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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: TEATRO



10. Welcome to Europe
Texto, encenação, espaço cénico e vídeo | Ricardo Correia
Interpretação | Beatriz Antunes, Fábio Saraiva, Sofia Coelho e Ricardo Correia
Produção | Casa da Esquina – Associação Cultural
FESTOVAR 2025 - XXXII Festival de Teatro de Ovar
Centro de Arte de Ovar
25 Out 2025 | sab | 17:30

“ (…) Neste Museu feito de peças efémeras, no final não haverá “merchandising” ou“souvenirs” à venda - quando muito, os interessados podem adquirir o livro do espectáculo -, mas as interrogações persistem muito para lá dos 70 minutos de duração da peça. “Welcome to Europe” confronta-nos com uma Europa excludente, com a redução dos migrantes a meros números, ameaças latentes, corpos sem história cujas histórias têm no risco, na desumanização ou na perda denominadores comuns. Neles, porém, reconhecemos uma força vital que desafia a indiferença e expõe a fragilidade de um sistema que, enquanto proclama os direitos humanos, nega a humanidade a quem os reclama. Que Europa é esta que recebe e exclui, que promete e recusa, que soube construir-se no encontro com o outro e que agora o rejeita?”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/teatro-welcome-to-europe.html



9. Babel
Encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos | Nuno Cardoso
Interpretação e co-criação | Carlos Rodrigues, Cristina Almeida, Edilson Wa Ka Chambe, Emílio Costa, Hermínia Teixeira, José Teixeira, Luísa Costa, Madalena Costa, Marlene Pacheco, Rodrigo Matos, Roldy Harrys
Produção | Teatro Nacional São João
Teatro Nacional Carlos Alberto
14 Jun 2025 | sab | 19:00

“ (…) A Babel que veio do teatro do mundo para o Teatro Carlos Alberto não é nenhum rebanho conduzido por pastor ou cão. Do tumulto dos dias, transportando vidas contraditórias, as personagens desaguam uma a uma num lugar de onde vão partir novamente. Medem-se, evitam-se e olham-se com sentimentos de superioridade ou desprezo. Pelo telefone de cada uma, este lugar desdobra-se numa teia de assuntos: cada qual tenta organizar o seu mundo e dar conta do estranhamento e da incomodidade que as outras lhe causam. Um padre difunde um velho discurso de Salazar sobre a autoridade e o povo submisso: “Está tudo bem assim e não poderia ser de outra forma”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/teatro-babel.html



8. A Médica
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Interpretação | Adriano Luz, Custódia Gallego, Eduarda Arriaga, Igor Regalla, Inês Castel-Branco, José Leite, Luciana Balby, Maria José Paschoal, Pedro Laginha, Rita Cabaço, Sandra Faleiro e Vera Cruz
Produção | Teatro do Eléctrico
Teatro da Trindade Inatel - Sala Carmen Dolores
02 Fev 2025 | dom | 16:30

“ (…) “The Doctor”, no original, coloca-nos perante um conjunto de temas que estão na ordem do dia. Partindo dessa espécie de braço de ferro da medicina e da ciência com a religião, o texto possui um lado engenhoso que consiste em deixar as questões em aberto, em busca de respostas que cada um terá (ou não) dentro de si. Ciência, religião, sexualidade, identidade ou racismo, são como cartas atiradas para a mesa de todas as discussões, ora funcionando como um desafio às nossas convicções, ora mostrando a forma como lidamos com o preconceito e tendemos a falar daquilo que não sabemos”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-medica.html



7. Frágua de Amor
Encenação | António Augusto Barros
Interpretação | Ana Teresa Santos, Carlos Meireles, Igor Lebreaud, Maria Quintelas, Miguel Magalhães, Mónica Camaño, Nuno Meireles, Ricardo Kalash, Sérgio Ramos
Produção | A Escola da Noite, O Bando de Surunyo
Teatro Carlos Alberto
17 Jan 2025 | sex | 15:00

“ (…) Encantadora, a peça encenada por António Augusto Barros e que tem em Hugo Sanches o responsável pela parte musical permite-nos apreciar algo de verdadeiramente incomum e que podemos classificar como um musical vicentino. Posta em cena desta forma, com a componente lírica a assumir uma tão grande preponderância, a peça faz jus à ideia de um teatro a ampliar-se e a separar-se dos momos e chacotas, composto agora por monólogos, diálogos, música tocada, cantada e bailada, sagrada e profana, popular ou palaciana, como ensina Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Aliás, muito deste modus faciendi está patente em indicações textuais do dramaturgo, que também foi músico e autor de canções”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/teatro-fragua-de-amor_01480197978.html



6. À Primeira Vista (Prima Facie)”
Encenação | Tiago Guedes
Interpretação | Margarida Vila-Nova
Produção | Força de Produção
31º Encontro de Teatro do CiRAC
Cine-Teatro António Lamoso
15 Fev 2025 | sab | 21h30

“ (…) A peça faz passar, de forma admirável, a mensagem de que o sistema jurídico é moldado pela experiência masculina, os casos são decididos por gerações de juízes homens e as suas normas estabelecidas por gerações de políticos do sexo masculino, num contexto em que as mulheres foram em tempos classificadas como propriedade dos seus maridos, pais e irmãos. Por isso, a legislação sobre a agressão sexual está desajustada da experiência real vivida pelas mulheres. São sempre as vítimas, normalmente mulheres, que são “julgadas”, interrogadas e obrigadas a reviver a sua experiência humilhante, e depois postas em causa acerca dos motivos que as levaram a denunciar um crime hediondo contra a sua pessoa. No entanto, e significativamente, a investigação demonstrou que as pessoas simplesmente não acreditam nas mulheres que testemunham em casos de agressão sexual. Mesmo outras mulheres!”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-primeira-vista-prima-facie.html



5. Chuva Pasmada
Adaptação, direcção artística e encenação | Leandro Ribeiro
Interpretação | Clara Oliveira, Mafalda Reis, Maria Inês Campos, Paulo Cruz e Rita Camões
Produção | Sol d’Alma – Associação de Teatro
Centro das Artes do Espectáculo Sever do Vouga
16 Nov 2025 | dom | 16:00

