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sexta-feira, 20 de março de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Francisco Duarte Mangas



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Francisco Duarte Mangas
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
18 Mar 2026 | qui | 17:00


A assinalar a sua trigésima edição, as Tertúlias Literárias “Conversas às 5” convidaram o escritor Francisco Duarte Mangas para uma hora de partilha, reflexão e conhecimento em torno de um conjunto de livros que encontram na História, na memória e na linguagem os alicerces que sustentam uma obra de inegável valor no panorama da literatura em Portugal. Nascido em Rossas, Vieira do Minho, em 1960, o escritor estudou História na FULPorto, foi professor três anos e jornalista durante quase três décadas. Dedica-se hoje à escrita a tempo inteiro, é o actual presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e director da revista Gazeta Literária. Autor premiado, tem editados mais de três dezenas de livros, entre obras de ficção, poesia e literatura infantil, além de quase outros tantos textos de que foi co-autor ou organizador. A estes apontamentos biográficos, Francisco Duarte Mangas acrescentou o facto de manter uma rotina de escrita diária - “dez linhas, vinte linhas, todos os dias” - e de “Diário de Link” ter sido o primeiro romance numa carreira literária que começou pela poesia. Uma carreira que se prepara para prosseguir na esteira de um livro anterior, e que nos irá trazer, esperamos que brevemente, a figura do escritor Antero do Quental e a sua ligação às ilhas dos Açores, onde viria a falecer.

Centrada no seu mais recente romance, “A Arte de Roubar Fruta”, a conversa começou por abrir espaço a outros trabalhos de Francisco Duarte Mangas, graças à partilha de um conjunto de curiosidades. Menino ainda, o escritor ouviu, assombrado, a história do último habitante a abandonar Vilarinho das Furnas, na altura em que a aldeia foi submersa pelas águas da barragem. A isso juntou a dúvida que o assaltou ao escutar a afirmação, a propósito da morte do ditador Francisco Franco, “que a terra lhe seja leve como chumbo”, o que abriu caminho, muitos anos depois, à escrita de “Diário de Link”. “A Cidade das Livrarias Mortas” é a cidade do Porto “vista por quem sente que há uma cidade que está a desaparecer e a nascer outra em seu lugar”. Já “O Alfarrabista de Ponta Delgada” - “que poderia muito bem chamar-se O Jardineiro de Ponta Delgada” -, faz-nos recuar dois séculos ao tempo em que os proprietários mais abastados competiam pelo título de melhor jardim. No caso de José do Canto, cujo jardim existe ainda hoje, a ideia inicial para o livro partiu da leitura de um panfleto turístico onde era mencionada a história de George Brown, o seu primeiro jardineiro, despedido na sequência da doença que vitimou as filhas. Uma história de prepotência e injustiça, à qual viriam a somar-se as precárias condições de vida da população, a exploração do trabalho infantil e o regime de quase escravatura nos vastos laranjais da ilha de S. Miguel no século XIX.

“Por vezes leio ou ouço uma palavra e penso que tenho de usar essa palavra para que ela faça parte de mim”, refere Francisco Duarte Mangas, a propósito da riqueza vocabular que ressalta dos seus livros. “A Arte de Roubar a Fruta” é disso exemplo maior, com o autor a chamar para título de alguns capítulos palavras como “alcaiote”, “estopim”, “pardau”, “garum” ou “veniaga” e cuja presença remete para obras como “A Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, ou “Dom Quixote”, de Cervantes. Ao mergulharmos no romance, encontramos-lhe a dimensão política muito marcada, a narrativa a desenvolver-se numa aldeia raiana do norte e a oscilar entre dois momentos distintos: o pós-segunda guerra mundial e o pós-revolução dos cravos. “Ao escrever este livro, pretendi mostrar que a malvadez não tem tempo. As pessoas de 1946 que participaram nos massacres [resultantes da perseguição aos guerrilheiros anti-franquistas refugiados no nosso País] eram as mesmas da rede bombista no Verão Quente de 1975.” Isto leva-nos ao “Cerco de Cambedo”, acontecimento marcante do período do Estado Novo, ao encontro de proprietários abastados e populações submissas, guardas prepotentes, pides sinistros e uma igreja conivente com a repressão e a tortura. Mas também das células ligadas ao Partido Comunista Português que lideravam a resistência ao fascismo, da morte de dois dos guerrilheiros e da captura de um terceiro e sua prisão no “campo da morte lenta” do Tarrafal.

“Para o ficcionista, o momento da criação de uma personagem e a forma como se desenvolve é fundamental na construção do livro”, refere o convidado. Entre o real e o imaginário, a conversa cruza, então, a figura de Zulmira ou Armindo Pega, com as do Padre Max ou do Cónego Melo, reforçando o olhar sobre a natureza humana que atravessa todo o livro, a malvadez já referida, mas também a bondade de certas pessoas. A primeira manifestação após o 25 de Abril, as primeiras inscrições nas paredes ou as primeiras eleições livres, convergem naquilo que Francisco Duarte Mangas designa como “direito à fala, o podermos falar” e que é, na sua opinião, “a grande conquista revolucionária”. Para o final ficou a “descodificação” de um título que arrasta em si, em toda a plenitude, a ideia de liberdade. “A arte de roubar fruta tem a ver com a posse da terra. Antes do 25 de Abril, a terra era de meia dúzia de pessoas e só essas tinham os seus quintais - muralhados, com aquele vidro a proteger o topo dos muros - com árvores de fruta. O roubar fruta era a apropriação, a afirmação de algo que podia ser de todos.” Dominar o espaço e o silêncio e agir com rapidez fazem parte desta arte de roubar fruta, algo explicado com alguma graça por Francisco Duarte Mangas e exemplificado com um episódio revelador de que a arte de roubar fruta pode revelar-se de inúmeras formas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Josefa de Maltezinho



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Josefa de Maltezinho
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
18 Fev 2026 | qui | 17:00


A vigésima nona sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, promovidas pelo Centro de Reabilitação do Norte, voltou a provar que a palavra é, tantas vezes, o mais eficaz dos remédios. Na tarde de 18 de Fevereiro, as paredes habituadas ao silêncio abriram-se a uma respiração mais funda, feita de escuta e partilha. Dirigida muito especialmente aos utentes internados e às suas famílias, a iniciativa tem sido esse território de confluência onde o bem-estar se constrói devagar, como quem cose uma ferida com pontos de luz. Mas é, também, um momento de encontro com o livro enquanto objecto que acrescenta saber e enriquecimento, que desafia a clausura da doença e convida a viajar à descoberta de paisagens com outras e novas cores, longe do negro da imobilidade e da dependência, do branco asséptico de corredores e enfermarias. Cada sessão é uma pequena travessia, cada convidado um farol aceso na margem. Um farol que, na tarde da passada quarta-feira, teve nome literário e voz de mulher.

Josefa de Maltezinho, pseudónimo de Julieta Aleluia, nasceu no Porto, mas foi em Aveiro que aprendeu a soletrar o mundo e a permanecer. Professora do Ensino Básico, formada pela Universidade de Aveiro, guardou durante décadas cadernos e versos, como quem guarda sementes à espera de serem lançadas à terra na estação propícia. Em 2013 publicou “Água Corrente”, a que se seguiu o romance “Maçã com Bicho”. Regressou depois à poesia com “Porque um Rio Também se Cansa”, publicou em Espanha a edição bilingue “Otoño de Visita”, e continuou o seu caminho com “Uma Garfada de Sol no Umbigo”, “Fracturas Expostas”, “Solidão Assistida ou a Brutalidade do Quotidiano” e “Pela Lente do Repórter”. Em Julho de 2025, com a chancela da Editora Exclamação, deu à estampa “Elisa”, obra que serviu de ponto de partida para uma conversa que se quis inteira e sem rede.

