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terça-feira, 26 de maio de 2026

DANÇA: “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer” | Victor Hugo Pontes



DANÇA: “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Cenografia | F. Ribeiro
Direcção técnica e desenho de luz | Wilma Moutinho
Interpretação Abel Rojo, Alejandro Fuster, Ana de Oliveira e Silva, Ángela Diaz Quintela, Daniela Cruz, Dinis Duarte, Esmée Aude Capsie, Inês Fertuzinhos, João Cardoso, Joana Couto, José Jalane, José Santos, Liliana Oliveira, Rémi Bourchany, Tiago Barreiros, Tomás Fernandes, Valter Fernandes
Produção | Nome Próprio
75 Minutos | Maiores de 16 Anos
FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica
Teatro Nacional S. João
23 Mai 2026 | sab | 19:00


Há espectáculos que ocupam um palco. “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer” ocupa um estado de espírito. Através dele, Victor Hugo Pontes regressa ao corpo como quem regressa ao primeiro território político, esse lugar inaugural onde a opressão começa e a liberdade encontra ainda a possibilidade de nascer. Logo no início, dois corpos medem-se num duelo que parece também um reconhecimento impossível: aproximam-se e recuam, como se a intimidade fosse ainda uma ameaça herdada. Depois, lentamente, o palco enche-se de uma humanidade nua, vulnerável e imensa. Não se trata aqui da nudez como provocação, mas como despojamento radical, um corpo sem ornamento, sem classe, sem época, sem defesa. Atravessada por enormes hélices suspensas, o cenário faz pensar simultaneamente num hangar, numa fábrica e numa catedral profana. Tudo parece preparado para uma transformação iminente, embora ninguém saiba exactamente de que forma ela chegará. É nesse intervalo, entre a expectativa e o abismo, que a peça encontra a sua pulsação mais funda. O verso de José Mário Branco deixa de ser citação e torna-se atmosfera: Há sempre qualquer coisa prestes a acontecer. E o mais inquietante é perceber que essa coisa talvez já esteja a acontecer dentro dos corpos, antes sequer de ganhar nome ou história.

Victor Hugo Pontes constrói esta criação como uma sucessão de imagens que recusam fixar-se numa narrativa fechada. Há ecos de Pina Bausch, de Géricault, de Delacroix, de antigos rituais pagãos e de manifestações contemporâneas; mas tudo surge contaminado por uma matéria profundamente física, quase animal, onde o colectivo ganha uma densidade emocional única. Os dezanove intérpretes movem-se como um organismo único, feito de músculos, suor, respiração e confiança. Há mãos que carregam cabeças, pernas que sustentam troncos, corpos que se empurram e amparam numa coreografia onde o contacto foge ao decorativismo para se tornar num gesto de sobrevivência. A beleza da peça nasce precisamente dessa oscilação entre fragilidade e potência. Cada quadro parece surgir do caos para logo regressar a ele, como se a comunidade fosse uma construção permanentemente ameaçada. Apesar da iminência da queda, o espectáculo insiste na possibilidade da ternura. Há uma delicadeza tocante na forma como aqueles corpos nus se oferecem ao olhar de todos, sem vergonha nem heroísmo. O palco transforma-se então num lugar de confiança absoluta, algo raro nos tempos que correm, habituados que estamos à à vigilância, à ironia e ao medo da exposição. Talvez por isso esta criação perturbe tanto, porque nos confronta com uma ideia de liberdade na qual já deixáramos de acreditar.

A dramaturgia visual da peça possui uma força invulgar na paisagem da dança portuguesa contemporânea. Victor Hugo Pontes não trabalha o movimento como mero virtuosismo coreográfico; trabalha-o como pensamento encarnado. Cada deslocação parece responder a uma pergunta antiga: Como dança um corpo depois da repressão? Como se move uma comunidade depois da violência? O espectáculo evita respostas fáceis e prefere permanecer nesse território inquieto onde a libertação é simultaneamente desejo e risco. Quando os intérpretes atravessam o palco numa explosão de energia colectiva, ou quando irrompe o coro de “I Want to Break Free”, dos Queen, não estamos perante uma celebração ingénua da liberdade, mas perante a memória física da sua conquista. O que emociona não é o triunfo; é o processo. A sensação de que aqueles corpos aprenderam lentamente a confiar uns nos outros, a respirar juntos, a cair juntos. Há algo profundamente comovente nesta insistência do colectivo num tempo histórico marcado pela atomização e pela fadiga social. Cinquenta anos depois do 25 de Abril, o espectáculo não procura monumentalizar a Revolução, antes reencontrar-lhe a temperatura humana. Em vez de nostalgia, oferece presença; em vez de discurso, oferece pele.

