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terça-feira, 30 de setembro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Vítor Pinto Basto



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Vítor Pinto Basto
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
23 Set 2025 | ter | 17:00


Após um período de merecidas férias, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para uma hora de boa conversa à roda dos livros. Vítor Pinto Basto foi o convidado da 24.ª sessão de uma série de tertúlias literárias que tiveram o seu início em Abril de 2021 e, a propósito de duas das suas obras - “O Rapaz que Queria Aprender a Olhar” e “A Arte de Ser Boa Pessoa” - teceu um conjunto de reflexões que cruzaram os temas fortes da memória e da liberdade. “Nunca pensei em vir a apresentar os meus livros num lugar fantástico como este”, começou por afirmar o autor, perante uma plateia numerosa e ávida de escutar as palavras de quem diz que “aprender a olhar é também aprender a questionar”. Dirigindo-se ao público, referiu estarmos num sítio “onde não falta quem nos cubra com o manto da ciência e da ternura”, abrindo espaço àquilo que designou por “boas pessoas”, aquelas que fazem “do cuidado, da ternura e da empatia uma forma de resistência e de preservação da dignidade”. Reforçando a ideia de que “um ser humano nunca deve abandonar a sua humanidade”, Vítor Pinto Basto lembrou que “todos temos dentro de nós esse fermento fabuloso de criar meios para podermos ser felizes numa vida que nos foi dada”, nesse labor residindo “a arte de ser boa pessoa”.

Olhando à nossa volta um mundo que se desmorona a cada dia que passa, que despreza o colectivo em nome do individual, que separa em vez de unir, que cerra fileiras contra os princípios e valores de Abril, Vítor Pinto Basto apontou o dedo “àqueles que destilam ódio”, afirmando que têm um problema: “Têm pela frente as boas pessoas, aquelas que estão aqui para enfrentar as más pessoas. Sem armas, sem ódio, apenas com ternura.” Para o convidado, “todo o ser humano tem direito a ser feliz e nós temos o direito de não deixar que nos destruam esse direito”. Olhando nos olhos os presentes, deixou um repto: “Não apoiem quem destila o ódio e a desumanização nos seus discursos políticos. Apoiem e apoiem-se em quem dignifica a vida.” Entrando no pequeno-grande mundo da escrita, Vítor Pinto Basto concordou com a ideia transmitida pelo moderador de que “o olhar, nos seus livros, mais do que um sentido é uma responsabilidade” e aproveitou para falar do papel da literatura em ensinar a olhar o mundo, usando o jornalismo como contraponto. A este propósito, referiu que “as notícias caminham não no sentido de um mundo melhor, mas no de nos atirar uns contra os outros. Ao invés, o escritor não tem de se submeter a uma linha editorial”, vincando a ideia de liberdade associada à literatura e que existe cada vez menos no jornalismo.

Conhecido e reconhecido pela correcção da sua postura ética e deontológica, Vítor Pinto Basto é um bom exemplo do escritor que busca, através da literatura, reforçar o que de bom existe em cada um de nós. “Preocupo-me em contar histórias que têm uma base real, histórias que possam tocar as pessoas, na medida em que se revêem nos factos e nas personagens”, diz. Mas adverte que “A Arte de Ser Boa Pessoa” é um livro incómodo: “Não vale a pena a literatura se não for para inquietar, para apoquentar”. Implícita em ambos os livros, a memória foi um tema forte da conversa, com o escritor a denunciar os movimentos fascistas e aquilo que diz ser “uma tentativa de apagar a memória colectiva”. “O Rapaz Que Queria Aprender a Olhar” surge como um meio de lembrar o que de bom se fez em democracia: “Quando se diz que nestes cinquenta anos só houve corrupção, essa é das mentiras mais torpes e imundas que podem existir (…). No tempo da ditadura a corrupção era muito pior, só que era silenciada”. Ser boa pessoa volta a surgir no debate como imperativo moral, uma escolha individual que se repercute no colectivo. Instado a deixar uma mensagem simples mas duradoura no espírito dos presentes, Vítor Pinto Basto encerrou a sessão com um significativo: “Não desistam!”

