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domingo, 18 de janeiro de 2026

TEATRO: "Um Inimigo do Povo" | Marco Martins



TEATRO: “Um Inimigo do Povo”
Conceito, direcção e dramaturgia | Marco Martins
Investigação jornalística | Joana Pereira Bastos, Raquel Moleiro
Assistência de encenação e apoio à dramaturgia | Rita Quelhas
Cenografia | Isabel Cordovil, João Romão
Interpretação | Amin Nurul, Dil Bahadur Ale, Janit Fernandes, Kamal Chowdhury, Kamal Sardar, Niraj Khadka, Rajib Al Mamun, Sabera Parvin, Sharker Nasrin, Shoehl Rana, Rita Cabaço, Rodrigo Tomás
Produção | Arena Ensemble
120 Minutos | Maiores de 16 Anos
Rivoli - Teatro Municipal do Porto
16 Jan 2026 | sex | 19:30


“ (…) Os agentes da PSP também são suspeitos de terem algemado uma mulher na esquadra do Rato como num crucifixo. 'Já no interior da esquadra, algemaram a ofendida a um banco, de braços abertos, como se estivesse pendurada num crucifixo, e largaram todos os seus pertences no chão, que acabaram pisados e danificados pelos demais agentes que por ali passaram', lê-se na acusação, dando conta que a ‘vítima rezou em voz alta um Pai Nosso, por não acreditar no que estava a passar, na medida em que se encontrava numa esquadra rodeada de polícias’ (…)”.
Susete Henriques, in Diário de Notícias (publicado a 15 de Janeiro de 2026)

No preciso momento em que sai a público a notícia de que dois agentes da PSP estão acusados pelo Ministério Público dos crimes de tortura e violação de indivíduos, na sua maioria imigrantes, e depois do recente caso da rede com dez militares da GNR liderada por um português que controlaria cerca de 500 imigrantes a trabalhar em explorações agrícolas do distrito de Beja ou da aparatosa operação policial em larga escala no Martim Moniz, em Lisboa, a 19 de Dezembro de 2024, a peça de Marco Martins, mais do que necessária, revela-se verdadeiramente urgente. Tendo como ponto de partida o episódio da Rua do Benformoso - a imagem de cerca de sessenta corpos indefesos, privados de dignidade, encostados à parede, com as mãos sobre a cabeça, obrigados a manter uma posição fisicamente extenuante e, simultaneamente, a esconder os rostos durante cerca de duas horas -, o encenador propõe uma reflexão sobre a forma como os media e os partidos políticos de várias esferas manipulam a imagem destas pessoas sem jamais lhes dar verdadeiramente voz.

Ora, é precisamente isso que Marco Martins faz, lançando a discussão em torno da fabricação contemporânea do inimigo. Se o texto homónimo de Ibsen desmontava os mecanismos de uma maioria que se diz liberal para silenciar verdades incómodas, esta nova peça desloca o foco para um presente onde o conflito surge a partir de imagens, discursos políticos e operações policiais de grande escala. A fotografia da Rua do Benformoso, captada furtivamente por uma mulher imigrante, condensa esse gesto fundador: dezenas de homens encostados à parede, braços no ar, transformados num corpo coletivo suspeito. Criar um inimigo é uma tarefa sofisticada”, diz Lucrécia Martel: “Mais complexa do que ir à Lua”. Aqui, o inimigo nasce da divisão, da abstracção e da retirada de contexto. A imagem não fala, mas é trabalhada até à exaustão por uma gramática do ódio que dispensa factos e exclui vozes. O teatro surge, então, como contra-campo: um espaço de grau zero onde a imagem é devolvida à carne, ao tempo e à palavra, por uma vez a história a ser escrita também pelos vencidos.

A Rua do Benformoso não é um acaso geográfico, mas um palimpsesto de segregações sucessivas. Da comuna moura medieval ao gueto implícito da imigração contemporânea, o bairro foi sendo marcado pela ideia de confinamento do outro. Hoje, ali vivem e trabalham comunidades do Bangladesh, do Nepal, da Índia e do Paquistão, ocupando empregos essenciais e invisíveis, habitando casas sobrelotadas, esperando por um reagrupamento familiar adiado até à eternidade. A operação policial de 19 de dezembro de 2024 expôs essa ferida: uma acção desproporcionada, sem fundamentação clara, que tratou trabalhadores como suspeitos colectivos. A Provedoria da Justiça viria a confirmar a violação da dignidade e dos direitos fundamentais, mas o dano simbólico estava consumado. Aqueles corpos perfilados tornaram-se a prova visual de uma narrativa pré-existente: a de que os migrantes são a origem da insegurança, da degradação urbana, do medo difuso. O espectáculo parte dessa violência inaugural para a desmontar, recusando a lógica do número e devolvendo espessura humana a quem foi reduzido a uma ameaça e tornado num número.

