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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

TEATRO: “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante” | Trigo Limpo Teatro ACERT



TEATRO: “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante”
Texto e encenação | José Rui Martins
Colaboração dramatúrgica | João Maria André, José Saramago, Michel Séonnet
Cenografia e desenho gráfico | Zétavares
Música de cena | Mia Henriques
Figurinos | Eva Pereira
Interpretação | Afonso Cortês, José Abrantes, Maria Ferreira, Mia Henriques
Produção | Trigo Limpo Teatro ACERT
XI Festival Literário de Ovar
Biblioteca Municipal de Ovar (espaço exterior)
21 Set 2025 | dom | 19:30


“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. (…) Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa”.

Um avô doou em testamento a sua carrinha de cinema / biblioteca ambulante aos três netos para que continuem o seu legado. Artistas desempregados, cumprem a vontade do avô, ainda que não saibam todos os segredos do ofício. Entre muitas peripécias, darão conta do recado? Que fazer? Têm uma leve ideia do que lhes foi contado sobre o avô e de terem assistido a filmes e escutado, quando eram gaiatos, memórias soltas da vida dele contadas pelos pais. Para não defraudarem o público, vão manifestar o embaraço, pedindo-lhe ajuda. Acabam por interpretar teatralmente memórias imaginárias e fantásticas, sonhos, risos e inquietações onde a palavra é protagonista. Desejam “só uma casa com o tamanho do Mundo… Casa da Hospitalidade.”

Em 1958, a Fundação Calouste Gulbenkian substituiu-se ao Estado Novo que não estava muito interessado em cidadãos esclarecidos e informados e colocou em circulação as primeiras quinze bibliotecas itinerantes, chegando esse número a atingir as sessenta e duas unidades. Durante mais de quatro décadas, as bibliotecas levaram a todo o país livros e ajuda para os escolher, que chegou a ser prestada pelos poetas Herberto Hélder e Alexandre O’Neill. Desta maneira, milhões de pessoas puderam ter acesso a livros, o que de outra forma não teriam conseguido. O elemento inspirador deste espectáculo resulta das memórias das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, idealizando-se, para tal, um elemento cénico fundamental: Uma réplica das icónicas Citröen HY. Daí que o espaço seja palco e seja também memória, daí a escolha do mesmo modelo para dar vida ao engenho Ambulante, fazendo com que a Palavra continue a voar.

Acompanhando sempre os seus desempenhos artísticos e comunitários com a construção de engenhos cénicos de grande envergadura e forte impacto visual, a Trigo Limpo Teatro ACERT passa a ter, agora, um teatrinho em todas as localidades de acolhimento, onde a escuta do mundo é como o pão para a boca. Há muito que a ideia os perseguia. A fonte inspiradora era, por si, um elemento que, na actualidade, é mágico. Como imaginar que, há mais de sessenta anos, uma carrinha percorreu os lugares mais recônditos de Portugal para proporcionar à população do interior a leitura, transportando livros aos quais, de outro modo, as nossas gentes nunca teriam acesso? O caminho escolhido leva o espectador ao encontro de um conjunto de personagens que, não sabendo ler, inventaram formas de o fazer singelamente, lendo a vida e os sonhos com o passajar dos dedos pelas páginas dos livros. Um convite à aventura feliz, impulsionada pelos conhecimentos daqueles que, podendo não saber ler, souberam criar universos oníricos e sentimentais de grande autenticidade.

domingo, 5 de outubro de 2025

CONCERTO: "Anónimos de Abril" | Joana Alegre, José Fialho Gouveia e Rogério Charraz



CONCERTO: “Anónimos de Abril”
Com | Joana Alegre, José Fialho Gouveia e Rogério Charraz
XI Festival Literário de Ovar
Escola de Artes e Ofícios
19 Set 2025 | sex | 22:30


“Naquele 25 de Abril de 1974, um restaurante em Lisboa, situado na Rua Braancamp, celebrava um ano de existência. Para assinalar o aniversário, o gerente comprara cravos para oferecer às clientes. Mas com uma revolução em marcha o restaurante não abriu as portas e as flores foram distribuídas pelos funcionários. Celeste Caeiro, na altura com 40 anos, pôs-se a caminho de casa e cruzou-se com os tanques e os militares. Houve um que lhe pediu um cigarro, mas ela não tinha. Entregou-lhe, em vez disso, um cravo, que ele colocou no cano da espingarda. E, assim, Celeste criou para sempre a ligação entre os cravos e a liberdade.”

E se Abril fosse apagado da memória? Não o Abril dos livros ou dos palcos consagrados - que a esse nada nem ninguém o poderá apagar -, mas o outro, o dos rostos sem nome, das mãos anónimas que também fizeram história. Rogério Charraz, nascido depois da Revolução, tropeça um dia na história de Celeste Caeiro e é como se ouvisse Abril respirar pela primeira vez. Com José Fialho Gouveia, jornalista e letrista, decide erguer um palco onde as vozes caladas encontrassem música. Joana Alegre soma-se à viagem e as histórias ganham ainda mais corpo, ainda mais alma. E assim nasceu “Anónimos de Abril”, um espetáculo de canções que celebram as figuras escondidas por entre os ecos de cravos e memórias. O espetáculo cresceu, ganhou estrada, percorreu o país e encontrou novas histórias no coração do público. A memória de Abril alargou-se, ramificou-se. A coroar uma noite de celebração da palavra, “pousou” na Escola de Artes e Ofícios, tirando da sombra heróis discretos e enchendo de luz uma noite de liberdade.

Celeste Caeiro é apenas um dos “anónimos” celebrados num espectáculo que traz a Abril um rol de protagonistas cujas vozes e gestos nunca saíram do pequeno reduto da suas própria liberdade. Está neste caso Francisco Miguel Duarte, conhecido como Chico Sapateiro, um dos dez condenados que fugiram de Peniche em 1960. No total, passou vinte e um anos atrás das grades, dez dos quais no Tarrafal, para onde foi desterrado em duas ocasiões. Foi ele o último preso do campo de concentração aquando do seu primeiro encerramento, em janeiro de 1954, tendo passado seis meses sozinho com os carcereiros. Está também Belmira da Conceição Gonçalves, conhecida como a Sãozinha e que foi assassinada em 1962, na sequência do protesto das populações contra a decisão das autoridades da Ilha da Madeira em desviar as águas que corriam na Levada do Moinho para um novo curso. A PSP decidiu intervir em força e abriu fogo e uma das balas atingiu mortalmente a jovem estudante. Estão ainda Aurora Rodrigues e o Padre Alberto Neto, Benedicto Sousa Villar e Francisco Sousa Mendes, Jorge Alves e Arajaryr Campos e tantos outros, descobertos em relatos partilhados com outros “anónimos” ou em conversas com historiadores e guardiões da memória.

Numa sala cheia de gente com Abril nos genes, o concerto logrou esse desiderato maior de dar vida às vidas de outrora, contando a revolução dos cravos em vozes que nunca tiveram microfone, em gestos que não couberam nos jornais. José Fialho Gouveia abria cada um dos catorze temas com as histórias que lhes serviam de base. Rogério Charraz e Joana Alegre emprestavam a voz aos significativos e muito belos poemas e Sérgio Charrinho (trompete), Carlos Garcia (piano e clarinete) e Luís Pinto (baixo) cumpria a sua função de retaguarda, emprestando substância e consistência às histórias partilhadas. Numa dessas partilhas conhecemos Luísa, presa e torturada pela PIDE, que vive até hoje na angústia de ter aberto a porta à prisão do namorado ao admitir que pertencia ao PCP. Celeste Caeiro partiu em Novembro de 2024. Na altura da estreia do espectáculo, só quatro dos dezanove homenageados se encontravam vivos e Celeste era um deles. Rogério Charraz resumiria tudo num aviso decidido: “Se não preservarmos estas histórias, elas vão-se perder, vão-se esfumar.” Abril foi feito por muitos e muitos desses ainda esperam ser lembrados. Foi com este sentimento que, de pé, se cantou “Grândola Vila Morena”, a fechar um extraordinário serão.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

CONCERTO: "Canções para Beber com Pessoa" | Ana Deus e Luca Argel



CONCERTO: “Canções para Beber com Pessoa”,
de Ana Deus e Luca Argel
XI Festival Literário de Ovar
Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2025 | qui | 22:30


