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sábado, 25 de fevereiro de 2023

DANÇA | MÚSICA: "Timber"



DANÇA | MÚSICA: “Timber”
Direcção | Roberto Olivan
Assistente de ensaios | Cátia Esteves
Criação e interpretação | João Cardoso, Vanessa Cunha, Mafalda Cardoso, Liliana Oliveira, Ricardo Machado, Sara Garcia
Música | Michael Gordon
Direcção musical | Miquel Bernat
Interpretação musical | Drumming GP (André Dias, Daniel Araújo, João Miguel Simões, Jorge Pereira, Miquel Bernat, Pedro Góis)
Desenho de som e sonoplastia | Süse Ribeiro
Produção | Companhia Instável
Auditório de Espinho - Academia
24 Fev 2023 | sex | 21:30


Mantendo a aposta em dar a ver as amplas possibilidades que a música oferece na articulação entre os seus mais variados géneros ou na forma como se relaciona com outras linguagens artísticas, o Auditório de Espinho teve para oferecer na noite de ontem um espectáculo que vive da interacção entre percussão e dança. De um ponto de vista musical, “Timber” aposta na criação de paisagens sonoras que possam abrir espaço ao movimento e lhe sirvam de alimento. Coreograficamente, importa garantir a necessária fluidez entre bailarinos e percussionistas, rompendo com a dimensão tradicionalmente estática do músico e, ao mesmo tempo, adequando o movimento a um espaço que ora se abre, ora se fecha, como se de um respirar se tratasse. Para levar a cabo tão interessante quanto intenso desafio, em palco estiveram seis bailarinos da Instável - Centro Coreográfico e seis percussionistas do Drumming - Grupo de Percussão, sob a direcção do premiado coreógrafo Roberto Olivan e com música ao vivo do compositor nova-iorquino Michael Gordon. O resultado não poderia ser mais surpreendente.

Sendo difícil de pegar numa ponta por onde começar, agarro-me ao título do espectáculo, a esse “timber” que, em inglês, significa “madeira”. É ela a base da componente sonora do espectáculo, seis tábuas cortadas com diferentes dimensões, seis instrumentos aos quais correspondem diferentes tonalidades. Uma espécie de simantras, percutidas com baquetas que podem variar, permitindo alargar o leque de sons e criar melodias minimalistas onde a harmonia e o ritmo são elementos dominantes. Quem teve a oportunidade de assistir, neste mesmo espaço, a “Music For 18 Musicais”, de Steve Reich, com interpretação do Drumming GP, sabe perfeitamente de que música estou a falar e do que este grupo é capaz ao nível da percussão. Uma vez mais, a música contaminou o espaço com a sua ondulação insidiosa, transformando o momento numa experiência imersiva, hipnotizante, cuja força e energia nos prendeu ao seu âmago e nos predispôs para melhor percebermos o seu enquadramento e alcance no âmbito da peça.

O programa falava de “Timber” como “uma viagem às profundezas da nossa existência, uma visita a cada recanto que deixamos de visitar devido ao medo, ignorância ou abandono de nós mesmos. Uma desconexão pessoal daquilo que nos une à nossa única e autêntica natureza.” Pode ser que sim, pode ser que não. “A arte não se explica”, disse Ana Figueira, fundadora da Instável, no início de uma conversa com o público que teve lugar após o espectáculo, e esta afirmação deixa-me mais confortável. Há duas partes muito distintas na vertente de dança de “Timber”, sendo que a primeira tem apontamentos coreográficos interessantes mas não chega a deslumbrar. Aprecia-se a fisicalidade, o domínio do espaço, o constante estado de alerta dos bailarinos, mas parece tudo demasiado marcado, rígido, imperativo. A segunda metade corresponde a uma desaceleração, com uma enorme interacção entre músicos e bailarinos e uma maior liberdade de movimentos. Os últimos minutos são verdadeiramente sufocantes, as emoções à flor da pele, a gestualidade frenética dos bailarinos a contaminar o público e a transmitir-lhe um conjunto de sensações que vão da dor e do sofrimento à perda e à loucura. A rever, se possível!

