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terça-feira, 21 de abril de 2026

DANÇA: “16 & 17” | TAO Dance Theatre



DANÇA: “16 & 17”
TAO Dance Theatre
Direcção Artística | Tao Ye, Duan Ni
Coreografia | Tao Ye
Composição musical | Xiao He
Figurinos | Duan Ni
Interpretação | Xu Fujin, Tong Yusheng, Liu Yiren, Cheng Leting ,Li Jiayu, Wu Zhenkai, Lu Wenchao, Wang Jingping, Jia Lixue, Zhang Xi, Lee Yuyun, Bian Yefei, Jiao Xuexu, Gao Yanrui, Xiong Shuai, Zhao Xueyi, Huang Jiabin
Produção | TAO Dance Theatre
50 Minutos (com intervalo) | Todas as idades
Festival Internacional DDD - Dias da Dança
Rivoli - Grande Auditório
18 Abr 2026 | sab | 19:30


No último fim de semana do DDD – Festival Dias da Dança, a apresentação de “16&17”, do coreógrafo chinês Tao Ye, confirmou a singularidade de um percurso artístico que tem vindo a afirmar-se pela depuração formal e pela insistência numa gramática do corpo essencial. Integradas na chamada “Numerical Series”, as duas peças funcionam como um díptico coerente no qual a pesquisa do movimento se mostra despojada de narrativas convencionais, muito próxima de uma ideia de linguagem universal. Tao Ye, cuja formação atravessa tanto o rigor institucional como experiências em companhias de relevo na China, desenvolveu um sistema próprio - o “Circular Movement System” - que aqui encontra uma expressão particularmente depurada. Em vez de recorrer a dramatizações supérfluas, o coreógrafo investe na repetição, na variação mínima e na atenção ao centro de gravidade do corpo, propondo uma experiência que exige do espectador uma disponibilidade quase meditativa. O resultado é um objecto artístico que, embora profundamente enraizado em referências orientais, dialoga com sensibilidades contemporâneas globais, desafiando as fronteiras entre a tradição e a experimentação.

Em “16”, essa investigação traduz-se numa impressionante organização colectiva: dezasseis bailarinos dispostos numa linha contínua, evocando, de forma estilizada, as danças tradicionais do dragão e da serpente. Longe de qualquer exotismo superficial, Tao Ye transforma esta inspiração num estudo rigoroso de transmissão de energia. O movimento percorre a linha como uma onda, propagando-se entre corpos que parecem funcionar como segmentos de um único organismo. A coluna vertebral assume-se como eixo central, articulando torções, espirais e deslocamentos que conferem à peça uma fluidez hipnótica. Há uma economia de meios - figurinos sóbrios, iluminação contida - que reforça a centralidade do gesto. A espacialidade constrói-se em camadas, numa dinâmica onde o avanço e o recuo coexistem, criando a ilusão de um tempo suspenso. A abordagem minimalista intensifica a experiência, obrigando o olhar a concentrar-se nas subtilezas do movimento e nas micro-variações que estruturam a coreografia.

Já “17” propõe uma ruptura aparente com essa linearidade, ao dispersar os intérpretes pelo espaço e introduzir uma dimensão sonora que se torna indissociável do movimento. Aqui, o caos é apenas superficial: por detrás da sensação de aleatoriedade, existe uma rigorosa articulação entre som e gesto, as vocalizações feitas de interjeições minimais a funcionarem como extensões físicas do corpo. A peça estabelece um diálogo directo com o trabalho anterior, aprofundando uma investigação sinestésica no cruzamento entre som e imagem. Os bailarinos tornam-se, simultaneamente, produtores de som e agentes de movimento, configurando uma espécie de sistema polifónico em constante mutação. Este jogo contrapontístico entre duas linguagens gera tensões e aproximações, criando uma dramaturgia abstracta mas intensamente sensorial. No seu todo, “16&17” reafirma a proposta estética do TAO Dance Theater: uma dança que recusa ornamentos e narrativas fáceis, para se concentrar na essência do corpo em movimento, propondo uma experiência que é, simultaneamente, física, sensorial, intelectual e marcadamente filosófica.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

DANÇA: "Mycelium" | Christos Papadopoulos



DANÇA: “Mycelium”
Coreografia | Christos Papadopoulos
Assistência de coreografia | Georgios Kotsifakis
Composição musical | Coti K.
Figurinos | Angelos Mentis
Interpretação | Bailarinos do Ballet de l’Opéra de Lyon
Co-produção | Opéra de Lyon, Biennale de la Danse, Théâtre de la Ville – Paris
60 Minutos | Maiores de 6 Anos
Teatro Rivoli - Grande Auditório
30 Jan 2026 | sex | 19:30


Ao desenvolver uma obra centrada na experiência íntima e na escuta profunda do tempo, do corpo e do colectivo, Christos Papadopoulos tem vindo a construir uma obra exigente, rigorosa e profundamente comprometida com o tempo presente. A sua pesquisa coreográfica encontra frequentemente inspiração na natureza e nos seus sistemas de organização, abrindo espaços de reflexão sobre a relação entre o indivíduo e o grupo, a sincronia e o dissenso, a pertença e a autonomia. Mais do que a estética, o virtuosismo ou o aparato cénico, interessa-lhe a criação de paisagens imaginárias capazes de estabelecer uma comunicação directa com o espectador. Influenciado pelo minimalismo musical, pelo cinema de Tarkovsky e Béla Tarr e pela escrita de Virginia Woolf, Papadopoulos trabalha a repetição, a duração e a transformação gradual como motores dramatúrgicos. A música ocupa um papel estrutural nas suas criações, sendo desenvolvida em estreita colaboração desde o início do processo e funcionando como força que molda o ritmo e o movimento em cena.

