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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: DANÇA, TERTÚLIAS, LUGARES, OUTROS



10. Livros de Artista
Vários artistas
6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025
Quinta da Fiação de Lever
05 Abr > 12 Jul 2025

“ (…) Agostinho Santos, Nazaré Álvares, Celeste Ferreira ou Valter Hugo Mãe apresentam ao olhar do visitante um conjunto alargado de trabalhos em que cada página, quando analisada separadamente, assim como o acto repetido de “folhear” o livro, se combinam para transmitir uma sensação de continuidade e oferecer um conjunto de leituras, com tanto de sofisticado quanto de inesperado. Livros produzidos manualmente ou nos quais o artista teve uma intervenção directa na sua impressão, livros com múltiplos ou cópias únicas, livros com desenhos, pinturas, colagens ou têxteis, livros que se lêem da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, de cima para baixo ou de baixo para cima, as propostas são numerosas e qual delas a mais sedutora.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/exposicao-livros-de-artista.html



9. FESTA - Sons da Lusofonia (II)
Com | CRUA, Juliana Linhares, Fogo Fogo e Mário Lúcio
Parque Urbano de Ovar
12 Jul 2025 | sab | 16:00 às 00:00

“ (…) Primeira banda a repetir a presença no FESTA (depois de uma participação memorável em 2022), os Fogo Fogo puseram a carne toda no assador, mostrando o porquê de serem lídimos representantes do funaná, mas não só. Cultores da lusorritmía, na sua música confluem o samba e o semba, a morna e a marrabenta, o carimbó e o fado. Mas, ainda que o ritmo seja o pai de tudo, a palavra traduz o ritmo e daí que a música dos Fogo Fogo, sendo para dançar, seja igualmente para cantar. E foi isso que pudemos apreciar ao final da tarde de sábado, num concerto que encerrou um conjunto de momentos inesquecíveis. Voltar ao baile, voltar à pista, ser ponto de encontro de corpos que se dão em gesto e partilha, foi esta a proposta da banda à qual o público aderiu de forma incondicional.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/certame-festa-sons-da-lusofonia-ii.html



8. Conversas às 5
Com | Benilde Teixeira
Participação especial | Sofia Ataíde e Renato Nunes
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Out 2025 | qua | 17:00

“ (…) A propósito de um internamento que se estendeu por cerca de nove meses, Renato Nunes recorda um processo evolutivo constante, de grande adaptação às estratégias prescritas, mas também “o fim de semana em que a Dona Benilde, com a sua cadeira eléctrica, conduziu um comboio de doentes em cadeira de rodas pelos corredores do CRN”, assim como “as mudanças de quarto para, com a sua atitude, nos ajudar a lidar com doentes mais fragilizados”. Uma memória que mereceu de Benilde Teixeira um curioso comentário: “Quando puseram uma doente no meu quarto e, na visita médica, lhe perguntaram se estava melhor, ela disse que estava 50% melhor: Mas é à Dona Benilde que eu devo os 50% por cento, não é aos médicos”.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/tertulias-literarias-conversas-as-5.html



7. Shortcutz Ovar Sessão #97
Festa dos Premiados 2024
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
18 Jul 2025 | sex | 21:30

“ (…) Numa noite sempre especial, de expectativas em alta, emoções ao rubro, muita festa e animação, a bonita Sala Expande foi pequena para acolher as duas centenas de espectadores que fizeram questão de marcar presença, repetindo aquilo que já vem sendo um hábito para um número crescente de “ferrinhos” da última quinta-feira do mês, elevados da categoria de visitantes ocasionais à de cinéfilos atentos e conhecedores, amantes do bom Cinema que se faz em Portugal na sempre desafiante versão curta. Foram eles que, guiados por Tiago Alves, incomparável mestre de cerimónias, recordaram a oitava temporada, vibraram com as escolhas do júri e do público, escutaram as reacções dos premiados e tiveram a oportunidade de ver ou rever alguns dos filmes da sua predilecção.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/cinema-shortcutz-ovar-sessao-97-festa.html