“ (…) “Chuva Pasmada” é um imenso, intenso milagre. A sensibilidade que Mia Couto coloca em cada palavra, a forma como, entre a voz e o silêncio, leva a que identidade e memória dancem em comunhão, é um convite à autodescoberta, um rasgar de atalhos para o mais fundo de cada um de nós. Motor secreto da peça e do romance, o amor é semente capaz de transformar dúvidas em certezas, a hesitação em voo, o receio em pertença. A materialização de todo este imaginário fabuloso constrói-se em comunhão de talentos: Onde apenas existiam telas, as luzes abrem rios; o vazio veste-se de emoção ao som de uma música inspirada; o invisível faz-se presente na riqueza dos sons; os figurinos acrescentam cor à própria respiração”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/teatro-chuva-pasmada-mia-couto.html



4. Quem Tem Medo de Virginia Woolf?
Encenação | Simão do Vale Africano
Interpretação | João Reis, Anabela Moreira, Daniel Silva, Joana Africano
Produção | Subcutâneo - Teatro Hialurónico
Teatro Nacional São João
16 Fev 2025 | dom | 16:00

“ (…) A peça, já o sabemos, é uma forma muito original - e abominável - de chamar ao palco a relação de um casal. Não há troca de palavras que resista ao crivo da humilhação moral e da tortura psicológica, a sua intensidade a aumentar à medida que o tempo passa e cresce o nível de álcool no sangue. Um quadro de crise profunda e que se arrasta há uma eternidade, dadas as insinuações e outras regras que parecem ainda existir neste jogo de massacre. Na sua insistência, na sua duração, na sua brutalidade, a peça torna palpável o quadro doentio em que as personagens se movem, mostrando de forma clara e tangível a loucura que as afecta”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-quem-tem-medo-de-virginia-woolf.html



3. 1984
Encenação | Pedro Carraca
Interpretação | Ana Castro, Carolina Salles, Gonçalo Carvalho, Inês Pereira, Paulo Pinto, Pedro Caeiro, Raquel Montenegro, Tiago Matias, Victor Gonçalves
Produção | Artistas Unidos
Ponto C - Cultura e Criatividade, Penafiel
08 Fev 2025 | sab | 17h00

“ (…) Verdadeiro teste à tolerância do público face à violência que dela se derrama, a peça coloca em perspectiva a obra-prima de George Orwell, transformando em passado longínquo o futuro que o autor desenhou em 1948 (o título será um anagrama da data), sobre factos ocorridos em 1984, ao situá-lo num vindouro ano para lá de 2050. Assim, para além da história de Winston Smith, que não sabemos se verdadeira ou não, aquilo a que assistimos é à história do próprio romance ao longo do tempo decorrido desde que foi escrito, e de como é que o livro contribuiu ou não para alterar a nossa visão de futuro”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-1984.html



2.  House
Dramaturgia e encenação | Amos Gitai
Interpretação | Bahira Ablassi, Dima Bawab, Irène Jacob, Alexey Kochetkov, Micha Lescot, Pini Mittelman, Kioomars Musayyebi, Menashe Noy, Minas Qarawany, Mark Bonney, Danielle O’Neill, Nathan Mercieca, Ghassan Ashkar
Produção | La Colline – Théâtre National
Teatros del Canal - Sala Roja Concha Velasco, Madrid
25 Abr 2025 | sex | 20:00

“ (…) Ao atrair-nos para a teia emaranhada de violência ontológica por trás do projeto sionista de anexar lares palestinos, Gitai rejeita qualquer enquadramento dialético. A violência de construir uma casa sobre as ruínas de outra, ou de viver dentro da casa de outra pessoa, faz parte da identidade israelita, ao mesmo tempo que procura apagar da história qualquer traço de presença palestiniana. A dominação transversal do colonialismo de povoamento, que busca estabelecer uma pátria permanente por meio do deslocamento, é visceralmente sentida através do refrão percussivo dos dois pedreiros martelando blocos de arenito ao longo das duas horas e meia de duração da peça, os ritmos sincopados formando como que um coro pulsante de violência que abafa qualquer perspectiva de paz ou tranquilidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/teatro-house.html



1. A Colónia
Direcção e dramaturgia | Marco Martins, a partir de uma reportagem de Joana Pereira Bastos
Interpretação | Manuela Canais Rocha, Conceição Lopes, Conceição Matos, Domingos Abrantes, Humberto Candeias, Olga Sequeira Santos, Rita Veloso, Valentina Marcelino, João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça
Produção | Arena Ensemble 
Teatro Nacional de S. João
26 Jan 2025 | dom | 16:00

“ (…) Reunindo em palco um elenco multifacetado, que juntou actores, não actores e aspirantes a actores, Marco Martins trabalhou a peça a partir de histórias e experiências pessoais, propondo uma ampla reflexão sobre história, memória e opressão. Algumas dessas histórias falam do desconhecimento do verdadeiro nome do pai ou da mãe, de apenas conhecerem irmãos pela palavra bebé, de não corrigirem deficiências de nascença por não estarem registados e serem considerados ilegais, de terem no cartão de visita da prisão o seu primeiro documento de identidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/teatro-colonia.html

domingo, 15 de junho de 2025

TEATRO: "Babel"



TEATRO: “Babel”
A partir de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões
Encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos | Nuno Cardoso
Vídeo | Fernando Costa
Interpretação e co-criação | Carlos Rodrigues, Cristina Almeida, Edilson Wa Ka Chambe, Emílio Costa, Hermínia Teixeira, José Teixeira, Luísa Costa, Madalena Costa, Marlene Pacheco, Rodrigo Matos, Roldy Harrys, Rosa Quiroga, Sérgio Nogueira, Tiago Ribeiro, Sérgio Sá Cunha, Telma Cardoso
Música ao vivo | Adriano Silva (eufónio), Diogo Gomes (trompete), Lucas Domingos (trombone), Marta Figueira (clarinete), Rafael Fonseca (tuba), Francisco “el Killo” Beirão (percussão)
Produção | Teatro Nacional São João
90 Minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Nacional Carlos Alberto
14 Jun 2025 | sab | 19:00