Nesta linha de acção, “Mycelium” afirma-se como uma das obras mais emblemáticas de Christos Papadopoulos, condensando com rara clareza os princípios estéticos, filosóficos e coreográficos que atravessam o seu percurso. Inspirada no vasto e invisível sistema de filamentos que constitui o micélio, a peça traduz em dança a ideia de rede, transmissão e interdependência, transformando vinte corpos num organismo colectivo em permanente mutação. A partir de um vocabulário mínimo - micro-movimentos, ondulações repetidas, variações quase impercetíveis -, Papadopoulos constrói uma dramaturgia do tempo longo, da atenção extrema e da escuta sensível, fazendo com que a força se erga da contenção. O gesto é praticamente único, mas incessantemente modulado pela ocupação do espaço, pela relação entre os intérpretes e pela progressão sonora, criando uma experiência hipnótica que desloca o olhar do espectáculo para o processo. A música eletrónica de Coti K., concebida em estreita colaboração com o coreógrafo, funciona como campo vibratório e motor invisível da acção, enquanto a luz desenha corpos espectrais que parecem dissolver-se e recompor-se no escuro.

Mais do que representar a natureza, “Mycelium” faz sentir os seus ritmos e lógicas profundas, convidando o espectador a entrar num estado de percepção ampliada, no qual o coletivo se impõe sem anular as singularidades. Exigindo do público uma disponibilidade rara para o silêncio, a contemplação e o detalhe, Papadopoulos trabalha a dança como experiência imersiva e meditativa, mostrando como o sentido nasce da repetição, da duração e da lenta transformação. A peça evoca imagens do mundo vegetal e animal - bandos de pássaros, florestas, algas, fluxos subterrâneos -, sem nunca se fixar numa leitura ilustrativa, mantendo-se num território ambíguo entre o abstracto e o orgânico. Esta ambiguidade é uma das suas maiores forças já que “Mycelium” não explica, sugere; não impõe, contamina. Ao criar uma coreografia de contágio, em que o movimento se propaga como uma necessidade interna, o coreógrafo propõe também uma reflexão ética e política sobre coexistência, interligação e responsabilidade partilhada num mundo fragmentado. Capaz de tornar visível o invisível, o espectáculo assume-se como espaço de resistência sensível e de reconexão com a vida. Um gesto artístico discreto, mas de impacto profundo e duradouro.


domingo, 18 de janeiro de 2026

TEATRO: "Um Inimigo do Povo" | Marco Martins



TEATRO: “Um Inimigo do Povo”
Conceito, direcção e dramaturgia | Marco Martins
Investigação jornalística | Joana Pereira Bastos, Raquel Moleiro
Assistência de encenação e apoio à dramaturgia | Rita Quelhas
Cenografia | Isabel Cordovil, João Romão
Interpretação | Amin Nurul, Dil Bahadur Ale, Janit Fernandes, Kamal Chowdhury, Kamal Sardar, Niraj Khadka, Rajib Al Mamun, Sabera Parvin, Sharker Nasrin, Shoehl Rana, Rita Cabaço, Rodrigo Tomás
Produção | Arena Ensemble
120 Minutos | Maiores de 16 Anos
Rivoli - Teatro Municipal do Porto
16 Jan 2026 | sex | 19:30


“ (…) Os agentes da PSP também são suspeitos de terem algemado uma mulher na esquadra do Rato como num crucifixo. 'Já no interior da esquadra, algemaram a ofendida a um banco, de braços abertos, como se estivesse pendurada num crucifixo, e largaram todos os seus pertences no chão, que acabaram pisados e danificados pelos demais agentes que por ali passaram', lê-se na acusação, dando conta que a ‘vítima rezou em voz alta um Pai Nosso, por não acreditar no que estava a passar, na medida em que se encontrava numa esquadra rodeada de polícias’ (…)”.
Susete Henriques, in Diário de Notícias (publicado a 15 de Janeiro de 2026)

No preciso momento em que sai a público a notícia de que dois agentes da PSP estão acusados pelo Ministério Público dos crimes de tortura e violação de indivíduos, na sua maioria imigrantes, e depois do recente caso da rede com dez militares da GNR liderada por um português que controlaria cerca de 500 imigrantes a trabalhar em explorações agrícolas do distrito de Beja ou da aparatosa operação policial em larga escala no Martim Moniz, em Lisboa, a 19 de Dezembro de 2024, a peça de Marco Martins, mais do que necessária, revela-se verdadeiramente urgente. Tendo como ponto de partida o episódio da Rua do Benformoso - a imagem de cerca de sessenta corpos indefesos, privados de dignidade, encostados à parede, com as mãos sobre a cabeça, obrigados a manter uma posição fisicamente extenuante e, simultaneamente, a esconder os rostos durante cerca de duas horas -, o encenador propõe uma reflexão sobre a forma como os media e os partidos políticos de várias esferas manipulam a imagem destas pessoas sem jamais lhes dar verdadeiramente voz.

Ora, é precisamente isso que Marco Martins faz, lançando a discussão em torno da fabricação contemporânea do inimigo. Se o texto homónimo de Ibsen desmontava os mecanismos de uma maioria que se diz liberal para silenciar verdades incómodas, esta nova peça desloca o foco para um presente onde o conflito surge a partir de imagens, discursos políticos e operações policiais de grande escala. A fotografia da Rua do Benformoso, captada furtivamente por uma mulher imigrante, condensa esse gesto fundador: dezenas de homens encostados à parede, braços no ar, transformados num corpo coletivo suspeito. Criar um inimigo é uma tarefa sofisticada”, diz Lucrécia Martel: “Mais complexa do que ir à Lua”. Aqui, o inimigo nasce da divisão, da abstracção e da retirada de contexto. A imagem não fala, mas é trabalhada até à exaustão por uma gramática do ódio que dispensa factos e exclui vozes. O teatro surge, então, como contra-campo: um espaço de grau zero onde a imagem é devolvida à carne, ao tempo e à palavra, por uma vez a história a ser escrita também pelos vencidos.

