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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Turn Around - Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP” | Vários artistas



EXPOSIÇÃO: “Turn Around - Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP”,
de Adriana Proganó, Ana Jotta, Bruno Cidra, Gabriel Abrantes, Joana Vasconcelos, João Ferro Martins, João Paulo Feliciano, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, José Pedro Croft, Luisa Cunha, Maria Beatriz, Rodrigo Oliveira, Sérgio Pombo, Tiago Baptista (1.ª parte) e Álvaro Lapa, Ana Cardoso, Ana Hatherly, Ana Vieira, Ângelo de Sousa, António Areal, António Palolo, Augusto Alves da Silva, Diogo Pimentão, Eduardo Batarda, Fernanda Fragateiro, Fernando Calhau, Gonçalo Barreiros, Helena Almeida, João Onofre, João Queiroz, Joaquim Bravo, Jorge Martins, Jorge Molder, José Almeida Pereira, José Barrias, José Loureiro, José Pedro Cortes, José Pedro Croft, Julião Sarmento, Leonor Antunes, Lourdes Castro, Luísa Jacinto, Manuel Baptista, Manuel Rosa, Maria Beatriz, Maria Capelo, Maria José Oliveira, Mariana Gomes, Noronha da Costa, Paulo Nozolino, Pedro Calapez, Rosa Carvalho, Rui Chafes, Rui Sanches, Salomé Lamas, Sara Bichão, Sara Chang Yan, Susanne S. D. Themlitz (2.ª parte)
Curadoria | João Pinharanda, Margarida Almeida Chantre, Sérgio Mah
MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
11 Fev 2026 > 25 Jan 2027 (1.ª parte)
29 Abr 2026 > 11 Jan 2027 (2.ª parte)


“Turn Around – Um Olhar sobre a Colecção de Arte Fundação EDP” parte de uma premissa tão simples quanto exigente: olhar para uma colecção é também olhar para a história que a tornou possível. Reunindo cerca de noventa obras de cinquenta e oito artistas, a exposição percorre mais de seis décadas de criação contemporânea em Portugal, mas recusa a confortável tentação de se apresentar como uma narrativa linear. Em vez de uma história arrumada por gerações, movimentos ou cronologias, propõe uma sucessão de encontros, atritos e reverberações. É nesse confronto que a exposição ganha espessura: entre a herança conceptual e as linguagens mais recentes, entre o corpo e a sua ausência, entre o negro e a cor, entre a matéria e aquilo que nela se procura fazer desaparecer. A voz de Luisa Cunha, que recebe o visitante, funciona quase como uma senha para esse percurso de avanços e recuos, enquanto obras de Jorge Molder, Rui Chafes, Rui Sanches ou Julião Sarmento estabelecem desde logo uma atmosfera de estranheza e inquietação. O mérito está menos na dimensão da mostra do que na capacidade de fazer uma colecção institucional funcionar como matéria crítica, revelando continuidades inesperadas e, sobretudo, as fracturas de uma arte contemporânea portuguesa que nunca coube inteiramente numa única narrativa.

A arquitectura da Central Tejo desempenha um papel que vai muito além do de simples cenário. Na galeria Baixa Pressão Norte, onde a antiga estrutura industrial se encontra domesticada pela disposição museológica das salas, as obras podem ser vistas com maior concentração e num regime de relações mais próximo do habitual. Já na Baixa Pressão Sul, o edifício regressa à condição de presença física: as estruturas de ferro, a escala e a memória de um lugar concebido para a produção entram em choque com objectos que pertencem a uma outra economia, a da representação, do desejo e da crítica. É particularmente feliz a opção por deixar que esse confronto produza tanto tensão como humor. A cabina de marinheiros de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, o kitsch produtivo de Joana Vasconcelos, o monumental e absurdo “Marmitex, Guggenheim ibérico”, de Rodrigo Oliveira, ou o diálogo impossível entre dois candeeiros em João Paulo Feliciano mostram como a arte pode ocupar o espaço industrial sem o neutralizar, ainda que a abundância de propostas ameace nivelar diferenças e transformar o percurso numa sucessão de estímulos. É um risco inerente a qualquer exposição de colecção, mas aqui a própria arquitectura ajuda a contrariá-lo: obriga o olhar a mudar de escala, de ritmo e de disposição.

O título “Turn Around” ganha então um sentido mais amplo do que o de simples instrução ao visitante. Mandar virar, voltar atrás, olhar de novo: eis o gesto que melhor define uma exposição onde a memória não é apresentada como património imóvel, mas como algo que se reconfigura a cada aproximação. As obras mais antigas não surgem como relíquias de uma história já encerrada, nem as mais recentes como confirmação automática de uma suposta evolução. António Palolo pode dialogar com Luísa Jacinto; Lourdes Castro encontra ecos em pesquisas posteriores sobre o corpo, a paisagem ou a linha; Ana Jotta e José Pedro Croft continuam a pôr em causa a dignidade convencional do objecto artístico. E é justamente nessa instabilidade que a exposição se torna mais interessante. A colecção da Fundação EDP, com as suas cerca de duas mil e quinhentas obras, não é aqui celebrada apenas pela dimensão ou pela representatividade: é posta à prova. O que esta selecção demonstra é que uma colecção só ganha verdadeira relevância quando deixa de ser inventário e passa a questionar. Entre o rigor histórico e a liberdade associativa, “Turn Around” consegue, na maior parte do tempo, fazer isso: devolver as obras ao presente, onde podem voltar a incomodar, surpreender e contrariar aquilo que julgávamos já saber sobre elas.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

CERTAME: XXIV Bienal Internacional de Arte de Cerveira



CERTAME: XXIV Bienal Internacional de Arte de Cerveira
Direção artística | Mafalda Santos
Vila Nova de Cerveira, vários locais
18 Jul > 30 Dez 2026


Fundada em 1978, a Bienal Internacional de Arte de Cerveira surge de uma circunstância que hoje parece quase improvável: levar a arte contemporânea para uma pequena vila do Alto Minho, longe dos circuitos onde habitualmente se decide a sua visibilidade. Sequência lógica dos Encontros Internacionais de Arte promovidos por Jaime Isidoro, a Bienal encontrou em Cerveira, com o acolhimento do então presidente da Câmara, Lemos Costa, um território disponível para a sua manifestação. A primeira Bienal foi, por isso, mais do que uma exposição: foi um gesto de abertura, num país que acabava de sair da ditadura, e uma aposta na arte como instrumento de transformação social. Quarenta e oito anos depois, a XXIV edição retoma essa vocação sob o título “Territórios sem Fronteira”. A expressão não é apenas um conceito curatorial conveniente. Em Cerveira, a fronteira é uma realidade quotidiana, inscrita no rio, na proximidade com a Galiza e numa história feita de circulação, comércio, emigração e contrabando. A Bienal soube transformar essa condição periférica em argumento central, fazendo do que poderia ser uma fragilidade uma espécie de vantagem crítica.

