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terça-feira, 1 de setembro de 2026

LUGARES: MUDE – Museu do Design



LUGARES: MUDE – Museu do Design
Rua Augusta, 24 - Lisboa
Horários | Terça-feira a quinta-feira e domingo, das 10h00 às 19h00; sexta-feira e sábado, das 10h00 às 21h00 (Abril a Setembro). Terça-feira a quinta-feira e domingo, das 10h00 às 18h00; sexta-feira e sábado, das 10h00 às 20h00 (Outubro a Março)
Ingressos | € 15,00 bilhete completo (longa duração + temporárias)


Instalado numa antiga dependência do Banco Nacional Ultramarino, na Baixa lisboeta, o MUDE - Museu do Design, tem vindo a afirmar-se como um dos espaços culturais mais relevantes da cidade na forma de pensar o design enquanto expressão artística, política, social e industrial. Equipamento da Câmara Municipal de Lisboa, o MUDE abriu ao público em 25 de Julho de 2024 e é hoje um lugar incontornável de interrogação permanente sobre os modos de viver contemporâneos, propondo ao visitante uma leitura crítica da cultura material dos séculos XX e XXI. “Para que servem as coisas? Peças do Acervo MUDE 1900-2020”, a actual exposição de longa duração, funciona como espinha dorsal dessa reflexão. Distribuída pelo terceiro piso, a mostra recusa a simples lógica contemplativa dos grandes ícones do design e prefere questionar as razões que moldam os objectos: porque são desenhados, que valores transportam consigo, como circulam, de que forma são consumidos. Do mobiliário ao textil, do design gráfico às peças industriais ou à documentação de arquivo, a mostra estabelece diálogos entre diferentes épocas e linguagens, convocando temas como o consumo, a sustentabilidade, a produção em massa ou a identidade cultural.

Uma proposta de visita poderá ter no terceiro piso o ponto de partida, permitindo contextualizar o acervo permanente e apresentar a singularidade do MUDE enquanto museu vivo e laboratório do pensamento. O percurso privilegia uma leitura transversal das peças, aproximando o design da experiência quotidiana do visitante. Ao invés de uma abordagem exclusivamente cronológica, são as perguntas simples que se impõem - para que servem as coisas?, quem decide o seu valor?, como muda o gosto? -, criando um diálogo aberto entre o visitante e o material expositivo. Ao nível das peças de design de produto e as peças de moda recentemente integradas na exposição, destacam-se nomes incontornáveis da criação internacional e portuguesa, de Issey Miyake a Yves Saint Laurent, de Ana Salazar a Nuno Baltazar. A rotatividade destas peças, essencial para a sua preservação, oferece também uma ideia da dimensão do acervo do museu, hoje composto por milhares de objectos, documentos e colecções especializadas.

Neste contexto, torna-se particularmente relevante apreciar a reserva visitável e o trabalho invisível de conservação, catalogação e investigação que sustenta o funcionamento do Museu. O MUDE deixa assim de ser apenas um espaço de exposição para se afirmar como centro de conhecimento e produção crítica sobre o design em Portugal. O percurso poderá estender-se aos restantes pisos e abarcar as exposições temporárias, através das quais o MUDE reforça a diversidade do seu programa expositivo e o seu compromisso com o debate contemporâneo. Há exposições que cruzam a pedagogia, o design e a experimentação visual, numa reflexão sobre literacia e comunicação. Outras propõem uma leitura política do design gráfico através de décadas de activismo, propaganda e mobilização social, desde o pré-25 de Abril até às actuais causas ambientais e identitárias. Há, ainda, uma intenção deliberada de abrir espaço às novas gerações de criadores portugueses, através da revelação de processos, inquietações e projectos emergentes. A visita deverá terminar justamente nessa ideia de continuidade: o design não como disciplina encerrada no passado, mas como ferramenta activa para interpretar o presente e imaginar futuros possíveis.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

LUGARES: Centro de Memória de Vila do Conde



LUGARES: Centro de Memória de Vila do Conde
Largo de S. Sebastião, Vila do Conde
Horários | De terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00
Ingressos | € 2,00 (bilhete normal)


No coração de Vila do Conde, o Centro de Memória ocupa a histórica Casa de S. Sebastião, um solar brasonado do século XVII que ganhou uma nova vida como espaço de cultura, conhecimento e encontro. A casa deve o seu nome à antiga capela de S. Sebastião, que lhe era fronteira e que foi transferida, em 1853, para o cemitério municipal, na sequência da abertura da Estrada Real, actual Estrada Nacional 13. Uma escritura conservada no Arquivo Municipal comprova que o imóvel mudou de proprietário já em 11 de Abril de 1672. O brasão, colocado em meados do século XVIII, testemunha a presença das famílias Pereira, Rangel, Coutinho e Carneiro. Durante décadas, o edifício esteve ligado à vida da cidade, tendo acolhido a Biblioteca Municipal entre 1979 e 2001. Adquirida pela Câmara Municipal em 2000, a Casa de S. Sebastião foi alvo de uma profunda intervenção de recuperação e ampliação, dando origem ao actual Centro de Memória, inaugurado em 14 de Dezembro de 2008. O projecto de reabilitação, com assinatura do arquitecto Maia Gomes, foi reconhecido com o prémio IRHU e o Prémio Nacional de Arquitectura Alexandre Herculano, além da nomeação para o Prémio Secil.

Mais do que um edifício recuperado, o Centro de Memória é hoje uma estrutura cultural dedicada essencialmente à arte e à história, onde diferentes áreas de investigação, conservação, exposição e divulgação se cruzam para interpretar e preservar a memória de Vila do Conde. O Arquivo Municipal, com documentação que se estende da Idade Média à actualidade, dispõe de espaços de consulta, tratamento e conservação, assegurando a salvaguarda de um património documental fundamental para o conhecimento do território e das suas gentes. A seu lado funciona o Gabinete Municipal de Arqueologia, responsável por projectos de investigação, conservação e divulgação do património arqueológico concelhio, com destaque para trabalhos como os desenvolvidos na Cividade de Bagunte ou no Castro de S. Paio. O Centro acolhe ainda o núcleo central do Museu de Vila do Conde, articulado com os restantes núcleos museológicos municipais, e a Galeria e Centro de Estudos Júlio-Saúl Dias. Exposições temporárias, música, teatro, dança, actividades pedagógicas e iniciativas de investigação completam uma programação que faz deste espaço um lugar de produção e fruição cultural, aberto aos mais diversos públicos.

