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sexta-feira, 15 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO: "Guaches" | Manuel Cargaleiro



EXPOSIÇÃO: “Guaches”,
de Manuel Cargaleiro
Organização | Fundação Manuel Cargaleiro
Museu Cargaleiro, Castelo Branco
Exposição de longa duração (inaugurada em 16 Mar 2024)


“Mais Cargaleiro est également peintre, l’un des meilleurs qui, depuis de nombreuses années, représente son pays dans l’École de Paris. En témoignent les admirables gouaches que voici, exquises décantations, clairs poèmes du goût le plus subtil et le plus pur.”
Jean Cassou

“Guaches”, a exposição que ocupa o último piso do Museu Cargaleiro, possui hoje uma inevitável dimensão testamentária. Inaugurada a 16 de Março de 2024, precisamente no dia em que o mestre soprou 97 velas, esta seria a sua última mostra apresentada em vida, ele que viria a falecer poucos meses depois, a 30 de Junho. Reunindo 59 obras produzidas entre os anos 50 e a actualidade, a exposição percorre sete décadas de um percurso singular no panorama artístico português e europeu, marcado pela depuração formal, pela exaltação cromática e por uma fidelidade absoluta à experimentação. A par de Vieira da Silva, Lourdes Castro, René Bertholo ou Júlio Pomar, Cargaleiro pertence a uma geração de artistas que encontrou em Paris o território ideal para expandir linguagens e romper fronteiras estéticas. O contacto com o abstraccionismo francês dos anos 40 e 50 revelou-lhe novas possibilidades expressivas, sem nunca o afastar das sua raízes. Pelo contrário: foi precisamente da tradição popular, da geometria do azulejo e da luminosidade mediterrânica que construiu uma assinatura visual imediatamente reconhecível. Entre a disciplina estrutural herdada da escola francesa e uma liberdade quase musical do gesto e da cor, a sua obra tem em “Guaches” um resumo afectivo e artístico de uma vida inteira dedicada à criação.

Embora o grande público associe inevitavelmente Manuel Cargaleiro à cerâmica e ao azulejo - campos onde deixou uma marca absolutamente decisiva -, “Guaches” permite compreender de que forma o desenho e a pintura estiveram sempre no centro da sua pesquisa estética. O guache surge aqui não como técnica secundária ou mero exercício preparatório, mas como território autónomo de invenção. A opacidade da tinta, a rapidez da execução e a possibilidade de trabalhar sobre a vibração imediata da cor adequavam-se perfeitamente à natureza intuitiva do artista. Em muitos destes trabalhos percebe-se a mesma lógica fragmentária que atravessa os seus painéis cerâmicos: planos que se cruzam, ritmos geométricos, manchas luminosas e estruturas que parecem expandir-se para além dos limites da composição. Contudo, no papel, Cargaleiro revela também uma dimensão mais íntima e espontânea, quase diarística. O guache permitiu-lhe fixar estados emocionais, captar impulsos momentâneos e libertar o gesto da solenidade dos grandes formatos. Não por acaso, esta técnica seduziu alguns dos maiores nomes da pintura mundial, de Henri Matisse a Wassily Kandinsky, passando por Paul Klee ou Joan Miró. Em todos eles, como em Cargaleiro, o guache funcionou como espaço de liberdade absoluta, onde a imaginação pôde avançar sem constrangimentos técnicos ou narrativos.