Fernando Pessoa fez-se forte presença no Festival Literário de Ovar na música e na voz de Ana Deus e Luca Argel. Intitulado “Canções para Beber com Pessoa”, o concerto da dupla fechou o serão do segundo dia do certame, dando a ver uma das facetas menos conhecidas, mas não menos importantes, do poeta, ensaísta, dramaturgo, inventor, crítico literário e publicitário: a de tradutor. Desde a Pérsia do século XI, os “Rubaiyat” do poeta Omar Khayyam atravessaram quase um milénio de tempo e de linguagem até chegarem às mãos de Fernando Pessoa, pela recriação inglesa de Edward FitzGerald. Mais do que uma simples tradução, o encontro de Pessoa com os “Rubaiyat” transformou-se numa experiência literária e sensorial, um jogo livre de reinterpretação onde o vinho, a dúvida e o deslumbramento se entrelaçam numa contemplação do mundo que tanto revela a sua beleza efémera como se abre num abismo ontológico, onde nem mesmo Deus parece alcançar razão. Um século depois, estes poemas ressurgem reinventados pelas vozes de Ana Deus e Luca Argel, mergulhando nos delírios filosóficos e hedonistas do poeta e vestindo-os com uma roupagem contemporânea, onde palavra, som e silêncio se entrelaçam numa nova forma de escuta e celebração.

Não é a primeira vez que Ana Deus e Luca Argel investem o seu talento na obra pessoana. Versos, estrofes e toda uma panóplia de histórias de Fernando Pessoa ganharam uma nova vida no álbum “Ruído Vário”, a convite da Casa Fernando Pessoa, editado em 2017. Poemas bem conhecidos como “Liberdade”, “Na Ribeira Deste Rio”, “Entre o Sono e o Sonho” ou “Ó Sino da Minha Aldeia” ganharam assim uma nova dimensão, ampliando e colorindo a obra daquele que é amplamente considerado como um dos maiores poetas portugueses do Século XX. Regressar a Pessoa foi quase uma “obrigação” para a dupla, fascinada com o trabalho de tradução livre do poeta sobre os “Rubaiyat”, considerado o livro que contém mais notas manuscritas por Pessoa, em toda a sua biblioteca particular. No pequeno palco da Escola de Artes e Ofícios, em formato intimista (duas vozes e uma guitarra), a intensidade e presença cristalina da voz de Ana Deus juntou-se à delicadeza e doçura, já bem conhecidas, da interpretação de Luca Argel, convidando o público a saborear quinze canções praticamente inéditas, nas quais as palavras de Fernando Pessoa foram servidas em pequenas doses refrescantes.

Tema inaugural do concerto, “O Som das Águas” serviu de aperitivo a uma noite de sedução e encanto. As canções seguintes - “É Inútil Dizer”, “Ouvi os Sábios” e “O Grande Espaço Azul” - pareceram querer dizer: Bebe! Bebe! Um beber que, nas palavras e na música de Ana Deus e Luca Argel, se traduz em alegria, tranquilidade e amor. Na dolência de uma valsa ou no frenesim de um samba, é o carácter hedonista, contemplativo e profundamente filosófico do poeta persa que se revela, passando á prática essa ideia fundamental de aproveitar o presente, “pois o tempo é breve e a morte é certa”. “Fingi quem Fui”, “Endoidecendo”, “Melancolia” e “Não Fiz Nada” falam-nos mais de Pessoa que de Khayyam, tal como “Autopsicografia”, interpretado já no “encore” - “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. Desenhado com cuidado e bom gosto, o concerto oferece um conjunto de registos em vídeo que evocam a ideia de centriptismo, que atrai o público para o seu interior e o convida a pede que se deixe seduzir pela doce libação das palavras e da voz. Uma experiência sensorial deveras inebriante, que a todos tocou.

domingo, 28 de setembro de 2025

CONCERTO: "Na Primeira Pessoa" | Carlos Alberto Moniz



CONCERTO: “Na Primeira Pessoa”,
de Carlos Alberto Moniz
Com | Gabriel Pinto (piano), Hugo Carvalhais (contrabaixo), João Martins (bateria)
XI Festival Literário de Ovar 
Centro de Artes de Ovar
17 Set 2025 | qua | 22:30


Carlos Alberto Moniz é, indiscutivelmente, uma das figuras mais singulares e versáteis da música portuguesa do pós-25 de Abril. Nascido em Angra do Heroísmo, assumiu desde muito novo um papel destacado num período em que a música era, acima de tudo, veículo de consciência política e social. A sua participação activa no movimento da música de intervenção traduziu-se numa obra profundamente comprometida com os valores da liberdade, da justiça e da solidariedade, servindo de contraponto às narrativas da ditadura e como força mobilizadora no processo de transição democrática. Colaborou com Fausto Bordalo Dias, José Mário Branco, Sérgio Godinho ou José Afonso, e envolveu-se em projectos colectivos como o Grupo de Acção Cultural – Vozes na Luta. Apesar da clara matriz ideológica, a sua música não se limitou ao panfleto; nela, a dimensão estética e a qualidade melódica foram uma preocupação constante, conferindo-lhe um carácter poético, imune ao desgaste do tempo e das conjunturas políticas.

Não foi no papel de cantor da revolução que Carlos Alberto Moniz se apresentou em Ovar, na noite inaugural da décima primeira edição do Festival Literário. Dedicado a alguns dos autores que Moniz musicou ao longo da sua carreira, o concerto abraçou o desígnio do activismo literário, cruzando a música e a poesia e potenciando uma nova forma de fruição da palavra escrita. Superiormente acompanhado pelo pianista Gabriel Pinto, pelo contrabaixista Hugo Carvalhais e pelo baterista João Martins, Moniz abriu o concerto com “Coração Ilhéu”, um poema de Fernando Gomes dos Santos que abraça com carinho os Açores - “Nasci no meio do mar, / O meu berço foi a espuma. / Aprendi cedo a escutar / O ritmo das marés, o som da bruma.” Temas como “Angra 50 Anos Depois”, “Se Vieres à Ilha Como Dizes”, “Recados da Ilha” e “Avé Sardinha” serviram para homenagear o poeta Álamo Oliveira, com quem Carlos Alberto Moniz manteve uma colaboração de cinquenta anos de canções e que nos deixou há muito pouco tempo.

Mas a voz do cantor não nos trouxe apenas a poesia de Álamo Oliveira, arrastando consigo uma plêiade de poetas talentosos, de Avelino Gualdino Rodrigues a Manuel Alberto Valente, de António Melo e Souso a Liliana Lima, fazendo das suas palavras canção e tornando-as memória colectiva e emoção partilhada. A riqueza da lírica insular teve nas “Populares Açoreanas” um momento destacado, com a interpretação da “Charamba” e do “Bravo”, da “Lira” e do “Samacaio”, a saltarem do palco e a estenderem-se à plateia. Num serão feito de poesia, os últimos temas - “E um Dia fez-se Abril” e “Quero Agradecer” - lembraram tempos de liberdade e projectaram futuros que se esperam de paz e harmonia, temas universais que, a juntar à qualidade artística do cantautor, elevaram o concerto a um patamar de excelência. Simultaneamente voz da terra que o viu nascer e ponte entre as margens da cultura nacional, Carlos Alberto Moniz mostrou em Ovar a riqueza do nosso cancioneiro e a pertinência de o escutarmos e acarinharmos.

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/ovarcultura]

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Pela Janela do Olhar" | Mafalda Rocha



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Pela Janela do Olhar”,
de Mafalda Rocha
XI Festival Literário de Ovar
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
05 Jul > 03 Out 2025


“Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares demais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.”
Miguel Sousa Tavares

Quase a chegar ao fim a exposição de pintura “Pela Janela do Olhar”, da autoria de Mafalda Rocha, tempo ainda para algumas palavras sobre este magnífico conjunto de trabalhos, com a secreta esperança de que alguns daqueles que lerem esta mensagem possam encontrar a disponibilidade necessária a visitá-los no Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense. Começando pela autora, importa dizer que Mafalda Rocha é artista plástica e que a sua pintura habita um território contemporâneo e expressivo, cruzamento de emoções, matéria e consciência cívica. Entre paisagens interiores e exteriores, a obra da artista evoca atmosferas onde o olhar repousa e se demora, mas também convoca temas urgentes como a Paz, a condição da Mulher, a Literatura e a Democracia. Na pintura de Mafalda Rocha, cada obra é “um lugar habitável, onde quem vê possa parar, escutar e, talvez, encontrar-se”. A série “Pela Janela do Olhar” é um exemplo dessa fusão entre a arte e a palavra: rostos de escritores e escritoras cruzam-se com fragmentos das suas obras, num tributo à literatura e ao milagre da criação.