6. Ovar Expande ‘25 (II)
Com Bia Maria + Coro da Comunidade, Ela Li e Afonso Cabral
Escola de Artes e Ofícios
17 Out 2025 | sex | 21:30

“ (…) A apresentar em Ovar “Qualquer Um Pode Cantar”, o seu mais recente álbum, Bia Maria foi capaz de unir a beleza da voz à força da comunhão colectiva num projecto que é um verdadeiro sopro de frescura no panorama da música portuguesa contemporânea. Enraizadas no cancioneiro popular, com um “cheirinho” de fado e de bossa nova, as suas melodias fazem da voz — da dela e de todos — instrumento primordial e elo de partilha. Com Alberto Hernandez na guitarra e Samuel Louro na bateria, a artista vestiu de cumplicidade e inclusão temas como “Roupa Velha”, “O Corpo”, “Aconchegos de um Sujeito”, “Marcha da Paridade” ou “Qualquer Um Pode Cantar”, juntando em palco um coro de dez pessoas de diferentes gerações e transformando o concerto num acto de encontro com o outro e consigo própria.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concertos-conversas-ovar-expande-25-ii.html



5. Conversas à Volta do Tanque
Com Manuela Grazina
Moderação | Joaquim Margarido
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
18 Jan 2025 | sab | 16:00

“ (…) “Que importância têm as memórias na construção da felicidade?” O moderador pergunta e a interlocutora, num primeiro momento, pega na questão e dirige-a ao público. À volta do tanque, é tempo de falar de filhós e café de cafeteira, carroceis cor de rosa e cheios de luzes, um cheiro a queijo picante, uma cadeirinha, um sapatinho de verniz e um guarda chuva, um dedo que rapa o tacho com restos de massa de bolo de coco, as histórias de “faz de conta” do avô Hélio. As mesmas histórias de “faz de conta” que hoje nos ajudam a não colapsarmos, “quando os familiares adoecem, avaria o frigorífico e a máquina de lavar, rebenta a caldeira, pára o carro no meio da ponte”, e que dão um contributo fundamental para a criação da esperança.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/tertulia-conversas-volta-do-tanque.html



4. Grupo de Percussão da Escola Profissional de Música de Espinho
Com | António Ferreira, Alexandre Barbosa, Gaspar Costa, Miguel Coelho, Hugo Oliveira, Tomás Marques, Pedro Leal e Catarina Gouveia
ReabilitaSons 2025
Centro de Reabilitação do Norte
10 Abr 2025 | qui | 21:30

“ (…) Perante uma assistência constituída na sua grande maioria por pessoas internadas no Centro de Reabilitação do Norte, os oito elementos do Grupo de Percussão da EPME articularam entre si a interpretação de um programa fortemente inspirado no folclore tradicional de um conjunto alargado de geografias, oferecendo ao público uma proposta de viagem pelos quatro cantos do mundo. Combinando a sua inegável qualidade interpretativa com uma forte presença em palco, perfeito na construção dos temas como nas coreografias que os vários elementos souberam desenvolver, o Grupo surpreendeu pela dedicação, entrega e emoção que soube espalhar entre a assistência, fazendo deste um momento verdadeiramente reabilitador para todos.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/concerto-grupo-de-percussao-da-escola.html



3. Submerso Imerso
Vanessa Barragão
Curadoria | Ben Austin
Casa da Cultura de Ílhavo
08 Fev > 11 Abr 2025

“ (…) É tempo de nos aventuremos pelos meandros de um microcosmos aquático encantado, distante do caos e da confusão globais, um lugar que convida à reflexão e à calma. Podemos apreciar cada peça na sua dimensão individual, mas podemos também integrá-las numa instalação maior, de forma a estabelecerem entre si uma relação espacial e uma inter-conectividade que encontram eco no imaginário e memórias de cada um. Cada uma das peças contempla um manancial inesgotável de “informação”, quer pela técnica metódica de produção ou pela exigência dos materiais, quer pelo esplendor das formas ou pela extraordinária combinação de cores.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/exposicao-submerso-imerso-vanessa.html



