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terça-feira, 7 de julho de 2026

CONCERTO: Maria João, André Mehmari & Carlos Bica



CONCERTO: Maria João, André Mehmari & Carlos Bica
Com | Maria João (voz), André Mehmari (piano) e Carlos Bica (contrabaixo)
Teatro Aveirense
05 Jul 2026 | dom | 18:00


Há concertos que parecem nascer de uma inevitabilidade artística, como se os músicos estivessem destinados a encontrar-se em palco. Foi essa, precisamente, a sensação que percorreu o encontro de André Mehmari com Maria João e Carlos Bica, na tarde do passado domingo, no Teatro Aveirense. Três personalidades absolutamente singulares, dotadas de uma invulgar versatilidade e de um domínio técnico irrepreensível, souberam construir um diálogo musical de cumplicidade única, cada gesto, cada silêncio e cada improvisação assentes numa escuta permanente entre iguais. Mais do que um concerto, assistiu-se a um exercício de criação em tempo real, onde jazz, tradição e improvisação se cruzaram sem fronteiras nem convenções. No centro desse universo criativo esteve, muito claramente, Maria João. A sua presença cénica dominou o espectáculo, não por qualquer protagonismo imposto, mas pela força magnética da sua comunicação. Elástica, poderosa, límpida, capaz de alternar entre o murmúrio intimista e a explosão expressiva, entre o canto, o grito, o sussurro, o riso e a palavra dita, a voz revelou-se, uma vez mais, um instrumento inesgotável. Poucas intérpretes conseguem transformar o palco num espaço de tão absoluta liberdade.

Os três primeiros temas — “Parrots and Lions”, de Maria João e Mário Laginha, “Duplo Falso Par”, de André Mehmari, e “Passarinhadeira”, de Guinga — anunciaram desde logo a identidade estética do projecto. A improvisação surgiu como linguagem comum, sustentada por uma escrita exigente e por uma permanente atenção ao equilíbrio entre os três músicos. André Mehmari impressionou pela elegância do discurso pianístico, alternando momentos de refinada contenção com passagens de arrebatador virtuosismo, enquanto Carlos Bica voltou a demonstrar porque continua a ser um dos grandes contrabaixistas europeus, desenhando linhas melódicas de enorme subtileza e uma pulsação que nunca deixou de respirar. Maria João respondeu a ambos com uma criatividade vocal verdadeiramente desconcertante, explorando sonoridades étnicas, inflexões populares e uma expressividade quase teatral. “Lucky”, composição de Carlos Bica incluída no álbum “11:11”, foi um momento inesquecível. Nela, música, palavra e gesto expandiram-se até aos limites da imaginação, convocando vocalizos de ressonância ancestral, improvisação livre e os célebres versos de Romeu e Julieta - “My only love sprung from my only hate…” - numa construção cénica e musical de rara intensidade, tão inesperada quanto comovente, que ficará certamente como o momento mais memorável do concerto.

O espectáculo prosseguiu numa sucessão de permanentes descobertas, oscilando com absoluta naturalidade entre a intimidade e a exuberância, entre a contenção e o risco. Houve referências subtis aos blues, inesperadas incursões por registos operáticos, episódios de oralidade narrativa e ecos da canção nordestina, sempre integrados num discurso coerente e profundamente livre. A capacidade dos três músicos para transformar cada tema num organismo vivo, em permanente mutação, constituiu uma das maiores virtudes desta apresentação, recusando qualquer previsibilidade e envolvendo o público numa experiência de permanente surpresa. “Para Além do Alentejo” e “Do Sertão ao Mar”, duas belíssimas composições de André Mehmari, enriquecidas por uma leitura calorosa e inspirada do trio, encerraram o alinhamento da melhor forma. A voz ampla, quente e generosa de Maria João voltou a assumir-se como o grande eixo emocional da música, enquanto Carlos Bica confirmava, com um trabalho magistral no contrabaixo, uma capacidade invulgar de sustentar e, simultaneamente, reinventar o discurso do trio. O público respondeu com entusiasmo inteiramente justificado a um concerto que dificilmente se apagará da memória. Pela excelência individual dos seus protagonistas, mas sobretudo pela extraordinária comunhão artística que alcançaram, esta foi uma daquelas raras ocasiões em que a música pareceu acontecer em absoluto estado de graça.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

CONCERTO: Raül Refree & Maria Mazzotta



CONCERTO: Raül Refree & Maria Mazzotta
Com | Raül Refree (guitarra flamenca, órgão vintage) e Maria Mazzotta (voz)
Festim - Festival Intermunicipal de Músicas do Mundo
Fábrica das Ideias, Gafanha da Nazaré
26 Jun 2026 | sex | 22:00


A abrir mais um fim de semana do 17.º FESTIM – Festival Intermunicipal de Músicas do Mundo, o concerto de Raül Refree e Maria Mazzotta trouxe à Fábrica das Ideias, na Gafanha da Nazaré, um dos momentos mais aguardados da presente edição. A pouca afluência de espectadores contrastou com a excepcionalidade da proposta, que reuniu duas figuras maiores da música europeia contemporânea: de um lado, Raül Refree, compositor e produtor catalão cuja inquietação criativa o levou a colaborar com nomes como Rosalía ou Sílvia Pérez Cruz; e, do outro, Maria Mazzotta, uma das vozes mais extraordinárias dos cantares da Apúlia e referência incontornável da actual cena da música de raiz tradicional. Unidos em torno de “San Paolo di Galatina”, disco editado em Janeiro deste ano, ambos apresentaram uma leitura profundamente pessoal da tradição musical salentina, cujos repertórios transmitidos oralmente souberam metamorfosear-se sem perderem a sua identidade. A partir de uma linguagem que cruza instrumentos clássicos, música litúrgica e subtis ambientes sonoros, o concerto traçou um percurso onde religião, trabalho, sofrimento e luto se transformaram numa celebração colectiva da memória e da capacidade regeneradora da música.

No centro de tudo esteve Maria Mazzotta. A cantora italiana confirmou possuir uma capacidade interpretativa verdadeiramente única, emprestando a cada um dos temas uma intensidade emocional que ultrapassa largamente qualquer exercício de virtuosismo vocal. Nela, cada palavra parece carregar um significado espiritual profundo, habitando um repertório onde tradição e vivência pessoal se tornam inseparáveis. A emoção tornou-se particularmente evidente em diversos momentos, levando a própria intérprete às lágrimas e arrastando consigo uma sala inteira para um estado de comovida suspensão. Temas como “Moroloja”, “Lunidia Matina”, “Damme nu Ricciu” ou “La Lettera” revelaram essa permanente tensão entre delicadeza e força ancestral, mas foi sobretudo em “I'tela na su po’” que o concerto atingiu um dos seus instantes mais memoráveis. A beleza melódica da composição, aliada à extraordinária entrega de Mazzotta, produziu um daqueles momentos raros em que a música parece suspender o tempo, afirmando-se como uma das mais impressionantes interpretações que este repertório tradicional pode hoje oferecer.