“Pela Janela do Olhar”, série surgida na sequência do Festival Literário ESCRITARIA e propriedade do Município de Penafiel, é disso um excelente exemplo. Através dela, Mafalda Rocha homenageia os autores e autoras de língua portuguesa celebrados pelo evento desde a sua génese, em 2008, interpretando os rostos e, sobretudo o olhar, dos sujeitos retratados. Com uma paleta minimal onde, num fundo de vermelhos, se destacam a prata, o estanho ou o cobre, Mafalda Rocha abre uma janela sobre a alma dos escritores, num exercício que resulta em memória viva, gesto performativo e homenagem colectiva. Na sua obra pictórica, o gesto nasce do silêncio — um silêncio denso, habitado, onde a emoção encontra forma e a matéria se torna linguagem. A artista trabalha num território íntimo e contemporâneo, onde luz, transparência e textura se entrelaçam numa busca subtil em territórios do visível e do invisível. A sua pintura é feita de escuta e de intenção, de intuição e consciência, exprimindo-se entre o gesto contido e a expressão crua, sem descurar a ética do olhar.

Entre paisagens interiores e exteriores, os rostos de Ana Luísa Amaral, Alice Vieira, Mia Couto, António Lobo Antunes, ou Mário de Carvalho cruzam-se com as suas palavras, num tributo à literatura e à dignidade da criação. E se o ESCRITARIA se afirma como ponto de encontro entre a literatura e as artes visuais graças à obra de Mafalda Rocha - e Penafiel é palco onde o olhar e a palavra dançam cúmplices -, as virtualidade da itinerância estendem o abraço a outra cidade e a outro Festival que tem na celebração da palavra um desígnio comum. Ovar é, desde 2015, palco de um evento literário que se consolida ano após ano e este “casamento”, intermediado pela pintura, acrescenta-lhe força e substância, enobrece-o. E, por isso, aqueles que tiveram a oportunidade de, neste mesmo local, escutar as palavras de Filipa Vera Jardim, Rita Tormenta, Vítor Gil Cardeira ou Vasco Prazeres, irão encontrar na pintura de Mafalda Rocha o espelho e o reverso da identidade literária que une todos os criadores. Para ver até ao dia 3 de Outubro.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 5



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Agrupamento de Escolas de Esmoriz – Ovar Norte | Curso Técnico de Multimédia | Alice Caetano, Andreia Confusa, Belmiro Carvalho, Bruno Henriques, Cândida Jardim, Carlos Nuno Granja, Cristina Carvalho, Edgar Pedro, Fernando Soares, Joana Leitão, José Manuel Castanheira, Lúcia Bandeira, Madalena Sá Fernandes, Manuel Frias Martins, Marcelo Teixeira, Matilde Horta, Nuno Bernardo, Paula Margato, Pedro Reisinho, Rita Correia, Rui Couceiro, Rui Guedes, Rui Manuel Almeida, Sérgio Duarte, Teresa Carvalho, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vanessa Martins
Parque Urbano de Ovar, Centro de Artes de Ovar, Bar do CAO
21 Set 2025 | dom | 10:00 e 15:00


A décima primeira edição do Festival Literário de Ovar chegou ao fim e o balanço, feito na primeira pessoa por Carlos Nuno Granja, programador de conteúdos literários e, incontestavelmente, a alma e o coração do certame, resume-se numa frase: “Esta foi a melhor edição de sempre do Festival.” Uma ideia partilhada pelos indefectíveis do FLO, que o vêm acompanhando com renovado interesse, e que vêem nele o ponto de encontro perfeito no final de cada Verão. Durante cinco dias, Ovar foi a cidade da palavra e da cultura, com onze mesas literárias, quinze apresentações de livros, seis concertos e performances, oito oficinas, três sessões de teatro ambulante e uma curta-metragem em estreia mundial. Ainda na ressaca duma verdadeira maratona de celebração da palavra, a emoção prevalece, pela alegria da novidade e o reconhecimento da surpresa, pelo abraço de amigos de antes e de agora. Mas há também como que uma estranheza, uma quase sensação de orfandade, pelo fim deste ambiente acolhedor, vivo e livre, que sabe bem e faz bem.

De uma beleza ímpar, o Parque Urbano de Ovar foi o palco da manhã do último dia do Festival Literário de Ovar. A jornada não poderia ter começado melhor, com a apresentação de “O descabido caso dos livros desaparecidos”, uma obra de Carlos Nuno Granja, com ilustrações de Andreia Confusa. Matilde Horta dirigiu uma oficina de ilustração, Paula Margato trouxe para a Sessão de Conto “Um Lobo, Uma Capuchinho & Companhia Ilimitada” e houve igualmente lugar a uma mesa, a penúltima do programa, superiormente moderada por Rui Guedes e que contou com a participação de Vanessa Martins, Alice Caetano e Joana Leitão. A sessão resultou num vivo e enriquecedor momento em torno da literatura infantil, no qual se falou do processo criativo, de onde nascem as ideias para escrever, do acto da escrita como catarse e da dificuldade em provar aos mais novos, fascinados pelas novas tecnologias, que o livro é um objecto carregado de magia e sedução. A tarde teve o seu início no Bar do CAO e, logo a abrir, foi animada por uma excelente conversa moderada por Marcelo Teixeira, com Cristina Carvalho e José Manuel Castanheira ao seu lado na mesa, nela se falando da vasta obra dos dois convidados e, em particular, do livro que escreveram em parceria, “Fabulário ou o Pequeno Circo do Mundo”.

A apresentação dos livros “A Dança dos Pássaros Invisíveis”, de Edgar Pedro, e “O Rufo do Tambor que Levamos no Peito”, de Rui Guedes, prenderam igualmente a atenção dos presentes, bem como a Sessão de Contos, animada por Cândida Jardim, e a Oficina de Ilustração, com Rita Correia. O Auditório do Centro de Arte de Ovar abriu-se ao público para a última mesa do Festival, com Madalena Sá Fernandes, Manuel Frias Martins e Rui Couceiro, e moderada por Teresa Carvalho. Sob uma frase de Miguel Torga - “Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem” –, os convidados fizeram aquilo a que a moderadora chamou “esfregar sal na ferida que somos”. Também aqui se falou do processo de escrita, com Madalena Sá Fernandes a afirmar que “a literatura pode pouco, mas é esse pouco que a torna insubstituível” e Manuel Frias Martins a dizer que a base da escrita ficcional está no “não é, mas poderia ser”. Enfim, Rui Couceiro salientou que, “ainda que o futuro esteja sob a ameaça da Inteligência Artificial, haverá sempre uma literatura sem batota para nosso consolo.” A curta-metragem “Fui logo a Bela para Todos”, realizada por Belmiro Carvalho, e “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante”, por Trigo Limpo Teatro ACERT, colocaram um ponto final numa edição memorável do Festival. O FLO regressa daqui a um ano. Viva o FLO!

