TEATRO: “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem”
A partir da obra de Manuel António Pina
Direcção | Victor Hugo Pontes
Dramaturgia | Jacinto Lucas Pires, Victor Hugo Pontes
Música | A garota não
Cenografia | Fernando Ribeiro
Figurinos | Luís Carvalho
Interpretação | Ana Afonso Lourenço, Catarina Carvalho Gomes, Daniel Teixeira Pinto, Jorge Mota, Joana Carvalho, José Santos, Marco Olival, Patrícia Queirós, Pedro Frias, Siobhan Fernandes
Produção | Teatro Nacional São João
80 Minutos | Maiores de 6 Anos
Teatro Nacional de São João
29 Mar 2026 | dom | 16:00
Começaria por dizer que “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” é uma preciosidade, uma peça de visão obrigatória. Nascida de um encontro particularmente feliz entre a matéria viva e fecunda de Manuel António Pina e o exercício de dramaturgia finamente “costurado” por Jacinto Lucas Pires e Victor Hugo Pontes, respeita a fragmentação e a deriva próprias do universo literário do jornalista e escritor, apostando na criatividade como matriz e na dispersão como método. Estruturada num tecido coerente de tensões, ecos e ressonâncias, ela traz-nos os gatos de Manuel António Pina, obviamente, mas também a ingenuidade aparente, a curiosidade e o questionamento constante próprios da infância, os trocadilhos e ambiguidades que fazem da linguagem um jogo, o inesperado (e poético) que brota do meio do banal, e sempre - mas sempre! - um humor fino, por vezes quase imperceptível, capaz de desmontar todas as certezas. Longe de ser apenas técnica, a construção dramatúrgica torna-se o próprio lugar de pensamento de um espectáculo onde cada fragmento encontra o seu peso específico numa arquitectura fluida e em constante recomposição.
É igualmente notável a forma como a essência de coreógrafo de Victor Hugo Pontes atravessa todo o espectáculo, conferindo-lhe uma identidade singular onde palavra, música e corpo se entrelaçam de modo indissociável. A dança não surge como ornamento, mas como pensamento em movimento, um contraponto expressivo que dá corpo às zonas de indeterminação do texto. A excelência da composição musical, assinada por A garota não, vem intensificar o valor e alcance da peça, funcionando não como mero suporte, mas como um plano sensível autónomo que respira com a cena, abrindo fendas emocionais e ampliando o alcance do que é dito, mas sobretudo do que permanece por dizer. E há, também (ou sobretudo) um conjunto de actores em estado de graça, capazes de habitar o espaço com uma precisão física e sensorial que transforma cada gesto, cada pausa e cada deslocação em matéria significativa. O movimento, a pose, a mímica e as qualidades vocais são mostrados com uma delicadeza rara, acentuando a unidade impressionante do colectivo, a escuta comum que sustenta o risco e a instabilidade da proposta, permitindo que o espectáculo se mantenha vivo, permeável e em constante transformação diante do espectador.
No centro de tudo, permanece a extraordinária obra de Manuel António Pina, cuja força se impõe não apenas como ponto de partida, mas como urgência renovada. A peça não se limita a divulgar o autor: convoca-o, interroga-o e, sobretudo, reabre a necessidade da sua descoberta - ou redescoberta - num tempo que tantas vezes esquece a complexidade da linguagem e a força do pensamento poético. Atravessada por um tom nostálgico e introspectivo, a peça mergulha directamente na singularidade do universo do escritor, uma zona de permanente desajuste, habitada por sábios que recusam certezas e se mostram inteiros na sua clareza e fragilidade. Ao expor a dúvida como método e a imperfeição como motor, “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” devolve-nos à essência inquieta da escrita de Manuel António Pina, fazendo dela uma experiência partilhada, sensível e profundamente contemporânea. O resultado é uma criação que recusa a estabilidade e a clausura, afirmando-se como travessia e como gesto de resistência. Um convite a desacelerar, a escutar de novo e a reencontrar, no intervalo entre palavras e corpos, esse lugar inaugural onde o sentido ainda se constrói de pernas para o ar. Sempre em aberto, sempre em risco.
[Foto: Teatro Nacional São João | https://www.facebook.com/TeatroNacionalSaoJoao]
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