Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta José Cardoso Pires. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Cardoso Pires. Mostrar todas as mensagens

sábado, 11 de outubro de 2025

CINEMA: "Lavagante" | Mário Barroso



CINEMA: “Lavagante”
Realização | Mário Barroso
Argumento | António-Pedro Vasconcelos
Fotografia | Mário Barroso
Montagem | Micael Espinha
Interpretação | Francisco Froes, Nuno Lopes, Júlia Palha, Leonor Alecrim, Diogo Infante, Rui Morisson, Afonso Lagarto, José Alberto Lemos, Rodrigo Balseiro, Ricardo Rodrigues, Sérgio Martins, Rafaela Simas, Simão Costa, Rui Miguel, Carlos Leitão, Manuel Neto
Produção | Paulo Branco
Portugal | 2025 | Drama, Romance | 92 Minutos | Maiores de 12 Anos
Vida Ovar Castello Lopes
07 Out 2025 | ter | 19:00


De tempos a tempos, o cinema português surge como fórum privilegiado de interrogação e reconstrução da memória histórica da ditadura e das suas implicações políticas, sociais e morais. De forma crítica, é capaz de operar como instrumento de análise das estruturas de poder e das formas subtis de repressão que marcaram a ditadura, emergindo como um laboratório de memória colectiva, onde se revisitam traumas e se reconfiguram identidades. Filmes como “Brandos Costumes”, de Alberto Seixas Santos, “Os Mutantes”, de Teresa Villaverde, “A Costa dos Murmúrios”, de Margarida Cardoso ou “Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira, são exemplos de uma certa desmontagem dos mecanismos quotidianos de opressão e conformismo moral que sustentaram o Estado Novo. Por sua vez, “Capitães de Abril”, de Maria de Medeiros, e “Linha Vermelha”, de José Filipe Costa, questionam o próprio imaginário da revolução e da utopia. É nestas águas que “Lavagante” mergulha, afirmando-se no particular território da resistência simbólica, onde recordar é um gesto político e ético: Uma forma de compreender o que fomos, para continuar a pensar o que somos.

Realizado por Mário Barroso, aclamado director de fotografia com colaborações em alguns dos filmes mais emblemáticos de Manoel de Oliveira, João César Monteiro ou José Fonseca e Costa, “Lavagante” é uma alegoria pungente sobre um país paralisado, entre a repressão da ditadura e as frustrações da oposição democrática. Cecília, jovem calculista e enigmática, seduz Daniel, médico solidário com os estudantes durante a Crise Académica de 1962, mas acaba por trair a relação ao ceder à pressão sedutora e insidiosa de um inspector da polícia política. Através de uma história de predação e chantagem amorosa, o filme recompõe o universo masculino marialva e encena os impasses de uma geração esmagada entre a fraude eleitoral de 1958, a Guerra Colonial e a asfixia provocada pela censura, pela moral católica e pela brutalidade da PIDE. Conduzida retrospectivamente por um narrador interventivo e irónico, a narrativa instala-se num espaço onde o realismo social se cruza com a fábula, abrindo caminho à metáfora do lavagante — o animal que engorda a presa até devorá-la — e que se aplica tanto ao regime como às próprias personagens, consumidas por forças maiores do que elas.

Académico no melhor sentido do termo, filmado num preto e branco depurado e de enorme beleza, “Lavagante” vive da subtileza de um argumento apenas simples na sua aparência. Lisboa surge como palco principal da acção, especialmente nos momentos vividos em torno do 1.º de Maio de 1962 fortemente reprimido, marcado por despedimentos, espancamentos, prisões, torturas e assassinatos, mas que viria a valer à classe operária a conquista da jornada de oito horas de trabalho diário. Embora simbólicas, as personagens são marcadas por um certo esquematismo funcional, servindo o propósito do filme sem nunca caírem na caricatura. Francisco Froes, Nuno Lopes e Júlia Palha, particularmente esta última, atingem patamares interpretativos de excelência, mostrando-se convincentes nos seus papéis. Melodramático, com o “E Lucevan le Stelle”, famosa ária do terceiro acto da “Tosca” em pano de fundo, “Lavagante” é todo um sonho de vida que se desfaz que surge aos olhos do espectador. Libertado mas destroçado, Daniel abandonará um país eternamente adiado, mão trémula que acena por entre os escombros — ideia fantasmática de uma esperança desfeita, à espera de um futuro que tarda em nascer.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

LIVRO: "O Delfim"



LIVRO: “O Delfim”,
de José Cardoso Pires
Ed. Herdeiros de José Cardoso Pires e Publicações Dom Quixote, 1968 (Ed. Editora Planeta DeAgostini para a presente edição, 2001)


“Temos, pois, o Autor instalado na janela duma pensão de caçadores. Sente vida por baixo e à volta dele, sim, pode senti-la, mas, por enquanto, fixa-se unicamente, e com intenção, no tal sopro de nuvens que é a lagoa. Não a vê dali, bem o sabe, porque fica no vale, para lá dos montes, secreta e indiferente. No entanto, aprendeu a assinalá-la por aquele halo derramado à flor das árvores, e diz: lá está ela, a respirar. Depois, se quisesse escrever, passaria apenas o dedo na capa encarquilhada do livro que o acompanha (ou numa tábua de relíquia, ou numa pedra) e sulcaria o pó com esta palavra: Delfim.”