Essa devolução faz-se, antes de mais, pelos nomes: Amin, Dil, Janit, Kamal, Niraj, Rajib, Sabera, Sharker, Shohel. Dizer nomes é um gesto político. Cada um traz consigo uma infância reconhecível, feita de sons, cheiros e rituais que nos são estranhamente familiares: a voz da mãe, a chuva no telhado, o mercado, a música, a oração. Essas memórias comuns desmontam a ficção da alteridade radical. Mas o percurso de vida que se segue é marcado pela violência estrutural, pela pobreza, pela morte e pela perda. A travessia, a que chamam “O Jogo”, é uma metáfora cruel: um jogo de vida ou morte onde se aposta tudo num futuro possível chamado Europa. Desertos, mares, fronteiras e máfias compõem esse caminho. No palco, os corpos sabem disso antes das palavras: abrigam-se instintivamente, movem-se como quem está dentro de água, falam sozinhos para não desaparecer. A saudade, mais do que o medo, atravessa-os. De uma réstia de confiança no outro emerge, numa confissão, uma palavra que fere mais do que mil facas: Medo.

Ao colocar estes migrantes no centro da cena, Marco Martins inverte a acusação inscrita no título. O inimigo do povo não são eles, mas a maioria que precisa de os transformar numa ferida para fugir aos seus problemas e não se ver na obrigação de encarar as suas próprias contradições. Em Portugal, os factos desmentem o discurso populista: os imigrantes contribuem mais do que recebem, sustentam setores-chave da economia e tornam possível o modo de vida que a maioria defende. Ainda assim, são alvo de slogans, insultos e operações exemplares. O espetáculo não moraliza nem absolve: Expõe. Olhos nos olhos, obriga-nos a reconhecer a massa humana que, na sua diversidade, preferimos não ver. Como em Ibsen, não há heróis puros. Há indivíduos frágeis, contraditórios, solitários. Mas há também uma certeza incómoda: enquanto continuarmos a confundir imagem com verdade e maioria com razão, iremos continuamente entregarmo-nos à construção de mais e mais inimigos para justificar a violência. O teatro, aqui, não oferece soluções, mas devolve-nos a responsabilidade de olhar. E de agir!


quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: TEATRO



10. Welcome to Europe
Texto, encenação, espaço cénico e vídeo | Ricardo Correia
Interpretação | Beatriz Antunes, Fábio Saraiva, Sofia Coelho e Ricardo Correia
Produção | Casa da Esquina – Associação Cultural
FESTOVAR 2025 - XXXII Festival de Teatro de Ovar
Centro de Arte de Ovar
25 Out 2025 | sab | 17:30

“ (…) Neste Museu feito de peças efémeras, no final não haverá “merchandising” ou“souvenirs” à venda - quando muito, os interessados podem adquirir o livro do espectáculo -, mas as interrogações persistem muito para lá dos 70 minutos de duração da peça. “Welcome to Europe” confronta-nos com uma Europa excludente, com a redução dos migrantes a meros números, ameaças latentes, corpos sem história cujas histórias têm no risco, na desumanização ou na perda denominadores comuns. Neles, porém, reconhecemos uma força vital que desafia a indiferença e expõe a fragilidade de um sistema que, enquanto proclama os direitos humanos, nega a humanidade a quem os reclama. Que Europa é esta que recebe e exclui, que promete e recusa, que soube construir-se no encontro com o outro e que agora o rejeita?”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/teatro-welcome-to-europe.html



9. Babel
Encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos | Nuno Cardoso
Interpretação e co-criação | Carlos Rodrigues, Cristina Almeida, Edilson Wa Ka Chambe, Emílio Costa, Hermínia Teixeira, José Teixeira, Luísa Costa, Madalena Costa, Marlene Pacheco, Rodrigo Matos, Roldy Harrys
Produção | Teatro Nacional São João
Teatro Nacional Carlos Alberto
14 Jun 2025 | sab | 19:00

“ (…) A Babel que veio do teatro do mundo para o Teatro Carlos Alberto não é nenhum rebanho conduzido por pastor ou cão. Do tumulto dos dias, transportando vidas contraditórias, as personagens desaguam uma a uma num lugar de onde vão partir novamente. Medem-se, evitam-se e olham-se com sentimentos de superioridade ou desprezo. Pelo telefone de cada uma, este lugar desdobra-se numa teia de assuntos: cada qual tenta organizar o seu mundo e dar conta do estranhamento e da incomodidade que as outras lhe causam. Um padre difunde um velho discurso de Salazar sobre a autoridade e o povo submisso: “Está tudo bem assim e não poderia ser de outra forma”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/teatro-babel.html



8. A Médica
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Interpretação | Adriano Luz, Custódia Gallego, Eduarda Arriaga, Igor Regalla, Inês Castel-Branco, José Leite, Luciana Balby, Maria José Paschoal, Pedro Laginha, Rita Cabaço, Sandra Faleiro e Vera Cruz
Produção | Teatro do Eléctrico
Teatro da Trindade Inatel - Sala Carmen Dolores
02 Fev 2025 | dom | 16:30