“Vamos construir uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Assim, havemos de nos tornar nomeados para evitar que nos dispersemos por toda a superfície da Terra.
O Senhor, porém, desceu, a fim de ver a cidade e a torre que os homens estavam a edificar.
E o Senhor disse: “Eles constituem um só povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa alguma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projectos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros.”
E o Senhor dispersou-os dali por toda a superfície da Terra, e suspenderam a construção da cidade.”
Livro do Génesis, 11:1-9

Vindo dos tempos conturbados das origens, este é o relato do mito de Babel. Já não era a primeira vez que o Criador e a criação se desentendiam – primeiro, foram expulsos do Paraíso; depois, Caim foi amaldiçoado por ter matado o irmão; depois, o dilúvio, por serem blasfemadores e ímpios; finalmente, Babel, por serem orgulhosos. Pode ter sido diferente nesse tempo, mas nada garante que a mesma língua – um esperanto, inglesing, ou globish – produza uma compreensão mútua se as ideias forem diferentes. É muito mais fácil enganar o parceiro usando a mesma linguagem. Pelos vistos, o Génesis, como hoje, era um tempo de catástrofes (sobre)naturais resultante do confronto entre uma divindade caprichosa e uma humanidade libertina que, ao invés de compreender e praticar a harmonia que lhe fora destinada, gastava o tempo em conflitos, jogos de poder, matanças, invejas, vinganças, orgias e tudo o mais. Com a confusão das línguas e sem acesso à tradução automática, os humanos dispersaram-se e o Criador, muito seguro de si e vingativo, dividia para reinar. Literalmente, Babel significa “Porta do Céu”, mas não entra quem quer. “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele” – escreveu Saramago em Caim (2009), sem explicar os desentendimentos reinantes entre o suposto colectivo designado pela primeira pessoa do plural, nós.

A Babel que veio do teatro do mundo para o Teatro Carlos Alberto não é nenhum rebanho conduzido por pastor ou cão. Do tumulto dos dias, transportando vidas contraditórias, as personagens desaguam uma a uma num lugar de onde vão partir novamente. Medem-se, evitam-se e olham-se com sentimentos de superioridade ou desprezo. Pelo telefone de cada uma, este lugar desdobra-se numa teia de assuntos: cada qual tenta organizar o seu mundo e dar conta do estranhamento e da incomodidade que as outras lhe causam. Um padre difunde um velho discurso de Salazar sobre a autoridade e o povo submisso: “Está tudo bem assim e não poderia ser de outra forma.” Dois actores recitam versos do início de Os Lusíadas, de Camões: “As armas e os barões assinalados.” O resultado é uma enorme gargalhada em uníssono. Fala-se a mesma língua, não há nenhuma torre para construir, e o somatório dos indivíduos equipados com dispositivos de comunicação não constitui uma sociedade, um colectivo. Os corpos vigiam-se mutuamente e repelem-se. Cada voz inscreve-se numa bolha, e perpassa por todos um estado de desregulação emocional – a expressão é do filósofo Daniel Innerarity – que traduz a desconfiança, a ansiedade, a fragilidade, a raiva, a ameaça ou o medo com que se interpreta o quotidiano e se verbalizam ideias e actos políticos: nós e eles; o mundo contra mim; eu e o mundo pelas redes sociais.

A esfera pública não existe como lugar-comum do debate público e, à medida que se aprofunda a globalização ao toque acelerado da acumulação do capital, vão desaparecendo os dispositivos de vida em comum, de redistribuição e justiça social, de hospitalidade e cuidado com o outro. Clama-se por segurança, contra os imigrantes, pelos malefícios do CO2, pela extinção dos pandas, pelo clima ou pelos oceanos. Anuncia-se o fim do mundo para que nos esqueçamos do quotidiano e aceitemos qualquer coisa que nos seja incutida como remédio para tal cataclismo, mas o populismo digital apenas serve para manter a fritura quente dos acontecimentos que se sucedem em regime torrencial, sobre isto e aquilo, aqui ou do outro lado do mundo, tudo acelerado e superficial para que a corrente não cesse e a turbulência se mantenha. Atordoados, os indivíduos naufragam no grande turbilhão. A saturação e a dissipação esgotam a energia e mantêm o cidadão entretido, revoltado, amorfo ou enquistado na sua luta pessoal, na sua causa e activismo – existem milhares de causas para abraçar e, juntas, compõem uma cacofonia sem fim. Apesar da presença dos corpos, a pólis ficou reduzida a escombros e ao caos. A indiferença e a individuação encontram terreno fértil na complexidade e na contradição dos tempos, na erosão do Estado Social, numa sensação de cidadania nunca cumprida porque diluída para lá do estado-nação, dissolvido no sistema-mundo do salve-se quem puder, onde tudo se joga, compra ou vende: um emprego, um projecto de vida, uma guerra, um desastre, uma torre no Dubai, ou o paraíso num resort de areia dourada.

Transformada em expressão banal, a comunidade é um mito, uma palavra para repetir até à exaustão, denominando qualquer coisa, com a expectativa de que, depois de tantas vezes repetida, acabe por se revelar na sociedade dos indivíduos. Zygmunt Bauman, o teórico da modernidade líquida, defende que tal insistência se deve sobretudo a uma busca de segurança, usando uma palavra que, antes mesmo de se acabar de pronunciar, arrasta consigo o melhor da condição humana – a solidariedade, a atenção ao outro. Nos EUA, uma comunidade fechada é um condomínio privado. Comunidades abertas são o contrário de mais de um século de antropologia a explicar que as comunidades são muito pouco permeáveis. À volta, o que se vê é mais o cancelamento do que o diálogo, a recusa mais do que a escolha, a rejeição em vez da preferência. O presentismo domina os actos políticos em modo binário e demagógico, e o mercado promete equilibrar tudo, apesar de nunca o ter feito. Esta é a Babel, movimento perpétuo, gente à procura de si mesma, ora muito certa das suas pretensões e “glórias de mandar” dentro da entropia do sistema, ora muito consciente da sua fragilidade, da facilidade com que se pode tornar inútil e ser jogada no refugo. “No mar, tanta tormenta e tanto dano, / Tantas vezes a morte apercebida! / Na terra, tanta guerra, tanto engano”, cantava Camões, como quem hoje fala do cemitério em que se tornou o Mediterrâneo. Quando tudo depende do que se passa no grande mundo, o lugar onde se está torna-se mais relevante, porque aí estará, para cada um, o seu lugar. É urgente que daí possam brotar a utopia e a hospitalidade. É uma questão de desligar as redes sociais, fazer silêncio, ouvir quem somos e que coisas podemos fazer pelos outros. A comunidade não existe, tão pouco a identidade: constroem-se.

