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domingo, 23 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Ultratremor” | Vários artistas



EXPOSIÇÃO: “Ultratremor”,
de Mira Schendel, Ana Hatherly, Julia Gallo, Mumtazz, Josi, Adriano Amaral, Bruno Cidra, Joana Escoval, Lucas Milano, Caio Carpinelli, Letícia Ramos, Henrique Pavão, Iara Izidoro, João Pimenta Gomes, Vera Mota, Paulo Nazareth
Curadoria | Germano Dushá
Museu Nacional de Arte Contemporânea
29 Mai > 27 Set 2026


“Ultratremor”, exposição com curadoria de Germano Dushá, reúne na Ala Capelo Sul do Museu Nacional de Arte Contemporânea dezasseis artistas portugueses e brasileiros num diálogo que atravessa matéria e espírito, corpo e imagem, visível e invisível. Mais do que aproximar práticas por afinidades formais ou temáticas, a curadoria procurou estabelecer entre elas uma espécie de frequência comum: a tentativa de tornar sensível aquilo que escapa à percepção imediata. O “tremor” do título é, por isso, mais do que uma vibração física. É o estremecimento que precede uma aparição, o estado de instabilidade em que uma forma ainda não se fixou ou já começou a desaparecer. Desenho, pintura, escultura, fotografia, instalação, som e performance constroem um percurso de fantasmagorias, metamorfoses e estados de transição, no qual a obra deixa de ser apenas objecto para se tornar acontecimento. Entre cosmologias, rituais, memória e experiências sensoriais, a exposição sugere que há imagens que não representam simplesmente o mundo: funcionam como passagens para aquilo que, permanecendo oculto, continua a agir sobre ele.

O percurso começa por gestos onde a linha parece nascer de uma pulsão quase orgânica. Nas monotipias de Mira Schendel, figura maior da arte brasileira do século XX, o traço no papel de arroz oscila entre inscrição e desaparecimento; em Ana Hatherly, nome central da poesia experimental e da arte portuguesa contemporânea, escrita e desenho confundem-se até a linguagem se tornar matéria visual. Julia Gallo leva essa tensão para uma dimensão quase eruptiva, construindo anatomias onde o corpo parece dar forma a estados de espírito, enquanto Mumtazz transforma o desenho em território de diagramas, figuras oníricas e energias psíquicas. Em Josi, a ligação é mais directamente cosmológica: água de rio, feijão preto, jenipapo e terra transportam para a pintura saberes e forças ligados ao território. Adriano Amaral faz da matéria um lugar de transmutação, misturando resíduos orgânicos e elementos industriais. Bruno Cidra prolonga essa instabilidade no encontro entre papel e metal. Joana Escoval, pelo contrário, trabalha quase no limite da invisibilidade, com fios de ouro e latão que só se revelam plenamente através da luz e do movimento do espectador. São diferentes modos de fazer aparecer o que normalmente permanece fora do campo da visão.

Essa investigação prolonga-se nas pinturas de Lucas Milano e Caio Carpinelli, onde a imagem se aproxima de uma experiência atmosférica e abissal, e nas fotografias de Leticia Ramos, que exploram a instabilidade do olhar e a fronteira entre real e imaginário. Henrique Pavão radicaliza a própria ideia de imagem ao transformar em prata a matéria extraída de quilómetros de película cinematográfica, convertendo um vestígio luminoso em objecto físico. Iara Izidoro leva a questão ao corpo, enquanto as instalações sonoras de João Pimenta Gomes fazem do espaço uma caixa de ressonância e Vera Mota coloca a matéria em estado de suspensão. Por fim, Paulo Nazareth confronta a memória colonial através de fotografias de arquivos etnográficos, desfocadas e intervencionadas com círculos de “efun”, gesto ritual que desloca aquelas imagens do registo classificatório para o território da memória, da violência e da reparação. O próprio espaço expositivo participa nesta experiência: o corredor e as salas laterais impõem um avanço quase processional, feito de revelações sucessivas. Em “Ultratremor”, importa menos aquilo que a obra mostra do que aquilo que consegue fazer sentir: a presença de uma força que antecede a forma e persiste depois dela.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

INSTALAÇÃO: “Cultura do Corpo: Edição Porto” | Augustas Serapinas



INSTALAÇÃO: “Cultura do Corpo: Edição Porto”,
de Augustas Serapinas
Curadoria | João Laia
Galeria Municipal do Porto
11 Jul > 11 Out 2026


Pelas mãos do artista visual Augustas Serapinas, uma vasta secção da Galeria Municipal do Porto está transformada, por estes dias, numa espécie de academia impossível, onde a história da arte e a cultura física se encontram sob o signo da repetição. “Cultura do Corpo: Edição Porto” parte de uma ideia simples, mas fértil: tanto o treino artístico tradicional como o exercício físico assentam na disciplina do corpo, na reprodução de gestos e na persistência como formas de aperfeiçoamento. A instalação põe essa genealogia em evidência sem a ilustrar de modo didáctico. Mais de sessenta réplicas da colecção de escultura do Museu Nacional Soares dos Reis ocupam o lugar que, num ginásio convencional, seria reservado aos pesos. Entre elas está “O Desterrado”, de Soares dos Reis, cuja presença introduz uma estranha solenidade no cenário de máquinas, exercícios e corpos em esforço. A operação tem uma dimensão cómica, mas o humor não desarma a questão central: que modelos de corpo, de beleza e de conhecimento continuam a ser reproduzidos pelas instituições? Serapinas não responde directamente. Prefere criar uma situação em que a própria arquitectura da exposição obriga o visitante a confrontar-se com essa herança e com os mecanismos de disciplina que a mantêm viva.

A força de Augustas Serapinas está, precisamente, em não tratar as esculturas como objectos intocáveis, mas como instrumentos dentro de uma nova coreografia. O visitante pode desenhar, treinar, correr ou praticar fisioculturismo. A exposição deixa de ser apenas algo que se contempla para se tornar uma estrutura que se activa com o uso. É uma escolha coerente com uma prática artística interessada nas funções dos espaços, nos seus códigos de acesso e nas hierarquias que normalmente passam despercebidas. A antiga Academia de Arte de Vilnius, onde Serapinas estudou, constitui aqui uma referência decisiva: o desenho de modelo vivo, a cópia de esculturas e o domínio laborioso das técnicas clássicas são colocados em paralelo com a rotina do ginásio. O título lituano, “Kūno kultūra”, acentua o jogo entre educação física e formação cultural. A provocação é eficaz porque desloca a ideia de Academia para um território simultaneamente familiar e absurdo. Há, contudo, um risco nesta estratégia: a analogia entre o treino artístico e o treino corporal pode tornar-se demasiado evidente, sobretudo quando a instalação assume a aparência literal de um ginásio. É a participação do público, e não a metáfora por si só, que impede que o projecto se esgote nesse jogo de correspondências.

É na sua inscrição no Porto que “Cultura do Corpo” ganha maior interesse. Ao substituir os objectos genéricos das versões anteriores por réplicas da colecção do Museu Nacional Soares dos Reis, Serapinas abandona a tentação de uma obra universal e aceita a resistência de um lugar concreto, com a sua história e os seus próprios cânones. A escultura académica portuguesa passa assim a integrar uma máquina crítica que não a ridiculariza nem a celebra inteiramente: expõe a autoridade dos seus modelos ao mesmo tempo que lhes altera a função. “O Desterrado”, convertido em equipamento de exercício, é a imagem mais eloquente dessa inversão. O corpo representado pelo escultor oitocentista deixa de ser apenas objecto de contemplação e passa a participar, indirectamente, no esforço dos corpos presentes. É uma imagem de grande poder, embora também revele a ambiguidade de uma exposição que depende fortemente da inteligência da sua premissa. Augustas Serapinas trabalha melhor quando permite que o absurdo material da situação produza pensamento sem o explicar em excesso. No Porto, essa estratégia encontra uma escala particularmente feliz: entre museu, academia e ginásio, a exposição pergunta quem educa o corpo, quem define a sua forma ideal e que modelos continuamos a repetir. A resposta, prudentemente, fica entregue ao “exercício” de cada visitante.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves”,