Ao lado dessa voz absolutamente magnética, Raül Refree revelou-se muito mais do que um simples acompanhante. A sua construção instrumental acrescentou sucessivas camadas tímbricas à palavra cantada, envolvendo-a numa arquitectura sonora densa, por vezes quase avassaladora, que reforçou o carácter litúrgico e ritual das composições. Se em determinados momentos essa abundância de texturas poderá ter parecido excessiva, rapidamente se percebeu que é precisamente essa complexidade que confere nova dimensão ao cancioneiro salentino, ampliando-lhe a força expressiva sem jamais apagar a sua essência. O concerto encontrou o seu desfecho natural em “San Paolo di Galatina”, quando Maria Mazzotta convidou o público a acompanhar o refrão - “Na na na, na e ná, na e ná, beddru è l'amore e ci lu sape fa’" - transformando uma audiência inicialmente reservada num coro cúmplice e emocionado. Foi a confirmação de que este projecto não procura apenas revisitar um património musical de enorme riqueza, mas demonstrar como a tradição continua a ser capaz de gerar comunhão, emoção e transformação, sempre que encontra intérpretes da dimensão artística e humana de Maria Mazzotta e Raül Refree.

domingo, 10 de maio de 2026

CONCERTO: Adam Ben Ezra Duo



CONCERTO: Adam Ben Ezra Duo
Com | Adam Ben Ezra (contrabaixo, piano, flauta transversal), Michael Olivera (bateria e percussões)
Convidado | João Barreto (piano)
Campus Jazz 2026 - Festival de Jazz da Universidade de Aveiro
Ciclo Tons Inteiros
Cineteatro Alba
08 Mai 2026 | sex | 21:30


O Campus Jazz está de regresso, disposto a reafirmar a crescente centralidade da região de Aveiro no circuito nacional do jazz. Mais do que um simples cartaz de concertos, o festival consolida-se como um verdadeiro dispositivo cultural e pedagógico, articulando espectáculos, masterclasses, workshops, exposições, jam sessions e concursos internacionais, numa programação que atravessa a cidade de Aveiro e se estende a alguns dos municípios vizinhos. Enquanto entidade organizadora, a Universidade de Aveiro demonstra uma visão cultural ambiciosa, capaz de pensar o jazz não apenas como património musical, mas como linguagem contemporânea em permanente mutação. O alinhamento desta edição - onde surgem nomes como Gilad Hekselman, Amaro Freitas, Rita Payés e Adam Ben Ezra - confirma essa amplitude de horizontes. Integrado no ciclo Tons Inteiros, o concerto no Cineteatro Alba surgia, por isso, como um dos momentos mais aguardados da programação. O duo formado por Adam Ben Ezra e o baterista cubano Michael Olivera apresentava-se ancorado no recente álbum “Heavy Drops”, trabalho que prolonga a exploração tímbrica e rítmica que o músico israelita vem desenvolvendo há mais de uma década em torno do contrabaixo, instrumento que transformou numa espécie de centro gravitacional de múltiplas linguagens musicais.

Desde os primeiros minutos percebeu-se que o concerto assentaria numa lógica de acumulação rítmica e textural, mais do que numa construção narrativa propriamente jazzística. Temas como “Heavy Drops”, “Escape Route”, “Free Fly” ou “Taming the Bull” revelaram um Adam Ben Ezra tecnicamente irrepreensível, senhor de um domínio absoluto sobre o contrabaixo, explorando-o simultaneamente como instrumento melódico, percussivo e harmónico. O problema residiu menos na execução - invariavelmente impressionante - do que na relativa previsibilidade estrutural de vários momentos do alinhamento. A insistência em células rítmicas repetitivas, sustentadas por loops electrónicos e por uma bateria frequentemente mais física do que subtil, acabou por produzir uma sensação de redundância sonora que retirou algum impacto ao concerto. Michael Olivera mostrou enorme competência técnica e um sentido rítmico musculado, mas raramente o diálogo com o contrabaixo de Ben Ezra alcançou o risco e a imprevisibilidade que o jazz, enquanto linguagem aberta, habitualmente reclama. Pelo contrário, muitos dos temas aproximaram-se de uma estética híbrida onde o funk, certas inflexões mediterrânicas e até uma discreta matriz klezmer se sobrepuseram claramente ao vocabulário jazzístico.

O momento mais forte da noite surgiu quando o concerto abandonou parte do aparato electrónico e regressou a uma linguagem mais despojada e acústica. A homenagem ao centenário de Miles Davis e John Coltrane, integrada na programação do próprio Campus Jazz 2026, ofereceu ao público uma interpretação particularmente conseguida de “So What”, contando com a participação do jovem pianista e compositor aveirense João Barreto. Foi nesse instante que o concerto encontrou um verdadeiro espaço de respiração, escuta e tensão criativa. Sem necessidade de artifícios cénicos ou sobreposição redundante de camadas electrónicas, os músicos revelaram uma outra profundidade interpretativa, assente na subtileza dinâmica, na economia do gesto e na capacidade de construir silêncio e expectativa. Apesar do virtuosismo evidente de Adam Ben Ezra e da energia contagiante de Michael Olivera, o concerto oscilou demasiadas vezes entre a exibição instrumental e uma estética de fusão que, não sendo desinteressante, pareceu por momentos excessivamente formatada. O público reconheceu o mérito dos músicos com aplausos cordiais, embora sem o entusiasmo necessário para forçar um encore que parecia esperado.

[Foto: © Diego Garcia | https://www.cm-albergaria.pt/evento-46/adam-ben-ezra-duo]

segunda-feira, 23 de março de 2026

CONCERTO: Chico César - Aos Vivos



CONCERTO: Chico César - Aos Vivos
Cine Teatro de Estarreja
21 Mar 2026 | sab | 21:30


No quase desfecho de uma digressão intensa pelo nosso País, o concerto de Chico César trouxe ao Cine Teatro de Estarreja a nostalgia dos momentos inaugurais, a beleza do reencontro e o fulgor da celebração. Trinta anos depois de “Aos Vivos”, o gesto feito de voz e violão, despojamento radical e risco absoluto, reapareceu não como memória, mas como presença. Em palco, Chico César não representou um passado, antes reabitou-o com a mesma entrega do primeiro instante, como se o tempo não tivesse passado mas apenas aprofundado a escuta. E o público, cúmplice, mostrou saber estar não apenas perante um alinhamento de canções, mas a assistir a um exercício de permanência quase ritual. Num exercício à capella,“Beradêro” abriu o concerto como uma ponte suspensa entre tempos, chamando não só o sertão mas também uma formidável plateia portuguesa e brasileira, já íntima, já pertencente e inscrita nesse território simbólico. A nudez do formato devolveu às palavras o seu peso original e ao silêncio a sua função esquecida, criando uma tensão subtil entre o dito e o sugerido. Nada sobrou, nada faltou. E nessa economia residiu uma força rara, difícil de alcançar, que fez de cada som e cada fala um instante único e necessário.