[Texto transcrito na íntegra, da autoria de Álvaro Domingues, inserto no Programa de Sala, em https://www.tnsj.pt/ficheiros/eventos/programa-de-sala68406da5db370.pdf; foto de TNSJ, em https://www.tnsj.pt/]

domingo, 29 de setembro de 2024

TEATRO: "Homens Hediondos"



TEATRO: “Homens Hediondos”,
de David Foster Wallace
Encenação, tradução, dramaturgia, vídeo, figurinos, cenografia | Patrícia Portela
Desenho de Luz | Cárin Geada
Desenho de Som | Miguel Abras
Interpretação | Nuno Cardoso
Produção | Teatro Nacional São João
105 Minutos | Maiores de 16 anos
Teatro Carlos Alberto
12 Set 2024 | qui | 19:00


Dois peixinhos nadam na companhia um do outro quando encontram um peixe mais velho que lhes pergunta: “- Que tal a água?”. Ao que os peixinhos respondem: “- Água? O que é a água?”. Mais do que uma parábola sobre aquilo em que vivemos mergulhados e do qual não nos damos conta, esta frase é um convite ao espectador a deixar-se tomar pela figura do outro como se dele próprio se tratasse. Reflectindo sobre as questões vulgares de um quotidiano vulgar, a peça mostra que homens hediondos podem ser pessoas banais, com quem nos relacionamos todos os dias, no trabalho, nos transportes, nos cafés, em casa, e não necessariamente criaturas feias, repugnantes, monstruosas. Que homens hediondos são “essa imensa maioria que perpetua os mesmos comportamentos e relações de poder, e cuja violência muitas vezes aceitamos em nome da estabilidade e do nosso estilo de vida”. É disto que nos fala a mais recente criação de Patrícia Portela, uma peça escrita a partir do livro de David Foster Wallace, “Breves Entrevistas com Homens Hediondos”. Nela, somos confrontados com a dúvida, a raiva e o desespero de alguém que se sente obrigado a tolerar um sistema que tão ativamente condena, que se sabe cada vez mais hediondo. Nela vemos que em nós habita uma parte desse alguém.

A encenação como a dramaturgia são dois aspectos fundamentais da peça, a merecerem nota máxima. O terceiro aspecto é a interpretação de Nuno Cardoso, num monólogo intenso e vivo, segurado com a raiva nos dentes e os nervos à flor da pele. Mas vamos por partes. Não é preciso conhecer o livro para se perceber que há aqui um grande trabalho em torno das personagens que o habitam. Concentrar numa figura única as ameaças de uma extrema solidão, as tensões que advêm da incomunicabilidade ou da incompreensão ou a ausência de lucidez num oceano de emoções contraditórias, e conseguir evitar que o monólogo caia na redundância ou na esquizofrenia, é quase um milagre, tantas são as armadilhas à espreita de um e do outro lado de uma corda necessariamente bamba. A descrição do que de mais bizarro pode haver nos mundos interiores, a representação que cada um faz de si próprio e a forma como supostamente é visto pelos outros, as palavras ditas que se repetem em contextos opostos, a interrogação sobre os sentimentos humanos em circunstâncias estranhas ou extremas e a enorme coerência de um todo fortemente incoerente, são marcas distintivas de um trabalho pensado ao pormenor, depurado e rigoroso, posto em cena como um dedo espetado onde mais nos dói.

Falo, enfim, de Nuno Cardoso e da sua capacidade de encarnar todas estas figuras sem cair no exagero ou no exercício fútil da stand up comedy. Evitando as ciladas do histrionismo, o “actor genérico” mostra-se sóbrio e seguro quando nos vem lembrar que há santos porque há, igualmente, demónios, e que uns e outros habitam em nós. Transmitir a urgência que sente em tocar o espectador, em partilhar com ele a vida, partilhar caminho, sem se meter na sua cabeça, é a força que o move. Maridos ausentes, pais ausentes, relações pessoais e profissionais tensas, violência familiar, abandono parental, depressão, reacções emocionais, redes de apoio e por aí fora, são temas atirados à cara do espectador como se de um jogo de acção-reacção se tratasse. Aqui, toda a banalidade pode transformar-se, de um momento para o outro, num caso muito sério. Afinal, como refere Nuno Cardoso, “assistir a uma peça de teatro é como levar o pensamento ao ginásio.” Ficamos com os rituais e as pulsões que suportam os jogos de sedução, com as diferenças e semelhanças entre o “porco básico” e o “grande amante”, com a pessoa de quem todos fogem, que se sente cada vez pior e a única coisa que faz é perguntar: “Gostam de mim? Gostam de mim? Gostem de mim!” Ficamos com um enorme momento de teatro.