“ (…) “The Doctor”, no original, coloca-nos perante um conjunto de temas que estão na ordem do dia. Partindo dessa espécie de braço de ferro da medicina e da ciência com a religião, o texto possui um lado engenhoso que consiste em deixar as questões em aberto, em busca de respostas que cada um terá (ou não) dentro de si. Ciência, religião, sexualidade, identidade ou racismo, são como cartas atiradas para a mesa de todas as discussões, ora funcionando como um desafio às nossas convicções, ora mostrando a forma como lidamos com o preconceito e tendemos a falar daquilo que não sabemos”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-medica.html



7. Frágua de Amor
Encenação | António Augusto Barros
Interpretação | Ana Teresa Santos, Carlos Meireles, Igor Lebreaud, Maria Quintelas, Miguel Magalhães, Mónica Camaño, Nuno Meireles, Ricardo Kalash, Sérgio Ramos
Produção | A Escola da Noite, O Bando de Surunyo
Teatro Carlos Alberto
17 Jan 2025 | sex | 15:00

“ (…) Encantadora, a peça encenada por António Augusto Barros e que tem em Hugo Sanches o responsável pela parte musical permite-nos apreciar algo de verdadeiramente incomum e que podemos classificar como um musical vicentino. Posta em cena desta forma, com a componente lírica a assumir uma tão grande preponderância, a peça faz jus à ideia de um teatro a ampliar-se e a separar-se dos momos e chacotas, composto agora por monólogos, diálogos, música tocada, cantada e bailada, sagrada e profana, popular ou palaciana, como ensina Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Aliás, muito deste modus faciendi está patente em indicações textuais do dramaturgo, que também foi músico e autor de canções”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/teatro-fragua-de-amor_01480197978.html



6. À Primeira Vista (Prima Facie)”
Encenação | Tiago Guedes
Interpretação | Margarida Vila-Nova
Produção | Força de Produção
31º Encontro de Teatro do CiRAC
Cine-Teatro António Lamoso
15 Fev 2025 | sab | 21h30

“ (…) A peça faz passar, de forma admirável, a mensagem de que o sistema jurídico é moldado pela experiência masculina, os casos são decididos por gerações de juízes homens e as suas normas estabelecidas por gerações de políticos do sexo masculino, num contexto em que as mulheres foram em tempos classificadas como propriedade dos seus maridos, pais e irmãos. Por isso, a legislação sobre a agressão sexual está desajustada da experiência real vivida pelas mulheres. São sempre as vítimas, normalmente mulheres, que são “julgadas”, interrogadas e obrigadas a reviver a sua experiência humilhante, e depois postas em causa acerca dos motivos que as levaram a denunciar um crime hediondo contra a sua pessoa. No entanto, e significativamente, a investigação demonstrou que as pessoas simplesmente não acreditam nas mulheres que testemunham em casos de agressão sexual. Mesmo outras mulheres!”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-primeira-vista-prima-facie.html



5. Chuva Pasmada
Adaptação, direcção artística e encenação | Leandro Ribeiro
Interpretação | Clara Oliveira, Mafalda Reis, Maria Inês Campos, Paulo Cruz e Rita Camões
Produção | Sol d’Alma – Associação de Teatro
Centro das Artes do Espectáculo Sever do Vouga
16 Nov 2025 | dom | 16:00

“ (…) “Chuva Pasmada” é um imenso, intenso milagre. A sensibilidade que Mia Couto coloca em cada palavra, a forma como, entre a voz e o silêncio, leva a que identidade e memória dancem em comunhão, é um convite à autodescoberta, um rasgar de atalhos para o mais fundo de cada um de nós. Motor secreto da peça e do romance, o amor é semente capaz de transformar dúvidas em certezas, a hesitação em voo, o receio em pertença. A materialização de todo este imaginário fabuloso constrói-se em comunhão de talentos: Onde apenas existiam telas, as luzes abrem rios; o vazio veste-se de emoção ao som de uma música inspirada; o invisível faz-se presente na riqueza dos sons; os figurinos acrescentam cor à própria respiração”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/teatro-chuva-pasmada-mia-couto.html



4. Quem Tem Medo de Virginia Woolf?
Encenação | Simão do Vale Africano
Interpretação | João Reis, Anabela Moreira, Daniel Silva, Joana Africano
Produção | Subcutâneo - Teatro Hialurónico
Teatro Nacional São João
16 Fev 2025 | dom | 16:00

“ (…) A peça, já o sabemos, é uma forma muito original - e abominável - de chamar ao palco a relação de um casal. Não há troca de palavras que resista ao crivo da humilhação moral e da tortura psicológica, a sua intensidade a aumentar à medida que o tempo passa e cresce o nível de álcool no sangue. Um quadro de crise profunda e que se arrasta há uma eternidade, dadas as insinuações e outras regras que parecem ainda existir neste jogo de massacre. Na sua insistência, na sua duração, na sua brutalidade, a peça torna palpável o quadro doentio em que as personagens se movem, mostrando de forma clara e tangível a loucura que as afecta”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-quem-tem-medo-de-virginia-woolf.html



