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sexta-feira, 15 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO: "Guaches" | Manuel Cargaleiro



EXPOSIÇÃO: “Guaches”,
de Manuel Cargaleiro
Organização | Fundação Manuel Cargaleiro
Museu Cargaleiro, Castelo Branco
Exposição de longa duração (inaugurada em 16 Mar 2024)


“Mais Cargaleiro est également peintre, l’un des meilleurs qui, depuis de nombreuses années, représente son pays dans l’École de Paris. En témoignent les admirables gouaches que voici, exquises décantations, clairs poèmes du goût le plus subtil et le plus pur.”
Jean Cassou

“Guaches”, a exposição que ocupa o último piso do Museu Cargaleiro, possui hoje uma inevitável dimensão testamentária. Inaugurada a 16 de Março de 2024, precisamente no dia em que o mestre soprou 97 velas, esta seria a sua última mostra apresentada em vida, ele que viria a falecer poucos meses depois, a 30 de Junho. Reunindo 59 obras produzidas entre os anos 50 e a actualidade, a exposição percorre sete décadas de um percurso singular no panorama artístico português e europeu, marcado pela depuração formal, pela exaltação cromática e por uma fidelidade absoluta à experimentação. A par de Vieira da Silva, Lourdes Castro, René Bertholo ou Júlio Pomar, Cargaleiro pertence a uma geração de artistas que encontrou em Paris o território ideal para expandir linguagens e romper fronteiras estéticas. O contacto com o abstraccionismo francês dos anos 40 e 50 revelou-lhe novas possibilidades expressivas, sem nunca o afastar das sua raízes. Pelo contrário: foi precisamente da tradição popular, da geometria do azulejo e da luminosidade mediterrânica que construiu uma assinatura visual imediatamente reconhecível. Entre a disciplina estrutural herdada da escola francesa e uma liberdade quase musical do gesto e da cor, a sua obra tem em “Guaches” um resumo afectivo e artístico de uma vida inteira dedicada à criação.

Embora o grande público associe inevitavelmente Manuel Cargaleiro à cerâmica e ao azulejo - campos onde deixou uma marca absolutamente decisiva -, “Guaches” permite compreender de que forma o desenho e a pintura estiveram sempre no centro da sua pesquisa estética. O guache surge aqui não como técnica secundária ou mero exercício preparatório, mas como território autónomo de invenção. A opacidade da tinta, a rapidez da execução e a possibilidade de trabalhar sobre a vibração imediata da cor adequavam-se perfeitamente à natureza intuitiva do artista. Em muitos destes trabalhos percebe-se a mesma lógica fragmentária que atravessa os seus painéis cerâmicos: planos que se cruzam, ritmos geométricos, manchas luminosas e estruturas que parecem expandir-se para além dos limites da composição. Contudo, no papel, Cargaleiro revela também uma dimensão mais íntima e espontânea, quase diarística. O guache permitiu-lhe fixar estados emocionais, captar impulsos momentâneos e libertar o gesto da solenidade dos grandes formatos. Não por acaso, esta técnica seduziu alguns dos maiores nomes da pintura mundial, de Henri Matisse a Wassily Kandinsky, passando por Paul Klee ou Joan Miró. Em todos eles, como em Cargaleiro, o guache funcionou como espaço de liberdade absoluta, onde a imaginação pôde avançar sem constrangimentos técnicos ou narrativos.

Há nesta derradeira exposição uma serenidade luminosa que impressiona. Mesmo perante a consciência da finitude, a obra do mestre nunca resvala para a melancolia. Pelo contrário: permanece animada por uma energia juvenil, exactamente como sublinha João Pinharanda no catálogo da mostra, ao descrever o artista como alguém que “nunca deixou a juventude”. Essa vitalidade atravessa toda a exposição. As cores explodem em azuis intensos, vermelhos solares e amarelos mediterrânicos; as formas multiplicam-se em ritmos quase musicais; e as composições recusam qualquer peso dramático. Mesmo quando abstracta, a pintura de Cargaleiro conserva sempre uma dimensão humana e sensorial. O artista observa cidades, jardins, fachadas, azulejos e objectos do quotidiano, não como elementos estáticos, mas como organismos vivos em permanente mutação. Essa será a principal razão pela qual a sua obra continua a tocar de perto gerações tão distintas. Sem ceder ao conceptualismo hermético nem ao academismo decorativo, Cargaleiro construiu uma linguagem imediatamente acessível, mas nunca simplista. “Guaches” confirma precisamente isso: a capacidade rara de transformar cor, luz e fragmentos em emoção visual. E confirma também o lugar central que o artista ocupa como um dos grandes poetas visuais da cor no panorama artístico português.