No final, fica a impressão de termos atravessado não apenas um espectáculo, mas uma espécie de ritual contemporâneo sobre a condição humana. “Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer” convoca-nos para um lugar anterior ao cinismo, onde ainda é possível acreditar que os corpos podem transformar o mundo ou, pelo menos, impedir que ele endureça completamente. A peça recorda-nos que toda a liberdade começa por uma exposição: mostrar-se, despir-se, deixar cair as armaduras interiores. Há qualquer coisa de profundamente político nesta escolha de vulnerabilidade. Num tempo saturado de identidades performativas e de violência simbólica, estes corpos nus devolvem à cena uma verdade desarmante: Somos frágeis, semelhantes, transitórios. E talvez seja exactamente por isso que precisamos uns dos outros. O espectáculo termina, mas a sua imagem persiste muito para lá do aplauso. Não uma imagem fixa, mas um movimento contínuo, quase subterrâneo, como se aqueles corpos continuassem ainda a respirar dentro de nós. Saímos do teatro com a estranha sensação de que a mudança não pertence apenas às grandes revoluções históricas; pertence também ao instante em que um corpo decide aproximar-se de outro sem medo. É pouco? É tudo.

[Foto: ©José Caldeira | https://www.tnsj.pt/]

sexta-feira, 3 de abril de 2026

TEATRO: “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” | Victor Hugo Pontes



TEATRO: “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem”
A partir da obra de Manuel António Pina
Direcção | Victor Hugo Pontes
Dramaturgia | Jacinto Lucas Pires, Victor Hugo Pontes
Música | A garota não
Cenografia | Fernando Ribeiro
Figurinos | Luís Carvalho
Interpretação | Ana Afonso Lourenço, Catarina Carvalho Gomes, Daniel Teixeira Pinto, Jorge Mota, Joana Carvalho, José Santos, Marco Olival, Patrícia Queirós, Pedro Frias, Siobhan Fernandes
Produção | Teatro Nacional São João
80 Minutos | Maiores de 6 Anos
Teatro Nacional de São João
29 Mar 2026 | dom | 16:00


Começaria por dizer que “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” é uma preciosidade, uma peça de visão obrigatória. Nascida de um encontro particularmente feliz entre a matéria viva e fecunda de Manuel António Pina e o exercício de dramaturgia finamente “costurado” por Jacinto Lucas Pires e Victor Hugo Pontes, respeita a fragmentação e a deriva próprias do universo literário do jornalista e escritor, apostando na criatividade como matriz e na dispersão como método. Estruturada num tecido coerente de tensões, ecos e ressonâncias, ela traz-nos os gatos de Manuel António Pina, obviamente, mas também a ingenuidade aparente, a curiosidade e o questionamento constante próprios da infância, os trocadilhos e ambiguidades que fazem da linguagem um jogo, o inesperado (e poético) que brota do meio do banal, e sempre - mas sempre! - um humor fino, por vezes quase imperceptível, capaz de desmontar todas as certezas. Longe de ser apenas técnica, a construção dramatúrgica torna-se o próprio lugar de pensamento de um espectáculo onde cada fragmento encontra o seu peso específico numa arquitectura fluida e em constante recomposição.