3. 1984
Encenação | Pedro Carraca
Interpretação | Ana Castro, Carolina Salles, Gonçalo Carvalho, Inês Pereira, Paulo Pinto, Pedro Caeiro, Raquel Montenegro, Tiago Matias, Victor Gonçalves
Produção | Artistas Unidos
Ponto C - Cultura e Criatividade, Penafiel
08 Fev 2025 | sab | 17h00

“ (…) Verdadeiro teste à tolerância do público face à violência que dela se derrama, a peça coloca em perspectiva a obra-prima de George Orwell, transformando em passado longínquo o futuro que o autor desenhou em 1948 (o título será um anagrama da data), sobre factos ocorridos em 1984, ao situá-lo num vindouro ano para lá de 2050. Assim, para além da história de Winston Smith, que não sabemos se verdadeira ou não, aquilo a que assistimos é à história do próprio romance ao longo do tempo decorrido desde que foi escrito, e de como é que o livro contribuiu ou não para alterar a nossa visão de futuro”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-1984.html



2.  House
Dramaturgia e encenação | Amos Gitai
Interpretação | Bahira Ablassi, Dima Bawab, Irène Jacob, Alexey Kochetkov, Micha Lescot, Pini Mittelman, Kioomars Musayyebi, Menashe Noy, Minas Qarawany, Mark Bonney, Danielle O’Neill, Nathan Mercieca, Ghassan Ashkar
Produção | La Colline – Théâtre National
Teatros del Canal - Sala Roja Concha Velasco, Madrid
25 Abr 2025 | sex | 20:00

“ (…) Ao atrair-nos para a teia emaranhada de violência ontológica por trás do projeto sionista de anexar lares palestinos, Gitai rejeita qualquer enquadramento dialético. A violência de construir uma casa sobre as ruínas de outra, ou de viver dentro da casa de outra pessoa, faz parte da identidade israelita, ao mesmo tempo que procura apagar da história qualquer traço de presença palestiniana. A dominação transversal do colonialismo de povoamento, que busca estabelecer uma pátria permanente por meio do deslocamento, é visceralmente sentida através do refrão percussivo dos dois pedreiros martelando blocos de arenito ao longo das duas horas e meia de duração da peça, os ritmos sincopados formando como que um coro pulsante de violência que abafa qualquer perspectiva de paz ou tranquilidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/teatro-house.html



1. A Colónia
Direcção e dramaturgia | Marco Martins, a partir de uma reportagem de Joana Pereira Bastos
Interpretação | Manuela Canais Rocha, Conceição Lopes, Conceição Matos, Domingos Abrantes, Humberto Candeias, Olga Sequeira Santos, Rita Veloso, Valentina Marcelino, João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça
Produção | Arena Ensemble 
Teatro Nacional de S. João
26 Jan 2025 | dom | 16:00

“ (…) Reunindo em palco um elenco multifacetado, que juntou actores, não actores e aspirantes a actores, Marco Martins trabalhou a peça a partir de histórias e experiências pessoais, propondo uma ampla reflexão sobre história, memória e opressão. Algumas dessas histórias falam do desconhecimento do verdadeiro nome do pai ou da mãe, de apenas conhecerem irmãos pela palavra bebé, de não corrigirem deficiências de nascença por não estarem registados e serem considerados ilegais, de terem no cartão de visita da prisão o seu primeiro documento de identidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/teatro-colonia.html

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

TEATRO: "A Colónia"



TEATRO: “A Colónia”
Direcção e dramaturgia | Marco Martins, a partir de uma reportagem de Joana Pereira Bastos, documento e testemunhos de todo o elenco, e obras de Bertolt Brecht, Czesław Miłosz, Deborah Levy, Filippo Marinetti, Gonçalo M. Tavares, Jean-Luc Godard, Anne-Marie Miéville, Slavoj Žižek, William Shakespeare
Cenografia | Isabel Cordovil, João Romão
Movimento | Vânia Rovisco
Música | B-Fachada, João Pimenta Gomes
Interpretação | Manuela Canais Rocha, Conceição Lopes, Conceição Matos, Domingos Abrantes, Humberto Candeias, Olga Sequeira Santos, Rita Veloso, Valentina Marcelino, João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça, Rodrigo Tomás, Anderson Ramos, Arthur Lupi, Beatriz Ribeiro, Diana Soares, Inês Paulino, Joaquim Queiroz, Laura Trueb, Leonardo Martins, Lurdes Ferraz, Milena Mavie, Niurka Sacramento, Pedro Conceição
Produção | Arena Ensemble
130 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Nacional de S. João
26 Jan 2025 | dom | 16:00