sábado, 23 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “O Que nos Olha” | Miriam Cahn



EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “O Que nos Olha”,
de Miriam Cahn
Curadoria | João Pinharanda e Sérgio Mah
MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia
26 Jun > 27 Out 2025


A prática artística de Miriam Cahn (Basileia, 1949) desenvolve-se num campo expandido que inclui o desenho, a pintura, a fotografia, o vídeo, a performance e a instalação, sempre a partir de uma abordagem intensamente física, ética e política. Fortemente influenciada pelo pensamento feminista das décadas de 1970 e 1980, Cahn articula o corpo como lugar de resistência e subjectividade, questionando os regimes de representação associados ao feminino. As suas figuras, frequentemente nuas, grávidas, a sangrar ou em trabalho de parto – temas ainda tabu na história da arte ocidental – confrontam directamente o olhar do espectador, desafiando o legado voyeurístico que tem historicamente objectificado o corpo da mulher. A sua linguagem visual, marcada por traços rápidos, cores vibrantes ou enigmáticas, e figuras ambíguas e espectrais, constrói um imaginário visceral que denuncia a violência simbólica e material exercida sobre os corpos subalternizados.

Nos últimos anos, o seu trabalho tem vindo a alargar o foco temático e a reforçar a sua dimensão política, abordando questões como o abuso sexual, a guerra, a migração forçada, o racismo e a violência sistémica. As pinturas mais recentes de Miriam Cahn evocam gestos de dominação – como pisar, vergar ou violentar –, revelando um mundo onde o corpo é, simultaneamente, testemunha e campo de batalha. Um exemplo contundente é a obra “Fuck abstraction!” (2007), criada na sequência das imagens divulgadas do massacre de Bucha, na Ucrânia. Nela, a artista retrata o uso da sexualidade como arma de guerra, expondo uma cena de brutalidade entre duas figuras masculinas, onde a desumanização do opressor e a fragilidade do oprimido ilustram, com crueza, a obscenidade moral da violência. Recusando a neutralidade estética ou formal, Cahn transforma o acto de pintar numa resposta activa e combativa ao horror contemporâneo, propondo a arte como veículo de denúncia, luta e resistência.

Ao longo de mais de quatro décadas, Cahn tem vindo a construir uma obra coerente e profundamente comprometida, que continua a desafiar normas culturais, políticas e visuais, abrindo espaço para um olhar mais consciente, mais humano – e, por isso mesmo, mais incómodo – sobre o nosso tempo. “O Que nos Olha” é a primeira exposição individual da artista em Portugal, reunindo obras produzidas entre 1978 e 2024. Pintura, desenho, escultura, fotografia e vídeo articulam-se num percurso retrospectivo, onde a montagem – concebida pela própria artista – assume um papel autoral. A exposição afirma a singularidade de Miriam Cahn no panorama da arte contemporânea internacional, destacando a sua capacidade de interrogar criticamente os limites da representação e da linguagem artística. O seu trabalho não visa o deleite estético, mas a inquietação: convoca o espectador a confrontar-se com a violência do mundo e com a sua própria posição face à dor, à injustiça e à devastação.

domingo, 15 de dezembro de 2024

EXPOSIÇÃO: “Energias. Perpétuo Movimento”



EXPOSIÇÃO: “Energias. Perpétuo Movimento”
Curadoria | João Pinharanda, Ivone Maio, Rosa Goy, António Carvalho, João Pimenta e Patrícia Batista
MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
24 Abr 2024 > 06 Jan 2025

Lei I: Todo o corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele.
Isaac Newton, Principia, 1687