2. Divinas Perlinas
Musurgia Ensemble & Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Com | João Francisco Távora (flauta de bisel e direção artística), Pedro Martins (guitarra barroca), Helder Sousa (cravo e direção artística)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela de Santo António
23 Mar 2025 | dom | 16:00

“ (…) A viagem entre as duas margens do Atlântico fez-se, desta vez, ao sabor da língua: De um lado o português, o castelhano e o biscayno; do outro o mestiço, o índio e o Nahuatl (idioma asteca à época da conquista espanhola e falado ainda hoje por cerca de um milhão e meio de pessoas na região central do México). Com a parte instrumental a cargo de João Francisco Távora, Hélder Sousa e Pedro Martins, o concerto teve no coro o seu elemento de maior relevância, ficando demonstrado o poder alquímico de Jorge Luís Castro em juntar vozes e fazer magia. A ele se deveu a confiança e disponibilidade evidenciada pelos coralistas em “Negrinho tiray vos”, “As divinas perlinas” e “Mi niño dulce y sagrado”, peças de enorme riqueza melódica e rítmica e de uma harmonia sublime que tanto encantaram o público.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/concerto-as-divinas-perlinhas-musurgia.html



1. F*cking Future
Direcção artística e coreografia | Marco da Silva Ferreira
Interpretação | Catarina Casqueiro, Eríc Amorim dos Santos, Fábio Kraye, Doisy Bryan, Marco da Silva Ferreira, Matias Rocha Moura, Max Makowski, Nala Revlon
Teatro Rivoli - Caixa de Palco
05 Dez 2025 | sex | 19:30

“ (…) Quando os bailarinos invadem a plateia e avançam por entre os espectadores, o gesto é tudo menos intimidatório: É convite. Há algo de fantasmagórico, quase cerimonial, nesse movimento que aproxima intérpretes e público ao ponto de dissolver fronteiras. E é nesse instante que “F*cking Future” atinge o seu coração político — não o da militância como confronto, mas o da militância como desejo, como vontade partilhada. O espetáculo propõe um futuro que se escreve no agora, na aceleração dos corpos que recusam a apatia e afirmam o direito ao sonho, mesmo quando o mundo insiste em endurecer.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/danca-fucking-future-marco-da-silva.html

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Gabinete de Curiosidades / Museu de Causas - Coleções Agostinho Santos”



EXPOSIÇÃO: “Gabinete de Curiosidades”
Museu de Causas - Coleções Agostinho Santos
Casa Comum - Universidade do Porto
12 Jul > 06 Set 2025


Quando entrou para a área do jornalismo, Agostinho Santos achava que ia conseguir mudar o mundo com as suas reportagens. Não mudou o mundo, apesar da sua enorme dedicação à profissão ao longo de mais de três décadas, mas terá mudado o dia a dia de muita gente. Este ideal de solidariedade, cumplicidade e empatia está na base do Museu de Causas, tema da tese “Paleta Contemporânea - Museu de Causas”, apresentada em 2015 no âmbito do doutoramento em Museologia que frequentou na Faculdade de Letras e Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. O projecto viria a traduzir-se num livro e teve uma primeira exposição no Espaço Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, inaugurada a 25 de Abril de 2018. Assente em duas colecções especiais - a obra do pintor sobre intervenção social e o conjunto de obras que tem de outros artistas -, o espólio do Museu de Causas conta com 2.500 trabalhos de mais de 500 artistas que sustentam, no seu conjunto, uma narrativa visual e sensível, construída por uma comunidade artística multifacetada e profundamente comprometida com uma leitura crítica do presente e com a imaginação do devir.