A exposição permanente “Vila do Conde. Tempo e Território” constitui, por sua vez, uma das principais portas de entrada na história do concelho. Distribuída por dezanove salas, propõe uma viagem por milhares de anos de ocupação humana, acompanhando processos históricos e transformações sociais e culturais que contribuíram para formar a identidade de Vila do Conde. Objectos, documentos e testemunhos materiais ajudam a compreender a relação entre as comunidades e o território, do passado mais remoto à contemporaneidade, numa narrativa que procura aproximar a história dos seus visitantes. Fora das salas de exposição, o Centro de Memória prolonga-se pelos jardins, numa área de cerca de 7 000 metros quadrados que acrescenta ao equipamento uma dimensão de lazer e convivência. A cafetaria, a loja, o Espaço Internet, as áreas destinadas a actividades educativas e o Centro de Pedagogia Ambiental reforçam essa vocação de espaço aberto à comunidade. Entre a preservação da memória e a criação contemporânea, entre o estudo e a fruição, a antiga Casa de S. Sebastião afirma-se, assim, como uma das referências culturais de Vila do Conde: um lugar onde a história não permanece imóvel, mas é continuamente investigada, vivida e sentida.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

LUGARES: Torre de la Calahorra | Córdova



LUGARES: Torre de la Calahorra
Puente Romano s/n, Córdoba
Horários | Diariamente, das 10h00 às 19h00 (Março, Abril, Maio e Outubro), das 10h00 às 18h00 (de Novembro a Fevereiro) e das 10h00 às 14h00 e das 16h30 às 20h30 (de Julho a Setembro)
Ingressos | Bilhete normal € 4,50


“A maior cidade do al-Andalus é Córdova, que não tem equivalente em todo o Magrebe, excepto na Alta Mesopotâmia, na Síria ou no Egito, devido ao número de habitantes, à sua extensão urbana, ao vasto espaço ocupado pelos mercados, à limpeza dos seus espaços, à arquitectura das mesquitas e ao elevado número de banhos públicos e caravançarais.”
Ibn Hawkal, viajante oriental que chegou a Córdova no século X.

Na margem esquerda do Guadalquivir, frente ao perfil monumental de Córdova, a Torre de la Calahorra ergue-se como um dos mais eloquentes testemunhos da história da cidade. O seu nome, de provável origem pré-romana, difundido no al-Andalus sob a forma qalahurra, passou a designar fortalezas isoladas com a função de vigiar pontos estratégicos, e poucas desempenharam essa missão de forma tão decisiva como esta. Durante séculos controlou a entrada da ponte romana, ainda hoje em utilização, constituindo a primeira linha de defesa da capital andalusina. As sucessivas campanhas de obras, desde o período islâmico até às intervenções promovidas por Henrique II de Castela e por Joana I, deixaram marcas bem visíveis na sua arquitectura: o arco de ferradura, as torres laterais, o fosso, a ponte levadiça e as seteiras abertas para as primeiras armas de fogo narram a constante adaptação da fortaleza às exigências da guerra. Depois de perder a sua função militar, conheceu destinos diversos como prisão senhorial, quartel e escola, até ser classificada como Monumento Histórico-Artístico e, posteriormente, restaurada para acolher uma missão muito distinta: preservar e divulgar a memória do al-Andalus, transformando um antigo baluarte defensivo num espaço dedicado ao diálogo entre culturas.

O actual Museu Vivo do al-Andalus faz da Calahorra muito mais do que um monumento histórico. Instalado nas suas três plantas desde 1987, propõe uma viagem pelo período áureo de Córdova entre os séculos IX e XII, quando a cidade rivalizava com Bagdade, Damasco ou Constantinopla em população, riqueza e produção intelectual. Ao longo das suas salas desfilam figuras maiores como Averróis, Maimónides, Ibn Arabi ou Albucasis, cujas obras projectaram o pensamento filosófico, a medicina, a astronomia e a geografia muito para além das fronteiras do mundo islâmico. O visitante descobre igualmente a sofisticação da corte omíada, o esplendor de Medina Azahara, a importância da música introduzida por Ziryab, os avanços científicos de cartógrafos e cirurgiões, a simbologia da água na arquitectura palatina e o papel central da Grande Mesquita na vida religiosa e jurídica da cidade. Mais do que uma sucessão de objectos expostos, o museu oferece um percurso interpretativo onde o legado islâmico é apresentado em permanente diálogo com as tradições judaica e cristã, evidenciando o intenso intercâmbio de saberes que ajudou a moldar a civilização europeia medieval.

A visita culmina, contudo, fora das salas expositivas. Das ameias da Torre de la Calahorra desfruta-se uma das panorâmicas mais memoráveis de Córdova: o Guadalquivir reflecte a silhueta da Ponte Romana, enquanto na margem oposta a Mesquita-Catedral, o antigo Alcácer e o casario branco recordam a extraordinária continuidade histórica da cidade. É precisamente essa localização privilegiada que faz da Calahorra uma porta simbólica de entrada no al-Andalus. Atravessar a velha ponte é, para o viajante, mais do que vencer um curso de água; é percorrer um itinerário onde o passado permanece vivo na paisagem, na arquitectura e na memória colectiva. É um lugar capaz de condensar de forma expressiva as dimensões militar, política, religiosa e cultural da antiga capital omíada, ao mesmo tempo que transmite uma mensagem profundamente actual de convivência entre povos e crenças. Por esse motivo, a Torre da Calahorra não deve ser encarada apenas como um museu ou uma fortaleza, mas como um dos espaços mais emblemáticos de Córdova, capaz de nos ajudar a compreender a identidade plural da cidade e o extraordinário legado do al-Andalus.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

LUGARES: Sinagoga de Cordoba



LUGARES: Sinagoga de Córdoba
Calle Judíos 20, Córdoba
Horários | De terça-feira a domingo, das 09:00 às 15:00
Ingressos | Entrada gratuita


Poucos monumentos conseguem condensar, num espaço tão reduzido, séculos e séculos de história como a Sinagoga de Córdova. Escondida no seio das ruelas caiadas da antiga Judiaria, junto às muralhas da medina islâmica, é um dos mais notáveis testemunhos da presença judaica na Andaluzia e uma das três sinagogas medievais preservadas em Espanha, anteriores à expulsão dos judeus decretada pelos Reis Católicos, em 1492. Erguida em 1315 por iniciativa de Isaac Moheb, filho de Efraim Waddawa, conforme atesta a inscrição fundacional ainda hoje visível, constitui um admirável exemplar da arte mudéjar, onde mestres judeus e artesãos muçulmanos partilharam saberes e sensibilidades estéticas. A singeleza da fachada contrasta com a riqueza decorativa do interior, onde delicadas rendilhadas de gesso, arabescos vegetalistas, estrelas geométricas e inscrições hebraicas extraídas do Livro dos Salmos evocam um período em que Córdova se afirmava como um dos mais importantes centros culturais da Península Ibérica. A pequena escala do edifício em nada diminui a sua importância, antes reforça a ideia de um espaço de recolhimento espiritual, cuja beleza reside precisamente na harmonia entre a sobriedade arquitectónica e a exuberância ornamental.

