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sexta-feira, 3 de abril de 2026

TEATRO: “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” | Victor Hugo Pontes



TEATRO: “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem”
A partir da obra de Manuel António Pina
Direcção | Victor Hugo Pontes
Dramaturgia | Jacinto Lucas Pires, Victor Hugo Pontes
Música | A garota não
Cenografia | Fernando Ribeiro
Figurinos | Luís Carvalho
Interpretação | Ana Afonso Lourenço, Catarina Carvalho Gomes, Daniel Teixeira Pinto, Jorge Mota, Joana Carvalho, José Santos, Marco Olival, Patrícia Queirós, Pedro Frias, Siobhan Fernandes
Produção | Teatro Nacional São João
80 Minutos | Maiores de 6 Anos
Teatro Nacional de São João
29 Mar 2026 | dom | 16:00


Começaria por dizer que “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” é uma preciosidade, uma peça de visão obrigatória. Nascida de um encontro particularmente feliz entre a matéria viva e fecunda de Manuel António Pina e o exercício de dramaturgia finamente “costurado” por Jacinto Lucas Pires e Victor Hugo Pontes, respeita a fragmentação e a deriva próprias do universo literário do jornalista e escritor, apostando na criatividade como matriz e na dispersão como método. Estruturada num tecido coerente de tensões, ecos e ressonâncias, ela traz-nos os gatos de Manuel António Pina, obviamente, mas também a ingenuidade aparente, a curiosidade e o questionamento constante próprios da infância, os trocadilhos e ambiguidades que fazem da linguagem um jogo, o inesperado (e poético) que brota do meio do banal, e sempre - mas sempre! - um humor fino, por vezes quase imperceptível, capaz de desmontar todas as certezas. Longe de ser apenas técnica, a construção dramatúrgica torna-se o próprio lugar de pensamento de um espectáculo onde cada fragmento encontra o seu peso específico numa arquitectura fluida e em constante recomposição.

É igualmente notável a forma como a essência de coreógrafo de Victor Hugo Pontes atravessa todo o espectáculo, conferindo-lhe uma identidade singular onde palavra, música e corpo se entrelaçam de modo indissociável. A dança não surge como ornamento, mas como pensamento em movimento, um contraponto expressivo que dá corpo às zonas de indeterminação do texto. A excelência da composição musical, assinada por A garota não, vem intensificar o valor e alcance da peça, funcionando não como mero suporte, mas como um plano sensível autónomo que respira com a cena, abrindo fendas emocionais e ampliando o alcance do que é dito, mas sobretudo do que permanece por dizer. E há, também (ou sobretudo) um conjunto de actores em estado de graça, capazes de habitar o espaço com uma precisão física e sensorial que transforma cada gesto, cada pausa e cada deslocação em matéria significativa. O movimento, a pose, a mímica e as qualidades vocais são mostrados com uma delicadeza rara, acentuando a unidade impressionante do colectivo, a escuta comum que sustenta o risco e a instabilidade da proposta, permitindo que o espectáculo se mantenha vivo, permeável e em constante transformação diante do espectador.

No centro de tudo, permanece a extraordinária obra de Manuel António Pina, cuja força se impõe não apenas como ponto de partida, mas como urgência renovada. A peça não se limita a divulgar o autor: convoca-o, interroga-o e, sobretudo, reabre a necessidade da sua descoberta - ou redescoberta - num tempo que tantas vezes esquece a complexidade da linguagem e a força do pensamento poético. Atravessada por um tom nostálgico e introspectivo, a peça mergulha directamente na singularidade do universo do escritor, uma zona de permanente desajuste, habitada por sábios que recusam certezas e se mostram inteiros na sua clareza e fragilidade. Ao expor a dúvida como método e a imperfeição como motor, “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” devolve-nos à essência inquieta da escrita de Manuel António Pina, fazendo dela uma experiência partilhada, sensível e profundamente contemporânea. O resultado é uma criação que recusa a estabilidade e a clausura, afirmando-se como travessia e como gesto de resistência. Um convite a desacelerar, a escutar de novo e a reencontrar, no intervalo entre palavras e corpos, esse lugar inaugural onde o sentido ainda se constrói de pernas para o ar. Sempre em aberto, sempre em risco.

[Foto: Teatro Nacional São João | https://www.facebook.com/TeatroNacionalSaoJoao]

segunda-feira, 16 de março de 2026

CONCERTO: A garota não: Um concerto acústico



CONCERTO: “A garota não: Um concerto acústico”
Com | A garota não (voz e guitarra), João Mota (guitarra), Sérgio Miendes (guitarra e baixo)
Teatro Nacional de São João
14 Mar 2026 | sab | 16:00