sábado, 20 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 2



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Abigail Ascenso, Ana Deus, Ana Maria Ferreira, Cláudia Lobo, Daniel Maia Pinto-Rodrigues, Lília Tavares, Luca Argel, Maria Toscano, Nuno Gomes, Vítor Pinto Basto
Escola Secundária José Macedo Fragateiro, Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2025 | qui | 21:00 


Depois de um arranque recheado de emoções, o Festival Literário de Ovar enfrentou com renovada ilusão um novo dia, tendo para oferecer um programa em versão curta, mas nem por isso menos aliciante. Entre portas abertas à leitura e azulejos vestidos de poesia, por esta ocasião a cidade reforça o seu abraço às letras. As palavras soltam-se dos livros e revolteiam no ar, dispostas a verter-se em conversas íntimas e em concertos em que a música se curva perante a poesia. Como velhos cúmplices de um segredo partilhado, escritores cruzam de novo olhares e ideias com leitores. Em palcos de pensamento e emoção, a cada novo dia, os livros falam mais alto, os corpos dizem textos, os sons desenham imagens e o FLO cumpre-se no seu desígnio de celebrar a palavra, orgulhoso da escrita de mais um capítulo de uma história com final feliz.

A Escola de Artes e Ofícios foi o epicentro de um programa que atraiu um público leitor entusiasta, disposto a reforçar os laços que, através dos livros, busca estabelecer com o escritor. E quase apetece dizer que o milagre aconteceu de novo, com a bonita Sala Expande a transformar-se, no breve espaço de um serão, num mundo de partilha, imaginação e ideia cúmplice. Lília Tavares, Vítor Pinto Basto e Maria Toscano animaram a terceira mesa do FLO, dispondo-se, sob a moderação de Ana Maria Ferreira, a dissecar uma frase de Fernando Namora: “A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade.” Numa conversa emotiva, interventiva e viva, abanão vigoroso às consciências dos mais distraídos, falou-se da poesia como “o território da pura liberdade” (Lília Tavares), de democracia como elemento-chave de uma trilogia onde se inclui a literatura e a liberdade (Maria Toscano) e da função social da literatura (Vítor Pinto Basto).

“O Corredor Interior”, romance de Daniel Maia Pinto-Rodrigues, editado pela Exclamação e apresentado por Nuno Gomes, tinha aberto o serão, cabendo a Ana Deus e Luca Argel fechar a noite com um concerto intitulado “Canções para beber com Pessoa”. Nele, os artistas revisitaram as “Canções de beber" (ou Rubaiyat), do poeta-astrónomo Omar Khayyam e que, desde a Pérsia do Século XI, inspiraram Fernando Pessoa a traduzir de forma muito livre (do inglês, baseado em Edward Fitzgeral) cerca de duas centenas de quadras. Foi sobre esses poemas que o concerto incidiu, aos quais a dupla acrescentou um conjunto de temas extraídos de “Ruído Vário – Canções com Pessoa”, álbum de estúdio de 2017, uma encomenda da Casa Fernando Pessoa. Ao transformar e atualizar o génio de Fernando Pessoa – “passando por diversas das suas facetas, da solenidade trágica ao escárnio humorístico” –, Ana Deus e Luca Argel ofereceram a possibilidade de escutar a palavra de uma outra forma – igualmente celebrativa, jubilosa e livre. E que siga o FLO!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

LIVRO: "A Arte de Ser Boa Pessoa"



LIVRO: “A Arte de Ser Boa Pessoa”,
de Vítor Pinto Basto
Ed. Arqueu Editora, Outubro de 2024


“Ali, no hospital, o que ela sentiria, se conseguisse explicar, ou o que julgaria sentir porque a doença alastrara, é que na maioria das vezes não conseguia identificar quem tinha a seu lado. Quando estava nessa estranheza de ser a personagem principal de um mundo com rostos sem nomes, que não conseguia identificar, a memória pregava-lhe a rasteira do costume. Se conseguia encontrar formas nas sombras as palavras saíam-lhe da boca sem os sons da clareza. Nessa lentidão dos desapegados, por vezes libertava frases repetidas com cansada interrogação. E não se importava com o que ouvia. Perguntava sem esperar pela resposta. Nesse atarantamento, voltava a perguntar. Mesmo que lhe dessem a resposta e fosse verdadeira, ela repetia a pergunta. Voltou a perguntar:
- Tu não és meu filho, pois não?”