Mais do que um simples local de culto, a sinagoga desempenhava um papel central na vida da comunidade judaica. Era aqui que se rezava, estudava e interpretava a Torá, sob orientação dos rabinos, transmitindo-se aos mais jovens os ensinamentos religiosos, jurídicos e morais do judaísmo. A disposição do edifício respeita escrupulosamente a tradição hebraica: antes de alcançar a sala de oração, o visitante atravessa um pequeno pátio e um vestíbulo, numa transição simbólica entre a agitação do mundo exterior e o silêncio exigido pelo espaço sagrado. No interior, subsistem o nicho destinado à Arca onde eram guardados os rolos da Torá, bem como a tribuna superior reservada às mulheres, separadas dos homens durante as cerimónias religiosas. A orientação da sala para Jerusalém recorda o vínculo espiritual à cidade santa, enquanto a decoração revela a convivência artística entre as culturas judaica e islâmica, característica da sociedade andalusina medieval. Embora nem sempre isenta de tensões, essa coexistência permitiu um florescimento intelectual e económico sem paralelo, frequentemente designado como a Idade de Ouro do judaísmo espanhol, da qual Córdova permanece como um dos seus símbolos mais eloquentes.

O destino da Sinagoga de Córdova alterou-se profundamente após a expulsão dos judeus. Privada da sua função original, foi sucessivamente adaptada a hospital para hidrófobos, ermida cristã, sede de uma confraria de sapateiros e escola, escapando, por essa via, à destruição que atingiu tantos outros templos hebraicos. Apenas no século XIX, durante obras de reparação, foram redescobertas as extraordinárias decorações medievais ocultas sob sucessivas camadas de reboco, conduzindo à sua classificação como Monumento Nacional e ao início de um cuidadoso processo de restauro. Hoje integrada na Rede de Judiarias de Espanha e no Itinerário Europeu do Património Judaico, a sinagoga constitui uma das visitas incontornáveis de Córdova. Percorrê-la é também descobrir o encanto da antiga Judiaria, com as suas ruas estreitas, pátios floridos e pequenas praças onde o passado parece sobreviver intacto. A escassos minutos da Mesquita-Catedral e da estátua dedicada a Maimónides, este pequeno santuário oferece ao viajante uma oportunidade rara para compreender a extraordinária diversidade religiosa, política e cultural que moldou a cidade ao longo dos séculos, fazendo de Córdova um dos mais fascinantes destinos históricos de toda a Península Ibérica.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

LUGARES: Museu Arqueológico de Úbeda



LUGARES: Museu Arqueológico de Úbeda
Calle Cervantes 6, Úbeda
Horários | De 16 de Setembro a 15 de Junho, de terça-feira a sábado, das 09h00 às 21h00 e domingo, das 09h00 às 15h00. De 16 de Junho a 15 de Setembro, de terça-feira a domingo, das 09h00 às 15h00
Ingressos | Bilhete grátis


Há museus cujas colecções contam a história de um território. Em Úbeda, porém, é o próprio edifício que inaugura essa narrativa. Instalado desde 1973 numa notável casa mudéjar dos séculos XIV e XV, descoberta durante obras na década de 1960 e cuidadosamente restaurada para acolher o Museu Arqueológico, este espaço constitui um dos mais interessantes exemplos da arquitectura doméstica medieval da cidade. O pátio central, em torno do qual se distribuem as diferentes salas, as galerias abertas, a elegante arcaria de entrada e os numerosos elementos reaproveitados de outros edifícios históricos conferem ao conjunto um carácter singular. Situado no antigo bairro de San Pablo, onde ainda se preserva o traçado urbano mudéjar, o museu revela desde o primeiro momento que a visita começa muito antes da observação das peças expostas.

O percurso é necessariamente compacto, acompanhando a própria configuração da antiga habitação. A entrada faz-se sob o alpendre mudéjar, onde grandes recipientes cerâmicos, entre eles um dolium romano, introduzem o visitante ao universo arqueológico. Daí segue-se para a sala dedicada à Pré-História, onde se encontram utensílios de pedra provenientes de jazidas paleolíticas da província de Jaén e objectos metálicos de espólios funerários da Idade do Bronze descobertos em Úbeda. No pátio, entre colunas e galerias, surgem esculturas, estelas funerárias e elementos arquitectónicos de época romana, entre os quais sobressai uma portada mudéjar do século XIII. A disposição das peças acompanha, tanto quanto o espaço permite, uma leitura cronológica da ocupação humana deste território.

Subindo ao piso superior, a viagem prossegue através das culturas ibérica, romana, visigótica e muçulmana. Urnas cinerárias, recipientes cerâmicos, objectos do quotidiano e materiais provenientes de escavações realizadas em Úbeda e em sítios arqueológicos vizinhos testemunham a longa continuidade da presença humana nesta região da Andaluzia. A colecção resulta, em grande parte, dos fundos do Museu de Jaén, complementados por doações particulares, pelas peças reunidas pelo fundador Rafael Vañó Silvestre e pelos materiais recuperados em sucessivas campanhas arqueológicas. Curiosamente, foi o espaço expositivo que teve de se adaptar às características da antiga casa, preservando a autenticidade do edifício e transformando cada divisão numa extensão da própria narrativa histórica.

Entre as obras mais emblemáticas destacam-se a Dama com Manto - escultura romana associada ao modelo iconográfico da “pudicitia” e provavelmente pertencente a um monumento funerário -, uma expressiva cabeça ibérica, uma estela funerária muçulmana e uma invulgar maqueta em pedra de um castelo ameado, cuja minúcia continua a surpreender investigadores e visitantes. Merecem igualmente atenção as madeiras policromadas com lacerias mudéjares preservadas na galeria superior, testemunho da decoração original da casa. No Museu Arqueológico de Úbeda, cada sala, cada coluna e cada objecto contribuem para reconstruir séculos de história, tornando esta pequena instituição num dos espaços mais reveladores para compreender a evolução cultural de uma cidade cujo centro histórico é, desde 2003, Património Mundial da UNESCO.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

LUGARES: Medina Azahara



LUGARES: Medina Azahara
Carretera Palma del Río, km 5, Córdoba
Horário | De terça-feira a domingo, das 09h00 às 18h00
Ingressos | € 32,00 (bilhete normal, inclui transporte de ida e volta a partir de Córdova, autocarro entre o Centro Interpretativo e o início da visita, entrada no conjunto arqueológico e guia)


É no ponto mais elevado dessa extraordinária cidade palatina que é a Medina Azahara, declarada Património Mundial pela UNESCO em 2018, que tem início a nossa visita. Erguida a partir de 936 por ordem do califa Abd-al Rahman III, nas encostas da Serra Morena, a escassos quilómetros de Córdova, a antiga Madinat al-Zahra continua a revelar a ambição política de um soberano que quis transformar a capital do Califado do al-Andalus numa afirmação monumental de poder, riqueza e prestígio. Com cerca de 112 hectares - dos quais apenas uma pequena percentagem se encontra escavada - é hoje a segunda maior jazida arqueológica da Europa, apenas ultrapassada por Pompeia. É daqui, da chamada Dar al-Mulk, a “Morada do Poder”, que o olhar alcança o vale do Guadalquivir e compreende a lógica desta cidade desenhada em socalcos: no topo, a residência privada do califa, as dependências da família real e o centro do governo; mais abaixo, a cidade administrativa e, finalmente, as zonas de serviço e de apoio, o todo ligado por ruas, terraços e pátios que se estendem harmoniosamente pela encosta.