É no coração da peça “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem”, dirigida por Victor Hugo Pontes e actualmente em cena no Teatro Nacional de São João, que vamos encontrar a música de A garota não. Reunida num momento verdadeiramente único, o concerto acústico foi música, mas foi também regresso. Um regresso demorado às palavras de Manuel António Pina, como quem volta mansamente a um lugar que já habitou e onde permanece ainda uma parte de si. Entre silêncios e canções, embalos e muitas confissões, Cátia Mazari Oliveira conduziu o público por um território íntimo onde poesia e melodia se confundiram, como se cada verso estivesse à espera de ser cantado desde o momento em que Pina o escreveu. A artista não interpretou simplesmente poemas, antes escutou-os por dentro e devolveu-os em forma de música, revelando uma rara capacidade de tratar as palavras como matéria viva, frágil e luminosa. Os temas tiveram o condão de abrir espaço para um mundo inteiro, ao qual a infância regressou pé ante pé, as recordações a moverem-se como sombras nas paredes de uma casa desenhada com cuidado e onde a música, como nos versos do próprio Pina, mostrou ter olhos fulgurantes capazes de transformar quem a escuta em canto.

Acompanhada pelos “hermanos salmonetes del Sado”, João Mota na guitarra e Sérgio Miendes na guitarra e baixo, A garota não desenhou um concerto que foi como uma viagem pelo génio irrequieto e sensível de Manuel António Pina, mas também pela originalidade e inventividade da cantora. Nos poemas tornados em canção - de “Amor como em casa” a “Os Gatos”, de “Como se desenha uma casa” a “[4 de Juho de 1965]” -, percebeu-se o milagre raro de duas vozes artísticas que se encontram, sem nunca se terem encontrado fisicamente. Mais do que ilustrar os textos, as ideias, os pensamentos ou as afirmações de Manuel António Pina e daqueles que sobre ele tiveram algo a dizer, A garota não procurou habitá-los. E ao fazê-lo, trouxe para o concerto aquilo que talvez seja o coração secreto da uma obra reconhecidamente viva e livre: a infância, esse lugar frágil e absoluto onde se escondem as primeiras perguntas sobre o mundo. As canções espalharam-se pelo espaço da bonita sala do São João como pequenas chamas acesas na memória de todos, convocando a ternura, a inquietação e a ironia que atravessam a escrita do poeta. O público escutou em silêncio, não um silêncio vazio, mas aquele silêncio atento que nasce quando sentimos que algo essencial está a acontecer diante de nós.

Mas este encontro da cantora com poeta não viveu apenas da memória, da delicadeza e do sonho. Houve nele também uma força crítica a ligar intimamente os dois universos. Quem conhece o percurso artístico de A garota não reconhece a sua música de intervenção, a coragem com que denuncia injustiças e desmonta as pequenas e grandes hipocrisias do nosso quotidiano. E é precisamente aí que a voz de Manuel António Pina ressurge com espantosa actualidade. Nos textos mais mordazes - como os que partem das suas crónicas “A Nação ao Espelho” e “J’accuse”, por exemplo - revela-se o mesmo olhar crítico, a mesma lucidez perante um país onde, tantas vezes, “nem mesmo quando as provas são provas dessas provas, o esperto dança e não cai”. Ao cruzar estas palavras com a sua música, a cantora mostra que a obra do poeta não pertence apenas à memória literária: pertence ao presente, ao debate, à inquietação moral do nosso tempo. No final, o que permanece é a sensação de termos assistido a algo raro: um concerto que foi também um acto de leitura, de escuta e de resgate. E quando a última canção se dissipou no ar, ficou no público um desejo quase físico: o de voltar aos livros do Pina, regressar às palavras do Pina, procurar nelas, outra vez, aquele lugar onde a memória, a infância e a esperança ainda podem encontrar abrigo.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O MELHOR DE 2025: CONCERTOS



10. António Zambujo
XXII Encontro de Culturas
Praça da República, Serpa
07 Jun 2025 | sab | 22:00

“ (…) Mas se “Cidade”, álbum editado em 2023 e que integra apenas músicas compostas e escritas por Miguel Araújo, foi uma espécie de fio condutor do concerto, foi com “Guia” que tudo começou, o cantor a “atravessar o oceano” e a encontrar “terra firme” precisamente em Serpa, numa Praça repleta de alegria e entusiasmo, na expectativa de uma grande noite.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-antonio-zambujo.html



9. Lina_ & Marco Mezquida
Misty Fest
Casa da Música - Sala 2
14 Nov 2025 | sex | 21:30

“ (…) Ao longo de quase uma hora e meia, “O Fado” abriu-se em certeza e diálogo, unindo e reinventando, revelando uma simbiose perfeita com outros géneros e ritmos - da música tradicional aos sons do Brasil, da canção espanhola às marchas de Santo António. Reconhecidamente rica e expansiva, a voz de Lina_ ofereceu-se pura e límpida, ganhando asas e elevando-se nos acordes cristalinos do piano, tecnicamente irrepreensível, ainda que redundante e menos contido aqui e ali. Mesmo assim, Marco Mezquida soube encontrar o equilíbrio entre o lirismo subtil e uma abordagem quase sinfónica, criando uma tensão estrutural que encheu o palco e seduziu o público.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/concerto-lina-marco-mezquida.html



8. The Art of Song vol.2 - Between Sacred and Profane
Com | Filipe Raposo (piano e composição musical), Rita Maria (voz e composição musical)
Auditório de Espinho – Academia
23 Fev 2025 | dom | 18h00