A Rua do Benformoso não é um acaso geográfico, mas um palimpsesto de segregações sucessivas. Da comuna moura medieval ao gueto implícito da imigração contemporânea, o bairro foi sendo marcado pela ideia de confinamento do outro. Hoje, ali vivem e trabalham comunidades do Bangladesh, do Nepal, da Índia e do Paquistão, ocupando empregos essenciais e invisíveis, habitando casas sobrelotadas, esperando por um reagrupamento familiar adiado até à eternidade. A operação policial de 19 de dezembro de 2024 expôs essa ferida: uma acção desproporcionada, sem fundamentação clara, que tratou trabalhadores como suspeitos colectivos. A Provedoria da Justiça viria a confirmar a violação da dignidade e dos direitos fundamentais, mas o dano simbólico estava consumado. Aqueles corpos perfilados tornaram-se a prova visual de uma narrativa pré-existente: a de que os migrantes são a origem da insegurança, da degradação urbana, do medo difuso. O espectáculo parte dessa violência inaugural para a desmontar, recusando a lógica do número e devolvendo espessura humana a quem foi reduzido a uma ameaça e tornado num número.

Essa devolução faz-se, antes de mais, pelos nomes: Amin, Dil, Janit, Kamal, Niraj, Rajib, Sabera, Sharker, Shohel. Dizer nomes é um gesto político. Cada um traz consigo uma infância reconhecível, feita de sons, cheiros e rituais que nos são estranhamente familiares: a voz da mãe, a chuva no telhado, o mercado, a música, a oração. Essas memórias comuns desmontam a ficção da alteridade radical. Mas o percurso de vida que se segue é marcado pela violência estrutural, pela pobreza, pela morte e pela perda. A travessia, a que chamam “O Jogo”, é uma metáfora cruel: um jogo de vida ou morte onde se aposta tudo num futuro possível chamado Europa. Desertos, mares, fronteiras e máfias compõem esse caminho. No palco, os corpos sabem disso antes das palavras: abrigam-se instintivamente, movem-se como quem está dentro de água, falam sozinhos para não desaparecer. A saudade, mais do que o medo, atravessa-os. De uma réstia de confiança no outro emerge, numa confissão, uma palavra que fere mais do que mil facas: Medo.

Ao colocar estes migrantes no centro da cena, Marco Martins inverte a acusação inscrita no título. O inimigo do povo não são eles, mas a maioria que precisa de os transformar numa ferida para fugir aos seus problemas e não se ver na obrigação de encarar as suas próprias contradições. Em Portugal, os factos desmentem o discurso populista: os imigrantes contribuem mais do que recebem, sustentam setores-chave da economia e tornam possível o modo de vida que a maioria defende. Ainda assim, são alvo de slogans, insultos e operações exemplares. O espetáculo não moraliza nem absolve: Expõe. Olhos nos olhos, obriga-nos a reconhecer a massa humana que, na sua diversidade, preferimos não ver. Como em Ibsen, não há heróis puros. Há indivíduos frágeis, contraditórios, solitários. Mas há também uma certeza incómoda: enquanto continuarmos a confundir imagem com verdade e maioria com razão, iremos continuamente entregarmo-nos à construção de mais e mais inimigos para justificar a violência. O teatro, aqui, não oferece soluções, mas devolve-nos a responsabilidade de olhar. E de agir!


domingo, 7 de dezembro de 2025

DANÇA: "F*cking Future" | Marco da Silva Ferreira



DANÇA: “F*cking Future”
Direcção artística e coreografia | Marco da Silva Ferreira
Apoio artístico, apoio à dramaturgia | Catarina Miranda, Cristina Planas Leitão
Música | Rui Lima, Sérgio Martins
Desenho de luz | Teresa Antunes, Rui Monteiro
Interpretação | Catarina Casqueiro, Eríc Amorim dos Santos, Fábio Kraye, Doisy Bryan, Marco da Silva Ferreira, Matias Rocha Moura, Max Makowski, Nala Revlon
Direção de produção | Mafalda Bastos
60 Minutos | Maiores de 6 Anos
Teatro Rivoli - Caixa de Palco
05 Dez 2025 | sex | 19:30

“F*cking Future coreografa a fricção entre militância e militarização, explorando e desafiando os sistemas que moldam corpos e comportamentos. Num palco quadrifrontal, servindo-se desses mesmos sistemas, um colectivo marcha entre rigidez e diluição, disciplina e desejo, convocando novas formas de união e insurgência — permanecemos aqui, resistindo em movimento.”
Marco da Silva Ferreira

Depois da sua estreia na Bienal de Dança de Lyon, no passado mês de Setembro, “F*cking Future”, de Marco da Silva Ferreira, subiu ao palco do Teatro Rivoli ao final da tarde de sexta-feira, trazendo consigo um exercício de intensa e vibrante fisicalidade, a convocar territórios onde o corpo é matéria de urgência. Disposto num quadrado vivo, aberto em todas as direcções como se a proximidade do público fosse condição para que o manifesto respirasse, o espectáculo coloca em cena oito presenças pulsantes, como que à beira do colapso, numa coreografia feita de quedas, rotações, pausas e acelerações, que dão a ver o desassossego de um tempo hoje. Há na peça uma energia quase violenta, sem ser agressiva, antes uma vibração que arrasta para um transe partilhado. A música, a começar num batimento que mal se nota e que cresce até ao limite, opera como força centrífuga que organiza e desorganiza, que empurra os corpos para a exaustão e, ao mesmo tempo, para uma espécie de aliança inevitável. O que emerge é uma comunidade posta à prova em permanência, onde os códigos herdados - da marcha militar ao pulsar do “clubbing” - se desfazem e refazem num gesto insurgente, que questiona o futuro ao mesmo tempo que o acelera.