Dos doentes e para os doentes, a tertúlia fez-se viva, intensa e livre. Antes de qualquer apresentação formal, os presentes quiseram saber tudo sobre a convidada, como se a curiosidade fosse uma urgência vital. A Teresa e o Alberto, a Diana, a Paula e tantos outros que fizeram questão de erguer a voz como quem segura na mão um espelho, reflectiram, opinaram, inquiriram e partilharam as suas inquietações sobre o papel da mulher, a sua educação para a resignação, a sua secundarização histórica, os lentos processos de emancipação. Olhando o romance “Elisa”, o moderador evocou Alfred Hitchcock e o seu “Janela Indiscreta” para colocar os presentes na pele de um James Stewart a observar vidas alheias através de uma janela imaginária: a mulher romena com a criança ao colo, abrigando-se da chuva; a outra que, entre gritos domésticos, é agredida. Em paralelo, emergiu a memória de tempos em que secretárias do Ministério dos Negócios Estrangeiros, enfermeiras, hospedeiras da TAP Air Portugal ou professoras não podiam ser casadas. Falou-se de Maio de 2000, data em que a violência doméstica passou a constituir crime público, mas também da persistência de mentalidades que ainda murmuram que “entre marido e mulher não se mete a colher”.

Na segunda parte da sessão, a poesia tomou a sala como um sopro. A leitura partilhada revelou uma autora multifacetada, atenta às imagens de violência que nos entram pela casa adentro à hora do jantar, trazidas pelos noticiários, mas igualmente sensível ao rumor de um tasco “à moda antiga” do Porto, onde a vida é servida em copos de três e as conversas se saboreiam sem tempo. A palavra poética, ali, não foi ornamento: foi bisturi e foi abraço. Interrogou-nos no que temos de mais cru, convidando cada um a revisitar a sua própria história. E quando a escritora encerrou a sessão com um elogio à iniciativa — “pela cultura, pelo bem-estar de quem não se encontra nas melhores condições físicas e tanto precisa destes incentivos” — percebeu-se que não foi apenas literatura o que ali se celebrou, antes a possibilidade de, mesmo em contexto de fragilidade, se continuar a crescer. Como uma resposta afirmativa e livre ao desejo de que cada livro aberto possa ser uma janela menos indiscreta e mais luminosa sobre a esperança.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Paulo M. Morais



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Paulo M. Morais
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Jan 2026 | qui | 17:00


À entrada de um novo ano, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para mais um momento de pura magia à roda dos livros e da leitura. Numa sessão aguardada com enorme expectativa, Paulo M. Morais foi um interlocutor perfeito, trazendo para a tertúlia uma coloquialidade rica e sedutora e uma generosa partilha de histórias e memórias. Numa mesa onde pontificou grande parte da obra do autor, a primazia foi dada a “A Glória Efémera”, a sua última publicação. Biografia do Nobel da Medicina Egas Moniz, o livro e a conversa proporcionada geraram no público uma admiração e cumplicidade imediatas. Para os presentes, escapar a uma rotina que vive de e para a pessoa doente, e ter a possibilidade de, ainda que por um curto espaço de tempo, mergulhar no mundo das letras e seguir os caminhos da arte e da ciência de mãos dadas com Egas Moniz e o seu tempo - entre uma conturbada carreira política, os desafios da investigação científica e uma riquíssima vida interior – revelou-se precioso. Daí que todos tenham deixado a sessão de coração cheio e, estendendo a vista até ao horizonte, sentissem que, por um momento, o cinzentismo da doença se viu vestido de tantas quantas as cores de que a vida é feita.

“Eu, que já passei muito tempo num contexto hospitalar a ser tratado a um cancro, devo dizer que a leitura foi das coisas que mais me ajudou a ultrapassar esse período”, começou por referir Paulo M. Morais ao dirigir-se aos presentes a quem saudou de forma calorosa, realçando a importância de existirem espaços como este, dedicados aos livros e à leitura em ambientes improváveis. Falando de “A Glória Efémera”, o escritor lembrou a relutância que teve em aceitar o desafio do editor Rui Couceiro e o reconhecimento de alguma “dose de loucura”, no momento de dar o sim a tão grande empreitada. Ter tido um avô médico pesou certamente na decisão: “Sempre falei muito com o meu avô sobre Medicina, mais no sentido da humanidade que o médico teria que ter, do tempo a dispensar aos seus doentes e de como isso se estava a perder. Acho que o legado dessas conversas e a memória do meu avô acabou por ser muito importante, até para me identificar com o biografado e meter-me na loucura de escrever o livro.”

O trabalho de investigação tomou conta do escritor ao longo de três anos, entre 2020 e 2023, com o labor da escrita a estender-se pelos dois anos seguintes. Entretanto, uma constatação antes de arregaçar as mangas: “Tinha de analisar o que já estava escrito [sobre Egas Moniz] para ver se havia espaço para uma coisa diferente. Li a biografia escrita pelo João Lobo Antunes e achei que era uma biografia feita por um médico. Percebi que, no que respeita à parte médica, nunca conseguiria fazer melhor do que aquilo, mas também percebi que havia outras partes da vida de Egas Moniz que não estavam tão bem exploradas.” Agora que o livro já passeia pelas mãos dos leitores, importa dizer que o resultado é pautado por um notável equilíbrio, revelador do cuidado em ir ao encontro de Egas Moniz na sua vertente de investigador e médico, mas também de um aguerrido e astuto político, um tribuno vibrante, um coleccionador, escritor e empresário, um amante da tranquilidade do lar e das coisas boas da vida.

“O que senti ao avançar com a biografia é que, provavelmente, o Egas Moniz ficou demasiado afunilado ao Nobel que lhe calhou, entre aspas. Porque poderia ter ganho o Nobel pela descoberta da angiografia e, neste caso, talvez a glória não fosse tão efémera”, referiu o convidado ao explicar o porquê do título do livro. Foi o momento de falar das questões éticas relacionadas com a leucotomia, do contexto de toda uma época na qual a Psiquiatria tentava fugir ao estigma de ser o “parente pobre” das especialidades médicas, mas também de que “o próprio Egas Moniz, no final da sua vida, terá percebido que a descoberta que lhe tinha dado o Nobel já estava a cair em desuso, levando-o a temer que já não fosse ficar para a história da forma como gostaria.” De romancista a biógrafo adivinha-se um processo de transição quase natural: “O romancista está habituado a urdir a sua trama de forma prática e fluida”, diz Paulo M. Morais, acrescentando que “ajuda escrever romances e depois adoptar o princípio de ver o biografado como se fosse uma personagem e nunca lhe perder o centro. Importa dar um contexto histórico, naturalmente, mas sobretudo não nos esquecermos de que o centro é aquele homem. A premissa que utilizei foi a mesma, com a diferença de que numa biografia não se pode inventar, os factos não podem ser alterados”, disse.