É também aí que reside uma das razões da importância histórica da Bienal. Vila Nova de Cerveira não se limita a receber uma exposição que poderia estar em qualquer grande cidade; a exposição passa a produzir sentido a partir do lugar que a acolhe. Desde as primeiras manifestações, que chegaram a provocar estranheza e escândalo com a irrupção da performance no espaço público, até à actual vocação internacional, a Bienal foi construindo uma relação singular entre criação artística, território e comunidade. O seu percurso acompanha, aliás, boa parte da história recente da arte portuguesa, tendo acolhido nomes que se tornariam fundamentais, de José Rodrigues, Clara Meneres e Ângelo de Sousa a Vieira da Silva, Paula Rego, Pedro Croft ou Cabrita Reis, sem descurar os artistas emergentes. Hoje, essa herança ganha uma dimensão particularmente significativa: cerca de novecentas candidaturas, provenientes de cinquenta e dois países, deram origem a uma selecção internacional que reúne trinta e seis artistas. Não é pouca coisa para uma vila do Minho, mas é essa desproporção que continue a tornar a Bienal necessária, provando, edição após edição, que a geografia da arte não tem de coincidir com a geografia do poder cultural.

Atravessar os vários núcleos da XXIV Bienal é, por isso, também atravessar diferentes maneiras de pensar o presente. Em “¿De qué casa eres?”, quarenta e seis artistas de dezasseis países fazem da casa uma condição instável, afectiva e política, entre diáspora, memória e deslocação. Ali, Vhils rasga a parede em Nexus, fazendo da própria arquitectura uma fronteira que o corpo atravessa; Yonamine recolhe objectos encontrados em Cerveira e reorganiza-os numa cartografia de memórias; João Penalva transforma uma simples linha de giz, continuamente refeita depois de ser pisada, numa metáfora elementar e poderosa das fronteiras que inventamos. Ao lado destas obras contemporâneas, o diálogo com Vieira da Silva, Amadeo de Souza Cardoso, Dacosta, Arpad Szenes ou Paula Rego introduz uma outra temporalidade que nos vem lembrar que a história da arte portuguesa também foi feita de exílio, deslocação, resistência e pertença. E “Luso Lunar”, dedicada a Silvestre Pestana, acrescenta a esse percurso uma espécie de memória interna da própria Bienal. Presente em todas as edições desde 1978, o artista funciona aqui como testemunha e matéria viva de uma história que a exposição recupera para a confrontar com o presente.

A dimensão mais consequente desta edição, vamos encontrá-la para além dos seus espaços centrais. A Bienal estende-se à Biblioteca Municipal, à Galeria Bienal, ao Museu Bienal, ao Convento de São Paio e às quinze freguesias do concelho, fazendo das residências artísticas e dos projectos de proximidade uma verdadeira política de descentralização. Em “Vai-Vem”, Cláudia Varejão, Eric Fok e Mariana Maia Rocha trabalham a partir do contacto com as comunidades; em “Ocre”, Alexandre Delmar aproxima-se da memória mineira da Serra d’Arga e do Grupo de Bombos Divino Salvador de Covas. É neste movimento de saída que a Bienal talvez encontre a sua forma mais convincente de contemporaneidade: não levar simplesmente a arte para um lugar distante dos centros, mas deixar que esse lugar intervenha na própria arte. Cerveira deixa de ser cenário e torna-se matéria. A fronteira deixa de ser limite e transforma-se em método. E a descentralização deixa de ser uma compensação pela distância dos grandes centros para assumir a possibilidade de produzir cultura a partir de outros lugares, outras memórias e outras comunidades, sem pedir licença a ninguém.

domingo, 30 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós]” | Maria Madeira



EXPOSIÇÃO: “You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós]”,
de Maria Madeira
Museu do Oriente
14 Ago > 13 Dez 2026


A exposição “You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós]”, patente no Museu do Oriente, em Lisboa, coloca no centro do olhar a obra de Maria Madeira, artista timorense-australiana cuja criação nasce de uma experiência marcada pelo deslocamento, pela memória e pela procura de uma identidade feita de várias geografias. Nascida em Gleno, Ermera, Maria Madeira tinha nove anos quando, em 1976, foi evacuada de Timor-Leste, com a família, pela Força Aérea Portuguesa, depois de um período de fuga e refúgio em Timor Ocidental. Seguiram-se anos num campo de refugiados da Cruz Vermelha, nos arredores de Lisboa, antes da emigração para a Austrália, em 1983. É desse percurso entre Timor, Portugal e Austrália que nasce uma exposição construída em torno de uma pergunta aparentemente simples, mas de profundas implicações: como passar do “eu” ao “nós”, do “mim” ao “nós”? Ao longo de trinta e quatro pinturas, desenhos, tecidos, colagens e instalações, Madeira confronta a experiência individual com uma memória colectiva, procurando transformar a dor, a perda e a distância em matéria de encontro.