Se a coreografia incide sobre o excesso e a urgência, é na relação entre os corpos que a peça encontra a sua vibração mais íntima. O toque, o apoio fugaz, a oscilação entre segurança e ameaça, fazem do palco um laboratório emocional que não se esgota no elemento físico. Cada aproximação dos intérpretes ao público, cada olhar que se cruza, cada respiração audível na penumbra desenhada pela luz, produz um chamamento silencioso que nos vem dizer que o futuro se constrói na força de estarmos unidos. O desenho de luz, a recortar apenas fragmentos - um braço, um tronco arqueado, um salto que se desfaz na sombra - amplifica essa tensão entre o visível e o invisível, como se a humanidade do gesto estivesse sempre à beira de se perder. Há instantes em que a massa em movimento parece um organismo único, vibrátil, a vertigem do ritmo techno de mãos dadas com raízes mais antigas, quase tribais, evocando tradições que sobreviveram graças à adaptação e à mudança. No cruzamento entre resistência, desejo e fragilidade, revela a peça a sua força: a reivindicação de um coletivo que não teme afirmar que os afectos, também eles, são motores de transformação.

Quando os bailarinos invadem a plateia e avançam por entre os espectadores, o gesto é tudo menos intimidatório: É convite. Há algo de fantasmagórico, quase cerimonial, nesse movimento que aproxima intérpretes e público ao ponto de dissolver fronteiras. E é nesse instante que “F*cking Future” atinge o seu coração político — não o da militância como confronto, mas o da militância como desejo, como vontade partilhada. O espetáculo propõe um futuro que se escreve no agora, na aceleração dos corpos que recusam a apatia e afirmam o direito ao sonho, mesmo quando o mundo insiste em endurecer. A música e a coreografia, em permanente mutação, lembram que cada passo contém a memória de outros passos e que cada corpo é arquivo vivo de comunidades que lutam para existir. No final, resta a sensação de termos testemunhado um ritual de resistência sensível: uma celebração da diferença, um apelo à coragem de imaginar, um manifesto que nos devolve a crença de que os futuros, mesmo os mais improváveis, começam onde alguém decide tocar, olhar ou avançar sem medo.

[Foto: Ferreira Danse @ Blandine Soulage | https://www.ccb.pt/evento/fcking-future/]

domingo, 9 de novembro de 2025

TEATRO: “José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983”



TEATRO: “José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983”
Encenação | Gonçalo Amorim 
Coordenação dramatúrgica | Rui Pina Coelho 
Textos | Lígia Soares, Marta Figueiredo, Miguel Cardoso, Rui Pina Coelho, Susana Moreira Marques
Cenografia | Catarina Barros
Figurinos | Cátia Barros  
Interpretação | Catarina Chora, Catarina Carvalho Gomes, Inês Salvado, Mariana Leite Soares, Pedro João, Xosé Lois Romero, Hugo Inácio, Abigail Raposo, Beatriz Mendes
Direção musical | Mariana Leite Soares, Pedro João
Produção | Teatro Experimental do Porto
165 Minutos (com intervalo) | Maiores de 12 Anos
Teatro Rivoli
07 Nov 2025 | sex | 19:30


O concerto de José Afonso nos Coliseus, em 1983, marcou o epílogo de uma das mais luminosas trajectórias da música portuguesa. Doente, mas ainda dono de uma voz interior intacta, Zeca despediu-se do palco com a mesma simplicidade e intensidade de sempre, oferecendo ao público um testemunho vivo da força da música como gesto de liberdade. A sua obra, enraizada nas modas e cantigas do povo, soube reinventar a tradição através de harmonias ousadas, ritmos do mundo e uma poesia de rara densidade moral e estética. Entre o coro anónimo da rua e a sofisticação de arranjos que bebiam tanto do jazz como da música erudita, Zeca Afonso construiu uma linguagem única, onde o compromisso político nunca sufocou a beleza. Naquele derradeiro concerto, ecoaram não só as vozes de um país recém-desperto, mas também a consciência de que sem a sua música - e a de tantos companheiros de utopia -, a Revolução dos Cravos talvez não tivesse encontrado o mesmo pulso, nem o mesmo canto capaz de transformar a esperança em acção.

Foi sobre o legado de Zeca Afonso, sobre a forma como soube transformar a canção popular em instrumento de consciência e liberdade, que o encenador Gonçalo Amorim e um conjunto de personalidades artísticas que com ele trabalharam se debruçaram, assumindo os concertos nos Coliseus como o culminar de uma carreira que uniu arte, povo e revolução numa mesma voz intemporal. Gravemente debilitado pela doença que o conduziria à morte quatro anos depois, José Afonso subiu aos palcos dos Coliseus de Lisboa e do Porto em 1983 para os seus últimos concertos. O concerto de Lisboa, registado pela RTP, tornou-se um marco na memória colectiva portuguesa e foi perpetuado em álbum, filme-concerto e, mais recentemente, numa edição restaurada que recupera quase integralmente o espetáculo. “José Afonso, ao vivo nos Coliseus, 1983” faz-se de histórias e memórias onde se entrelaçam a música e o teatro, a performance e a poesia. Longe de querer assumir-se como uma cópia do concerto original, o espectáculo reinventa-o à luz de uma abordagem contemporânea inspirada no Gig Theatre, uma forma híbrida que funde a energia dos concertos ao vivo com a narrativa teatral.

