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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

LUGARES: Centro de Memória de Vila do Conde



LUGARES: Centro de Memória de Vila do Conde
Largo de S. Sebastião, Vila do Conde
Horários | De terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00
Ingressos | € 2,00 (bilhete normal)


No coração de Vila do Conde, o Centro de Memória ocupa a histórica Casa de S. Sebastião, um solar brasonado do século XVII que ganhou uma nova vida como espaço de cultura, conhecimento e encontro. A casa deve o seu nome à antiga capela de S. Sebastião, que lhe era fronteira e que foi transferida, em 1853, para o cemitério municipal, na sequência da abertura da Estrada Real, actual Estrada Nacional 13. Uma escritura conservada no Arquivo Municipal comprova que o imóvel mudou de proprietário já em 11 de Abril de 1672. O brasão, colocado em meados do século XVIII, testemunha a presença das famílias Pereira, Rangel, Coutinho e Carneiro. Durante décadas, o edifício esteve ligado à vida da cidade, tendo acolhido a Biblioteca Municipal entre 1979 e 2001. Adquirida pela Câmara Municipal em 2000, a Casa de S. Sebastião foi alvo de uma profunda intervenção de recuperação e ampliação, dando origem ao actual Centro de Memória, inaugurado em 14 de Dezembro de 2008. O projecto de reabilitação, com assinatura do arquitecto Maia Gomes, foi reconhecido com o prémio IRHU e o Prémio Nacional de Arquitectura Alexandre Herculano, além da nomeação para o Prémio Secil.

Mais do que um edifício recuperado, o Centro de Memória é hoje uma estrutura cultural dedicada essencialmente à arte e à história, onde diferentes áreas de investigação, conservação, exposição e divulgação se cruzam para interpretar e preservar a memória de Vila do Conde. O Arquivo Municipal, com documentação que se estende da Idade Média à actualidade, dispõe de espaços de consulta, tratamento e conservação, assegurando a salvaguarda de um património documental fundamental para o conhecimento do território e das suas gentes. A seu lado funciona o Gabinete Municipal de Arqueologia, responsável por projectos de investigação, conservação e divulgação do património arqueológico concelhio, com destaque para trabalhos como os desenvolvidos na Cividade de Bagunte ou no Castro de S. Paio. O Centro acolhe ainda o núcleo central do Museu de Vila do Conde, articulado com os restantes núcleos museológicos municipais, e a Galeria e Centro de Estudos Júlio-Saúl Dias. Exposições temporárias, música, teatro, dança, actividades pedagógicas e iniciativas de investigação completam uma programação que faz deste espaço um lugar de produção e fruição cultural, aberto aos mais diversos públicos.

A exposição permanente “Vila do Conde. Tempo e Território” constitui, por sua vez, uma das principais portas de entrada na história do concelho. Distribuída por dezanove salas, propõe uma viagem por milhares de anos de ocupação humana, acompanhando processos históricos e transformações sociais e culturais que contribuíram para formar a identidade de Vila do Conde. Objectos, documentos e testemunhos materiais ajudam a compreender a relação entre as comunidades e o território, do passado mais remoto à contemporaneidade, numa narrativa que procura aproximar a história dos seus visitantes. Fora das salas de exposição, o Centro de Memória prolonga-se pelos jardins, numa área de cerca de 7 000 metros quadrados que acrescenta ao equipamento uma dimensão de lazer e convivência. A cafetaria, a loja, o Espaço Internet, as áreas destinadas a actividades educativas e o Centro de Pedagogia Ambiental reforçam essa vocação de espaço aberto à comunidade. Entre a preservação da memória e a criação contemporânea, entre o estudo e a fruição, a antiga Casa de S. Sebastião afirma-se, assim, como uma das referências culturais de Vila do Conde: um lugar onde a história não permanece imóvel, mas é continuamente investigada, vivida e sentida.

domingo, 16 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Interseções" | Júlio-Saúl Dias



EXPOSIÇÃO: “Interseções: em torno da expressão artística. Pintura, desenho, dança, música e poesia na obra de Julio”,
de Júlio-Saúl Dias
Curadoria | Bernardo Pinto de Almeida, Laura Garrido e Caetano
Centro de Memória de Vila do Conde
21 Mar > 27 Set 2026