Erguendo bem alto a bandeira da celebração, Estarreja apresentou-se como território de depuração. Ao longo de quase duas horas, as canções respiraram menos urgentes - à excepção de “Pedrada” e desse grito “fogo nos fascistas”, a fechar a noite - e mais densas, como se cada verso carregasse a poeira de todos os palcos anteriores e a memória de todas as vozes que as cantaram. “Mama África” irrompeu ainda com a sua energia incontornável, mas trouxe consigo uma gravidade nova, iminentemente política, ecoando um mundo que, como o próprio artista tem lembrado, permanece ferido e desigual, atravessado por fracturas que a música não resolve, mas ilumina. Já “À Primeira Vista” desenhou-se com uma delicadeza quase táctil, sem pressas, como se o tempo tivesse aprendido a escutar e a respirar com o público. Entre estas âncoras mais reconhecíveis, houve espaço para o murmúrio íntimo de “Saharienne” ou para a sabedoria terna de “Mulher Eu Sei”, revisitadas como organismos vivos, capazes de se adaptarem ao presente sem perderem a sua raiz profunda. Pelo meio, as histórias, contadas com humor e precisão, foram tecendo uma narrativa paralela, aproximando distâncias e humanizando o gesto artístico.

Mas talvez o mais notável tenha sido essa qualidade de sussurro que atravessou toda a noite, como uma linha invisível a unir palco e plateia. Num tempo saturado de ruído e artifício, o concerto em Estarreja soou, de facto, como um acto de resistência - ou, mais precisamente, de humanidade consciente de si mesma. Chico César cantou como quem conversa, como quem partilha inquietações sem necessidade de as amplificar, confiando na escuta do outro e na força intrínseca da palavra dita com verdade. Tudo naquele serão se vestiu de política, no sentido mais amplo e mais necessário do termo: a escolha de permanecer simples, de insistir na palavra, de convocar afectos como forma de resposta a um mundo crispado e fragmentado. Longe de ser mero espectador, o público tornou-se a extensão desse gesto, cantando, batendo palmas, fazendo coro com o músico e preenchendo os interstícios com uma atenção rara, quase devocional. No final, mais do que a estrondosa apoteose, houve algo talvez mais duradouro e difícil de nomear: a sensação de que aquelas canções, nascidas há três décadas, continuam a atravessar gerações e geografias e a dizer o essencial. E que, apesar dos pesares, seguimos vivos. Ao vivo.

domingo, 22 de março de 2026

CONCERTO: Rabih Abou-Khalil



CONCERTO: Rabih Abou-Khalil
Com | Rabih Abou-Khalil (oud), Mateusz Smoczynski (violino), Krzysztof Lenczowski (violoncelo), Jarrod Cagwin (bateria e percussões)
Auditório de Espinho - Academia
20 Mar 2026 | sex | 21:30


A música de Rabih Abou-Khalil impõe-se nos dias de hoje como um dos mais lúcidos exercícios de superação de fronteiras, não apenas estéticas, mas também sociais, culturais, políticas e até religiosas. Nascido no caldo cosmopolita de Beirute e formado entre tradições aparentemente inconciliáveis, o músico construiu ao longo de décadas uma linguagem singular que recusa compartimentos estanques. O seu oud não se limita a ecoar heranças árabes, antes dialoga com o jazz, com a música erudita europeia e com uma ideia profundamente contemporânea de circulação cultural. Percebe-se nesse gesto a recusa explícita do exotismo fácil e da apropriação superficial, substituídos por um encontro de géneros em plano de igualdade, no qual cada frase sonora se expõe e se transforma. Ao escutá-lo, percebemos que a sua música não pretende cruzar geografias, antes dissolvê-las, criando um território outro onde identidade e alteridade coexistem sem hierarquias. Longe de qualquer discurso panfletário, esse desígnio concretiza-se numa escrita rítmica e melódica de grande complexidade, que soa simultaneamente estranha e familiar, desafiando o ouvinte a abandonar certezas e a habitar um espaço de escuta verdadeiramente plural.

Foi com o fito nesse horizonte que Rabih Abou-Khalil se apresentou no Auditório de Espinho, numa noite que viria a encerrar da melhor forma o primeiro trimestre de uma sala cuja programação prima, com notável consistência, pela qualidade e ecletismo. Perante um público que esgotou o espaço e reagiu com entusiasmo às propostas que preencheram o alinhamento, a mestria de Rabih Abou-Khalil revelou-se desde os primeiros instantes como eixo agregador de um quarteto em estado de graça, ao mesmo tempo que o músico mostrou sentir-se em casa, fazendo questão de se exprimir em português num registo próximo e bem-humorado. Nas suas palavras, os temas foram-se alinhando entre espiões americanos e gastronomia finlandesa, dois polacos pelo preço de um, a trabalheira que dá encontrar uma mulher, a dificuldade de explicar o que não tem explicação ou os sonhos de uma cidade a morrer, construindo uma narrativa paralela que ampliou a escuta. O violinista Mateusz Smoczynski acrescentou um lirismo incisivo, capaz de oscilar entre a delicadeza camerística e a energia improvisada, enquanto o violoncelista Krzysztof Lenczowski ancorou o discurso numa densidade tímbrica de grande subtileza. Já Jarrod Cagwin, na bateria e percussões, edificou uma arquitectura rítmica simultaneamente precisa e orgânica, sustentando e desafiando o colectivo.

Mais do que um simples concerto, o que se viveu na noite da passada sexta-feira em Espinho foi uma experiência de imersão total, os diálogos entre os instrumentos a abrirem possibilidades sonoras quase inesgotáveis e a manterem o público num estado de atenção vibrante, respondendo com entusiasmo a cada inflexão. O oud de Rabih Abou-Khalil teve tanto de narração como de provocação, lançando motivos que o violino e o violoncelo souberam expandir ou contrariar, ao mesmo tempo que a percussão redesenhava o chão rítmico. Houve momentos de rara contenção, em que o silêncio pareceu tão expressivo quanto as notas, seguidos de explosões de energia contagiante, plenos de clareza e intencionalidade. Em constante mutação, essa dinâmica consolidou uma relação de cumplicidade entre o palco e a plateia, com o humor das histórias e a densidade da música a entrelaçarem-se de forma natural. No final, restou a sensação de termos podido assistir a um acontecimento pleno e irrepetível, onde o virtuosismo, a escuta mútua e a imaginação convergiram num equilíbrio quase milagroso, confirmando não apenas a singularidade do músico libanês, mas também a relevância de um espaço que continua a afirmar-se como lugar privilegiado para experiências artísticas do mais vasto espectro.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

CONCERTO: Elida Almeida



CONCERTO: Elida Almeida
Com | Jerry Bidan (guitarra), Mayo (baixo), Kalu Ferreira (teclados), Kau Paris (bateria)
Kriol Jazz Festival 2025
Centro de Artes de Águeda
29 Mar 2025 | sab | 21:00