É igualmente notável a forma como a essência de coreógrafo de Victor Hugo Pontes atravessa todo o espectáculo, conferindo-lhe uma identidade singular onde palavra, música e corpo se entrelaçam de modo indissociável. A dança não surge como ornamento, mas como pensamento em movimento, um contraponto expressivo que dá corpo às zonas de indeterminação do texto. A excelência da composição musical, assinada por A garota não, vem intensificar o valor e alcance da peça, funcionando não como mero suporte, mas como um plano sensível autónomo que respira com a cena, abrindo fendas emocionais e ampliando o alcance do que é dito, mas sobretudo do que permanece por dizer. E há, também (ou sobretudo) um conjunto de actores em estado de graça, capazes de habitar o espaço com uma precisão física e sensorial que transforma cada gesto, cada pausa e cada deslocação em matéria significativa. O movimento, a pose, a mímica e as qualidades vocais são mostrados com uma delicadeza rara, acentuando a unidade impressionante do colectivo, a escuta comum que sustenta o risco e a instabilidade da proposta, permitindo que o espectáculo se mantenha vivo, permeável e em constante transformação diante do espectador.

No centro de tudo, permanece a extraordinária obra de Manuel António Pina, cuja força se impõe não apenas como ponto de partida, mas como urgência renovada. A peça não se limita a divulgar o autor: convoca-o, interroga-o e, sobretudo, reabre a necessidade da sua descoberta - ou redescoberta - num tempo que tantas vezes esquece a complexidade da linguagem e a força do pensamento poético. Atravessada por um tom nostálgico e introspectivo, a peça mergulha directamente na singularidade do universo do escritor, uma zona de permanente desajuste, habitada por sábios que recusam certezas e se mostram inteiros na sua clareza e fragilidade. Ao expor a dúvida como método e a imperfeição como motor, “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” devolve-nos à essência inquieta da escrita de Manuel António Pina, fazendo dela uma experiência partilhada, sensível e profundamente contemporânea. O resultado é uma criação que recusa a estabilidade e a clausura, afirmando-se como travessia e como gesto de resistência. Um convite a desacelerar, a escutar de novo e a reencontrar, no intervalo entre palavras e corpos, esse lugar inaugural onde o sentido ainda se constrói de pernas para o ar. Sempre em aberto, sempre em risco.

[Foto: Teatro Nacional São João | https://www.facebook.com/TeatroNacionalSaoJoao]

segunda-feira, 16 de março de 2026

CONCERTO: A garota não: Um concerto acústico



CONCERTO: “A garota não: Um concerto acústico”
Com | A garota não (voz e guitarra), João Mota (guitarra), Sérgio Miendes (guitarra e baixo)
Teatro Nacional de São João
14 Mar 2026 | sab | 16:00



É no coração da peça “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem”, dirigida por Victor Hugo Pontes e actualmente em cena no Teatro Nacional de São João, que vamos encontrar a música de A garota não. Reunida num momento verdadeiramente único, o concerto acústico foi música, mas foi também regresso. Um regresso demorado às palavras de Manuel António Pina, como quem volta mansamente a um lugar que já habitou e onde permanece ainda uma parte de si. Entre silêncios e canções, embalos e muitas confissões, Cátia Mazari Oliveira conduziu o público por um território íntimo onde poesia e melodia se confundiram, como se cada verso estivesse à espera de ser cantado desde o momento em que Pina o escreveu. A artista não interpretou simplesmente poemas, antes escutou-os por dentro e devolveu-os em forma de música, revelando uma rara capacidade de tratar as palavras como matéria viva, frágil e luminosa. Os temas tiveram o condão de abrir espaço para um mundo inteiro, ao qual a infância regressou pé ante pé, as recordações a moverem-se como sombras nas paredes de uma casa desenhada com cuidado e onde a música, como nos versos do próprio Pina, mostrou ter olhos fulgurantes capazes de transformar quem a escuta em canto.

