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quinta-feira, 21 de junho de 2018

TEATRO: "Mendoza"



TEATRO: “Mendoza”
Ideia original e direcção | Juan Carrillo
Adaptação | Antonio Zúñiga e Juan Carrillo, a partir de Macbeth de William Shakespeare
Interpretação | Marco Vidal, Mónica del Carmen, Erandeni Durán, Leonardo Zamudio, Martín Becerra, Germán Villarreal, Ulises Martínez, Alfredo Monsivais, Roam León y Yadira Pérez
Máscaras | Martín Becerra
Produção | Los Colochos Teatro
Teatro Nacional de S. João
20 jun 2018 | qua | 21:00
FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


Por um lado há “Macbeth”, a mais enigmática tragédia shakespeareana, tendo como ponto de partida o encontro de um obscuro chefe de clã com três bruxas que lhe comunicam três profecias, uma das quais – a de que será coroado Rei da Escócia – despertará nele uma terrível ambição e dará início a uma espiral de violência, loucura e morte. Por outro lado temos a Revolução Mexicana, com início em 20 de Novembro de 1910, que acabou com a longa ditadura de 34 anos do general Porfírio Diáz e gerou o levantamento de líderes revolucionários icónicos como Francisco Madero, Emiliano Zapata ou Pancho Villa. Conjugando a intemporalidade da obra de Shakespeare com o mais marcante acontecimento do México no século XX, Juan Carrillo constrói “Mendoza”, perturbadora metáfora do mundo depravado em que vivemos, onde o bom é mau, o feio é belo e o justo, injusto.

A acção decorre no interior dum quadrado, os adereços reduzidos a algumas mesas e cadeiras, o público sentado em redor, misturando-se com os nove actores em palco. Bebe-se cerveja mexicana (o público também bebe). Tudo o mais é violência, assassinatos, remorsos, bruxarías e mortos que sussurram vinganças. E sangue, muito sangue, neste que é um Macbeth à mexicana, ou seja, uma peça que respeita a estrutura original da obra de Shakespeare e preserva os seus episódios principais, mas com outras palavras e outros referentes, dando a ver a realidade do México de ontem e de hoje (a contagem dos 43 estudantes mortos no massacre de Iguala, em 26 de Setembro de 2014, é um verdadeiro murro no estômago do espectador). Também a poética do texto original é alvo da necessária adequação, cedendo uma boa parte do seu lugar à oralidade do quotidiano - uma linguagem dura e agressiva onde cabe o palavrão, a par de rezas e ladaínhas reveladoras duma crendice que combina, em partes iguais, o sagrado e o profano.

Da sábia forma como funde o clássico com o moderno, retira “Mendoza” a sua grande força e fascínio. É que não se trata apenas de reinterpretar um texto maior da literatura, algo feito pela enésima vez em teatro. É sobretudo na encenação, na forma como Juan Carrillo se apega ao detalhe, coreografa os movimentos e tira o maior partido da intensidade do brilhante texto - uma adaptação sua e de Antonio Zúñiga -, que reside a marca distintiva desta peça. E há, claro, os actores, rigorosos na forma como encarnam as personagens, convincentes na sua enorme expressividade, comoventes na musicalidade das suas palavras, emocionantes na naturalidade com que interagem com o público. William Shakespeare ter-se-ía sentido arrebatado e orgulhoso vendo como Los Colochos Teatro souberam tratar tão bem o texto original, firmando a ouro uma das mais belas páginas da história do FITEI!


quarta-feira, 20 de junho de 2018

TEATRO: "Lulu"



TEATRO: “Lulu”
A partir de | “Espírito da Terra” (1903) e “A Caixa de Pandora” (1904), de Frank Wedekind
Encenação | Nuno M. Cardoso
Dramaturgia | Nuno M. Cardoso e João Luis Pereira
Cenografia | Nuno Carinhas
Interpretação | Afonso Santos, António Afonso Parra, Catarina Gomes, Daniela Cruz, João Cardoso, João Melo, Mafalda Lencastre, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Sara Garcia e Vera Kolodzig
Produção | Teatro Nacional de S. João
Teatro Carlos Alberto
17 Jun 2018 | dom | 16:00
FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