“Gabinete de Curiosidades / Museu de Causas – Coleções Agostinho Santos” chega agora às Galerias da Casa Comum (edifício da Reitoria da Universidade do Porto), reunindo cerca de duzentas obras, algumas delas inéditas, de setenta artistas. Graça Morais, Nadir Afonso, Zulmiro de Carvalho, Valter Hugo Mãe, Baltazar Torres e Isabel Lhano são apenas alguns dos artistas que se fazem representar nesta mostra com obras inéditas. É possível ainda ver trabalhos de Álvaro Siza Vieira, Fernando Lanhas, Ângelo de Sousa, Júlio Pomar, António Carneiro, Fernando Távora, Armanda Passos, Francisco Laranjo, Júlio Dolbeth, entre tantos outros, numa mostra que tem a particularidade de ser composta na íntegra por trabalhos de alunos ou antigos alunos, docentes ou ex-docentes da Universidade do Porto. Ao reunir desenhos, pinturas, documentos e livros de artista (alguns deles verdadeiras raridades) e promovendo a convivência de diferentes disciplinas, estéticas e gerações, a exposição valoriza o diálogo entre mestres e discípulos e é também uma forma de mostrar como o legado artístico se transmite e se reinventa dentro e a partir da comunidade da Universidade do Porto.

Pinturas, desenhos, esculturas, maquetes, livros de artista, correspondência, fotografias. São muitas e diversificadas as armas de arremesso que, em forma de arte, se insurgem contra os problemas que afectam o nosso mundo. As injustiças, as guerras, a fome, o alastrar das doenças, as desigualdades, o desemprego, a degradação dos direitos dos trabalhadores, a corrupção, a discriminação de género, o racismo, a xenofobia, os problemas ambientais e a crise climática, entre outros, são temas inscritos num programa expositivo que tem por objectivo agitar as consciências das pessoas e pôr a sociedade a olhar a arte como uma poderosa arma de inquietação e reflexão e não como mero elemento decorativo. “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”, é um verso de Sophia, mas que se adequa na perfeição ao lado errado do mundo que todos os dias se afirma pelas notícias na rádio ou nos jornais. A arte contemporânea é uma cidade sem muros nem ameias e, por isso, projectos independentes como o Museu de Causas ou a exposição “Gabinete de Curiosidades” são tão importantes. São eles que fomentam a revolta contra a crueldade do mundo e ajudam a espalhar a mensagem de paz e liberdade de que tanto carecemos.

domingo, 11 de maio de 2025

EXPOSIÇÃO: "Livros de Artista"



EXPOSIÇÃO: “Livros de Artista”
Vários artistas
6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025
Quinta da Fiação de Lever
05 Abr > 12 Jul 2025


“Os livros de artista são obras de arte sob a forma de livro”. Será esta, porventura, a forma mais simples de definir um objecto artístico multifacetado, original na sua apresentação, admirável na capacidade de desenvolver as mais variadas narrativas. No essencial, um livro de artista é, em si mesmo, a obra de arte, sendo utilizado pelo artista para expressar as suas ideias, expandir projectos pessoais, documentar e embelezar trabalhos anteriores, experimentar materiais e, mais importante ainda, distribuir os seus trabalhos a um público mais vasto. Alguns livros de artista podem conter pop-outs, terem materiais não convencionais como suporte e integrarem texto ou não. Podem ser tão variados quanto os artistas que os criaram e distinguem-se de um livro “comum” pelo facto de se afastarem do mundo editorial formal, já que são frequentemente auto-publicados e financiados, impressos à mão, pintados e desenhados, vivendo de edições limitadas.

Vem esta introdução a propósito de “Livros de Artista”, fascinante mostra no âmbito da 6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025, patente ao público na Quinta da Fiação de Lever. Agostinho Santos, Agustin Bastón, Belmiro Belém, Carmo Diogo, Celeste Ferreira, Constança Lucas, Evelina Oliveira, Felicia, Miguel de Carvalho, Nazaré Álvares, Raul Valverde, Rui Costa, Rui da Graça e Valter Hugo Mãe apresentam ao olhar do visitante um conjunto alargado de trabalhos em que cada página, quando analisada separadamente, assim como o acto repetido de “folhear” o livro, se combinam para transmitir uma sensação de continuidade e oferecer um conjunto de leituras, com tanto de sofisticado quanto de inesperado. Livros produzidos manualmente ou nos quais o artista teve uma intervenção directa na sua impressão, livros com múltiplos ou cópias únicas, livros com desenhos, pinturas, colagens ou têxteis, livros que se lêem da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, de cima para baixo ou de baixo para cima, as propostas são numerosas e qual delas a mais sedutora.