“ (…) Extraída de “Galinhas do Mato”, o último álbum editado em vida por Zeca Afonso, “Alegria da Criação” abriu o concerto e foi dele “pedra de toque”. Escutar em fundo a voz e adufe de Idalina Gameiro (também o adufe de Emília Antunes) como uma ladainha, sobre a qual se impõe a pureza das cordas (vocais de Rita Maria e do piano de Filipe Raposo), é no mínimo arrepiante. Os ritos e os mitos que se estendem ao longo do concerto levam-nos de regresso à origem, explicando mistérios, apaziguando e reconfortando, conferindo significado e valor à nossa existência.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/concerto-art-of-song-vol2-between.html



7. Dino d’Santiago
Casa da Criatividade
12 Jun 2025 | qui | 21:30

“ (…) Ao longo de quase duas dezenas de temas, Dino d’Santiago e a sua banda definiram o pendor da festa, oferecendo a um público esfuziante de entusiasmo momentos de verdadeira igualdade, celebração e partilha. De uma energia sem limites, o artista começou por cantar “Nos tradison” e vincar a importância de olhar para trás, para os valores e para a tradição, se queremos seguir em frente.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-dino-dsantiago.html



6. A garota não
Com | Cátia Mazari Oliveira (guitarra e voz), Sérgio Miendez (guitarra e baixo), João Mota (teclados, guitarra, baixo e voz) e Diogo Arranja Sousa (bateria)
Centro Cultural de Paredes
25 Out 2025 | Sab | 21:30

“ (…) A apresentar “Ferry Gold”, o seu mais recente trabalho discográfico, A garota não tornou a bater na tecla da música de intervenção com uma frescura e vivacidade como há muito se não via, o que faz do seu projecto um dos mais estimulantes, emotivos e inspiradores da nova música portuguesa. Marcado pela consciência social, pela recusa da complacência e pela denúncia da injustiça, desigualdade e discriminação, o seu trabalho é fruto de uma trajectória pessoal, de quem viveu a precariedade nas mais diversas formas e teve de ser fazer à vida com “uma força a crescer-lhe nos dedos e uma raiva a nascer-lhe nos dentes”.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concerto-garota-nao.html



5. Voz e Guitarra
Com | Carolina Deslandes (voz), Feodor Bivol (guitarra)
Cineteatro António Lamoso
09 Mai 2025 | sex | 21:30

“ (…) Cruzando canções que ilustram treze anos de uma carreira recheada de belíssimos momentos, com alguns exemplares de um novíssimo álbum a sair ainda este mês, Carolina Deslandes provou que os sonhos de uma artista e uma artista de sonho podem ser uma e a mesma coisa. “Dois Dedos de Testa” abriu as hostilidades de forma afirmativa - “Quero ser dona da festa / Tenho dois dedos de testa” - e deu o mote para um concerto fortemente intimista, de emoções à flor da pele.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/concerto-voz-e-guitarra-carolina.html



4. Pedro Abrunhosa
Centro de Arte de Ovar
13 Jun 2025 | sex | 21:30

“ (…) Em Ovar, num Centro de Artes há muito esgotado, o artista começaria por saudar o público, afirmando ser a sua presença “o maior tributo à cultura portuguesa”. Uma cultura que, referiria, “nunca foi tão importante para defender a soberania, a democracia e, sobretudo, a paz.” E foi sob o signo da Paz que o concerto decorreu, com a música a carregar consigo mensagens onde as palavras “paz”, “luz” e “amor” foram signos e símbolos de um enorme momento: Íntimo, profundo, intenso, vivo, espiritual.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-pedro-abrunhosa.html



3. Jorge Palma & Júlio Resende
Cine-Teatro de Estarreja
21 Jun 2025 | sab | 21:30

“ (…) Os acordes que precederam “O Meu Amor Existe”, tema de abertura do concerto, faziam antever algo de muito especial. Ainda que facilmente reconhecíveis, Júlio Resende soube revesti-los de um lirismo único, uma quase pureza, transportando o público ao “grau zero” da criação. Mas foi quando as palavras, frágeis e incertas, se soltaram da garganta de Jorge Palma, que o concerto se estabeleceu nesse lugar único onde os homens e os deuses se tocam.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/concerto-jorge-palma-julio-resende.html



2. Inspirar
Danças Ocultas
Com | Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo, Francisco Miguel
Misty Fest 2025
Teatro Aveirense
12 Dez 2025 | sex | 21:30

“ (…) A música dos Danças Ocultas nunca é sombria, mesmo quando se move na melancolia. Nela encontramos sempre uma fresta de luz, uma promessa de clareza no meio da contenção. Não é música para consumo rápido, mas para escuta profunda, exigente e, paradoxalmente, reconfortante. Mais do que um simples concerto, o que se viveu no Teatro Aveirense foi uma experiência de partilha sensível, onde os acordes pareceram procurar um lugar íntimo na memória daqueles que tiveram o privilégio de os escutar. Inspirar, como o título bem sugere, foi gesto de recolha, de interiorização, contrastando com a trilogia de álbuns anteriores, mais voltados para fora, para o “respirar” como movimento de saída.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/concerto-inspirar-dancas-ocultas.html