[Foto: Auditório de Espinho - Academia | https://www.facebook.com/auditoriodeespinhoacademia]

domingo, 18 de setembro de 2022

DANÇA CONTEMPORÂNEA: "Ensaio Sobre a Cegueira"



DANÇA CONTEMPORÂNEA: “Ensaio Sobre a Cegueira”
Direcção, Coreografia | Nélia Pinheiro
Interpretação | Fábio Simões, Gonçalo Almeida Andrade, Nélia Pinheiro
Ambiente Sonoro | Gonçalo Almeida Andrade
Figurinos | José António Tenente
Cenografia | Nélia Pinheiro, Rafael Leitão
Desenho de Luz | Nuno Meira
Produção | Companhia de Dança Contemporânea de Évora
Festival Literário de Ovar 2022
Centro de Arte de Ovar
14 Set 2022 | qua | 22:30 


“ (…) Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.” Depois do livro, depois da peça de teatro apresentada recentemente no Teatro Nacional de S. João, volto de novo a José Saramago e ao seu “Ensaio Sobre a Cegueira”, desta vez numa viagem nos passos, nos gestos e no corpo da dança. Produzida pela Companhia de Dança Contemporânea de Évora, com direcção e coreografia de Nélia Pinheiro, este espectáculo é o culminar de um percurso de experimentação coreográfica em torno do comportamento humano em situações de crise e violência. Em cena, a redução da humanidade às necessidades e afetos mais básicos, um progressivo obscurecimento e correspondente iluminação das qualidades e dos terrores do homem, serve de guião e determina a natureza comportamental dos intérpretes. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

Com um formato próximo da instalação artística, a criação de Nélia Pinheiro tem um lado experimentalista muito forte, quer no que toca aos aspectos coreográficos como às soluções de construção e povoamento do espaço cénico. Grande parte da acção decorre no interior de uma estrutura - que tanto pode ser uma casa como o próprio mundo -, revestida de plástico, cuja relativa opacidade rouba ao espectador a nitidez (a lucidez?), colocando-o no lugar do cego e imergindo-o no drama. Na dimensão metafórica do espaço e do movimento, como na dissociação convocada pelo dentro e o fora, o opaco e o nítido, a luz e a escuridão, o preto e o branco, o deitado e o de pé, a proximidade e o distanciamento, o ser homem e o ser mulher, abre-se um vasto conjunto de questões que entroncam na ética, no amor ou na solidariedade. No seu propósito de inquietar, de provocar o espectador, a peça convida-nos a mergulharmos no mais fundo de nós, em busca de respostas aos porquês desta “cegueira branca”, cívica e societária, que nos invade e compele o nosso quotidiano a disfarçar os mais torpes e rudes instintos.

Nesse olhar frio e preciso sobre a condição humana, quando levada ao limite do inominável, este abraço a Saramago chama a nossa atenção para a “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Em cena, mas fora dela, escutamos a leitura de excertos seleccionados da obra do escritor. As palavras do livro oferecem ao espectador as pistas necessárias à compreensão da peça, enriquecendo-a com as diferentes perspectivas que a dança e o movimento vão abrindo. O tempo avança, o nó aperta-se e todos nos damos conta do quanto a ficção e a realidade estão cada vez mais próximas. Mostrar respeito, cuidado ou atenção pelo semelhante tornou-se uma excepção. Aquilo que outrora, de modo mais natural ou mais forçado, constituía o cimento de uma vida gregária, e no geral harmoniosa, faz cada vez menos sentido. O final é feliz. [“A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava.”] Mas a inquietação, essa, permanece. Mais viva que nunca.

[Foto: Ovar Cultura | https://www.facebook.com/ovarcultura]

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

DANÇA CONTEMPORÂNEA: "Dance" / "Set and Reset / Reset"



DANÇA CONTEMPORÂNEA: “Dance” / “Set and Reset / Reset”,
de Lucinda Childs / Trisha Brown
Ballet de l'Opéra de Lyon
Rivoli – Teatro Municipal do Porto
17 Fev 2019 | dom | 17:00


O Ballet de l'Opéra de Lyon trouxe ao palco do Rivoli, na tarde do passado domingo, um espectáculo de Dança Contemporânea absolutamente inolvidável. Fundadas no experimentalismo da década de 60 do século passado e, em particular, na Judson Dance Theatre, uma dos mais importantes escolas da história da dança, as duas peças interpretadas recuperaram os trabalhos de duas enormes coreógrafas, Lucinda Childs e Trisha Brown (esta última recentemente falecida), ambos com muitas dezenas de anos em cima e milhares de interpretações por variadíssimas companhias do mundo inteiro ao longo do tempo.