“Energias. Perpétuo movimento” coloca em diálogo as coleções de duas instituições museológicas, o Museu Nacional de Arqueologia e a Fundação EDP. O cenário físico, onde se entrelaçam os testemunhos culturais que se estendem da pré-história à atualidade, é o MAAT Central. Em duas salas do emblemático edifício industrial da cidade de Lisboa, a Central Tejo, são exibidos objectos que evocam sinergias, ou seja, a exploração das fontes naturais de energia, como o sol, a água, o vento e o fogo. Estes elementos influenciaram o rumo das sociedades humanas e são hoje indispensáveis ao desenvolvimento de recentes procedimentos tecnológicos a partir de fontes renováveis e no caminho que leva a um futuro comum, o da descarbonização do planeta. Na Sala das Caldeiras de Alta Pressão, os objectos ali dispostos são vestígios de vários períodos históricos, das ferramentas utilitárias do talhe da pedra da pré-história aos instrumentos de trabalho oriundos das oficinas de mecânica, de serralharia, de forja e de carpintaria desta fábrica de produção de eletricidade de inícios do século XX.

O fogo, elemento catalisador de mudanças sem fim, capaz de manipular, fundir e moldar os metais, ocupará um papel decisivo na produção de energias, como o vapor que faz mover máquinas e gerar energia elétrica. Exemplos da acumulação milenar de experiências de desenvolvimento tecnológico, que aqui se destacam são os grandes gigantes da produção do vapor de água, as caldeiras. Estas são documentos vivos de uma energia utilizada para criar outra energia, a elétrica, que se instalou num quotidiano que não para de se reinventar, libertando a humanidade das trevas… e fazendo com que o mundo não voltasse ao que era. E, se se destaca o vapor de água gerado pela máquina a vapor, aperfeiçoada em 1777 por James Watt, como a energia que permitiu que surgissem uma série de invenções que transformariam irreversivelmente o curso da história da humanidade, não se poderá deixar de referir o sol, enquanto fonte de energia primordial que mais mitos tem associados, devido à sua influência na vida das comunidades.

Descemos à “cripta” do fabrico do vapor, penetrando na Sala dos Cinzeiros onde se entrecruzam as fontes de energia mais importantes ao longo da história e da mitologia: a água, o vento e, de novo, o fogo. Aqui encontramos exemplos de mecanismos tecnológicos que ajudam as energias a fluir através de linhas de transmissão. Para a água, o homem criou canalizações, válvulas ou bombas hidráulicas. Para a electricidade, traçaram-se caminhos das subestações de distribuição aos centros de consumo, escavando o subsolo para circularem cabos elétricos. A utilização de recursos hídricos suscitou o desenvolvimento de tecnologias para a captação e armazenamento da água, dos aquedutos às barragens e respectivas centrais elétricas. A acção do vento e da água como forças energéticas proporcionaria, na era industrial, inventos como os motores, os rotores ou as eólicas. Uma exposição que, como a “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos, exalta o triunfo da máquina e da civilização moderna, ao mesmo tempo que consciencializa para a urgência do combate ao aquecimento global.

[Elaborado a partir do Guia da Exposição, o qual pode ser lido na íntegra em https://maat.pt/sites/default/files/2024-10/Energias_guia-exposicao.pdf]

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO: “Mário Cesariny: Em Todas as Ruas te Encontro”



EXPOSIÇÃO: “Mário Cesariny: Em Todas as Ruas te Encontro”
Curadoria | Marlene Oliveira, Perfecto Cuadrado, João Pinharanda
Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão
05 Ago 2023 > 08 Ago 2024


Numa ocasião em que se comemora o centenário do nascimento de Mário Cesariny, a Fundação Cupertino de Miranda promove uma exposição intitulada “Mário Cesariny: Em Todas as Ruas te Encontro”, recorrendo ao espólio do artista da qual é detentora. Obras de arte e elementos do arquivo e biblioteca pessoal de Cesariny, entre os quais se encontram mais de quatro mil fotografias, cadernos, correspondência, livros intervencionados e vários registos manuscritos em simples papéis, constituem a base de uma mostra com um forte cunho sentimental. A reforçar esta ideia, são igualmente expostos inúmeros objectos que se encontravam nas paredes da casa ou espalhados pelo quarto de Cesariny, e é apresentado “Autografia” – título de um poema seu –, um documentário realizado por Miguel Gonçalves Mendes, belo e íntimo retrato da vida, do percurso e individualidade do poeta e pintor surrealista.