Da Fundação Mário Soares à Biblioteca Nacional, dos arquivos municipais à Casa do Marinheiro e ao legado escrito do Nobel, o trabalho de pesquisa bibliográfica foi-se adensando: “Começamos a meter canas de pesca em tudo quanto é sítio. De repente percebe-se que aquela picou qualquer coisa, aquela também já deu qualquer coisa, que esta é para esquecer…”. Fruto dessa recolha, o escritor destaca a surpresa de se ter visto confrontado com os excessos da vida política nos finais da monarquia e primeira república, “a linguagem bélica dos debates parlamentares”, fazendo com que os políticos de hoje, se comparados com os de ontem, pareçam “meninos de coro”. Ainda que as qualidades de Egas Moniz enquanto homem político se pautassem pela combatividade, argúcia, capacidade de argumentação e calculismo - e Paulo M. Morais demonstra à saciedade todas essas qualidades, apoiando-se na imprensa da época -, há um particular momento da vida política do Nobel que surpreendeu o biógrafo: “A relação de Egas Moniz com Salazar nunca foi fácil e o Nobel acabou por servir de capa para as posições que viria a tomar de oposição ao Estado Novo. As entrevistas que fui encontrando de Egas Moniz são de alguém que diz abertamente que vivíamos num estado sem liberdade de expressão, que as eleições eram uma fantochada e que se sentia preso no seu próprio país.”

Aberta a tertúlia às questões do público, foi tempo de falar do processo de investigação e de um hipotético recurso à Inteligência Artificial, tentação à qual Paulo M. Morais resistiu. Caso para dizer que “A Glória Efémera” foi “o último livro que o escritor Paulo M. Morais escreveu sem recorrer à Inteligência Artificial”. Só quando o livro já estava na gráfica se permitiu o biógrafo explorar questões tão banais como “livros escritos por Egas Moniz” e enumerados pelo chat gpt, percebendo, com grande alívio, que os livros que desconhecia afinal nunca existiram. Foi também tempo de abordar as questões que envolveram a justiça do Nobel, com o escritor a lembrar o grande problema social e de saúde pública que os doentes do foro psiquiátrico representavam na altura - com oito tiros desferidos por um louco à queima-roupa, nem o próprio Egas Moniz terá sabido muito bem como escapou com vida -, as terríveis condições de internamento dos alienados em asilos, os tratamentos “horripilantes” a que eram sujeitos, aos quais se deve acrescentar o pioneirismo da Psicocirurgia, o que cauciona, na opinião de Paulo M. Morais, a atribuição do Prémio Nobel. “Uma coisa tenho a certeza: Egas Moniz era um médico profundamente humanista e eu acho que nunca teria avançado para uma intervenção se não tivesse a certeza absoluta de que aquela era a melhor solução ao seu alcance”, conclui.

Já na recta final, a conversa olha agora Egas Moniz no ambiente íntimo do lar e da família. Mas antes, uma questão “provocadora” a uma participante muito especial nesta sessão das Tertúlias Literárias, a escritora Isabel Rio Novo. Foi ela a primeira leitora de “A Glória Efémera” - “nós somos sempre o primeiro leitor um do outro” - e deixou-nos uma opinião que considera isenta: “Escrever uma biografia não é pegar em tudo aquilo que já se escreveu, ler muito bem, baralhar de novo e voltar a escrever. E o Paulo não se conformou com o muito que já existia, com o muito que já se sabia, e aí ele foi original ao descobrir coisas que ainda não tinham sido vistas.” Referindo que o livro “não é um romance, mas lê-se como um romance”, Isabel Rio Novo remata com o melhor elogio que um escritor pode receber: “Sou uma grande leitora de biografias e esta é a melhor biografia que eu já li”. Paulo M. Morais falou então do ambiente da Casa do Marinheiro - “quando todos estiverem melhor, aconselho muito uma visita à Casa-Museu Egas Moniz, em Avanca” -, de um bucolismo romântico muito presente e cuja ruralidade servia de contraponto ao cosmopolitismo das vivências sociais do médico.  Enfim, a partilha de uma última revelação: “No meio de tanta correspondência que faz parte do seu espólio não se encontra uma carta entre marido e mulher. Mesmo nos escritos autobiográficos, a relação com a Dona Elvira, companheira de uma vida, é tratada em dois ou três parágrafos. Embora, como biógrafo, consiga perceber a intenção de Egas Moniz de preservar uma certa intimidade, acho estranho que alguém que guarda tanto não tenha encontrado uma ou outra carta que valesse a pena deixar para a posteridade.”

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: DANÇA, TERTÚLIAS, LUGARES, OUTROS



10. Livros de Artista
Vários artistas
6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025
Quinta da Fiação de Lever
05 Abr > 12 Jul 2025

“ (…) Agostinho Santos, Nazaré Álvares, Celeste Ferreira ou Valter Hugo Mãe apresentam ao olhar do visitante um conjunto alargado de trabalhos em que cada página, quando analisada separadamente, assim como o acto repetido de “folhear” o livro, se combinam para transmitir uma sensação de continuidade e oferecer um conjunto de leituras, com tanto de sofisticado quanto de inesperado. Livros produzidos manualmente ou nos quais o artista teve uma intervenção directa na sua impressão, livros com múltiplos ou cópias únicas, livros com desenhos, pinturas, colagens ou têxteis, livros que se lêem da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, de cima para baixo ou de baixo para cima, as propostas são numerosas e qual delas a mais sedutora.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/exposicao-livros-de-artista.html



9. FESTA - Sons da Lusofonia (II)
Com | CRUA, Juliana Linhares, Fogo Fogo e Mário Lúcio
Parque Urbano de Ovar
12 Jul 2025 | sab | 16:00 às 00:00

“ (…) Primeira banda a repetir a presença no FESTA (depois de uma participação memorável em 2022), os Fogo Fogo puseram a carne toda no assador, mostrando o porquê de serem lídimos representantes do funaná, mas não só. Cultores da lusorritmía, na sua música confluem o samba e o semba, a morna e a marrabenta, o carimbó e o fado. Mas, ainda que o ritmo seja o pai de tudo, a palavra traduz o ritmo e daí que a música dos Fogo Fogo, sendo para dançar, seja igualmente para cantar. E foi isso que pudemos apreciar ao final da tarde de sábado, num concerto que encerrou um conjunto de momentos inesquecíveis. Voltar ao baile, voltar à pista, ser ponto de encontro de corpos que se dão em gesto e partilha, foi esta a proposta da banda à qual o público aderiu de forma incondicional.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/certame-festa-sons-da-lusofonia-ii.html



8. Conversas às 5
Com | Benilde Teixeira
Participação especial | Sofia Ataíde e Renato Nunes
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Out 2025 | qua | 17:00

“ (…) A propósito de um internamento que se estendeu por cerca de nove meses, Renato Nunes recorda um processo evolutivo constante, de grande adaptação às estratégias prescritas, mas também “o fim de semana em que a Dona Benilde, com a sua cadeira eléctrica, conduziu um comboio de doentes em cadeira de rodas pelos corredores do CRN”, assim como “as mudanças de quarto para, com a sua atitude, nos ajudar a lidar com doentes mais fragilizados”. Uma memória que mereceu de Benilde Teixeira um curioso comentário: “Quando puseram uma doente no meu quarto e, na visita médica, lhe perguntaram se estava melhor, ela disse que estava 50% melhor: Mas é à Dona Benilde que eu devo os 50% por cento, não é aos médicos”.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/tertulias-literarias-conversas-as-5.html



7. Shortcutz Ovar Sessão #97
Festa dos Premiados 2024
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
18 Jul 2025 | sex | 21:30

“ (…) Numa noite sempre especial, de expectativas em alta, emoções ao rubro, muita festa e animação, a bonita Sala Expande foi pequena para acolher as duas centenas de espectadores que fizeram questão de marcar presença, repetindo aquilo que já vem sendo um hábito para um número crescente de “ferrinhos” da última quinta-feira do mês, elevados da categoria de visitantes ocasionais à de cinéfilos atentos e conhecedores, amantes do bom Cinema que se faz em Portugal na sempre desafiante versão curta. Foram eles que, guiados por Tiago Alves, incomparável mestre de cerimónias, recordaram a oitava temporada, vibraram com as escolhas do júri e do público, escutaram as reacções dos premiados e tiveram a oportunidade de ver ou rever alguns dos filmes da sua predilecção.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/cinema-shortcutz-ovar-sessao-97-festa.html