A relação entre Portugal e Timor-Leste percorre toda a exposição, não como uma narrativa linear da história, mas como um território de afectos, tensões e sobrevivências. Na obra de Maria Madeira, a herança colonial portuguesa cruza-se com crenças ancestrais, práticas comunitárias e uma cultura material em que o papel das mulheres assume particular relevância. O “tais”, tecido tradicional timorense, surge como elemento fundamental dessa reflexão: mais do que objecto artesanal, é suporte de memória, instrumento de troca e expressão de vínculos entre pessoas, famílias e clãs. A própria história da artista encontra-se ligada a essa tradição através de Dona Verónica Pereira Maia, tecelã que conheceu durante os anos passados no campo de refugiados e que viria a inspirar a sua prática. Também a memória materna ganha forma quando a artista recupera peças de croché feitas pela mãe e as sobrepõe ao “tais”, submetendo o conjunto à luz intensa da Austrália Ocidental. O gesto deixa marcas no tecido e transforma a ausência em presença: os dedos da mãe, o trabalho das mulheres e a herança das antepassadas tornam-se visíveis numa espécie de arqueologia íntima.

Terra vermelha, lama, pedras trituradas, café, Betadine, tinta, fibras e fios de “tais” encontrados em sobras de tecido compõem uma linguagem plástica deliberadamente física, onde a matéria transporta consigo histórias de violência, resistência e regeneração. As manchas e os vestígios de noz de areca evocam os encontros e rituais timorenses, enquanto a Betadine, associada ao tratamento das feridas, introduz uma dimensão de dor que remete para as marcas deixadas pela invasão indonésia. Mas “You, Me, Us [O, Hau, Ita; Tu, Eu, Nós]” não é uma exposição sobre o trauma enquanto destino. É, antes, uma tentativa de o atravessar e de encontrar nele possibilidades de cura, ligação e futuro. Ao dar protagonismo às práticas artesanais femininas e ao diálogo entre natureza e cultura, Maria Madeira transforma a sua história pessoal numa reflexão mais ampla sobre pertença e comunidade. Depois de mais de três décadas de exposições em vários países e de ter representado Timor-Leste na 60.ª Bienal de Veneza, Madeira regressa simbolicamente a Lisboa para reabrir uma história que não pretende fechar, mas partilhar.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

EXPOSIÇÃO: “Sem Terra à Vista”



EXPOSIÇÃO: “Sem Terra à Vista”
Vários artistas
Curadoria | Paula Cabaleiro
Centro de Arte Oliva
18 Abr 2026 > 24 Jan 2027


Habitar o presente, tal parece ser o desígnio de “Sem Terra à Vista”, exposição patente até 24 de Janeiro do próximo ano no Centro de Arte Oliva, em São João da Madeira. A partir de uma nova leitura da Colecção Norlinda e José Lima, a curadora Paula Cabaleiro constrói um percurso onde a arte não oferece respostas, antes convoca o visitante para um território de inquietação permanente. O título, apropriado do derradeiro livro de Charles Simic, funciona menos como metáfora marítima do que como diagnóstico civilizacional, colocando em destaque a ausência de horizonte, a erosão das referências colectivas e a sensação de deriva que atravessa o nosso tempo. A força da exposição reside precisamente na recusa de uma narrativa fechada, na forma como se privilegiam relações de tensão, afinidades inesperadas e contrapontos que fazem coexistir gerações, geografias e linguagens distintas. A extraordinária amplitude da colecção - uma das mais relevantes do panorama privado português - revela-se aqui como instrumento crítico, permitindo que autores portugueses dialoguem naturalmente com grandes nomes da cena internacional, sem hierarquias artificiais. O resultado é uma exposição que recusa a contemplação passiva em favor de uma experiência intelectualmente exigente, apelando à circulação de ideias e à capacidade da imagem para produzir pensamento.

Esta leitura manifesta-se na própria arquitectura expositiva, cujos núcleos se sucedem sem fronteiras rígidas, permitindo que cada obra prolongue ou contradiga a anterior. A presença de artistas como Paula Rego, Christian Boltanski, Cindy Sherman, Leon Golub, Chéri Samba, Gonçalo Mabunda ou Mónica de Miranda evidencia diferentes formas de abordar a violência, a memória, o corpo, a identidade ou a herança colonial, enquanto autores portugueses como Daniel Blaufuks, Helena Almeida, João Louro, Rui Chafes, Pedro Cabrita Reis ou José Pedro Croft oferecem perspectivas que oscilam entre a introspecção, a crítica política e a reflexão sobre a condição humana. De forma sensível, Paula Cabaleiro evita que estes temas se transformem num catálogo de causas contemporâneas, embora a exposição convoque questões como a guerra, as migrações, o avanço dos discursos extremistas, a devastação ambiental ou a desinformação. Fá-lo através da complexidade própria da criação artística, recusando tanto a ilustração como a retórica panfletária. Cada obra mantém a sua autonomia formal e conceptual, contribuindo para um discurso colectivo assente, em larga medida, na ambiguidade. Nessa tensão entre beleza, desconforto e pensamento, encontra “Sem Terra à Vista” a sua maior consistência crítica.

Num momento em que muitos projectos curatoriais procuram responder à actualidade através de enunciados excessivamente programáticos, “Sem Terra à Vista” distingue-se por confiar na inteligência do público e na capacidade das obras para permanecerem abertas à interpretação. A Colecção Norlinda e José Lima confirma-se, uma vez mais, como um acervo cuja diversidade permite sucessivas revisitações, revelando novas leituras sem esgotar os seus significados. A exposição demonstra igualmente a maturidade de Paula Cabaleiro enquanto curadora, capaz de construir um discurso sólido sem sacrificar a singularidade de cada artista nem reduzir a arte a instrumento ilustrativo de um argumento político. O visitante sai com poucas certezas e inúmeras perguntas — talvez o sinal mais evidente de uma exposição bem conseguida. Perante um mundo fragmentado, onde o ruído mediático tende a simplificar a realidade e a neutralizar o pensamento crítico, esta mostra recorda que a arte continua a ser um dos raros lugares onde a complexidade não constitui um obstáculo, mas uma necessidade. Sem oferecer promessas de redenção, “Sem Terra à Vista” aponta para uma possibilidade mais modesta, mas talvez mais urgente: recuperar o exercício da dúvida, da memória e da imaginação como formas de resistência perante um horizonte onde, efectivamente, continua a não haver terra à vista.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: “Kerygma. El arte de evangelizar”



EXPOSIÇÃO: “Kerygma. El arte de evangelizar”
Arte Sacra Devocional
Catedral de Granada
08 Mai > 28 Nov 2026