Mário Cesariny, homem de natureza excepcional que representou de forma exemplar o Surrealismo como expressão artística e literária e, sobretudo, como uma forma revolucionária de ver, entender e viver a vida, é aqui revisitado de uma forma muito próxima, abrindo-se ao visitante a possibilidade de conhecer e aceder ao ambiente que o rodeava, a partir da observação dos objectos expostos, das construções e das suas criações. Uma parte da coleção de quarenta fotografias de Duarte Belo registadas na casa de Cesariny, em 2003, e que revelam a intimidade do espaço de habitação e de criação do artista, permite uma contextualização em relação a muitos dos objetos que se encontram em exposição. Trata-se de uma rara oportunidade de fortalecer o conhecimento do homem e do artista, que fez História e Estórias em Portugal, e que nos faz entender a personalidade irreverente de Mário Cesariny e o seu universo surreal.

Nascido a 09 de agosto de 1923, em Lisboa, Cesariny de Vasconcelos estudou na Academia de Amadores de Música, sob a orientação do professor Fernando Lopes Graça, e ingressou no princípio da década de 1940 na Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde conheceu, entre outros, Fernando José Francisco e Cruzeiro Seixas, que o acompanharam na aventura surrealista. Foi protagonista de muitas acções e criações polémicas com os outros artistas surrealistas, mas a partir do início dos anos 1950 o grupo começou a desintegrar-se. Manteve-se activo na poesia, nas artes plásticas e na tradução, passando a conviver com Luís Pacheco, Manuel de Lima, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo. “Titânia”, “Pena Capital” e “Antologia do Cadáver Esquisito” são alguns exemplos da sua obra poética. Cesariny recebeu vários prémios pela obra escrita e plástica, nomeadamente o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores, e o Grande Prémio EDP de Artes Plásticas. Faleceu em Lisboa, aos 83 anos.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO: “Álbum de Família - Obras da Coleção Fundação Carmona e Costa”



EXPOSIÇÃO: “Álbum de Família - Obras da Coleção Fundação Carmona e Costa”
Curadoria | João Pinharanda, Manuel Costa Cabral
MAAT Central
05 Out 2023 > 01 Abr 2024


Num país onde escasseiam, em contexto museológico, as possibilidades de ver arte portuguesa contemporânea, “Álbum de Família - Obras da Coleção Fundação Carmona e Costa” constitui uma oportunidade a todos os títulos excepcional. Maria da Graça Carmona e Costa reuniu estas obras no contexto da Fundação que instituiu e dirigiu com o seu marido Vítor Carmona e Costa e o que agora se mostra configura a utopia de um museu que faz falta ao país. Reflexo de um gosto pessoal, sempre aberto à mudança, as obras permitem uma visão abrangente sobre a criação portuguesa contemporânea consolidada, mas sempre atenta ao surgimento de novas propostas. No conjunto das colecções privadas e públicas conhecidas equiparáveis, esta é sem dúvida uma das mais extensas e uma das mais abrangentes em termos de gosto, fugindo, não raras vezes, aos cânones dominantes em cada uma das diferentes épocas em que se construiu.

Das especificidades da colecção destacam-se, para além da extensão e diversidade das obras que a integram, os numerosos exemplos em que podemos seguir, ao longo do tempo, as carreiras de alguns artistas (possibilidade rara no conjunto das colecções nacionais), a predominância do desenho como disciplina de referência em muitas das obras adquiridas, o intenso programa editorial paralelo com a produção direta ou apoio a mais de duas centenas de catálogos e livros sobre arte. “Sobre a Transformação das Nuvens” é o grande painel de entrada na exposição, criado por Pedro Calapez, precisamente com base nos catálogos e outras obras publicadas pela Fundação Carmona e Costa. É como representação da ideia de nuvem digital (ou “cloud”), que se deve perceber o conceito que preside à peça cenográfica através da qual Pedro Calapez dá consistência física (analógica e artística) ao armazenamento de conhecimento proporcionado pelas obras aqui apresentadas.