Há peças das quais gostamos muito, outras assim-assim e outras que, definitivamente, não nos caem no goto, comportam pouco valor acrescido, tornam-se fastidiosas, representam uma enorme perda de tempo. Ora, “Lulu” encaixa-se nesta última categoria. Não porque o texto não seja bom – esta é a história duma mulher que vive na opulência mas que repudia a dependência dos vários maridos que vão surgindo na sua vida e acaba a prostituir-se nas ruas de Londres –, mas porque assenta numa encenação medíocre, sem chama nem brilho, confrangedoramente à margem de qualquer lampejo de imaginação.

Dando vida à mesma personagem em diferentes momentos da acção, Vera Kolodzig, Catarina Gomes e Sara Garcia jamais conseguem fazer passar a ideia de “mulher fatal” inerente à condição da protagonista, antes pactuam com o tom baço e cinzentão da peça, afundando-se no estereótipo. Particularmente penoso é o último acto, os “clientes” a sucederem-se, o tom monocórdico dos diálogos a eternizar-se, a paciência do espectador já completamente esgotada de tanto vai e vem estéril de ideais, opaco de sentido. Com “Lulu”, o FITEI 2018 dá um verdadeiro “tiro no pé”. Ou talvez não. Afinal, sempre é necessária uma excepção para que qualquer regra se confirme. E a regra dita que o nível deste FITEI seja enorme.

[Foto: facebook.com/FestivalFITEI]

terça-feira, 19 de junho de 2018

TEATRO: "Margem"



TEATRO: “Margem”
Texto | Joana Craveiro
Direcção | Victor Hugo Pontes
Cenografia | F. Ribeiro
Música | Marco Castro e Igor Domingues
Interpretação | Alexandre Tavares, André Cabral, David S. Costa, Hugo Fidalgo, João Nunes Monteiro, José Santos, Magnum Soares, Marco Olival, Marco Tavares, Nara Gonçalves, Rui Pedro Silva e Vicente Campos
Produção | Nome Próprio
Teatro do Campo Alegre
16 Jun 2018 | sab | 17:00
FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


— Esta não é uma história de 1937.
— Ou só de 1937.
— E todos os exemplares queimados do livro numa praça pública da Bahia não conseguiram que a história ficasse só em 1937 e aí morresse.
— Junto com o Sem-Pernas que se lançou no morro, com ódio dos que o perseguiam.
— Junto com a Dora que morreu de amor.
— De febre.
— De amor.
— Junto com todos os outros que nestes 80 anos ficaram pelo caminho.
— Às vezes pensamos que caminho é este que engole tantos.
— Sem que eles tenham tempo de dizer «estamos aqui».

80 anos volvidos sobre a publicação de “Capitães da Areia” - retrato amargo dos meninos de rua no trapiche baiano, da autoria de Jorge Amado -, Victor Hugo Pontes recuperou o tema e foi à procura dos novos “capitães da areia”, aqueles meninos e meninas que, nos dias de hoje, não tendo cometido crime algum, tiveram apenas a má sorte de nascer no lugar errado, algures na margem (ou à margem) da Sociedade. Com assinatura de Joana Craveiro, o texto da peça tem por base os relatos de jovens de duas instituições parceiras neste trabalho – a Casa Pia, de Lisboa e o Instituto Profissional do Terço, no Porto – e dele resulta um espectáculo de dança e teatro em partes iguais, muito rico visualmente e com uma mensagem social assertiva e plena de actualidade.