6. Ovar Expande ‘25 (II)
Com Bia Maria + Coro da Comunidade, Ela Li e Afonso Cabral
Escola de Artes e Ofícios
17 Out 2025 | sex | 21:30

“ (…) A apresentar em Ovar “Qualquer Um Pode Cantar”, o seu mais recente álbum, Bia Maria foi capaz de unir a beleza da voz à força da comunhão colectiva num projecto que é um verdadeiro sopro de frescura no panorama da música portuguesa contemporânea. Enraizadas no cancioneiro popular, com um “cheirinho” de fado e de bossa nova, as suas melodias fazem da voz — da dela e de todos — instrumento primordial e elo de partilha. Com Alberto Hernandez na guitarra e Samuel Louro na bateria, a artista vestiu de cumplicidade e inclusão temas como “Roupa Velha”, “O Corpo”, “Aconchegos de um Sujeito”, “Marcha da Paridade” ou “Qualquer Um Pode Cantar”, juntando em palco um coro de dez pessoas de diferentes gerações e transformando o concerto num acto de encontro com o outro e consigo própria.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concertos-conversas-ovar-expande-25-ii.html



5. Conversas à Volta do Tanque
Com Manuela Grazina
Moderação | Joaquim Margarido
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
18 Jan 2025 | sab | 16:00

“ (…) “Que importância têm as memórias na construção da felicidade?” O moderador pergunta e a interlocutora, num primeiro momento, pega na questão e dirige-a ao público. À volta do tanque, é tempo de falar de filhós e café de cafeteira, carroceis cor de rosa e cheios de luzes, um cheiro a queijo picante, uma cadeirinha, um sapatinho de verniz e um guarda chuva, um dedo que rapa o tacho com restos de massa de bolo de coco, as histórias de “faz de conta” do avô Hélio. As mesmas histórias de “faz de conta” que hoje nos ajudam a não colapsarmos, “quando os familiares adoecem, avaria o frigorífico e a máquina de lavar, rebenta a caldeira, pára o carro no meio da ponte”, e que dão um contributo fundamental para a criação da esperança.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/tertulia-conversas-volta-do-tanque.html



4. Grupo de Percussão da Escola Profissional de Música de Espinho
Com | António Ferreira, Alexandre Barbosa, Gaspar Costa, Miguel Coelho, Hugo Oliveira, Tomás Marques, Pedro Leal e Catarina Gouveia
ReabilitaSons 2025
Centro de Reabilitação do Norte
10 Abr 2025 | qui | 21:30

“ (…) Perante uma assistência constituída na sua grande maioria por pessoas internadas no Centro de Reabilitação do Norte, os oito elementos do Grupo de Percussão da EPME articularam entre si a interpretação de um programa fortemente inspirado no folclore tradicional de um conjunto alargado de geografias, oferecendo ao público uma proposta de viagem pelos quatro cantos do mundo. Combinando a sua inegável qualidade interpretativa com uma forte presença em palco, perfeito na construção dos temas como nas coreografias que os vários elementos souberam desenvolver, o Grupo surpreendeu pela dedicação, entrega e emoção que soube espalhar entre a assistência, fazendo deste um momento verdadeiramente reabilitador para todos.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/concerto-grupo-de-percussao-da-escola.html



3. Submerso Imerso
Vanessa Barragão
Curadoria | Ben Austin
Casa da Cultura de Ílhavo
08 Fev > 11 Abr 2025

“ (…) É tempo de nos aventuremos pelos meandros de um microcosmos aquático encantado, distante do caos e da confusão globais, um lugar que convida à reflexão e à calma. Podemos apreciar cada peça na sua dimensão individual, mas podemos também integrá-las numa instalação maior, de forma a estabelecerem entre si uma relação espacial e uma inter-conectividade que encontram eco no imaginário e memórias de cada um. Cada uma das peças contempla um manancial inesgotável de “informação”, quer pela técnica metódica de produção ou pela exigência dos materiais, quer pelo esplendor das formas ou pela extraordinária combinação de cores.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/exposicao-submerso-imerso-vanessa.html



2. Divinas Perlinas
Musurgia Ensemble & Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Com | João Francisco Távora (flauta de bisel e direção artística), Pedro Martins (guitarra barroca), Helder Sousa (cravo e direção artística)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela de Santo António
23 Mar 2025 | dom | 16:00

“ (…) A viagem entre as duas margens do Atlântico fez-se, desta vez, ao sabor da língua: De um lado o português, o castelhano e o biscayno; do outro o mestiço, o índio e o Nahuatl (idioma asteca à época da conquista espanhola e falado ainda hoje por cerca de um milhão e meio de pessoas na região central do México). Com a parte instrumental a cargo de João Francisco Távora, Hélder Sousa e Pedro Martins, o concerto teve no coro o seu elemento de maior relevância, ficando demonstrado o poder alquímico de Jorge Luís Castro em juntar vozes e fazer magia. A ele se deveu a confiança e disponibilidade evidenciada pelos coralistas em “Negrinho tiray vos”, “As divinas perlinas” e “Mi niño dulce y sagrado”, peças de enorme riqueza melódica e rítmica e de uma harmonia sublime que tanto encantaram o público.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/concerto-as-divinas-perlinhas-musurgia.html



1. F*cking Future
Direcção artística e coreografia | Marco da Silva Ferreira
Interpretação | Catarina Casqueiro, Eríc Amorim dos Santos, Fábio Kraye, Doisy Bryan, Marco da Silva Ferreira, Matias Rocha Moura, Max Makowski, Nala Revlon
Teatro Rivoli - Caixa de Palco
05 Dez 2025 | sex | 19:30

“ (…) Quando os bailarinos invadem a plateia e avançam por entre os espectadores, o gesto é tudo menos intimidatório: É convite. Há algo de fantasmagórico, quase cerimonial, nesse movimento que aproxima intérpretes e público ao ponto de dissolver fronteiras. E é nesse instante que “F*cking Future” atinge o seu coração político — não o da militância como confronto, mas o da militância como desejo, como vontade partilhada. O espetáculo propõe um futuro que se escreve no agora, na aceleração dos corpos que recusam a apatia e afirmam o direito ao sonho, mesmo quando o mundo insiste em endurecer.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/danca-fucking-future-marco-da-silva.html

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Olívia Clara Pena



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Olívia Clara Pena
Leituras | Isabel Marcolino, Teresa Teixeira, Gabriela Sá e Fernando Ramos
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
16 Dez 2025 | ter | 17:00


Num ano recheado de “Conversas às 5”, coube a Olívia Clara Pena a “última palavra” no fecho de um ciclo que trouxe ao Centro de Reabilitação do Norte, ao longo deste ano, poetas e ficcionistas, artistas plásticos, cineastas, músicos, fotógrafos e pensadores. Com direito a pinheirinho de Natal e luzinhas a piscar, a sala encheu-se para escutar a autora de “Amor e Outros Desencontros” e beber, em ambiente intimista, quase confessional, “o amor e outras delicadezas vertidos em palavras”. “Sou mãe, professora, bióloga, escrevo poesia e adoro dizer poesia”, começou por afirmar Olívia Clara Pena, em jeito de apresentação, para de seguida se virar para o seu trabalho poético, para um livro que surgiu “de forma inusitada”, fruto de um processo de crescimento gradual e que teve no período da pandemia um enorme incremento. “Escrevia porque precisava de escrever”, referiu a poetisa, para quem “a escrita é uma coisa compulsiva”. Os muitos escritos que foi reunindo serviram de base, primeiramente, a uma série de poemas e ilustrações, enviados para os interessados sob a forma de “cartas de amor”. De seguida, à poesia juntou-se a música, reveladora de mais uma faceta de Olívia Clara Pena (para além do seu gosto pela dança). Os muitos estímulos para escrever foram combustível que alimentou o fogo criador e o livro, ainda que não pensado inicialmente, acabou por surgir em 2024, editado pela Cordel D’ Prata.