1. Meredith Monk
Com | Meredith Monk (voz e teclados), Katie Geissinger (voz), Allison Sniffin (voz, violino e teclados)
Auditório de Espinho – Academia
14 Out 2025 | ter | 21:30

“ (…) O que à primeira escuta pode parecer uma música “simples”, revela-se, na verdade, como um refinado processo de despojamento, reduzindo a composição ao essencial, na busca de uma forma de pureza quase espiritual. Depurada ao máximo, esta, como todas as restantes peças que compuseram o concerto, não conta uma história no sentido narrativo convencional, antes convoca sensações, estados de alma, geografias interiores. A voz, esse enorme instrumento, é moldada com uma liberdade quase xamânica — como se Monk quisesse cantar antes das palavras, antes da gramática, antes mesmo da consciência de ser. Há algo de poeira e terra molhada, de vento nas montanhas, de infância da humanidade em cada composição.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concerto-meredith-monk.html

terça-feira, 28 de outubro de 2025

CONCERTO: A garota não



CONCERTO: A garota não
Com | Cátia Mazari Oliveira (guitarra e voz), Sérgio Miendez (guitarra e baixo), João Mota (teclados, guitarra, baixo e voz) e Diogo Arranja Sousa (bateria)
Centro Cultural de Paredes
25 Out 2025 | Sab | 21:30


“Seja gentil a nossa viagem. E cheia de flores.” Foi com este desejo que Cátia Mazari Oliveira se despediu do público em Paredes, no concerto que assinalou o primeiro aniversário de um equipamento belíssimo, espaçoso, confortável e com uma programação cuidada e marcada pelo ecletismo. Um desejo que encerra um silencioso abraço às coisas simples e delicadas, a lembrar que o gesto é mais precioso que a pressa, que a jornada é sempre mais importante que o destino. Levado numa viagem ao fundo de si, o público sentiu-se convidado a seguir em leveza um caminho de liberdade, um caminho povoado de flores, não apenas as que se ofereceram para serem colhidas, mas aquelas que brotaram do olhar, do encontro, da palavra dita com cuidado. Ou com raiva. Na companhia de Sérgio Miendez (guitarra e baixo), João Mota (teclados, guitarra, baixo e voz) e Diogo Arranja Sousa (bateria), A garota não mostrou-se igual a si própria, assertiva e oportuna, sem papas na língua, a voz erguida na defesa intransigente da justiça e da igualdade que nos deve unir a todos, a cantiga como arma eficaz na denúncia dos que querem pôr fim aos valores da liberdade e da democracia.

A apresentar “Ferry Gold”, o seu mais recente trabalho discográfico, A garota não tornou a bater na tecla da música de intervenção com uma frescura e vivacidade como há muito se não via, o que faz do seu projecto um dos mais estimulantes, emotivos e inspiradores da nova música portuguesa. Marcado pela consciência social, pela recusa da complacência e pela denúncia da injustiça, desigualdade e discriminação, o seu trabalho é fruto de uma trajectória pessoal, de quem viveu a precariedade nas mais diversas formas e teve de ser fazer à vida com “uma força a crescer-lhe nos dedos e uma raiva a nascer-lhe nos dentes”. É isso que desvia o seu discurso artístico do mero lirismo e faz dela uma voz credível na luta por mais igualdade e por uma verdadeira democracia, livre de populismos e resguardos complacentes para o fascismo e a opressão. Em poemas que são verdadeiros manifestos, a cantora alerta para as rupturas invisíveis da nossa sociedade, a crescente disparidade entre ricos e pobres, a falha crónica nas respostas à saúde e habitação, as fronteiras erguidas contra os migrantes, a secundarização da arte e da educação — e defende a troca simbólica de “escolas por praças de touros” como metáfora do que se escolhe permitir ou ignorar.

Dividido em blocos temáticos, o concerto, tal como o disco, abriu com “A casa de Bernarda Alba” e “Este país não é para mães”, dando o mote a um conjunto de temas que tiveram na afirmação, no acolhimento e no reconhecimento dos mais frágeis e silenciados denominadores comuns. Na força das suas palavras há toda uma agenda ética que rejeita a estigmatização do outro, a ascensão de narrativas excludentes, o cercear da liberdade. A poesia de Irene Lisboa, Mariana Angélica de Andrade, José Carlos Barros, Luís Filipe Parrado ou Fausto Bordalo Dias passearam-se por esta hora e meia de concerto, bem como alguns temas dos discos anteriores, “Rua das Marimbas” e “2 de Abril”, a lembrar que não é de agora a intenção de transformar cada música não numa espécie de fuga, antes num cerrar de fileiras para que todos possam ver e sentir, recusar a inércia e agir. “Ferry Gold”, tema que dá nome ao álbum, teve o condão de encerrar o concerto, ainda e sempre o dedo enterrado na ferida, desta vez na denúncia das praias paradisíacas da península de Tróia, outrora públicas e que se foram transformando em espaços privatizados, os imóveis luxuosos de uns poucos a avançar sobre a liberdade de todos, em nome de “descobertas turísticas” que são, na realidade, expulsões silenciosas. Força Cátia, nós seremos a muralha de aço.