Na monumentalidade renascentista da Catedral de Granada, “Kerygma. El arte de evangelizar” apresenta-se como um dos mais ambiciosos exercícios de valorização do património religioso andaluz das últimas décadas. Integrada nas comemorações do centenário da Real Federação de Irmandades e Confrarias de Granada, a mostra reúne mais de uma centena de peças entre escultura, pintura, ourivesaria, têxteis e documentação histórica, propondo um percurso que atravessa cinco séculos de cultura e devoção. O visitante inicia a viagem nos capítulos “Origens” e “Irmandades Passionistas e Vias Sacras”, ao longo dos quais se procura demonstrar que a Semana Santa granadina não é uma tradição tardia nem periférica, mas um fenómeno cujas raízes mergulham nos finais do século XV e nos alvores da modernidade espanhola. Aqui, a exposição cumpre eficazmente o seu propósito pedagógico, relacionando a organização das primeiras confrarias penitenciais com a construção de uma identidade urbana profundamente marcada pela Reconquista e pela afirmação do catolicismo tridentino. A narrativa tende a privilegiar uma leitura celebratória das origens, relegando para segundo plano as tensões sociais, políticas e religiosas que moldaram o surgimento destas associações. Ainda assim, a qualidade das obras reunidas, muitas delas raramente acessíveis ao público por se encontrarem em clausura ou fora dos circuitos museológicos, permite compreender como a devoção foi também um poderoso instrumento de representação colectiva, capaz de transformar imagens de culto em autênticos símbolos de pertença comunitária.

O percurso ganha densidade estética nos capítulos dedicados à dinastia dos Mora e à “Religiosidade Barroca”, verdadeiro núcleo conceptual da exposição. Se o barroco andaluz constituiu uma linguagem artística destinada a emocionar, persuadir e evangelizar através dos sentidos, poucas escolas o materializaram de forma tão intensa como a granadina. José de Mora, Diego de Mora e os seus continuadores surgem aqui como protagonistas de uma revolução visual que fez da escultura religiosa um veículo privilegiado de experiência espiritual. A reunião de imagens dispersas por igrejas, conventos e confrarias permite observar, num mesmo espaço, a extraordinária capacidade destes mestres para fundir dramatismo, elegância e intimidade. Rostos marcados pela dor contida, olhares suspensos entre o humano e o divino e uma delicada teatralidade formal revelam a singularidade da escola granadina perante outras correntes barrocas da Península. E mesmo que o discurso expositivo pareça assumir que a excelência artística decorre da sua função devocional, são muitas as obras que possuem autonomia estética suficiente para serem apreciadas para além do contexto religioso. Essa ambiguidade atravessa toda a exposição: entre museu e templo, entre contemplação artística e veneração, “Kerygma” prefere frequentemente a segunda hipótese, transformando a emoção espiritual no principal critério de interpretação.

Os capítulos “Ressurgir” e “Influências” procuram demonstrar como esta tradição sobreviveu às crises históricas, às transformações sociais e às mudanças de gosto artístico. A intenção é meritória, sobretudo ao evidenciar os processos de conservação patrimonial e os diálogos permanentes entre Granada e outros centros criativos da Andaluzia. O visitante percebe que a Semana Santa não constitui um legado cristalizado, mas uma realidade em contínua reinvenção, alimentada por sucessivas gerações de escultores, douradores, bordadores e confrades. Ainda que indirectamente, a abordagem questiona as implicações dessa constante reconstrução da memória, apresentando a continuidade como um valor absoluto. A selecção de peças e testemunhos privilegia uma narrativa linear de sobrevivência e esplendor, furtando-se a discutir rupturas, desaparecimentos ou conflitos patrimoniais que igualmente marcaram a história das confrarias. Ainda assim, a secção evidencia de forma convincente a capacidade das irmandades para se adaptarem aos tempos sem perderem a sua função agregadora. Mais do que simples guardiãs de objectos artísticos, estas instituições surgem como agentes activos na preservação de um imaginário colectivo que continua a moldar a paisagem cultural e religiosa andaluza.

A recta final, composta por “Miscelânea” e pelo capítulo dedicado ao Altar Itinerante e ao centenário federativo, funciona como síntese e celebração. Reunindo alfaias litúrgicas, bordados, peças de ourivesaria e documentos históricos, a penúltima secção oferece um olhar mais amplo sobre os elementos que sustentam o universo visual das confrarias para além da escultura. Já o encerramento assume sem reservas um carácter comemorativo, transformando a exposição numa homenagem institucional à Federação granadina e ao papel desempenhado pelas irmandades ao longo de um século. É neste ponto que “Kerygma” revela de forma mais evidente a sua dupla natureza. Por um lado, constitui uma operação patrimonial de enorme relevância, reunindo obras de valor excepcional e proporcionando leituras inéditas sobre a história artística de Granada. Por outro, nunca abandona a intenção catequética inscrita no próprio título, concebendo a arte como instrumento de evangelização e testemunho de fé. Esta opção pode revelar-se limitadora de algumas possibilidades de interpretação crítica, mas não diminui o impacto visual e emocional do conjunto. Entre a exposição de arte e o manifesto identitário, “Kerygma” confirma a vitalidade de uma tradição que continua a encontrar no barroco andaluz a sua expressão mais poderosa, recordando que, em Granada, a história da arte e a história da devoção permanecem indissociáveis.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: "Complexo Brasil"



EXPOSIÇÃO: “Complexo Brasil”
Vários artistas
Curadoria | José Miguel Wisnik, Milena Britto, Guilherme Wisnik
Fundação Calouste Gulbenkian
14 Nov 2025 > 17 Fev 2026


Num tempo de fronteiras tensas e discursos inflamados sobre a imigração, tempo em que brasileiras e brasileiros sentem na pele e na alma o peso da desconfiança e da estigmatização, a Fundação Calouste Gulbenkian abre as portas a um gesto raro, o de olhar a História sem fazer dela arma de arremesso. Pensada aquando do bicentenário da Independência, “Complexo Brasil” nasce desse desconforto mútuo, desse estranhamento antigo entre dois povos que revelam um desconhecimento recíproco profundo. Com o intuito de colmatar lacunas e lançar luz sobre as muitas sombras que persistem, foi lançado o convite a José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik para assumirem a curadoria da exposição e explicarem um Brasil que não é só praias, futebol e Carnaval. A ousadia foi aceite como quem aceita decifrar uma esfinge. O Brasil não é para principiantes, não é para estagiários da alma. É um imenso pedaço de terra e água, amado e complexo, feito de heranças caleidoscópicas, de sincretismos que se entranham, de contradições que não pedem licença.