Um dos aspectos que prende mais o olhar do visitante e o obriga a ver no livro de artista uma obra de arte absoluta relaciona-se com a “assinatura” do artista, o traço que lhe é característico, que o individualiza e o torna único. Reconhecer um autor num livro de artista, tal como o reconheceríamos numa pintura ou num desenho expostos numa parede, passa por ser um desafio, um dos exercícios mais interessantes que se oferecem ao visitante, feliz por reconhecer autores admiráveis e poder identificar-se com as histórias fabulosas que a sua obra transmite, embora num suporte diferente daquele a que está habituado. Estão neste caso os laranjas vibrantes ou o pequeno anjo que anunciam Celeste Ferreira, as bonecas de olhos enormes de Evelina Oliveira, as figuras que brotam umas das outras de Agostinho Santos ou as inconfundíveis máscaras de Nazaré Álvares. Uma exposição que vale tanto pela possibilidade de apreciar as obras individualmente, quanto pelo conjunto, graças à sua extraordinária qualidade e variedade. Por si só, justifica plenamente a deslocação a Lever.

terça-feira, 22 de abril de 2025

CERTAME: 6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025



EXPOSIÇÃO: 6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025
Vários artistas
Quinta da Fiação de Lever
05 Abr > 12 Jul 2025


“A Bienal é uma escada. Em cada edição subimos mais um degrau.” Quando se cumprem dez anos sobre a primeira edição da Bienal Internacional de Arte de Gaia e quarenta anos da Cooperativa Cultural de Gaia, abrem-se as portas para uma sexta edição que é o reafirmar da certeza que “a arte de causas corresponde a um exercício de criação e de liberdade”. Pelas causas que defende, enorme diversidade e qualidade artística, a Bienal é sempre um momento dos mais relevantes em termos de oferta no nosso país e um dos mais aguardados pelos apreciadores das mais variadas manifestações artísticas. De regresso à Quinta da Fiação de Lever, espaço que vem ocupando desde 2019, esta edição da Bienal traz com ela um conjunto de propostas absolutamente irrecusáveis. Distribuídas por três imensos pavilhões, as mais de meia centena de exposições permitem apreciar cerca de 1500 obras de 350 artistas, estendendo o seu âmbito à pintura e ao desenho, escultura e arte textil, cartoonismo e fotografia, instalação e livros de artista.

No primeiro pavilhão, o destaque vai para os trabalhos de perto de uma centena de artistas que integram o Concurso Internacional, com propostas que reflectem, em muitos casos, as preocupações dos criadores com o meio ambiente, a instabilidade económica e social e os conflitos armados. Duas outras exposições da maior relevância são “A Comemoração dos 50 anos de Abril de 1974 vai às Escolas”, colectiva que reúne os trabalhos de vários alunos de escolas do Grande Porto, e “Um Hino à Liberdade”, exposição colectiva de quarenta cartoonistas de vários países no âmbito do Porto Cartoon – World Festival. Em matéria de exposições individuais, são imperdíveis as mostras “Inteligência”, na qual o artista plástico Emerenciano olha os efeitos da Revolução dos Cravos na nossa sociedade, e “Perfis no Horizonte da Humanidade”, um olhar sobre figuras marcantes da história recente, de Miriam Makeba a Desmond Tutu, de Nelson Mandela a Amilcar Cabral. É também possível ver “Contra a Superfície”, de Domingos Loureiro, e uma belíssima instalação, “Marcas de Liberdade”, iniciativa da Liga para a Inclusão Social e que reúne trabalhos de utentes de um conjunto de instituições de apoio social, como os Albergues Nocturnos do Porto ou a Unidade de Deficiência de Alfena.

