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sábado, 8 de agosto de 2026

LIVRO: "A Península das Casas Vazias" | David Uclés



LIVRO: “A Península das Casas Vazias”,
de David Uclés
Título original | “La península de las casas vacías”, © 2024, David Uclés
Tradução | J. Teixeira de Aguilar
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Março de 2026 (2.ª edição, Maio de 2026)


“A caminhada foi longa e fastidiosa, como acontecia com as procissões noturnas. Embora o cortejo terminasse no campo-santo, o costume era poisar antes disso o ataúde na igreja, onde o padre celebrava uma missa corpore insepulto, mas como o templo tinha sido destruído pelas chamas na noite anterior, e estando a igreja pequena a abarrotar com os santos e o material litúrgico que se tinham conseguido salvar de entre as ruínas da igreja maior, decidiram ir diretamente para o cemitério. Parara a meio do caminho, num terreno que pertencia à Igreja, uma eira povoada de figueiras selvagens, e ali improvisou Don Robustiano um breve ofício à luz dos círios que os familiares levavam. Eram tantos os brandões, e tão juntos entre si, que os corpos, de respirar o ar cálido daquelas pequenas chamas, começaram a suar cera.”

É uma felicidade podermos abraçar um livro e ver como é capaz de tocar todas as cordas da nossa essência, ao mesmo tempo que se revela, mais do que uma história, um espelho, um refúgio e um sinal que, do alto, nos acompanha e nos guia. “A Península das Casas Vazias” pertence a esta casta rara de livros. Tomando como pano de fundo a Guerra Civil de Espanha, o romance é uma reflexão sobre a persistência invisível da guerra muito para além do calar das armas. David Uclés escolhe uma família de camponeses andaluzes como se escolhesse um grão de areia para falar do deserto inteiro: na lenta desagregação dos Ardolento espelha-se a fragmentação de uma Península que nunca mais voltará a reconhecer-se plenamente. Os grandes episódios da guerra cruzam-se com figuras históricas, escritores, militares e artistas, sem que David Uclés perca de vista o modo como a violência modifica o destino dos homens e transforma as casas em ruínas antes mesmo de ver derrubadas as suas paredes. O título revela-se, por isso, de uma admirável justeza simbólica. As casas vazias não o são apenas porque perderam os seus habitantes; são também aquelas onde a palavra deixou de o ser, onde a memória se viu substituída pelo medo e onde o esquecimento se tornou numa outra forma de morte.

“A Península das Casas Vazias” nasce desse intervalo entre a memória e o silêncio. A história da família Ardolento, perdida entre os olivais de Jándula - lugar imaginário que, por isso mesmo, é uma representação de todos os lugares -, é apenas a superfície visível de um movimento muito mais profundo: o da lenta desagregação de uma comunidade que descobre, demasiado tarde, que uma guerra civil nunca divide apenas dois exércitos. Divide uma língua, uma leira, um cortiço, uma infância, uma amizade, uma forma de habitar o mundo. Não se trata aqui de reconstituir o passado ou de o julgar, já que o passado não deixa de se fazer presente. É vê-lo inscrito nas casas abandonadas, nas palavras que deixaram de ser pronunciadas, nos gestos herdados sem que perceba a sua origem. A Península que David Uclés percorre é mais do que um território: é uma consciência fragmentada em permanente busca de reconciliação consigo própria, certa de que a História não se faz apenas de datas e batalhas, mas sobretudo de ausências, juntando vencedores e vencidos num mesmo cadinho que uma tragédia maior se encarregou de amalgamar.

O realismo mágico surge aqui mais como necessidade ontológica do que como filiação literária. Há acontecimentos que o realismo, sozinho, não seria capaz de nomear. Quando a História atinge uma intensidade extrema, a realidade parece deslocar-se para uma zona onde o impossível deixa de constituir excepção. Assim, homens que permanecem décadas suspensos num instante, gravidezes que duram toda uma guerra, lágrimas que possuem a cor da emoção ou vulcões que rasgam a Península, deixam de ser imagens fantásticas para se tornarem metáforas de uma verdade mais funda. O maravilhoso e o fantástico não corrigem a História; revelam antes aquilo que nela permanece invisível. A imaginação converte-se, paradoxalmente, na forma mais rigorosa de fidelidade ao real. Aquilo que destrói uma comunidade não é apenas a violência dos factos, mas também a incapacidade da linguagem para os conter. Aquilo que David Uclés faz não é inventar um mundo alternativo, antes mostrar-nos que o mundo conhecido é ainda mais estranho do que supúnhamos.