A arquitectura modernista da Gulbenkian vê-se inundada por uma chuva de cor, penas e cipós, redes e mantos, vozes e batuques. Antes dos chamados “descobrimentos”, já havia mundo: povos originários, cosmologias, mantos tupinambás resgatados da diáspora dos museus europeus. O tapuia de Eckhout encara-nos sob um céu cinzento importado da Holanda; ao lado, o manto refeito por Glicéria Tupinambá restitui o azul ao firmamento. Entre um corpo que é rua e a emoção à flor da pele, ergue-se o espectro da escravatura, ferro e fogo que ainda arde. Debret expõe a crueldade doméstica; Portinari dá ao lavrador pés desmedidos e cabeça exígua; “A Redenção de Cam” encena o branqueamento como promessa sinistra. Nuno Ramos rasga a cruz na areia; os orixás erguem o machado-cruz de Xangô; o candomblé responde ao sino. Se há antropofagia, é fusão e rito; se há dor, é memória que não se consente esquecer. “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas dos escravizados.” E, contudo, a felicidade insiste como sentimento colectivo, a “gostosura” de viver atravessa fotografias e pinturas, enquanto baldes de plástico azul, verde e amarelo nos transportam de Lisboa a qualquer esquina do Brasil.

Entre Brasília — ousadia erguida na terra vermelha, alma que não faz sombra no chão — e a Amazónia, alfa e ómega de um país a mil velocidades, a mostra tece miscigenações como redes de baloiço. Parte do que ali está também imigrou: obras espalhadas pelo mundo regressam para contar a diáspora inscrita no ADN brasileiro. Vídeos convocam o visitante a sentar-se nos degraus e a ver o pescador abraçar o peixe agonizante, o consolo e o respeito num gesto só. Instalações fazem dialogar o construtivismo com o transe: o “Manto da Apresentação” de Arthur Bispo do Rosário prepara-se para o Juízo Final com nomes e fios azuis arrancados ao confinamento. Nossa Senhora Aparecida é negra e veste manto bordado a prata. Mães de santo, mães de filhos, mulheres de cabelo erguido entre a vergonha e o orgulho, benzem crianças. Nem ajuste de contas, nem libelo acusatório, “Complexo Brasil” é um enredo, um ponto de vista, de encontro e entendimento, capaz de incluir o outro em si, em vez de o excluir como ameaça. E talvez, entre colonizadores e colonizados, o espelho devolva menos culpa e mais complexidade. Está dito.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: DANÇA, TERTÚLIAS, LUGARES, OUTROS



10. Livros de Artista
Vários artistas
6.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2025
Quinta da Fiação de Lever
05 Abr > 12 Jul 2025

“ (…) Agostinho Santos, Nazaré Álvares, Celeste Ferreira ou Valter Hugo Mãe apresentam ao olhar do visitante um conjunto alargado de trabalhos em que cada página, quando analisada separadamente, assim como o acto repetido de “folhear” o livro, se combinam para transmitir uma sensação de continuidade e oferecer um conjunto de leituras, com tanto de sofisticado quanto de inesperado. Livros produzidos manualmente ou nos quais o artista teve uma intervenção directa na sua impressão, livros com múltiplos ou cópias únicas, livros com desenhos, pinturas, colagens ou têxteis, livros que se lêem da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, de cima para baixo ou de baixo para cima, as propostas são numerosas e qual delas a mais sedutora.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/exposicao-livros-de-artista.html



9. FESTA - Sons da Lusofonia (II)
Com | CRUA, Juliana Linhares, Fogo Fogo e Mário Lúcio
Parque Urbano de Ovar
12 Jul 2025 | sab | 16:00 às 00:00

“ (…) Primeira banda a repetir a presença no FESTA (depois de uma participação memorável em 2022), os Fogo Fogo puseram a carne toda no assador, mostrando o porquê de serem lídimos representantes do funaná, mas não só. Cultores da lusorritmía, na sua música confluem o samba e o semba, a morna e a marrabenta, o carimbó e o fado. Mas, ainda que o ritmo seja o pai de tudo, a palavra traduz o ritmo e daí que a música dos Fogo Fogo, sendo para dançar, seja igualmente para cantar. E foi isso que pudemos apreciar ao final da tarde de sábado, num concerto que encerrou um conjunto de momentos inesquecíveis. Voltar ao baile, voltar à pista, ser ponto de encontro de corpos que se dão em gesto e partilha, foi esta a proposta da banda à qual o público aderiu de forma incondicional.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/certame-festa-sons-da-lusofonia-ii.html



8. Conversas às 5
Com | Benilde Teixeira
Participação especial | Sofia Ataíde e Renato Nunes
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Out 2025 | qua | 17:00

“ (…) A propósito de um internamento que se estendeu por cerca de nove meses, Renato Nunes recorda um processo evolutivo constante, de grande adaptação às estratégias prescritas, mas também “o fim de semana em que a Dona Benilde, com a sua cadeira eléctrica, conduziu um comboio de doentes em cadeira de rodas pelos corredores do CRN”, assim como “as mudanças de quarto para, com a sua atitude, nos ajudar a lidar com doentes mais fragilizados”. Uma memória que mereceu de Benilde Teixeira um curioso comentário: “Quando puseram uma doente no meu quarto e, na visita médica, lhe perguntaram se estava melhor, ela disse que estava 50% melhor: Mas é à Dona Benilde que eu devo os 50% por cento, não é aos médicos”.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/tertulias-literarias-conversas-as-5.html



7. Shortcutz Ovar Sessão #97
Festa dos Premiados 2024
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
18 Jul 2025 | sex | 21:30