No segundo pavilhão, espaço onde está instalada a Recepção e onde decorrem as muitas tertúlias que integram o programa da Bienal, o destaque vai, naturalmente, para o artista homenageado Lagoa Henriques (27/12/1923 - 21/02/2009) e para uma parte do seu extraordinário espólio, onde se incluem os desenhos que foi possível resgatar de um atelier destruído por um violento incêndio no início da década de 1970, e um conjunto de moldes que serviram de base a algumas das mais icónicas esculturas em espaço público do nosso país. Outro dos momentos altos da programação da Bienal é a mostra de livros de artista, com onze exposições individuais e uma coletiva, reunindo nomes como os de Celeste Ferreira, Evelina Oliveira, Agostinho Santos, Miguel de Carvalho, Valter Hugo Mãe, Rui da Graça, Carmo Diogo ou Nazaré Álvares. “Bandeiras pela Paz”, com curadoria de Ilda Figueiredo, é outra mostra preciosa neste pavilhão, com trabalhos de Rafi Die Erst, Maria Rosas, Nazaré Álvares, Agostinho Santos ou Rosa Bela Cruz. “Revisitações”, exposição individual de Jaime Silva, completa a oferta deste espaço.

Contíguo ao espaço anterior, na planta alta, o último pavilhão da Bienal tem para oferecer dez exposições individuais e uma colectiva, para além do habitual “Espaço Viarco”, onde os visitantes podem dar largas à sua veia criativa. Com curadoria de Agostinho Santos, a exposição dedicada aos artistas convidados concita o grosso das atenções, não só pela sua dimensão como pela oferta que cruza artistas consagrados e emergentes, num misto cativante e de enorme sofisticação. É lá que encontramos Elizabeth Leite e Paulo Neves, Ricardo Campos e Zulmiro de Carvalho, Adias Machado e Albuquerque Mendes, Cabral Pinto e Nadir Afonso. Numa escolha muito pessoal, destacaria nas exposições individuais o trabalho “Activia-40”, de Rui Carvalho, através do qual faz uma aproximação ao Dia da Liberdade com um conjunto de desenhos cujo conceito podemos incluir na chamada Arte Bruta. “Voz da Luz e da Água”, de Alexandre Rola, “Entre-Linhas”, de Rosa Godinho, “Psicodelia”, de Tito Canicoba e “Luminescências Latejantes (Na Sombra Que Ama)”, de Miguel de Carvalho, são outras exposições de enorme qualidade e interesse. Para ver até 12 de Julho.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO: "365" | Carmo Diogo



EXPOSIÇÃO: “365”,
de Carmo Diogo
Museu Escolar Oliveira Lopes
04 Out 2024 > 26 Abr 2025


“ (…) Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas.”
Ruy Belo, in “País possível” (1973)

Há momentos felizes. Estar na sala de exposições temporárias do Museu Escolar Oliveira Lopes, rodeado de tantas obras quantos os dias que o ano tem, pode muito bem ser um desses momentos. Falo de “365”, exposição de Carmo Diogo concentrada em 365 trabalhos sobre papel em tamanho A4, acrescidos de varias outras formas de intervenção artística, da pintura à instalação, dos bordados aos livros de artista. Estabelecendo trajectos pessoais entre passado e presente, a série de trabalhos parte de imagens retiradas de antigos álbuns de fotografia de família e abre caminho a essa tentativa de “perpetuar momentos, cheiros, manifestações de protesto, lugares, situações, identidades dos lugares de outrora”. São, nas palavras da artista, “encenações de afectos ou inquietudes”, conjunto de íntimas reflexões descongeladas no tempo, momentos vividos e respostas emotivas cujo propósito último será o de reter aquilo que a memória acabaria por perder inexorávelmente.