Descendo pelas antigas vias empedradas, o silêncio das ruínas deixa adivinhar o ritmo de uma cidade que, durante pouco mais de setenta anos, concentrou o coração político e administrativo do mais poderoso Estado da Península Ibérica. Entre muros de arenito cuidadosamente aparelhado, surgem os vestígios das residências dos altos dignitários, dos corpos da guarda, das cavalariças, das cozinhas, dos armazéns e das dependências onde se organizava o complexo funcionamento da corte. Por aqui circulavam funcionários, soldados, artesãos, criados e emissários vindos de todo o Mediterrâneo e da Europa Central, recebidos segundo um protocolo rigoroso que fazia da própria arquitectura um instrumento de exaltação do califa. A água, conduzida através de antigos aquedutos romanos adaptados aos novos tempos, alimentava fontes, tanques e jardins, enquanto três grandes pontes asseguravam a ligação permanente entre a Medina e Córdova, integrando a cidade num território cuidadosamente planeado.

À medida que o percurso prossegue, percebem-se pátios luminosos, terraços escalonados e jardins que outrora combinavam a imponência da pedra com o verde das árvores, o perfume das flores e o reflexo da água. As colunas de mármore branco vindas de Estremoz, os capitéis delicadamente esculpidos, os pavimentos polidos e os estuques pintados testemunham o requinte artístico atingido pelos mestres califais, capazes de transformar cada espaço numa demonstração de sofisticação e requinte. A abundância de motivos vegetalistas, os célebres atauriques, parecem prolongar a natureza pelas paredes dos edifícios, criando uma ilusão de continuidade entre arquitectura e paisagem. Não admira que as crónicas árabes tenham envolvido Medina Azahara em lendas de salões cintilantes, lagos de mercúrio e coberturas de ouro. Apesar do exagero literário, basta percorrer estas ruínas para perceber que poucas cidades medievais terão impressionado tanto os seus contemporâneos.

A visita culmina no célebre Salão Rico, a verdadeira jóia arquitectónica da Medina Azahara e um dos mais extraordinários testemunhos da arte islâmica ocidental. Reconstruído com rigor a partir das escavações conduzidas por Félix Hernández, este espaço de recepção conserva uma decoração esculpida de espantosa delicadeza, onde praticamente não existem dois motivos iguais. Diante do grande jardim e do espelho de água que lhe serviam de cenário, aqui se desenrolavam as cerimónias oficiais que projectavam a autoridade do califa perante embaixadores estrangeiros e representantes das mais diversas regiões do mundo conhecido. Tudo obedecia a uma encenação minuciosa: a disposição dos dignitários, a abertura das portas para os jardins, os discursos, os poemas e os gestos cuidadosamente regulados pelo protocolo. Poucas décadas depois, a guerra civil que destruiu o Califado Omíada condenaria Medina Azahara ao abandono, ao saque e ao esquecimento. Mas é precisamente esse contraste entre o esplendor efémero e a permanência das suas ruínas que continua hoje a fazer desta cidade um lugar de beleza irreal e fascínio ímpar.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

LUGARES: Museu Picasso | Málaga



LUGARES: Museu Picasso, Málaga
Palacio de Buenavista, Calle San Agustín 8, Málaga
Horários | Todos os dias, das 10:00 às 19:00
Ingressos | € 13,00 (bilhete normal); € 11,00 (preço reduzido)


Entrar no Museu Picasso de Málaga representa um regresso às origens de um dos maiores nomes da arte do século XX. Instalado no Palácio de Buenavista, um edifício renascentista erguido sobre vestígios romanos e árabes, o Museu convida o visitante a compreender como a cidade natal marcou profundamente o percurso de Pablo Picasso. Embora o pintor tenha passado grande parte da sua vida entre Paris, Barcelona e a Côte d'Azur, Málaga permaneceu como uma memória constante, feita de luz mediterrânica, de touradas, de pombas e de cenas populares que atravessam a sua obra. O início da visita é marcado por esse diálogo profícuo, as paredes seculares a acolherem uma colecção que não pretende impressionar pela quantidade, antes pela capacidade de revelar a permanente inquietação criativa do artista. À medida que se percorrem as primeiras salas, percebe-se que Picasso nunca permaneceu imóvel. Cada pintura, desenho, gravura ou escultura representa uma etapa de uma investigação incessante sobre a forma, a cor e a representação figurativa, oferecendo ao visitante uma leitura cronológica, mas também emocional, da sua extraordinária evolução artística.

Prosseguindo o percurso, o Museu mostra como a reinvenção foi a verdadeira assinatura de Picasso. Das primeiras experiências académicas aos períodos mais experimentais, cada núcleo evidencia a facilidade com que o artista abandonava soluções já dominadas para explorar linguagens completamente novas. Ao lado de esculturas de surpreendente simplicidade, encontra o visitante pinturas de grande delicadeza, cerâmicas que revelam um espírito lúdico e gravuras onde o traço parece condensar décadas de reflexão artística. Um dos grandes méritos da exposição reside precisamente nessa diversidade de suportes, permitindo compreender que Picasso sempre rejeitou quaisquer fronteiras entre disciplinas. Ao longo da visita, sobressai igualmente a influência de mestres como Velázquez, Goya ou El Greco, reinterpretados através de um olhar profundamente moderno. Em vez de romper com a tradição, Picasso apropriou-se dela para construir uma linguagem singular, onde convivem o cubismo, o classicismo, o simbolismo e uma permanente vontade de experimentação. Cada sala convida a observar demoradamente os detalhes, porque quase todas as obras escondem referências, citações ou jogos visuais que recompensam um olhar atento.

A visita termina com a sensação de que o Museu não procura apenas celebrar um génio universal, mas explicar o processo criativo de um artista incapaz de repetir fórmulas. Mais do que uma sucessão de obras-primas, o percurso constitui uma narrativa sobre a liberdade artística e sobre a coragem de transformar continuamente a própria linguagem. Ao sair para o pátio interior do Palácio de Buenavista, vale a pena recordar que este museu nasceu graças ao desejo da família de Picasso de devolver parte da sua obra à cidade onde tudo teve o seu início, vincando uma ligação afectiva entre Málaga e aquele que se tornou um dos seus maiores embaixadores culturais. Para quem visita a cidade, esta não é apenas uma etapa obrigatória do roteiro artístico andaluz; é uma oportunidade para compreender que a verdadeira dimensão de Picasso reside menos na criação de um estilo do que na permanente recusa de qualquer limite. É precisamente essa inquietação, patente em cada sala e em cada obra, que faz do Museu Picasso uma experiência capaz de surpreender tanto os conhecedores da sua produção como quem a descobre pela primeira vez.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

LUGARES: Sinagoga del Agua



LUGARES: Sinagoga del Agua
Calle Roque Rojas, 2 - Úbeda (Jaén)
Horários | Todos os dias, das 10:30 às 13:30 e das 17:00 às 19:15
Ingressos | € 6,00, bilhete normal