Acompanhada pelos “hermanos salmonetes del Sado”, João Mota na guitarra e Sérgio Miendes na guitarra e baixo, A garota não desenhou um concerto que foi como uma viagem pelo génio irrequieto e sensível de Manuel António Pina, mas também pela originalidade e inventividade da cantora. Nos poemas tornados em canção - de “Amor como em casa” a “Os Gatos”, de “Como se desenha uma casa” a “[4 de Juho de 1965]” -, percebeu-se o milagre raro de duas vozes artísticas que se encontram, sem nunca se terem encontrado fisicamente. Mais do que ilustrar os textos, as ideias, os pensamentos ou as afirmações de Manuel António Pina e daqueles que sobre ele tiveram algo a dizer, A garota não procurou habitá-los. E ao fazê-lo, trouxe para o concerto aquilo que talvez seja o coração secreto da uma obra reconhecidamente viva e livre: a infância, esse lugar frágil e absoluto onde se escondem as primeiras perguntas sobre o mundo. As canções espalharam-se pelo espaço da bonita sala do São João como pequenas chamas acesas na memória de todos, convocando a ternura, a inquietação e a ironia que atravessam a escrita do poeta. O público escutou em silêncio, não um silêncio vazio, mas aquele silêncio atento que nasce quando sentimos que algo essencial está a acontecer diante de nós.

Mas este encontro da cantora com poeta não viveu apenas da memória, da delicadeza e do sonho. Houve nele também uma força crítica a ligar intimamente os dois universos. Quem conhece o percurso artístico de A garota não reconhece a sua música de intervenção, a coragem com que denuncia injustiças e desmonta as pequenas e grandes hipocrisias do nosso quotidiano. E é precisamente aí que a voz de Manuel António Pina ressurge com espantosa actualidade. Nos textos mais mordazes - como os que partem das suas crónicas “A Nação ao Espelho” e “J’accuse”, por exemplo - revela-se o mesmo olhar crítico, a mesma lucidez perante um país onde, tantas vezes, “nem mesmo quando as provas são provas dessas provas, o esperto dança e não cai”. Ao cruzar estas palavras com a sua música, a cantora mostra que a obra do poeta não pertence apenas à memória literária: pertence ao presente, ao debate, à inquietação moral do nosso tempo. No final, o que permanece é a sensação de termos assistido a algo raro: um concerto que foi também um acto de leitura, de escuta e de resgate. E quando a última canção se dissipou no ar, ficou no público um desejo quase físico: o de voltar aos livros do Pina, regressar às palavras do Pina, procurar nelas, outra vez, aquele lugar onde a memória, a infância e a esperança ainda podem encontrar abrigo.

domingo, 25 de fevereiro de 2024

DANÇA: "Bantu"



DANÇA: “Bantu”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Cenografia | F. Ribeiro
Música | Throes + The Shine
Figurinos | Cristina Cunha, Victor Hugo Pontes
Construção de máscaras | Cristina Cunha
Interpretação | Dinis Abudo Quilavei, Dinis Duarte, João Costa, José Jalane, Maria Emília Ferreira, Marta Cardoso, Osvaldo Passirivo
Produção | Nome Próprio
Centro de Artes de Ovar
23 Fev 2024 | sex | 21:30


Quando as luzes caem sobre nós, somos apenas sete corpos cativos da sorte. Os nossos movimentos são lentos, o olhar é vazio. O ruído do mar ecoa nos nossos ouvidos, querendo abafar o choro das nossas crianças e o tumulto da guerra em que mergulhámos há muito. Olhamos uns para os outros com o espanto dos sobreviventes. Somos migrantes em terra de ninguém. Esboçamos o gesto, mas os músculos tardam em reagir. Do toque nasce a palavra e da palavra a força de estarmos unidos. Isso sabemos. É tempo de nos sentirmos vivos, de celebrarmos as nossas origens, a nossa cultura e tradições. De celebrarmos a paz e a liberdade. Mas como falar de paz e liberdade quando os muros que se erguem à nossa volta são cada vez mais altos, cada vez mais feios. Queremos resistir, queremos dizer não, mas ninguém vê os nossos punhos cerrados, ninguém escuta os nossos gritos, ninguém ergue os nossos corpos tombados. Somos a estátua e somos a máscara, falamos línguas estranhas e partilhamos a mesma garrafa. Somos a aranha, o bicho-papão. Não somos nada... E tudo recomeça.