Regressemos atrás no tempo e fixemo-nos em 2008. Na cidade da Praia germinava a ideia de fazer um festival de Jazz em Cabo Verde, um evento que representasse uma certa crioulidade, acentuando as sonoridades africanas. Rosto maior da iniciativa, o produtor Djo da Silva dava forma à expressão de uma vontade que residia nos cabo-verdianos: a de outros palcos, outras músicas, mais artistas e novas experiências. A edição inaugural do Kriol Jazz Festival teve lugar no ano seguinte e juntou nomes como Tcheka, Ba Cissoko, Regis Gizavo ou Mário Lucio. Entretanto, o Festival cresceu e consolidou-se, vendo passar pelos seus palcos figuras maiores do jazz e da música de expressão africana, de Hermeto Pascoal a Mayra Andrade, de Os Tubarões a Dee Dee Bridgewater. Agora que treze edições são cumpridas e se anuncia, dentro de poucos dias, uma nova jornada de celebração da música de inspiração crioula, o Kriol Jazz Festival arrisca um novo salto, assentando arraiais pela primeira vez além fronteiras. A cidade de Águeda foi o local escolhido e o momento inaugural teve lugar na noite de sábado, com a cantora cabo-verdiana Elida Almeida.

Perante uma plateia repleta de um público entusiasta - entre os quais se encontrava o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde, Augusto Veiga -, Elida Almeida cantou e encantou, graças à sua simpatia e energia, a uma extraordinária capacidade vocal e à forte presença em palco, estabelecendo pontes com o público de forma natural e convidando os presentes a bailar ao ritmo da tabanka, do batuco, da morna ou do funaná. “Dexam kontabu nha lamentu / ki ta fikau na pensamentu / mi tambi djam sunha tamanhu / dizatinadu sem tadju”. Os primeiros acordes fazem-se ouvir, as primeiras palavras fazem-se sentir. Num crioulo cerrado, “Mulata” é toda uma carta de intenções, num concerto pensado de e para as mulheres. A canção fala da vida fechada e pobre das mulheres da ilha, mas exalta a coragem de uma delas, Cesária Évora, bandeira de todo um povo. As dificuldades das meninas que se levantam cedo, com o cantar do galo, para poderem ir à escola é o tema de “Kaminhu Lonji”, o seu significado e simbolismo a tomar conta da sala, ao fio e à medida de uma batida intensa de ritmo e de energia e de uma voz quente e harmoniosa. “Sai Bu Bai” fala do fim de uma relação, “Nhu Santiago” é um hino de amor à ilha onde nasceu e “Mudjei” é o grito de resistência que a todas une.

Entre “uma aula gratuita de crioulo”, uma provocação ao presidente do Município de Águeda e a alegria de ver a plateia toda a cantar, Elida Almeida mostra uma energia inesgotável, saltando no palco, puxando pela voz e fazendo um constante apelo à participação do público. Este responde na mesma moeda, sobretudo os muitos cabo-verdianos que pontificam na sala, filhos e netos na diáspora, gargantas ao rubro, letras na ponta da língua, canções entoadas a uma só voz. A segunda metade do concerto segue o mesmo tom, afirmando a história da mulher que foi, um dia, a menina que se alimentava de canções quando não havia nada para comer. É Cabo Verde que a inspira e através da qual canta a emancipação da mulher. “Mo Ki Nta Fazi” denuncia as desigualdades sociais, “Dipalbesa” é despedida, “Lebam Ku Bo” é ambição de uma vida melhor e “Domingo Denxo” diz que abençoado seja o descanso. “Bersu d’Oro” fechou da melhor forma o alinhamento do concerto, com todo a sala levantada das cadeiras, a dançar e a fazer a festa. Num muito reclamado encore, a cantora trouxe consigo o primeiro êxito da sua carreira, “N Ta Consigui”, e “Mudjei” foi tema repetido a fechar a noite em ambiente de verdadeira apoteose. Grande começo de um grande festival.

domingo, 3 de novembro de 2024

CONCERTO: Carta Branca a Selma Uamusse



CONCERTO: Carta Branca a Selma Uamusse
Com | Orquestra Geração, Augusto Macedo, Gonçalo Santuns, Nataniel Melo, Nilton Gulli, Active Mess, Ola Mekelburgh, Bárbara Wahnon, Nayr Faquirá, Yery Varela, Yeni Varela, A garota não
Centro Cultural de Belém - Grande Auditório
01 Nov 2024 | sex | 20:00


O Centro Cultural de Belém voltou a preencher o espaço do Grande Auditório com a música, a energia e os ritmos de África. A celebrar uma década de carreira artística, Selma Uamusse aceitou o desafio da criação de um novo, inédito e único espectáculo ao vivo, trazendo para o palco um conjunto alargado de temas dos seus dois álbuns a solo, “Mati” e “Liwoningo”. Mulher, mãe de quatro pequenas mulheres, neta e filha de duas grandes mulheres, Selma Uamusse vincou o lugar da feminilidade nesta carta aberta, celebrando a mulher que é, as mulheres que a geraram, as que admira e as que a inspiram. Foi com elas que subiu ao palco, fazendo das quase duas horas de concerto um tempo de escrita de uma carta a muitas mãos, elegante, jovial, generosa e talentosa. Com elas e com os jovens da singular Orquestra Geração, um projecto social que se foca na inserção social e na capacitação de crianças e jovens, cúmplices na escrita desta carta aberta ao futuro, que deixou de ser branca, mas antes uma paleta de cores, talentos e dons.

Teve o cheiro da liberdade, esta Carta Branca. Numa folha em branco, carregada de sonhos e vontades, Selma Uamusse quis pôs cor e gente, sorrisos e alegria, mas também espaço para respirar, escutar, quiçá chorar. Espaço para as histórias e as memórias, espaço para celebrar o presente, mas também para ter prazer na espera e na esperança do futuro, convicta de que o melhor está ainda por chegar. Daí que não pudesse faltar, nesta noite memorável, a dona de uma voz de maior relevância no panorama actual musical e no que diz respeito à dignidade, ao cuidado com as palavras e ao outro: A garota não. “Cidadania”, uma canção escrita para Selma Uamusse e cantada pelas duas artistas, foi mais um grito contra as injustiças e dores dos que não nascem num seio privilegiado. Convidado a embarcar numa viagem disposta a abraçar novos rumos, visões, canções e acções, o público não se fez rogado. Cantou, pulou, dançou a marrabenta, ensaiou passos tímidos na língua Bantu e, numa sequência de momentos alegres e prazerosos, foi feliz.