As memórias são um campo de batalha. Vívidas ou desfocadas, leves ou impuras, tornam-se presente sem pedir licença e instalam-se com a certeza de quem possui esse poder único de mudar tempos e vontades. Num passeio à chuva, na doçura de um figo, no cheiro a terra molhada, num poema de Ruy Belo ou numa cantiga do Zeca, surgem num repelão, inescapáveis, prontas a despentear-nos a alma com a força de um ciclone ou, como leve brisa, a envolverem-nos numa carícia. Erguê-las num corpo de trabalho rico de significados e guardá-las na forma de objecto artístico foi rito catártico de quem deixou para trás a “casa mãe e as suas raízes” e, com elas, uma vida em cujo arco temporal cabem o choro e o riso, o sonho e as mais duras realidades. Num trabalho metódico dominado pela colagem, o traço do pincel ou da esferográfica vê-se em desenhos que corporizam a memória, sóbrios, imoderados, inocentes ou cáusticos à vez. O resultado é fascinante, as obras a disputarem entre si a primazia de nos tomarem pelo braço e nos dizerem, num sussurro, que aquelas memórias também são nossas.

Eloquente no delicado exercício de mostrar que a verdade é mais uma opção do que uma obrigação, Carmo Diogo faz do seu resgatar de imagens, corpos e histórias, um exercício contínuo de criação de novas imagens, espécie de ficção baseada no real. Tópicos como os privilégios inerentes ao homem no seio familiar, os códigos baseados na ocultação da violência exercida sobre a mulher, a maldade a pesar sobre aquelas que ousam desafiar a ordem patriarcal ou a exigência de padrões de conduta castradores, são abordados nos trabalhos da artista com intenção e acutilância, acentuando a multiplicidade e complexidade do ser mulher. Mas há também o lado político das questões levantadas neste conjunto de trabalhos, conectando as esferas pessoal e social e traçando um retrato de época onde se revela a natureza sistemática da opressão de grupos inferiorizados que viram apagadas as suas vozes. Este “dar voz a quem não a tem” mostra a intencionalidade da artista e, ao mesmo tempo, a sua inteligência, na forma como desenvolve os seus trabalhos: Aqui uma piscadela de olho a Alberto Caeiro, ali um abraço a Mário Cesariny, mais além um passeio de braço dado com o Senhor Hulot. Há momentos felizes!

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Querer Dizer"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Querer Dizer - 50 Anos entre a Pintura e a Escrita 1973/74 - 2023/24”,
de Emerenciano
Festival Literário de Ovar FLO 2023
Galeria do Centro de Artes de Ovar e Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
13 Set > 02 Dez 2023

“Querer Dizer”, do artista plástico ovarense Emerenciano, é uma das grandes ofertas do cartaz cultural da cidade no último quadrimestre de 2023. Inaugurada no passado dia 13 de Setembro, no âmbito do Festival Literário de Ovar, a mostra distribui-se pelo Centro de Artes de Ovar e pelo Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, percorrendo cinquenta anos de carreira artística de Emerenciano. Entre a pintura e a escrita, a obra do artista tem na expressão figurativa e no simbolismo elementos determinantes, disso dando prova o importante conjunto de pinturas, desenhos, gravuras e livros de artista que compõem esta exposição. Neles é possível perceber o extraordinário significado e alcance de um longo percurso artístico, solidamente fundado em valores estéticos e formais de uma enorme coerência e homogeneidade, mas sobretudo na urgência da mensagem que importa espalhar, nesse “querer dizer” que a todos é dirigido.

Pese embora a racionalidade que a envolve - o desenho fortemente estruturado, a minúcia das composições, a precisão dos elementos, a escrita caligráfica -, a obra de Emerenciano é do domínio dos sentidos. O título dado à exposição tem a força de uma evidência, as letras alinhadas ou desenhadas em diferentes planos, ora claras e nítidas, ora enigmáticas, indecifráveis, surdos borrões de tinta levantados do chão num “querer dizer” que se desfaz em grito. Grito de coragem no traço que rompe a monotonia de um padrão e se ergue em tumulto e desvario. Grito de revolta no corpo-ampulheta que refaz o tempo e desfaz a ordem. Grito de audácia na máscara que se torna em rosto e voz dos que não têm voz. Grito de liberdade, nas mãos como nos corpos, nas histórias que se querem contadas como nas memórias que importa preservar. Coragem, revolta, audácia, liberdade. Será que todos ouvimos esses gritos?