EXPOSIÇÃO: “Vexation of Spirit. The Duerckheim Collection x Serralves”,
de Darren Almond, Tommy Ballestrem, Georg Baselitz, Isaak Brodski, Roman Buxbaum, Leon Delarbre, Jake e Dinos Chapman, Cerith Wyn Evans, Theaster Gates, Gilbert & George, Antony Gormley, Francisco de Goya, Peter Gut, Damien Hirst, Zhang Huan, Stefan Hunstein, Anselm Kiefer, Alfred Kremer, Michael Landy, Konrad Lueg, Markus Lüpertz, Raoef Mamedov, Hermann Nitsch, Haralampi G. Oroschakoff, Blinky Palermo, A.R. Penck, Sigmar Polke, Gerhard Richter, Sam Taylor-Johnson, Matthias Wähner, Carl-Heinz Wegert, Rémy Zaugg
Curadoria | Marta Moreira de Almeida
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
15 Mai > 01 Nov 2026


“Vexation of Spirit”, conjunto de trinta e sete obras de dezanove artistas provenientes da Coleção Duerckheim, em depósito na Fundação de Serralves, é uma exposição que promete não deixar ninguém indiferente. Não porque os assuntos que aborda sejam, maioritariamente, a guerra, a religião ou os totalitarismos - temas que nunca abandonaram verdadeiramente a arte contemporânea -, mas pela forma como contraria a ideia, hoje tão difundida, de que a História é um objecto acabado. Percebemos isso ao percorrer a exposição, na medida em que ela nos permite ver que o passado não está atrás de nós; habita-nos. As imagens que julgávamos encerradas nos livros regressam sob a forma de matéria, cinza, chumbo, corpos mutilados, livros queimados, devastação e silêncio. No seu conjunto, ajudam-nos a compreender que coleccionar não consiste em acumular objectos, mas em construir uma gramática do que inquieta. Christian Duerckheim, o aristocrata que, ao longo das últimas quatro décadas, conseguiu reunir uma colecção admirável a todos os títulos, recusa a ideia da obra-prima enquanto troféu; interessa-lhe antes a obra como testemunha. Não procura aquilo que tranquiliza o olhar, mas aquilo que o desassossega. É por isso que esta primeira apresentação pública da colecção em Serralves possui uma importância que ultrapassa largamente o enriquecimento do acervo do Museu, ao oferecer uma hipótese de leitura do nosso tempo.

Retirada do Eclesiastes, a expressão que dá título à exposição paira sobre todo o percurso como uma espécie de aviso. Ao definir um estado interior, “Vexation of Spirit” descreve também uma condição histórica. Vivemos rodeados por imagens, mas talvez nunca tenhamos visto tão pouco. A sucessão vertiginosa da actualidade dissolve a memória antes mesmo de ela se sedimentar. A arte responde a essa vertigem de maneira oposta: desacelera. Kiefer cobre os livros de chumbo porque sabe que o conhecimento tem peso; Zhang Huan pinta com cinzas porque compreende que toda a espiritualidade deixa resíduos materiais; Darren Almond filma a espera diante de Auschwitz porque sabe que há lugares onde a ausência diz mais do que qualquer representação da violência. Nenhuma destas obras explica a História. Limitam-se a colocá-la diante de nós, com uma insistência quase física. Nisto reside o verdadeiro desígnio da arte: recusar-se a servir de mera ilustração dos acontecimentos, antes impedir que o esquecimento os transforme em paisagem.

É curioso verificar como muitas destas obras, realizadas há vinte ou trinta anos, parecem ter sido concebidas para este preciso momento. Não porque antecipassem os conflitos do presente, mas porque compreenderam algo de permanente na natureza humana: a facilidade com que a violência muda de rosto sem alterar a sua lógica. Não é frequente encontrar uma exposição que permita pensar, ao mesmo tempo, Kiefer, Blake, Goya, o Eclesiastes, Adorno e a cultura visual contemporânea. Por outro lado, as vitrinas infernais dos irmãos Chapman, o laboratório mortuário de Damien Hirst ou as palavras secas de Gilbert & George deixaram de pertencer apenas ao imaginário da provocação dos anos noventa. Hoje, depois da Ucrânia, de Gaza e da normalização quotidiana da barbárie transmitida em directo pelas televisões, perderam o estatuto de alegorias para adquirirem uma desconfortável proximidade documental. Num mundo entregue à velocidade dos algoritmos, à tirania da opinião instantânea e ao conforto das convicções fáceis, “Vexation of Spirit” recorda-nos que pensar continua a ser um acto que exige tempo. Creio que reside aqui, afinal, a mais discreta e mais radical das lições desta extraordinária exposição.

domingo, 16 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Interseções" | Júlio-Saúl Dias



EXPOSIÇÃO: “Interseções: em torno da expressão artística. Pintura, desenho, dança, música e poesia na obra de Julio”,
de Júlio-Saúl Dias
Curadoria | Bernardo Pinto de Almeida, Laura Garrido e Caetano
Centro de Memória de Vila do Conde
21 Mar > 27 Set 2026


Há exposições que confirmam as nossas expectativas e outras que as desmentem pelas melhores razões, ao descobrirmos nelas algo de mais estimulante. Está neste último caso “Interseções: em torno da expressão artística. Pintura, desenho, dança, música e poesia na obra de Julio”, patente no Centro de Memória de Vila do Conde. Quem, como eu, ali entrar à procura do pintor Julio, e sobretudo do artista de recorte mais assumidamente surrealista, começará por estranhar a presença dominante do desenho. São muitos os desenhos, frequentemente organizados em séries, por vezes insistindo sobre uma mesma figura, um mesmo gesto ou uma mesma situação, como se o artista necessitasse de voltar sucessivamente ao papel para fixar aquilo que a pintura, pela sua própria natureza, tornaria mais definitivo. Ao longo de cento e sessenta e três obras, entre pinturas, desenhos, manuscritos, publicações e objectos do atelier, “Interseções” revela um Julio menos compartimentado do que a memória que dele guardamos. A mostra, com curadoria de Bernardo Pinto de Almeida e Laura Garrido e Caetano, não se limita a reunir peças de diferentes períodos: propõe uma leitura capaz de fazer perceber como, em mais de cinco décadas de actividade, a pintura e o desenho foram mantendo entre si uma relação de permanente contaminação.

A surpresa maior está, por isso, em perceber que aqueles desenhos que à partida poderiam parecer estudos, apontamentos ou exercícios de uma outra ordem são, afinal, uma espécie de território onde as várias dimensões da criação de Julio se encontram. A linha pode sugerir o movimento de um corpo, a cadência de um gesto, a repetição de uma frase musical ou a atmosfera de um poema. Há uma evidente vocação coreográfica em muitas dessas figuras, uma atenção ao corpo e à sua transformação que aproxima o desenho da dança; há também uma dimensão rítmica, quase musical, na sucessão das formas e na maneira como o artista explora a repetição, a variação e o silêncio. E há a literatura, não apenas porque Saúl Dias foi também poeta, mas porque palavra e imagem parecem nascer, em diversos momentos, de uma mesma necessidade expressiva. A organização da exposição em quatro núcleos — pintura e desenho, dança, poesia e música — evita uma leitura cronológica e favorece justamente esse trânsito entre linguagens. A “Revista de Baltar”, realizada em 1914 com José Régio, a correspondência e as publicações poéticas, o óleo de 1918 que agora volta a ser mostrado e até o bandolim do século XIX, exposto pela primeira vez, funcionam menos como curiosidades do que como peças de um mesmo universo. É nesse cruzamento que Julio ganha uma outra espessura: a do artista que não cabe inteiramente numa disciplina e cuja obra parece pedir que se escute o que se vê.