Com a publicação de “O Anjo Ancorado” e, cinco anos volvidos, de “O Hóspede de Job”, José Cardoso Pires provava possuir todos os atributos de um genial romancista, que não apenas o contista sedutor e requintado dos seus trabalhos inaugurais. A exigência do romance, o voo mais largo, um maior fôlego, encontrou nele um escritor à altura, capaz de gerar histórias a partir umas das outras e criar no leitor aquele tipo de interesse que o faz pegar num livro e lê-lo sofregamente do princípio ao fim. Os romances enunciados são disso um belíssimo exemplo, ao mesmo tempo que herdam o trabalho de filigrana que os seus contos encerram, os ambientes com idênticas texturas, as figuras com a mesma ilusão, a mesma inquietação, as mesmas sombras. Eis senão quando chega a vez de “O Delfim”, um livro que se distancia dos anteriores pela aspereza das suas falas, pelo uivar dolorido dos cães, pelo sangue mais vermelho e mais espesso, pela raiva mais raiva ainda.

É um livro admirável este “O Delfim”, narrado por um escritor – Cardoso Pires, “lui même” – que regressa à Gafeira um ano depois para viver a euforia da abertura da caça e que percebe o quanto tudo se modificou em tão curto espaço de tempo: os jogos de sedução, as relações de poder, a atitude das pessoas, a própria fisionomia da aldeia. Tudo por causa de duas mortes que se abatem sobre a casa dos Palma Bastos, senhores todo-poderosos do lugar e seus termos, dando azo a dúvidas e “certezas” as mais variadas e díspares na base do “cada cabeça sua sentença”. Desses crimes, pela voz do “escritor-detective”, nos fala “O Delfim”, dando a ver um Império a desabar com estrondo porquanto assente nos frágeis alicerces de uma estrutura social retrógrada, com os seus insuportáveis tiques machistas, o marialvismo mais refinado e os estigmas de um racismo cultivado há séculos.

Mas se “O Delfim” tem o toque de mistério e de fascínio que torna a sua leitura tão irresistível, tudo isso é devido, sobretudo, à qualidade da sua escrita, à forma de contar de José Cardoso Pires da qual se destaca uma superior inteligência e enorme destreza em lançar mão dos mais variados recursos estilísticos, colocando-os ao serviço da obra. Falando a várias vozes, a vários tempos, recorrendo às monografias, aos cadernos de apontamentos ou à sua própria memória, reproduzindo as conversas dos outros ou o seu pensar em voz alta, Cardoso Pires oferece um conjunto de camadas narrativas que se interpenetram e complementam, adensando a trama e deixando o leitor cada vez mais preso ao livro. Personagens, tempos e lugares de um enredo labiríntico são aqui “espremidos até ao tutano”, a essência de cada um dispensada gota a gota, exigindo do leitor um trabalho de desconstrução com tanto de exaustivo como de fascinante. Um romance que não se esgota em si mesmo e que, passados mais de 50 anos sobre a data da sua publicação, mantém vivos os traços de modernidade e uma espantosa actualidade.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

LIVRO: "Dinossauro Excelentíssimo"



LIVRO: “Dinossauro Excelentíssimo”,
de José Cardoso Pires
Ed. Herdeiros de José Cardoso Pires e Publicações Dom Quixote, 1972 (Ed. Editora Planeta DeAgostini para a presente edição, 2001)

“A voz nascia na tribuna, vinha do alto, ou ia para o alto, lançada pelas bocas de um exército de altifalantes apontados às nuvens do inconcebível; era uma voz cercadora, que estava atrás e à frente ao mesmo tempo, e por cima também; voz maior, VOZ, emoldurada em palmas. Alinhados em esquadrões, sol e estandartes, os peregrinos esticavam o pescoço a procurar seguir-lhe os rastro pelos caprichos das alturas. Percebiam e não percebiam, pouca coisa, quase nada, dados os seus fracos conhecimentos do dialecto dê-erre, mas não era motivo para se afligirem: iriam compreender quando o padre e a professora Minha-Senhora os reunissem lá na aldeia para fazerem o comentário próprio. Aí seria o Discurso em tradução livre, mas por enquanto tinham o dos altifalantes, que era todo ao vivo e que os cobria com pensamentos de cometa.”