Há nesta derradeira exposição uma serenidade luminosa que impressiona. Mesmo perante a consciência da finitude, a obra do mestre nunca resvala para a melancolia. Pelo contrário: permanece animada por uma energia juvenil, exactamente como sublinha João Pinharanda no catálogo da mostra, ao descrever o artista como alguém que “nunca deixou a juventude”. Essa vitalidade atravessa toda a exposição. As cores explodem em azuis intensos, vermelhos solares e amarelos mediterrânicos; as formas multiplicam-se em ritmos quase musicais; e as composições recusam qualquer peso dramático. Mesmo quando abstracta, a pintura de Cargaleiro conserva sempre uma dimensão humana e sensorial. O artista observa cidades, jardins, fachadas, azulejos e objectos do quotidiano, não como elementos estáticos, mas como organismos vivos em permanente mutação. Essa será a principal razão pela qual a sua obra continua a tocar de perto gerações tão distintas. Sem ceder ao conceptualismo hermético nem ao academismo decorativo, Cargaleiro construiu uma linguagem imediatamente acessível, mas nunca simplista. “Guaches” confirma precisamente isso: a capacidade rara de transformar cor, luz e fragmentos em emoção visual. E confirma também o lugar central que o artista ocupa como um dos grandes poetas visuais da cor no panorama artístico português.

sábado, 29 de abril de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Pintar a Luz, Viver a Cor"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Pintar a Luz, Viver a Cor”,
de Manuel Cargaleiro
Curadoria | Nuno Cardoso
Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo
01 Abr > 18 Jun 2023


Depois de Paula Rego, Amadeo de Sousa Cardoso, Vieira da Silva, Cruzeiro Seixas ou Armanda Passos, a Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo acolhe Manuel Cargaleiro, expondo um conjunto significativo de quadros a óleo de um dos nossos maiores artistas plásticos vivos. Fruto da generosidade de colecionadores particulares na cedência temporária das obras, são cerca de sessenta os trabalhos que integram a mostra, alguns deles totalmente desconhecidos do grande público. Este será, porventura, o aspecto mais surpreendente desta exposição, ao qual se deve acrescentar a consistência e coerência dos trabalhos expostos, absolutamente representativos da obra do Mestre. Apresentados por ordem cronológica, permitem ao visitante perceber a “evolução na continuidade” de uma carreira ímpar, fortemente influenciada pelo abstracionismo e pelo surrealismo que Cargaleiro bebeu “na fonte”, na chamada “Escola de Paris”, onde se radicou em 1954 e onde conviveu com nomes tão significativos da nossa pintura como Lurdes de Castro, René Bertholo, José Escada ou Maria Helena Vieira da Silva.

Título feliz, “Pintar a Luz, Viver a Cor” exprime na perfeição a essência desta mostra. Porque é um banho de luz e cor aquilo que nos espera, mal adentramos a primeira de duas salas pelas quais se distribui a exposição. Ao fascínio que se adivinha no olhar do visitante não é alheia a certeza de estar a viver um momento único, profundo na sua essência, ímpar na sua beleza. Em «Pintar a Luz, Viver a Cor» percebe-se como o carácter radioso de Mestre Cargaleiro se mescla na paleta com a riqueza de contrastes, para ocupar naturalmente o tempo e o espaço de uma tela e dar a conhecer uma realidade não visível, através de uma linguagem singular e irresistivelmente sedutora. Os inícios da década de 60 revelam composições de pequena dimensão, muito inspirados no mundo vegetal, com “fundos” tendencialmente monocromáticos onde depois se inscrevem formas mais estuais, com forte dinamismo e movimento. A viragem para a década de 70 é a “fase das formas”, nela se assumindo a matriz geométrica enquanto recurso estético recorrente em toda a obra do Mestre.

Os inícios dos anos 70 apresentam um “virar” significativo nos temas e nas formas utilizadas. Começa a aparecer a verticalidade na sua pintura e a simbiose entre a natureza e a urbanidade. Há um cada vez maior dinamismo cromático e a representação da mensagem é mais minuciosa. O início dos anos 80 é marcado pelas famosas e muito aclamadas “catedrais”. Assim ficaram conhecidas estas composições pelo meticuloso rigor do seu trabalho e pelo contraste evidente da luminosidade que deixa transparecer harmoniosas estruturas orgânicas, fazendo lembrar pináculos apontados ao céu. Parecendo impossível, conhecendo todo o seu percurso até então, o que é facto é que quase 40 anos depois do início, nos anos 90, é ainda visível a inquietude de Cargaleiro e o desafio constante em introduzir novos elementos no seu trabalho e na sua expressão artística. Cidades, vilas, campos e flores mostram que não há limites ao desenrolar da cor, num hino à vida e à sua essência. Nos anos 2000 dá-se a síntese e a fusão de todo o enredo. Revisitam-se temas e lugares e as telas ganham mais matéria. As camadas de óleo ganham espessura e densidade. É o Mestre a deixar-nos mais de si em cada quadro, para que nos deleitemos na sua serenidade e no conforto que nos passa… ele que sempre esteve, e está, inteiro e de bem com a vida.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