Nisto reside a grande virtude de “Interseções”: devolver a Julio a complexidade que a própria designação de pintor, por mais justa que seja, acaba por ocultar. A exposição encontra na Galeria Julio, instalada no Centro de Memória, um lugar particularmente feliz para essa revisitação. A cidade está profundamente ligada à preservação e à divulgação da sua obra, e as salas que lhe são dedicadas constituem não apenas um espaço de memória, mas uma presença cultural que permite olhar para Julio com continuidade e proximidade. “Interseções” aproveita essa relação para propor um percurso que não pretende encerrar a obra numa explicação única. Pelo contrário: deixa que as linguagens se aproximem, se contaminem e, por vezes, se confundam. O visitante que, como aconteceu comigo, chega à exposição em busca da pintura, sai com a sensação de ter descoberto várias portas de entrada para ela. Porque os desenhos não são aqui um parêntesis nem uma margem da obra pictórica: são a sua maior chave. Na simplicidade de uma linha ou na complexidade de uma composição, no corpo que parece dançar, no ritmo que a imagem sugere ou na palavra que permanece próxima, reconhece-se afinal o mesmo artista. Um artista para quem criar foi, acima de tudo, uma forma de estabelecer relações entre o visível e o imaginado, entre a mão e o pensamento. Entre a pintura, o desenho, a dança, a música e a poesia.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

EXPOSIÇÃO: “Sem Terra à Vista”



EXPOSIÇÃO: “Sem Terra à Vista”
Vários artistas
Curadoria | Paula Cabaleiro
Centro de Arte Oliva
18 Abr 2026 > 24 Jan 2027


Habitar o presente, tal parece ser o desígnio de “Sem Terra à Vista”, exposição patente até 24 de Janeiro do próximo ano no Centro de Arte Oliva, em São João da Madeira. A partir de uma nova leitura da Colecção Norlinda e José Lima, a curadora Paula Cabaleiro constrói um percurso onde a arte não oferece respostas, antes convoca o visitante para um território de inquietação permanente. O título, apropriado do derradeiro livro de Charles Simic, funciona menos como metáfora marítima do que como diagnóstico civilizacional, colocando em destaque a ausência de horizonte, a erosão das referências colectivas e a sensação de deriva que atravessa o nosso tempo. A força da exposição reside precisamente na recusa de uma narrativa fechada, na forma como se privilegiam relações de tensão, afinidades inesperadas e contrapontos que fazem coexistir gerações, geografias e linguagens distintas. A extraordinária amplitude da colecção - uma das mais relevantes do panorama privado português - revela-se aqui como instrumento crítico, permitindo que autores portugueses dialoguem naturalmente com grandes nomes da cena internacional, sem hierarquias artificiais. O resultado é uma exposição que recusa a contemplação passiva em favor de uma experiência intelectualmente exigente, apelando à circulação de ideias e à capacidade da imagem para produzir pensamento.

Esta leitura manifesta-se na própria arquitectura expositiva, cujos núcleos se sucedem sem fronteiras rígidas, permitindo que cada obra prolongue ou contradiga a anterior. A presença de artistas como Paula Rego, Christian Boltanski, Cindy Sherman, Leon Golub, Chéri Samba, Gonçalo Mabunda ou Mónica de Miranda evidencia diferentes formas de abordar a violência, a memória, o corpo, a identidade ou a herança colonial, enquanto autores portugueses como Daniel Blaufuks, Helena Almeida, João Louro, Rui Chafes, Pedro Cabrita Reis ou José Pedro Croft oferecem perspectivas que oscilam entre a introspecção, a crítica política e a reflexão sobre a condição humana. De forma sensível, Paula Cabaleiro evita que estes temas se transformem num catálogo de causas contemporâneas, embora a exposição convoque questões como a guerra, as migrações, o avanço dos discursos extremistas, a devastação ambiental ou a desinformação. Fá-lo através da complexidade própria da criação artística, recusando tanto a ilustração como a retórica panfletária. Cada obra mantém a sua autonomia formal e conceptual, contribuindo para um discurso colectivo assente, em larga medida, na ambiguidade. Nessa tensão entre beleza, desconforto e pensamento, encontra “Sem Terra à Vista” a sua maior consistência crítica.

Num momento em que muitos projectos curatoriais procuram responder à actualidade através de enunciados excessivamente programáticos, “Sem Terra à Vista” distingue-se por confiar na inteligência do público e na capacidade das obras para permanecerem abertas à interpretação. A Colecção Norlinda e José Lima confirma-se, uma vez mais, como um acervo cuja diversidade permite sucessivas revisitações, revelando novas leituras sem esgotar os seus significados. A exposição demonstra igualmente a maturidade de Paula Cabaleiro enquanto curadora, capaz de construir um discurso sólido sem sacrificar a singularidade de cada artista nem reduzir a arte a instrumento ilustrativo de um argumento político. O visitante sai com poucas certezas e inúmeras perguntas — talvez o sinal mais evidente de uma exposição bem conseguida. Perante um mundo fragmentado, onde o ruído mediático tende a simplificar a realidade e a neutralizar o pensamento crítico, esta mostra recorda que a arte continua a ser um dos raros lugares onde a complexidade não constitui um obstáculo, mas uma necessidade. Sem oferecer promessas de redenção, “Sem Terra à Vista” aponta para uma possibilidade mais modesta, mas talvez mais urgente: recuperar o exercício da dúvida, da memória e da imaginação como formas de resistência perante um horizonte onde, efectivamente, continua a não haver terra à vista.

terça-feira, 9 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “É Preciso Espaço Para Falhar” | Márcia



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO: “É Preciso Espaço Para Falhar”,
de Márcia
Centro de Artes de Ovar
25 Abr > 31 Jul 2026


“Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada”
Márcia (excerto do poema “A Pele Que Há Em Mim”, 2010)

Inaugurada no passado dia 25 de Abril, “É Preciso Espaço para Falhar” transforma a galeria de exposições do Centro de Artes de Ovar num território de suspensão. Ali, o desenho, a pintura, a fotografia e a instalação, da autoria de Márcia, insinuam-se como presença, quase corpo, quase respiração. Dando a ver uma faceta menos conhecida do grande público, Márcia revela-se numa espécie de continuidade subterrânea entre a escrita das suas canções e os trabalhos agora expostos, nos quais se percebe a mesma tendência para transformar a fragilidade em matéria expressiva, a mesma recusa da superfície imediata, o mesmo desejo de procurar no íntimo uma forma de verdade. Se nas suas canções, Márcia trabalha o silêncio, a suspensão e a palavra contida, aqui fá-lo através da cor, da linha e da composição. “É Preciso Espaço Para Falhar” não surge, por isso, como exercício lateral de uma artista conhecida, mas como revelação de um mesmo universo interior expresso noutra gramática. Há nesta exposição um território de procura, insistência e imperfeição, uma consciência aguda de que a criação nasce frequentemente da falha, da fissura e da tentativa inacabada.

O título da exposição funciona como uma verdadeira carta de intenções. Aqui, falhar deixa de significar insuficiência para passar a significar disponibilidade, espaço aberto para experimentar, hesitar, procurar e, sobretudo, permanecer vulnerável diante do acto criativo. Muitas das obras parecem nascer de um território doméstico e emocional cuidadosamente preservado, como se o atelier da artista fosse simultaneamente refúgio, confissão e palco interior. Em várias composições, objectos banais emergem discretamente da penumbra simbólica: uma cadeira vazia, uma guitarra abandonada num canto, uma chávena de café pousada sobre a mesa. Elementos quotidianos, quase invisíveis à primeira vista, mas que acabam por estruturar silenciosamente a relação afectiva da artista com o seu próprio espaço. Não são adereços, antes vestígios da sua presença, sinais de uma vida em curso que continua para lá da tela. Essa capacidade de transformar objectos comuns em lugares emocionais faz com que a exposição nunca resvale para o hermetismo conceptual; mesmo nas obras mais simbólicas existe sempre qualquer coisa de profundamente humano que nos devolve ao reconhecimento de nós próprios.