“Em julho de 1972, nas Caldas da Rainha, 18 crianças – entre os 3 e os 14 anos – encontraram-se no mesmo casarão para lá passarem duas semanas de férias. Ali, cada um descobriu existirem crianças como eles, que conheciam as mesmas andanças, sustos semelhantes, muitas vezes os mesmos gestos. De uma forma ou de outra, eram todos crianças que sabiam línguas secretas, e todos crianças que conheciam a palavra saudade. No casarão das Caldas da Rainha, devagar, podiam começar a descansar de ter medo. Podiam inclusive descansar da solidão. Finalmente, as crianças puderam brincar juntas.”
Matilde Campilho, escritora

“Foi aos 9 anos, no primeiro dia da colónia de férias que havia de lhe salvar a vida, que Manuela percebeu finalmente que “não era uma aberração”. Só aí compreendeu que não estava sozinha, que havia outros como ela. Crianças escondidas que viviam com medo, marcadas pela brutalidade da prisão dos pais, arrancadas dos seus braços e forçadas a crescer com o vazio. Até àquele domingo, 23 de julho de 1972, Manuela nunca tinha brincado com outras crianças.” É desta forma que começa o texto de Joana Pereira Bastos, publicado no jornal Expresso de 07 de Agosto de 2021 e intitulado “Verão de 1972: as férias da liberdade. História dos filhos de presos políticos numa colónia nas Caldas da Rainha”. Foi este o ponto de partida para levar ao palco “A Colónia”, uma produção do Arena Ensemble com direcção e dramaturgia de Marco Martins - a par de “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, de Tiago Rodrigues, a mais impactante e importante peça de teatro a que assisti nos últimos anos. A Manuela a que a peça jornalística alude não é uma personagem de ficção. Existiu (e existe) mesmo e falou-nos, de viva voz, ao longo da peça, do seu drama de ser menina sem saber bem o que isso era. Com ela, também a Conceição Lopes e o Humberto Candeias, a Olga Sequeira Santos, a Rita Veloso e a Valentina Marcelino partilharam connosco as memórias de uma colónia onde aprenderam a ser crianças, esquecendo por alguns dias um passado de clandestinidade, sofrimento e solidão.

Reunindo em palco um elenco multifacetado, que juntou actores, não actores e aspirantes a actores, Marco Martins trabalhou a peça a partir de histórias e experiências pessoais, propondo uma ampla reflexão sobre história, memória e opressão. Algumas dessas histórias falam do desconhecimento do verdadeiro nome do pai ou da mãe, de apenas conhecerem irmãos pela palavra bebé, de não corrigirem deficiências de nascença por não estarem registados e serem considerados ilegais, de terem no cartão de visita da prisão o seu primeiro documento de identidade. “Ditaduras dissolvem jogos, misturam datas, e também arrancam nomes”, diz Matilde Campilho, aludindo a um conjunto de situações onde a memória se confunde e as recordações tendem a perder o seu valor. Por isso aquela colónia foi tão importante: Escreveram-se cartas, fizeram-se desenhos, montaram-se teatros de fantoches, deram-se passeios de burro, contaram-se muitas histórias, cantaram-se cantigas que mais nenhuma criança conhecia. Falou-se do dia a dia e falou-se do tempo antigo, e falou-se muito de um futuro que acabaria por chegar. E ergueram-se fogueiras à noite para serem vistas lá longe nas celas de Peniche, gritando-se bem alto “PAI”, com a certeza de que os pais viam aquelas fogueiras e sabiam estarem ali os seus filhos.

Concebendo o cenário em dois níveis sobrepostos e a dramaturgia em diversos tempos coexistentes, Marco Martins quis chamar a atenção, cinquenta anos depois do 25 de Abril, para este “período particular, não apenas enquanto relato, mas atentando às suas repercussões, agora e no futuro”. Pareceu-lhe fundamental “a construção de um espectáculo que recuperasse a memória – sempre rizomática e misteriosa – de pessoas que viveram tolhidas e silenciadas pela repressão.” Para tanto, fez um aturado trabalho de pesquisa (“na verdade devia chamar-lhe trabalho sobre a memória, ou criação de memória, a partir de pessoas secundarizadas ou desvalorizadas social e historicamente”, diz), recorrendo a fotografias, cartas e desenhos, vindos da clandestinidade ou trocados na prisão, num processo de abertura de valiosas e peculiares possibilidades de transmissão que envolveu todo o elenco. A partilha de testemunhos das crianças da Colónia com os actores e jovens das escolas e instituições envolvidas viria a revelar-se fundamental no espalhar da semente contra os totalitarismo e fascismos que alastram por toda a Europa, arrastando consigo um profundo retrocesso civilizacional. Que a semente possa dar frutos é algo que resulta numa certeza para aqueles que tiveram a oportunidade de ver a peça. É tempo de elevar ainda mais a guarda, porque é fundamental persistir, resistir. “Em quem confiamos para o fazer?”