Depois do muito recente “Corpo Clandestino”, Victor Hugo Pontes e a Nome Próprio regressam ao palco do Centro de Artes de Ovar com mais um espectáculo de enorme significado e alcance. Com origem num convite endereçado ao coreógrafo, encenador e director artístico pelos Estúdios Victor Córdon e pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo, “Bantu” estabelece pontes entre Portugal e Moçambique, ao mesmo tempo que promove a circulação e internacionalização da dança. Acerca do projecto, podemos ler que “Bantu é um caminho por traçar, e o percurso é feito entre dois países com afinidades complexas e memórias profundas um do outro”. Para criadores e intérpretes, “este é também um lugar que desejamos ocupar, um lugar diferente para cada um dos corpos que o habita, partilhado nas feridas que rasga, titubeante no trilho que percorre; um lugar exuberante na celebração da comunidade reunida em palco.”

“Bantu designa uma família de línguas faladas na África subsariana: é identidade e é comunidade. Mas é mais do que uma ocorrência linguística, podendo ser uma linguagem própria que sobreviveu às línguas europeias impostas, um mecanismo identitário, um signo vedado ao colonizador, uma forma de comunicação, plena de códigos culturais, históricos, religiosos e políticos, a materialização efémera de um longo encontro. A palavra Bantu acolhe tudo o que queremos ou imaginamos que o espetáculo Bantu seja. O que Bantu será, contudo, depende dos olhos de quem vê.” Por muitas leituras que possamos fazer deste espectáculo, estou certo que esbarraremos sempre no desenraizamento, na dispersão e na deriva como marcas identitárias de um mundo pouco interessado na solidariedade, na igualdade e na integração. É por isso que Bantu é tão importante, pelo que congrega e aproxima, pelo que descodifica e torna legível, pelo que amplia e partilha. Falta apenas dizer que as interpretações são maravilhosas - inesquecíveis as sequências de “tableux vivants” - e que o primor dos cenários e do trabalho de luz e de som elevam este espectáculo a um nível de grandeza superior.

[Foto: Ovar/Cultura | https://www.facebook.com/ovarcultura]

sábado, 11 de novembro de 2023

DANÇA: "Corpo Clandestino"



DANÇA: “Corpo Clandestino”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Cenografia | F. Ribeiro
Música | Joana Gama, Luís Fernandes
Direcção técnica e desenho de luz | Wilma Moutinho
Figurinos | Cristina Cunha, Victor Hugo Pontes
Interpretação | Ana Afonso Lourenço, Andreia Miguel, Gaya de Medeiros, Joãozinho da Costa, Mafalda Ferreira, Paulo Azevedo, Valter Fernandes
Direcção de produção | Joana Ventura
Centro de Arte de Ovar
10 Nov 2023 | sex | 21:30


Quando as luzes se extinguem na sala e deixam o palco a descoberto, percebemos que a sua nudez está povoada de vultos. Naquelas vestes que cobrem os corpos e remetem para uma cultura diversa, há uma estranheza a abater-se sobre nós. Num primeiro vislumbre, algo nos diz que a mulher está no eixo da diferença, mesmo que venhamos a ver mais tarde que a diferença está por toda a parte e que aquilo que nos separa é, justamente, o que mais nos aproxima uns dos outros. Altos, baixos, gordos, magros, brancos, pretos, elegantes, disformes, os vultos vão-se dando a conhecer nos movimentos que ensaiam e depois encaixam, como se de um corpo apenas se tratasse: sinérgico, solidário, cúmplice. Quando as vestes caem, a estranheza dá lugar ao espanto. Sujeito e complemento de si próprio, o corpo cresce e multiplica-se, prende e liberta, encolhe e amplia-se numa respiração que é só sua. Combina gestos, adopta formas, assume a sua identidade, toca o céu dos seus próprios limites, ganha asas e faz-se livre.

Estranheza. Diferença. Movimento. Nudez. Corpo. Em conjunto, estas cinco palavras definem a essência de “Corpo Clandestino”, extraordinário espectáculo de dança que faz mais pela afirmação das liberdades individuais e pelo direito à diferença do que mil campanhas de sensibilização para a necessidade de sermos mais empáticos e compassivos uns com os outros, mais eficazes na construção de um mundo que se quer justo e livre. Apontando o dedo aos padrões de normalidade pelos quais se regem as sociedades actuais, pondo em causa verdades e consequências, a peça quebra com os tabus, faz do preconceito a face mais visível da diferença e estilhaça em mil pedaços o dogma e a norma. A superação afirma-se na simplicidade de uns dedos que percorrem um corpo, na disponibilidade de umas mãos que se dão ou de uns braços que prendem com força, na complexidade de um coto tornado funcional pelo crer e pela vontade. Nunca o movimento teve tanto significado, nunca o gesto foi tão expressivo.