Aquando da publicação de “Dinossauro Excelentíssimo”, talvez se tenha passado com José Cardoso Pires e Rogério de Freitas, o seu editor pare este livro, o mesmo que sucedeu a Fernando Tordo e José Carlos Ary dos Santos quando viram a sua “Tourada” pegar o mundo “pelos cornos da desgraça” e resistir ao travão da censura, acabando a representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção em 1973. Terão ficado boquiabertos. “Para surpresa de todos, editores e autores incluídos, a censura não viu o dinossauro no meio da sala ou, se viu, não lhe prestou muita atenção”, conforme diz Bruno Vieira Amaral nesse notável “Integrado Marginal”, a biografia de José Cardoso Pires [Contraponto Editores, Junho de 2021]. Neste caso, a colagem de “Sua Alteza, o camponês mestre doutor” à figura de Oliveira Salazar é tão evidente que qualquer explicação para tamanha “desatenção” pecará por vaga, inconsistente ou descabida.

“Dinossauro Excelentíssimo” começou por ser uma ideia de prenda de aniversário para a filha mais nova do escritor, essa mesma “Ritinha” com quem dialoga a espaços no livro. Rita Cardoso Pires, porém, teria de aguardar até ao Natal para ter a sua prenda. Estávamos em 1969 e “Dinossauro Excelentíssimo” só seria publicado quase três anos depois. Nesse espaço de tempo, à semelhança de tantos dos seus livros anteriores (e dos que se lhe seguiram), o escritor reformulou este seu “divertissement” e apelidou-o de fábula. Fábula sim, mas profundamente irónica, nada inocente, fazendo esvoaçar o seu perfume através de uma narração livre e despida de preconceitos, os elementos imaginários como caricaturas impondo a sua força e a sua verdade. Das origens à formação na “cidade dos Doutores”, da tomada de posse do Reino dos Mexilhões à mentira como forma de governar e ao acidente que viria a ditar a sua morte, as sessões ficcionadas do Conselho de Ministros de permeio, a biografia do ditador está lá todinha, com a frieza e a acidez que caracterizam Cardoso Pires.

Provocador como nenhum outro, certeiro ao alvo e carregado de veneno, como essas flechas disparadas pelas zarabatanas dos índios Yanoama ou Kachúyana, assim é “Dinossauro Excelentíssimo”. Um livro que é, todo ele, um tratado sócio-político, que dá a ver, por palavras muito suas, os comos e os porquês de 48 anos de opressão e ditadura. Por entre chaves que abrem as chaves das chaves, estátuas que falam e câmaras de torturar palavras, ao longo do livro encontramos a máquina repressiva do Estado afinada pelo trinómio “Deus - Pátria - Autoridade”, assente numa complexa teia de interesses e na mais refinada mentira, enterrada em processos burocráticos gigantescos e, à frente dela, um imperador excelentíssimo, mestre de ordens e decretos e senhor de discursos impantes, até se ver só, completamente só, orgulhosamente só. O resto são mexilhões ferrados na rocha, conselheiros perpétuos sem tom nem som e imperadores de bronze. Mas quanto a isto, bico calado. Não vá o diabo tecê-las!

sábado, 14 de agosto de 2021

LIVRO: "O Anjo Ancorado"



LIVRO: “O Anjo Ancorado”,
de José Cardoso Pires
Ed. Herdeiros de José Cardoso Pires e Publicações Dom Quixote, 1958 (Ed. Editora Planeta DeAgostini para a presente edição, 2001)

“O carro. Em dinheiro aqueles dez ou doze casebres não dariam para o Talbot Lago, dois litros e meio, que estava ali adiante, no deserto. Nem que se juntasse toda a tralha de redes podres, covos de lagosta e mais uma ou outra embarcação de fundo chato. Nem com isso, nem mesmo com isso.”

Um sopro de desesperança e abandono atravessa as páginas de “O Anjo Ancorado”. Desenhado ao correr de uma tarde na pequena aldeia de S. Romão – pequeno povoado das cercanias de Peniche onde vive um punhado de almas em casas “como gaiolas de adobe e falheiro, empoleiradas sobre o oceano” –, o livro conta a chegada de um homem e de uma mulher no seu Talbot-Lago, ele disposto a mergulhar nas águas profundas para uma par de horas de caça submarina, ela apenas para o acompanhar e entregar-se a uma longa espera. Nem mistério, nem romance, nem entusiasmo, nem ilusões. Nada. Apenas dois corpos voltados sobre si mesmos e meia dúzia de frases esparsas num “deserto”, uma falésia pedregosa e nua batida pelo vento, o clamor das ondas e os gritos das gaivotas em fundo.