[Foto: Teatro Nacional de S. João | https://www.tnsj.pt/]

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

TEATRO: "Pêndulo"



TEATRO: “Pêndulo”
Criação e encenação | Marco Martins
Texto | Marco Martins, com o contributo do elenco e de Djaimilia Pereira de Almeida
Cenografia | Fala Atelier
Movimento | Vânia Rovisco
Música | Tia Maria Produções
Interpretação | Elane Galacho, Emanuelle Bezerra, Fabi Lima, Juliana Teodoro Alves, Maria Gustavo, Maria Yaya Rodrigues Correia, Nádia Fabrici
Produção | Arena Ensemble
100 Minutos | Maiores de 12 Anos
Teatro Campo Alegre
03 Fev 2024 | sab | 19:30


Depois de “Provisional Figures” e “Selvagem”, volto a cruzar-me com o teatro de Marco Martins e com esse extraordinário trabalho que vem fazendo com não actores, ao encontro da sua forma, tão bela e tão crua, de nos fazer olhar em volta e perceber que esta vida, para muitos, é tudo menos um mar de rosas. “Pêndulo” conta-nos, de viva voz, a história de Juliana Teodoro Alves, Maria Yaya Rodrigues Correia, Emanuelle Bezerra, Maria Gustavo, Fabiana Lima, Nádia Fabrici e Elane Galacho. Provenientes do Brasil, Angola, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde, são todas elas mulheres cuidadoras e empregadas, que passam a vida em movimento pendular entre a periferia e o centro da capital portuguesa, entre a sua casa e a de quem as emprega, entre o país de origem e o de destino, Portugal. Sete mulheres imigrantes que, com as suas histórias, levantam questões sobre o modo como se relacionam com as famílias para quem trabalham, se essa relação as afeta ou não, como se relaciona um país com os imigrantes que acolhe.

Abrir o palco a estas mulheres é levar o espectador ao encontro das suas histórias de vida, das expectativas frustradas, dos sonhos apagados, da distância da família, dos quotidianos mergulhados na rotina, da exaustão ao final de cada turno, do futuro incerto, das ameaças à sua condição de mulher e imigrante. Tudo começa num supermercado onde estas mulheres são empregadas de limpeza. É lá que, entre um trabalho que exige a não interferência com os clientes e as breves pausas para comer algo trazido de casa, elas se vão apresentando. Ficaremos a saber que ser trabalhadora doméstica ou cuidadora de idosos é algo que as une a todas. Da boca de Elane escutamos os vários trabalhos que teve no Brasil - de cuidadora do pai em fase terminal a guarda prisional -, antes de os filhos serem maiores e ter condições para tentar dar um novo rumo à sua vida em Portugal. Já Juliana, nascida em Moçambique, vai falando dos tempos passados num orfanato de holandeses e italianos onde aprendeu latim e, depois, o contar de uma história doce no momento em que um idoso ao seu cuidado está prestes a deixar este mundo.

Com um dispositivo cénico bastante simples, “Pêndulo” retira a sua força da verdade dos testemunhos e da legitimidade dos anseios destas mulheres. Não é inocente o nome “Europa” que é dado a este supermercado, símbolo maior da precariedade e da exploração, eixo orientador das várias narrativas. Como não é inocente a escolha destas actrizes e não outras: Há aqui quem tenha mestrados e não consiga melhor do que ser cuidadora em “part-time”, há quem festeje a entrada de um filho nas escolas do Bolshoi enquanto varre um chão, como há quem chegue a Lisboa e nem tempo tenha de “aterrar”, levada para trabalhar directamente do aeroporto, “com horas de entrada, mas sem horas de saída”. Ter apenas a escola primária ou estar a tirar um mestrado, ter ou não experiência profissional, acaba por ser indiferente. Importa colocar estas mulheres imigrantes na sombra, afastá-las de tudo, torná-las invisíveis. Libelo acusatório de uma sociedade neoliberal onde o dinheiro e o poder são fins que justificam todos os meios, “Pêndulo” é verdade que mói e é ferida que dói. É necessário e é urgente.

domingo, 9 de abril de 2023

CINEMA: "Great Yarmouth: Provisional Figures"



CINEMA: “Great Yarmouth: Provisional Figures”
Realização | Marco Martins
Argumento | Ricardo Adolfo e Marco Martins
Fotografia | João Ribeiro
Montagem | Mariana Gaivão, Karen Harley, Marco Martins
Interpretação | Beatriz Batarda, Nuno Lopes, Kris Hitchen, Romeu Runa, Rita Cabaço, Hugo Bentes, Robert Elliot, Michael Rawson, Joseph Ross, Eve Woods, Félix Magar Phibbs, Craig Smith, Kerry Gedge, Ana Frostic, Sidney Hart, Josh Farr, Andy Whittred, Ted Tank
Produção | Kamilla Hodol, Filipa Reis
Portugal, Reino Unido | 2022 | Drama | 113 Minutos | Maiores de 14
Cinema Trindade
08 Abr 2022 | sab | 19:30


