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sábado, 11 de outubro de 2025

CINEMA: "Lavagante" | Mário Barroso



CINEMA: “Lavagante”
Realização | Mário Barroso
Argumento | António-Pedro Vasconcelos
Fotografia | Mário Barroso
Montagem | Micael Espinha
Interpretação | Francisco Froes, Nuno Lopes, Júlia Palha, Leonor Alecrim, Diogo Infante, Rui Morisson, Afonso Lagarto, José Alberto Lemos, Rodrigo Balseiro, Ricardo Rodrigues, Sérgio Martins, Rafaela Simas, Simão Costa, Rui Miguel, Carlos Leitão, Manuel Neto
Produção | Paulo Branco
Portugal | 2025 | Drama, Romance | 92 Minutos | Maiores de 12 Anos
Vida Ovar Castello Lopes
07 Out 2025 | ter | 19:00


De tempos a tempos, o cinema português surge como fórum privilegiado de interrogação e reconstrução da memória histórica da ditadura e das suas implicações políticas, sociais e morais. De forma crítica, é capaz de operar como instrumento de análise das estruturas de poder e das formas subtis de repressão que marcaram a ditadura, emergindo como um laboratório de memória colectiva, onde se revisitam traumas e se reconfiguram identidades. Filmes como “Brandos Costumes”, de Alberto Seixas Santos, “Os Mutantes”, de Teresa Villaverde, “A Costa dos Murmúrios”, de Margarida Cardoso ou “Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira, são exemplos de uma certa desmontagem dos mecanismos quotidianos de opressão e conformismo moral que sustentaram o Estado Novo. Por sua vez, “Capitães de Abril”, de Maria de Medeiros, e “Linha Vermelha”, de José Filipe Costa, questionam o próprio imaginário da revolução e da utopia. É nestas águas que “Lavagante” mergulha, afirmando-se no particular território da resistência simbólica, onde recordar é um gesto político e ético: Uma forma de compreender o que fomos, para continuar a pensar o que somos.

Realizado por Mário Barroso, aclamado director de fotografia com colaborações em alguns dos filmes mais emblemáticos de Manoel de Oliveira, João César Monteiro ou José Fonseca e Costa, “Lavagante” é uma alegoria pungente sobre um país paralisado, entre a repressão da ditadura e as frustrações da oposição democrática. Cecília, jovem calculista e enigmática, seduz Daniel, médico solidário com os estudantes durante a Crise Académica de 1962, mas acaba por trair a relação ao ceder à pressão sedutora e insidiosa de um inspector da polícia política. Através de uma história de predação e chantagem amorosa, o filme recompõe o universo masculino marialva e encena os impasses de uma geração esmagada entre a fraude eleitoral de 1958, a Guerra Colonial e a asfixia provocada pela censura, pela moral católica e pela brutalidade da PIDE. Conduzida retrospectivamente por um narrador interventivo e irónico, a narrativa instala-se num espaço onde o realismo social se cruza com a fábula, abrindo caminho à metáfora do lavagante — o animal que engorda a presa até devorá-la — e que se aplica tanto ao regime como às próprias personagens, consumidas por forças maiores do que elas.

Académico no melhor sentido do termo, filmado num preto e branco depurado e de enorme beleza, “Lavagante” vive da subtileza de um argumento apenas simples na sua aparência. Lisboa surge como palco principal da acção, especialmente nos momentos vividos em torno do 1.º de Maio de 1962 fortemente reprimido, marcado por despedimentos, espancamentos, prisões, torturas e assassinatos, mas que viria a valer à classe operária a conquista da jornada de oito horas de trabalho diário. Embora simbólicas, as personagens são marcadas por um certo esquematismo funcional, servindo o propósito do filme sem nunca caírem na caricatura. Francisco Froes, Nuno Lopes e Júlia Palha, particularmente esta última, atingem patamares interpretativos de excelência, mostrando-se convincentes nos seus papéis. Melodramático, com o “E Lucevan le Stelle”, famosa ária do terceiro acto da “Tosca” em pano de fundo, “Lavagante” é todo um sonho de vida que se desfaz que surge aos olhos do espectador. Libertado mas destroçado, Daniel abandonará um país eternamente adiado, mão trémula que acena por entre os escombros — ideia fantasmática de uma esperança desfeita, à espera de um futuro que tarda em nascer.

domingo, 9 de abril de 2023

CINEMA: "Great Yarmouth: Provisional Figures"