A cargo do moderador, a apresentação de “Amor e Outros Desencontros” enfatizou a verdade que as palavras encerram e a sensibilidade da autora nesse processo sempre delicado de verter nas páginas do livro o amor e o fulgor, a presença e a falha, o corpo e o desejo, o tempo e a finitude. A partir daqui, o diálogo abriu-se a um conjunto de convidados que, de forma inteiramente livre, celebraram a poesia de Olívia Clara Pena, dizendo cada um alguns poemas da sua preferência. “ (…) há amigos que são pétalas de chuva / labirintos de ternura / florescem-nos viçosos / em cada redondo poro // e há aqueles que são cura / de dias de desventura // e aqueles que são trilhos / vibrantes desconhecidos // e há aqueles que são trova / que são bailado e são canção // e há os amigos / que ficam / que resistem / e persistem / que nos arejam por dentro / como se fossem feitos / apenas de ar puro.” Tornado Sarau Poético, o momento ofereceu-se à poesia em toda a sua plenitude, com Olívia Clara Pena a “abrir as hostilidades” e a declamar “Amigos”, colocando uma primeira e significativa pedra num edifício de emoções feito e que, até ao final da sessão, não mais cessou de crescer.

“Escondi as palavras ocas e sem retorno / frouxas e sem cor / flácidas. // Quero apenas palavras fecundas / Que trazem brilho nos olhos e maciezas na pele, / Serenas, apaziguadoras / Um presente”. Na esteira da palavra, Isabel Marcolino deu voz à poesia de Olívia Clara Pena, passando o testemunho aos diseurs seguintes. Fernando Ramos trouxe “A esperança”, “às vezes, (…) um sorvedouro de vida”; Gabriela Sá disse “Adeus” e Teresa Teixeira fez do momento uma “Prece e Anunciação”: “A poesia feminina / escava fendas no misterioso oculto / tem dias que é prece / e outros que é / anunciação.” Terminada a primeira ronda de poemas, novo momento de conversa, desta vez juntando a poesia ao universo da mulher. Para a poetisa, “sendo distintos os mundos masculino e feminino, em tempos de maiores dificuldades, de restrições à liberdade ou de ameaças à democracia, as mulheres são sempre quem mais sofre.” Maria Teresa Horta, Natália Correia ou Clara Pinto Correia são referidas como exemplo das ameaças que pendem sobre as mulheres, em particular sobre aquelas que arriscam, através da poesia ou de outras formas de arte, dar voz ao corpo e ao desejo. Olívia Clara Pena não escapa, com este livro, a uma certa afirmação política da sua poesia: “O fugirmos ao plano das ideias e ao confronto agressivo, o abraçarmos um lirismo fora de moda, o falar de forma doce, real, com o corpo, é um gesto político”.

Chamando ao palco a poesia de Olívia Clara Pena no início de nova vaga de emoções, Gabriela Sá trouxe consigo uma pergunta: “Como posso eu dizer-te adeus?”. Teresa Teixeira disse “ (…) um poema / de amor / e / de amar”, em “Oração”. Isabel Marcolino mostrou o “seu” poema, “Casa”: “O quarto / simples e nu / portadas de borboleta / Cheiro ameno e carmesim / fresta de luz e ternura.” Fernando Ramos fechou a ronda com “ (…) chuva / delicada e persistente / antevendo o convite / entre os pingos e a folhagem.” A sessão abriu-se às questões do público, nomeadamente na figura da “morte”, implícita na poesia da autora, que com ela tem “uma relação pouco apaziguada, de dificuldade em aceitar essa dimensão que nos toca”. Outra questão remeteu para o “silêncio” na sua poesia, visto pela autora em “duas dimensões”: Uma “luminosa”, nos espaços que abre à escuta e à reflexão; outra de “ausência, de um fim de comunicação, de separação”. A convidada encerraria a sessão lendo “O Tempo”, “(...) esse conceito abstracto / compasso de sonhos / carrasco d’ausências / doce e amigo / tempestade e raio de luz.” Francos e generosos, os aplausos irromperam e houve lugar a “encore”, primeiro com um apontamento em forma de poema, da autoria de Isabel Marcolino, um “roubar títulos” de homenagem à poeta. “No burburinho dos juncos / (…) no silêncio das papoilas”, um derradeiro poema lido por Olívia Clara Pena - ainda e sempre o amor - encerrou da melhor forma a sessão, gravando nos presentes as suas palavras: “O vento da serrania sussurra-me o teu amor, / Tão simples, / Tão leve, / Como este fluído que me corre nas veias.”

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Sara Duarte Brandão



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Sara Duarte Brandão
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
04 Nov 2025 | ter | 17:00

As Tertúlias Literárias “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para a sua 26.ª sessão. À semelhança das anteriores iniciativas, o momento foi de comunhão e partilha à volta dos livros, abrindo a possibilidade de ampliar o processo de reabilitação dos doentes do Centro, expandindo-o ao universo colorido da literatura, à força das palavras, às viagens feitas de sonho e magia e, ao mesmo tempo, alertando para a importância dos livros nas nossas vidas. Convidada especial de um momento sempre especial, Sara Duarte Brandão trouxe consigo a sua enorme juventude e energia, a paixão pela vida e pela escrita, a promessa de um futuro que se espera melhor para todos. Um futuro feito de empatia, cumplicidade e dádiva. “Quem tem Medo dos Santos da Casa”, romance vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada 2023 e editado no passado mês de Marco com a chancela das Publicações Dom Quixote é o reflexo do espírito determinado e livre da autora, sendo o grande responsável pelo preenchimento do espaço da tertúlia, trazendo consigo as muitas camadas de que se reveste, das esculturas religiosas de Altino Maia às relações intergeracionais, dos valores da liberdade e da justiça à força de ser mulher.

“Um dos deveres do escritor e de quem se move no universo dos livros é levar a literatura a todo o lado”, referiu Sara Duarte Brandão, depois de afirmar a sua enorme emoção e alegria por poder falar da sua obra para um público muito particular e num lugar tão especial. Nascida no Porto, a convidada viveu praticamente toda a sua vida em Vilar do Paraíso, relativamente perto do Centro de Reabilitação do Norte. Designer de comunicação, com mestrado em Literatura, está actualmente a fazer o doutoramento em Ciências da Educação e a trabalhar com crianças e jovens cujos pais se encontram privados de liberdade e institucionalizados em estabelecimentos prisionais. Num contexto global mostra-se uma defensora acérrima da “educação pela arte e do seu impacto na vida de diferentes grupos e de diferentes pessoas”. Apresentando-se aos presentes, Sara Duarte Brandão falou da sua actividade como escritora, mas também como leitora: “Escrevo muito, mas leio muito mais”, disse. “Aprendi a andar de bicicleta aqui em frente, embora já não saiba andar de bicicleta”, lembrou, ao mesmo tempo reafirmando o carinho que tem por toda esta muito bela faixa litoral e que, seguindo para norte, encontra a foz do rio Douro e, na sua margem esquerda, a comunidade da Afurada, com o seu viver entre o rio e o mar, a sua identidade muito vincada, os estendais de roupa comunitários, as festas a S. Pedro e… os “santos da casa”.