Com assinatura de Lucinda Childs, “Dance” foi criada em 1979 e assenta num minimalismo obsessivo, que a música de Philip Glass ajuda a reforçar. Trata-se duma peça aparentemente simples, mas que exige do bailarino uma extraordinária concentração face aos sucessivos movimentos repetitivos que lhe são impostos. Aliando a graciosidade e elegância do gesto à energia e rapidez de execução, os intérpretes formam como que correntes que invadem o palco e se dispersam nas mais variadas direcções, para se voltarem a juntar e de novo a partir e assim sucessivamente. Esta ideia de movimento pendular, rigoroso e profundamente síncrono, é ampliada pela projecção em simultâneo de um filme concebido por Sol LeWitt, que ilustra a mesma coreografia, multiplicando as figuras em palco e projectando-as sob diferentes ângulos. O efeito é hipnotizante e os dezassete bailarinos mereceram em absoluto a enorme ovação que o público lhes prestou antes de se ir para intervalo.

Coreografada por Trisha Brown em 1983, “Set and Reset / Reset” tem em comum com a peça anterior a mesma tensão entre a precisão de um movimento e a sua replicação em contextos muito próximos, bem como a forma como cada indivíduo pode contribuir para a concretização de uma experiência de movimento. Mas são grandes as diferenças, a começar desde logo pela cenografia, reduzida à nudez do palco em “Dance” e aqui belíssima, da autoria do artista visual Robert Rauschenberg. E depois a história de “Dance” é a própria peça, enquanto “Set and Reset / Reset” esconde uma história que vai deixando transparecer, a cada momento, essa ideia de improvisação estruturada, apenas parcialmente coreografada. Plasticamente muito bela, a peça tem música de Laurie Andersen e constitui um monumento à dança contemporânea que os seis intérpretes em palco souberam elevar ao mais alto nível.

[Foto: Blandine Soulage / dansercanalhistorique.fr]

domingo, 27 de maio de 2018

TEATRO FÍSICO | DANÇA | MÚSICA: "Hanno"



TEATRO FÍSICO | DANÇA | MÚSICA: “Hanno”
Criação e Dramaturgia | Rina Marques e Rui Paixão
Interpretação | Rina Marques e Rui Paixão
Criação Musical e Música ao Vivo | Cecília Costa
Uma Criação Imaginarius 2018
Santa Maria da Feira
25 Mai 2018 | sex | 19:10


É um final de tarde ameno e ruidoso em Santa Maria da Feira mas, no Rossio, os ambientes são os da noite mais negra, um silêncio de cortar à faca, o nevoeiro a envolver a terra num abraço frio e húmido. Ao desterro dum lugar sem nome chega um carro. No seu interior, um casal discute. Não se ouve o que dizem, qual o motivo da zanga, mas braços e corpos agitam-se, convulsos, descarregando no outro toda a raiva do mundo. A briga adensa-se, o nevoeiro também. De súbito um som seco estala. Depois outro, e outro, e outro...

Aliando dança, teatro físico e música (vibrante percussão acústica e electrónica, desenhada e interpretada ao vivo por Cecília Costa), “Hanno” é uma história intemporal de amor e ódio. As emoções mais primárias são trazidas para primeiro plano de forma crua e intensa, ora abrindo-se em gestos de ternura, ora alimentando a violência e o confronto que acabará por reduzir as personagens à sua condição animal, literalmente. A configuração do “palco”, com tanto de comprido como de estreito, força a aproximação física entre público e actores, propiciando um clima de tensão a raiar o insustentável, o drama a desenrolar-se à distância de um braço. Em estado de inquietação e angústia crescentes, o espectador é obrigado a tomar partido, mergulhado também ele no pesadelo desta relação.

Exímios na forma como vestem a pele das suas personagens em palco, Rina Marques e Rui Paixão ofereceram ao vasto público presente no Rossio da Feira um espectáculo poderoso e particularmente apelativo do ponto de vista visual. A forte componente de dança contemporânea é evidenciada de forma sublime por Rina Marques, toda ela gestualidade versátil, graciosidade e harmonia, o contraponto perfeito à exuberância física do teatro de Rui Paixão, à sua mobilidade, polivalência e, sobretudo, expressividade. Um e outro encarnam uma relação tempestuosa, num ambiente tornado opressivo por uma inteligente e rigorosa concepção dramatúrgica, a remeter para os grandes clássicos do teatro, de “O Som e a Fúria” a “Há Lodo no Cais”, de William Faulkner a Tennessee Williams. O melhor espectáculo desta edição do Imaginarius 2018.