Com o fim da II Guerra Mundial, acreditou-se que os ventos de mudança iriam chegar a Portugal, trazendo com eles a liberdade e a democracia. Personificada no MUD - Movimento de Unidade Democrática, essa corrente de entusiasmo começou a esfriar na Primavera de 1947, com a prisão de inúmeros activistas do MUD Juvenil e, em Janeiro do ano seguinte, com a ilegalização do próprio Movimento. A prisão de Cunhal em 1956 e as eleições fraudulentas de 1958, nas quais Humberto Delgado assumiu a oposição ao Estado Novo, foram outros dois momentos-chave na afirmação de Salazar como um temível ditador, cerceando por inteiro quaisquer aspirações libertárias. Será aqui, porventura, que encontraremos as bases de um ambiente de marcado desencanto e apatia que envolve toda a obra e contamina o próprio leitor.

Na linha dos seus primeiros trabalhos, “O Anjo Ancorado” é um exemplo acabado da genialidade de José Cardoso Pires enquanto escritor. Os ambientes realistas e o cariz vincadamente político do livro vêm na sequência dos seus primeiros trabalhos e traçam, por si só, um retrato detalhado de um Portugal amordaçado pela ditadura, fechado ao exterior e orgulhosamente só. João e Guida, as duas personagens principais do livro, não têm ilusões quanto ao seu futuro. Braços caídos, recordando momentos passados que tanto prometeram, eles são o espelho dessa geração das oportunidades perdidas (o cúmulo da inércia encontramo-lo em João quando, no abismo do mar, caça de forma inglória um esplêndido mero que se encontrava a dormir no abrigo das rochas). Vista no seu conjunto, a obra de Cardoso Pires tem aqui um dos seus mais marcantes exemplares. A ler, urgentemente.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

LIVRO: "O Hóspede de Job"



LIVRO: “O Hóspede de Job”,
de José Cardoso Pires
Ed. Herdeiros de José Cardoso Pires e Publicações Dom Quixote, 1963 (Ed. Editora Planeta DeAgostini para a presente edição, 2001)


“Já o velho que o acompanha não se queixa do mesmo. É tão seco, tão áspero, que não tem um pingo de gordura que o sol derreta. Suar não é com ele, cansaço ainda menos. Vem um tudo-nada dobrado? Embora. O que importa é o modo como traz a caçadeira: aperrada, sempre à mão. Mas não é tudo: à sombra do chapéu saltam uns olhinhos de conta que furam por baixo de toda a folha. Quando menos se espera, desencanta buracos de mocho, revolve camas de coelhos, ninhos de perdigoto, mil coisas que lhe lembrem comida. E nesta ansiedade nem os cágados se salvam. Agora mesmo leva ele um na algibeira, enrolado num lenço cheio de nós.”

Dedicado à memória de António Nuno Pires Neves, irmão de José Cardoso Pires, morto num acidente de aviação em cumprimento do serviço militar quando o Harvard T6 em que treinava se incendiou em pleno voo acabando por cair e explodir, “O Hóspede de Job” tem com ele a força das verdades que importa que sejam ditas. Trata-se de um livro que arrasta consigo uma urgência, a da denúncia das relações de poderio entre aqueles que tudo possuem e os que nada têm, sejam eles patrões e servos, governantes e governados, países ricos e países pobres. Assimetrias por demais evidentes num Portugal com os cofres exauridos pela Guerra Colonial e vergado ao poderio norte-americano no seio da Aliança Atlântica, a ditadura salazarista alinhada com a meia dúzia de “figurões” que detêm o monopólio económico, o pobre e explorado a desesperar por trabalho e por pão.

Assumindo o combate político por intermédio de uma escrita vincadamente realista, ao encontro dos fracos e desprotegidos e daqueles que os oprimem e humilham, José Cardoso Pires lega-nos, com este “O Hóspede de Job”, o retrato contundente de um Portugal provinciano, profundamente atrasado e retrógrado, marcado pela soberba de uns quantos face à pobreza dos demais. Nos grandes latifúndios alentejanos enxameados de “ratinhos” a ceifar de sol a sol por uma côdea, nas rondas da guarda que do alto dos seus cavalos impõem a sua prepotência, nos pides que perseguem, torturam e matam, nas crianças e nos velhos que, alheios ao perigo, recolhem o metal nas carreiras de tiro ou no cágado que segue na algibeira e que, à falta de melhor, será cozido e comido, é todo um breviário da submissão e da fome aquele que se oferece ao leitor.