Integrar uma equipa de alunos de Mestrado em História da Arte, Património e Cultura Visual da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, na altura a trabalhar na Afurada, foi o despertar para a escrita de “Quem Tem Medo dos Santos da Casa”, um livro que tem na sua génese a obra do escultor Altino Maia (1911-1988) e dos Santos da Afurada, revelados ao mundo aquando da inauguração, em 1955, da Igreja Paroquial de S. Pedro da Afurada. A História fala-nos da apoteótica viagem das imagens até à Afurada, num grandioso cortejo de barcos, mas fala-nos também da sua rejeição por parte da comunidade, ao não reconhecer nelas uma ligação devocional. Apeadas e enclausuradas em armários da sacristia após a saída do Padre Joaquim, o defensor e protector destas esculturas durante quatro décadas, as peças foram resgatadas no âmbito deste trabalho de mestrado e mostradas ao público no Centro Interpretativo do Património da Afurada, em exposição inaugurada no dia 04 de Julho de 2020. “Como é que pessoas tão devotas a um determinado Santo se sentem no direito de humilhar e destruir a sua figura”, foi a questão que mais inquietou a escritora e que a levou a comparar o percurso das imagens ao da mulher, “em especial em Portugal, ao longo do tempo”. Juntar à história dos Santos da Afurada a figura de todas as mulheres, vítimas de discriminação e de isolamento ao longo dos tempos, ergueu-se com a força iniludível das causas maiores. Daí à escrita do romance foi uma questão de (pouco) tempo e (muita) garra.

Em velocidade de cruzeiro, a conversa segue agora na senda dos detalhes. A paixão pela arte têxtil e a ligação destes lavores à figura da mulher levou a que a escritora trouxesse essa imagética para o livro, colocando Maria Teresa, a protagonista, na figura de alguém que tece e se serve da memória para recuperar as imagens dos santos e fazer deles tema dos nove tapetes que se propôs fazer. O próprio nome da protagonista, Maria Teresa, é uma homenagem à coragem, à determinação e ao valor e significado da obra de Maria Teresa Horta. Outrora encerrados no escritório do avô, os livros que povoam a casa de Maria Teresa e que, aos poucos, acabaram por se transformar em territórios de liberdade, são uma memória ligada à importância dos avós na educação e na formação dos netos. A pouca abertura do Estado Novo a novas tendências ou correntes estéticas levou a que o próprio Altina Maia fosse visto como alguém exterior aos princípios e valores culturais do regime e caísse em descrédito, acabando por morrer na miséria. Camada após camada - a mulher, a comunidade, as gerações, os santos, o regime -, o livro vai-se “construindo” na mente dos presentes, graças às palavras de Sara Duarte Brandão: Vivas, ricas, inspiradoras.

“A minha filha é Sara e eu sou Teresa. Estive para não vir hoje, porque não estava muito bem disposta. Estou muito feliz por ter decidido vir. Muito obrigado”. Este testemunho tão cheio de luz abriu a conversa ao público presente, com o diálogo a ampliar-se graças às várias questões colocadas. Os santos de Altino Maia acabaram por se constituir no grande motivo de conversa e fonte, até, de alguma controvérsia. As questões socio-culturais ou o papel da arte enquanto figuração do real estiveram em debate, com o moderador a lembrar que “vivemos tempos muito conturbados e percebemos que as diferenças estão a afastar-nos uns dos outros, a servirem de pretexto a que muros se ergam à nossa volta e nos isolem cada vez mais, ao invés de nos aproximarem, já que é na diferença que encontramos a nossa diversidade e nos afirmamos enquanto comunidade e humanidade”. Se, como diz o povo, “santos da casa não fazem milagres”, este livro é um lançar da semente no coração dos leitores, das quais, diz a convidada, “umas brotam e outras não”. E acrescenta: “Aqui reside o milagre da literatura”. A conversa encerrou com o (hipotético) gesto furtivo de alguém que, munido de um balde de tinta e de um pincel grosso, escreve uma frase numa das paredes da Afurada, na certeza de que resistirá ao vento e ao sal. Esse alguém é Sara Duarte Brandão e a frase é “roubada” a Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.” Um maravilhoso final de uma tarde perfeita.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Benilde Teixeira



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Benilde Teixeira
Participação especial | Sofia Ataíde e Renato Nunes
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Out 2025 | qua | 17:00


Não podia ter sido mais feliz o convite a Benilde Teixeira para assinalar vinte e cinco sessões de Tertúlias Literárias “Conversas às 5”. Promovida pelo Centro de Reabilitação do Norte, a iniciativa permitiu revelar uma personalidade com uma força interior inabalável e uma alegria de viver contagiante, capaz de vencer até as provações mais duras e cuja história de vida serviu de exemplo e inspiração para todos os presentes. Desde muito cedo, Benilde Teixeira foi chamada a enfrentar responsabilidades que muitas crianças desconhecem: ainda mal tinha idade para brincar e já ajudava os pais nos trabalhos agrícolas e nas lides domésticas. Os estudos ficaram pelo caminho, como aconteceu com tantas crianças da sua geração, mas nunca lhe faltou a vontade de aprender nem a coragem de lutar por uma vida melhor. Aos quinze anos, deixou o lar familiar e partiu para o Porto e, mais tarde, para Lisboa, para trabalhar como empregada doméstica. Anos depois, a vida trocou-lhe novamente as voltas, e da forma mais dura possível: uma infeção generalizada levou à amputação de parte dos seus quatro membros. Mas nada disso a derrubou.

Jovial, calça e casaco vermelho, um enorme sorriso estampado no rosto e a resposta na ponta da língua, Benilde Teixeira foi capaz de, ao longo de quase uma hora e meia, falar da sua infância e juventude, do trabalho longe da família, da doença e dos processos de recuperação e superação, de como enfrenta actualmente o dia-a-dia e da questão que faz em lutar permanentemente por si e pelos outros. Moderada por Joaquim Margarido, a conversa teve no livro “Eu Cantava Para os Pássaros” um autêntico guião, revelando a faceta de escritora da convidada. A leitura de alguns textos do livro permitiu abordar separadamente episódios de vida marcantes, a começar por uma infância que Benilde Teixeira classificou como “feliz”, no seio de uma família alargada: “Éramos oito irmãos e todos tinham as suas actividades. Eu tomava conta dos irmãos mais novos, ía buscar água à fonte, acartar lenha para o comer ou levar as vacas e as ovelhas para o monte. Andava sempre por aí”, lembra. E também cantava para os pássaros, com a perfeita noção de qual era “o mês do cuco ou da rola”. Recorda, nessa altura, que o seu maior sonho era “estudar e ter um curso”, mas os pais não a autorizaram a prosseguir os estudos, apesar das excelentes notas e da insistência da professora que assumiria todos os encargos com a sua educação.