[Foto: © Teatro Nacional São João | https://www.tnsj.pt/]

sexta-feira, 26 de abril de 2024

TEATRO: "Fado Alexandrino"



TEATRO: “Fado Alexandrino”
Texto | António Lobo Antunes
Encenação, adaptação cénica e dramaturgia | Nuno Cardoso
Cenografia | F. Ribeiro
Música | Pedro “Peixe” Cardoso
Figurinos | Nélson Vieira
Interpretação | Ana Brandão, António Afonso Parra, Joana Carvalho, Jorge Mota, Lisa Reis, Patrícia Queirós, Paulo Freixinho, Pedro Almendra, Pedro Frias, Roldy Harris, Sérgio Sá Cunha, Telma Cardoso
Produção | Teatro Nacional de São João
240 Minutos | Maiores de 16 anos
Teatro Nacional de São João
21 Abr 2024 | dom | 16:00


“Estou em Lisboa e em Moçambique, vejo ao mesmo tempo os jardinzitos gotosos e as palhotas devastadas pelas metralhadoras”. Em “Fado Alexandrino”, António Lobo Antunes mergulha-nos num tempo compósito, accionado pelo movimento da rememoração. Cinco personagens, militares que regressaram da guerra em África dez anos antes, juntam-se num jantar, um encontro de reflexões sobre um fim e o seu luto, uma espécie de Última Ceia. Nuno Cardoso leva à cena aquele que é considerado o grande romance sobre o 25 de Abril, na celebração do seu cinquentenário. O palco devém um imenso mural, que confere matéria, pela presença e contracena dos actores, pelo trabalho dos criativos, às vivências das personagens em quatro tempos que se interpenetram: o Estado Novo, a memória da guerra colonial em Moçambique, a Revolução dos Cravos, o pós-Revolução. História com histórias dentro, Fado Alexandrino é uma alegoria sobre o fado de ser português.

Não li “Fado Alexandrino”, mas creio ter lido o suficiente de António Lobo Antunes para poder afirmar, com enorme certeza, que o respeito pelo texto foi uma das grandes preocupações de Nuno Cardoso, a ela acrescentando, na adaptação cénica como na dramaturgia, uma fidelidade absoluta ao pensamento do escritor. Encontramos na peça a mesma ausência de linearidade discursiva, a decomposição da palavra, a polifonia, a narrativa metaficcional, as metáforas e hipérboles sempre presentes ou a forma como Lobo Antunes se repete, enquanto marcas distintivas de um pensamento delirante e imagético, capaz de repelir o leitor com a mesma força que o atrai. É todo este mundo, fechado sobre si mesmo, claustrofóbico, obsessivo, labiríntico, paranóico, um mundo onde as personagens se sobrepõem e misturam o passado com a realidade, a memória com o presente, que se abre ao espectador em quatro horas de fúria e desejo, raiva e terror, desprezo e paixão, dor e morte.

Quatro horas. Leram bem. Quatro horas de uma exigência brutal, tanto para o público, que percebe de imediato estar perante um exercício de teatro invulgar e a cujo envolvimento não conseguirá escapar, quanto para os actores, quase ínfimos face ao “Adamastor” físico e psicológico que têm à sua frente, comoventes na sua coragem, na sua bravura, de aceitarem ser cartas de um baralho destinadas a serem mil vezes embaralhadas, partidas e tornadas a dar. É duma extraordinária peça de teatro que falo, já se percebeu. Absorvente, provocante, não pega no espectador pela mão e passeia com ele por um qualquer jardim zoológico, antes o agarra pelas tripas, obrigando-o a sentir o cheiro do medo, a provar o gosto do sangue, a olhar de frente o pesadelo da guerra, a pesar, uma a uma, as letras com que se escreve a palavra morte. Peça de teatro total, “Fado Alexandrino” mistura, sem meias palavras, o trágico e o cómico, colocando-nos perante o abismo da ausência e o fantasma do horror e mostrando-nos as almas que se esgotam lentamente até ao vazio absoluto. Uma extraordinária forma de festejar os 50 anos do 25 de Abril, neste país que fomos, neste país que somos.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

TEATRO: "Suécia"



TEATRO: “Suécia”,
de Pedro Mexia
Encenação | Nuno Cardoso
Cenografia | F. Ribeiro
Música | Pedro “Peixe” Cardoso
Figurinos | Nélson Vieira
Interpretação | António Fonseca, Joana Carvalho, Jorge Mota, Lisa Reis, Patrícia Queirós, Paulo Freixinho, Pedro Frias
Produção | Teatro Nacional São João
90 Minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Nacional de S. João
10 Jun 2023 | sab | 19:00


“Egerman (sozinho, mas como se tivesse Stromberg ao lado): O que me impressionou naquelas fotografias foi o vento. Em todas as fotografias, sobretudo as que tirámos aqui na ilha, havia vento. Claro que o vento não se vê, mas vê-se a presença do vento. Havia um vento sobre a nossa casa, um vento sueco. No mar, na floresta, no nosso mar e floresta suecos, nesta ilha e nesta casa. A Marianne e eu a chegarmos aqui e o vento na saia dela. A andar de bicicleta, fazendo caretas contra o vento. O meu cabelo, antes de ser branco. A Monika a brincar com um papagaio, tão alto que nem se via. O vento nas velas do barco a remos em que vínhamos, porque não queríamos um barco a motor. O vento até chegar o sono, o vento benigno quando nos víamos no escuro.”

A globalização e os fenómenos a ela associados fazem com que “uma certa ideia de Suécia” resulte, nos dias de hoje, em algo extraordinariamente vago. Para o bem e para o mal, cada um pode apontar o país como exemplo nas mais variadas áreas, mas desapareceu aquele estatuto que o individualizava e elevava, visto de fora, à condição de “paraíso”. Com a sua estreia na dramaturgia, Pedro Mexia recupera o “mito” e, com ele, “o país “metafísico-angustiado” dos filmes de Bergman, o paraíso (perdido?) da social-democracia, mas também a pátria do infernal Strindberg ou dos açucarados ABBA.” E porque as memórias são algo eminentemente partilhável, dou por mim a pensar que, na juventude, também eu alimentei “uma certa ideia de Suécia” (ou de “suecas”, para ser mais preciso) e aprendi com Bergman que o cinema não era apenas essa coisa de “índios e cobóis”. Era uma altura em que me curvava perante a classe do tenista Björn Borg, admirava a perícia dos pilotos de ralis Björn Waldegård e Stig Blomqvist e passava os dias a trautear o “Waterloo”, a “Chiquitita” ou o “Dancing Queen”, dos ABBA.