Nos 50 anos de democracia em Portugal e, em breve, de 50 anos de independência de Moçambique, esta foi uma carta que celebrou os movimentos de libertação dos países africanos de expressão portuguesa, pintando com as cores de todos eles um novo quadro que não esquece o passado, mas celebra as possibilidades do futuro através da arte, através da música. Sem medo de olhar para trás, Selma Uamusse fez desta carta branca uma carta de amor e comunhão, chamando ao palco o pouco conhecido património cultural moçambicano, as suas línguas, instrumentos tradicionais, ritmos e polifonias, em temas como “Hoyo Hoyo” ou “Hossi Anga”, “Amatuetwetwe” ou “Ngono Utana Vuna Kudima”. Carregadas de paixão, fé e esperança, com a música vieram palavras de paz, palavras de ordem, palavras de amor e de dor, clamores, louvores. Moçambique e Portugal unidos, olhos nos olhos, com o mesmo pulsar no coração através da música, e em palco, celebrando as suas diferentes identidades. Khanimambo, Selma Uamusse.

domingo, 27 de outubro de 2024

CONCERTO: João Bosco & Jaques Morelembaum Duo



CONCERTO: João Bosco & Jaques Morelembaum Duo
Auditório de Espinho - Academia
25 Out 2024 | sex | 21:30


Corria o ano de 1972 quando o músico Sérgio Ricardo, um nome fortemente ligado a movimentos culturais como a Bossa Nova ou o Cinema Novo Brasileiro, sugeriu a “O Pasquim” o projecto “Disco de Bolso”. Mensalmente, o semanário ofereceria aos seus leitores um 45 rotações com duas músicas inéditas. O lado A seria dedicado a um artista renomado, enquanto o lado B lançaria um artista-revelação. O primeiro número chegou às bancas e teve, de um lado, Tom Jobim e “Águas de Março”, considerada “a melhor canção brasileira de todos os tempos”. Do outro lado, um desconhecido chamado João Bosco cantava a sua primeira parceria com Aldir Blanc: “Agnus Sei”. “Eu considero que as ‘águas de Março’ foram as minhas águas de baptismo”, recorda João Bosco, na pausa entre dois temas do concerto que esgotou, na noite de sexta feira, o Auditório de Espinho. Um concerto que foi como o folhear de um álbum de recordações, terno e nostálgico, abraçando uma carreira de mais de cinquenta anos e estendendo esse abraço a tantos e tão queridos amigos, de Aldir Blanc a António Carlos Jobim, passando por Ary Barroso, Moacir Santos, Dorival Caymii, Milton “Bituca” Nascimento ou Chico Buarque de Hollanda.

Dentro do abraço, com um calor especial, esteve Jaques Morelembaum, o músico que subiu ao palco na companhia de João Bosco neste que foi o último concerto de uma breve digressão que levou o duo, no espaço de duas semanas e meia, a oito países da Europa. São duas figuras com uma importância incomensurável na música brasileira e mostraram-no em Espinho, fazendo do tempo do concerto um tempo de celebração da MPB e de homenagem aos seus grandes mestres. A proposta dos músicos teve este lado festivo, começando com “SobreTom”, um tema instrumental dedicado a António Carlos Jobim e baseado no álbum de estreia do compositor no mercado fonográfico americano, em 1963, com “The Composer of Desafinado, Plays”. Houve, porém, a preocupação de integrar no alinhamento um conjunto significativo de temas da dupla Aldir Blanc / João Bosco e cujo carga política as tornou num símbolo da resistência à Ditadura Militar. São disso exemplo “Caça à Raposa”, “De Frente Pró Crime” e o incontornável “O Bêbado e a Equilibrista”, canção imortalizada pela voz de Elis Regina e cuja letra denuncia a censura, a prisão, a tortura e o exílio político. Uma muito subtil e oportuna chamada de atenção para os riscos que a democracia corre nos tempos de hoje e que não terá passado despercebida ao público de Espinho.

Foi com enorme facilidade que João Bosco e Jaques Morelembaum conquistaram o público, sobretudo a partir de “Nação”, os ritmos do samba a espalharem-se pela plateia, intensos e livres, pondo toda a gente a mexer. Na mesma linha, temas como “Milagre”, do próprio Dorival Caymii, “Maracatu, Nação do Amor (April Child)”, de Moacir Santos, “Isto É Meu Brasil”, de Ary Barroso ou “Incompatibilidade de Gênios”, do próprio João Bosco, fizeram as delícias dos presentes. Entre os muito intimistas “Sinhá”, de Chico Buarque, e Desenho de Giz”, de João Bosco, tempo ainda para “Boca Cheia de Frutas”, o mais recente trabalho discográfico de João Bosco, “metáfora de futuro auspicioso, vindo não por acaso em língua indígena, num momento em que fica cada vez mais evidente que é dos povos originários que virá o adiamento do fim do mundo.” Dele escutámos “O Canto da Terra Por Um Fio”, escrito em parceria com o filho do cantor, Francisco Bosco, e também o tema que dá nome ao álbum e que nos traz sons de crianças, de pássaros, do canto yanomami: “waruku waruku waruku këëi moramakī waruku waruku waruku këëi” (“boca cheia, boca cheia, boca cheia, boca cheia de frutas, boca cheia, boca cheia”). Bocas e corações cheios de emoção e alegria, num concerto que garante um lugar especial nas nossas mais belas memórias.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

CONCERTO: Avi Avital & Omer Klein



CONCERTO: Avi Avital & Omer Klein
FIME - 50º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
07 Jul 2024 | dom | 18:00


A programação desta edição “redonda” do Festival Internacional de Música de Espinho tem dedicado particular atenção aos espaços subversivos e transformadores onde a música erudita, o jazz e a pop global se misturam e confundem. São espaços de criação em liberdade, nos quais se evidenciam o virtuosismo dos músicos e as suas enormes qualidades de improvisadores, a par com esse desejo de “escavar” as peças clássicas, de lhes "sugar o tutano" e ir além do que é dado por adquirido. Foi assim com a recombinação das "Quatro Estações" de Vivaldi", por Max Richter, trazida por Daniel Rowland e a Camerata OCE, com a revisitação da obra de Mahler por Uri Caine e o FIMEnsemble ou com o abraço a Chopin e a Mozart pelo genial Paquito d’Rivera (isto para falar apenas dos concertos aos quais assisti nesta edição do Festival). Voltou a ser assim com este dupla improvável que juntou o bandolinista Avi Avital e o pianista Omer Klein, e que “ousou” oferecer uma releitura inovadora e livre de obras de Johann Sebastian Bach.

Primeiro solista de bandolim a ser indicado para um Grammy clássico, Avi Avital foi comparado a Andres Segovia pela excelência do seu instrumento e a Jascha Heifitz pelo seu virtuosismo. Apaixonado e “explosivamente carismático” (New York Times) na performance ao vivo, ele é a força motriz que preside actualmente à consolidação do repertório de bandolim. Nascido em Be'er Sheva, no sul de Israel, Avital começou a praticar bandolim aos oito anos de idade “por influência dos seus vizinhos” e logo se juntou à florescente orquestra jovem de bandolins fundada e dirigida pelo violinista russo Simcha Nathanson. Estudou na Academia de Música de Jerusalém e no Conservatório Cesare Pollini em Pádua com Ugo Orlandi, sendo por estes tempos que travou conhecimento com Omer Klein e com a sua forma original de abordar a música, “empurrando os principais conceitos do Jazz para o futuro”. Se, para Avital, o horror estava em falhar uma nota, Klein via na pauta uma imensidão de oportunidades para “falhar”, ou seja, “para fazer diferente”. Estava aberto um caminho de comunhão de ideias e interesses que não mais cessou de dar frutos.