“ (…) Numa noite sempre especial, de expectativas em alta, emoções ao rubro, muita festa e animação, a bonita Sala Expande foi pequena para acolher as duas centenas de espectadores que fizeram questão de marcar presença, repetindo aquilo que já vem sendo um hábito para um número crescente de “ferrinhos” da última quinta-feira do mês, elevados da categoria de visitantes ocasionais à de cinéfilos atentos e conhecedores, amantes do bom Cinema que se faz em Portugal na sempre desafiante versão curta. Foram eles que, guiados por Tiago Alves, incomparável mestre de cerimónias, recordaram a oitava temporada, vibraram com as escolhas do júri e do público, escutaram as reacções dos premiados e tiveram a oportunidade de ver ou rever alguns dos filmes da sua predilecção.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/cinema-shortcutz-ovar-sessao-97-festa.html



6. Ovar Expande ‘25 (II)
Com Bia Maria + Coro da Comunidade, Ela Li e Afonso Cabral
Escola de Artes e Ofícios
17 Out 2025 | sex | 21:30

“ (…) A apresentar em Ovar “Qualquer Um Pode Cantar”, o seu mais recente álbum, Bia Maria foi capaz de unir a beleza da voz à força da comunhão colectiva num projecto que é um verdadeiro sopro de frescura no panorama da música portuguesa contemporânea. Enraizadas no cancioneiro popular, com um “cheirinho” de fado e de bossa nova, as suas melodias fazem da voz — da dela e de todos — instrumento primordial e elo de partilha. Com Alberto Hernandez na guitarra e Samuel Louro na bateria, a artista vestiu de cumplicidade e inclusão temas como “Roupa Velha”, “O Corpo”, “Aconchegos de um Sujeito”, “Marcha da Paridade” ou “Qualquer Um Pode Cantar”, juntando em palco um coro de dez pessoas de diferentes gerações e transformando o concerto num acto de encontro com o outro e consigo própria.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/concertos-conversas-ovar-expande-25-ii.html



5. Conversas à Volta do Tanque
Com Manuela Grazina
Moderação | Joaquim Margarido
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
18 Jan 2025 | sab | 16:00

“ (…) “Que importância têm as memórias na construção da felicidade?” O moderador pergunta e a interlocutora, num primeiro momento, pega na questão e dirige-a ao público. À volta do tanque, é tempo de falar de filhós e café de cafeteira, carroceis cor de rosa e cheios de luzes, um cheiro a queijo picante, uma cadeirinha, um sapatinho de verniz e um guarda chuva, um dedo que rapa o tacho com restos de massa de bolo de coco, as histórias de “faz de conta” do avô Hélio. As mesmas histórias de “faz de conta” que hoje nos ajudam a não colapsarmos, “quando os familiares adoecem, avaria o frigorífico e a máquina de lavar, rebenta a caldeira, pára o carro no meio da ponte”, e que dão um contributo fundamental para a criação da esperança.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/tertulia-conversas-volta-do-tanque.html



4. Grupo de Percussão da Escola Profissional de Música de Espinho
Com | António Ferreira, Alexandre Barbosa, Gaspar Costa, Miguel Coelho, Hugo Oliveira, Tomás Marques, Pedro Leal e Catarina Gouveia
ReabilitaSons 2025
Centro de Reabilitação do Norte
10 Abr 2025 | qui | 21:30

“ (…) Perante uma assistência constituída na sua grande maioria por pessoas internadas no Centro de Reabilitação do Norte, os oito elementos do Grupo de Percussão da EPME articularam entre si a interpretação de um programa fortemente inspirado no folclore tradicional de um conjunto alargado de geografias, oferecendo ao público uma proposta de viagem pelos quatro cantos do mundo. Combinando a sua inegável qualidade interpretativa com uma forte presença em palco, perfeito na construção dos temas como nas coreografias que os vários elementos souberam desenvolver, o Grupo surpreendeu pela dedicação, entrega e emoção que soube espalhar entre a assistência, fazendo deste um momento verdadeiramente reabilitador para todos.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/concerto-grupo-de-percussao-da-escola.html



3. Submerso Imerso
Vanessa Barragão
Curadoria | Ben Austin
Casa da Cultura de Ílhavo
08 Fev > 11 Abr 2025

“ (…) É tempo de nos aventuremos pelos meandros de um microcosmos aquático encantado, distante do caos e da confusão globais, um lugar que convida à reflexão e à calma. Podemos apreciar cada peça na sua dimensão individual, mas podemos também integrá-las numa instalação maior, de forma a estabelecerem entre si uma relação espacial e uma inter-conectividade que encontram eco no imaginário e memórias de cada um. Cada uma das peças contempla um manancial inesgotável de “informação”, quer pela técnica metódica de produção ou pela exigência dos materiais, quer pelo esplendor das formas ou pela extraordinária combinação de cores.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/exposicao-submerso-imerso-vanessa.html



2. Divinas Perlinas
Musurgia Ensemble & Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Com | João Francisco Távora (flauta de bisel e direção artística), Pedro Martins (guitarra barroca), Helder Sousa (cravo e direção artística)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela de Santo António
23 Mar 2025 | dom | 16:00

“ (…) A viagem entre as duas margens do Atlântico fez-se, desta vez, ao sabor da língua: De um lado o português, o castelhano e o biscayno; do outro o mestiço, o índio e o Nahuatl (idioma asteca à época da conquista espanhola e falado ainda hoje por cerca de um milhão e meio de pessoas na região central do México). Com a parte instrumental a cargo de João Francisco Távora, Hélder Sousa e Pedro Martins, o concerto teve no coro o seu elemento de maior relevância, ficando demonstrado o poder alquímico de Jorge Luís Castro em juntar vozes e fazer magia. A ele se deveu a confiança e disponibilidade evidenciada pelos coralistas em “Negrinho tiray vos”, “As divinas perlinas” e “Mi niño dulce y sagrado”, peças de enorme riqueza melódica e rítmica e de uma harmonia sublime que tanto encantaram o público.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/concerto-as-divinas-perlinhas-musurgia.html



1. F*cking Future
Direcção artística e coreografia | Marco da Silva Ferreira
Interpretação | Catarina Casqueiro, Eríc Amorim dos Santos, Fábio Kraye, Doisy Bryan, Marco da Silva Ferreira, Matias Rocha Moura, Max Makowski, Nala Revlon
Teatro Rivoli - Caixa de Palco
05 Dez 2025 | sex | 19:30