O resultado desta reinterpretação do legado de Zeca Afonso, feita de liberdade criativa e profunda ressonância emocional, afigura-se díspar. Há um lado revivalista intenso e vivo que leva o espectador ao encontro das emoções de um momento único. É um dizer “presente” num concerto ao qual, presumo, muitas das pessoas na sala não assistiu… mas gostaria de ter assistido. Desse ponto de vista talvez tenha sabido a pouco, mas o momento final da “Grândola” terá valido por tudo o resto (para mim, pelo menos, valeu). Há momentos lindíssimos nos textos interpretados de forma original por actores misturados no meio do público, público que também são. As mensagens, actuais, remetem para o momento social, económico e político que se vive hoje em dia, momento de desconfiança em que o individual abafa o colectivo e em relação ao qual a música de Zeca Afonso é farol cada vez mais distante, já só - mas ainda - “uma pequenina luz bruxuleante”. Embora reduzido, o naipe de músicos mostra-se precioso, tanto na dinâmica de palco como na sua qualidade interpretativa. Há, enfim, um fio condutor do espectáculo errático, confuso nos seus propósitos, e ainda um erro de “casting” tremendo na opção pela actriz que assume a presença e a voz de Zeca Afonso. Se em relação à presença pouco haverá a apontar, já em matéria de voz só me ocorre dizer que o Zeca merecia melhor.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

DANÇA: "The Köln Concert" | Trajal Harrell



DANÇA: “The Köln Concert”
Schauspielhaus Zürich Dance Ensemble
Coreografia, encenação, banda sonora, figurinos | Trajal Harrell
Música | Keith Jarrett, Joni Mitchell
Interpretação | New Kyd, Maria Ferreira Silva, Trajal Harrell, Rob Fordeyn, Thibault Lac, Songhay Toldon, Ondrej Vidlar
Produção | Schauspielhaus Zürich
50 Minutos | Maiores de 6 anos
Rivoli - Grande Auditório
13 Set 2024 | sex | 19:30


Quando, em 1975, Keith Jarrett pisou o palco da magnífica sala da Ópera de Colónia, a primeira coisa que reparou foi no piano. Nem todos os pianos são iguais, como sabemos, e este não era o correcto para o programa que se propunha apresentar. Sentou-se e mostrou-se exímio na forma como conseguiu disfarçar o incómodo. No pousar ritmado dos dedos sobre as teclas, desenvolveu um exercício de improvisação com a duração aproximada de uma hora. A sua gravação tornou-se num dos álbuns mais vendidos da história da música clássica e do jazz: “The Köln Concert”. Vem isto a propósito de Trajal Harrell, coreógrafo americano que há muitos anos sonhava em trabalhar a peça mítica de Keith Jarrett e levá-la a palco. Fruto da multiplicidade de experiências e vivências, eis-nos perante uma visão pessoal de “The Köln Concert”, a concretização de um sonho que reflecte a diversidade das suas influências. São sete os intérpretes em palco - entre os quais o próprio Harrell - a quem é prometida uma partitura musical de carácter surpreendente. Têm à sua espera sete bancos de piano e um desafio artístico único, que une o ritmo ao gesto, a voz ao movimento, a dança à música.

Com um solo de abertura ao som da voz de Joni Mitchell, Trajal Harrell sobe ao palco sozinho e depois povoa-o com criaturas marginalizadas transformadas em indivíduos independentes, desafiando o seu abandono em momentos de dor, sensualidade e adversidade. Nesse início de espectáculo, rapidamente se percebe que o desafio artístico não recai apenas sobre os intérpretes. A plateia é chamada a “ler” a peça, mas o livro que tem nas mãos está escrito em braille. De leitura imediata só os figurinos, determinantes na identificação de estratos sociais díspares, elementos que encontram prolongamento na música, na forma diversa como cada indivíduo a sente e vive. Mais subtilmente, o corpo como memória colectiva acaba por se impor, já que a ausência de contacto físico, traço indelével do carácter deste “The Köln Concert”, remete para tempos de incerteza e angústia. E nem precisamos de recuar muito, lembrando o período da pandemia, o estigma social, a contabilidade dos mortos, a obrigatoriedade do distanciamento social. Da necessidade, em 2020, de limitar o contacto físico durante os ensaios, surgiram os bancos de piano, espaços de individualidade por excelência. É neles que os intérpretes se sentam num dos quadros iniciais e, de forma conjunta, fazem assentar a sua performance, em exclusivo, em insinuantes “ports de bras” e movimentos ondulantes do tronco.

Numa conversa pós-espectáculo no âmbito da Bienal de Dança de Veneza 2024 - na qual recebeu o Leão de Prata pelas obras “Tambourines” e “Sister or He Buried the Body” -, Trajal Harrell referiu-se a esta última como “uma reflexão sobre o que significa dançar à medida que se envelhece, uma performance para quando o tempo está a acabar”. É como se Harrell estivesse a criar um testamento do movimento: Uma dança que será capaz de executar mesmo quando chegar aos setenta anos de idade. Para além dos figurinos e do corpo como memória colectiva, esta busca de um eu futuro será, porventura, outra das marcas de “The Köln Concert”, ampliando o âmbito conceptual e artístico de uma obra que se convoca múltiplas visões. De forma sensível, a peça assume um carácter híbrido, onde as questões de género, feminismo, cultura pop, moda e movimentos de vanguarda se revelam determinantes nos processos criativos próprios do pós-modernismo. É nesta amálgama única de géneros, na justaposição inesperada de formas e no vasto espectro emocional, que o trabalho de Harrell cativa e hipnotiza. Uma montanha-russa de emoções que convoca, em igual medida, o humor e a seriedade, o choro e o riso.