Great Yarmouth é uma cidade costeira do Condado de Norfolk, outrora importante centro turístico - Charles Dickens descreve-a no seu “David Copperfield” como “o melhor lugar do universo” - graças à imensidão das suas praias, aos “santuários de vida animal de Breydon Water e Halvergate e aos muitos espaços de diversão construídos sobretudo a partir de 1844 com a chegada à cidade do caminho de ferro. Hoje é uma cidade decrépita, sem brilho, local de destino de trabalhadores-imigrantes ilegais (ou “provisional figures”, isto é, pessoas à espera de legalização) oriundos em grande parte do nosso País. São os “pork and cheese” (perceba-se a similitude fonética com “portuguese”), como são “carinhosamente” tratados pelos britânicos, exploradores de mão-de-obra barata nas fábricas de abate e reprocessamento de perus. É nesta cidade, outrora florescente e que hoje não passa de um “buraco” onde o cheiro do sangue e da merda estão espalhados por todo o lado, que vamos encontrar Tânia, conhecida como “a Mãe dos portugueses”, angariadora da força de trabalho, um elo mais de uma cadeia que leva ao fundo da humanidade.

O filme começou por ser uma peça de teatro com o mesmo título, com encenação e dramaturgia de Marco Martins e que tive oportunidade de ver no palco do Rivoli, à boleia do FITEI, em Junho de 2018. O trabalho com não-actores, a partir de um texto de Isabela Figueiredo e Gonçalo M. Tavares, conferia à peça um insuspeitado cunho de verdade do qual Marco Martins tirava partido como só ele sabe fazer. Mas a história não acaba aqui: Este verdadeiro “work-in-progress” viu-se obrigado a parar graças à pandemia, sendo retomado e dando lugar a um filme muito duro, de cores sombrias, rostos derrotados, paisagens decrépitas e esperança zero. Disparando em todas as direcções, o realizador dá-nos a ver um Reino Unido em queda livre, em busca da salvação por intermédio do Brexit, mas mais mergulhado na sua própria tragédia por causa do Brexit. Num ambiente preconceituoso e xenófobo, os resultados do capitalismo são evidenciados em todo o seu esplendor de forma hiper-realista, com tanto de desesperança como de sordidez, as pessoas tratadas como números que mais não são do que o combustível que alimenta a máquina trituradora do consumismo e da globalização.

No centro desta história há Tânia, casada (?) com um inglês proprietário de um dos hotéis degradados da cidade onde são alojados os imigrantes, aos dois e três em cada quarto. Tânia é Beatriz Batarda e Beatriz Batarda é, graças a uma interpretação avassaladora, a “alma” do filme. Câmera à mão, Marco Martins cola-se a ela de todos os ângulos, oferecendo-nos um retrato pungente da dualidade de sentimentos que atravessam esta mulher, que ambiciona poder vir a transformar o velho hotel numa aprazível estância para idosos, mas tem a consciência de que o seu sonho assenta na exploração dos compatriotas (e no dinheiro que desvia das contas do marido). Compreendemos desde o início que Tânia entrou num beco cuja única saída é virar às costas ao “sonho britânico” e regressar. A forma como o filme mostra uma verdade à qual a mulher não pode fugir é como uma garra que nos abre o ventre e nos agarra as tripas, obrigando-nos a “suportar” quase duas horas de dor e sofrimento para os quais não há paliativos. Desconheço se é essa a intenção do filme, mas “Great Yarmouth: Provisional Figures” reforça a minha falta de fé na Humanidade e torna-me (ainda mais) pessimista em relação ao mundo em que vivemos. E, já agora, impede-me de voltar a comer carne de peru.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

TEATRO: "Provisional Figures"



TEATRO: “Provisional Figures”
Texto | Isabela Figueiredo e Gonçalo M. Tavares
Encenação e Dramaturgia | Marco Martins
Cenografia | Fernando Ribeiro
Interpretação | Ana Moreira, Ivan Ammon, Maria do Carmo Ferreira, Pedro Cassimo, Pete Dewar, Richard Raymond, Robert Elliot, Sérgio Cardoso de Pinho, Victoria River
Produção | CCTAR – Centro de Criação para o Teatro e Artes de Rua
Teatro Rivoli – Palco do Grande Auditório
16 Jun 2018 | sab | 19:00
FITEI - Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica


“Um pela agonia,
Dois pela alegria,
Três pela menina,
Quatro pelo menino,
Cinco pela prata,
Seis pelo ouro,
Sete pelo segredo
Seguro num tesouro.
Oito pelo desejo,
Nove pelo beijo,
Dez pela ave
Mais bela que vejo.
Pega.”

