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segunda-feira, 29 de junho de 2026

CONCERTO: Raül Refree & Maria Mazzotta



CONCERTO: Raül Refree & Maria Mazzotta
Com | Raül Refree (guitarra flamenca, órgão vintage) e Maria Mazzotta (voz)
Festim - Festival Intermunicipal de Músicas do Mundo
Fábrica das Ideias, Gafanha da Nazaré
26 Jun 2026 | sex | 22:00


A abrir mais um fim de semana do 17.º FESTIM – Festival Intermunicipal de Músicas do Mundo, o concerto de Raül Refree e Maria Mazzotta trouxe à Fábrica das Ideias, na Gafanha da Nazaré, um dos momentos mais aguardados da presente edição. A pouca afluência de espectadores contrastou com a excepcionalidade da proposta, que reuniu duas figuras maiores da música europeia contemporânea: de um lado, Raül Refree, compositor e produtor catalão cuja inquietação criativa o levou a colaborar com nomes como Rosalía ou Sílvia Pérez Cruz; e, do outro, Maria Mazzotta, uma das vozes mais extraordinárias dos cantares da Apúlia e referência incontornável da actual cena da música de raiz tradicional. Unidos em torno de “San Paolo di Galatina”, disco editado em Janeiro deste ano, ambos apresentaram uma leitura profundamente pessoal da tradição musical salentina, cujos repertórios transmitidos oralmente souberam metamorfosear-se sem perderem a sua identidade. A partir de uma linguagem que cruza instrumentos clássicos, música litúrgica e subtis ambientes sonoros, o concerto traçou um percurso onde religião, trabalho, sofrimento e luto se transformaram numa celebração colectiva da memória e da capacidade regeneradora da música.

No centro de tudo esteve Maria Mazzotta. A cantora italiana confirmou possuir uma capacidade interpretativa verdadeiramente única, emprestando a cada um dos temas uma intensidade emocional que ultrapassa largamente qualquer exercício de virtuosismo vocal. Nela, cada palavra parece carregar um significado espiritual profundo, habitando um repertório onde tradição e vivência pessoal se tornam inseparáveis. A emoção tornou-se particularmente evidente em diversos momentos, levando a própria intérprete às lágrimas e arrastando consigo uma sala inteira para um estado de comovida suspensão. Temas como “Moroloja”, “Lunidia Matina”, “Damme nu Ricciu” ou “La Lettera” revelaram essa permanente tensão entre delicadeza e força ancestral, mas foi sobretudo em “I'tela na su po’” que o concerto atingiu um dos seus instantes mais memoráveis. A beleza melódica da composição, aliada à extraordinária entrega de Mazzotta, produziu um daqueles momentos raros em que a música parece suspender o tempo, afirmando-se como uma das mais impressionantes interpretações que este repertório tradicional pode hoje oferecer.

Ao lado dessa voz absolutamente magnética, Raül Refree revelou-se muito mais do que um simples acompanhante. A sua construção instrumental acrescentou sucessivas camadas tímbricas à palavra cantada, envolvendo-a numa arquitectura sonora densa, por vezes quase avassaladora, que reforçou o carácter litúrgico e ritual das composições. Se em determinados momentos essa abundância de texturas poderá ter parecido excessiva, rapidamente se percebeu que é precisamente essa complexidade que confere nova dimensão ao cancioneiro salentino, ampliando-lhe a força expressiva sem jamais apagar a sua essência. O concerto encontrou o seu desfecho natural em “San Paolo di Galatina”, quando Maria Mazzotta convidou o público a acompanhar o refrão - “Na na na, na e ná, na e ná, beddru è l'amore e ci lu sape fa’" - transformando uma audiência inicialmente reservada num coro cúmplice e emocionado. Foi a confirmação de que este projecto não procura apenas revisitar um património musical de enorme riqueza, mas demonstrar como a tradição continua a ser capaz de gerar comunhão, emoção e transformação, sempre que encontra intérpretes da dimensão artística e humana de Maria Mazzotta e Raül Refree.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

TEATRO: "Guião Para um País Possível"