No coração do centro histórico de Úbeda, cidade andaluza Património Mundial da UNESCO, encontra-se um dos espaços mais surpreendentes da herança judaica espanhola: a Sinagoga da Água. A sua descoberta, em 2007, ocorreu de forma completamente fortuita, quando o empresário Fernando Crespo iniciou obras de reabilitação em vários imóveis antigos com o objectivo de os transformar em apartamentos, lojas e parques de estacionamento. À medida que os trabalhos avançavam, começaram a surgir elementos arquitectónicos inesperados: arcos medievais ocultos por paredes posteriores, uma galeria feminina, poços de água e um banho ritual judaico. Perante a importância do achado, o projecto imobiliário foi abandonado e deu lugar a um cuidadoso processo de recuperação patrimonial. Desde 2010, o conjunto está aberto ao público, atraindo visitantes de todo o mundo. Embora alguns especialistas continuem a discutir a classificação definitiva do monumento, muitos dos elementos identificados correspondem claramente à tipologia das sinagogas medievais da Península Ibérica. O ambiente convida a imaginar a intensa vida comunitária que aqui decorreu antes da expulsão dos judeus em 1492. As sucessivas ocupações cristãs e muçulmanas deixaram igualmente marcas visíveis, criando um espaço onde diferentes épocas e culturas dialogam entre si. Cada detalhe parece revelar uma nova camada da história de Úbeda, cidade que durante séculos guardou este património quase em segredo.

A visita começa na chamada Sala do Inquisidor, um espaço cujo nome evoca uma das maiores ironias da história local: numa das fachadas vizinhas conserva-se ainda o brasão do Santo Ofício, instituição responsável pela perseguição dos judeus após a sua expulsão dos reinos espanhóis. Este primeiro compartimento, juntamente com o pátio, a adega e os fornos, poderá ter integrado a antiga residência do rabino da comunidade. Prosseguindo o percurso, o visitante alcança o pátio central, verdadeiro eixo de distribuição de todo o complexo. Aqui destacam-se duas colunas originais perfeitamente preservadas, ornamentadas com motivos vegetais que recordam a palmeira ou Árvore da Vida, uma das imagens mais recorrentes na simbologia judaica. Nos capitéis surgem alusões à Menorá, o candelabro de sete braços que constitui um dos símbolos mais antigos do Judaísmo. É também neste espaço que se encontra a chamada Porta da Alma, acesso principal à área de cultos. Parte dos seus elementos — colunas, degraus e segmentos do arco — são originais, enquanto outros tiveram de ser reconstruídos após a localização das peças dispersas em paredes erguidas durante séculos de transformações arquitectónicas. Sobre o arco sobressai uma estrela de David esculpida em pedra, reforçando a identidade do lugar.

A partir da Porta da Alma entra-se na grande sala sinagogal, organizada em três naves separadas por arcos ogivais originais que permaneceram escondidos durante séculos no interior das habitações construídas posteriormente. O espaço apresenta a sobriedade característica das sinagogas medievais espanholas, concebidas não apenas para a oração, mas também para o estudo, a administração da comunidade e a resolução de questões jurídicas sob orientação do rabino e dos anciãos. Um dos elementos mais interessantes encontra-se na parte superior de uma das naves: a Galeria das Mulheres. Sustentada por quatro colunas originais e parcialmente oculta por portadas de madeira, era o local reservado às mulheres durante as cerimónias religiosas. O tecto de madeira pintada conserva ainda vestígios da decoração antiga, contribuindo para a atmosfera de recolhimento que caracteriza o conjunto. Ao longo do percurso surgem diversos poços, num total de sete, testemunhando a importância da presença de água subterrânea na concepção do edifício. Dois deles conservam ainda água e os seus rebordos originais. Os guias costumam chamar a atenção para esta relação entre arquitectura e recursos hídricos, um aspecto fundamental na tradição judaica, onde a água assume um papel central nos rituais de purificação e renovação espiritual.

O ponto culminante da visita encontra-se no Mikveh, o banho ritual de purificação, acessível através de um estreito corredor escavado na rocha. Escondido sob aquilo que durante muito tempo se julgou ser apenas uma antiga adega, este espaço revela uma das descobertas mais impressionantes de todo o complexo. Coberto por uma discreta abóbada de pedra, o Mikveh possui uma escadaria talhada directamente na rocha que conduz a uma nascente de água natural, corrente e permanente, condição indispensável para a validade ritual deste tipo de edifícios. Homens e mulheres utilizavam este banho em momentos específicos da vida religiosa, desde a preparação para festividades até acontecimentos familiares marcantes. A visita prossegue depois pela adega e pelos fornos, onde ainda se observam grandes recipientes semi-enterrados destinados ao armazenamento de azeite, vinho kosher e outros alimentos. Os vestígios da antiga cozinha sugerem a preparação de pão ázimo e a conservação de refeições para o Shabbat. O percurso termina numa pequena exposição de objectos ligados ao culto judaico, entre os quais réplicas da Torá, Menorás, mezuzot e outros símbolos da tradição hebraica. Mais do que um monumento, a Sinagoga da Água oferece uma viagem à memória de uma comunidade desaparecida, permitindo compreender uma dimensão muitas vezes esquecida da história cultural da Andaluzia.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

LUGARES: Museu Arqueológico de Córdoba



LUGARES: Museu Arqueológico de Córdoba
Plaza de Jerónimo Páez, 14003
Horários | De terça-feira a domingo, das 09:00 às 21:00
Ingressos | Grátis (residentes UE); € 1,50 (não residentes UE)


Córdoba é uma cidade onde a História se sedimentou em camadas sucessivas e nas quais se reconhecem as suas marcas identitárias. Fundada pelos Romanos e convertida em importante capital da Hispânia Bética, conheceu um período de extraordinário esplendor durante o domínio islâmico, quando se transformou na capital do Califado Omíada do Al-Andalus e num dos maiores centros culturais da Europa medieval. Judeus, muçulmanos e cristãos partilharam, ao longo de séculos, o mesmo espaço urbano, nem sempre em circunstâncias pacíficas, mas contribuindo decisivamente para a riqueza intelectual, artística e arquitectónica da cidade. A antiga judiaria, a Mesquita-Catedral e os numerosos vestígios arqueológicos espalhados pelo centro histórico testemunham esse encontro de culturas que moldou a personalidade cordobesa. É precisamente neste contexto que o Museu Arqueológico de Córdoba se afirma como uma das instituições mais relevantes para compreender a evolução da cidade. Instalado no palácio de estilo renascentista dos Páez de Castillejo e num edifício contíguo, o museu reúne um acervo que percorre vários milénios de ocupação humana, permitindo ao visitante acompanhar a transformação de Córdoba desde os primeiros povoamentos até à época moderna.