O espectáculo está prestes a começar. O público vai tomando o seu lugar e de imediato se dá conta que irá partilhar os assentos na plateia com os actores, cujas cadeiras, dispersas pela sala, estão reservadas. Enquanto se espera pelo início do espectáculo, o som de fundo é o de entrevistas gravadas que remetem para experiências de vida particularmente duras em contexto laboral, a integridade e a própria dignidade da pessoa feridas em nome desse “bem maior” que é o ter trabalho, seja a que preço for. Na verdade a peça já começou e é Marco Martins a colocar-nos um nó na garganta ao dizer-nos que a Ana ou o Robert, o Sérgio, a Victoria, a Carmo ou qualquer um dos outros, somos nós. Um nó que se aperta à medida que os (não) actores vão surgindo em palco e expondo o provisório das suas vidas, a precariedade e a humilhação, o dinheiro escasso e a família longe, a felicidade e o amor eternamente adiados.

Culminando um processo de dois anos de investigação junto da comunidade portuguesa de Great Yarmouth e baseando-se nos testemunhos individuais de quem viveu de perto este período de incerteza, “Provisional Figures” propõe-nos uma reflexão sobre os problemas da identidade e da emigração num contexto urbano fortemente abalado pela crise económica e consequentes convulsões sociais. É um trabalho que mergulha numa realidade relativamente desconhecida em Portugal e que nos fala da emigração no auge da crise económica (2009-2014), em particular para a região de Norfolk, outrora destino balnear de eleição para os britânicos, agora reconvertido em centro da indústria de transformação alimentar.

Com “Provisional Figures”, Marco Martins volta a privilegiar o teatro do real, oferecendo-nos uma peça de enorme significado e alcance, em nome da crise, uma verdade que não pode ser esquecida. Uma crise que se revelou tremenda para milhões de pessoas sobretudo nos países do Sul da Europa, desestruturou famílias, comunidades inteiras, levou ao desemprego em massa, encerrou milhares de micro, pequenas e médias empresas... mas que deu muito jeito a alguns. E que pode estar aí ao virar da esquina, doa a quem doer, porque pode vir a dar jeito a alguns outros, afinal os mesmo de sempre. A presença dos não actores em palco reforça a mensagem, espicaçando recorrentemente o público com essa ideia tão querida ao encenador de que “todo o mundo é um palco”. E é, finalmente, o homem que está em causa, enquanto indivíduo dito superior, a revelar-se pior do que qualquer outro animal, o mais cruel para os outros e para si próprio.


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

TEATRO: "Actores"



TEATRO: “Actores”,
de Marco Martins
Encenação | Marco Martins
Interpretação | Bruno Nogueira, Carolina Amaral, Miguel Guilherme, Nuno Lopes, Rita Cabaço Produção | Arena Ensemble, São Luiz Teatro Municipal, Teatro Nacional S. João e Centro de Arte de Ovar
Centro de Arte de Ovar | 25 Fev 2018 | dom | 17:00


Após a sua estreia no São Luiz Teatro Municipal e passagem pelo Teatro Nacional de S. João, foi agora a vez do Centro de Arte de Ovar receber a peça “Actores”, com dramaturgia e encenação de Marco Martins. Casa cheia para três dias de espectáculo – uma raridade no panorama concelhio - e um público em delírio, absolutamente rendido à qualidade da peça e às interpretações de Bruno Nogueira, Carolina Amaral, Miguel Guilherme, Nuno Lopes e Rita Cabaço, são as marcas distintivas deste verdadeiro acontecimento cultural por terras de Ovar.

Baseada em relatos autobiográficos dos intérpretes – à excepção de Carolina Amaral que interpreta as vivências de Luisa Cruz, actriz que integrava inicialmente o projecto –, incluindo textos que os próprios já representaram ao longo da sua carreira, “Actores” lança um olhar retrospectivo sobre a profissão de palco e sobre os actores, identificados como “atletas emocionais”. Em cena, os cinco dão corpo à proposta de Marco Martins, levando o espectador a olhar para o trabalho de actor de forma desconstruída, como se de um ensaio aberto ao público se tratasse. Vemos, por exemplo, os tiques que os actores têm durante o aquecimento, vemo-los de fato-de-treino, com papéis nas mãos e vemo-los a repetirem o mesmo texto com diferentes entoações, percorrendo a paleta de emoções humanas na íntegra.

Recuperando algumas das muitas memórias, os actores lembram vitórias e derrotas, chamam para primeiro plano o início da sua caminhada na arte de representar, falam de audições em que participaram e expõem abusos de encenadores, realizadores e professores de teatro, recordam a figuração, os anúncios de TV ou as festas privadas que têm, por vezes, de suportar. Ao de cima vem o desgaste emocional que a profissão acarreta – não é por acaso que se fala em “desistir e partir para outra”, se descrevem pesadelos, se contam histórias de “brancas”. São três horas em que acompanhamos o trajecto daquelas cinco personagens, fazendo de si próprias ou do “vizinho do lado”. São histórias e são memórias que fazem rir e chorar. É o jogo do gato e do rato entre o real e o ficcionado, na certeza de que é no meio que está a virtude. É o teatro na sua condição natural, centrípeto, máquina que sofre e faz sofrer, que contraria, que contagia. É o teatro no seu melhor!

[Foto: Jorge Gomes, Câmara Municipal de Loulé / facebook.com/cineteatrolouletano/]