Aquilo que o público pode perceber na tarde do passado domingo foi o quanto o virtuosismo e a imaginação barrocos e contemporâneos podem iluminar um recital sem barreiras geográficas e estilísticas. Alinhando o programa com um conjunto de peças maioritariamente de sua autoria, Avi Avital e Omer Klein convidaram a uma viagem em que as sonoridades das músicas tradicionais e populares da Ásia Ocidental e do norte de África se cruzaram com as músicas escritas da Europa Central. Com um tom marcadamente jazzístico, “Niggun” resgatou-nos dos ambientes de “souks” e bazares impostos por “Zanzama”, o tema inicial do concerto. Num contínuo expressivo e de permanente surpresa, “Après un Rêve” foi uma incursão no universo idílico de Fauré e “Avi’s Song” levou-nos até uma Jerusalém em festa. A “Partita nº2, em Ré menor, BWV 1004”, de Johann Sebastian Bach, foi tocada na íntegra por Avi Avital, mas viu os seus andamentos intervalados por peças exclusivas de Omer Klein, fruto da sua extraordinária capacidade de improvisação. Foi o momento alto do concerto, aquele que mais desafiou os espectadores através da abertura de novos horizontes sobre a música do compositor mais influente de sempre. “Espagna” e “Yemen”, temas de Omer Klein, fizeram do “encore” um tempo de júbilo, fechando da melhor forma um concerto inolvidável.

domingo, 7 de julho de 2024

CONCERTO: Sissoko Segal Parisien Peirani



CONCERTO: Sissoko Segal Parisien Peirani
FIME – 50º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
05 Jul 2024 | sex | 21:30


Entrados na segunda metade do FIME - 50º Festival Internacional de Música de Espinho, o fim de semana não poderia ter tido um melhor começo. No palco da Academia, quatro músicos “perdidos” encontraram-se para tocarem músicas que são, ao mesmo tempo, reflexo de proximidade e de distância. Com a kora de Ballaké Sissoko, o violoncelo de Vincent Segal, o acordeão de Vincent Peirani e o saxofone de Émile Parisien, o grupo subiu ao palco com a proposta de uma viagem musical tão vasta quanto surpreendente, fazendo transitar o público entre a Europa e o Oriente, a África e a América Latina. Uma viagem épica à qual os presentes aderiram de forma incondicional, navegando por mares da tradição erudita e popular, pintados das cores e influências que cada músico quis acrescentar da sua própria experiência. Unidos pela espontaneidade e pela improvisação, o jazz e a cumbia, os blues e o tango, mostraram-se breves e livres, elevando a qualidade e capacidades de quatro músicos de excelência que têm no ouvido o instrumento rei e cujo virtuosismo se exprime, antes de mais, através da sua cumplicidade.

Começando pelo violoncelista Vincent Segal, vale a pena referir que é um daqueles músicos versáteis que tanto encontramos num álbum de Sting ou de Cesária Évora, como na banda sonora de um filme ou num tema para um espectáculo de dança. A sua mais importante colaboração, contudo, é aquela que o liga ao mestre da kora, o maliano Ballaké Sissoko, numa sedutora fusão neoclássica das tradições de África e da Europa. Por outro lado, há o saxofonista soprano francês Émile Parisien e o virtuoso do acordeão Vincent Peirani, maravilhosamente expressivos, que há muito tempo embarcam juntos em longas digressões e revelam uma empatia mútua altamente desenvolvida que os torna ágeis e auto-suficientes. Juntar as duas duplas resulta num verdadeiro acontecimento, nem jazz nem tradição, nem clássico nem vanguardista, mas um pouco de tudo isso, fundando um território poético autónomo onde o simples mas poderoso desejo de se ouvirem uns aos outros resulta no nascimento de uma singular canção a oito mãos.

A verdadeira magia é, como facilmente se percebe, do foro do colectivo. Ambos os duos atingem uma rara intimidade criativa, aquela sensação de dois instrumentos a entrelaçar-se, como se governados por uma mente musical. Em grande medida, isto é devido a um rigoroso equilíbrio entre virtuosismo e contenção. Cada um dos músicos é mestre em conter-se e em deixar a música fluir. Olhando o alinhamento do concerto, “Ta Nyé”, o tema de abertura, revelou-se uma peça reflexiva fundada na tradição, marcada por lufadas de kora verdadeiramente refrescantes. “Izao”, que Peirani escreveu para o seu filho, mostrou um toque de música dos Balcãs. “Orient Express” homenageou o malogrado músico austríaco Joe Zawinul, recriando uma das suas músicas mais icónicas, mesmo não tendo por perto uma bateria. E houve ainda “Esperanza”, a fechar o alinhamento como se de uma cumbia colombiana embriagada se tratasse. No encore, “Amenhotep” trouxe-nos o único tema essencialmente jazzístico do concerto e foi a cereja no topo do bolo. Grande noite esta, tal como a de outros franceses, lá longe em Hamburgo, felizes nos penaltis de um Europeu de Futebol.

sábado, 20 de abril de 2024

CONCERTO: Abe Rábade



CONCERTO: Abe Rábade
Ovar em Jazz 2024
Centro de Arte de Ovar
19 Abr 2024 | sex | 21:30


A preencher a terceira noite do Ovar em Jazz, Abe Rábade trouxe ao Centro de Artes os sons da Galiza. Entre a magia de uma música de raiz celta e a versatilidade e originalidade que caracterizam o próprio Jazz, o músico e a sua banda abriram clareiras por entre as árvores que povoam os bosques do Noroeste peninsular, apontando aos espaços onde se fundem a ancestralidade e o presente, o místico e o pragmático, o rural e o urbano. Colhendo a inspiração na vegetação autóctone da Galiza, “como um prolongamento das nossas emoções e intuições”, o pianista e compositor de Santiago de Compostela abraçou o projecto “Botánica” e fez questão de presentear o público com um conjunto de temas extraídos deste que é o seu décimo quinto álbum de estúdio em nome próprio. Sobre o palco, além de Rábade, estiveram Davide Salvado na voz e percussões, Daniel Juárez no saxofone tenor, Virxilio da Silva na guitarra, Ton Risco no vibrafone, Jimena Andión no violoncelo, Alejandra López no contrabaixo, Naíma Acuña na bateria e ainda o bailador Miguel Pardo de Castro. Foi este grupo artístico heterogéneo que fez do tempo do concerto um tempo de integração de estéticas musicais e de exploração rítmica e melódica descomplexada e livre. O público gostou.