Confesso que não estava à espera de ver o que vi. Victor Hugo Pontes e a Nome Próprio há muito que me habituaram a entender a dança como um território de causas no qual a palavra adquire relevância e se assume como parte maior de um espectáculo cuja preponderância associamos à expressão corporal, ao gesto e ao movimento. Depois de “Margem” e de “Porque É Infinito”, era essa a minha expectativa. Neste “Corpo Clandestino”, porém, a fala está praticamente ausente, e só nos babélicos quadros finais, quando as máscaras caem em definitivo e já nada esconde aquilo que se é realmente, surge feita de sons guturais, ininteligíveis, sinónimo de raiva, impotência, incomunicabilidade. É o corpo que, clandestinamente, se ergue como lugar da fala, da expressão de desejos e afirmação de vontades, ansioso por mostrar aquilo de que é capaz. Cabe, enfim, uma palavra para o trabalho de interpretação a cargo de sete talentosos bailarinos / actores. Não distinguirei um em particular, de tal forma foram brilhantes de expressividade e entrega. Distinguirei, sim, a expressão da sua felicidade nos sorrisos de cada um. É meu o sorriso deles. É deles o meu sorriso.

[Foto: Ovar/Cultura | https://www.facebook.com/ovarcultura]

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

TEATRO / DANÇA: "Porque É Infinito"



TEATRO: “Porque É Infinito”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Texto | Joana Craveiro, a partir de uma releitura de “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare
Cenografia | F. Ribeiro
Música original | Rui Lima e Sérgio Martins
Direcção técnica e desenho de luz | Wilma Moutinho
Desenho de som | Leandro Leitão
Figurinos | Cristina Cunha, Victor Hugo Pontes
Interpretação | António Júlio, Benedito José, Inês Azedo, Ivo Santos, José Ferreira, Luísa Guerra, Pedro Frias, Rui Pedro Silva, Santiago Mateus, Sofia Montenegro, Vera Santos
Produção | Nome Próprio
Duração 90 minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Nacional São João
01 Dez 2021 | qua | 19:00


Escrita entre 1591 e 1595, nos primórdios da carreira literária de William Shakespeare, “Romeu e Julieta” é uma das mais belas e trágicas histórias de amor de todos os tempos. Através dela se imortaliza Romeu, filho único da família Montéquio, e Julieta, filha única da família Capuleto, que se conhecem durante um baile de máscaras em Verona e se apaixonam perdidamente um pelo outro. O seu amor proibido e o desenlace fatal da relação levam a que a história seja um arquétipo do amor juvenil, com as suas deslumbrantes paixões e os seus desgostos viscerais. Foi este o foco da releitura que Joana Craveiro fez da peça, colocando a adolescência em pano de fundo e questionando o amor e os seus limites. Victor Hugo Pontes acrescentou-lhe uma linguagem coreográfica que exalta o turbilhão de emoções em “tempo de excessos adolescentes e de madrugadas longas”. O resultado é este “Porque É Infinito” e é genial.

Há aspectos neste trabalho que importa realçar. Comecemos por onde normalmente ninguém começa, pela direcção técnica e desenho de luz, assinados por Wilma Moutinho. Só com aquela luz, os “quadros vivos” poderiam atingir tais níveis de beleza, as sombras destacarem-se na imensidão do palco, a amálgama de objectos materializarem-se ou os corpos ganharem a dimensão pretendida. Depois há o texto e a forma como é tornado actual sem se desviar do cânone. Vertidas sobre a linguagem do quotidiano, as palavras brotam em diálogos ricos de significado, explorando a ambiguidade e o equívoco, temperados com generosas doses de humor. Assente no ritmo e na batida forte da música original de Rui Lima e Sérgio Martins, a dança vem dar expressão à riqueza do texto, transpondo o torvelinho de emoções para os corpos que, em palco, se apartam ou se enleiam, se multiplicam em gestos, se desgarram, se recompõem.