A Coleção Fundação Carmona e Costa foi e continua a ser constituída não como investimento mas como modo de reconhecimento e distribuição de valor. Com os seus instrumentos de análise, acumulados por décadas de observação e de seguimento e intervenção na realidade criativa nacional, Maria da Graça foi criando o seu puzzle pessoal, sem qualquer intenção historicista, sem a ambição de esgotar a realidade, guiada pelo seu prazer, enorme intuição e amor pela arte e pelos artistas, compondo ao longo destas décadas um verdadeiro álbum de família onde cada imagem testemunha uma relação pessoal e uma memória. Mais do que poder ser seguida ou ilustrada a partir da colecção, parte da história da arte contemporânea nacional revela-se na própria colecção e muitas das obras constituem-se como elementos factuais dessa mesma história. Através do acompanhamento das múltiplas linhas que tecem e cruzam a coleção e os tempos da criação artística, pretende-se com esta exposição perceber a realidade e expressão de uma vontade.

[Texto baseado na Folha de Sala que acompanha a exposição]

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO: "Plug-In"



EXPOSIÇÃO: “Plug-In”,
de Joana Vasconcelos
Curadoria | João Pinharanda
MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia
28 Set 2023 > 08 Abr 2024


Joana Vasconcelos foi a primeira artista nomeada para o Prémio Novos Artistas Fundação EDP em 2000. Passadas quinze edições, esse prémio provou ser um momento de revelação de alguns dos mais significativos nomes da cena artística nacional. Naquela que pode ser a mais impressionante exposição da artista até à data, “Plug-In” é mais uma etapa desta relação, mostrando no MAAT um conjunto de trabalhos inéditos entre nós ou há muitos anos não vistos, que têm em comum o facto de serem peças mecânicas e/ou luminosas, justificando assim o título unificador escolhido. Nas peças expostas encontramos os traços iniciais de irreverência de Joana Vasconcelos (nos temas, formas, matérias e métodos de trabalho): um olhar irónico, humorado e critico sobre as coisas do mundo e a natureza dessas coisas. O que a artista faz com as coisas é roubá-las ao quotidiano, oferecendo-lhes uma outra dimensão. O que é pobre faz-se rico, como nos contos de fadas, e o que é rico explode em excessos que quebram as fronteiras do plausível e da razoabilidade.

Um bom exemplo disso é a peça “Árvore da Vida”, inspirada na escultura de Apolo e Daphne, de Gian Lorenzo Bernini. Um trabalho monumental, surgido durante o confinamento devido à pandemia de Covid-19 e que partiu do pedido da artista aos artesãos que com ela trabalham para que se ocupassem da produção de folhas. São 140.000, no total, todas bordadas à mão, assentes em 354 ramos que dão forma a uma árvore com mais de 13 metros de altura. Criação site-specific para a Sainte-Chapelle de Vincennes, em Paris, a obra reforça a verticalidade do vínculo entre terra e céu, mundano e espiritual. Adaptada agora ao espaço do MAAT, prossegue o diálogo com as especificidades da arquitetura, ao mesmo tempo que combina perícia manual e eletricidade, estabelecendo na perfeição a ligação entre “arte e tecnologia”.

Uma das peças inéditas é “Drag Race”, um Porsche 911 Targa Carrera decorado ao estilo inimitável de Joana Vasconcelos. A artista inspirou-se em visitas ao Mosteiro de Tibães, em Braga, conhecido como o maior expoente de motivos marinhos em talha dourada de todo o país, e ao Museu dos Coches, nas proximidades, em Lisboa. Daí resulta uma peça que, além de ser a expressão do poder áulico e excessivo, acaba por se situar num universo de transgressão, fantasia e festa melancólica. Também em exposição está “War Games”, de 2011, um clássico Morris Oxford oferecido a Joana Vasconcelos para praticar as suas capacidades de condução e que a artista encheu com centenas de peluches e outros animais mecânicos, cobrindo o exterior de réplicas de armas de fogo. A obra evoca a cadeia de violência global a que as crianças não são imunes e funciona como um libelo pacifista. “Strangers in the Night”, de 2000, ouve-se antes de ser visto. A obra emite em contínuo uma canção de Sinatra e fala-nos de carros rodando na noite e de homens procurando os amores baratos e fortuitos de uma qualquer mulher, resultando num comentário sobre o lado muitas vezes obsceno da vida nocturna.