A peça transporta-nos para o rescaldo das eleições de 1976, que puseram fim à “interminável” governação dos sociais-democratas, à data liderados por Olof Palme. A acção tem lugar numa das 24 mil ilhas que compõem o arquipélago de Estocolmo, em pleno Báltico, na qual vivem apenas Egerman, professor universitário jubilado e o seu vizinho Stromberg, director do Teatro Nacional. É um dia de final de Setembro, dia em que Monika, filha de Egerman, aparece de surpresa para anunciar que se vai casar. Com ela está o noivo Björn e Eva, uma amiga. A cerimónia terá lugar ali, dentro de poucas horas, faltando chegar alguns convidados. Disposto a não se mostrar abalado pela notícia, Egerman ensaia um conjunto de observações que comprovam o quão desiludido está com a filha, cujo casamento desaprova em absoluto, mas também com a “sua” Suécia, essa democracia que há meio século elege sempre o mesmo governo. Egerman torna-se contundente. Há todo um “status” que é posto em causa: A ilusão dá lugar à desilusão, a imagem credível de felicidade parece desfocada face às elevadas taxas de suicídio e ao “totalitarismo suave” respondem os suecos com um “conformismo extremo”.

Em “Suécia” não estamos perante a velha questão da moeda e das suas duas faces. É tudo muito mais subtil do que isso. E mais profundo, a ponto de nos inquietar, provocando aquela espécie de estranheza boa que nos leva a apurar os sentidos e a beber as palavras uma a uma. Estamos aqui perante um texto extraordinário, que convoca uma série de leituras que atravessam as dimensões políticas, sociais e económicas de um país tido como exemplar, até mergulharem nas relações humanas e no mais íntimo de cada uma das figuras, os sonhos e ambições de uns em modo contrastante com a amargura e o desencanto de outros. Um texto cujas ressonâncias se deslocam para sul um bom par de paralelos e convidam a rever “uma certa ideia de Suécia”, com os mesmos pressupostos embora com outros agentes. Uma palavra para os actores, em particular para António Fonseca que compõe um Egerman amargurado, ávido de uma boa discussão, a ferroada sempre pronta, o perder “nem a feijões”. Também para Nuno Cardoso, cuja encenação é preciosa na interpretação do “respirar” do texto e na forma como sabe ritmar a peça, combinando na perfeição a intensidade das emoções com a riqueza dos diálogos.

[Foto: Teatro Nacional de São João | https://www.tnsj.pt/]

sábado, 29 de abril de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Pintar a Luz, Viver a Cor"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Pintar a Luz, Viver a Cor”,
de Manuel Cargaleiro
Curadoria | Nuno Cardoso
Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo
01 Abr > 18 Jun 2023


Depois de Paula Rego, Amadeo de Sousa Cardoso, Vieira da Silva, Cruzeiro Seixas ou Armanda Passos, a Casa-Museu Teixeira Lopes / Galerias Diogo de Macedo acolhe Manuel Cargaleiro, expondo um conjunto significativo de quadros a óleo de um dos nossos maiores artistas plásticos vivos. Fruto da generosidade de colecionadores particulares na cedência temporária das obras, são cerca de sessenta os trabalhos que integram a mostra, alguns deles totalmente desconhecidos do grande público. Este será, porventura, o aspecto mais surpreendente desta exposição, ao qual se deve acrescentar a consistência e coerência dos trabalhos expostos, absolutamente representativos da obra do Mestre. Apresentados por ordem cronológica, permitem ao visitante perceber a “evolução na continuidade” de uma carreira ímpar, fortemente influenciada pelo abstracionismo e pelo surrealismo que Cargaleiro bebeu “na fonte”, na chamada “Escola de Paris”, onde se radicou em 1954 e onde conviveu com nomes tão significativos da nossa pintura como Lurdes de Castro, René Bertholo, José Escada ou Maria Helena Vieira da Silva.

Título feliz, “Pintar a Luz, Viver a Cor” exprime na perfeição a essência desta mostra. Porque é um banho de luz e cor aquilo que nos espera, mal adentramos a primeira de duas salas pelas quais se distribui a exposição. Ao fascínio que se adivinha no olhar do visitante não é alheia a certeza de estar a viver um momento único, profundo na sua essência, ímpar na sua beleza. Em «Pintar a Luz, Viver a Cor» percebe-se como o carácter radioso de Mestre Cargaleiro se mescla na paleta com a riqueza de contrastes, para ocupar naturalmente o tempo e o espaço de uma tela e dar a conhecer uma realidade não visível, através de uma linguagem singular e irresistivelmente sedutora. Os inícios da década de 60 revelam composições de pequena dimensão, muito inspirados no mundo vegetal, com “fundos” tendencialmente monocromáticos onde depois se inscrevem formas mais estuais, com forte dinamismo e movimento. A viragem para a década de 70 é a “fase das formas”, nela se assumindo a matriz geométrica enquanto recurso estético recorrente em toda a obra do Mestre.

Os inícios dos anos 70 apresentam um “virar” significativo nos temas e nas formas utilizadas. Começa a aparecer a verticalidade na sua pintura e a simbiose entre a natureza e a urbanidade. Há um cada vez maior dinamismo cromático e a representação da mensagem é mais minuciosa. O início dos anos 80 é marcado pelas famosas e muito aclamadas “catedrais”. Assim ficaram conhecidas estas composições pelo meticuloso rigor do seu trabalho e pelo contraste evidente da luminosidade que deixa transparecer harmoniosas estruturas orgânicas, fazendo lembrar pináculos apontados ao céu. Parecendo impossível, conhecendo todo o seu percurso até então, o que é facto é que quase 40 anos depois do início, nos anos 90, é ainda visível a inquietude de Cargaleiro e o desafio constante em introduzir novos elementos no seu trabalho e na sua expressão artística. Cidades, vilas, campos e flores mostram que não há limites ao desenrolar da cor, num hino à vida e à sua essência. Nos anos 2000 dá-se a síntese e a fusão de todo o enredo. Revisitam-se temas e lugares e as telas ganham mais matéria. As camadas de óleo ganham espessura e densidade. É o Mestre a deixar-nos mais de si em cada quadro, para que nos deleitemos na sua serenidade e no conforto que nos passa… ele que sempre esteve, e está, inteiro e de bem com a vida.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

TEATRO: "As Bruxas de Salém"