“ (…) Quando os bailarinos invadem a plateia e avançam por entre os espectadores, o gesto é tudo menos intimidatório: É convite. Há algo de fantasmagórico, quase cerimonial, nesse movimento que aproxima intérpretes e público ao ponto de dissolver fronteiras. E é nesse instante que “F*cking Future” atinge o seu coração político — não o da militância como confronto, mas o da militância como desejo, como vontade partilhada. O espetáculo propõe um futuro que se escreve no agora, na aceleração dos corpos que recusam a apatia e afirmam o direito ao sonho, mesmo quando o mundo insiste em endurecer.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/danca-fucking-future-marco-da-silva.html

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: EXPOSIÇÕES



10. Memórias de um Andarilho
Roberto Chichorro
Igreja de Santiago, Monsaraz
12 Abr > 06 Jul 2025

“ (…) Memória e história, cenas do quotidiano e natureza e meio ambiente, surgem representados como pilares do trabalho de Roberto Chichorro, capazes de transmitir a alegria e a espontaneidade que são factores identitários primordiais na cultura africana. Em resumo, a história rica e complexa de Moçambique é uma influência inegável no trabalho de Roberto Chichorro, moldando as suas obras como uma expressão vibrante da identidade e diversidade cultural do país, ao mesmo tempo em que aborda questões sociais e políticas cruciais que marcaram a nação ao longo da sua história.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/exposicao-de-pintura-memorias-de-um.html



9. Y’a Hamam Yalla Ma Tnam, Ma Tnam
Mounira Al Solh
Curadoria | João Mourão, Luís Silva
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
28 Fev > 31 Ago 2025

“ (…) Os prolongados conflitos no Médio Oriente intensificaram-se recentemente, transformando-se numa enorme tragédia humana e criando uma ferida que atravessa gerações e afecta milhões de vidas. Este ciclo incessante de violência tem provocado perdas inimagináveis, com inúmeras vidas ceifadas, famílias desfeitas e comunidades inteiras a viver sob a constante sombra do medo e do sofrimento. Por entre as ruínas, as pessoas enfrentam traumas profundos que continuarão a afectar gerações futuras. Profundamente marcada por estes conflitos, Mounira Al Solh canaliza as suas experiências através da arte, convidando à reflexão sobre a necessidade de paz, empatia e um compromisso com a justiça que honre os direitos e a dignidade de todos os envolvidos.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/exposicao-ya-hamam-yalla-ma-tnam-ma-tnam.html



8. Paisagens Humanas
Do Carmo Vieira
Museu Municipal de Espinho
08 Mar > 12 Abr 2025

“ (…) Entre a celebração e a denúncia, a memória e a urgência do presente, o olhar do visitante é obrigado a transitar entre diferentes dimensões da existência humana, as pinceladas como uma interrogação sobre as histórias que cada rosto abriga ou o futuro que cada paisagem humana é capaz de desenhar. Homenageadas ou simplesmente evocadas em poemas visuais de grande expressão e significado, as figuras que nos observam ao longo das duas vastas galerias são a expressão da força e do poder da arte em quebrar silêncios, convidando-nos a ver, a sentir e, acima de tudo, a agir.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/exposicao-de-pintura-paisagens-humanas.html



7. A Life in a Few Lines
Huguette Caland
Curadoria | Hannah Feldman
Centro de Arte Reina Sofia, Madrid
19 Fev > 25 Ago 2025

“ (…) A série “L’argent ne fait pas le bonheur, mais il y contribue largement” é composta por 366 pequenas telas quadradas pintadas entre 1994 e 1995. Nestas obras, Caland transforma a linearidade precisa dos seus desenhos eróticos e as superfícies polidas das suas pinturas sensuais em registos mais grosseiros, muitas vezes kitsch. Por detrás do humor, tanto da palavra escrita como da imagem, desvenda-se uma crítica política e económica ao papel desempenhado pela moeda no fracasso de tantas aspirações individuais e colectivas, bem como uma reflexão mais pessoal sobre a relação entre a prática artística e o dinheiro.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/exposicao-life-in-few-lines-huguette.html



6. Sonhos e Metamorfoses: O Surrealismo de Paula Rego
Curadoria | Catarina Alfaro, Marlene Oliveira, Perfecto E. Cuadrado
Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão
11 Abr 2025 > 04 Jan 2026

“ (…) O universo fantástico que emerge destas obras não é evasivo, mas profundamente ligado à experiência concreta do amor e do medo, do poder e da sedução, da obediência e da resistência, sentimentos entrelaçados numa iconografia onde nada é inocente. Os animais humanizados, recorrentes, funcionam tanto como agentes de encantamento como de ameaça, remetendo para um mundo carregado de tensão psicológica que ultrapassa os limites do consciente. Ao convocar o sonho como método e matéria, Paula Rego aproxima-se do surrealismo sem nunca abdicar da narrativa, da teatralidade e de uma relação crítica com a realidade.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/12/exposicao-sonhos-e-metamorfoses-o.html



5. Neorrealismos ou a Politização da Arte em Júlio Pomar
Curadoria | Afonso Dias Ramos, Mariana Pinto dos Santos
Atelier-Museu Júlio Pomar
10 Jul > 02 Nov 2025

“ (…) Além do valor visual das obras, a exposição sublinha a relevância do pensamento de Pomar sobre o papel da arte na sociedade. Desde cedo, o artista refletiu sobre a representação do real, a responsabilidade do artista e a arte enquanto acção vital em diálogo com o mundo. Ao longo do tempo, reavaliou os combates travados contra a ditadura e recontextualizou-os face ao desafio de defender a liberdade e a democracia. A mostra convida, assim, a uma leitura plural e actual da sua obra, reafirmando o lugar da arte como espaço de resistência, reflexão e intervenção.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/08/exposicao-de-pintura-e-desenho.html



4. Peregrinação
Graça Morais
Curadoria | António Meireles
Casa-Museu Teixeira Lopes | Galerias Diogo de Macedo
01 Mar > 01 Jun 2025