EXPOSIÇÃO DE DESENHO: "Uma Vida Desenhada" | Manuel Cargaleiro


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EXPOSIÇÃO DE DESENHO: “Uma Vida Desenhada”,
de Manuel Cargaleiro
Curadoria | João Pinharanda
Fundação Manuel Cargaleiro, Castelo Branco
Inauguração | 05 Jun 2021


“Principalmente, são formas de alegria e esperança de vida, ilhas de felicidade que Cargaleiro cultiva numa dimensão e persistência que raramente se encontra na produção artística portuguesa; que, de qualquer modo, em nenhum outro artista, se constitui como centro da acção criativa e como eixo de sentido do conjunto da obra.”
Siza Vieira, in “Manuel Cargaleiro, Vida e Obra”

Inaugurada no passado dia 05 de Junho e sem data definida para o seu término, está patente ao público na Fundação Manuel Cargaleiro a exposição “Manuel Cargaleiro — Uma Vida Desenhada”. A mostra é composta por cerca de 150 trabalhos, quase todos eles inéditos, selecionados a partir de um fundo de cerca de dois mil originais e reveladores de uma zona mais intimista e menos conhecida do trabalho de Manuel Cargaleiro. Apreciadas no seu conjunto, as obras  “permitem estabelecer uma viagem fascinante e muito diversificada entre os anos de 1950 do século passado e a década atual deste século – setenta anos de inesgotável vontade criativa, intensa e sempre rica nas suas propostas, abertura de novos caminhos, reiteração de uma poética de alegria e partilha”, de acordo com as palavras do historiador, crítico de arte, comissário e curador desta exposição, João Pinharanda.

Através dos seus desenhos, Manuel Cargaleiro lança pontes de interpretação para todas as dimensões da sua obra – da cerâmica e da azulejaria à pintura –,  e “a exposição prepara-nos para entender melhor a génese formal e temática do restante trabalho, os diálogos que estabelece quer com a tradição dos saberes artesanais, que tanto aprecia, quer com história da arte do seu tempo – amigo que foi dos grandes artistas da Segunda Escola de Paris, notoriamente de Vieira da Silva”. Ainda João Pinharanda: “A ligação íntima que estabelece com a natureza transmite-a Cargaleiro na captação da riqueza da luz, através da cor ou de integração dos ritmos e dinâmicas dos elementos naturais, numa tensão e diálogo permanentes entre a irrupção livre do vegetal e a disciplina do gesto geométrico, entre a sugestão figurativa e a aproximação não-figurativa, entre a mancha solta e a sua organização em padrões”.

São estes alguns dos fios de sensibilidade e racionalidade que a exposição pretende tornar evidentes, organizando longas séries de desenhos, estabelecendo aproximações formais e temáticas entre diferentes tempos, sublinhando as coerências e continuidades, as aberturas, desvios e retomas que ligam todo o conjunto. Para os menos familiarizados com a obra de Cargaleiro, valerá a pena começar por visitar as exposições permanentes patentes na Fundação, nomeadamente aquela dedicada às loiças que põe em evidência a faceta de coleccionador do artista. Será então interessante perceber o quão inspirada na arte popular se revela a sua obra, abrindo-se não apenas nas suas similitudes estéticas mas revelando também o uso de técnicas ancestrais, revalorizadas pela atitude e forma de pensar a arte tão intensas, alegres e vivas em Manuel Cargaleiro. Uma maravilhosa exposição num espaço de eleição. A não perder, absolutamente!