CINEMA: “Great Yarmouth: Provisional Figures”
Realização | Marco Martins
Argumento | Ricardo Adolfo e Marco Martins
Fotografia | João Ribeiro
Montagem | Mariana Gaivão, Karen Harley, Marco Martins
Interpretação | Beatriz Batarda, Nuno Lopes, Kris Hitchen, Romeu Runa, Rita Cabaço, Hugo Bentes, Robert Elliot, Michael Rawson, Joseph Ross, Eve Woods, Félix Magar Phibbs, Craig Smith, Kerry Gedge, Ana Frostic, Sidney Hart, Josh Farr, Andy Whittred, Ted Tank
Produção | Kamilla Hodol, Filipa Reis
Portugal, Reino Unido | 2022 | Drama | 113 Minutos | Maiores de 14
Cinema Trindade
08 Abr 2022 | sab | 19:30


Great Yarmouth é uma cidade costeira do Condado de Norfolk, outrora importante centro turístico - Charles Dickens descreve-a no seu “David Copperfield” como “o melhor lugar do universo” - graças à imensidão das suas praias, aos “santuários de vida animal de Breydon Water e Halvergate e aos muitos espaços de diversão construídos sobretudo a partir de 1844 com a chegada à cidade do caminho de ferro. Hoje é uma cidade decrépita, sem brilho, local de destino de trabalhadores-imigrantes ilegais (ou “provisional figures”, isto é, pessoas à espera de legalização) oriundos em grande parte do nosso País. São os “pork and cheese” (perceba-se a similitude fonética com “portuguese”), como são “carinhosamente” tratados pelos britânicos, exploradores de mão-de-obra barata nas fábricas de abate e reprocessamento de perus. É nesta cidade, outrora florescente e que hoje não passa de um “buraco” onde o cheiro do sangue e da merda estão espalhados por todo o lado, que vamos encontrar Tânia, conhecida como “a Mãe dos portugueses”, angariadora da força de trabalho, um elo mais de uma cadeia que leva ao fundo da humanidade.

O filme começou por ser uma peça de teatro com o mesmo título, com encenação e dramaturgia de Marco Martins e que tive oportunidade de ver no palco do Rivoli, à boleia do FITEI, em Junho de 2018. O trabalho com não-actores, a partir de um texto de Isabela Figueiredo e Gonçalo M. Tavares, conferia à peça um insuspeitado cunho de verdade do qual Marco Martins tirava partido como só ele sabe fazer. Mas a história não acaba aqui: Este verdadeiro “work-in-progress” viu-se obrigado a parar graças à pandemia, sendo retomado e dando lugar a um filme muito duro, de cores sombrias, rostos derrotados, paisagens decrépitas e esperança zero. Disparando em todas as direcções, o realizador dá-nos a ver um Reino Unido em queda livre, em busca da salvação por intermédio do Brexit, mas mais mergulhado na sua própria tragédia por causa do Brexit. Num ambiente preconceituoso e xenófobo, os resultados do capitalismo são evidenciados em todo o seu esplendor de forma hiper-realista, com tanto de desesperança como de sordidez, as pessoas tratadas como números que mais não são do que o combustível que alimenta a máquina trituradora do consumismo e da globalização.

No centro desta história há Tânia, casada (?) com um inglês proprietário de um dos hotéis degradados da cidade onde são alojados os imigrantes, aos dois e três em cada quarto. Tânia é Beatriz Batarda e Beatriz Batarda é, graças a uma interpretação avassaladora, a “alma” do filme. Câmera à mão, Marco Martins cola-se a ela de todos os ângulos, oferecendo-nos um retrato pungente da dualidade de sentimentos que atravessam esta mulher, que ambiciona poder vir a transformar o velho hotel numa aprazível estância para idosos, mas tem a consciência de que o seu sonho assenta na exploração dos compatriotas (e no dinheiro que desvia das contas do marido). Compreendemos desde o início que Tânia entrou num beco cuja única saída é virar às costas ao “sonho britânico” e regressar. A forma como o filme mostra uma verdade à qual a mulher não pode fugir é como uma garra que nos abre o ventre e nos agarra as tripas, obrigando-nos a “suportar” quase duas horas de dor e sofrimento para os quais não há paliativos. Desconheço se é essa a intenção do filme, mas “Great Yarmouth: Provisional Figures” reforça a minha falta de fé na Humanidade e torna-me (ainda mais) pessimista em relação ao mundo em que vivemos. E, já agora, impede-me de voltar a comer carne de peru.