Aos quinze anos uma viragem na sua vida levou-a a casa de uma família do Porto, para cuidar de crianças - “os meninos só comiam comigo, eu cantava-lhes, eles começavam a rir-se com a boca aberta e eu aproveitava para enfiar logo uma colherada de papa” - e, mais tarde, para Lisboa, onde se encontrava o irmão a cumprir o serviço militar. Das dificuldades desse tempo e de um regime onde “não se podia falar com estranhos ou apanhar um papel do chão”, contou Benilde Teixeira alguns episódios, nomeadamente o seu destemor no dia 25 de Abril de 1974 quando, à revelia das instruções dos patrões, ousou sair de casa para comprar o necessário para as refeições da família. Mas foi a doença que monopolizou a conversa, a infeção generalizada e os dias em coma, a iminência de ser desligada do ventilador depois da família se ter vindo despedir dela: “Desligar as máquinas? Alto lá que eu ainda não quero ir. Abri os olhos e eram duas menos dez da manhã.” A notícia da necessidade de amputação dos quatro membros foi um choque tremendo, que se estendeu à própria equipa de saúde. A sua reacção, porém, foi surpreendente. Virou-se para os médicos e disse-lhes: “Eu não era para viver, portanto façam o que é preciso. Tirem tudo, mas deixem-me do pescoço para cima para eu poder ver a minha filha.”

Não era para viver, mas sobreviveu à amputação e a uma nova infeção devastadora que também logrou ultrapassar. Tocar à campainha, tomar a medicação, enviar uma mensagem no telemóvel, comer por mão própria, o primeiro duche, o primeiro café (prescrito em diário clínico “até às três da tarde”) ou uma inesquecível francesinha, são momentos que Benilde Teixeira partilha com emoção, cada um deles a calar bem fundo no coração dos presentes. “Temos de lutar, não somos coitadinhos”, avisa, ao mesmo tempo que vai desfiando estratégias e lembrando a condição de tetra-amputada e as dores fantasma sempre presentes. A fisiatra Sofia Ataíde conheceu Benilde Teixeira no Serviço de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital de Santo António e partilha uma particular vivência no dia da chegada da doente ao Serviço, vinda dos Intensivos, muito instável, com as tensões muito baixas e sinais de uma nova infeção. “Fui a correr aos Intensivos e tentei falar com o médico que me disse estar muito ocupado, mas quando referi o nome da Dona Benilde ele fez o impensável: Atravessou o hospital de uma ponta à outra, prescreveu imensa medicação à doente e aí soube o quão especial a Dona Benilde era para todos.”

Renato Nunes, o fisiatra que recebeu Benilde Teixeira no Centro de Reabilitação do Norte quatro meses depois das amputações, também partilhou com os presentes algumas memórias de um processo complexo e desafiante. “Quando recebemos a referenciação da Dona Benilde para internamento no CRN, estávamos à espera de encontrar uma doente com muitas alterações a todos os níveis. Foi surpreendente acolhê-la, porque afinal encontrámos uma doente bem disposta e capaz de fazer uma variedade enorme de coisas, apesar dos condicionalismo físicos”, recorda. A propósito de um internamento que se estendeu por cerca de nove meses, Renato Nunes recorda um processo evolutivo constante, de grande adaptação às estratégias prescritas, mas também “o fim de semana em que a Dona Benilde, com a sua cadeira eléctrica, conduziu um comboio de doentes em cadeira de rodas pelos corredores do CRN”, assim como “as mudanças de quarto para, com a sua atitude, nos ajudar a lidar com doentes mais fragilizados”. Uma memória que mereceu de Benilde Teixeira um curioso comentário: “Quando puseram uma doente no meu quarto e, na visita médica, lhe perguntaram se estava melhor, ela disse que estava 50% melhor: Mas é à Dona Benilde que eu devo os 50% por cento, não é aos médicos.”

Como as cerejas, as histórias continuaram a fluir, trazendo consigo o exemplo de uma personalidade ímpar, inspiradora, motivadora, com a qual todos temos muito a aprender. Às mensagens de incentivo, juntam-se também as de gratidão: “Agradeço aos médicos, aos enfermeiros, a todos os profissionais de saúde, mas sobretudo a Deus e aos anjos que estiveram sempre ao meu lado”, disse. Hoje continua a ser a mesma mulher determinada, mantendo no rosto um belo sorriso e na sua maneira de estar uma capacidade de resiliência que comove e inspira. Tal como fazia em criança, continua a “cantar para os pássaros” e a enfrentar cada dia com uma coragem que é exemplo para todos nós. “Revi-me em muitas coisas que ela disse”, partilhava um doente no final da tertúlia, visivelmente emocionado com este momento de aprendizagem sobre o que verdadeiramente importa na vida. Outro dos presentes lembrava um projecto de voluntariado que teima em assumir e que o testemunho de Benilde Teixeira terá ajudado a desbloquear. Tertúlias assim são preciosas e só temos de estar gratos a quem, de forma simples e perfeitamente benévola, se mostra capaz de as proporcionar. Obrigado Dona Benilde.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Vítor Pinto Basto



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Vítor Pinto Basto
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
23 Set 2025 | ter | 17:00


Após um período de merecidas férias, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para uma hora de boa conversa à roda dos livros. Vítor Pinto Basto foi o convidado da 24.ª sessão de uma série de tertúlias literárias que tiveram o seu início em Abril de 2021 e, a propósito de duas das suas obras - “O Rapaz que Queria Aprender a Olhar” e “A Arte de Ser Boa Pessoa” - teceu um conjunto de reflexões que cruzaram os temas fortes da memória e da liberdade. “Nunca pensei em vir a apresentar os meus livros num lugar fantástico como este”, começou por afirmar o autor, perante uma plateia numerosa e ávida de escutar as palavras de quem diz que “aprender a olhar é também aprender a questionar”. Dirigindo-se ao público, referiu estarmos num sítio “onde não falta quem nos cubra com o manto da ciência e da ternura”, abrindo espaço àquilo que designou por “boas pessoas”, aquelas que fazem “do cuidado, da ternura e da empatia uma forma de resistência e de preservação da dignidade”. Reforçando a ideia de que “um ser humano nunca deve abandonar a sua humanidade”, Vítor Pinto Basto lembrou que “todos temos dentro de nós esse fermento fabuloso de criar meios para podermos ser felizes numa vida que nos foi dada”, nesse labor residindo “a arte de ser boa pessoa”.

Olhando à nossa volta um mundo que se desmorona a cada dia que passa, que despreza o colectivo em nome do individual, que separa em vez de unir, que cerra fileiras contra os princípios e valores de Abril, Vítor Pinto Basto apontou o dedo “àqueles que destilam ódio”, afirmando que têm um problema: “Têm pela frente as boas pessoas, aquelas que estão aqui para enfrentar as más pessoas. Sem armas, sem ódio, apenas com ternura.” Para o convidado, “todo o ser humano tem direito a ser feliz e nós temos o direito de não deixar que nos destruam esse direito”. Olhando nos olhos os presentes, deixou um repto: “Não apoiem quem destila o ódio e a desumanização nos seus discursos políticos. Apoiem e apoiem-se em quem dignifica a vida.” Entrando no pequeno-grande mundo da escrita, Vítor Pinto Basto concordou com a ideia transmitida pelo moderador de que “o olhar, nos seus livros, mais do que um sentido é uma responsabilidade” e aproveitou para falar do papel da literatura em ensinar a olhar o mundo, usando o jornalismo como contraponto. A este propósito, referiu que “as notícias caminham não no sentido de um mundo melhor, mas no de nos atirar uns contra os outros. Ao invés, o escritor não tem de se submeter a uma linha editorial”, vincando a ideia de liberdade associada à literatura e que existe cada vez menos no jornalismo.