Para além deste desassombro e desta coragem de confrontar o Estado Novo com os seus dislates e contradições, “O Hóspede de Job” oferece ao leitor uma espécie de jogo, ao encontro de elementos recorrentes na obra já publicada, tanto figurativos como de estilo. João Portela e o tio Aníbal parecem duas personagens saídas desse extraordinário conto inaugural que é “Os Caminheiros”. Podemos ver estes ambientes de conspiração e revolta em “O Render dos Heróis”. Corre-se atrás de um perdigoto em “O Anjo Ancorado”, como se corre aqui atrás de um coelho. E depois há toda uma série de recursos estilísticos, com particular ênfase no discurso directo e na linguagem terra-a-terra que nos são familiares. Uma vez mais, entre o povo oprimido, não há heróis. É assim “O Hóspede de Job”, um enorme livro, de um enorme escritor, testemunho de tempos e lugares que marcaram a nossa História. E continuam a marcar.

domingo, 8 de agosto de 2021

LIVRO: "O Burro-em-Pé"



LIVRO: “O Burro-em-Pé”,
de José Cardoso Pires
Ed. Herdeiros de José Cardoso Pires e Publicações Dom Quixote, 1979 (Ed. Editora Planeta DeAgostini para a presente edição, 2001)


“ - Jogo, quê? Mas alguma vez foi o jogo, o burro-em-pé? 
- Se serve para apostar é jogo. 
- Mas quais apostar, quais joão! Com que ver, com que moral é que você ia apostar num jogo de crianças?
- Aí é que está.
- Além de que nunca foi jogo, caraças. Burro-em-pé nunca foi jogo. 
- Nem burro. Burro-em-pé é palhaço. 
- Bem visto. (…)”

É com esta “conversa a várias vozes numa casa de pasto do Poço do Bispo”, que José Cardoso Pires começa a erguer este seu “O Burro-em-Pé”, conjunto de cinco contos escritos entre Janeiro de 1960 e Novembro de 1978. O diálogo, à guisa de apresentação, realça um dos pressupostos da colectânea, aproximando-a de “Jogos de Azar” pela sua forte componente social e política, mas afastando-se dele na abordagem, o sonho a comandar a vida, como se tudo não passasse de uma brincadeira de crianças que nem é jogo nem é nada. Destinado a colmatar uma prolongada ausência do mercado (“O Delfim”, último romance de José Cardoso Pires, datava já de 1968), “O Burro-em-Pé” chegou às livrarias nos inícios de 1979 numa edição luxuosa, com ilustrações de Júlio Pomar, sendo composto por três contos anteriormente publicados na imprensa (“Os Reis-Mandados”, “O Conto dos Chineses” e “Nós, Aqui por Entre o Fumo”), uma “noveleta” inédita (“Celeste & Làlinha: Por Cima de Toda a Folha”) e uma versão revista de “Dinossauro Excelentíssimo”, fábula publicada seis anos anos, “uma ideia infeliz” no meio dos outros contos, conforme referiu o crítico Alexandre Pinheiro Torres, que escreveu o prefácio à edição alemã.

Lê-se “O Burro-em-Pé” como uma espécie de continuação de “Jogos de Azar”, ainda que apenas no que aos três primeiros contos diga respeito. Estão lá os mesmos ambientes, as mesmas sombras, os cheiros da comida aquecida, o suor e as lágrimas de quem vive um amargo presente sem descortinar futuros que não seja em sonhos. No pequeno “João Janico, Perninhas de Lebre, Orelhas em Bico”, os pés em labareda dentro das suas botifarras enormes (“de bom cabedal, de macia capa de vaca, solas de pneu de automóvel e valentes costuras”), a oferecer-se para “voltas e recados” aos senhores ricos dos “estoris”, há todo um futuro carregado de promessas e ilusões que, sabemo-lo de antemão, não passarão disso mesmo. O mesmo se passa com “um certo tipógrafo” que tem a mania dos números - “2-X-2; 1-1-1; 1-2-X” - e que vai fazendo contas ao carro que comprará no dia em que a sorte cair para o seu lado. Ou do camponês que, após o encontro com dois chineses, “adormeceu a sonhar com passarinhos fritos, escorrendo sobre o pão”. Neles, o leitor reencontra a escrita directa e ácida de José Cardoso Pires nesse olhar desencantado e sem esperança sobre o Portugal salazarento e fascista.