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Zorrinho, aRita, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Bruno M. Franco, Carla Pais, Cátia Cardoso, Cristina Marques, Diana de Oliveira, Elsa Teixeira, Filipa Amorim, Filipa Vera Jardim, Helena Ribeiro, Joana Nogueira, João B. Ventura, José Riço Direitinho, Joaquim Margarido, Lúcia Moniz, Luís Correia Carmelo, Miguel d’Alte, Minês Castanheira, Miriam Gonçalves, Nuno Alexandre Vieira, Paula Mendes Coelho, Pedro Lamares, Pedro Reisinho, Ricardo Santos, Raquel Patriarca, Rita Tormenta, Rodrigo Vieira Dias, Rui Sobral, Sara Dias Oliveira, Sílvia Lima, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vasco Prazeres, Vera Morgado, Vítor Gil Cardeira, Zetho Gonçalves
Parque do Buçaquinho, Museu Júlio Dinis, Jardim dos Campos, Centro de Artes de Ovar e Bar do CAO
20 Set 2025 | sab | 10:00, 14:00 e 21:30


Tradicionalmente o mais exigente, mas também o mais aliciante, o quarto dia do Festival Literário de Ovar voltou a prender a atenção dos amantes do livro e da leitura, pela sua rica e variada oferta. “Patrulha Raposa – Vigilantes da floresta”, escrito por Diana de Oliveira e apresentado por Pedro Reisinho, deu início a uma viagem que teve o seu início no Parque Ambiental do Buçaquinho e viria a terminar, mais de quinze horas depois, no Bar do Centro de Artes de Ovar. Num espaço dedicado à Literatura Infantil, a manhã foi preenchida com uma Oficina de Ilustração dinamizada por aRita, uma sessão de contos com Luís Correia Carmelo e ainda uma Mesa moderada por Helena Ribeiro e que teve num painel constituído por Miriam Gonçalves, Elsa Teixeira e Rodrigo Vieira Dias, três figuras muito especiais. Entre as estratégias para adormecer os mais novos e o poder das ideias em frente da folha em branco, os convidados falaram de livros, das fontes de inspiração dos seus trabalhos, da necessidade da literatura infantil para o crescimento e desenvolvimento infantil, mas também da importância do “aborrecimento” das crianças, da ausência de estímulos que muitas vezes deixam os pais exauridos, mas que as obriga a serem criativas.

Ao início da tarde, no Museu Júlio Dinis, procedeu-se à entrega de prémios da “III Edição do Concurso Literário e de Ilustração Júlio Dinis 2025”, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas Ovar Sul e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Ovar. A mais conhecida “Casa Ovarense” da cidade foi igualmente palco da apresentação do livro “O Flâneur de Paris”, de João B. Ventura, e de uma conversa com o escritor Bruno M. Franco sobre o género policial na literatura portuguesa contemporânea. Simultaneamente, no Jardim dos Campos, decorria a apresentação dos livros “Truz Truz, Abre a Porta, Avestruz”, de Vera Morgado, e “Agora sou capaz”, de Ricardo Santos e Joana Nogueira, com ilustração de Sílvia Lima, a par com uma bem participada Oficina de Ilustração com Nuno Alexandre Vieira e, no espaço fronteiro da Câmara Municipal de Ovar, uma nova representação de “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante” pelos actores da companhia Trigo Limpo - Teatro ACERT, de Tondela. A apresentação de livros teve ainda um último capítulo ao início da noite, num Centro de Artes de Ovar quase lotado, com as atenções a virarem-se para “Cartografia”, “poesia escrita a quatro mãos e dois corações” por Minês Castanheira e Raquel Patriarca, e que resultou num momento de generosa partilha de poemas, afectos e emoções.

Além do momento da manhã referido anteriormente, o programa teve para oferecer mais três mesas de conversa, duas das quais no Museu Júlio Dinis. Rico, vivo, apaixonante, o primeiro desses momentos contou com a moderação de Cátia Cardoso e deu a escutar as impressões de Rita Tormenta, Filipa Vera Jardim e Vítor Gil Cardeira sobre a vaidade e a inveja no seio do complexo mundo da escrita. Em termos muito gerais, Vitor Cardeira falou da escrita como uma doença da qual não é possível livrar-se, no que foi acompanhado por Filipa Vera Jardim, ciente de que “sem livros morreria”. Rita Tormenta admitiu que “ninguém escreve sem um pouco de vaidade” e Filipa Vera Jardim acrescentou que “é preciso saber distinguir a inveja da admiração: narcisos somos todos”. Enfim, sobre o acto da escrita, Vítor Gil Cardeira afirmou que “o escritor constrói e destrói mundos” e que “escrever é uma luta brutal contra a auto-censura”. Uma frase de Agustina Bessa-Luís - “Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia.” - serviu de mote à segunda mesa da tarde. Com moderação de Sara Dias de Oliveira, para quem “escrever é um processo doloroso e um acto de amor”, Miguel D’Alte, José Riço Direitinho e Vasco Prazeres abordaram os temas da amizade e da inveja, do interesse e da distração que as redes sociais constituem (para o bem e para o mal) e, naturalmente, do amor, nas suas mais variadas vertentes. A conversa estendeu-se ao público, com a escritora Raquel Patriarca a fazer notar que “os livros dão algo aos leitores que estes nunca irão pagar”.

A mesa da noite, no Centro de Artes de Ovar, foi beber o tema a uma citação de Raúl Brandão: “Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros.” Foi sobre o ofício da escrita e as muitas reflexões que suscita que se debruçaram as escritoras Carla Pais, Filipa Amorim, Ana Zorrinho, numa conversa moderada por Cristina Marques. Ofício da escrita onde se cruzam os episódios do quotidiano, as personagens saídas de um imaginário fácil de contextualizar mas difícil de explicar, a surpresa com aquilo que vai passando para o papel e um certo grau de loucura. Numa mesa que abriu espaço à leitura de excertos dos livros das autoras, o destaque vai para o conto “O Louco”, de Ana Zorrinho, lido superiormente pela autora e sobre o qual Carla Pais afirmou: “Quem não se arrepiou com este momento, não percebe nada acerca do poder da Literatura”. Outro ponto alto do serão foi a performance “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, com Lúcia Moniz e Pedro Lamares a cruzarem a poesia de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen com as cartas que ambos trocaram ao longo de dezoito anos e que constituem um impressionante retrato social, histórico e moral do Portugal dos anos 60 e 70, o retrato de um país roubado. Já a noite ía adiantada quando, no Bar do CAO, “Poesia A Meias”, de Aurelino Costa & Zetho Cunha Gonçalves, com Aurora Gaia, fechou da melhor forma o penúltimo dia do Festival.

domingo, 21 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 3



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Abel Mota, Ana Carvalho, Ana Sofia Marçal, António Cabrita, António Carlos Santos, Carlos Coutinho, Carlos Nuno Granja, Joana Alegre, Joaquim Margarido, José Fialho Gouveia, José Saro, Luís Correia Carmelo, Mafalda Rocha, Nuno Artur Silva, Paulo Freixinho, Pedro Guilherme-Moreira, Rogério Charraz, Sofia Paulino, Trigo Limpo – Teatro ACERT
Escola Secundária Júlio Dinis, Biblioteca Municipal de Ovar, Museu Júlio Dinis, Escola de Artes e Ofícios
19 Set 2025 | sex | 10:30, 14:30, 18:00 e 21:30

Foi gigante, o terceiro dia do Festival Literário de Ovar, não apenas pela sua dimensão no tempo, mas também pela quantidade de momentos preciosos que encerrou. A companhia Trigo Limpo Teatro ACERT abriu as hostilidades, levando à Escola Secundária Júlio Dinis, a meio da manhã, a peça “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante”. Ao início da tarde, na Biblioteca Municipal de Ovar, Paulo Freixinho orientou uma oficina de leitura e escrita intitulada “Palavras Cruzadas”, e pelas 18h00, o Museu Júlio Dinis foi palco da apresentação do livro “Um Pouco Mais de Sol”, de Abel Mota, uma edição da Guerra e Paz. Neste mesmo espaço, a fechar uma tarde bem preenchida, Pedro Guilherme-Moreira moderou a quarta mesa do Festival, na qual participaram Carlos Nuno Granja, Carlos Coutinho e Ana Sofia Marçal. Incidindo sobre “O Festival Literário e a relação com o território e sua comunidade”, a conversa permitiu partilhar factos, números e curiosidades e reflectir sobre os desafios em torno de Festivais como a Maratona de Leitura da Sertã, o FÓLIO - Festival de Literatura de Óbidos e o FLO - Festival de Literatura de Ovar.