Conhecido e reconhecido pela correcção da sua postura ética e deontológica, Vítor Pinto Basto é um bom exemplo do escritor que busca, através da literatura, reforçar o que de bom existe em cada um de nós. “Preocupo-me em contar histórias que têm uma base real, histórias que possam tocar as pessoas, na medida em que se revêem nos factos e nas personagens”, diz. Mas adverte que “A Arte de Ser Boa Pessoa” é um livro incómodo: “Não vale a pena a literatura se não for para inquietar, para apoquentar”. Implícita em ambos os livros, a memória foi um tema forte da conversa, com o escritor a denunciar os movimentos fascistas e aquilo que diz ser “uma tentativa de apagar a memória colectiva”. “O Rapaz Que Queria Aprender a Olhar” surge como um meio de lembrar o que de bom se fez em democracia: “Quando se diz que nestes cinquenta anos só houve corrupção, essa é das mentiras mais torpes e imundas que podem existir (…). No tempo da ditadura a corrupção era muito pior, só que era silenciada”. Ser boa pessoa volta a surgir no debate como imperativo moral, uma escolha individual que se repercute no colectivo. Instado a deixar uma mensagem simples mas duradoura no espírito dos presentes, Vítor Pinto Basto encerrou a sessão com um significativo: “Não desistam!”

segunda-feira, 30 de junho de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Agostinho Santos



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
Com | Agostinho Santos
Participação especial | Manuel Sobrinho Simões
Centro de Reabilitação do Norte
26 Jun 2025 | qui | 17:00


“ (…) Germinam escolhas intrincadas:
grito vermelho de lâmina erguida
no preto e branco
- tela de protesto ou prenúncio de terramoto:
vozes de ruas desertas,
águas que cavalgam naufrágios de vidas
em simbioses (com)sentidas.”
Ilda Figueiredo, in “Nas Asas do Pássaro de Fogo”

As Tertúlias Literárias “Conversas às 5” voltaram a abrir-se em novidade e espanto aos muitos amantes das artes e das letras que marcaram presença no Centro de Reabilitação do Norte, para assistir à última sessão antes da pausa estival. Pela primeira vez na história do evento, o convite foi endereçado a um artista plástico e o livro à volta do qual a conversa se desenrolou foi um magnífico álbum, repleto de intrigantes e muito belos trabalhos artísticos, quase despido de palavras, mas com muito para dizer. Jornalista, artista plástico, investigador, curador independente e director da Bienal Internacional de Arte de Gaia, Agostinho Santos foi o convidado da sessão, a qual contou também com a participação especial de Manuel Sobrinho Simões, renomado patologista, Professor Emérito da Universidade do Porto e fundador do IPATIMUP, um dos três laboratórios europeus acreditados pelo Colégio Americano de Patologistas. “O Estranho Terrível Outro”, editado pela Officium Lectionis (2025), foi o livro em cima da mesa, girando a conversa em torno do trabalho de Agostinho Santos e da forma como, através do desenho, da pintura ou da colagem, o artista interpreta, de forma única, a variedade de rostos de pessoas com cancro.

“A arte é uma arma para denunciar e alertar para os males do mundo, e também para reflectir e convidar a reflectir sobre todas as questões que nos incomodam”, começou por dizer Agostinho Santos, artista que não dispensa de elevar a voz que a arte lhe confere para denunciar “a guerra, as desigualdades sociais, as injustiças, a corrupção, os problemas ambientais, a discriminação entre o homem e a mulher, a violência”. Veio isto a propósito de “O Estranho Terrível Outro”, um livro que aborda a questão do cancro na óptica do pintor, assunto que, confessa, “me mete medo, me faz pensar”. Um livro que, antes de o ser, foi uma série de pinturas sobre o cancro na tentativa de o personalizar, de partir em busca da sua imagem. Neste caminho de descoberta, Agostinho Santos sentiu, a partir de dada altura, a necessidade de aprofundar o tema, recorrendo para tal ao Professor Manuel Sobrinho Simões que o foi “municiando” com “fotografias de cancros, desde peças macroscópicas e imagens de microscopia óptica, até paisagens lunares de microscopia electrónica”. O resultado salda-se, nas palavras do patologista, por “uma incursão feliz na tentativa de aproximar a estranheza da diferença”.

Folheando o livro, salta à vista do leitor a diversidade de abordagens àquilo que de comum há num tema tão vasto. Incontornáveis, a rica iconografia - imagens que se entrecruzam e metamorfoseiam numa estranha simbiose, figurações de animais e plantas, símbolos do sagrado e do profano - e as séries sequenciais marcadas por uma cor predominante, foram temas de conversa, com Manuel Sobrinho Simões a falar da cor como “algo que tem um preço”, dando como exemplo o polvo e a evolução natural que lhe permite confundir-se com o seu meio natural e escapar aos predadores. “O artista faz o contrário, a coisa pior para o artista é passar despercebido”, acrescenta. Visto por Agostinho Santos como um assunto “negro, doloroso, que me mete medo”, o cancro representado na sua pintura - além de constituir uma tentativa de exorcizar fantasmas e demónios -, tem muita cor. “Um dos principais responsáveis por eu utilizar muito a cor foi o Professor Sobrinho Simões que me fez chegar trabalhos de estudo e de investigação com muita cor. Portanto, eu tentei que os rostos de pessoas com cancro - e neste livro só há rostos - incorporassem os medos, as inquietações, o que as pessoas sentem, dando cor àquilo que nos mete medo, não reduzir o problema ao preto e branco.”

“Não há nada tão parecido connosco como os nossos cancros. Se eu tiver um gémeo, sou mais parecido com o meu cancro do que com o meu gémeo”. A estranheza da frase teve o condão de adensar ainda mais o silêncio na sala, com o público extraordinariamente atento àquilo que Sobrinho Simões tinha para dizer. Sem perder o foco numa particular representação pictórica do cancro, o patologista falou da carga genética comum ao ser humano e ao arroz, ao bróculo ou à banana, por exemplo - “quando estamos a comer uma banana, estamos a comer um primo afastado, o que é uma chatice”, ironizou. Lembrando que todos nós “já fomos um ovo”, Sobrinho Simões destacou a forma como o artista mostra os diferentes rostos de pessoas com cancro, diferentes representações “não só da biologia, como da relação com os outros, o medo, as expressões mais elaboradas do ser humano”. E acrescenta que “não é a arte e a ciência que nos caracterizam, antes a educação, a formação, a relação com os outros, o sermos decentes. Quando temos um cancro, perdemos estas carapaças, temos cagaço”, algo que o artista consegue captar muito bem, estabelecendo diferenças no que é semelhante.

A cor e as questões de ordem prática ou as tendências a ela ligadas, a forma como é percepcionada ou exprime estados de espírito, abriu espaço às questões do público, enriquecendo o momento com apontamentos de grande pertinência. O luto em diferentes culturas, os sonhos a cores ou a preto e branco, o daltonismo e aquilo que é inato ou adquirido, as influências da moda, as viagens e os livros, foram assuntos sobre a mesa a suscitar um intenso momento de troca de opiniões e partilha de experiências e conhecimento. “Não seria o pintor que sou, se não fosse o jornalista que fui”, disse Agostinho Santos, acrescentando que se não fosse jornalista e pintor gostaria de ser “jornalista e pintor”, para logo emendar e falar no gosto imenso que teria em ser cientista (com provas dadas em miúdo, quando quase fazia ir pelos ares a cave lá de casa). Os derradeiros momentos ouviram Agostinho Santos e Manuel Sobrinho Simões falar dos muitos “estranhos terríveis outros” que minam as nossas sociedades, mas também deste “exercício de comunidade” que são as tertúlias, do valor dos momentos em que abandonamos o “eu” e nos voltamos para o “nós”. Agostinho Santos irá regressar ao Centro de Reabilitação do Norte para mostrar os trabalhos resultantes da passagem da esposa, Ilda Figueiredo, por este espaço. Será em Agosto e estão todos convidados a visitar a exposição.