Ao longo do percurso expositivo percebe-se também o amadurecimento técnico e expressivo de uma artista que, apesar de se apresentar publicamente pela primeira vez neste território, trabalha estas linguagens há décadas. O desenho, o pastel de óleo, a pintura e a instalação coexistem sem hierarquias rígidas, unidos por um gesto emocional de enorme coerência. Algumas obras mantêm a fragilidade experimental dos primeiros gestos; outras revelam já um domínio seguro da composição e da cor, sobretudo nas obras de maior formato, onde os contornos negros e a vibração cromática criam atmosferas complexas. Márcia não procura impressionar através do virtuosismo técnico nem construir uma persona de artista visual desligada de uma vida dedicada à música. No silêncio da ampla galeria do Centro de Artes, perceberá o visitante que Márcia continua a cantar, tendo apenas trocado a melodia pela cor, a palavra pela matéria do olhar. A exposição estará patente ao público até ao final de Julho e é merecedora de visita atenta e dedicada.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: Colecção do Museu Bordalo Pinheiro



EXPOSIÇÃO: Colecção do Museu Bordalo Pinheiro
Museu Bordalo Pinheiro
Inauguração a 15 Jan 2026. Exposição de Longa Duração


No passado dia 15 de Janeiro, o Museu Bordalo Pinheiro abriu as portas à sua nova Exposição de Longa Duração, propondo uma leitura renovada da vida e obra de Rafael Bordalo Pinheiro. Logo na sala inaugural, “A Situação… pela Lente de Bordalo”, o visitante é transportado para a segunda metade do século XIX, tempo de revoluções tecnológicas, expansão da imprensa e intensificação das trocas internacionais. É nesse mundo em aceleração que o artista constrói o seu olhar crítico. A monarquia constitucional, a alternância partidária e o peso da Igreja surgem como alvos recorrentes da sua crónica humorística semanal, onde texto e imagem se entrelaçam numa análise mordaz da actualidade. Bordalo acompanha atentamente conflitos europeus, ambições coloniais e tensões diplomáticas, revelando um patriotismo inflamado, simultaneamente crítico dos governos e atento ao papel económico das colónias. Liberal, anti-monárquico e socialmente comprometido, sonha com a República e com um país mais justo, mas fá-lo sem abdicar da complexidade das suas posições. O riso, aqui, não é mero entretenimento: é ferramenta de intervenção, lente de aumento das fragilidades do sistema e convite insistente à mudança.

Em “Jogos de Humor: do Desenho à Cerâmica” e “Figuras e Personagens”, as duas salas seguintes, a exposição aprofunda a dimensão inventiva de Bordalo e a amplitude do seu talento. Mestre da caricatura, atento às correntes internacionais e dotado de sólido conhecimento técnico, desenvolve uma linguagem gráfica própria, marcada por exageros expressivos, metamorfoses surpreendentes e composições arrojadas que exploram o potencial narrativo da página. O visitante acompanha o processo que vai da figura isolada à construção de sequências, antecipando soluções da banda desenhada moderna. Muitos desses jogos visuais transitam para a cerâmica, onde personagens e símbolos ganham volume e presença física. Entre as criações mais emblemáticas destaca-se o Zé Povinho, síntese irónica do povo português, simultaneamente ingénuo, resignado e capaz de súbita irreverência. Ao seu lado surge a Maria da Paciência, figura que oscila entre o comentário moral e a voz da tradição lisboeta. Políticos, escritores e actores são retratados com acuidade física e psicológica, renovando-se a cada situação desenhada ou modelada. Nesta galeria de tipos e personagens percebe-se como Bordalo construiu um universo próprio, a sátira transformada em crónica social e a arte em memória crítica de um tempo.

A cidade ganha protagonismo em “Os Palcos de Lisboa” e “Comédia Político-Burlesca”, onde se percebe como Rafael Bordalo Pinheiro transforma o quotidiano num grande cenário crítico. Lisboa é simultaneamente tema, palco e personagem: uma capital em mutação, que se quer moderna e cosmopolita, mas onde persistem bolsas de pobreza, desigualdades profundas e marcas de ruralidade. Bordalo observa-a por dentro - nos teatros, nas redacções, nas ruas, nas procissões e nos arraiais - e por fora, atento às suas transformações urbanas, às montras, aos cartazes, às novas sociabilidades burguesas. A política surge como uma encenação permanente, uma “comédia político-burlesca” em vários actos, onde ministros e deputados vestem papéis conforme a conveniência e trocam de máscara ao sabor das maiorias parlamentares. O teatro funciona como metáfora estruturante: há palcos e bastidores, ilusões e truques de cena, aplausos e vaias. Nesse grande espetáculo do absurdo, o Zé Povinho tanto aparece adormecido na plateia como reage com o célebre manguito, gesto que se tornaria ícone de contestação. A sátira à dívida pública, às obras faraónicas, às eleições manipuladas ou às crises governativas convive com referências às modas, aos costumes e às festas populares, compondo um fresco vibrante e mordaz da sociedade portuguesa oitocentista.

O percurso culmina em “Tragicomédia sem Limites” e “O Lápis como Arma”, núcleos que sublinham a dimensão mais combativa e, simultaneamente, mais incómoda da obra de Bordalo. Nada nem ninguém escapa ao seu olhar: instituições, figuras públicas, práticas religiosas, preconceitos sociais e raciais, estereótipos de género. Algumas dessas imagens, hoje confrontadas com novas sensibilidades, obrigam o visitante a questionar os limites do humor e a reconhecer nelas o espelho de uma mentalidade do século XIX. A exposição não as oculta; contextualiza-as, convidando à reflexão crítica sobre o riso como arma ambivalente, libertadora e, por vezes, violenta. Num período de crescente repressão, com a imprensa sob ameaça de censura e o espaço público vigiado, Bordalo assumiu o desenho como instrumento de intervenção cívica. O lápis tornou-se metáfora e prática de resistência. Denunciou abusos de poder, expôs incoerências, celebrou feitos anónimos e instigou a mudança. Mais do que uma retrospectiva biográfica, esta nova Exposição de Longa Duração afirma a actualidade de um criador total - caricaturista, ceramista, empresário, homem de teatro - cujo humor continua a interpelar-nos. Ao sair, o visitante percebe que rir, em Bordalo, nunca foi um gesto inocente: foi sempre uma forma de pensar o país e de o imaginar diferente.

domingo, 7 de junho de 2026

“Inventarium: Derivas da Forma” | Ana Aragão



EXPOSIÇÃO: “Inventarium: Derivas da Forma”,
de Ana Aragão
Esculturas | Frederico Diz
Casa Comum – Reitoria da Universidade do Porto
13 Abr > 12 Set 2026


Patente ao público na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto desde o passado dia 13 de Abril, a exposição “Inventarium: Derivas da Forma” inscreve-se num território onde o desenho se emancipa da sua condição de esboço para se afirmar como matriz plena de possibilidades. Distribuído por três salas, o percurso propõe um diálogo aberto entre a bidimensionalidade e o volume, construindo uma narrativa onde a linha deixa de ser gesto para se tornar génese. Densos na sua aparente leveza, os desenhos de Ana Aragão afirmam-se como dispositivos conceptuais em permanente expansão, recusando o fechamento formal e abrindo-se a sucessivas reinterpretações. Ao transitar para a escultura pelas mãos de Frederico Diz, este universo gráfico não se esgota nem se ilustra; antes se desloca, ganha corpo e contradiz a ideia de que a tridimensionalidade constitui um ponto de chegada. Há, neste gesto curatorial, uma inteligência subtil: a de expor o processo sem o cristalizar, permitindo que o visitante acompanhe a deriva das formas como quem observa um pensamento a acontecer.

Mais como fantasma do que como prática, o trabalho de Ana Aragão encontra na arquitectura o seu campo de tensão. As suas “anagrafias” urbanas, traçadas com uma minúcia quase obsessiva, não pretendem representar cidades no sentido convencional, mas sim cartografar experiências. Cada linha parece carregar uma memória, cada aglomerado sugere uma vivência, e é nessa ambiguidade, entre o rigor técnico e a imaginação afectiva, que reside a força da sua obra. Não se trata de edifícios, mas de vestígios humanos; não de plantas, mas de pulsações. Ao deslocar estas composições para o espaço escultórico, a exposição assume o risco de traduzir o íntimo em objecto. E, surpreendentemente, fá-lo sem trair a essência do desenho. As esculturas não impõem uma leitura, antes prolongam a hesitação original, preservando a ideia de cidade como organismo incompleto e mutável. O resultado é uma geografia emocional que se constrói tanto na precisão da linha como na sua capacidade de sugerir o indizível.