TEATRO: “Guião para um País Possível”
Dramaturgia e encenação | Sara Barros Leitão
Interpretação | João Melo, Margarida Carvalho
Desenho de luz | Cárin Geada
Composição musical | Pedro João
Figurinos | Cristina Cunha
Concepção de cenografia | António Quaresma, Susete Rebelo
Produção | Cassandra
Duração 100 minutos | Maiores de 12 Anos
Fábrica das Ideias, Gafanha da Nazaré
20 Jan 2024 | sab | 21:30


“O principal risco para a democracia não está nos autoritários, que serão sempre uma minoria, está naqueles que lhes quiserem dar a mão”. As palavras do deputado do partido Livre, Rui Tavares, durante as cerimónias no Parlamento do 49º aniversário do 25 de Abril, foram as primeiras de muitas que ajudaram a dar forma a este “Guião para um País Possível”. Escrita e encenada por Sara Barros Leitão e interpretada por João Melo e Margarida Carvalho, a peça foi levada à cena na Gafanha da Nazaré, em noite de casa cheia (e com o Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, a assistir na plateia), transformando o bonito e bem cuidado espaço da Fábrica das Ideias na Casa da democracia. Ali recordámos debates e votações, discursos e intervenções, apartes e insinuações, insubordinações e gestos pouco ortodoxos. Ali revisitámos momentos marcantes da vida democrática do nosso país, cruzámos os nossos passos com os de tribunos ilustres, acompanhámos a “dança das cadeiras” e percebemos o impacto que a aprovação das leis pode ter no nosso dia-a-dia em matéria de direitos sociais, laborais e humanos.

O propósito de “Guião para um País Possível” não é o de propor um balanço do que foram os últimos cinquenta anos da nossa democracia, antes ajudar-nos a olhar para o que foi feito – por quem, de que forma, com que fins, a que preço – e pedir que façamos o nosso próprio juízo. Portanto, nada melhor do que mergulharmos no espaço do hemiciclo e, guiados por dois funcionários que têm por missão transcrever tudo o que ali é dito, recordarmos episódios recentes e menos recentes da vida parlamentar. Construída em “flashback”, a peça recupera o abandono do plenário pela bancada do partido de extrema-direita, a votação da declaração do Estado de Emergência graças à COVID-19, os “presentes no sapatinho” de Assunção Cristas e António Costa, a reposição dos feriados e outros direitos sociais pela “geringonça”, um aceso debate entre Pedro Passos Coelho e António Costa, as corrosivas intervenções da deputada Natália Correia ou a despedida emocionada da deputada Odete Santos. Ou ainda, tumultos nas galerias, o cerco ao Parlamento ou a primeira sessão plenária após as eleições livres de 25 de Abril de 1976.

Inteligentemente desenhada, com uma forte componente didática e uma interpretação notável de João Melo e Margarida Carvalho, a peça é um repositório de momentos que muitos saberão reconhecer. Com grande entrega e rigor, os actores vão desenrolando o novelo da História e espalhando “tesourinhos” pela sala, mostrando o quanto a generosidade, a inteligência e a argúcia são fundamentos do combate político, tal como a hipocrisia, a mentira e a falta de escrúpulos. A rábula em que, entre incentivos e apupos, os políticos se “mimam” com os mais variados epítetos – “malcriado”, “é só conversa”, “está a delirar”, “caiu-lhe a máscara”, “trapaceiro”, “fascista é a tua mãe”, “olhe, vá à merda” – resulta numa divertida “peixeirada” que arrancou ao público saborosas gargalhadas. Por outro lado, calou fundo na plateia o discurso do deputado Santinho Pacheco a propósito do chumbo à lei da Eutanásia. Genial, o final traz-nos os ecos de “E Depois do Adeus”, uma das senhas da Revolução, enquanto mostra o princípio do fim do Estado Novo graças a um adereço que se desconjunta. Um “Guião” imperdível, uma bela e sentida homenagem aos cinquenta anos do 25 de Abril!

[Foto: ©Teresa Pacheco Miranda | https://www.cassandra.pt/guiao-para-um-pais-possivel]