domingo, 10 de março de 2024

DANÇA: "ÔSS"



DANÇA: “ÔSS”
Direcção artística | Henrique Amoedo
Coreografia | Marlene Monteiro Freitas
Figurinos | Marlene Monteiro Freitas
Performance | Bárbara Matos, Bernardo Graça, Joana Caetano, Maria João Pereira, Mariana Tembe, Milton Branco, Rui João Costa, Sara Rebolo, Telmo Ferreira
Produção | Dançando com a Diferença, P.OR.K
80 Minutos | Maiores de 6 anos
Rivoli - Grande Auditório
09 Mar 2024 | sab | 19:30


“Construir um esqueleto forte, onde um pé tem a função de cérebro, o coração serve de cotovelo e os joelhos são um fígado e uma orelha, ser-nos-á naturalmente possível já que, entre duro e mole, no final, pouco importará. As partes deste compósito e seu posterior destino, serão tratados em leilão.” As palavras da coreógrafa Marlene Monteiro Freitas não deixam margem para dúvidas. “ÔSS”, do colectivo “Dançando com a Diferença”, será aquilo que cada um quiser que seja. Tenda de circo ou praça de touros, coberta de navio ou campo de batalha, é um objecto desconcertante, imaginativo, mordaz, jocoso, trocista, avesso a convenções, colorido, vivo. Tão vivo como esse “ôss” - “osso”, em crioulo -, “guardador e revelador de segredos milenares, guardião de orientações anatómicas, caixa estruturante de partes moles e frágeis.” Ou como o “ôss” que abraça os praticantes de karaté, expressão polissémica que, “na sua origem, condensa ideias como pressionar, empurrar, suportar, tolerar.”

Em “ÔSS”, o palco é um mundo onde se marcam fronteiras e cavam trincheiras, se esbatem diferenças e desatam nós, se contornam medos e libertam amarras, se choram os mortos e celebra a vida. Um mundo feito de barras e grades, de caixas e plintos, geografias precisas que na sua ordem castradora, no que implicam e impõem, se afirmam como elementos repressivos e punitivos que importa contrariar. Obedecendo a uma geometria linear, os corpos obrigam-se a movimentos rígidos e precisos, no depositar de um lençol sobre uma cama como no transportar de uma bacia, ninho onde um corpo se abriga. O espectáculo cresce do visual para o performativo ao longo de uma sucessão de quadros fortemente impressivos, acompanhados por uma banda sonora onde cabem a música operática e os ritmos africanos, a música techno e um “hit” de Rihanna. Da ordem ao caos vai o tempo da peça.

Os espectadores estão ainda a chegar aos seus lugares e já o palco se agita com a animação de um DJ de serviço. É clara a intenção de pôr o público à prova desde o início, de ganhar a sua atenção, de lhe pedir que decifre as situações contrastantes que está prestes a viver. Na sua singularidade, os dançarinos assumem as suas personagens com um rigor e um empenho exemplares. É tocante a forma como, individualmente, concorrem para a criação de um corpo de dança enigmático e de grande complexidade, capaz de despertar no espectador as mais díspares emoções. São eles que dão forma ao imaginário coreográfico de Marlene Monteiro Freitas, seres instáveis por natureza, em metamorfose constante, capazes de passar do polícia ao ginasta, do militar ao camareiro, num piscar de olho. Ficará para sempre na memória a interpretação desse clássico intemporal de Gershwin, “The Man I Love”, na voz de Maria João Pereira. Como ficarão as passadas marciais de Mariana Tembe, a gaiatice de Sara Rebolo, a mímica da Bárbara Matos. A energia e cumplicidade do conjunto.

[Foto: © Laurent Philippe | https://www.teatromunicipaldoporto.pt/]

terça-feira, 9 de abril de 2019

TEATRO: "Banda Sonora"




TEATRO: “Banda Sonora”
Texto e encenação |Ricardo Neves-Neves
Composição e orquestração | Filipe Raposo
Interpretação | Ana Valentim, Joana Campelo, Márcia Cardoso, Rita Cruz, Sílvia Figueiredo, Tânia Alves com Orquestra Académica Metropolitana
Maestro | Cesário Costa
Cenografia | Henrique Ralheta
Figurinos | Rafaela Mapril
Caracterização | Cidália Espadinha
Coreografia e movimento | Sónia Baptista
Coprodução | São Luiz Teatro Municipal, Cine-Teatro Louletano e Teatro do Eléctrico
Rivoli - Teatro Municipal do Porto
06 Abr 2019 | sab | 19:00


Inteligente, divertido, inspirador. Todos os adjectivos são insuficientes para classificar o extraordinário momento de teatro que é “Banda Sonora”, um musical cuja concepção teve o seu ponto de partida nos acordes saídos da mente inspirada de Filipe Raposo, aos quais Ricardo Neves-Neves acrescentou uma ideia de texto e de encenação, num processo criativo verdadeiramente invulgar. Depois foi “só” trabalhar um cenário engenhoso, uma fenomenal caracterização e figurinos, a justeza e harmonia da coreografia e do movimento, ainda a música tocada ao vivo por uma orquestra jovem e competente e, naturalmente, a interpretação notável das actrizes em palco, o todo arquitectado num ambiente deliciosamente fantástico e irreal, a fazer lembrar o universo delirante de Tim Burton ou de algumas das mais belas histórias da Disney.