TEATRO: “As Bruxas de Salém”,
de Arthur Miller
Encenação | Nuno Cardoso
Cenografia | F. Ribeiro
Vídeo | Luís Porto
Interpretação | Ana Brandão, Carolina Amaral, Joana Carvalho, Jorge Mota, Lisa Reis, Mário Santos, Nuno Nunes, Paulo Freixinho, Patrícia Queirós, Pedro Frias, Sérgio Sá Cunha
Produção | Teatro Nacional São João
155 Minutos (com intervalo) | Maiores de 12
Teatro Nacional São João
02 Abr 2023 | dom | 16:00


Ficou conhecido como “o julgamento das bruxas de Salém” e é um dos episódios mais vergonhosos da justiça norte-americana. O caso reporta a 1692 quando, na vila de Salém (actual Danvers, Massachusetts), mais de duas centenas de pessoas foram acusadas da prática de bruxaria. O tribunal viria a considerar trinta dessas pessoas culpadas, executando vinte delas, dezanove por enforcamento e uma por esmagamento com pedras. Na base de todo este processo pode ter estado uma desavença entre duas famílias. Foi o gatilho para que inimizades e mal-entendidos, contrariedades não resolvidas, a cobiça, a ganância, a luxúria e a sede de vingança, se evidenciassem em toda a sua iniquidade e perversão, dando azo a um rol de acusações absurdas que viriam a ser julgadas procedentes. Quando, em 1953, o dramaturgo Arthur Miller pegou nesta história e escreveu “The Crucible”, fê-lo com um propósito de alerta e denúncia: a paranoia anti-comunista atingia o auge na figura do senador Joseph McCarthy e a violação dos fundamentos legais mais elementares ameaçava gravemente os valores da liberdade e da democracia nos Estados Unidos. Estava em marcha uma nova “caça às bruxas”.

Avançamos 70 anos no tempo e confirmamos o quanto os ciclos da história se repetem. Percebe-se muito bem que Nuno Cardoso tenha querido encenar esta peça no particular momento em que vivemos e, levando-a a palco, chamar a atenção para os riscos que enfrentamos quando, um pouco por toda a parte (e em particular nas redes sociais), os valores da privacidade, da honra e da dignidade humana, do direito ao bom nome e da liberdade individual são alvo de atropelo constante. O cenário sombrio em que a peça se desenrola mais não faz do que mimetizar as densas nuvens que envolvem uma sociedade altamente digitalizada como a nossa. Esta realidade leva-me a abrir um parêntesis e a recuar um quarto de século, à data em que vi o filme homónimo, realizado por Nicholas Hytner e com Daniel Day-Lewis e Winona Ryder nos principais papéis. Do que retenho do filme, o seu valor resume-se ao lado documental, factual, e à apropriação que Miller faz da História para, duzentos e cinquenta anos depois, apontar firmemente o dedo ao macartismo. Mas devo admitir que não tenho ideia de ter estabelecido qualquer paralelismo entre o filme e o clima social do nosso País nesse final de milénio. Outros (e bons) tempos esses, é o que posso concluir.

Detendo-me na peça, direi que constitui um extraordinário momento de teatro. Uma “floresta” de postes de iluminação pública preenche o palco. A sua disposição cria uma espécie de corredores que marcam os momentos da acção e a luz mortiça que deles se desprende reforça o dramatismo. Ao mesmo tempo, são obstáculo a que o público tenha uma visão “limpa” do que se passa em palco. Entre o que escondem e o que revelam, assim são também os diálogos. Densos, emotivos, fascinantes. Os actores que os sustentam mais não fazem do que acentuar esse fascínio e corresponder à força da mensagem com a força das suas interpretações. Entre todos há Pedro Frias, que desempenha na perfeição um John Proctor atónito, irrefreável na sua revolta, esgotado na sua impotência, frágil no seu desespero. Ao introduzir o vídeo na peça, Nuno Cardoso correu um enorme risco, já que o saldo desta “hibridização” se tem revelado, na esmagadora maioria dos casos, desastroso. Não é esse o caso em “As Bruxas de Salém”. Os momentos filmados correm em paralelo com a acção em palco, ampliando o seu significado em vez de prover insuficiências, que é o “pão nosso de cada dia”. A peça vai agora para “fora de portas” e importa ser vista. Há nela teatro do melhor, a par com uma pronunciada acção pedagógica e cívica. Isto é presente!


quinta-feira, 28 de julho de 2022

TEATRO: "Ensaio Sobre a Cegueira"



TEATRO: “Ensaio Sobra a Cegueira”,
de José Saramago
Versão cénica | Clàudia Cedó
Encenação | Nuno Cardoso
Cenografia | F. Ribeiro
Figurinos | Nídia Tusal
Música | Pedro “Peixe” Cardoso
Interpretação | Ana Brandão, Adriana Fuertes, Albert Prat, Ferran Carvajal, Gabriela Flores, Jordi Collet, Jorge Mota, Lisa Reis, Mafalda Lencastre, Maria Ribera, Montse Esteve, Paulo Freixinho, Pedro Frias, Sérgio Sá Cunha
Produção | Teatre Nacional de Catalunya, Teatro Nacional São João
180 Minutos (com intervalo) | Maiores de 16 anos
Teatro Nacional de São João
19 jun 2022 | dom | 16:00


“Fazer a adaptação teatral de uma obra literária de que se gosta é um prazer indescritível. É um ato de amor e uma forma de aproximação íntima ao caminho emocional que o autor percorreu no momento da escrita. É como ir seguindo as suas pegadas na areia e compreender a sua excelência, as decisões que tomou, a feição dos seus sapatos e da terra sob os seus pés. Ler. Compreender. Reler. Compreender de novo. E traduzir todas as dobras de sentido para uma outra língua: a língua do teatro. Esta é a missão do dramaturgo. Garantir que o que o autor queria dizer permaneça intacto em algum recanto da cena, palpitando. Que as emoções que sentiu durante a leitura do romance as possa sentir o espectador assistindo ao espetáculo. Que as palavras (não todas, aquelas que sobreviveram ao trabalho de adaptação) que habitavam o livro e geraram tantas perguntas provoquem, agora, incógnitas similares no público, ao escutá-las vivas na boca dos intérpretes.”