Um “díptico” inspirado na bétula, ou vidoeiro - árvore cujo tronco é de “um branco quase espectral e com uma folha muito pequenina, muito cantarina” -, abriu o concerto, funcionando como uma espécie de resumo daquilo que iríamos escutar. Mas se a árvore que servia de ponto de partida era a mesma, as músicas mostraram-se tão diferentes entre si como o Inverno do Verão. “Menciñeira Nua” é um tema intimamente ligado à chamada música celta, um género inscrito na world music, ao passo que “Vestida de Bop” vai beber a sua essência às fontes clássicas do Jazz. Este último tema, o mais longo do concerto com os seus doze minutos, teve ainda o condão de “apresentar” os músicos e a sua qualidade instrumental, em solos onde a classe e o virtuosismo de Daniel Juárez, Ton Risco e Virxilio da Silva, sobretudo estes, veio ao de cima. No seu todo, o concerto viria a alternar entre os dois géneros, ora mostrados na sua forma mais genuína e pura, ora correndo ao longo de uma linha de fronteira nem sempre distinguível, misturando-os e confundindo em composições com tanto de refrescante como de vivo e livre.

Firmados os pressupostos, prosseguimos a viagem sobrevoando um bosque de freixos - “cantarei pola túa vida / tu que bailas con bo xeito / de meniño que me miras / entre as poliñas do freixo” - rumo à Serra do Courel e à Devesa da Rogueira. É desse lugar mágico e da sua vegetação que Abe Rábade extrai uma espécie de “suite” onde cabem o Narciso e a Faia, o Castanheiro e o Teixo, numa alusão clara ao ciclo da vida e ao conhecimento que vamos adquirindo com o passar do tempo. Entre os ramos do salgueiro e as folhas do sobreiro, o concerto prosseguiu numa espécie de adoração aos quatro elementos, com a mensagem implícita de uma natureza ameaçada que cabe a todos defender e preservar. Termino dizendo que é legítimo que cada um queira para si o melhor de dois mundos, mesmo sabendo que, as mais das vezes, isso é impossível. A abordagem conjunta a dois géneros que, embora próximos entre si, têm características próprias e fortemente vincadas, faz com que este projecto corra o risco de não agradar “nem a gregos nem a troianos”. Por mim, grego ou troiano que seja, gostaria de ter visto mais Jazz na noite de ontem. Mas não me posso queixar, já que os momentos ligados ao género de forma mais íntima foram preciosos.

[Foto: Ovar/Cultura]

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

O MELHOR DE 2023: CONCERTOS



10. Carminho
Centro de Arte de Ovar
23 Set 2023 | sab | 21:30

“ (…) Na linha dos seus anteriores trabalhos, “Portuguesa” é um álbum que combina, com enorme sensibilidade e bom gosto, versões de fados tradicionais e originais, alguns deles exteriores à esfera do próprio fado. Isso é particularmente notório nos temas “Ficar” e “Sentas-te a Meu Lado”, com assinatura de Joana Espadinha e Luísa Sobral, respectivamente, como a própria fadista fez questão de explicar (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/09/concerto-carminho.html 



9Sara Correia
Cine-Teatro de Estarreja
28 Out 2023 | sab | 21:30

“ (…) Não é todos os dias que vemos o fado ser tratado com tanto cuidado, no respeito pelas suas particularidades: os tempos, o ritmo, o silêncio, o virtuosismo instrumental, o saber estar e ser. Mas, sobretudo, pela emoção e arrebatamento que se desprendem de uma voz que é uma dádiva dos céus, cuja força e intensidade não são deste mundo e que faz de Sara Correia uma personalidade ímpar no fado (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/10/concerto-sara-correia.html 



8. Ricardo Ribeiro com Orquestra Filarmonia das Beiras
Direcção musical | Leandro Alves
Arranjos | João Martins
Ciclo de Fado 2023
Cineteatro Alba
25 Nov 2023 | sab | 21:30

“ (…)  Com a consciência sábia do passado e os olhos abertos para o presente e para o futuro, Ricardo Ribeiro teve para oferecer uma parte do seu mundo interior, inspirado pelo sul, cingindo num abraço o Mediterrâneo e o Oriente. Como quem escava a terra do próprio peito, o fadista foi ao encontro da tradição, trazendo à superfície fados como o “Acácio”, o “Azenha” ou o “Franklim”, num estilo interpretativo onde cabe uma boa dose de novidade (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/11/concerto-ricardo-ribeiro-com-orquestra.html 



7. Lula Pena
Centro das Artes e do Espectáculo de Sever do Vouga
02 Set 2023 | sab | 21:30

“ (…) Diluídos num peculiar cosmos, percebemos quão próximos podem estar o “phado” do tango, a bossa nova da canção francesa, o flamenco da morna. Numa viagem sem interrupções, vogamos pelo fluir de línguas, sons e ecos, ajustamo-nos aos ritmos e às melodias. Sentimos este mundo cada vez mais nosso, a distender-se e a contrair-se na voz grave da cantora, no seu dedilhar, na relação alquímica com a guitarra, milagre dos sentidos feito de carne e espírito (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2019/05/concerto-lula-pena.html 



6“Popular Jaguar”
Tó Trips
Convidados | António Quintino (contrabaixo), Helena Espvall (violoncelo)
Auditório de Espinho – Academia
12 Mar 2023 | dom | 18:00

“ (…) Importa dizer que “Península dos Índios” colocou de início a fasquia num patamar altíssimo, aí se mantendo ao longo de todo o concerto. Com os seus instrumentos, António Quintino e Helena Espvall levam a que os horizontes sonoros de “Popular Jaguar” se tornem ainda mais vastos, a harmonia e o ritmo condensados em leveza e liberdade. “Ginga”, “L.A. Chet”, “Ínfimas Coisas”, "O Deus do Vento" ou “O processo de Uma Aparição”, tema que fechou o concerto, são partes de um todo marcado pela inspiração, pelo génio criativo e pela mestria interpretativa de um enorme artista (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/03/concerto-popular-jaguar-to-trips.html 



5. “Palabras Urgentes”
Susana Baca
Auditório de Espinho
06 Mai 2023 | sab | 21:30

“ (…) Com uma mensagem política enérgica e firme, o concerto congregou as mais antigas canções dos afro-peruanos que aportaram à costa norte do Peru, canções que “Doña Juana Orujo cantava quando ainda era escrava”, com versos tão fortes e sentidos como “las caras lindas de mi raza prieta”. Sem meios termos, Susana Baca falou do racismo estrutural no Perú - ela que descobriu o sabor da discriminação, menina ainda, numa colher de leite condensado -, ergueu bem alto os nomes dessas extraordinárias mulheres que foram Micaela Bastidas e Juana Azurduy, gritou “el Español no pasará”, juntou Trump, Marine Le Pen e Putin no mesmo saco da infâmia e da mentira e mostrou bem o porquê da urgência das suas palavras (...). Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/05/concerto-palabras-urgentes.html 