domingo, 13 de julho de 2025

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia (I)



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia
Com | A Garota Não, Cara de Espelho, Cacique 97
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2025 | sex | 18:00 às 00:30


O FESTA – Sons da Lusofonia regressou a Ovar para a sua décima edição. Ponto de encontro de toda a comunidade, ao longo de dois emotivos e intensos dias o Parque Urbano da cidade transformou-se num espaço de celebração da diversidade, inclusão e participação activa, através de um conjunto de actividades voltadas para os mais diversos públicos. Ponto alto da FESTA, os concertos viram-se repartidos por três palcos, reunindo artistas brasileiros, cabo-verdianos, moçambicanos e portugueses, para dez momentos musicais a trazerem consigo a promessa de comunhão em torno da melhor música. Novidade nesta edição do FESTA foi o “Lugar das Infâncias”, uma aldeia para brincar e descobrir um mundo plural e tolerante, onde os mais novos e suas famílias se sentiram convidados a explorar a diversidade cultural através de histórias, brincadeiras, gestos, sons e silêncios. O jornalista Rui Miguel Abreu repetiu a presença no FESTA, moderando um vasto conjunto de conversas que se abriram em criação, memória, liberdade e futuro, num “Dar à Língua” que aproximou artistas e público. E foi justamente por aqui que o FESTA teve o seu início, com os Cara de Espelho a fazerem a antevisão do primeiro de dois concertos previstos para a noite do primeiro dia e com a apresentação do Livro “Festa - Sons da Lusofonia: Da Revolução ao Ritmo - 50 anos do 25 de Abril em Sons Lusófonos”, um trabalho que reúne todos aqueles que passaram pelas conversas em 2024, edição muito especial a assinalar o cinquentenário do dia inicial inteiro e limpo.

Depois de um dia cinzento e chuvisquento, o Sol disse “olá” à tarde de sexta feira e foram muitos aqueles que responderam à chamada para o concerto de abertura do FESTA. No fantástico anfiteatro natural em frente ao Palco Verde, uma numerosa assistência dispôs-se a ouvir A garota não, a sua música, as palavras sempre incisivas e mordazes apontadas a uma certa classe dirigente que teima em negar os valores da liberdade, igualdade, justiça e democracia, afirmando o seu poder pela opressão e exploração dos mais fracos e vulneráveis. Com Sérgio Miendes e João Mota nas guitarras e Diogo Sousa na bateria, A garota não fez questão de mostrar que “não é não”, na denúncia de “um país que não é para mães”, onde “toda a gente aceita o saque” e “há bestas no lugar de deputados”. Do novíssimo “Ferry Gold”, os temas são “disparados” com força e raiva, penetrando as consciências do público e arrancando-lhe aplausos vigorosos. Seguiu-se um “medley” com cinco temas do segundo álbum de estúdio da artista, “2 de Abril”, e de novo o retomar de “Ferry Gold”, no “train a curtir Coltrane” para se concluir que “a vida é uma roleta com cinco balas no tambor”. A terminar, pois que se privatize o mar e o céu, a justiça e a lei, a nuvem que passa, o sonho (sobretudo se for diurno e de olhos abertos). “E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos”. A mim parece-me bem!

Os Cara de Espelho abriram as hostilidades do segundo momento deste dia inaugural, alinhando pelo diapasão da música de denúncia e protesto, tão necessária nos dias que correm. Banda revelação no ano passado com o lançamento do álbum homónimo, os Cara de Espelho começaram por assumir a sua condição, sendo o reflexo do numeroso público que fez questão de os aplaudir. Reflexo, afinal, de quem olha para si e não gosta do que vê, que tem na banda uma via aberta à reivindicação e ao murro na mesa. Na voz de Maria Antónia Mendes, “Mitó para os amigos”, “Tratado de Paz” foi o primeiro tema da noite, ao qual se seguiram “Cara Que é Tua” e um poderoso “Corridinho Português”, “a juntar a malta numa boa”, porque “triste é quem fica a ver dançar”. Animado, o concerto prosseguiu quase em forma de comício. Na plateia, “livres criaturas” gritavam “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, enquanto no palco se louvavam as benesses dos paraísos fiscais e se rogava a S. Pedro que “[nos] receba no seu Portal das Finanças”. Com as letras e músicas de Pedro da Silva Martins e a magia dos instrumentos de Carlos Guerreiro, Nuno Prata e Sérgio Nascimento, entre outros, o concerto levou-nos do “Fadistão” ao “Ministério do Anonimato”, até parar no “Dr. Coisinho” e na sua “coisificação do dedo”, a plateia com os dedos médios de ambas as mãos espetados no ar, numa coreografia impressiva que as luzes amplificaram. Na despedida, um alerta para as varejeiras - “[que] anseiam pobreza, fomentam o asco, a náusea e o nojo” - e uma pergunta: “Em qual de vós é que ela vai poisar?”