“Banda Sonora” conta a história de três meninas, de 8, 12 e 16 anos, que se vêem sozinhas na floresta, mais ou menos entregues à sua sorte. O passado de todas elas coincide em vários aspectos, desde a perda dos progenitores em contextos absolutamente dramáticos, ao processo natural de crescimento, feito de traquinice, muita curiosidade em perceber o mundo que as rodeia e algumas experiências que tendem a não correr lá muito bem. São três meninas que foram ensinadas a distinguir o que está certo do que está errado, mas que parecem não perceber muito bem que fumar ou namorar não é exactamente o mesmo que espetar uma faca na barriga de alguém. E assim, qual Adão e Eva depois de provarem o fruto proibido, sofrem o castigo de se verem apartadas do “paraíso”, obrigadas a viver o resto da sua existência num mundo subterrâneo onde, apesar de tudo, é ainda possível ver desabrochar uma flor.


Estreada no Teatro S. Luiz em Março de 2018, “Banda Sonora” precede no tempo “Alice no País das Maravilhas”, outro trabalho de encenação notável de Ricardo Neves-Neves, aqui em parceria com Maria João Luís. Ambas as peças prendem pela sua musicalidade e ritmo, o ambiente misterioso e sombrio da floresta a impor-se, tal como a figura do espelho – em “Alice no País das Maravilhas”, recorde-se, ele é elemento fulcral da cenografia, enquanto em “Banda Sonora” ele está presente na “duplicação” das três meninas (são, na verdade, seis actrizes em palco), cada uma espelho da outra. Há ainda o imaginário do cinema, com Burton e Disney à cabeça quando pensamos na envolvência e ambientes da peça, mas também essa notável partitura de Filipe Raposo, a remeter para o Danny Elfman de “Eduardo Mãos de Tesoura”, “O Estranho Mundo de Jack” ou “A Noiva Cadáver”. Genial!

[Foto: Ricardo Neves-Neves / facebook.com/ricardo.neves.neves]

sexta-feira, 8 de março de 2019

TEATRO: "Os 120 Dias de Sodoma"



TEATRO: “Os 120 Dias de Sodoma”
Texto e encenação | Milo Rau
Cenografia e figurinos | Anton Lukas
Video | Kevin Graber
Dramaturgia | Gwendolyne Melchinger
Interpretação | Noha Badir, Remo Beuggert, Gianni Blumer, Matthias Brücker, Nikolai Gralak, Matthias Grandjean, Julia Häusermann, Sara Hess, Robert Hunger-Bühler, Dagna Litzenberger Vinet, Michael Neuenschwander, Matthias Neukirch, Tiziana Pagliaro, Nora Tosconi, Fabienne Villiger
Produção | Schauspielhaus Zürich – Theater Hora
Rivoli – Teatro Municipal do Porto
07 Mar 2019 | qui | 21:00


Como é que se transforma aquele que é, seguramente, um dos mais controversos filmes da história do cinema, num espectáculo de palco cujo elenco inclui actores com Trissomia 21? Esta questão terá aflorado, de forma recorrente, as mentes dos espectadores que, numa noite chuvosa e fria, rumaram ao Rivoli para a estreia em Portugal de “Os 120 Dias de Sodoma”. Por detrás desta produção, o nome de Milo Rau levantava, igualmente, muitas interrogações, sobretudo depois da polémica em torno do seu trabalho anterior, “Five Easy Pieces”, encenado em vários países e sujeito a censura devido ao uso de crianças no papel de actores que representam os crimes do pedófilo Marc Dutroux.

Tendo como ponto de partida o filme de Pasolini, “Saló, ou os 120 Dias de Sodoma”, Milo Rau prossegue na busca do que pode ou não ser representável e suportável em palco. Interpretando, com bastante liberdade, o trabalho de Pasolini – por sua vez inspirado no romance do Marquês de Sade –, o encenador abraça a representação explícita do poder sexual e da violência para nos dar um diagnóstico actualizado duma sociedade onde o consumismo, a normalização do excesso e a constante optimização dos seres humanos são cada vez mais a regra. Profundamente perturbador, o monólogo que coloca em paralelo a eutanásia no regime nazi e a interrupção voluntária da gravidez nos nossos dias, é um verdadeiro murro no estômago do público.

Numa sociedade moderna, a oscilar entre o hedonismo e a desgraça, Milo Rau atira-nos para diante dos olhos um teatro que obriga a pensar em questões fundamentais como as relações de poder, o significado do voyeurismo, como proteger a dignidade da vida, os conceitos de normalidade ou os limites da dor. Fá-lo com enorme ternura, os actores perfeitamente cúmplices numa “farsa” que teima em ser levada às últimas consequências, o público dividido entre a mentira e a verdade, entre a “máscara” por detrás da qual se escondem os actores e esses mesmos actores que dispensam a máscara, porque sabem estar sem ela, no palco como na vida. Inquietante e atraente, estimulante e perturbador, “Os 120 Dias de Sodoma” é uma peça que importa ver com a necessária proximidade e sobre a qual se impõe uma cuidada reflexão.

[Foto: Stefan Bläske / hora.ch]

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

DANÇA CONTEMPORÂNEA: "Dance" / "Set and Reset / Reset"



DANÇA CONTEMPORÂNEA: “Dance” / “Set and Reset / Reset”,
de Lucinda Childs / Trisha Brown
Ballet de l'Opéra de Lyon
Rivoli – Teatro Municipal do Porto
17 Fev 2019 | dom | 17:00


O Ballet de l'Opéra de Lyon trouxe ao palco do Rivoli, na tarde do passado domingo, um espectáculo de Dança Contemporânea absolutamente inolvidável. Fundadas no experimentalismo da década de 60 do século passado e, em particular, na Judson Dance Theatre, uma dos mais importantes escolas da história da dança, as duas peças interpretadas recuperaram os trabalhos de duas enormes coreógrafas, Lucinda Childs e Trisha Brown (esta última recentemente falecida), ambos com muitas dezenas de anos em cima e milhares de interpretações por variadíssimas companhias do mundo inteiro ao longo do tempo.