Entre a obstinação e a euforia, como alguém que se recusa a aceitar os limites da página, a artista constrói um universo onde cada linha é, simultaneamente, começo e desvio. É precisamente nesta ambição expansiva que a exposição enfrenta o seu maior desafio. Ao insistir na ideia de sistema aberto, de obra em permanente desdobramento, tem-se a percepção de que a tensão que torna os desenhos de Aragão tão singulares tende a diluir-se. A passagem ao volume, embora conceptualmente coerente, nem sempre mantém a mesma intensidade poética, por vezes aproximando-se de uma literalidade que o desenho sabiamente evita. Ainda assim, há momentos de verdadeira revelação, em que a transposição não só funciona como amplifica a experiência original, conferindo-lhe uma presença inesperada. O que permanece, no final, é a convicção de que Ana Aragão não desenha para representar, mas para pensar. Inventário de formas, este “Inventarium” é sobretudo um ensaio sobre a sua infinita possibilidade.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “Gravidade e(m) Suspensão” | Nazaré Álvares



EXPOSIÇÃO DE EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “Gravidade e(m) Suspensão”,
de Nazaré Álvares
Curadoria | Agostinho Santos
Casa da Cultura de Paredes
03 Mai > 13 Jun 2026


“Muito relacionada com a observação da contemporaneidade, usando a tela enquanto espaço de anotação e denúncia, Nazaré Álvares age com bravura ainda que toda a sua mensagem tenha que ver que nos sentimos predados, em risco, sucumbindo. Digo bravura porque as suas imagens são fortes, a sua figuração assume o feio e o incompleto, não se adorna para efeitos prazerosos, não há cosmética na sua obra. Tudo é debaixo da máscara. De alguma maneira, tudo é mostrado como por debaixo de todos os disfarces.”
Valter Hugo Mãe

Patente na Casa da Cultura de Paredes até ao próximo dia 13, a exposição “Gravidade e(m) Suspensão” mostra Nazaré Álvares como uma das vozes mais inquietas e insubmissas no actual panorama da pintura portuguesa contemporânea. Reunindo desenho e pintura numa convivência orgânica, a artista regressa a dois núcleos temáticos que têm marcado o seu trabalho recente - o auto-retrato e a imagem da torre de Babel - para os submeter a uma tensão simultaneamente íntima e simbólica. A arista escapa à armadilha da revisitação historicista, transformando os seus trabalhos num exercício de deslocação contemporânea, onde o peso da tradição é continuamente corroído por uma linguagem pictórica nervosa, crua e emocionalmente exposta. Há uma gravidade evidente nestas obras, não apenas no sentido material da tinta espessa, da pincelada pesada e da densidade do desenho, mas sobretudo na dimensão existencial que percorre cada figura. Toda a mostra parece oscilar entre o peso do corpo e uma estranha suspensão psicológica, como se as figuras habitassem um espaço intermédio entre a queda e a permanência. Suspensos entre resistência e vulnerabilidade, os corpos gastos e os rostos inquietos são aqui matéria e desconforto.

Existe em toda a exposição uma recusa deliberada do decorativismo e uma insistência quase ética na verdade emocional da representação. Nazaré Álvares parece interessar-se menos pela imagem exterior do rosto do que pelas marcas invisíveis da experiência humana - fadiga, memória, solidão, desgaste -, transformando o retrato num espaço de exposição interior raramente confortável. A artista trabalha o próprio rosto como território de confronto. Rejeitando exercícios narcísicos ou autobiográficos inconsequentes, cada obra parece colocar em causa a estabilidade da identidade. Vincadamente expressionistas, estes rostos mostram uma frontalidade difícil de sustentar na erosão emocional que deles se desprende. Pinceladas interrompidas, zonas aparentemente inacabadas, sobreposições violentas de tinta e uma paleta contida, dominada por negros, ocres e vermelhos densos, constroem figuras cuja carne é, simultaneamente, presença física e ferida psicológica. O desenho acompanha esta intensidade sem funcionar como mero suporte preparatório; pelo contrário, prolonga a dimensão diarística e confessional da pintura. As linhas surgem tensas, fragmentadas, como se registassem pensamentos ainda em estado bruto.

A presença recorrente da torre de Babel introduz uma dimensão mais ampla e simbólica no percurso da exposição. Longe de surgir como simples referência erudita à tradição ocidental, Babel aparece aqui como metáfora da instabilidade contemporânea, da incomunicabilidade e da permanente fragmentação do sujeito. Ao colocar estas estruturas verticais em diálogo com os auto-retratos, Nazaré Álvares estabelece uma ponte subtil entre e a vulnerabilidade individual e o colapso colectivo. A suspensão sugerida no título ganha uma nova força, não apenas pela sugestão do estado psicológico das figuras, mas também pela sensação civilizacional de desequilíbrio e ruína latente que exprime. Formalmente, a artista demonstra um domínio técnico sólido, perceptível tanto na construção compositiva como na relação entre desenho e pintura, ao serviço de uma fortíssima tensão expressiva. Essa ausência de artifício complacente faz de “Gravidade e(m) Suspensão” uma exposição particularmente relevante pelo que se desprende de uma pintura lenta, física e emocionalmente exigente, na qual olhar é confrontar.

terça-feira, 2 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “Cavaleiro Faria, um desenhador português do século XVIII”



EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “Cavaleiro Faria, um desenhador português do século XVIII”,
de Cavaleiro Faria
Museu Nacional Soares dos Reis
23 Abr > 28 Jun 2026


Na sequência das recentes exposições dedicadas aos “Desenhos de Mestres Europeus em Colecções Portuguesas”, “Cavaleiro Faria, um desenhador português do século XVIII” vem confirmar a atenção que o Museu Nacional Soares dos Reis dá ao desenho. A mostra surge ao abrigo do programa “Museu Nacional de Arte Antiga no Museu Nacional Soares dos Reis” e através dela é manifesta a intenção de devolver à discussão pública uma figura singular do desenho português setecentista. Envolto durante décadas na incerteza, o nome do artista conhecido pela assinatura “Eques Faria” surge agora plenamente identificado como Inocêncio de Faria e Aguiar, funcionário do Conselho da Fazenda, Cavaleiro da Ordem de Cristo e homem ligado à administração régia. A revelação da sua identidade não esgota, contudo, o fascínio da obra. Pelo contrário, amplia-o, porque o que surpreende nestes desenhos realizados a pena e tinta castanha é precisamente a tensão entre o rigor burocrático da escrita e a liberdade errante da pena.

Sem formação académica conhecida e desenhando num quase anonimato, Cavaleiro Faria construiu uma obra profundamente moderna na forma como regista o quotidiano. As romarias, as estalagens, os exercícios militares, as aldeias ou as ruínas clássicas mostram-se como fragmentos vivos de uma sociedade em transformação, captados por um artista que parece desenhar com o intuito de compreender o mundo e de, em simultâneo, o reinventar graficamente. A importância desta mostra reside ainda na possibilidade de reenquadrar o desenho português no contexto mais vasto da tradição europeia dos séculos XVII e XVIII, um tempo em que Nicolas Poussin, Charles Le Brun, Giovanni Battista Tiepolo ou Jean-Honoré Fragonard, entre outros, deslocavam o desenho para um espaço de intimidade, dando primazia à imaginação antes mesmo da matéria pictórica. É precisamente essa autonomia do desenho que a obra de Cavaleiro Faria convoca. Embora afastado das grandes escolas europeias e das encomendas oficiais da pintura histórica, o artista português partilha com esses mestres a capacidade de fazer do gesto gráfico uma linguagem plena, através da qual a economia de meios intensifica a expressividade do olhar.