Agora, que mais de um mês passou sobre aquela tarde de domingo no S. João, agarro-me às palavras que a dramaturga Clàudia Cedó deixou no Caderno de Leitura da peça, enquanto apelo à memória e recupero o viver e o sentir de um momento destinado a não deixar ninguém indiferente. Contraditórios, os sentimentos vêm em vagas, reforçando a admiração pelo trabalho dentro e fora do palco, mas também a frustração de perceber na versão para teatro a incapacidade em igualar a obra literária no que esta tem de criatividade, intencionalidade, intensidade e cariz visionário. Indo por partes, começaria pelo fascínio de um dispositivo cénico engenhoso, extraordinariamente versátil, que tanto nos abre as largas avenidas de uma cidade como nos enclausura no quarto mais esconso. Exímios nas personagens que interpretam, os actores vão-se desdobrando e, com isso, transmitindo a ideia de uma multidão em palco. Igualmente preciosos são os diálogos nessa estranheza de responder em português ao catalão e vice-versa, ampliando o caos.

Decidi reler “Ensaio Sobre a Cegueira” na semana que antecedeu a apresentação da peça. Foi um erro, sei-o agora. Ter toda a trama demasiado presente revelou-se nefasto, mostrando o quanto a versão cénica se cola ao texto, pouco ou nada lhe acrescentando. A obra, bem o sabemos, é impactante. O seu carácter de thriller mergulha o leitor no horror de uma distopia aberrante, mantendo-o em sobressalto da primeira à última página. Ao contrário, a peça nem por sombras nos transporta ao encontro de tanta desumanização, de tanta brutalidade. Pode estar lá a intenção, mas não logra ir além disso. Aquilo que de mais impressionante encontramos no livro, a imundície, a promiscuidade, o despudor, a falta de escrúpulos, o medo, esbarra num palco que se revela demasiado asséptico, por muito desorganizado e sujo que procure ser. Fica o exercício de teatro “puro e duro”, essas três horas recheadas de uma fisicalidade admirável. E fica, seguramente, a vontade de voltar ao livro, mesmo para aqueles que o conhecem de trás para a frente.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

TEATRO: "O Pecado de João Agonia"



TEATRO: “O Pecado de João Agonia”,
de Bernardo Santareno
Encenação | João Cardoso
Dramaturgia | Regina Guimarães
Cenografia e figurinos | Sissa Afonso
Interpretação | Ângela Marques, Benedita Pereira, Daniel Silva, Inês Afonso Cardoso, João Cardoso, João Castro, Pedro Galiza, Pedro Quiroga Cardoso, Rúben Pérola
Produção | Assédio
100 Minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Carlos Alberto
17 Nov 2021 | qua | 19:00


“(…) Respondes-me com o teu coração nas mãos? Um homem – o maior, o mais valente! – é capaz de subir lá acima, ao alto da Rocha Grande, e obrigar o vento norte a virar sul? Ou pode chegar ali, à beira-rio, e mandar as águas correrem ao contrário?!… Pode, Tóino, diz lá?! Alguém pode fazer com que uma árvore cresça pro fundo da terra, em vez de subir pro ar?!… Quem, Tóino, quem é capaz de fazer isso?! (…)”
Bernardo Santareno, in “O Pecado de João Agonia”

Quando, em 1961, foi publicada a peça de Bernardo Santareno, “O Pecado de João Agonia”, a censura não perdeu tempo a deitar-lhe as mãos. O Estado “opressor e castrador de todas as formas de vida sensível, sensual, intelectual, social e cultural, tidas como desviantes em relação à norma todo-poderosa”, impunha a sua lei. Sessenta anos passaram e, em contraciclo com um conjunto de leis retrógradas e discriminatórias que foram sendo abolidas no pós 25 de Abril, subsistem as mentalidades fundadas na negação e no preconceito, agarradas a ideologias e práticas fortemente enraizadas no machismo, na misoginia e na homofobia. Daí que seja de saudar o empenho de João Cardoso e do colectivo Assédio em levar à cena a peça de Santareno, pela riqueza e intensidade do texto, pelas múltiplas leituras que oferece, mas sobretudo pela sua intemporalidade e pelo que nela há de exemplo e chamada de atenção nos tempos que correm.

A abordagem cénica é marcadamente clássica. Com um tema tão vasto e rico em mãos, percebemos que seriam muitas as pontas pelas quais João Cardoso pudesse pegar na peça, mas foi na fidelidade ao texto e aos ambientes que quis agarrar-se, depurando a encenação e protegendo-a de “ruído”. Apoiado na dramaturgia de Regina Guimarães – que extraordinário trabalho em prol do teatro, e não só, vem esta grande escritora fazendo -, “O Pecado de João Agonia” devolve-nos a crueza dos sentimentos, a genuinidade dos gestos e a rudeza dos diálogos tal como os terá pensado Santareno. Aquilo que nos é dado assistir é um “teatro-verdade” que emerge daquelas quatro paredes e as mostra na sua fragilidade, tão permeáveis à intriga, à indignidade e à traição, como ao vento que sopra rijo e assobia através das suas frinchas ou ao uivo dos lobos que, medonhos, rondam a casa.

Com sala cheia, situação recorrente desde que estreou no passado dia 11 de novembro, “O Pecado de João Agonia” vê-se e sente-se. Da desenvoltura da Maria Giesta à truculência do Fernando Agonia, da inocência da Teresa Agonia à brandura da mãe Rita, da infâmia do Manuel Lamas à humildade do Tóino Giesta, é da transparência de sentimentos que falamos, por muito que todos procurem dar mostras daquilo que não são. Neste jogo entre a verdade e a mentira, João Agonia é o menos fingidor e pagará por isso. Sem ninguém que o aceite, aceita-se a si mesmo, sabendo que só a morte lavará tão grande pecado. Quando, com o pai, o tio Miguel e o irmão Fernando, parte para uma batida aos lobos, João Agonia sabe o que o espera. Mas sabe, também, que o seu gesto auto-sacrificial é a única forma de cravar um espinho nas consciências de todos, de os fazer olhar para si próprios e perceberem a incoerência, a irracionalidade e a mesquinhez do seu pensar e modo de agir.

[Foto: Teatro Nacional de São João | https://tnsj.pt/]