Após o jantar, os passos encaminharam-se para a Escola de Artes e Ofícios onde, a abrir a sessão, Ana Carvalho apresentou o livro “PHOSPHOROS (100 amorfos)", de António Carlos Santos, momento que teve na declamação “comunitária” de poemas do livro um dos seus pontos fortes. Seguiu-se a Mesa 5 do FLO, com os escritores António Cabrita e Nuno Artur Silva a pesarem as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen - “A cultura é uma das formas de libertação do homem. Por isso, perante a política, a cultura deve sempre ter a possibilidade de funcionar como antipoder”. Com moderação de Joaquim Margarido, os convidados debruçaram-se sobre a escrita como acto político, olharam para o livro como um agente interventivo capaz de suscitar o debate público e político, analisaram um tempo de polarização política e a forma como isso influencia a aceitação da obra dos escritores de hoje e concordaram que, mesmo que o discurso político se faça, muitas vezes, nas redes sociais, também aí pode haver lugar para a literatura. Nuno Artur Silva particularizou a sua experiência enquanto Presidente do canal público de televisão para avaliar os media actuais como espaços culturais e António Cabrita comentou o papel da diáspora e das migrações na redefinição da literatura moçambicana, num país onde o mercado do livro é praticamente inexistente e os jovens escritores cedem facilmente às novas tendências do mercado, abdicando da singularidade da sua escrita.

O concerto “ANÓNIMOS de Abril” fechou a noite da melhor forma, trazendo consigo um conjunto de canções originais e inéditas que trazem para um plano central o nome de mulheres e homens que tiveram a coragem e a ousadia de enfrentar e fragilizar um regime que, durante quarenta e oito anos, explorou e oprimiu o nosso povo. Estreado em de Janeiro de 2024 e inserido nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, o projecto é baseado em textos de José Fialho Gouveia, Aurora Rodrigues (um relato arrepiante da sua experiência de prisão e tortura) e Miguel Carvalho, jornalista e sobrinho de Branca Carvalho (outra das homenageadas do projeto) e conta com a música de Rogério Charraz e as vozes do próprio Charraz e de Joana Alegre. Procurando preservar a memória colectiva do nosso país e ampliá-la com as histórias menos conhecidas daqueles que, nalguns casos, pagaram com a própria vida a luta pelos ideias de liberdade e democracia, o colectivo trouxe-nos palavras fortes e vivas que lembraram  Celeste Caeiro e Aurora Rodrigues, Jorge Alves e o Padre Alberto, Arajaryr Campos e Francisco Sousa Mendes, entre várias outras figuras. O concerto fechou com a sala em pé, irmanada nos ideais de liberdade que nortearam todo o serão, a cantar o hino dos Hinos, “Grândola Vila Morena”.

sábado, 20 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 2



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Abigail Ascenso, Ana Deus, Ana Maria Ferreira, Cláudia Lobo, Daniel Maia Pinto-Rodrigues, Lília Tavares, Luca Argel, Maria Toscano, Nuno Gomes, Vítor Pinto Basto
Escola Secundária José Macedo Fragateiro, Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2025 | qui | 21:00 


Depois de um arranque recheado de emoções, o Festival Literário de Ovar enfrentou com renovada ilusão um novo dia, tendo para oferecer um programa em versão curta, mas nem por isso menos aliciante. Entre portas abertas à leitura e azulejos vestidos de poesia, por esta ocasião a cidade reforça o seu abraço às letras. As palavras soltam-se dos livros e revolteiam no ar, dispostas a verter-se em conversas íntimas e em concertos em que a música se curva perante a poesia. Como velhos cúmplices de um segredo partilhado, escritores cruzam de novo olhares e ideias com leitores. Em palcos de pensamento e emoção, a cada novo dia, os livros falam mais alto, os corpos dizem textos, os sons desenham imagens e o FLO cumpre-se no seu desígnio de celebrar a palavra, orgulhoso da escrita de mais um capítulo de uma história com final feliz.

A Escola de Artes e Ofícios foi o epicentro de um programa que atraiu um público leitor entusiasta, disposto a reforçar os laços que, através dos livros, busca estabelecer com o escritor. E quase apetece dizer que o milagre aconteceu de novo, com a bonita Sala Expande a transformar-se, no breve espaço de um serão, num mundo de partilha, imaginação e ideia cúmplice. Lília Tavares, Vítor Pinto Basto e Maria Toscano animaram a terceira mesa do FLO, dispondo-se, sob a moderação de Ana Maria Ferreira, a dissecar uma frase de Fernando Namora: “A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade.” Numa conversa emotiva, interventiva e viva, abanão vigoroso às consciências dos mais distraídos, falou-se da poesia como “o território da pura liberdade” (Lília Tavares), de democracia como elemento-chave de uma trilogia onde se inclui a literatura e a liberdade (Maria Toscano) e da função social da literatura (Vítor Pinto Basto).

“O Corredor Interior”, romance de Daniel Maia Pinto-Rodrigues, editado pela Exclamação e apresentado por Nuno Gomes, tinha aberto o serão, cabendo a Ana Deus e Luca Argel fechar a noite com um concerto intitulado “Canções para beber com Pessoa”. Nele, os artistas revisitaram as “Canções de beber" (ou Rubaiyat), do poeta-astrónomo Omar Khayyam e que, desde a Pérsia do Século XI, inspiraram Fernando Pessoa a traduzir de forma muito livre (do inglês, baseado em Edward Fitzgeral) cerca de duas centenas de quadras. Foi sobre esses poemas que o concerto incidiu, aos quais a dupla acrescentou um conjunto de temas extraídos de “Ruído Vário – Canções com Pessoa”, álbum de estúdio de 2017, uma encomenda da Casa Fernando Pessoa. Ao transformar e atualizar o génio de Fernando Pessoa – “passando por diversas das suas facetas, da solenidade trágica ao escárnio humorístico” –, Ana Deus e Luca Argel ofereceram a possibilidade de escutar a palavra de uma outra forma – igualmente celebrativa, jubilosa e livre. E que siga o FLO!

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 1



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Freijo, Bruno Henriques, Capicua, Carlos Alberto Moniz, Carlos Nuno Granja, CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, Gabriel Pinto, Hugo Carvalhais, João Martins, José Ferreira, Luís Portugal, Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl
Museu Júlio Dinis, Centro de Artes de Ovar
17 Set 2025 | qua | 18:00 e 21:30


Recuemos no tempo, a 03 de Setembro de 2015, dia em que o Festival Literário de Ovar nascia para o mundo sob os melhores auspícios. Nesse início de um fim-de-semana prolongado, a cidade vivia um primeiro grande momento à volta dos livros, numa união franca e aberta entre escritores e leitores, ilustradores, livreiros e demais agentes ligados à escrita e à leitura. Se há loucura na escrita e ousadia na literatura, se os sentimentos se revelam mais facilmente no universo literário, se é possível fugir às contradições da sociedade, foram questões, de então e de sempre, às quais Miguel Real, Carlos Campaniço, Pedro Guilherme-Moreira, Jaime Rocha, Margarida Fonseca Santos, Afonso Valente Batista, Filipa Leal, João de Melo e vários outros escritores souberam responder, num verdadeiro exercício de “dar cultura às nossas gentes”, como afirmou Salvador Malheiro, Presidente da autarquia à data. Dez anos depois, o FLO pode orgulhar-se de um currículo invejável, assente em muito trabalho e perseverança, dedicação e crer, que fazem dele um dos mais relevantes Festivais Literários do nosso país.

Passada uma década, quantos livros, quantas palavras, quantos autores? Quantas memórias? Quantas pessoas? Quantos momentos? Não haverá, no contexto do FLO, pessoa mais indicada para responder a esta questão do que Carlos Nuno Granja, a mais importante figura do certame, alguém que acredita, desde sempre, no poder inabalável da leitura para a construção do pensamento crítico, autonomia e profundidade interior da pessoa, mas também na oportunidade que os livros oferecem de desacelerar, reflectir e desenvolver uma visão mais ampla e fundamentada do mundo, ajudando a formar indivíduos mais conscientes e íntegros, menos influenciáveis. Ele, a par de uma pequena mas valiosa equipa, são os responsáveis pela manutenção de um verdadeiro selo de qualidade que o Festival detém, e que volta a programar, de forma sólida e segura, um conjunto de actividades que, ao longo de cinco ininterruptos dias – entre conversas, concertos, teatro, apresentações de livros, cinema e muito mais –, prometem transformar a cidade numa imensa e apaixonante biblioteca.