Os restantes dois contos são uma história à parte. “Dinossauro Excelentíssimo” é aqui enxertado fora do contexto e sobre ele me debruçarei em particular, com uma recensão à primeira versão publicada em 1972. Finalmente, “Celeste & Làlinha: Por Cima de Toda a Folha” é um dos mais comoventes e bem escritos contos que me foram dados ler até hoje. Inédito destinado a completar “O Burro-em-Pé”, o conto é escrito no pós-25 de Abril e parte ao encontro desses pobres que nunca deixaram de o ser, retornados das antigas colónias portuguesas e abrigados em colmeias precárias de onde se avista lá ao longe, “num esplendor de luz e de nuvens sangrentas”, a cidade capital dos impérios. É preciosa a forma como, pelo olhar de uma criança, José Cardoso Pires nos faz um retrato desses tempos de tamanha raiva e amargura no “bater a asa, rumo ao velho ninho, Portugal”. O amor que une Celeste à sua boneca, “uma negrinha só ternura e ainda por cima indefesa porque tinha um braço estropiado” tem na desonestidade intelectual e na imoralidade do pensamento e comportamentos racistas e xenófobos um contraponto brutal. Quase meio século depois, este é um conto que se mantém actual e que diz muito do que fomos e somos.

sábado, 7 de agosto de 2021

LIVRO: "Jogos de Azar"



LIVRO: “Jogos de Azar”,
de José Cardoso Pires
Ed. Herdeiros de José Cardoso Pires e Publicações Dom Quixote, 1963
(Ed. Editora Planeta DeAgostini para a presente edição, 2001)


“Todos tinham agora os olhos levantados para o tecto, e assim eram uma fila de caras atiradas para o ar. Mas o besouro acachapara-se na lâmpada, em silêncio, derramando a sua sombra parda pelo compartimento. Assim, não passava de uma asa enorme a carregar as faces dos soldados, grande e quieta como se estivesse espetada nas baionetas armadas.”

Por breves instantes regresso a “Integrado Marginal” e ao seu último parágrafo onde se pode ler: “Espero que esta biografia honre a memória e a obra de José Cardoso Pires e que traga novos leitores para os seus livros.” Este será, seguramente, um dos grandes desígnios desta extraordinária biografia escrita por Bruno Vieira Amaral. Embrenhados na sua leitura, descobrindo as linhas com que se cose uma vida e uma obra, desde as primeiras páginas que sentimos essa vontade de tornar a Cardoso Pires, vontade essa que vai aumentando à medida que avançamos na leitura até se transformar numa urgência. O que li de José Cardoso Pires tem já uns largos anos em cima e importava regressar a ele. E assim, fechada a biografia sobre a sua última página, eis-me face a face com os volumes da colecção que a Planeta DeAgostini publicou em 2001, preparado para “atacar” este manancial de leitura. Para começar, a escolha pareceu-me óbvia. “Os Caminheiros e outros contos”, edição de autor publicada no segundo semestre de 1949, fora a primeira obra de Cardoso Pires e seria pelos “caminheiros” que iria começar.

Foi em 1963 que José Cardoso Pires decidiu pegar nos melhores contos dos seus dois primeiros livros, “Os Caminheiros e outros contos” e “Histórias de Amor”, revê-los amplamente e publicá-los. É assim que nasce “Jogos de Azar”, nove-contos-nove, o olhar atento do escritor sobre um mundo desigual e aqueles que nele vão sobrevivendo. Na carruagem da cauda do Oito-Correio partido da estação de Pinhal Novo ou na penumbra de uma sala onde uma luz ténue alumia a máquina de costura, no inferno de uma estrada a ser alcatroada ou num pequeno quarto de hotel barato, são as pessoas, com as suas misérias, os seus queixumes, os seus ressentimentos e as suas ilusões, o objecto da atenção de Cardoso Pires. É sobre elas que assenta o seu olhar clínico, descrevendo os gestos, imitando as falas, acompanhando os seus passos por caminhos desditosos, os tostões contados, a barriga a dar horas.

Importa dizer, porém, que “Jogos de Azar” é um livro desigual. Nele coabitam contos excepcionais (“Os Caminheiros”, “Estrada 43”, “Carta a Garcia” ou “Dom Quixote, as Velhas Viúvas e a Rapariga dos Fósforos”) com outros menos bons (“Ritual dos Pequenos Vampiros”, “Week-end”). Mas no que tem de bom, é realmente um prodígio. A sua matriz neo-realista fez com que servisse de contraponto aos livros publicados à época e que levou Gaspar Simões, “cujas recensões tinham o poder de destruir ou salvar um livro”, a escrever, “lançando, en passant, algumas farpas aos neo-realistas”: “Se alguma coisa faltava nos contos e romances do neo-realismo era, precisamente, realidade.” Na prosa directa, Cardoso Pires revela que pegar numa picareta, vogar no alto mar, entrar na cozinha de um aldeão ou dormir num vão de escada não são novidade para si. É daí que vem tanta realidade, essa mesma realidade que, nua e crua, salta de personagens como o cego, o “ratinho” ou a prostituta, para se vir agarrar à pele do leitor, ele também parte da história, “uma lua fria e um disco a servir de fundo, um Blue, um samba, qualquer dessas melodias a compasso que são o sonho das costureirinhas das caves.”