Ao longo de três pátios e oito salas, a visita reveste-se de uma viagem cronológica que revela a complexidade de uma urbe construída sobre as heranças de diferentes civilizações. Nos pisos superiores, a exposição permanente conduz o visitante através das sucessivas culturas que habitaram a região. As primeiras salas apresentam materiais pré-históricos e proto-históricos, incluindo utensílios líticos, cerâmicas e objectos provenientes de povoados que antecederam a chegada de Roma. Seguem-se as colecções ibéricas e romanas, núcleo central do museu e um dos mais importantes da Andaluzia. Entre as peças de maior relevo destacam-se esculturas monumentais, inscrições epigráficas, mosaicos e elementos arquitectónicos que ilustram a importância de Córdoba como capital da província Bética. Particular atenção merece a impressionante estátua de mármore representando uma figura feminina togada, bem como os retratos imperiais e os numerosos testemunhos da vida pública e privada da cidade romana. O percurso prossegue com as colecções visigóticas, islâmicas e medievais cristãs, onde se encontram capitéis, relevos, cerâmicas decoradas, moedas e objectos do quotidiano que documentam a continuidade da ocupação urbana. Estas peças permitem compreender de que modo cada civilização reutilizou espaços, materiais e tradições das anteriores, construindo uma memória colectiva que atravessou séculos e que permanece bem visível nas ruas da cidade.

A visita culmina no piso inferior, onde o Museu revela um dos seus tesouros mais notáveis: os vestígios do antigo teatro romano de Córdoba. Descoberta relativamente recente, esta estrutura constitui uma das mais importantes evidências da monumentalidade da cidade durante o período imperial. Integrado no próprio percurso museológico, o espaço arqueológico permite observar parte das fundações e da arquitectura original do edifício, cuja construção remonta ao século I antes de Cristo. Painéis interpretativos e recursos expositivos ajudam a reconstituir a dimensão de um teatro que chegou a figurar entre os maiores da Hispânia romana. Entre muros ancestrais, blocos de pedra e estruturas que permaneceram ocultas durante séculos sob edificações posteriores, o visitante percebe como a cidade contemporânea assenta literalmente sobre as cidades do passado. É uma experiência que ultrapassa a simples contemplação de objectos em vitrinas: aqui, a arqueologia surge como realidade física e tangível, permitindo descer ao subsolo da História. Ao ligar o acervo exposto nas galerias superiores ao contexto urbano que lhe deu origem, o Museu Arqueológico de Córdoba oferece uma leitura coerente e fascinante da evolução da cidade, afirmando-se como paragem indispensável para quem procura compreender a extraordinária herança cultural de uma das mais emblemáticas cidades da Península Ibérica.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: Colecção do Museu Bordalo Pinheiro



EXPOSIÇÃO: Colecção do Museu Bordalo Pinheiro
Museu Bordalo Pinheiro
Inauguração a 15 Jan 2026. Exposição de Longa Duração


No passado dia 15 de Janeiro, o Museu Bordalo Pinheiro abriu as portas à sua nova Exposição de Longa Duração, propondo uma leitura renovada da vida e obra de Rafael Bordalo Pinheiro. Logo na sala inaugural, “A Situação… pela Lente de Bordalo”, o visitante é transportado para a segunda metade do século XIX, tempo de revoluções tecnológicas, expansão da imprensa e intensificação das trocas internacionais. É nesse mundo em aceleração que o artista constrói o seu olhar crítico. A monarquia constitucional, a alternância partidária e o peso da Igreja surgem como alvos recorrentes da sua crónica humorística semanal, onde texto e imagem se entrelaçam numa análise mordaz da actualidade. Bordalo acompanha atentamente conflitos europeus, ambições coloniais e tensões diplomáticas, revelando um patriotismo inflamado, simultaneamente crítico dos governos e atento ao papel económico das colónias. Liberal, anti-monárquico e socialmente comprometido, sonha com a República e com um país mais justo, mas fá-lo sem abdicar da complexidade das suas posições. O riso, aqui, não é mero entretenimento: é ferramenta de intervenção, lente de aumento das fragilidades do sistema e convite insistente à mudança.

Em “Jogos de Humor: do Desenho à Cerâmica” e “Figuras e Personagens”, as duas salas seguintes, a exposição aprofunda a dimensão inventiva de Bordalo e a amplitude do seu talento. Mestre da caricatura, atento às correntes internacionais e dotado de sólido conhecimento técnico, desenvolve uma linguagem gráfica própria, marcada por exageros expressivos, metamorfoses surpreendentes e composições arrojadas que exploram o potencial narrativo da página. O visitante acompanha o processo que vai da figura isolada à construção de sequências, antecipando soluções da banda desenhada moderna. Muitos desses jogos visuais transitam para a cerâmica, onde personagens e símbolos ganham volume e presença física. Entre as criações mais emblemáticas destaca-se o Zé Povinho, síntese irónica do povo português, simultaneamente ingénuo, resignado e capaz de súbita irreverência. Ao seu lado surge a Maria da Paciência, figura que oscila entre o comentário moral e a voz da tradição lisboeta. Políticos, escritores e actores são retratados com acuidade física e psicológica, renovando-se a cada situação desenhada ou modelada. Nesta galeria de tipos e personagens percebe-se como Bordalo construiu um universo próprio, a sátira transformada em crónica social e a arte em memória crítica de um tempo.

A cidade ganha protagonismo em “Os Palcos de Lisboa” e “Comédia Político-Burlesca”, onde se percebe como Rafael Bordalo Pinheiro transforma o quotidiano num grande cenário crítico. Lisboa é simultaneamente tema, palco e personagem: uma capital em mutação, que se quer moderna e cosmopolita, mas onde persistem bolsas de pobreza, desigualdades profundas e marcas de ruralidade. Bordalo observa-a por dentro - nos teatros, nas redacções, nas ruas, nas procissões e nos arraiais - e por fora, atento às suas transformações urbanas, às montras, aos cartazes, às novas sociabilidades burguesas. A política surge como uma encenação permanente, uma “comédia político-burlesca” em vários actos, onde ministros e deputados vestem papéis conforme a conveniência e trocam de máscara ao sabor das maiorias parlamentares. O teatro funciona como metáfora estruturante: há palcos e bastidores, ilusões e truques de cena, aplausos e vaias. Nesse grande espetáculo do absurdo, o Zé Povinho tanto aparece adormecido na plateia como reage com o célebre manguito, gesto que se tornaria ícone de contestação. A sátira à dívida pública, às obras faraónicas, às eleições manipuladas ou às crises governativas convive com referências às modas, aos costumes e às festas populares, compondo um fresco vibrante e mordaz da sociedade portuguesa oitocentista.