Há exposições que confirmam as nossas expectativas e outras que as desmentem pelas melhores razões, ao descobrirmos nelas algo de mais estimulante. Está neste último caso “Interseções: em torno da expressão artística. Pintura, desenho, dança, música e poesia na obra de Julio”, patente no Centro de Memória de Vila do Conde. Quem, como eu, ali entrar à procura do pintor Julio, e sobretudo do artista de recorte mais assumidamente surrealista, começará por estranhar a presença dominante do desenho. São muitos os desenhos, frequentemente organizados em séries, por vezes insistindo sobre uma mesma figura, um mesmo gesto ou uma mesma situação, como se o artista necessitasse de voltar sucessivamente ao papel para fixar aquilo que a pintura, pela sua própria natureza, tornaria mais definitivo. Ao longo de cento e sessenta e três obras, entre pinturas, desenhos, manuscritos, publicações e objectos do atelier, “Interseções” revela um Julio menos compartimentado do que a memória que dele guardamos. A mostra, com curadoria de Bernardo Pinto de Almeida e Laura Garrido e Caetano, não se limita a reunir peças de diferentes períodos: propõe uma leitura capaz de fazer perceber como, em mais de cinco décadas de actividade, a pintura e o desenho foram mantendo entre si uma relação de permanente contaminação.

A surpresa maior está, por isso, em perceber que aqueles desenhos que à partida poderiam parecer estudos, apontamentos ou exercícios de uma outra ordem são, afinal, uma espécie de território onde as várias dimensões da criação de Julio se encontram. A linha pode sugerir o movimento de um corpo, a cadência de um gesto, a repetição de uma frase musical ou a atmosfera de um poema. Há uma evidente vocação coreográfica em muitas dessas figuras, uma atenção ao corpo e à sua transformação que aproxima o desenho da dança; há também uma dimensão rítmica, quase musical, na sucessão das formas e na maneira como o artista explora a repetição, a variação e o silêncio. E há a literatura, não apenas porque Saúl Dias foi também poeta, mas porque palavra e imagem parecem nascer, em diversos momentos, de uma mesma necessidade expressiva. A organização da exposição em quatro núcleos — pintura e desenho, dança, poesia e música — evita uma leitura cronológica e favorece justamente esse trânsito entre linguagens. A “Revista de Baltar”, realizada em 1914 com José Régio, a correspondência e as publicações poéticas, o óleo de 1918 que agora volta a ser mostrado e até o bandolim do século XIX, exposto pela primeira vez, funcionam menos como curiosidades do que como peças de um mesmo universo. É nesse cruzamento que Julio ganha uma outra espessura: a do artista que não cabe inteiramente numa disciplina e cuja obra parece pedir que se escute o que se vê.

Nisto reside a grande virtude de “Interseções”: devolver a Julio a complexidade que a própria designação de pintor, por mais justa que seja, acaba por ocultar. A exposição encontra na Galeria Julio, instalada no Centro de Memória, um lugar particularmente feliz para essa revisitação. A cidade está profundamente ligada à preservação e à divulgação da sua obra, e as salas que lhe são dedicadas constituem não apenas um espaço de memória, mas uma presença cultural que permite olhar para Julio com continuidade e proximidade. “Interseções” aproveita essa relação para propor um percurso que não pretende encerrar a obra numa explicação única. Pelo contrário: deixa que as linguagens se aproximem, se contaminem e, por vezes, se confundam. O visitante que, como aconteceu comigo, chega à exposição em busca da pintura, sai com a sensação de ter descoberto várias portas de entrada para ela. Porque os desenhos não são aqui um parêntesis nem uma margem da obra pictórica: são a sua maior chave. Na simplicidade de uma linha ou na complexidade de uma composição, no corpo que parece dançar, no ritmo que a imagem sugere ou na palavra que permanece próxima, reconhece-se afinal o mesmo artista. Um artista para quem criar foi, acima de tudo, uma forma de estabelecer relações entre o visível e o imaginado, entre a mão e o pensamento. Entre a pintura, o desenho, a dança, a música e a poesia.