“Já te aconteceu?” Informal, a interrogação suceder-se-á ao longo da peça, como se um comentador viesse à boca de cena convidar-nos a escavar mais fundo, a romper a espessura das aparências. Aos actores é dada liberdade para, sempre que se justifique, fazerem uma pausa e meditarem na origem ou consequências dos actos que as suas personagens acabam de praticar. Por arrasto, o público é levado a reflectir também, tornando-se cúmplice da trama. Assim nasce um muito útil “manual de instruções”, espécie de guia para sobreviver a corações despedaçados e afins. Dando vida às personagens, oito jovens, com idades entre os 15 e os 20 anos, puseram à prova a sua capacidade de representação e mostraram saber estar em cima de um palco, algo que aconteceu pela primeira vez para a maioria deles. Chapelada da boa para o Ivo, a Inês, o Benedito, a Ana Luísa, o José, o Santiago, a Sofia e o Rui Pedro (e também para os menos novos Pedro, Vera e António Júlio), pela sua generosidade e enorme cumplicidade. Isso foi muito visível da plateia. Parabéns para todos eles.

[Foto: José Caldeira | https://www.nomeproprio.pt/]

terça-feira, 19 de junho de 2018

TEATRO: "Margem"



TEATRO: “Margem”
Texto | Joana Craveiro
Direcção | Victor Hugo Pontes
Cenografia | F. Ribeiro
Música | Marco Castro e Igor Domingues
Interpretação | Alexandre Tavares, André Cabral, David S. Costa, Hugo Fidalgo, João Nunes Monteiro, José Santos, Magnum Soares, Marco Olival, Marco Tavares, Nara Gonçalves, Rui Pedro Silva e Vicente Campos
Produção | Nome Próprio
Teatro do Campo Alegre
16 Jun 2018 | sab | 17:00
FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


— Esta não é uma história de 1937.
— Ou só de 1937.
— E todos os exemplares queimados do livro numa praça pública da Bahia não conseguiram que a história ficasse só em 1937 e aí morresse.
— Junto com o Sem-Pernas que se lançou no morro, com ódio dos que o perseguiam.
— Junto com a Dora que morreu de amor.
— De febre.
— De amor.
— Junto com todos os outros que nestes 80 anos ficaram pelo caminho.
— Às vezes pensamos que caminho é este que engole tantos.
— Sem que eles tenham tempo de dizer «estamos aqui».

80 anos volvidos sobre a publicação de “Capitães da Areia” - retrato amargo dos meninos de rua no trapiche baiano, da autoria de Jorge Amado -, Victor Hugo Pontes recuperou o tema e foi à procura dos novos “capitães da areia”, aqueles meninos e meninas que, nos dias de hoje, não tendo cometido crime algum, tiveram apenas a má sorte de nascer no lugar errado, algures na margem (ou à margem) da Sociedade. Com assinatura de Joana Craveiro, o texto da peça tem por base os relatos de jovens de duas instituições parceiras neste trabalho – a Casa Pia, de Lisboa e o Instituto Profissional do Terço, no Porto – e dele resulta um espectáculo de dança e teatro em partes iguais, muito rico visualmente e com uma mensagem social assertiva e plena de actualidade.

A música de Marco Castro e Igor Domingues (Throes + The Shine) espalha-se já pela sala quando as portas do Auditório se abrem para que o público possa entrar. Também já lá estão os doze jovens actores, acompanhados por duas mãos cheias de figurantes muito mais novos, uma imensa energia naqueles corpos franzinos, muita briga e jogo de bola, uma palmeira a assistir discretamente às brincadeiras das crianças e a fazer a ponte entre o Brasil tropical, palco da acção do livro, e este lado de cá do Atlântico, esta outra margem de tanto mar. Não temos aqui Pedro Bala, João Grande, o Professor, o Sem-Pernas, o Pirulito, a Dora ou o Volta-Seca, mas temos o Alexandre, o Rui Pedro, o Hugo, o David, a Nara – maravilhosa Nara, bravo! -, o Magnum ou o Marco, o que vai dar no mesmo, que o mesmo é dizer, na mesma polícia que reprime, no mesmo medo e dor, na mesma casa onde a felicidade fica à porta.


