de ensaio, cartas, documentos, circulares, passam a estar “luta pela profissionalização”, “o que devemos a quem veio antes de nós” ou, muito simplesmente, “sonhos”. Em cada papel há uma centena de possibilidades. Cada papel leva a uma história, que leva a outra história, que leva a outra história ainda. Das “chamadas à tabela” na peça “A Batalha Naval” às sucessivas sessões da Assembleia-Geral Ordinária de 1967, do pedido de demissão da posição de sócio por “falta de regalias” à circular de um encenador que denuncia a presença de pessoas estranhas nos ensaios, da reivindicação dos actores por um dia de descanso semanal ao domingo à censura do actor por falta injustificada ao ensaio, é esmagador aquilo que faz a história da peça, a história do TEP. “A Bem da Nação”, a Comissão [de Censura] aprova a representação da peça, “devendo ser suprimidas as palavras merda e socorro”. Outras vezes a censura reprova. Outras, ainda, reprova aquilo que, “por lapso”, tinha aprovado.

Roga-se que um actor preso pela PIDE possa ser libertado para actuar “no próximo domingo”. Pede-se que Brecht e outros dramaturgos possam ser representados no nosso País, “como já acontece em Espanha e noutros países”. Até que o dia inicial, inteiro e limpo, se impõe. O discurso do 1º de Maio é o momento mais alto da peça. Novas tarefas são impostas ao Teatro Experimental do Porto, no quadro de um Portugal renovado. É urgente um teatro que sirva o povo e, para isso, há que “reestruturar toda a actividade, todas as bases funcionais, criar grupos de trabalho, formar uma companhia ampla e sólida para levar por diante o trabalho que nos está destinado”. A exaltação na voz é evidente. “2 de Maio de 1974. Por motivo de rouquidão do actor não se realizou o espectáculo.” Os momentos finais são tudo menos exaltantes. O TEP vive as dificuldades de sempre, agravadas por um pavoroso incêndio que destruiu a sua casa. A cultura continua a não fazer parte das prioridades governativas e os apoios tardam em concretizar-se. Cai o pano, fecha-se mais um ciclo e há um nó que nos tapa a garganta. Sara Barros Leitão cumpre o importante papel de chamar a atenção para as realidades que, continuamente, asfixiam a cultura. Quem a ouve?

[Foto: TNSJ | https://www.tnsj.pt/]

sexta-feira, 4 de março de 2022

TEATRO: "Monólogo de Uma Mulher Chamada Maria Com a Sua Patroa"



TEATRO: “Monólogo de Uma Mulher Chamada Maria Com a Sua Patroa”
Criação, texto e interpretação | Sara Barros Leitão
Assistência à criação | Susana Madeira
Cenografia e figurino | Nuno Carinhas
Produção | Cassandra
100 Minutos | Maiores de 12 Anos
Teatro Carlos Alberto
02 Mar 2022 | qua | 19:00


“Lavar cortinas. Aspirar atrás dos móveis. Lavar janelas. Limpar. Lavar. Atender telefones. Dar recados. Desenhar refeições equilibradas. Fazer uma bainha. Coser umas meias. Gerir conflitos. Manter a alegria. Tomar conta das crianças. Ajudar nos deveres. Tomar conta dos idosos. Dar banho às crianças. Aos idosos. Ao cão. Passear o cão. Já que vai lá fora leva o lixo. Já que leva o lixo desentope a fossa. Já que desentope a fossa arranja o autoclismo. A-E-I-O-U”.

A história que escutamos não é um policial ou um romance de cordel. Talvez já a conhecêssemos, talvez dela fossemos cúmplices, talvez fossemos protagonistas. Talvez nunca tivéssemos pensado sobre ela ou talvez preferíssemos fechar os olhos. Não é uma história de vilões, embora haja maldade. Também não é uma história de ladrões, embora se fale de roubos. Muito menos é um conto de fadas, ainda que envolva bruxas. Esta é uma história sobre as mulheres “que são como se fossem da família”, uma história que começa a ser contada desde tempos imemoriais e que perdura até aos nossos dias. Escrita e interpretada por Sara Barros Leitão, esta é uma história que nos surpreende pelo que descobrimos em nós e naquilo que se passa à nossa volta. Uma história sob a forma de monólogo. De uma mulher chamada Maria com a sua patroa.

Estreada no CCB há pouco menos de quatro meses, “Monólogo de Uma Mulher Chamada Maria Com a Sua Patroa” chega agora ao Porto, depois de ter passado por várias cidades do país. Baseando-se numa série de entrevistas a trabalhadoras domésticas, historiadoras, sociólogos e sociólogas, dirigentes sindicais e juristas, e na análise de material diverso, dos arquivos do Sindicato do Serviço Doméstico a um conjunto de livros, filmes, teses e artigos, a criadora e intérprete vem resgatar o teatro como modelo de intervenção social e política, carregando-o de verdade com uma fortíssima presença em palco e com o peso das suas palavras, afiadas, cortantes, demolidoras. Ao longo de pouco mais de hora e meia, Sara Barros Leitão assume um conjunto de papéis que têm no “ser mulher” o denominador comum, expondo, reclamando, denunciando e exigindo, em nome da igualdade, do respeito e da justiça. Porque não basta sonhar, é preciso passar à acção.

Com o coração pequenino, vamos escutando as histórias de milhares e milhares de mulheres escravizadas, desrespeitadas e humilhadas, cuja história colectiva continua por contar. “Corte, corte, corte, frieira, queimadura, corte”. As mazelas acumulam-se no corpo, mas também na alma. Insiste-se que “connosco é diferente”, que “elas são como se fossem da família”, rejeitando-se a relação de trabalho e convocando-se a “linguagem dos afectos”, porque ninguém quer assumir que é patrão e que a sua casa constitui um posto de trabalho. Hoje, Portugal é dos países da Europa que mais contrata empregadas domésticas. Um país onde é permitido por lei que estas mulheres trabalhem 44 horas semanais, sem falar no serviço interno. Da mesma forma que é permitido que recebam menos que o salário mínimo, pois a lei prevê que parte do salário possa ser pago em géneros. Vibrante e livre, assim é Sara Barros Leitão e o “monólogo” que tão bem soube escrever e interpretar. Para que a história não fique por contar e a voz das que não têm voz possa ser ouvida.

[Foto: TNSJ | https://www.tnsj.pt/]