O sentido da metáfora espalha-se na tela ou no papel. Revela-se com clareza o “desafio aberto à compreensão de quem vê e quer perceber”. O visitante aceita o desafio como se de um desígnio se tratasse. Abraça formas e cores, lê nos símbolos e nos signos, descobre o rasto das palavras e vê como despontam, intensas e vivas, marcas de uma vida onde a vigilância e a perseverança seguem de mãos dadas com o inconformismo e a insubmissão. São como linhas que se cruzam sem cessar até formarem uma densa teia que tudo esconde, ou se distanciam cada vez mais à medida que se aproximam do infinito. Falam com todas as letras do pensamento ou apenas se dão a ver numa nesga de lúcida loucura. Coração em desassossego, ei-las que surgem umas após outras: Arquivar, proibir, calar, ficar. Sonhos, histórias, conspiração, prisão. Liberdade de expressão, guerra colonial. Razão de morrer. Querer. Dizer!

sexta-feira, 20 de maio de 2022

EXPOSIÇÃO: "Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago”,
de Agostinho Santos
Curadoria | Valter Hugo Mãe
Casa Comum - Reitoria da Universidade do Porto
21 Abr > 02 Jul 2022


Por volta de 2005, José Saramago visitou Agostinho Santos no seu atelier, em Gaia. Como resultado dessa visita, o artista prometeu reler a obra do escritor para, mais tarde, com outra maturidade, voltar a trabalhar os temas que a ambos tanto tocavam. Afinal, o fascínio do pintor por José Saramago vinha de há longa data, nomeadamente dos tempos de “Palavra / Imagem; desenvolvimentos pictóricos a partir da escrita de José Saramago”, o trabalho de mestrado de Agostinho Santos em Pintura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Relido o “Memorial do Convento", o "Ensaio sobre a Cegueira”, o “Ensaio sobre a Lucidez”, “Caim”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “As Intermitências da Morte”, o trabalho está feito e pronto para ser agora apresentado: “Ver Cegueira Adentro – 100 Anos de José Saramago”. E assim se cumpre também uma promessa.

As palavras serão sempre poucas para dar forma à expressão do meu sentir perante a obra de Agostinho Santos. Entrar num corredor das galerias da Casa Comum e ser envolvido pela miríade de figuras que ondulam à superfície de um imenso azul, delirantes, buliçosas, fantasmagóricas, essência e prolongamento umas das outras, é uma experiência que não se esquece. Pela exuberância e pelo arrebatamento, pela transgressão e pela inquietude. Fortemente ligadas à terra, expressões da arte como prolongamentos da vida - mãos, troncos e rostos como “raízes, hastes e corolas” -, as imagens são enredos de seiva e sangue a borbulhar no nosso mais íntimo. Olhamos para elas e somos aquilo que vemos, os quadros como espelhos da mente, tal como Júlia Ramalho com as suas figuras ou José Saramago com os seus livros.

Entre pintura, escultura, desenho e livros de artista, são mais de cem as obras expostas, quase todas  – com a excepção de oito esculturas – realizadas entre 2019 e 2021 e mostradas agora pela primeira vez. Ainda que distribuídos por materiais e suportes muito diferentes entre si, os trabalhos de Agostinho Santos apresentam uma unidade temática e formal notáveis, consubstanciadas na obra de Saramago, na sua coerência e no seu desejo de liberdade, igualdade e justiça. Também por isto, “Ver Cegueira Adentro - 100 Anos de José Saramago” é um convite à revisitação do Prémio Nobel, à sua redescoberta através de apontamentos subtis, à consciência da cegueira que alastra à nossa volta e faz de nós reféns nesta espécie de “imago mundi” em que vivemos: um mundo de intolerância, de exploração, de crueldade, de indiferença, de cinismo. Para ver e ver e ver.