A recuperação de um olhar periférico sobre o século XVIII português é outro dos aspectos relevantes nesta exposição. Enquanto grande parte da produção artística da época permaneceu ligada à representação religiosa ou aristocrática, os desenhos de Cavaleiro Faria aproximam-se da observação social e da experiência do quotidiano. Neles percebe-se um país atravessado por deslocações, festas populares, cenários rurais e gente anónima, quase como se o artista antecipasse uma sensibilidade documental que apenas séculos mais tarde se tornaria dominante. Adaptada da primeira exposição monográfica dedicada ao artista, organizada pelo Museu Nacional de Arte Antiga, o conjunto de obras apresentadas confirma a singularidade de uma prática artística privada, silenciosa e persistente. Mais do que revelar um amador talentoso, a exposição permite reconsiderar o próprio estatuto do desenho na história da arte portuguesa. O mérito do Museu Nacional de Arte Antiga e do Museu Nacional Soares dos Reis está precisamente em devolver centralidade a um artista que, desenhando à margem das academias e do prestígio oficial, acabou por criar um dos testemunhos gráficos mais originais do Portugal iluminista.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO: "Habitáculos do Ser" | Evelina Oliveira



EXPOSIÇÃO: “Habitáculos do Ser”,
de Evelina Oliveira
Curadoria | Rosalina Santos
Casa da Cultura de Paredes
03 Mai > 13 Jun 2026


“Habitáculos do Ser”, exposição de Evelina Oliveira inaugurada no passado dia 03 de Maio, na Casa da Cultura de Paredes, afirma-se como um exercício de contemplação sobre a permanência da vida no seio de uma natureza aparentemente frágil. Terna e delicadamente, a artista compõe um universo visual onde matéria e memória se confundem, convocando o visitante para uma experiência simultaneamente íntima e inquietante. As peças oferecem-se como se de microcosmos orgânicos se tratassem, abrigos simbólicos onde coexistem delicadeza e resistência, silêncio e transformação. Percebe-se uma dimensão quase ritual da natureza no conjunto apresentado, como se cada fragmento vegetal, cada pássaro ou forma híbrida, transportasse consigo uma narrativa subterrânea sobre o equilíbrio precário do mundo natural. Através de uma linguagem plástica imediatamente reconhecível, Evelina Oliveira deixa que as obras respirem na ambiguidade poética que lhes dá corpo, desafiando-nos a habitar estes territórios simbólicos e a conformarmo-nos com a vulnerabilidade do próprio acto de existir.

A exposição revela uma artista versátil, capaz de cruzar desenho, pintura, colagem, modelagem e instalação, sem que o resultado perca unidade estética. Em “Habitáculos do Ser”, os materiais parecem prolongamentos naturais das ideias que lhes dão origem, integrando-se numa composição onde o artesanal e o intuitivo convivem de forma harmoniosa. A madeira, suporte predominante em várias peças, reforça essa ligação primordial à terra e à matéria viva, enquanto os pequenos detalhes orgânicos introduzem uma sensação de movimento silencioso, quase respirável. E porém, por detrás da aparente serenidade cromática, existe uma subtil tensão dramática. As formas encerradas nestes “habitáculos” oscilam entre o refúgio e o confinamento, sugerindo uma reflexão sobre os limites da protecção num tempo marcado pela devastação ambiental e pelo afastamento do homem em relação ao mundo natural. Fugindo ao discurso panfletário, a artista opta por uma abordagem sensorial a pedir observação demorada. Há momentos em que o humor e a ironia se insinuam discretamente, quebrando a solenidade contemplativa e aproximando o olhar do espectador de uma dimensão mais humana e afectiva.

Existe nesta exposição uma crença serena na capacidade de sobrevivência, mesmo após eventos destruidores, e é talvez essa esperança discreta que mais intensamente permanece no olhar de quem percorre a mostra. A ameaça das alterações climáticas e os fenómenos extremos que pesam sobre a fragilidade e vulnerabilidade dos ecossistemas permanecem como uma presença silenciosa em muitas destas obras, ainda que nunca assumida de forma explícita ou ilustrativa. Entre o verde e a cinza, entre a perda e o renascer, Evelina Oliveira constrói uma narrativa visual profundamente marcada pela ideia de regeneração. Os pequenos seres que povoam estes trabalhos - aves, flores, figuras indefinidas - surgem como testemunhas frágeis de uma natureza em permanente reconstrução. Com enorme delicadeza, a artista oferece uma visão poética do mundo natural enquanto espaço de resistência e continuidade. “Habitáculos do Ser” confirma, assim, a maturidade artística de Evelina Oliveira e a consistência de um percurso que alia rigor técnico, imaginação e sensibilidade crítica. Mais do que uma representação da natureza, a exposição propõe uma reflexão sobre a nossa relação com ela - uma relação feita de pertença, responsabilidade e espanto.

domingo, 26 de abril de 2026

EXPOSIÇÃO DE GRAVURA: “Paula Rego: Histórias Gravadas. Da Imaginação para a Chapa”



EXPOSIÇÃO DE GRAVURA: “Paula Rego: Histórias Gravadas. Da Imaginação para a Chapa”,
de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro
Fórum da Maia
14 Mar > 03 Mai 2026


A exposição que agora pode ser vista no Fórum da Maia serve de preâmbulo à compreensão de uma dimensão essencial da obra de Paula Rego: o desenho enquanto matriz de pensamento e a gravura enquanto território de experimentação figurativa. Longe de constituir um mero desvio técnico face à pintura, a prática da gravura afirma-se, no conjunto da obra da artista, como campo autónomo onde ela encontra uma forma de depuração e, simultaneamente, de multiplicação das suas histórias. Desde as primeiras experiências até à maturidade das séries apresentadas, percebe-se como a passagem da imaginação para a chapa implica uma tradução singular - mais directa, por vezes mais crua, mas também mais ágil. Obras como “Unicórnio”, de 2008, sintetizam esse gesto quase alquímico, a criação como acto mágico inscrito na própria matéria. Ao longo da mostra, a gravura revela-se como técnica, mas também como linguagem estruturante que permite à artista desenvolver ciclos narrativos onde as imagens se encadeiam, se repetem e se transformam, como se cada prova fosse simultaneamente tema e variação.

Avançar no percurso é ver que a exposição se organiza como uma deriva narrativa que acompanha a própria lógica de trabalho de Paula Rego. Depois do gesto inaugural de “Unicórnio”, onde a dimensão quase mágica da litografia se afirma, o visitante encontra o núcleo dedicado ao teatro, no qual as figuras assumem formas fortes e gestos expressivos para contar histórias, muitas vezes fruto de uma encenação prévia de “fantasmas” ou figuras no seu atelier antes de passar a imagem para o papel. O universo da artista assume a violência e o absurdo como motores de criação, dando origem a imagens densas, atravessadas por uma inquietação latente. Segue-se “O vinho” (2007), conjunto onde a crítica social se impõe com particular acuidade, evocando memórias do Estado Novo e expondo a banalização do consumo de álcool e as suas consequências no tecido familiar. Este núcleo marca uma inflexão, trazendo para o centro da exposição uma realidade dura, sem concessões, que contrasta com a dimensão alegórica de outros trabalhos.