Chega-se ao fim de “A Arte de Ser Boa Pessoa” com um sorriso no rosto e um calorzinho no peito, que nos conforta e faz bem. É uma sensação estranha, talvez porque o livro trate de assuntos do quotidiano mais banal e isso, de acordo com o cânone, não é matéria-prima da grande literatura. E há ainda a questão do preconceito à volta do título, a remeter para aquela “coisa” da auto-ajuda e para as virtudes, tim-tim-por-tim-tim, desses “antidepressivos motivacionais”. Pois bem, às urtigas com o cânone e mais o preconceito. A sensação estranha advém do facto de não ser comum, nos dias de hoje, ler alguém que faz tábua rasa de distanciamentos sociais e afins, nos põe a mão no ombro e nos conta, olhos nos olhos, uma história que (também) é nossa. É na verdade que se abriga nas suas linhas, neste trazer para diante o que muitos pretendem que permaneça escondido, no ser de todos o que é de cada um, que encontramos os méritos de um livro cuja ambição não vai além de ver respondida uma questão muito simples: “Andamos a escrever sobre o que realmente interessa?”

E o que realmente interessa? A literatura interessa, ou não fosse esta a história de um livreiro, atravessada por nomes, referências, citações e pistas de leituras, entre Rosalía de Castro e José Gomes Ferreira, heterónimos e livros proibidos, as tertúlias do Piolho e o poeta Veiga, Simone de Beauvoir e “A Velhice”. A música também interessa, o livro ilustrado por uma “banda sonora” que inclui propostas tão diferentes como “Run” dos Snow Patrol, “The Man I Love” de Hindi Zahra, “Le Jardin du Luxembourg” de Joe Dassin, “Estou Além” de António Variações ou as “Baladas e Canções” do Zeca. Os amigos interessam, mesmo que já lhes tenhamos perdido o rasto e que, por mero acaso, estejam de regresso às nossas vidas, trazendo com eles pedaços de um passado que parecia arrumado. Os lugares interessam muito, o livro a olhar um Porto na moda - um hotel e dois restaurantes em cada esquina, lojas de pechisbeque asiático ditas de artesanato por todo o lado -, uma cidade a viver um paradoxo identitário, a perder carisma, os turistas como “apreciados tripeiros numa cidade sem tripeiros”. Enfim, as coisas boas da vida também interessam, sejam elas um bom charuto ou um Vintage de 1994 que até se mastiga.

Mas é a vida, sobretudo a vida, que interessa. A vida e aquilo que fazemos com ela. E é aqui que os passos de escritor e do leitor se cruzam mais intensamente, o mundo como um T1 com kitchenette. “Às vezes fico a pensar que há tanta coisa banal, tão importante, por valorizar”, escreve Vítor Pinto Basto, fazendo desta simples frase um manancial inesgotável de intenções. E assim, muito de mansinho, vai-nos dando a ver uma maca num corredor da urgência do hospital, um corpo que luta e resiste, as garras silenciosas da demência, as mortíferas bactérias hospitalares, as virtudes do Zolpidem. Os abanões na estrutura familiar, que parecem abanar só para um lado. A eterna disponibilidade para escutar o outro, para telefonar ao outro, para aturar as suas extravagâncias, para atender os seus pedidos. A arte de ser boa pessoa, em suma, que convida a falar com as plantas, a fazer uma caminhada, a apreciar a paisagem que vai de Ovar a S. Jacinto, a ria com os seus canais, as suas gentes, o róseo dos seus flamingos. Talvez agora se perceba melhor o sorriso no rosto e o calorzinho no peito de que falei acima, como se perceberá a nota de gratidão pela generosidade e humanidade que se destacam das páginas de um livro que interessa.