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

LIVRO: "Integrado Marginal - Biografia de José Cardoso Pires"



LIVRO: “Integrado Marginal - Biografia de José Cardoso Pires”,
de Bruno Vieira Amaral
Edição | Rui Couceiro
Ed. Contraponto Editores, Junho de 2021


“[…] nunca cultivei qualquer espírito de grupo. Quando muito, talvez nunca tenha passado em toda a minha vida de um integrado marginal ou coisa que se pareça… Para aí, sim: integrado e marginal […]”

Da colecção “Biografias de Grandes Figuras da Cultura Portuguesa Contemporânea”, com a chancela da Contraponto Editores, chega-me às mãos “Integrado Marginal”, retrato minucioso do escritor José Cardoso Pires, figura relevante das letras no Portugal do século passado. Escrito por Bruno Vieira Amaral, a biografia acompanha a vida e obra do escritor nascido em S. João do Peso, no concelho de Vila de Rei, a 02 de Outubro de 1925 e falecido em Lisboa, em 26 de Outubro de 1998, aos 73 anos. Ao longo de quase 600 páginas, o autor dá-nos conta do contexto familiar e da propensão de Cardoso Pires para as letras, dos primeiros escritos e da relação com o movimento neorrealista, das influências e evolução da sua obra, das preocupações sociais e políticas num Portugal tolhido pela repressão e ditadura salazaristas, da luta pela liberdade e pela democracia e da sua acção no pós-25 de Abril.

“Rebelde sem causa” nos tempos da adolescência e juventude, José Cardoso Pires notabilizou-se pelo seu lado brigão e por arrumar os assuntos “à cabeçada”, habilidade que haveria de aplicar vezes sem conta pela vida fora. Dos excessos com o tabaco e com a bebida, às noitadas nos bares e cabarés da capital, fica a ideia de uma personalidade libertina, boémia e impulsiva, mas fortemente ancorada nos valores da amizade e da cumplicidade. Os ambientes mais rasteiros e as figuras de carne e osso que neles se movimentam e sobrevivem acabaram por passar para as páginas dos seus livros, numa escrita depurada e contundente onde, sobretudo, importava aquilo que era dado a ver. Quem não gostava do que via e tinha o poder de cortar a direito era a censura que sobre o escritor exerceu uma constante vigilância, proibindo muitos dos seus escritos e apreendendo algumas das suas obras.

É nestes ambientes agitados, dignos do mais empolgante policial, que Bruno Vieira Amaral mergulha. Terá pela frente três anos de trabalho árduo, com alguns revezes de permeio, mas o resultado é francamente compensador. Ele, que sempre afirmou querer escrever “uma grande biografia”, tem aqui a prova de uma aposta ganha. “Integrado Marginal” é um livro genial, por aquilo que conta, mas, acima de tudo, pela forma como conta. Que Bruno Vieira Amaral é um artífice da palavra, sabemo-lo bem desde, pelo menos, “As Primeiras Coisas” ou esse marcante “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”. Aqui, ele coloca todo o seu engenho e arte na maneira de dar a ver toda uma vida, tomando o leitor pela mão e mostrando-lhe os tempos e os modos de uma personalidade recheada de cambiantes como se de um filme se tratasse. Aliás, faz todo o sentido fazer esta colagem ao Cinema, porquanto a construção do livro reflecte um exercício de montagem criterioso, tanto naquilo que o seu autor decidiu aproveitar ou rejeitar, como na forma como hábitos, comportamentos, relações pessoais e casos de vida se entrelaçam com rigor, espontaneidade e fluidez.

Ainda dois aspectos que importa valorizar nesta biografia. Por um lado, o facto de não encontrarmos no livro, pelo menos declaradamente, qualquer traço de ficção. Bruno Vieira Amaral soube resistir estoicamente àquilo que terá sido uma enorme tentação e tudo o que nos é dado a ler é factual e resulta de milhares de horas de pesquisa exaustiva e das muitas conversas que manteve com figuras directa ou indirectamente implicadas na história de Cardoso Pires, nomeadamente a sua mulher, Edite, e as suas duas filhas, Ana e Rita. Por outro lado, “Integrado Marginal” fornece um conjunto de ferramentas essenciais para uma melhor leitura e compreensão da obra de José Cardoso Pires, fazendo de nós leitores mais capazes. É inegável que quanto mais soubermos do autor, das circunstancias em que o livro A ou o livro B foram escritos, mais facilmente encontraremos a chave que abre as portas desta ou daquela passagem. Se esta biografia outro mérito não tivesse, teria este, seguramente. Será com um renovado e mais apurado olhar que, de ora em diante, nos debruçaremos sobre a obra do escritor.