A música de Marco Castro e Igor Domingues (Throes + The Shine) espalha-se já pela sala quando as portas do Auditório se abrem para que o público possa entrar. Também já lá estão os doze jovens actores, acompanhados por duas mãos cheias de figurantes muito mais novos, uma imensa energia naqueles corpos franzinos, muita briga e jogo de bola, uma palmeira a assistir discretamente às brincadeiras das crianças e a fazer a ponte entre o Brasil tropical, palco da acção do livro, e este lado de cá do Atlântico, esta outra margem de tanto mar. Não temos aqui Pedro Bala, João Grande, o Professor, o Sem-Pernas, o Pirulito, a Dora ou o Volta-Seca, mas temos o Alexandre, o Rui Pedro, o Hugo, o David, a Nara – maravilhosa Nara, bravo! -, o Magnum ou o Marco, o que vai dar no mesmo, que o mesmo é dizer, na mesma polícia que reprime, no mesmo medo e dor, na mesma casa onde a felicidade fica à porta.


“Pobres como podres”, os novos capitães da areia partilham com os meninos de Jorge Amado uma casa que não é sua, a ausência de um pai ou de uma mãe, o estarem em défice logo à partida ou terem-se visto em défice por razões às quais são alheios. Aqui, ser criança não é achar que tudo é fantasia ou acreditar num mundo cor de rosa cheio de pipocas. Bem pelo contrário, é não pedir com os olhos, é não acreditar no poder dum sorriso, é desconhecer o carinho e o afecto. Com “Margem”, Victor Hugo Pontes abre as portas a uma realidade que afecta actualmente mais de 8.000 crianças e jovens em Portugal e deixa-nos um recado que se nos cola à pele. É o teatro, uma vez mais, a cumprir a sua missão de revelar tudo aquilo que não é imediato, a ir ao fundo do Homem.


segunda-feira, 18 de junho de 2018

TEATRO: "Provisional Figures"



TEATRO: “Provisional Figures”
Texto | Isabela Figueiredo e Gonçalo M. Tavares
Encenação e Dramaturgia | Marco Martins
Cenografia | Fernando Ribeiro
Interpretação | Ana Moreira, Ivan Ammon, Maria do Carmo Ferreira, Pedro Cassimo, Pete Dewar, Richard Raymond, Robert Elliot, Sérgio Cardoso de Pinho, Victoria River
Produção | CCTAR – Centro de Criação para o Teatro e Artes de Rua
Teatro Rivoli – Palco do Grande Auditório
16 Jun 2018 | sab | 19:00
FITEI - Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


“Um pela agonia,
Dois pela alegria,
Três pela menina,
Quatro pelo menino,
Cinco pela prata,
Seis pelo ouro,
Sete pelo segredo
Seguro num tesouro.
Oito pelo desejo,
Nove pelo beijo,
Dez pela ave
Mais bela que vejo.
Pega.”

O espectáculo está prestes a começar. O público vai tomando o seu lugar e de imediato se dá conta que irá partilhar os assentos na plateia com os actores, cujas cadeiras, dispersas pela sala, estão reservadas. Enquanto se espera pelo início do espectáculo, o som de fundo é o de entrevistas gravadas que remetem para experiências de vida particularmente duras em contexto laboral, a integridade e a própria dignidade da pessoa feridas em nome desse “bem maior” que é o ter trabalho, seja a que preço for. Na verdade a peça já começou e é Marco Martins a colocar-nos um nó na garganta ao dizer-nos que a Ana ou o Robert, o Sérgio, a Victoria, a Carmo ou qualquer um dos outros, somos nós. Um nó que se aperta à medida que os (não) actores vão surgindo em palco e expondo o provisório das suas vidas, a precariedade e a humilhação, o dinheiro escasso e a família longe, a felicidade e o amor eternamente adiados.

Culminando um processo de dois anos de investigação junto da comunidade portuguesa de Great Yarmouth e baseando-se nos testemunhos individuais de quem viveu de perto este período de incerteza, “Provisional Figures” propõe-nos uma reflexão sobre os problemas da identidade e da emigração num contexto urbano fortemente abalado pela crise económica e consequentes convulsões sociais. É um trabalho que mergulha numa realidade relativamente desconhecida em Portugal e que nos fala da emigração no auge da crise económica (2009-2014), em particular para a região de Norfolk, outrora destino balnear de eleição para os britânicos, agora reconvertido em centro da indústria de transformação alimentar.