Originalmente encomendado para o resort MGM Macau, “Valkyrie” ocupa um espaço aberto da ampla galeria e é deslumbrante na infinidade de soluções cénicas e artísticas que encerra, bem como na forma como se dá a ver, a enorme estrutura oferecendo-se à observação as partir dos mais variados pontos de vista. Uma solução que dá sentido à metáfora dos tentáculos do polvo envolvendo o espaço e os seus ocupantes. A surpresa e fascínio desta exposição prolonga-se para o espaço exterior com duas obras igualmente icónicas. “I’ll Be Your Mirror #2” é uma peça constituída por 510 espelhos de mão ao lado de 255 molduras de bronze barroco com a forma de uma colossal máscara veneziana. Uma máscara que mostra mais do que esconde, uma peça arrebatada, fútil e festiva que desmonta o cinismo socialmente útil de todas as máscaras. “Solitário #1” é um gigantesco anel composto por 110 jantes de automóvel e de 1449 copos de whisky. A ostentação simbólica de jóia tão especial fala-nos de luxo e solidão. A solidão e a afirmação da individualidade perante a sociedade. Mas, colocado no exterior do Museu, este anel procura afinal uma partilha: é oferecido a quem passa, como aliança da artista, da sua arte, com os seus públicos.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

EXPOSIÇÃO: "O Castelo Surrealista de Mário Cesariny"



EXPOSIÇÃO: “O Castelo Surrealista de Mário Cesariny”
Curadoria | João Pinharanda, Afonso Dias Ramos, Marlene Oliveira
MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia
05 Out 2023 > 04 Mar 2024


Poeta e pintor - para além de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal -, Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu em 09 de Agosto de 1923 e morreu em 2006, aos 83 anos, sendo considerado o principal representante do surrealismo português. Para assinalar o centenário do seu nascimento, várias instituições desenharam um programa variado de eventos cujo início teve lugar em Vila Nova Famalicão, na Fundação Cupertino de Miranda e que encontra no MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, um dos seus pólos mais significativos. É aqui que pode ser visto “O Castelo Surrealista de Mário Cesariny”, exposição que celebra não apenas o centenário do artista, mas que assinala também a data histórica dos cem anos da publicação do primeiro manifesto surrealista por André Breton, em 1924.

“O Castelo Surrealista de Mário Cesariny” é inspirado no livro que o artista, trabalhando entre Lisboa, Paris e Londres, dedicou à vida e obra de Vieira da Silva e Árpád Szenes. O próprio Cesariny fora buscar o seu título ao manifesto de Breton, na referência ao lugar imaginário no qual habitamos com todos aqueles, passados e presentes, que amamos e admiramos. Esta exposição procura, da mesma forma, pensar a obra de Cesariny no contexto alargado da genealogia (autoral, temporal, geográfica, disciplinar) que, para si mesmo (e para o Surrealismo) reclamou. Na exposição celebra-se a sua vida e a sua obra poética e plástica no contexto dos tempos e obras díspares que reivindicava como fonte de inspiração, das obras que lhe foram coevas, dos artistas que conhecia, daqueles de quem foi companheiro ou de outros que prolongaram diálogos com a sua obra, mas também dos retratos que lhe foram feitos, das culturas que admirava, dos amantes que conheceu e dos objetos de que se rodeava.