Não queria concluir esta recensão sem falar de Rui Couceiro e da Contraponto Editores, louvando a sua aposta num conjunto de jovens autores portugueses para biografar alguns dos vultos recentes da cultura portuguesa. Num País onde falar em hábitos de leitura é quase uma anedota, é notável que alguém esteja disposto a correr o risco de um investimento tão sério, sabendo que o retorno dificilmente compensará os custos. Mas é graças a estas “loucuras” que os leitores podem deliciar-se com obras primorosas como são “O Poço e a Estrada”, da autoria de Isabel Rio Novo, e “A Morte Não É Prioritária”, escrito por Paulo José Miranda, e que espelham a vida e a obra de Agustina Bessa-Luís e de Manoel de Oliveira, respectivamente. Chegou agora a vez de José Cardoso Pires com este fascinante “Integrado Marginal”, a afirmação de Bruno Vieira Amaral como um enorme biografo e uma obra marcante a todos os títulos, destinada a fazer história no panorama literário do nosso País.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

LIVRO: "De Profundis, Valsa Lenta"



LIVRO: “De Profundis, Valsa Lenta”,
de José Cardoso Pires
Ed. Herdeiros de José Cardoso Pires e Publicações Dom Quixote, 1997 (Ed. Editora Planeta DeAgostini para a presente edição, 2001)


“Paredes mansas, as tais paredes em alvura-pérola; por entre elas, os sons, as figuras e o tempo, tudo num deslizar suave, sem densidade. Eu, em pessoa de coisíssima nenhuma, cumpria as tardes de hospital num vaguear inocente. Mesmo assim, aconteceu saltar-me ao caminho o meu nome. Saltou-me poucas vezes é certo, três ou quatro se tanto mas era um nome que andava a monte repetido e desfigurado nos ficheiros da terapia da fala. Um nome a acenar-me a acenar-me José José José numa espécie de provocação à distância José que nome tão feio considerava eu.”

Quinta-feira, 12 de Janeiro de 1995. José Cardoso Pires senta-se à mesa do pequeno-almoço, “em roupão e de cigarro apagado nos dedos”. Embora calmo, traz consigo uma palidez de cera. Pensa que terá dado os bons dias. Lembra-se da manhã cinzenta, de escutar as pessoas a falar não sabe de quê, de percorrer com o olhar a sala, “o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda.” Parou na chávena de chá e ficou. Que se sentia mal, nunca se tinha sentido assim, murmurou numa fria tranquilidade. Naquele momento preciso estava em curso um ataque, aquilo a que a ciência chama um Acidente Vascular Cerebral e que o povo, genericamente, designa como uma “trombose”. Um transtorno do cérebro de consequências imprevisíveis. De repente, um pequenino coágulo de sangue alojava-se no cérebro do escritor, roubando-lhe as suas relações com o mundo e consigo próprio.

Pegando nesta experiência de vida marcante, José Cardoso Pires escreve, dois anos depois, “De Profundis, Valsa Lenta”. Um livro exemplar a todos os títulos, desde logo pela sua singularidade, visto ser escassa a produção literária sobre esta matéria. A explicação é simples, como refere o Professor João Lobo Antunes, na “Carta a Um Amigo Novo” que abre este livro, em jeito de prefácio: “É que [a doença vascular cerebral] seca a fonte de onde brota o pensamento ou perturba o rio por onde ele se escoa, e assim é difícil, se não impossível, explicar aos outros como se dissolve a memória, se suspende a fala, se embota a sensibilidade, se contém o gesto.” Concomitantemente, temos o génio de José Cardoso Pires, a exemplaridade da sua escrita, a linguagem expressiva e as metáforas de que se socorre nesta espécie de provocação à memória, nesta finta à insensibilidade, à apatia, à ausência de afectos. Nesta busca de lhes dar forma, cor, temperatura, de vestir de emoções aquilo que designou por “morte branca”, o vaguear ausente numa espécie de galeria sem história, um limbo sem tempo, sem rostos, sem identidade. Anónimo de si.

Resistir à tentação literária de fugir para a fantasia e escrever com grande reserva, com um enorme pudor, eis outro dos grandes méritos de José Cardoso Pires neste seu livro. Com distanciamento introspectivo e uma linguagem capaz de descrever o indefinível, o autor oferece-nos a “memória de uma desmemória”, testemunho único de clareza e lucidez feito, que espanta e comove. Testemunho que é também uma prova de humildade de quem pressente o quanto a sorte tem uma palavra a dizer nestes enormes imbróglios, mas que ainda assim se sente no dever de fazer desta crónica “um desabafo de gratidão pela competência e pela solidariedade que me foi prestada no meu internamento hospitalar.” Santo Agostinho diz-nos que “por mais que o homem se mova, corre sempre sobre a imagem de si próprio.” É tão bom ver José Cardoso Pires voltar a correr sobre a sua imagem, a contar, como só ele sabe, os passos de uma corrida que, ironicamente, tem os passos contados.