A fechar a noite, os Cacique 97, banda pioneira do Afrobeat, ofereceram um magnífico momento, feito de ritmo, história e força coletiva. Espécie de “Best of” dos seus dois álbuns de estúdio - “Cacique 97” (2009) e “We Used to be Africans” (2016) -, o concerto mostrou uns “caciques” em grande forma, pondo em palco um género popularizado em África na década de 1970 e que se espalhou ao mundo. Fiel ao conceito musical do género e ao seu cunho político de denúncia e protesto, esta big band não esqueceu o papel criador do multi-instrumentista e nigeriano Fela Kuti, num impactante e revelador “Come from Nigeria”. Liderada pelo guitarrista e vocalista Milton Gulli, a banda manteve em diálogo constante, livre e rico, uma poderosa secção rítmica, onde pontificou Marisa Gulli (que dá também apoio nas vozes), com um naipe de metais firme e assertivo, cruzando o groove africano com a alma lusófona, num som de combate e celebração. Ritmos quentes, letras de intervenção e uma energia contagiante era tudo o que o público esperava, reagindo com o embalar dos corpos e algumas coreografias improvisadas sobre o anfiteatro verde de um Parque Urbano em ebulição. “American Cop”, “Jorge de Capadocia”, “Get no Stronger”, “13”, “Dragão” ou “Letter to the Martyrs”, novíssimo single da banda e que denuncia a ocupação, a colonização e o genocídio do povo da Palestina, foram temas trazidos a palco com enorme força, numa despedida em grande do FESTA, ao final do seu primeiro dia.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

CONCERTO: “A Garota Não, Banda Amizade, Ela Vaz em Concerto!”



CONCERTO: “A Garota Não, Banda Amizade, Ela Vaz em Concerto!”
Direcção Artística | Carlos Marques
Teatro Aveirense
14 Dez 2024 | sab | 21:30


A música é sempre melhor com amigos e esta é uma certeza para a Banda Amizade. Sejam amigos recentes ou de longa data, amigos de agora, amigos de outrora, amigos presentes ou que já partiram, é com amigos que se faz a festa da música. A celebrar 190 anos de existência, a Banda Amizade – Banda Sinfónica de Aveiro subiu ao palco do Teatro Aveirense e trouxe alguns desses amigos para ajudar a soprar tantas velas: Ela Vaz, uma amiga que não é de agora e da qual guarda a voz tão particular e as doces memórias de outras partilhas, e A Garota Não, uma nova amiga, assumida por inteiro na intensidade da sua voz, no poder da palavra e com quem é fácil desenvolver relações de amizade, solidariedade e cumplicidade. Às duas convidadas juntou-se Fausto Bordalo Dias, uma amizade mais antiga, de alguém com quem – e com cujas composições – a Banda Amizade teve o privilégio de privar por algumas vezes e que nos deixou recentemente, legando-nos, no entanto, a força de uma música que prima pela intemporalidade e rompe as fronteiras da alma.

Como não podia deixar de ser, foi com Fausto que teve início o concerto e com “A Memória dos Dias”, espantosa composição que abre “O Despertar dos Alquimistas”, um álbum que se prepara para fazer 40 anos. Assistiu-se, desde logo, a um trabalho de orquestração notável, ao qual Ela Vaz acrescentou a paixão da sua voz, preenchendo de imagens poéticas e de sentimentos profundos o momento inaugural, as palavras perfumadas pelo cravo e pelo alecrim como símbolos de esperança que teima em manter-se viva face aos atentados à liberdade a que vamos assistindo. Seguiu-se “Caminho Certo”, um tema que Ela Vaz foi buscar ao seu “Eu” e tem o dedo de Viriato Teles e Ricardo Fino, para logo se afirmar um velho e enorme amigo, Zeca Afonso, de quem se escutou “Mulher da Erva”, essa “vela que a onda condena” e que nos traz uma mulher que, como tantas outras, não tem, e nunca teve, futuro. Antes de passar o testemunho a A Garota Não, Ela Vaz voltou a abraçar Fausto em “Porque Me Olhas Assim”, de novo a Banda a fazer vir ao de cima a beleza e riqueza das sonoridades do autor de “O Barco Vai de Saída” e “A Guerra é a Guerra”.

Cantada a meias, “Canção Sem Final” trouxe ao palco A Garota Não e a sua música de protesto e desafio – “podem decretar o fim da arte / e a gente faz uma canção sobre isso”. “Entregue a si própria”, mas sempre com o abraço da Banda Amizade à qual teceu os mais rasgados elogios, A Garota Não interpretou quatro das suas músicas mais conhecidas – “422”, “Mulher Batida”, “Urgentemente” (com uma quase imperceptível mas muito significativa alteração da letra, trocando “ódio” por “chega”) e “Dilúvio” – antes de devolver o palco a Ela Vaz que cantou “Queixa das Almas Jovens Censuradas” naquele que terá sido o momento mais alto da noite, a Banda a tirar o maior partido da genialidade da música de José Mário Branco e a abrir espaço para a beleza e intensidade da poesia de Natália Correia. Seguiram-se dois temas que resultam da colaboração da cantora aveirense no novo trabalho discográfico de Toli César Machado, “Sul” e “Adeus Liberdade”, esta última com uma mensagem muito forte, a de que “os homens precisam sonhar”, brilhantemente ilustrada por Gabriel Manarte que assegurou os desenhos ao vivo e em tempo real que foram desfilando na tela ao longo da noite.