A legitimidade das filiações propostas nesta exposição só deve ser questionada poeticamente. Recua-se, por isso, à Antiguidade, à Idade Média, ao romantismo e ao simbolismo para chegar aos tempos e às poéticas coincidentes com as afinidades eletivas de Cesariny, colocando tudo isto em diálogo com os seus amigos ou companheiros de geração e com os estratos culturais populares e extra-ocidentais que tanto lhe importavam. Os desenhos e a pintura de Mário-Henrique Leiria, Cruzeiro Seixas, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill, Marcelino Vespeira, Gonçalo Duarte ou Malangatana, a fotografia de Vitor Palla e Fernando Lemos ou a escultura de Reinata Sadimba aí estão para o comprovar. Cada obra evoca e convoca um universo de outras obras a explorar, e remete para novos e mais vastos tabuleiros de jogo, dentro e fora do surrealismo, da Europa e do seu tempo histórico - ou, principalmente, no avesso de tudo isso.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

EXPOSIÇÃO DE DESENHO: "Uma Vida Desenhada" | Manuel Cargaleiro


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EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “Uma Vida Desenhada”,
de Manuel Cargaleiro
Curadoria | João Pinharanda
Fundação Manuel Cargaleiro, Castelo Branco
Inauguração | 05 Jun 2021


“Principalmente, são formas de alegria e esperança de vida, ilhas de felicidade que Cargaleiro cultiva numa dimensão e persistência que raramente se encontra na produção artística portuguesa; que, de qualquer modo, em nenhum outro artista, se constitui como centro da acção criativa e como eixo de sentido do conjunto da obra.”
Siza Vieira, in “Manuel Cargaleiro, Vida e Obra”

Inaugurada no passado dia 05 de Junho e sem data definida para o seu término, está patente ao público na Fundação Manuel Cargaleiro a exposição “Manuel Cargaleiro — Uma Vida Desenhada”. A mostra é composta por cerca de 150 trabalhos, quase todos eles inéditos, selecionados a partir de um fundo de cerca de dois mil originais e reveladores de uma zona mais intimista e menos conhecida do trabalho de Manuel Cargaleiro. Apreciadas no seu conjunto, as obras  “permitem estabelecer uma viagem fascinante e muito diversificada entre os anos de 1950 do século passado e a década atual deste século – setenta anos de inesgotável vontade criativa, intensa e sempre rica nas suas propostas, abertura de novos caminhos, reiteração de uma poética de alegria e partilha”, de acordo com as palavras do historiador, crítico de arte, comissário e curador desta exposição, João Pinharanda.

Através dos seus desenhos, Manuel Cargaleiro lança pontes de interpretação para todas as dimensões da sua obra – da cerâmica e da azulejaria à pintura –,  e “a exposição prepara-nos para entender melhor a génese formal e temática do restante trabalho, os diálogos que estabelece quer com a tradição dos saberes artesanais, que tanto aprecia, quer com história da arte do seu tempo – amigo que foi dos grandes artistas da Segunda Escola de Paris, notoriamente de Vieira da Silva”. Ainda João Pinharanda: “A ligação íntima que estabelece com a natureza transmite-a Cargaleiro na captação da riqueza da luz, através da cor ou de integração dos ritmos e dinâmicas dos elementos naturais, numa tensão e diálogo permanentes entre a irrupção livre do vegetal e a disciplina do gesto geométrico, entre a sugestão figurativa e a aproximação não-figurativa, entre a mancha solta e a sua organização em padrões”.

São estes alguns dos fios de sensibilidade e racionalidade que a exposição pretende tornar evidentes, organizando longas séries de desenhos, estabelecendo aproximações formais e temáticas entre diferentes tempos, sublinhando as coerências e continuidades, as aberturas, desvios e retomas que ligam todo o conjunto. Para os menos familiarizados com a obra de Cargaleiro, valerá a pena começar por visitar as exposições permanentes patentes na Fundação, nomeadamente aquela dedicada às loiças que põe em evidência a faceta de coleccionador do artista. Será então interessante perceber o quão inspirada na arte popular se revela a sua obra, abrindo-se não apenas nas suas similitudes estéticas mas revelando também o uso de técnicas ancestrais, revalorizadas pela atitude e forma de pensar a arte tão intensas, alegres e vivas em Manuel Cargaleiro. Uma maravilhosa exposição num espaço de eleição. A não perder, absolutamente!