A partir daqui, o percurso encaminha-se progressivamente para o território ambíguo da infância, tema estruturante na obra da artista. Na “Cruzada das Crianças”, inspirada numa enigmática narrativa medieval, as figuras infantis surgem investidas de uma gravidade desconcertante, presas entre a inocência e a responsabilidade excessiva. Em seguida, a série “Peter Pan”, baseada no texto de J. M. Barrie, revisita um imaginário aparentemente encantado para revelar o seu reverso mais sombrio, onde o medo e a crueldade se insinuam sob a superfície da fantasia. O percurso culmina nas “Nursery Rhymes”, nas quais a artista regressa às rimas e cantigas de infância da tradição inglesa, filtrando-as por um olhar que privilegia o insólito e o simbólico, num jogo subtil entre humor e perturbação. Este desfecho reforça a ideia de que, em Paula Rego, a gravura é uma linguagem viva feita de imagens que prolongam e reinventam incessantemente o poder das histórias.

terça-feira, 17 de março de 2026

EXPOSIÇÃO: “Húmus” | Júlio Pomar, Graça Morais, Daniel Moreira, Rita Castro Neves



EXPOSIÇÃO: “Húmus”,
de Júlio Pomar, Graça Morais, Daniel Moreira e Rita Castro Neves
Curadoria | Ana Rito
Atelier-Museu Júlio Pomar
26 Nov 2025 > 05 Abr 2026


Patente até 5 de Abril no Atelier-Museu Júlio Pomar, “Húmus” apresenta-se como um ensaio visual que mergulha na matéria obscura onde vida e morte se entrelaçam. O título convoca o universo de Raul Brandão e de Herberto Hélder, dois autores que, em momentos distintos do século XX, imaginaram a terra como arquivo da morte e simultaneamente como promessa de regeneração. A exposição não procura ilustrar os seus textos, antes trabalha a partir da sua vibração simbólica. Tal como no romance homónimo de Raul Brandão, cujas figuras parecem encerradas numa crosta mineral e suspensas entre o espanto e o absurdo, também aqui as imagens surgem como fragmentos de um mundo em fermentação. Pinturas, desenhos, palavras e objectos acumulam-se como camadas do solo, compondo uma paisagem descontínua onde memória e imaginação se sedimentam. A metáfora do húmus, matéria em decomposição que prepara a fertilidade futura, torna-se, assim, um princípio curatorial: aquilo que desaparece não se extingue, antes alimenta novas formas de vida e de sentido.

No centro deste território simbólico encontram-se as obras de Júlio Pomar e Graça Morais, cuja presença assume um carácter quase embrionário dentro da constelação expositiva. Nos bichos, desenhos e objectos de Pomar percebe-se um impulso primordial, como se cada figura estivesse ainda a emergir do interior da terra. As suas criaturas não são meros motivos figurativos: são presenças inquietas, organismos em formação que parecem carregar consigo o próprio campo de trabalho da imagem. Já em Graça Morais as figuras femininas confundem-se com raízes, galhos, insectos ou fragmentos de paisagem. São corpos híbridos, suspensos entre o humano e o vegetal, entre a terra e a noite. O seu fulgor metamórfico dissolve fronteiras e sugere que a identidade não é fixa, mas atravessada por forças naturais e ancestrais. Em ambos os artistas, a imagem nasce como se fosse matéria viva, algo que germina lentamente no húmus da memória, entre a sombra da morte e a promessa da transformação.

É nesse solo fértil que se inscreve o diálogo com as práticas contemporâneas de Daniel Moreira e Rita Castro Neves. As suas presenças animais, os musgos e objectos que evocam uma paisagem primordial, parecem prolongar a energia matricial sugerida pelas obras de Júlio Pomar e Graça Morais. Não se trata de estabelecer uma genealogia linear, mas antes de activar uma espécie de continuidade subterrânea, como se as imagens circulassem de geração em geração através de um mesmo substrato simbólico. As obras de Daniel Moreira e Rita Castro Neves recuperam esse imaginário orgânico — a terra, o animal, a matéria húmida — e reconfiguram-no num registo contemporâneo que oscila entre a arqueologia e a ficção. O que emerge é uma sensação de ancestralidade activa: a ideia de que o futuro da imagem se alimenta de restos, de resíduos e de fragmentos herdados, como se a criação artística fosse um processo contínuo de decomposição e renascimento.

Organizada como uma montagem de visões, “Húmus” recusa qualquer linearidade narrativa. A exposição constrói-se antes como uma sucessão de estratos, onde cada obra surge como uma parcela de terra na qual realidade e sonho se depositam em camadas instáveis. As palavras de Raul Brandão e Herberto Hélder insinuam-se nas paredes do Atelier-Museu Júlio Pomar como um magma silencioso, enquanto as imagens se aproximam e afastam num jogo de ressonâncias e deslocamentos. O visitante atravessa, assim, um território de metamorfoses ao longo do qual o humano e o não-humano se misturam e confundem, e onde o visível parece sempre prestes a transformar-se numa qualquer outra coisa. Mais do que um conjunto de obras reunidas sob um tema comum, “Húmus” propõe uma experiência sensorial e meditativa sobre a própria condição da imagem: algo que nasce do escuro, cresce entre restos e regressa continuamente ao mundo como clarão breve, mas intensamente vivo.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: “A Marginália de Amadeo” | Amadeo Souza-Cardoso



EXPOSIÇÃO: “A Marginália de Amadeo”,
de Amadeo Souza-Cardoso
Curadoria | Samuel Silva
Sociedade Nacional de Belas Artes
30 Jan > 28 Fev 2026


O que retemos de Amadeo ao demorarmos o nosso olhar sobre a sua inquietude criativa desde tenra idade? O que nos revela a sua marginália? Patente na Sociedade Nacional de Belas Artes, a exposição “A Marginália de Amadeo” parte dessas interrogações para deslocar o foco das composições consagradas para as franjas do gesto, para o risco aparentemente distraído, para o desenho que nasce no canto da página. Ao recentrar a obra do pintor nas suas margens, a mostra propõe uma revisão crítica do modernismo português, no preciso lugar onde o traço hesita, falha ou se interrompe, onde revela a sua energia primordial. A incerteza torna-se método; o esboço, território de liberdade. Dos tempos de infância, nos manuais escolares guardados na biblioteca da Casa de Manhufe, emergem figuras satíricas, deformações caricaturais, pequenas cenas mordazes. Há humor e crueldade benigna, mas também uma atenção aguda ao detalhe, uma pulsão gráfica que antecede a pintura e a contamina. O que parecia acessório ganha estatuto de centro. A margem deixa de ser limite para se afirmar como campo de ensaio e laboratório de linguagem, onde a dúvida se teatraliza e o desenho se assume como gesto infinito, sempre em aberto.

Organizada em quatro núcleos cromáticos, a exposição conduz o visitante por territórios distintos dessa inquietação. No “amarelo-milho”, o humor e as metamorfoses surpreendem pela precocidade, com os seus narizes exagerados, professores caricaturados, objectos do quotidiano investidos de teatralidade. No “azul-cobalto turquesa”, a animália e as paisagens revelam uma “anima” em expansão. Cavalos, aves, touros e criaturas híbridas convivem com rios, comboios e casas, numa geografia afectiva que oscila entre o real e o imaginado. O núcleo “preto”, dedicado ao retrato e ao autorretrato, expõe a veia crítica do artista, visível desde cedo na forma como interpela figuras de autoridade e estruturas de poder. Já o “vermelho veneziano” encerra a vertigem verbicovisual: assinaturas reescritas até à exaustão, monogramas, jogos caligráficos, a palavra transformada em imagem. Pelo caminho, cruzam-se postais, cartas e pinturas paradigmáticas, compondo um arquivo vivo onde o risco e a dúvida são assumidos como motores de criação. A margem, aqui, é espaço de insubmissão e questionamento.

Um dos momentos mais eloquentes da mostra coloca em diálogo a pintura “Canção Popular” com um postal enviado a Constantin Brancusi. A moldura original, encomendada por Amadeo aos tanoeiros de Manhufe, é intervencionada com letras e algarismos que extravasam o plano pictórico, convertendo o quadro em objecto expandido. Tal gesto ecoa a ruptura operada por Brancusi ao libertar a escultura do pedestal. Em ambos avulta a insurgência contra a margem enquanto fronteira estanque. A imagem de uma onda que rebenta sobre o paredão de Biarritz - escolhida para o postal - funciona como metáfora dessa pulsão transbordante. Também no interior de livros, como “Cavar em ruínas” de Camilo Castelo Branco, surgem retratos desenhados nas guardas, testemunho de uma leitura activa e interventiva. A marginália revela, assim, um artista que nunca aceita o suporte como dado adquirido: intervém, comenta, corrige, ironiza. O espaço da página torna-se arena crítica, onde a intimidade do traço convive com a ousadia conceptual.