Entramos na recta final do concerto e é de novo A Garota Não a brindar o público com as suas tiradas assertivas – “se eu cantasse como ela [Ela Vaz] chegava aqui e só dizia boa-noite” – e a atrever-se a mergulhar no universo de Fausto com “Roupa Velha”. Anima-se a plateia, tornam-se audíveis as palmas a compasso e os corpos balançam ao sabor de “Lá No Xepangara” e “Canto Moço”, de Zeca Afonso. “Só temos mais duas músicas, por isso, agora, dêem tudo nas palmas, nos gritos e no ‘linda, és linda’”, pede A Garota Não, arrancando gargalhadas à plateia. Primeiro, “Canção a Zé Mário Branco”, num arranjo que viu uma parte da banda a trocar os instrumentos por esse outro instrumento fantástico que é a voz e a juntar-se num afinado coro. Por fim, a loucura: bombos pela sala, muitas palmas, punhos erguidos e vivas à liberdade, ao som de “Eu Vi Este Povo a Lutar (Confederação)”. O público ergueu-se das cadeiras, juntando a sua à voz das cantoras num tema com direito a “bis”. Nos 190 anos da Banda Amizade, Abril e os seus valores calaram bem alto nos corações de todos. “Bandeira vermelha / Bem alevantada / Ai minha senhora / Que linda desfilada”.

domingo, 3 de novembro de 2024

CONCERTO: Carta Branca a Selma Uamusse



CONCERTO: Carta Branca a Selma Uamusse
Com | Orquestra Geração, Augusto Macedo, Gonçalo Santuns, Nataniel Melo, Nilton Gulli, Active Mess, Ola Mekelburgh, Bárbara Wahnon, Nayr Faquirá, Yery Varela, Yeni Varela, A garota não
Centro Cultural de Belém - Grande Auditório
01 Nov 2024 | sex | 20:00


O Centro Cultural de Belém voltou a preencher o espaço do Grande Auditório com a música, a energia e os ritmos de África. A celebrar uma década de carreira artística, Selma Uamusse aceitou o desafio da criação de um novo, inédito e único espectáculo ao vivo, trazendo para o palco um conjunto alargado de temas dos seus dois álbuns a solo, “Mati” e “Liwoningo”. Mulher, mãe de quatro pequenas mulheres, neta e filha de duas grandes mulheres, Selma Uamusse vincou o lugar da feminilidade nesta carta aberta, celebrando a mulher que é, as mulheres que a geraram, as que admira e as que a inspiram. Foi com elas que subiu ao palco, fazendo das quase duas horas de concerto um tempo de escrita de uma carta a muitas mãos, elegante, jovial, generosa e talentosa. Com elas e com os jovens da singular Orquestra Geração, um projecto social que se foca na inserção social e na capacitação de crianças e jovens, cúmplices na escrita desta carta aberta ao futuro, que deixou de ser branca, mas antes uma paleta de cores, talentos e dons.

Teve o cheiro da liberdade, esta Carta Branca. Numa folha em branco, carregada de sonhos e vontades, Selma Uamusse quis pôs cor e gente, sorrisos e alegria, mas também espaço para respirar, escutar, quiçá chorar. Espaço para as histórias e as memórias, espaço para celebrar o presente, mas também para ter prazer na espera e na esperança do futuro, convicta de que o melhor está ainda por chegar. Daí que não pudesse faltar, nesta noite memorável, a dona de uma voz de maior relevância no panorama actual musical e no que diz respeito à dignidade, ao cuidado com as palavras e ao outro: A garota não. “Cidadania”, uma canção escrita para Selma Uamusse e cantada pelas duas artistas, foi mais um grito contra as injustiças e dores dos que não nascem num seio privilegiado. Convidado a embarcar numa viagem disposta a abraçar novos rumos, visões, canções e acções, o público não se fez rogado. Cantou, pulou, dançou a marrabenta, ensaiou passos tímidos na língua Bantu e, numa sequência de momentos alegres e prazerosos, foi feliz.