O percurso culmina em “Tragicomédia sem Limites” e “O Lápis como Arma”, núcleos que sublinham a dimensão mais combativa e, simultaneamente, mais incómoda da obra de Bordalo. Nada nem ninguém escapa ao seu olhar: instituições, figuras públicas, práticas religiosas, preconceitos sociais e raciais, estereótipos de género. Algumas dessas imagens, hoje confrontadas com novas sensibilidades, obrigam o visitante a questionar os limites do humor e a reconhecer nelas o espelho de uma mentalidade do século XIX. A exposição não as oculta; contextualiza-as, convidando à reflexão crítica sobre o riso como arma ambivalente, libertadora e, por vezes, violenta. Num período de crescente repressão, com a imprensa sob ameaça de censura e o espaço público vigiado, Bordalo assumiu o desenho como instrumento de intervenção cívica. O lápis tornou-se metáfora e prática de resistência. Denunciou abusos de poder, expôs incoerências, celebrou feitos anónimos e instigou a mudança. Mais do que uma retrospectiva biográfica, esta nova Exposição de Longa Duração afirma a actualidade de um criador total - caricaturista, ceramista, empresário, homem de teatro - cujo humor continua a interpelar-nos. Ao sair, o visitante percebe que rir, em Bordalo, nunca foi um gesto inocente: foi sempre uma forma de pensar o país e de o imaginar diferente.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

LUGARES: Casa do Careto de Podence



LUGARES: Casa do Careto
Rua Central, n.º 19 - Podence
Horários | Das 10h00 às 12h00 e das 14h30 às 18h00 (encerra à segunda feira)
Ingressos | € 2,00 (bilhete normal)


Em dia de Carnaval, olhamos a encosta granítica da aldeia transmontana de Podence, no concelho de Macedo de Cavaleiros, ao encontro da Casa do Careto. Espaço museológico inaugurado em 2004, nela se concentra o sabor da tradição e o desígnio de preservar e interpretar uma das mais vibrantes expressões do ciclo carnavalesco português. À entrada, o visitante é recebido por um universo cromático intenso: fatos de franjas vermelhas, verdes e amarelas, máscaras de lata ou couro com narizes proeminentes e chocalhos que tilintam ao menor movimento. O percurso expositivo conduz-nos pela história e simbologia dos Caretos, figuras irreverentes que, durante o Entrudo, percorrem as ruas em corridas e tropelias ritualizadas. Painéis informativos, registos audiovisuais e testemunhos orais ajudam a compreender a dimensão antropológica desta tradição, enraizada em práticas comunitárias ancestrais que celebram a fertilidade, a transgressão e a renovação. Mais do que um repositório de objectos, a Casa do Careto assume-se como centro interpretativo de um património vivo, onde cada máscara exposta carrega a memória de gerações e cada fotografia documenta a continuidade de um ritual que resiste ao tempo e às mudanças sociais.

A visita prossegue com um mergulho no processo de confecção dos trajes e na transmissão intergeracional do saber fazer. São destacados os artesãos locais responsáveis pela elaboração das máscaras metálicas, moldadas e pintadas manualmente, bem como as mulheres que tradicionalmente cosem as franjas que conferem movimento e exuberância ao traje. O discurso museológico sublinha a importância da comunidade - residentes e emigrantes - na salvaguarda desta manifestação cultural. Muitos dos que hoje regressam a Podence no período do Entrudo são descendentes de famílias que emigraram, mas que mantêm viva a ligação à aldeia através da participação activa nos rituais. Essa continuidade foi reconhecida internacionalmente a 13 de dezembro de 2019, quando os Caretos de Podence e todos os rituais a eles associados foram inscritos na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. A distinção consagrou não apenas a singularidade estética e simbólica dos Caretos, mas sobretudo o esforço colectivo de uma comunidade que transformou tradição em identidade e identidade em projecção global.

No último núcleo expositivo, a Casa do Careto projecta o visitante para além das paredes do Museu, convidando-o a percorrer as ruas estreitas de Podence durante o Entrudo e a sentir o pulsar da festa no seu contexto original. Fotografias de grande formato captam a energia dos dias de folia, quando os Caretos, investidos de licença ritual, correm, saltam e interagem com a população num jogo simultaneamente lúdico e simbólico. A museografia articula passado e presente, demonstrando como a tradição se reinventa sem perder autenticidade, apoiada por associações locais que promovem a sua divulgação nacional e internacional. Ao sair, fica clara a dimensão do reconhecimento internacional: a inscrição na lista da UNESCO não foi um ponto de chegada, mas um compromisso renovado com a preservação e promoção de uma aldeia do interior nordestino de Portugal para o mundo. A Casa do Careto, desde 2004, é o epicentro dessa missão. Guardiã de memórias, assume-se como palco de educação patrimonial e vitrina de uma cultura que, entre o sagrado e o profano, continua a ecoar muito para além das fronteiras de Podence.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: DANÇA, TERTÚLIAS, LUGARES, OUTROS



10. Livros de Artista
Vários artistas
6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025
Quinta da Fiação de Lever
05 Abr > 12 Jul 2025

“ (…) Agostinho Santos, Nazaré Álvares, Celeste Ferreira ou Valter Hugo Mãe apresentam ao olhar do visitante um conjunto alargado de trabalhos em que cada página, quando analisada separadamente, assim como o acto repetido de “folhear” o livro, se combinam para transmitir uma sensação de continuidade e oferecer um conjunto de leituras, com tanto de sofisticado quanto de inesperado. Livros produzidos manualmente ou nos quais o artista teve uma intervenção directa na sua impressão, livros com múltiplos ou cópias únicas, livros com desenhos, pinturas, colagens ou têxteis, livros que se lêem da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, de cima para baixo ou de baixo para cima, as propostas são numerosas e qual delas a mais sedutora.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/exposicao-livros-de-artista.html



9. FESTA - Sons da Lusofonia (II)
Com | CRUA, Juliana Linhares, Fogo Fogo e Mário Lúcio
Parque Urbano de Ovar
12 Jul 2025 | sab | 16:00 às 00:00

“ (…) Primeira banda a repetir a presença no FESTA (depois de uma participação memorável em 2022), os Fogo Fogo puseram a carne toda no assador, mostrando o porquê de serem lídimos representantes do funaná, mas não só. Cultores da lusorritmía, na sua música confluem o samba e o semba, a morna e a marrabenta, o carimbó e o fado. Mas, ainda que o ritmo seja o pai de tudo, a palavra traduz o ritmo e daí que a música dos Fogo Fogo, sendo para dançar, seja igualmente para cantar. E foi isso que pudemos apreciar ao final da tarde de sábado, num concerto que encerrou um conjunto de momentos inesquecíveis. Voltar ao baile, voltar à pista, ser ponto de encontro de corpos que se dão em gesto e partilha, foi esta a proposta da banda à qual o público aderiu de forma incondicional.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/certame-festa-sons-da-lusofonia-ii.html



8. Conversas às 5
Com | Benilde Teixeira
Participação especial | Sofia Ataíde e Renato Nunes
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Out 2025 | qua | 17:00

“ (…) A propósito de um internamento que se estendeu por cerca de nove meses, Renato Nunes recorda um processo evolutivo constante, de grande adaptação às estratégias prescritas, mas também “o fim de semana em que a Dona Benilde, com a sua cadeira eléctrica, conduziu um comboio de doentes em cadeira de rodas pelos corredores do CRN”, assim como “as mudanças de quarto para, com a sua atitude, nos ajudar a lidar com doentes mais fragilizados”. Uma memória que mereceu de Benilde Teixeira um curioso comentário: “Quando puseram uma doente no meu quarto e, na visita médica, lhe perguntaram se estava melhor, ela disse que estava 50% melhor: Mas é à Dona Benilde que eu devo os 50% por cento, não é aos médicos”.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/tertulias-literarias-conversas-as-5.html



7. Shortcutz Ovar Sessão #97
Festa dos Premiados 2024
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
18 Jul 2025 | sex | 21:30