A exposição culmina com a projecção do manuscrito ilustrado “A lenda de São Julião Hospitaleiro”, a partir do texto de Gustave Flaubert, realizado na Bretanha em 1912. Não se trata de mera adaptação, mas de interpretação plástica e subjectiva, onde literatura, pintura e design gráfico se fundem numa síntese experimental rara no contexto português. Ao reunir um vasto conjunto de obras - muitas inéditas, provenientes de colecções privadas, do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso e da própria família, a mostra inscreve-se no projecto “Paisagens Visuais”, apoiado pela Direcção-Geral das Artes, e propõe uma itinerância que reforça o diálogo com o território. Na Sociedade Nacional de Belas Artes, “A Marginália de Amadeo” afirma-se como chave de leitura maior: revela um artista livre, irreverente, experimental, para quem a criação começa precisamente onde a norma termina. Demorar o olhar sobre essas margens é reconhecer que nelas pulsa o coração inquieto da modernidade.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade” | Nadir Afonso



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Território de Absoluta Liberdade”,
de Nadir Afonso
Comissária | Alexandra Silvano
Sociedade Nacional de Belas-Artes
04 Fev > 14 Mar 2026


“O raciocínio compreende, a sensibilidade sente. A arte é a única disciplina que exige as duas faculdades: uma sensibilidade intuitiva, elaborada e elevada ao nível do raciocínio mas não o raciocínio que tenta em vão compreender a exactidão essencial. E foi este o trabalho isolado, único da minha vida.”
Nadir Afonso

Entre o regresso e a repetição vai um abismo que só a grande arte consegue abrir. Voltar a ver “Território de Absoluta Liberdade”, agora na Sociedade Nacional de Belas-Artes, depois da apresentação no Museu do Côa, não é um mero exercício de confirmação; é antes a prova de que a obra de Nadir Afonso resiste à memória e desafia o hábito. Com algumas excepções, os trabalhos são os mesmos, mas o olhar nunca o é. E é precisamente nessa fricção, entre o já visto e o inesperado, que se revela a força de um percurso construído ao longo de mais de sete décadas, assente numa convicção rara, a de que a arte obedece a leis universais de criação. A itinerância da mostra — que passou também pelo Museu Amadeo de Souza-Cardoso e seguirá para a Galeria Nova Ogiva — reforça essa ideia de permanência em movimento. O que se desloca não é apenas um conjunto vasto de obras, mas um pensamento plástico coerente, imune a modas e circunstâncias, que encontra em cada espaço novas tensões e ressonâncias.

Formado em Arquitectura pela Universidade do Porto, colaborador de Le Corbusier em Paris e de Oscar Niemeyer no Brasil, Nadir Afonso cedo percebeu que o seu território não poderia ser o da função, mas o da intuição estética. A ruptura definitiva com a arquitectura, em 1965, marca mais do que uma mudança pessoal e profissional: afirma uma posição filosófica. Para o artista, a cidade não é lugar, é ideia; não é urbanismo, é geometria pensada. As telas reunidas nesta exposição — sobretudo as de grande formato da fase final — mostram uma depuração extrema, onde linhas e planos cromáticos se articulam com um rigor matemático e uma vibração sensível. Há nelas ecos das vanguardas europeias, do abstraccionismo geométrico ao cinetismo, mas há sobretudo uma fidelidade inabalável a um programa pessoal: a descoberta das leis objectivas da beleza. Cada composição parece propor uma cartografia do invisível, uma arquitectura mental onde nada falta e nada sobra.

Se a curadoria propõe uma leitura simultaneamente cronológica e sensorial, o visitante é convocado para algo mais exigente: um confronto com a ideia de liberdade enquanto disciplina. “Território de Absoluta Liberdade” não celebra o gesto espontâneo, mas a construção rigorosa de um mundo autónomo, erguido contra a arbitrariedade. Entre o surrealismo inicial, as fases organicistas e os “Espacillimités”, até ao realismo geométrico maduro, reconhece-se uma coerência que desmente qualquer dispersão. A liberdade de Nadir não é a do improviso, mas a da fidelidade a uma verdade interior que se quer universal. Talvez por isso voltar ao mesmo lugar nunca seja redundante: cada reencontro com estas cidades imaginadas produz uma inquietação renovada. Ao regressar às mesmas obras, descobrimos que não são elas que mudaram - somos nós. E é nesse desfasamento, nesse intervalo entre a obra fixa e o olhar móvel, que a pintura de Nadir Afonso continua a afirmar-se como um dos mais sólidos e perturbadores capítulos da arte portuguesa do século XX.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: "Complexo Brasil"



EXPOSIÇÃO: “Complexo Brasil”
Vários artistas
Curadoria | José Miguel Wisnik, Milena Britto, Guilherme Wisnik
Fundação Calouste Gulbenkian
14 Nov 2025 > 17 Fev 2026


Num tempo de fronteiras tensas e discursos inflamados sobre a imigração, tempo em que brasileiras e brasileiros sentem na pele e na alma o peso da desconfiança e da estigmatização, a Fundação Calouste Gulbenkian abre as portas a um gesto raro, o de olhar a História sem fazer dela arma de arremesso. Pensada aquando do bicentenário da Independência, “Complexo Brasil” nasce desse desconforto mútuo, desse estranhamento antigo entre dois povos que revelam um desconhecimento recíproco profundo. Com o intuito de colmatar lacunas e lançar luz sobre as muitas sombras que persistem, foi lançado o convite a José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik para assumirem a curadoria da exposição e explicarem um Brasil que não é só praias, futebol e Carnaval. A ousadia foi aceite como quem aceita decifrar uma esfinge. O Brasil não é para principiantes, não é para estagiários da alma. É um imenso pedaço de terra e água, amado e complexo, feito de heranças caleidoscópicas, de sincretismos que se entranham, de contradições que não pedem licença.

A arquitectura modernista da Gulbenkian vê-se inundada por uma chuva de cor, penas e cipós, redes e mantos, vozes e batuques. Antes dos chamados “descobrimentos”, já havia mundo: povos originários, cosmologias, mantos tupinambás resgatados da diáspora dos museus europeus. O tapuia de Eckhout encara-nos sob um céu cinzento importado da Holanda; ao lado, o manto refeito por Glicéria Tupinambá restitui o azul ao firmamento. Entre um corpo que é rua e a emoção à flor da pele, ergue-se o espectro da escravatura, ferro e fogo que ainda arde. Debret expõe a crueldade doméstica; Portinari dá ao lavrador pés desmedidos e cabeça exígua; “A Redenção de Cam” encena o branqueamento como promessa sinistra. Nuno Ramos rasga a cruz na areia; os orixás erguem o machado-cruz de Xangô; o candomblé responde ao sino. Se há antropofagia, é fusão e rito; se há dor, é memória que não se consente esquecer. “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas dos escravizados.” E, contudo, a felicidade insiste como sentimento colectivo, a “gostosura” de viver atravessa fotografias e pinturas, enquanto baldes de plástico azul, verde e amarelo nos transportam de Lisboa a qualquer esquina do Brasil.

Entre Brasília — ousadia erguida na terra vermelha, alma que não faz sombra no chão — e a Amazónia, alfa e ómega de um país a mil velocidades, a mostra tece miscigenações como redes de baloiço. Parte do que ali está também imigrou: obras espalhadas pelo mundo regressam para contar a diáspora inscrita no ADN brasileiro. Vídeos convocam o visitante a sentar-se nos degraus e a ver o pescador abraçar o peixe agonizante, o consolo e o respeito num gesto só. Instalações fazem dialogar o construtivismo com o transe: o “Manto da Apresentação” de Arthur Bispo do Rosário prepara-se para o Juízo Final com nomes e fios azuis arrancados ao confinamento. Nossa Senhora Aparecida é negra e veste manto bordado a prata. Mães de santo, mães de filhos, mulheres de cabelo erguido entre a vergonha e o orgulho, benzem crianças. Nem ajuste de contas, nem libelo acusatório, “Complexo Brasil” é um enredo, um ponto de vista, de encontro e entendimento, capaz de incluir o outro em si, em vez de o excluir como ameaça. E talvez, entre colonizadores e colonizados, o espelho devolva menos culpa e mais complexidade. Está dito.