Com assinatura de Lucinda Childs, “Dance” foi criada em 1979 e assenta num minimalismo obsessivo, que a música de Philip Glass ajuda a reforçar. Trata-se duma peça aparentemente simples, mas que exige do bailarino uma extraordinária concentração face aos sucessivos movimentos repetitivos que lhe são impostos. Aliando a graciosidade e elegância do gesto à energia e rapidez de execução, os intérpretes formam como que correntes que invadem o palco e se dispersam nas mais variadas direcções, para se voltarem a juntar e de novo a partir e assim sucessivamente. Esta ideia de movimento pendular, rigoroso e profundamente síncrono, é ampliada pela projecção em simultâneo de um filme concebido por Sol LeWitt, que ilustra a mesma coreografia, multiplicando as figuras em palco e projectando-as sob diferentes ângulos. O efeito é hipnotizante e os dezassete bailarinos mereceram em absoluto a enorme ovação que o público lhes prestou antes de se ir para intervalo.

Coreografada por Trisha Brown em 1983, “Set and Reset / Reset” tem em comum com a peça anterior a mesma tensão entre a precisão de um movimento e a sua replicação em contextos muito próximos, bem como a forma como cada indivíduo pode contribuir para a concretização de uma experiência de movimento. Mas são grandes as diferenças, a começar desde logo pela cenografia, reduzida à nudez do palco em “Dance” e aqui belíssima, da autoria do artista visual Robert Rauschenberg. E depois a história de “Dance” é a própria peça, enquanto “Set and Reset / Reset” esconde uma história que vai deixando transparecer, a cada momento, essa ideia de improvisação estruturada, apenas parcialmente coreografada. Plasticamente muito bela, a peça tem música de Laurie Andersen e constitui um monumento à dança contemporânea que os seis intérpretes em palco souberam elevar ao mais alto nível.

[Foto: Blandine Soulage / dansercanalhistorique.fr]

segunda-feira, 18 de junho de 2018

TEATRO: "Provisional Figures"



TEATRO: “Provisional Figures”
Texto | Isabela Figueiredo e Gonçalo M. Tavares
Encenação e Dramaturgia | Marco Martins
Cenografia | Fernando Ribeiro
Interpretação | Ana Moreira, Ivan Ammon, Maria do Carmo Ferreira, Pedro Cassimo, Pete Dewar, Richard Raymond, Robert Elliot, Sérgio Cardoso de Pinho, Victoria River
Produção | CCTAR – Centro de Criação para o Teatro e Artes de Rua
Teatro Rivoli – Palco do Grande Auditório
16 Jun 2018 | sab | 19:00
FITEI - Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


“Um pela agonia,
Dois pela alegria,
Três pela menina,
Quatro pelo menino,
Cinco pela prata,
Seis pelo ouro,
Sete pelo segredo
Seguro num tesouro.
Oito pelo desejo,
Nove pelo beijo,
Dez pela ave
Mais bela que vejo.
Pega.”

O espectáculo está prestes a começar. O público vai tomando o seu lugar e de imediato se dá conta que irá partilhar os assentos na plateia com os actores, cujas cadeiras, dispersas pela sala, estão reservadas. Enquanto se espera pelo início do espectáculo, o som de fundo é o de entrevistas gravadas que remetem para experiências de vida particularmente duras em contexto laboral, a integridade e a própria dignidade da pessoa feridas em nome desse “bem maior” que é o ter trabalho, seja a que preço for. Na verdade a peça já começou e é Marco Martins a colocar-nos um nó na garganta ao dizer-nos que a Ana ou o Robert, o Sérgio, a Victoria, a Carmo ou qualquer um dos outros, somos nós. Um nó que se aperta à medida que os (não) actores vão surgindo em palco e expondo o provisório das suas vidas, a precariedade e a humilhação, o dinheiro escasso e a família longe, a felicidade e o amor eternamente adiados.

Culminando um processo de dois anos de investigação junto da comunidade portuguesa de Great Yarmouth e baseando-se nos testemunhos individuais de quem viveu de perto este período de incerteza, “Provisional Figures” propõe-nos uma reflexão sobre os problemas da identidade e da emigração num contexto urbano fortemente abalado pela crise económica e consequentes convulsões sociais. É um trabalho que mergulha numa realidade relativamente desconhecida em Portugal e que nos fala da emigração no auge da crise económica (2009-2014), em particular para a região de Norfolk, outrora destino balnear de eleição para os britânicos, agora reconvertido em centro da indústria de transformação alimentar.

Com “Provisional Figures”, Marco Martins volta a privilegiar o teatro do real, oferecendo-nos uma peça de enorme significado e alcance, em nome da crise, uma verdade que não pode ser esquecida. Uma crise que se revelou tremenda para milhões de pessoas sobretudo nos países do Sul da Europa, desestruturou famílias, comunidades inteiras, levou ao desemprego em massa, encerrou milhares de micro, pequenas e médias empresas... mas que deu muito jeito a alguns. E que pode estar aí ao virar da esquina, doa a quem doer, porque pode vir a dar jeito a alguns outros, afinal os mesmo de sempre. A presença dos não actores em palco reforça a mensagem, espicaçando recorrentemente o público com essa ideia tão querida ao encenador de que “todo o mundo é um palco”. E é, finalmente, o homem que está em causa, enquanto indivíduo dito superior, a revelar-se pior do que qualquer outro animal, o mais cruel para os outros e para si próprio.