O pontapé de saída do FLO 2025 teve lugar ao final da tarde no Museu Júlio Dinis com a inauguração de “Mais tempo por aqui…”, Instalação Sonora da autoria de Tiago Schwäbl, inserida no projecto “Inovar as Letras – À Escuta da Literatura”. Oportunidade única para escutar os sons de uma casa e as palavras de um escritor, sabiamente escrutinadas na obra dinisiana e abertas ao público com sensibilidade e emoção. Seguiu-se a primeira mesa do Festival, dedicada a debater “O processo de criação artística e a obra literária”. Moderada por Carlos Nuno Granja e com Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl, Ana Freijo e José Ferreira como convidados, a conversa foi ao encontro da Literatura e do Teatro, da Pintura, do Som e da Música, recuperando o ambiente acolhedor e familiar de uma casa ovarense e lançando a discussão em torno do processo criativo, suas dificuldades e condicionalismos, seus desafios e recompensas. A tarde encerrou com a performance “Pela Janela do Olhar”, encenada por José Ferreira e interpretada por um leque de actores da CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, numa homenagem sentida aos autores que, desde 2008, passaram pelo Festival Escritaria, e que nos olham das paredes do Museu em belíssimas pinturas da autoria de Mafalda Rocha.

Com a presença em palco de Carlos Nuno Granja e do Presidente do Município de Ovar, Domingos Silva, a abertura oficial do FLO 2025 teve lugar ao início da noite, nela se falando de ousadia e utopia, de sonho e muito querer, elementos determinantes de afirmação de um Festival que constitui “uma das marcas identitárias de Ovar”. As palavras de Vergílio Ferreira, “Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer” deram o mote à segunda mesa do Festival. Bruno Henriques moderou uma conversa que teve como convidados Luís Portugal e Capicua e que resultou, entre o sério e o irónico, num extraordinário momento de reflexão e partilha. De Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto ou Zeca Afonso como fontes de inspiração para a escrita de canções, à dificuldade crescente em romper com o “establishment” e assumir a música como um acto de resistência, ambos os convidados coincidiram na ideia de que “a liberdade [para criar], ou é total, ou não é liberdade”. O primeiro dia do Festival encerrou com o concerto “Na Primeira Pessoa”, de Carlos Alberto Moniz. Em palco, na companhia de Gabriel Pinto (piano), Hugo Carvalhais (contrabaixo) e João Martins (bateria), o cantor ofereceu, em graça e beleza, a força da música açoriana, numa celebração da palavra de alguns dos seus maiores poetas.

domingo, 6 de outubro de 2024

CONCERTO: Sangue Suor convida Ana Deus



CONCERTO: Sangue Suor convida Surma e Ana Deus
FLO - Festival Literário de Ovar 2024
Centro de Arte de Ovar
22 Set 2024 | dom | 18:00


O convite partiu do Theatro Circo de Braga e uma nova banda nasceu. Adoptou o nome de “Sangue Suor”, juntando em palco três renomados bateristas da cena musical portuguesa: Rui Rodrigues, Susie Filipe e Ricardo Martins. Tudo começou em 2021, com a encomenda a Rui Rodrigues de “Sangue & Suor”, tema de aniversário da centenária sala bracarense. Um ano mais tarde, a formação deixou cair o “&”, passando a denominar-se “Sangue Suor”. A composição de novos temas, fruto de diversas residências artísticas da banda, viria a dar lugar a “O Salto”, seu primeiro álbum, lançado em Abril de 2023, numa edição conjunta do Theatro Circo e da Omnichord Records. Um momento raro no panorama musical português, elevando a importância da percussão e de três importantes bateristas na busca de liberdade criativa, novos sons, fúria, desassossego, fusão e experimentação. Em Ovar, coube-lhe colocar um ponto final no programa da décima edição do FLO - Festival Literário de Ovar. À inspiração que corre no seu sangue e se derrama em suor, de ritmo e energia feito, juntaram a voz e a palavra em poemas de Gedeão. O público reagiu de forma diversa: Enquanto alguns saíam a meio, os demais permaneceram até ao fim, aplaudindo de pé. Ninguém ficou indiferente.

A batida é forte, sincopada. Uma espécie de respiração rompe o ar e, bem ao longe, escutam-se chocalhos. Naturalista, pastoril, com um acentuado cunho tribal, a música traz-nos a voz de Surma, como um grito melancólico que se ergue no espaço e se espalha em todas as direcções. A guitarra de Vítor Hugo preenche vazios, os sintetizadores completam o rufar dos tambores. Está lançada a viagem a um mundo que rejeita a facilidade e a superficialidade, repleto de sons irrequietos, que cruzam fronteiras e linguagens, abrem caminho à exploração e permitem desvendar novos horizontes. A partir daqui, a ordem é “Para a Frente”, mesmo que de um salto no escuro se trate. Ao longo de quase uma hora de espectáculo, mais saltos se seguirão: Em equilíbrio, de costas, revirado, em parafuso. Além de Surma, cruzamo-nos com as vozes e os sons de Cabrita e Selma Uamusse, mas também com a presença do teclista Óscar Silva e da cantora e performer Ana Deus. É ela que nos trará a interpretação magistral de um poema de Gedeão: “Os homens da minha aldeia / formigam raivosamente / com os pés colados ao chão. / Nessa prisão permanente / cada qual é seu irmão.”

Instrumento rítmico por excelência, a bateria carrega em si a ancestralidade da pele esticada sobre uma caixa de ressonância e, ao mesmo tempo, aquela forma de ser organizada, metódica, segura de quem conduz ou consente que a conduzam. Foi isto que os “Sangue Suor” tão bem souberam exprimir no palco do Centro de Artes de Ovar, convertendo uma hora de espectáculo numa experiência sensorial ímpar. Cada tema é um salto, cada música um risco. E eis Gedeão de novo, e de novo na voz de Ana Deus: “O universo é feito essencialmente de coisa nenhuma. / Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. / Espaço vazio, em suma. / O resto, é a matéria.” Perguntava-me o que teria passado pela cabeça do programador ao eleger esta banda para encerrar um Festival Literário. Hoje, a resposta parece-me óbvia, pela poesia em forma de música que dela se derrama, poesia definida em risco (no seu duplo sentido). Nela se descobre a essência do ser mutante, a violência de permanecer num limbo, o ferro de um lado, do outro o algodão (doce). Construção, destruição, reconstrução. Salto, a queda no vazio, o mergulho. Subir as escadas e de novo o salto. Desta vez em pontapé à Lua.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

TEATRO: "A Noite"



TEATRO: “A Noite”,
de José Saramago
Encenação e adaptação |  Paulo Sousa Costa
Assistência de encenação | Luís Pacheco
Interpretação |  Diogo Morgado, Jorge Corrula, João Didelet, Luís Pacheco, Elsa Galvão, Ricardo de Sá, Henrique de Carvalho, Sara Cecília, João Redondo
Produção | Yellow Star Company
90 Minutos | Maiores de 12 anos
FLO - Festival Literário de Ovar 2024
Centro de Artes de Ovar
21 Set 2024 | sab | 22:30


Redacção do Jornal de Lisboa, 24 de abril de 1974. Há no ar qualquer coisa de indefinido no momento em que se prepara o fecho de mais uma edição do jornal. Entre alterações de última hora e os habituais contactos com o exame prévio, as tensões avolumam-se e os conflitos estalam. De um lado, o chefe de redação e o diretor do jornal, submissos ao poder político, que normalizam a censura. Do outro, o jornalista idealista que luta pela verdade e que tem na redacção preciosos aliados nas pessoas da estagiária e do tipógrafo. O conflito ganha uma dimensão ainda mais dramática quando surge o boato de que poderá estar a acontecer uma revolução na rua. A agitação e o nervosismo crescem no seio do jornal, com uma parte dos jornalistas e tipógrafos a exigirem que os factos, se comprovados, sejam notícia de última hora. Do outro lado da barricada, tanto o director como o chefe de redação tudo fazem para desvalorizar a alegada convulsão social, na certeza de que não irão imprimir notícia alguma, nem que para isso tenham de alegar uma avaria nas rotativas. Está instalada uma micro-revolução na redacção.

