Num tempo de fronteiras tensas e discursos inflamados sobre a imigração, tempo em que brasileiras e brasileiros sentem na pele e na alma o peso da desconfiança e da estigmatização, a Fundação Calouste Gulbenkian abre as portas a um gesto raro, o de olhar a História sem fazer dela arma de arremesso. Pensada aquando do bicentenário da Independência, “Complexo Brasil” nasce desse desconforto mútuo, desse estranhamento antigo entre dois povos que revelam um desconhecimento recíproco profundo. Com o intuito de colmatar lacunas e lançar luz sobre as muitas sombras que persistem, foi lançado o convite a José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik para assumirem a curadoria da exposição e explicarem um Brasil que não é só praias, futebol e Carnaval. A ousadia foi aceite como quem aceita decifrar uma esfinge. O Brasil não é para principiantes, não é para estagiários da alma. É um imenso pedaço de terra e água, amado e complexo, feito de heranças caleidoscópicas, de sincretismos que se entranham, de contradições que não pedem licença.
A arquitectura modernista da Gulbenkian vê-se inundada por uma chuva de cor, penas e cipós, redes e mantos, vozes e batuques. Antes dos chamados “descobrimentos”, já havia mundo: povos originários, cosmologias, mantos tupinambás resgatados da diáspora dos museus europeus. O tapuia de Eckhout encara-nos sob um céu cinzento importado da Holanda; ao lado, o manto refeito por Glicéria Tupinambá restitui o azul ao firmamento. Entre um corpo que é rua e a emoção à flor da pele, ergue-se o espectro da escravatura, ferro e fogo que ainda arde. Debret expõe a crueldade doméstica; Portinari dá ao lavrador pés desmedidos e cabeça exígua; “A Redenção de Cam” encena o branqueamento como promessa sinistra. Nuno Ramos rasga a cruz na areia; os orixás erguem o machado-cruz de Xangô; o candomblé responde ao sino. Se há antropofagia, é fusão e rito; se há dor, é memória que não se consente esquecer. “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas dos escravizados.” E, contudo, a felicidade insiste como sentimento colectivo, a “gostosura” de viver atravessa fotografias e pinturas, enquanto baldes de plástico azul, verde e amarelo nos transportam de Lisboa a qualquer esquina do Brasil.
Entre Brasília — ousadia erguida na terra vermelha, alma que não faz sombra no chão — e a Amazónia, alfa e ómega de um país a mil velocidades, a mostra tece miscigenações como redes de baloiço. Parte do que ali está também imigrou: obras espalhadas pelo mundo regressam para contar a diáspora inscrita no ADN brasileiro. Vídeos convocam o visitante a sentar-se nos degraus e a ver o pescador abraçar o peixe agonizante, o consolo e o respeito num gesto só. Instalações fazem dialogar o construtivismo com o transe: o “Manto da Apresentação” de Arthur Bispo do Rosário prepara-se para o Juízo Final com nomes e fios azuis arrancados ao confinamento. Nossa Senhora Aparecida é negra e veste manto bordado a prata. Mães de santo, mães de filhos, mulheres de cabelo erguido entre a vergonha e o orgulho, benzem crianças. Nem ajuste de contas, nem libelo acusatório, “Complexo Brasil” é um enredo, um ponto de vista, de encontro e entendimento, capaz de incluir o outro em si, em vez de o excluir como ameaça. E talvez, entre colonizadores e colonizados, o espelho devolva menos culpa e mais complexidade. Está dito.
Sem comentários:
Enviar um comentário