4. The Gift Coral
Teatro Aveirense
21 Jan 2023 | sab | 21:30

“ (…) Assente num magnífico coro de vinte vozes, o trabalho em torno deste “Coral” vive da qualidade indesmentível do tridente “voz-poema-melodia”, resultando numa experiência sensorial ímpar, emocionante, arrepiante, a elevar a música a patamares de grandeza superior. Com Jóhann Jóhannsson e os Sétima Legião, Fausto e Björk em pano de fundo, foi num turbilhão de emoções que me vi metido, apanhado de surpresa e completamente subjugado por uma experiência do domínio do sublime. De repente, foi como se toda a música que há no universo se condensasse num lugar único e mágico, ali mesmo à minha frente. E eu, entre a vertigem e o assombro, mais não tive que abrir o coração e aceitar a dádiva (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/01/concerto-gift-coral.html 



3. Pedro Abrunhosa
Festival Montepio Às Vezes o Amor
Teatro Municipal de Vila do Conde
11 Fev 2023 | sab | 21:30

“ (…) Sem o suporte do Comité Caviar, apenas com Bruno Macedo na guitarra e Miguel Barros no baixo, Pedro Abrunhosa quis fazer deste um concerto intimista, distante q.b. dos ambientes festivos, que privilegiasse a palavra e honrasse a literatura. Despojados das melodias habituais, os poemas ganharam novos significados, tornaram-se expressivos. Encontraram amarras onde soltar-se era a regra, deram-se os braços na noite escura, deixaram tanto de si uns nos outros e fizeram o que ainda não foi feito. E no fim, exaustos mas felizes, gritaram “não posso mais” (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/02/concerto-pedro-abrunhosa.html 



2. A garota não
Com | Ensemble de Cordas da Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção | Trevor McTait
Arranjos | Nuno Peixoto e Francisco Ribeiro
Auditório de Espinho
14 Out 2023 | sab | 21:30

“ (…) Interventiva, contestária, insatisfeita, inquieta, ao longo de quase duas horas A garota não partilhou com o público a força das palavras e a beleza da música, entremeando-as com saborosas histórias onde couberam, entre outros, um cdzito a rodar constantemente e a massacrar clientes de um restaurante “com músicas que não valem uma bufa”, um carola que perfez 50 concertos de A Garota Não (“o que diz muito da sua sanidade mental”), canções do amor que correu bem e canções do amor que correu mal, relações falhadas mas bons amigos, a bancada mais à direita do parlamento substituída por uma bancada de poetas, o futebol filosófico dos Monty Python, os discos do Sérgio Miendes ou a vingança dos técnicos de som https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/10/concerto-garota-nao.html  



1. “Vida”
Jorge Palma
Casa da Criatividade
16 Jun 2023 | sex | 21:30

“ (…) Foi, pois, numa atmosfera de expectativa, de quase euforia, que os primeiros acordes se fizeram escutar e que “Vida” se materializou na voz do cantor, “causa de todas as causas / princípio de todo o princípio / final de todos os finais”. O poema flui, emotivo e livre, e com ele a certeza de que, apesar de tão grande hiato de tempo, o carácter e valores do artista, aquilo que nele existe, resiste e lhe serve de alimento, permanece inalterado. “Vida” será o primeiro diamante da noite e esses, sabemo-lo bem, são eternos https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2023/06/concerto-jorge-palma.html 

quarta-feira, 10 de maio de 2023

CONCERTO: "Palabras Urgentes"



CONCERTO: “Palabras Urgentes”,
de Susana Baca
Auditório de Espinho
06 Mai 2023 | sab | 21:30


O cabelo curto, a tez morena e um olhar doce e vivo num corpo esguio, encobrem os 78 anos que tem Susana Baca. Descalça, elegante, vestido comprido até aos pés, rodeada de um combo de seis músicos, foi assim que a cantora peruana se apresentou ao público que esgotou o Auditório de Espinho numa noite que veio a revelar-se memorável. Aquilo que pudemos escutar, porém, ultrapassou claramente uma mera sequência de temas. Com uma mensagem política enérgica e firme, o concerto congregou as mais antigas canções dos afro-peruanos que aportaram à costa norte do Peru, canções que “Doña Juana Orujo cantava quando ainda era escrava”, com versos tão fortes e sentidos como “las caras lindas de mi raza prieta”. Sem meios termos, Susana Baca falou do racismo estrutural no Perú - ela que descobriu o sabor da discriminação, menina ainda, numa colher de leite condensado -, ergueu bem alto os nomes dessas extraordinárias mulheres que foram Micaela Bastidas e Juana Azurduy, gritou “el Español no pasará”, juntou Trump, Marine Le Pen e Putin no mesmo saco da infâmia e da mentira e mostrou bem o porquê da urgência das suas palavras.

“Golpe E’ Tierra” e “Molino Molero” abriram o concerto de uma forma expressiva e viva, a música andina e os ritmos africanos de mãos dadas em torno dos cantos de escravos no trabalho da terra. “Por tu ventana dormida”, sobre um poema de Juan Gonzalo Rose, e “La Herida Oscura”, com letra e musica desse ícone da canção peruana que foi Chabuca Granda, elevaram a parada e “Juana Azurduy” foi como que uma apoteose, o hino guerreiro a tocar a reunir: “Tierra en armas / Que se hace mujer / Amazona de la libertad / Quiero formar en tu escuadrón / El clarín de tu voz atacar”. De seguida, a cantora deu-nos a escutar “Cambalache”, uma canção escrita em 1921 mas cujas palavras são de uma enorme actualidade ao dizerem-nos que “tudo é igual, nada é melhor / o mesmo um burro que um grande professor”. Os electrizantes “Toro Mata” e “Negra Presuntuosa” seguiram nessa linha de homenagem à cultura e ao folclore do Perú, antecedendo “Cariño”, um tema vivido com enorme intensidade e emoção, o público a retribuir com um longo aplauso que pôs um tremor na voz e um brilho nos olhos de Susana Baca.

Compositora, professora, investigadora e historiadora, ex-Ministra da Cultura do Perú, vencedora de três Grammy Latinos (2002, 2011 e 2020), Susana Baca voltou a eleger dois grandes nomes da poesia do seu país, Luis Guillermo Hernández Camarero e Blanca Varela, dando-nos a escutar, respectivamente, “Damerung” e “Strip-tease”, esta última a dizer-nos: “Quítate la piel, las tripas, los ojos y ponte un alma, si la encuentras”. A música de Milton Nascimento trouxe ao concerto um toque de tropicalismo com “Portal Del Color” e a festa prosseguiu com “Canturerias” e “Sorongo”. “Caras Lindas” colocou um ponto final no alinhamento e o tema foi inteligentemente aproveitado pela cantora para apresentar os seus extraordinários músicos: Oscar Huaranga no contrabaixo e direção musical, Miguel Diáz na percussão, Renzo Vignati na guitarra elétrica, Jonathan Mendoza na guitarra acústica e Jorge Campos e Alex Mejía nos coros. Num muito reclamado e saudado “encore” foi ainda possível escutar “Afroblues” e “Canta Susana”, fechando uma viagem através dos séculos, a ligar continentes, por intermédio da voz e da música dessa grande activista e cultora da negritude, defensora intransigente dos direitos das minorias, que é Susana Baca.