Graças à atribuição do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago tem uma enorme quota de responsabilidade no reconhecimento do romance escrito em língua portuguesa no mundo inteiro. Obras como “Ensaio Sobre a Cegueira”, “O Memorial do Convento”, “Jangada de Pedra” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis” são disso excelentes exemplos. Menos conhecidas e, simultaneamente, pouco valorizadas pela crítica, são as peças de teatro, apesar da sua importância no conjunto da obra do escritor. Está neste caso “A Noite”, texto de temática histórica que reflecte sobre a censura imposta aos meios de comunicação social, situação que Saramago viveu de perto. Na peça, a preocupação do autor não está em copiar o dia a dia de um jornal no período da ditadura, antes chamar a atenção para as relações de poder em que se fundava o Estado Novo nas mais variadas instâncias. Apesar de não se considerar dramaturgo (em entrevista a Carlos Reis, em 1998), José Saramago assina um manifesto fortíssimo de denúncia e revolta, olhando de perto as primeiras horas do dia inicial inteiro e limpo.

Integrando, muito a propósito, o programa da décima edição do Festival Literário de Ovar, “A Noite” foi levada à cena pela Yellow Star Company num Centro de Artes de Ovar com lotação esgotada. Seguros dos seus papéis, respeitando a intensidade dramática do texto e garantindo a necessária segurança e vivacidade nos diálogos, os actores souberam honrar a escrita de Saramago, acrescentando realismo à verdade histórica. No papel de Jerónimo, o chefe dos tipógrafos, Jorge Corrula representa bem a qualidade e versatilidade de um excelente naipe de actores, com a sua forte presença em palco e o cerrado sotaque alentejano. Visualmente precioso, o cenário coloca-nos no centro de uma redacção há meio século atrás, onde não falta o contínuo, a mancar de uma das pernas, figurando o estado de um país a duas velocidades, pobre e inculto, preso às glórias do passado e que, do presente, só tem os êxitos do Benfica para se vangloriar. Empolgante, o final lembra-nos aqueles que fizeram da resistência e da luta a sua bandeira, abrindo caminho à liberdade e à democracia.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

CONCERTO: "Censurados: A Música Que Desafiou a Ditadura" | Rui David



CONCERTO: “Censurados: A Música Que Desafiou a Ditadura”
Rui David
FLO - Festival Literário de Ovar 2024
Escola de Artes e Ofícios
20 Set 2024 | sex | 22:30


O terceiro dia do FLO - Festival Literário de Ovar fechou com o concerto de Rui David, “Censurados: A Música Que Desafiou a Ditadura”. Um título que o cantor, nas breves palavras que dirigiu ao público, corrigiu para “Censurados: As Vozes Que Desafiaram a Ditadura”, ampliando a abrangência de um espectáculo que revela o quanto “a cantiga é uma arma”, mas que também se abre aos testemunhos daqueles que resistiram à brutalidade de um regime que, durante 48 anos, institucionalizou a censura, perseguiu e prendeu arbitrariamente, cultivou a miséria e o analfabetismo, limitou a liberdade de expressão e a criatividade artística e mandou os seus filhos matar em África. Jornalista de formação e músico por vocação, Rui David fez da sua paixão pela música um veículo no qual embarcámos numa viagem pelo tempo, ao encontro de muitos poetas e cantores que usavam as suas letras e músicas para, “em tempo de servidão”, sussurrar mensagens de esperança, liberdade e resistência. É de volta aos anos da ditadura que o espectáculo nos transporta, numa celebração forte e emotiva dos 50 anos do 25 de Abril.

“Não acredito que um grupo de cantores faça uma revolução, mas instilam ideias, instilam vontades e anseios que, no momento certo e levados por outras forças, essas coisas ajudam a mudar o mundo.” Os testemunhos de Alfredo Matos, José Pedro Soares, Camilo Mortágua, Diana Andringa, Edmundo Pedro e de tantos outros, abrem caminho a um conjunto de músicas e poemas que são parte de nós. Em silêncio escuta-se “Cantar de Emigração”, em coro canta-se a “Trova do Vento Que Passa”. A poesia de Manuel da Fonseca rompe a canção - “(…) Acorda, amigo, / liberta-te dessa paz podre de milagre / que existe / apenas na tua imaginação. / Abre os olhos e olha, / Abre os braços e luta! / Amigo, antes da morte vir / nasce de vez para a vida.” E logo as palavras de quem esteve preso durante vinte e um anos, de quem fez greves de apoio aos estudantes presos e acabou preso, de quem sentiu os cavalos da GNR avançar por cima de si ou de quem, aos dezasseis anos, aprendeu a saber “o que era a luta, o que era a vida, as pessoas morriam.” Os testemunhos emocionados contagiam o público. “Quem viu morrer Catarina / não perdoa a quem matou.”

O espectáculo prossegue com José Carlos Ary dos Santos a clamar que “é preciso dizer-se o que acontece / no meu país de sal” e José Afonso a cantar o “Coro da Primavera” e “Era de Noite e Levaram”, mas são de novo os testemunhos de quem esteve preso e foi torturado a tocar o público: “Eu não sabia que era humanamente possível resistir tanto”, conta Alfredo Matos, a quem José Afonso dedicou “Por Trás Daquela Janela” numa altura em que se encontrava nas cadeias da PIDE. “Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio / e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé / para ver como é; (…)”. À poesia de António Gedeão junta-se a música de Sérgio Godinho: “Que força é essa? Amigo / Que te põe de bem com outros / E de mal contigo?” E novamente a poesia, com “Ouvindo Beethoven” de José Saramago e “Notícias do Bloqueio” de Egito Gonçalves. Com o espectáculo a aproximar-se do fim, Abril abre-se em festa. Escutamos Sophia - “Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo” - e escutamos Fausto - “Atrás dos Tempos vêm Tempos”. Escutamos, também, Chico Buarque e com ele cantamos: “Foi bonita a festa, pá”!

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (V)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Adriano Cerqueira, Alexandre Rosas, Ana Isabel Gonçalves, Carlos Nuno Granja, Dénis Conceição, Elisabete Pinho, Eltânia André, Jorge Reis-Sá, José Pereira Pinto, José Vaz Nunes, Luísa Sobral, Mafalda Mota, Mantraste, Marcelo Teixeira, Maria Saraiva de Menezes, Miguel Marques, Ozías Filho, Patrícia Furtado, Paula Pina, Pedro Guilherme-Moreira, Rosário Alçada Araújo, Teresa Carvalho
Parque Urbano de Ovar, Centro de Artes de Ovar
22 Set 2024 | dom | 10:00 e 14:30


“Esta décima edição do FLO foi a melhor de sempre”. Proferida no discurso de encerramento do Festival Literário de Ovar, a afirmação é de Carlos Nunos Granja, a alma (e uma boa parte do corpo) do FLO. Uma afirmação que exprime o sentimento geral de quem acompanhou o Festival ao longo de cinco longos dias, deliciando-se com uma oferta rica, variada e de enorme qualidade, apreciando a sua dinâmica, vivendo as histórias de Ozías Filho, a poesia de Lauren Mendinueta, os contos de Marta Hugon, os livros infantis de Rosário Alçada Araújo ou a música de Jorge Névoa, da mesma forma que se emocionou com Camões, Pessoa ou Agostinho da Silva, no sentir e nas palavras de António Manuel Ribeiro e Maria José Quintela, Ana Isabel Marques e José Emílio-Nelson, Aurora Gaia e Jorge Reis-Sá, entre tantos outros. Numa altura em que se começa a construir a edição que assinalará uma década de Festival Literário de Ovar, o sucesso destes dias constitui o maior estímulo para quem vem pugnando, ano após ano, por mais e melhor FLO. Numa óptica de crescimento do Festival, a tão falada internacionalização já no próximo ano encerra enormes desafios, mas é uma aposta ganha à partida dada a forma como a marca FLO se soube afirmar e consolidar no circuito dos grandes festivais literários do país.