“Pobres como podres”, os novos capitães da areia partilham com os meninos de Jorge Amado uma casa que não é sua, a ausência de um pai ou de uma mãe, o estarem em défice logo à partida ou terem-se visto em défice por razões às quais são alheios. Aqui, ser criança não é achar que tudo é fantasia ou acreditar num mundo cor de rosa cheio de pipocas. Bem pelo contrário, é não pedir com os olhos, é não acreditar no poder dum sorriso, é desconhecer o carinho e o afecto. Com “Margem”, Victor Hugo Pontes abre as portas a uma realidade que afecta actualmente mais de 8.000 crianças e jovens em Portugal e deixa-nos um recado que se nos cola à pele. É o teatro, uma vez mais, a cumprir a sua missão de revelar tudo aquilo que não é imediato, a ir ao fundo do Homem.


domingo, 29 de outubro de 2017

TEATRO: "Canas 44"



TEATRO: “Canas 44”
Direção artística | Victor Hugo Pontes
Dramaturgia | Victor Hugo Pontes, com textos de Maria Gil e Fernando Giestas
Espaço cénico | Henrique Ralheta
Interpretação | Leonor Keil e Rafaela Santos
Criação | Amarelo Silvestre
Co-produção | Amarelo Silvestre, Nome Próprio, TNDM II, Centro de Arte de Ovar, Câmara Municipal de Nelas
Centro de Arte de Ovar
28 Out 2017 | sab | 22:00


Há uma mulher que parte. Uma entre muitos que, desencantados, derrotados, exaustos, partiram já em busca de mais futuro. E há uma outra que resiste, embalada no sentimento romântico do apego à terra e acreditando que talvez ainda valha a pena. Mas tão desanimada e exausta quanto a outra. Elas são Leonor e Rafaela, o lugar Canas de Senhorim. Poderiam ser quaisquer outras pessoas, num qualquer outro lugar deste “País em vias de extinção”.

Em redor das vivências e memórias das duas protagonistas, constrói-se todo um universo que recupera gentes e modos de vida, já desaparecidos ou em vias de o ser. Canas de Senhorim será sempre as minas de urânio a 500 metros de profundidade, o pó e as chuvas de cinzas constantes, as mulheres em casa e os homens na taberna, a beber - porque “quem não bebe é maricas”. Canas será sempre o Carnaval, as cameleiras e magnólias que atapetam as entradas das casas, a gente da terra e a gente de fora, gente “achadiça”. E será ainda e sempre a loja da D. Idalécia, dos incêndios que ceifam vidas, da prostituta que lia Isabel Allende ou do velho que nunca se esquecia de devolver o dinheiro emprestado.

“Canas 44” é possuidor dum texto ríquíssimo naquilo que evoca, tem duas protagonistas convictas da sua dupla identidade enquanto pessoas e atrizes e, nessa medida, empenhadas e honestas, e tem um cenário inteligentemente desenhado, cuja circularidade acentua a ideia de que, por mais que se corra, nunca se sai do sítio (o mais que se consegue é levantar poeira, que as máscaras oferecidas ao público, à entrada para o espetáculo, para alguma coisa haverão de servir). A verdade é que isto não chega para fazer um bom espetáculo. Há uma falta de fluidez na forma como o texto se desenvolve, tornando-o de difícil leitura, desconexo. Há um fio condutor que ora o é, ora deixa de o ser, como que atacado por uma “dislexia artística” que baralha e confunde o espectador. E há ainda uma tentativa de aproximação à dança que, enquanto linguagem, é um falhanço, tal a falta de segurança das atrizes no domínio desta arte. 


Admirador confesso da Amarelo Silvestre - “O que é que o pai não te contou da guerra?” ou o sublime “Museu da Existência” são duas referências ao nível do que de melhor se tem feito em teatro em Portugal nos tempos mais recentes -, é com mágoa que classifico "Canas 44" como uma peça menor. Resta, enfim, a honestidade da proposta, o que não será de somenos; mas que não chega para apagar um certo sabor amargo.


[Foto: Nélson Garrido / publico.pt]