Com “Provisional Figures”, Marco Martins volta a privilegiar o teatro do real, oferecendo-nos uma peça de enorme significado e alcance, em nome da crise, uma verdade que não pode ser esquecida. Uma crise que se revelou tremenda para milhões de pessoas sobretudo nos países do Sul da Europa, desestruturou famílias, comunidades inteiras, levou ao desemprego em massa, encerrou milhares de micro, pequenas e médias empresas... mas que deu muito jeito a alguns. E que pode estar aí ao virar da esquina, doa a quem doer, porque pode vir a dar jeito a alguns outros, afinal os mesmo de sempre. A presença dos não actores em palco reforça a mensagem, espicaçando recorrentemente o público com essa ideia tão querida ao encenador de que “todo o mundo é um palco”. E é, finalmente, o homem que está em causa, enquanto indivíduo dito superior, a revelar-se pior do que qualquer outro animal, o mais cruel para os outros e para si próprio.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

TEATRO: "Caranguejo Overdrive"



TEATRO: “Caranguejo Overdrive”
Encenação | Marco André Nunes
Dramaturgia |Pedro Kosovski
Interpretação | Carolina Virguez, Alex Nader, Eduardo Speroni, Matheus Macena, Fellipe Marques
Músicos em cena | Maurício Chiari, Pedro Leal, Pedro Nego
Produção | Aquela Cia. de Teatro
FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


A sinopse da peça diz-nos que esta é a história de Cosme, apanhador de caranguejos no mangue carioca, e da sua loucura decorrente da participação na Guerra do Paraguai, na segunda metade do século XIX. Uma história que o trará de volta ao Rio de Janeiro onde encontrará uma cidade em grande transformação, uma cidade que já não reconhece e que o fará sentir-se como que exilado na sua própria terra. Mas “Caranguejo Overdrive” é muito mais do que isso. É a lama e a imundície, a sobrevivência no fio da navalha, a sanha do opressor e a miséria dos que trabalham por um prato de arroz. É a corrupção e os compadrios, os casos mal parados e a criminalidade, a ganância dos poderosos e a impunidade. É Tancredo Neves e Sarney e Collor e Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso e Lula e Dilma e Temer, muito escândalo e muito samba, muito impeachment e muito recurso eternamente à espera de decisões que decidem para que tudo fique na mesma. É o obscurantismo, a macumba, as favelas e o desastre ambiental de Mariana. E é Marielle Franco, socióloga, feminista e defensora dos direitos humanos, executada com três tiros na cabeça e um no pescoço há escassos meses atrás.

Servindo-se de um acontecimento marcante da história do Brasil – travada entre o Paraguai e a Tripla Aliança, composta pelo Brasil, Argentina e Uruguai, a Guerra do Paraguai foi o maior conflito internacional ocorrido na América do Sul até aos dias de hoje -, a peça faz uma atualização do momento actual da cidade maravilhosa (e, por extensão, do próprio Brasil), assumindo um cunho vincadamente político. Com o dedo acusador apontado ao poder e aos seus sequazes, “Caranguejo Overdrive” é um grito desesperado que rompe amarras e clama por justiça e paz, por pão e trabalho. É um manifesto que reivindica um Brasil justo e livre, onde todos tenham as mesmas oportunidades e direitos, onde a tão propalada justiça social não seja um insulto aos mais pobres. Mas também um Brasil onde os criadores, os artistas, não sejam ostracizados, onde possa haver dinheiro para fazer teatro.