No último dia do Festival, o Parque Urbano de Ovar abriu-se aos mais pequenos “com sol entre os dedos, com estrelas nos olhos, e o vento aos segredos”. Histórias de encantar, desenhos mil, apresentações de livros e uma mesa temática preencheram um tempo de reflexão e partilha sobre aquilo que a literatura dita infantil pode significar no crescimento e desenvolvimento da pessoa e na sua forma de ver o mundo. José Vaz Nunes, Mafalda Mota e Luísa Sobral tiveram oportunidade de falar dos seus livros, com esta última a referir-se ao peso esmagador de certas palavras quando dirigidas a alguém de forma pejorativa ou maldosa. São as “palavras-elefante” que tantos estragos provocam na concepção que temos de nós próprios e do mundo e que muitos acabam por carregar toda uma vida. Com moderação de Carlos Nuno Granja, a mesa temática juntou Dénis Conceição, Rosário Alçada Araújo, Patrícia Furtado e Maria Saraiva de Menezes, quatro escritores dedicados à literatura infantil que, muito generosamente, partilharam a sua visão de um mundo particular no qual as palavras e as ilustrações se passeiam de mãos dadas. Um mundo de livros, reunido numa só frase por Rosário Alçada Araújo: “Um livro para crianças é um livro para todas as idades.”

A tarde dividiu-se pelo espaço exterior do Centro de Artes de Ovar, o Bar do CAO e o seu Auditório. Lá fora, as actividades continuaram a visar um público mais jovem com a apresentação do livro “Eureka! As descobertas que mudaram a ciência”, de Adriano Cerqueira, mas também uma sessão de contos com Ana Isabel Gonçalves e Paula Pina e ainda uma oficina de ilustração por Mantraste, artista visual com uma ligação estreita à Arte Urbana. Enquanto isso, o espaço do Bar mostrava-se pequeno para escutar a conversa com os escritores Ozías Filho e Eltânia André, na qual o moderador, Marcelo Teixeira, fez questão de manifestar o seu apreço por um festival que consegue reunir autores consagrados e muitos outros que dão os primeiros passos nas letras, sem esquecer “o apoio à actividade local”. E mais pequeno ainda ficou com o público que acorreu em grande número para ouvir José Pereira Pinto falar do segundo volume do livro “Associação Desportiva Ovarense - Clube Centenário: Uma Chama que Resiste”. Moderada por Teresa Carvalho, a última mesa do Festival juntou os escritores Pedro Guilherme-Moreira e Jorge Reis-Sá, voltando a chamar Camões para falar de vida e morte. Por fim, os “Sangue Suor”, projecto musical que junta as baterias de Ricardo Martins, Rui Rodrigues e Susie Filipe e que carregou de energia o Auditório do Centro de Artes. Um final em grande, sincopado e bem batido, feito de música que soube passear-se entre a alucinação da prosa e o fulgor da poesia.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (IV)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Ana Cristina Silva, Ana Isabel Marques, António Canteiro, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Beatriz Francisco, Carlos Nuno Granja, Célia Correia Loureiro, Cristina Marques, David Pintor, Diogo Carvalho, Dora Maria Nunes Gago, Emerenciano Rodrigues, Fernanda Cunha, Helena Ribeiro, Inês Viegas Oliveira, Jorge Valentim, João Eduardo Ferreira, José Emílio-Nelson, Lara Xavier, Lauren Mendinueta, Leandro Ribeiro, Luís Aguiar, Manuel Halpern, Patrícia Ribeiro Martins, Paulo Romão Brás, Pedro Almeida Maia, Renata Bueno, Rosário Alçada Araújo, Susana Amaro Velho, Victor Oliveira Mateus, Yana Marques, Zetho Cunha Gonçalves
Parque Ambiental do Buçaquinho | Museu Júlio Dinis | Jardim dos Campos | Centro de Artes de Ovar
21 Set 2024 | sab | 10:00, 14:30 e 21:00


Dia grande. Dia em grande. Por tradição, o sábado é aquele dia que mais dilemas coloca ao público do Festival Literário de Ovar, já que a sua programação é um verdadeiro non-stop de apresentações de livros, conversas, oficinas, histórias contadas e mesas temáticas. Deste dia fizeram parte, ainda, a apresentação da terceira edição do concurso literário e de ilustração Júlio Dinis, uma visita guiada e encenada à antiga vila histórica de Ovar, uma peça de teatro e, a encerrar catorze horas intensas à volta dos livros e da leitura, um sarau de poesia “a meias”. A cafetaria do Parque do Buçaquinho abriu as suas portas ao público para a apresentação do livro “A Arte de Gostar de Ler”, de Carlos Nuno Granja, com a qual teve início o quarto dia do FLO10. Seguiu-se uma mesa temática dedicada à literatura infantil com as autoras Ana Isabel Marques, Inês Viegas Oliveira e Lara Xavier, moderada por Helena Ribeiro. Nela se falou do valor e dos valores que a escrita encerra e se partilharam histórias sobre a arte e o engenho de escrever para os mais novos. Enquanto isso, no verde e fresco espaço exterior, a escritora e artista visual Renata Bueno orientava uma oficina de ilustração na qual crianças e adultos davam asas à sua criatividade. A fechar o período da manhã, as atenções recaíram numa conversa com David Pintor sobre a arte da ilustração e ainda numa sessão de contos pela dupla “O Som do Algodão”.

Após o almoço, o FLO10 deixou o espaço verde do Buçaquinho e mudou-se para o Jardim dos Campos e para o Museu Júlio Dinis com mais uma mão cheia de propostas irrecusáveis. A tarde começou com a apresentação da terceira edição do concurso literário e de ilustração Júlio Dinis, seguindo-se uma mesa temática moderada por Jorge Valentim e que reuniu os escritores Dora Maria Nunes Gago, Lauren Mendinueta e Luís Aguiar para um exercício de reflexão em torno da escrita enquanto espaço de liberdade e de vida. Fernanda Cunha, João Eduardo Ferreira, Manuel Halpern e Paulo Romão Brás apresentaram, de forma brilhantemente encenada, excertos do volume 7 de “A Morte do Artista”, uma “revista literária de periodicidade eventual. José Emílio-Nelson falou do seu livro de poemas “Rosa Canina”, tendo ao seu lado o artista plástico Emerenciano Rodrigues, autor das ilustrações do livro, o poeta e dizedor Aurelino Costa que leu um escrito de Maria Estela Guedes e a poetisa Aurora Gaia que declamou dois poemas. Victor Oliveira Mateus conduziu uma nova mesa temática que juntou Ana Cristina Silva, António Canteiro e Pedro Almeida Maia em torno do processo de transformação de uma folha em branco em livro. Entretanto, no espaço exterior ao Museu, Carlos Nuno Granja apresentava o livro “Tralhas e Coisas do Sr. Loisas”, com ilustrações de Yana Marques, e Rosário Alçada Araújo falava de “Quem Me Dera Ser Assim”, ilustrado por Beatriz Francisco. Uma oficina de ilustração orientada por Nic e Inês e uma visita guiada e encenada à vila histórica de Ovar, por Leandro Ribeiro, fecharam as contas da tarde.

À noite, todos os passos foram dar ao Centro de Artes de Ovar. Diogo Carvalho foi o primeiro protagonista ao apresentar o seu livro “Sol”, vincando que a Banda Desenhada não é um género, antes é um meio de comunicação.” Presença assídua nas andanças do Festival desde a primeira hora, Cristina Marques moderou a quarta e última mesa temática do dia. Sob o mote de Camões e daquilo a que o nosso maior poeta chamou “caminho da virtude”, o “alto e fragoso” caminho da escrita, as jovens escritoras Célia Correia Loureiro e Susana Amaro Velho partilharam as suas ideias sobre a escrita de ontem e de hoje, com a primeira a afirmar que “estamos a viver uma época dourada no sentido em que há muito interesse por parte dos leitores portugueses na literatura portuguesa” e a considerar iniciativas como o FLO a prova disso mesmo pela possibilidade que oferece aos leitores de “estar perante autores vivos, autores que ainda podem discutir a sua obra”. Perante uma sala completamente esgotada, a Yellow Star Company representou a peça “A Noite”, de José Saramago, com encenação e adaptação de Paulo Sousa Costa. Através dela, o público recuou à noite de 24 para 25 de Abril de 1974, mergulhando no espaço da Redacção do “Jornal de Lisboa” e vivendo os sentimentos opostos daqueles que manifestavam a sua fidelidade ao regime fascista e dos outros que sentiam nascer ali “o dia inicial inteiro e limpo”. Com os ponteiros do relógio muito para lá da meia noite, Aurora Gaia, Aurelino Costa e Zetho Cunha Gonçalves encerraram o programa com um momento de “Poemas a Meias”.