Nos 50 anos de democracia em Portugal e, em breve, de 50 anos de independência de Moçambique, esta foi uma carta que celebrou os movimentos de libertação dos países africanos de expressão portuguesa, pintando com as cores de todos eles um novo quadro que não esquece o passado, mas celebra as possibilidades do futuro através da arte, através da música. Sem medo de olhar para trás, Selma Uamusse fez desta carta branca uma carta de amor e comunhão, chamando ao palco o pouco conhecido património cultural moçambicano, as suas línguas, instrumentos tradicionais, ritmos e polifonias, em temas como “Hoyo Hoyo” ou “Hossi Anga”, “Amatuetwetwe” ou “Ngono Utana Vuna Kudima”. Carregadas de paixão, fé e esperança, com a música vieram palavras de paz, palavras de ordem, palavras de amor e de dor, clamores, louvores. Moçambique e Portugal unidos, olhos nos olhos, com o mesmo pulsar no coração através da música, e em palco, celebrando as suas diferentes identidades. Khanimambo, Selma Uamusse.

domingo, 15 de outubro de 2023

CONCERTO: A garota não



CONCERTO: A garota não
Com | Ensemble de Cordas da Escola Profissional de Música de Espinho
Direcção | Trevor McTait (arranjos de Nuno Peixoto e Francisco Ribeiro)
Auditório de Espinho
14 Out 2023 | sab | 21:30


“Espinho recebe Setúbal para a 38ª jornada do campeonato. O árbitro já avisou que em vez de cartões amarelos e vermelhos levará consigo uma cartolina a dizer “Casa comigo, Sérgio Miendes!” O Setúbal preparou um alinhamento fortíssimo e vai entrar em palco num esquema de 3 + 15 com o maravilhoso Ensemble de Cordas da Escola Profissional de Música de Espinho. A treinadora justifica a opção do extraordinário número de players com a necessidade de fazer frente à exigente plateia de espinhenses que esgotaram o estádio antes mesmo dos bilhetes terem sido postos à venda (sensacionalismo).”

Foi desta forma - ousada, irreverente, carregada de humor e ironia - que Cátia Mazari Oliveira, A garota não, se fez anunciar na sua vinda a Espinho, para um concerto há muito tempo esgotado. Um concerto que foi, todo ele, um manancial de livre pensamento, feito de químicas e dilúvios, de amores urgentes e canções sem final. Interventiva, contestária, insatisfeita, inquieta, ao longo de quase duas horas A garota não partilhou com o público a força das palavras e a beleza da música, entremeando-as com saborosas histórias onde couberam, entre outros, um cdzito a rodar constantemente e a massacrar clientes de um restaurante “com músicas que não valem uma bufa”, um carola que perfez 50 concertos de A Garota Não (“o que diz muito da sua sanidade mental”), canções do amor que correu bem e canções do amor que correu mal, relações falhadas mas bons amigos, a bancada mais à direita do parlamento substituída por uma bancada de poetas, o futebol filosófico dos Monty Python, os discos do Sérgio Miendes ou a vingança dos técnicos de som.

Na esteira das histórias de A garota não, conto também uma história. Há um mês atrás fui à FNAC. Queria comprar o 2 de Abril, o CD de que tanto se tem falado, não só para poder ouvi-lo sempre que o entendesse mas, também, para poder levá-lo para o concerto e, quem sabe, colher um autógrafo. Na loja disseram-me que não, que nem em vinil, que o 2 de Abril não conheceu suporte físico, apenas nas plataformas digitais poderia ser encontrado. Ontem soube que é falsa a informação. Comprei o CD (comprei também o anterior CD da cantora e ainda o do Sérgio Mendes) e, para espanto meu, vinha assinado e tudo. Importa agora dizer o seguinte: Este disco é todo feito à mão, sai à cantora os olhos da cara. Se ela pusesse os seus discos à venda nas FNAC’s e em lojas assim, “de peso”, ainda teria de pagar para os ter lá. Por isso prefere manter o processo em modo caseiro, tipo trabalhos manuais, “de mãos dadas com uma menina em Setúbal que se chama Ana Polido e que faz deliciosos trabalhos de costura, unidade a unidade.” A liberdade não está à venda. Conquista-se. Mas dá muito trabalho.

Na companhia de Diogo Costa (bateria e percussão) e Sérgio Mendes (guitarras), a cantora deu-se a ver de forma limpa e livre, revelando influências que vão do hip hop ao reggae, da música cabo-verdiana à música popular brasileira. No fundo das letras e das músicas descobrimos os genes do arrojo e da bravura, da arte e do talento. Também os genes da verdade, do peito aberto, que a mostram em brandura e sonho, vontade de lutar e vontade de vencer. Foi comovente a forma como soube agradecer o empenho dos 15 elementos do Ensemble de Cordas da Escola Profissional de Música de Espinho, que enriqueceram temas como “Prédio mais alto”, “Não sei o que é que fica” e Dilúvio”. Com ela, o público soube que há vozes que não se calam, que acreditam em lugares melhores do que aquele em que nos encontramos e que procuram, com as suas canções, servir de veículo para que esses lugares possam estar mais perto de nós. Lugares que cantem um dia mais claro e um tempo mais doce, lugares de todos - pretos, baixos, velhos, tortos -, lugares onde não se tenha de chorar a morte da Maria das Dores (e da Sara, da Cássia, da Madalena, da Assunção, da Maria, da Elsa, da Conceição, e de todas as outras mulheres mortas, vítimas de violência doméstica em 2022). O caminho é longo, a viagem é comprida, mas A garota não está a fazê-lo.

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]