Conjugando o brilhantismo dum texto apoiado na estética e sonoridade do movimento artístico “manguebeat”, de Chico Science (meados da década de 90), com a capacidade interpretativa dos cinco actores e três músicos em palco – sublime Carolina Virgüez no “monólogo da visita guiada”, toda ela rigor, expressividade, humor e encantamento -, “Caranguejo Overdrive” é uma lição de teatro intensa e profunda, como um sopro vital. A energia que emana dum forte vínculo ao teatro experimental, a força da sua mensagem política e de intervenção e a riqueza das imagens que convoca, resultam em momentos de teatro únicos, modelares, inspiradores. Esta é uma daquelas peças que arrastam o espectador numa torrente emocional de palavras, gestos e ideias, obrigando-o a envolver-se numa realidade que também é sua, na certeza de que qualquer transformação social só ganha sentido como acto solidário. Manifesto de coragem, vibrante e libertador, “Caranguejo Overdrive” é a pedrada no charco duma sociedade que há muito perdeu o sentido da palavra “nós”, onde os indivíduos escavam cada vez mais fundo na lama, refugiando-se na dureza das suas carapaças quitinosas, aí permacendo furtivamente à espera do seu momento. Tal como os caranguejos!


terça-feira, 12 de junho de 2018

TEATRO: "Longe"



TEATRO: “Longe
Direcção e texto | Raquel S.
Interpretação | Margarida Gonçalves
Cenografia | Catarina Barros
Música | José Alberto Gomes
Produção | Noitarder – Associação Cultural
FITEI 2018 – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


“Longe”, de Raquel S., abriu a 41ª edição do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica sob os melhores auspícios. No Auditório do Teatro do Campo Alegre, sozinha em palco, Margarida Gonçalves agarrou o público “pelas tripas” ao invadir os domínios do hiper-realismo, num monólogo intenso e carregado  de emoção. Minimalista, o cenário pode muito bem ser o de uma sala de aula onde decorre uma dissertação científico-filosófica, o palco a estender-se inteligentemente para lá das suas linhas de demarcação e a fazer com que o público se torne parte integrante da peça. No intimismo desse espaço restrito (que a grande proximidade entre actriz e público acentua), “professora” e “alunos” congregam interesses e esforços, irmanados num mesmo propósito, o de perceber os contornos e os limites da memória ou o que fica de alguém próximo que morreu.

Baseada num texto engenhosamente trabalhado, a peça remexe no mais íntimo de cada um, ao encontro de matéria que preencha o vazio da perda. Apoiando-se em palavras, ideias, artigos ou histórias de figuras ilustres – Rimbaud, Freud, Susan Sontag, Proust, Samuel Beckett, Herberto Hélder ou Edgar Allan Poe – ou de simples “apontamentos de aluno desconhecido de uma aula da disciplina de Medicina Legal”, Raquel S. constrói uma peça que cruza vários campos, trabalhando a temática da morte com o distanciamento que se exige mas aproximando-se o suficiente para a tornar matéria palpável de análise e reflexão. Uma reflexão que, no imediato, conduz o espectador ao encontro das suas próprias vivências e memórias, dos seus medos e fantasmas, vergado ao peso de um enorme ponto de interrogação.

Uma cortina que divide o palco, ora funciona como um adereço que sugere a “passagem” do lado material para o imaterial, do campo dos vivos para o dos mortos (e vive-versa), ora sublinha as inúmeras dimensões duma discussão que nunca se afasta do valor da memória, do sonho ou da fantasia, enquanto rastos de vidas que já não voltam. Convidado a “passear” pelos cenários interiores do “eu” e a partilhar as dúvidas que se avolumam em torno do que é real ou apenas aparente (a fotografia, entendida como “verdade”, alcança neste contexto o valor de insofismável embuste), o espectador acaba mergulhado na certeza de não ter já certeza alguma. No limite, com “Longe”, o teatro exerce de forma superior a sua função transformadora, criando um forte impacto emocional e levantando questões a exigir respostas. A isto não é alheio – importa sublinhar – a notável representação de Margarida Gonçalves, uma verdadeira máquina de “dizer texto”, sem quebras no ritmo e na dinâmica em palco e, com isso realçando a qualidade literária da peça e garantindo o empolgamento crescente do público. Bravo!