“ (…) Numa noite sempre especial, de expectativas em alta, emoções ao rubro, muita festa e animação, a bonita Sala Expande foi pequena para acolher as duas centenas de espectadores que fizeram questão de marcar presença, repetindo aquilo que já vem sendo um hábito para um número crescente de “ferrinhos” da última quinta-feira do mês, elevados da categoria de visitantes ocasionais à de cinéfilos atentos e conhecedores, amantes do bom Cinema que se faz em Portugal na sempre desafiante versão curta. Foram eles que, guiados por Tiago Alves, incomparável mestre de cerimónias, recordaram a oitava temporada, vibraram com as escolhas do júri e do público, escutaram as reacções dos premiados e tiveram a oportunidade de ver ou rever alguns dos filmes da sua predilecção.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/cinema-shortcutz-ovar-sessao-97-festa.html



6. Ovar Expande ‘25 (II)
Com Bia Maria + Coro da Comunidade, Ela Li e Afonso Cabral
Escola de Artes e Ofícios
17 Out 2025 | sex | 21:30

“ (…) A apresentar em Ovar “Qualquer Um Pode Cantar”, o seu mais recente álbum, Bia Maria foi capaz de unir a beleza da voz à força da comunhão colectiva num projecto que é um verdadeiro sopro de frescura no panorama da música portuguesa contemporânea. Enraizadas no cancioneiro popular, com um “cheirinho” de fado e de bossa nova, as suas melodias fazem da voz — da dela e de todos — instrumento primordial e elo de partilha. Com Alberto Hernandez na guitarra e Samuel Louro na bateria, a artista vestiu de cumplicidade e inclusão temas como “Roupa Velha”, “O Corpo”, “Aconchegos de um Sujeito”, “Marcha da Paridade” ou “Qualquer Um Pode Cantar”, juntando em palco um coro de dez pessoas de diferentes gerações e transformando o concerto num acto de encontro com o outro e consigo própria.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concertos-conversas-ovar-expande-25-ii.html



5. Conversas à Volta do Tanque
Com Manuela Grazina
Moderação | Joaquim Margarido
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
18 Jan 2025 | sab | 16:00

“ (…) “Que importância têm as memórias na construção da felicidade?” O moderador pergunta e a interlocutora, num primeiro momento, pega na questão e dirige-a ao público. À volta do tanque, é tempo de falar de filhós e café de cafeteira, carroceis cor de rosa e cheios de luzes, um cheiro a queijo picante, uma cadeirinha, um sapatinho de verniz e um guarda chuva, um dedo que rapa o tacho com restos de massa de bolo de coco, as histórias de “faz de conta” do avô Hélio. As mesmas histórias de “faz de conta” que hoje nos ajudam a não colapsarmos, “quando os familiares adoecem, avaria o frigorífico e a máquina de lavar, rebenta a caldeira, pára o carro no meio da ponte”, e que dão um contributo fundamental para a criação da esperança.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/tertulia-conversas-volta-do-tanque.html



4. Grupo de Percussão da Escola Profissional de Música de Espinho
Com | António Ferreira, Alexandre Barbosa, Gaspar Costa, Miguel Coelho, Hugo Oliveira, Tomás Marques, Pedro Leal e Catarina Gouveia
ReabilitaSons 2025
Centro de Reabilitação do Norte
10 Abr 2025 | qui | 21:30

“ (…) Perante uma assistência constituída na sua grande maioria por pessoas internadas no Centro de Reabilitação do Norte, os oito elementos do Grupo de Percussão da EPME articularam entre si a interpretação de um programa fortemente inspirado no folclore tradicional de um conjunto alargado de geografias, oferecendo ao público uma proposta de viagem pelos quatro cantos do mundo. Combinando a sua inegável qualidade interpretativa com uma forte presença em palco, perfeito na construção dos temas como nas coreografias que os vários elementos souberam desenvolver, o Grupo surpreendeu pela dedicação, entrega e emoção que soube espalhar entre a assistência, fazendo deste um momento verdadeiramente reabilitador para todos.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/concerto-grupo-de-percussao-da-escola.html



3. Submerso Imerso
Vanessa Barragão
Curadoria | Ben Austin
Casa da Cultura de Ílhavo
08 Fev > 11 Abr 2025

“ (…) É tempo de nos aventuremos pelos meandros de um microcosmos aquático encantado, distante do caos e da confusão globais, um lugar que convida à reflexão e à calma. Podemos apreciar cada peça na sua dimensão individual, mas podemos também integrá-las numa instalação maior, de forma a estabelecerem entre si uma relação espacial e uma inter-conectividade que encontram eco no imaginário e memórias de cada um. Cada uma das peças contempla um manancial inesgotável de “informação”, quer pela técnica metódica de produção ou pela exigência dos materiais, quer pelo esplendor das formas ou pela extraordinária combinação de cores.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/exposicao-submerso-imerso-vanessa.html



2. Divinas Perlinas
Musurgia Ensemble & Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Com | João Francisco Távora (flauta de bisel e direção artística), Pedro Martins (guitarra barroca), Helder Sousa (cravo e direção artística)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela de Santo António
23 Mar 2025 | dom | 16:00

“ (…) A viagem entre as duas margens do Atlântico fez-se, desta vez, ao sabor da língua: De um lado o português, o castelhano e o biscayno; do outro o mestiço, o índio e o Nahuatl (idioma asteca à época da conquista espanhola e falado ainda hoje por cerca de um milhão e meio de pessoas na região central do México). Com a parte instrumental a cargo de João Francisco Távora, Hélder Sousa e Pedro Martins, o concerto teve no coro o seu elemento de maior relevância, ficando demonstrado o poder alquímico de Jorge Luís Castro em juntar vozes e fazer magia. A ele se deveu a confiança e disponibilidade evidenciada pelos coralistas em “Negrinho tiray vos”, “As divinas perlinas” e “Mi niño dulce y sagrado”, peças de enorme riqueza melódica e rítmica e de uma harmonia sublime que tanto encantaram o público.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/concerto-as-divinas-perlinhas-musurgia.html



1. F*cking Future
Direcção artística e coreografia | Marco da Silva Ferreira
Interpretação | Catarina Casqueiro, Eríc Amorim dos Santos, Fábio Kraye, Doisy Bryan, Marco da Silva Ferreira, Matias Rocha Moura, Max Makowski, Nala Revlon
Teatro Rivoli - Caixa de Palco
05 Dez 2025 | sex | 19:30

“ (…) Quando os bailarinos invadem a plateia e avançam por entre os espectadores, o gesto é tudo menos intimidatório: É convite. Há algo de fantasmagórico, quase cerimonial, nesse movimento que aproxima intérpretes e público ao ponto de dissolver fronteiras. E é nesse instante que “F*cking Future” atinge o seu coração político — não o da militância como confronto, mas o da militância como desejo, como vontade partilhada. O espetáculo propõe um futuro que se escreve no agora, na aceleração dos corpos que recusam a apatia e afirmam o direito ao sonho, mesmo quando o mundo insiste em endurecer.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/danca-fucking-future-marco-da-silva.html