“ (…) Através da estreita escada, acede cada visitante com moderado esforço físico ao piso superior, à Sala Branca. Esta ascensão acompanha um percurso das obras, que dos conflitos e guerras de âmbito mundial e suas consequências das obras do piso inferior, nos traz para o contexto de território de montanha e para a construção das comunidades, sempre em diálogo com o mundo global, que parecendo-nos exterior e distante, tem na obra de Graça Morais importante reflexão sobre as conexões estabelecidas com os mundos locais. É desta conexão exemplo a pintura que abre este espaço, intitulada “20 de Janeiro de 2017”, data da tomada de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América no que foi o seu primeiro mandato.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/exposicao-de-pintura-e-desenho.html



3. Francisco Relógio - Pinturas e Desenhos Inconjuntos 1955-1997
Curadoria | Nuno Faria
Centro de Arte Oliva, São João da Madeira
24 Out 2025 > 11 Jan 2026

“ (…) A exposição “Pinturas e Desenhos Inconjuntos”, apresentada em S. João da Madeira, depois de Serpa e Almada, procura oferecer um olhar abrangente sobre a vida e a obra de Francisco Relógio, reinscrevendo-o com clareza no panorama da arte portuguesa do século XX. Mais do que uma homenagem, esta mostra propõe um reencontro com um criador que soube conciliar o gesto intuitivo com a construção rigorosa, a dimensão simbólica com a presença do real.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/exposicao-de-pintura-e-desenho.html



2. Não Confundir um Tijolo com uma Obra de Arte
Albuquerque Mendes
Curadoria | Gonçalo M. Tavares
Galeria Municipal de Matosinhos
10 Mai > 24 Ago 2025

“ (…) O desenho, a cor e o gesto fluem de forma livre, envolvendo as obras num intimismo inesperado, mas mantendo em aberto uma multiplicidade de interpretações no que encerram de inquietação, ambiguidade, tensão, surpresa e espanto. Ao lugar junta-se o corpo e o rosto, intensamente expressivos, de uma estranheza quase irreal nos seus erros e imperfeições. Em particular os auto-retratos revelam as muitas faces do humano, no que têm de seriedade e discrição, mas também de provocação e fingimento. Neles se afiguram as inquietações do pintor, o seu olhar sobre o sofrimento, o erotismo, a religiosidade ou a morte.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/08/exposicao-nao-confundir-um-tijolo-com.html



1. O Que nos Olha
Miriam Cahn
Curadoria | João Pinharanda e Sérgio Mah
MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia
26 Jun > 27 Out 2025

“ (…) Pintura, desenho, escultura, fotografia e vídeo articulam-se num percurso retrospectivo, onde a montagem – concebida pela própria artista – assume um papel autoral. A exposição afirma a singularidade de Miriam Cahn no panorama da arte contemporânea internacional, destacando a sua capacidade de interrogar criticamente os limites da representação e da linguagem artística. O seu trabalho não visa o deleite estético, mas a inquietação: convoca o espectador a confrontar-se com a violência do mundo e com a sua própria posição face à dor, à injustiça e à devastação.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/08/exposicao-de-desenho-e-pintura-o-que.html

sábado, 13 de setembro de 2025

EXPOSIÇÃO: "Voltar a Partir" | Bárbara R.



EXPOSIÇÃO: “Voltar a Partir”,
de Bárbara R.
Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira
06 Set > 12 Out 2025


“Percurso. Exploração. Tentativa. Erro. Repetir. Cores. Texturas. Riscos. Papéis. Experimentar. Reflectir. Criar. Comunicar. Relação. Contar. Mão. Adaptação. Arriscar. Coesão. Crescimento. Ouvir. Grafismos. Fio. Terra. Explosão. Ideia. Linguagem visual. Partilhar. Ver. Criticar. Voltar. Continuar. Colagem. Entrelaçar. Textura. Abstracto. Tecer. Natureza. Inspiração. Linha. Recomeço.”

O percurso artístico de Bárbara R. distingue-se por uma abordagem multidisciplinar assente na investigação constante entre ilustração e design gráfico, mas também arte têxtil e gravura, cerâmica e arte urbana, privilegiando, sempre que possível, o trabalho em papel. Crescida num ambiente rodeado de verde, com as montanhas por perto e o mar ao lado, Bárbara R. tem sabido recolher desse imaginário a inspiração para a construção de trabalhos que misturam a experimentação e o engenho, a elegância e a poesia. Refletindo uma vida marcada pela diversidade de experiências e lugares, a presença constante dos livros e das viagens na sua vida vêm reforçar a atracção pela novidade e moldar profundamente o seu processo criativo. Prova disso é o recente retomar do desafio de trabalhar com fios, tecendo peças de enorme beleza que alargam e enriquecem a sua linguagem visual.

A exposição “Voltar a Partir”, que até ao dia 12 de Outubro pode ser vista na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, apresenta um percurso visual que sintetiza os últimos anos desta trajectória criativa, funcionando como um arquivo gráfico e emocional que explora cenários ora próximos e evidentes, ora distantes e inalcançáveis. Este itinerário é composto por gestos, suportes e inquietações que convidam à contemplação e ao reconhecimento da memória como matéria fundamental do processo artístico. Simples e complexa ao mesmo tempo, a mostra deixa perceber um diário sensível e um arquivo em construção, onde se entrelaçam linguagens e intenções as mais diversas, permitindo à artista estabelecer uma linguagem própria na qual estética e afectividade coexistem de forma indissociável.

Neste contexto, “Voltar a Partir” propõe uma reflexão profunda sobre a permanência e a transformação dos espaços físicos e emocionais que habitamos e que continuam a existir dentro de nós, mesmo quando deles nos afastamos. A conjugação de disciplinas e suportes utilizada por Bárbara R., dos quais se destacam a colagem, o trabalho cerâmico e a arte têxtil, manifesta uma prática artística aberta à experimentação e ao diálogo entre memória, tempo e criação. Em cada regresso a casa, sentimos que a artista fortalece as raízes que a sustentam, ao mesmo tempo que magica novos caminhos e possibilidades para o seu trabalho. Esta exposição é, assim, um convite a revisitar os fragmentos que compõem a sua obra e a reconhecer o papel da memória como elemento estruturante da criação contemporânea, destacando a capacidade da arte em estabelecer pontes entre passado e futuro.