Mas aquilo que verdadeiramente distingue este romance tem a ver com a forma como o narrador escolhe posicionar-se. Há muito que a literatura contemporânea desconfia da figura de uma voz omnisciente. David Uclés recupera-a para a transformar noutra coisa. O narrador sabe que conta uma história, sabe que a constrói, sabe que interfere no destino das personagens e, mais surpreendente ainda, permite que elas o saibam também. Não se trata de um simples jogo metaliterário. Ao entrar na narrativa, não reivindica autoridade; aceita a fragilidade de quem sabe que nenhuma versão da História é definitiva. Também por isso, o romance deixa de ser apenas uma narrativa sobre a Guerra Civil de Espanha para se converter numa reflexão sobre a condição peninsular. David Uclés parece compreendê-lo quando substitui discretamente a ideia de Espanha pela de Península, como se procurasse um espaço anterior às fronteiras políticas e mais próximo de uma memória partilhada. As casas vazias deixam de ser apenas as casas destruídas pela guerra. São as moradas interiores que abandonamos sempre que a História prefere o esquecimento à compreensão, a identidade ao encontro, a certeza à dúvida. Porque nenhuma civilização sucumbe apenas quando desaparecem os seus vivos. Ela começa a desaparecer no momento em que decide ignorar as perguntas que os mortos não cessam de lhe dirigir.

sábado, 16 de maio de 2026

LIVRO: "Os Cus de Judas" | António Lobo Antunes



LIVRO: “Os Cus de Judas”,
de António Lobo Antunes
Edição | Maria da Piedade Ferreira
Ed. Publicações Dom Quixote, 1979 (45.ª edição, Fevereiro de 2026)


“Estamos em 71, no Chiume, e a minha filha acaba de nascer. Acaba de nascer e a essa hora as senhoras do Movimento Nacional Feminino devem estar pensando em nós sob os capacetes marcianos dos secadores dos cabeleireiros, os patriotas da união Nacional pensam em nós comprando roupa interior preta, transparente, para as secretárias, a Mocidade Portuguesa pensa em nós preparando carinhosamente heróis que nos substituam, os homens de negócios pensam em nós fabricando material de guerra a preço módico, o Governo pensa em nós, mal agradecidos, alvos de tanto amor, saímos do arame em que apodrecemos para morrer por perversidade de mina ou emboscada, ou deixamos negligentemente filhos sem pais a quem ensinam a apontar com o dedo o nosso retrato ao lado da televisão, em salas de estar onde tão-pouco estivemos.”

Publicado em 1979, “Os Cús de Judas” permanece como uma das mais violentas e belas descidas aos infernos da nossa memória colectiva. Tudo começa num bar lisboeta, durante uma noite de álcool e insónia, ao longo da qual um homem fala sem descanso a uma desconhecida. O que poderia parecer um jogo de sedução transforma-se numa confissão febril, num longo monólogo em que a guerra colonial emerge como uma doença incurável alojada no corpo e na fala. Médico militar em Angola, o narrador regressa vivo ao seu país, mas deixa na selva africana a possibilidade de voltar inteiro. Entre copos sucessivos, é tempo de revisitar uma infância sufocada pela moral salazarista, a educação católica, a tradição militar da família, o casamento falhado, a distância da filha recém-nascida, os mortos anónimos da guerra e os fantasmas de um império apodrecido, que insistiu em sobreviver à custa da juventude enviada para morrer longe de casa. Simultaneamente inferno e revelação, Angola é aqui território de mutilação, de febre, de minas e cadáveres abandonados, mas também espaço de uma vitalidade quase mítica, sensual e telúrica, que contrasta brutalmente com a Lisboa cinzenta, imóvel e decadente para onde regressa.

A grandeza do romance reside por inteiro na linguagem de António Lobo Antunes, essa torrente verbal hipnótica que parece escrita à beira do colapso. Desde a primeira frase, o leitor é arrastado por períodos longos, sinuosos, excessivos, cheios de imagens improváveis e metáforas ferozes, como se a sintaxe tradicional já não bastasse para conter a violência da experiência narrada. Há qualquer coisa de Faulkner, de Céline ou de Conrad naquela escrita convulsa, mas a voz do autor permanece absolutamente singular: barroca sem ornamentos gratuitos, poética sem perder a brutalidade concreta das coisas. António Lobo Antunes fala como quem sangra. Cada memória regressa deformada pelo álcool, pela culpa e pela exaustão moral, compondo um fluxo de consciência onde passado e presente se confundem incessantemente. Lisboa invade Angola; Angola contamina Lisboa. Um gesto amoroso mostra-se capaz de convocar uma criança esfomeada suspensa no arame farpado; o corpo de uma mulher mistura-se com o cheiro da decomposição e do medo. O resultado é uma escrita visceral, saturada de ruídos, cheiros, febres, suor, ferrugem e carne, a beleza nascida, paradoxalmente, do contacto directo com o horror.

Mais do que narrar a guerra, o que António Lobo Antunes faz é reproduzir por palavras a desordem interior de quem a viveu. O romance avança assim por espirais, regressos obsessivos, associações delirantes, como se o narrador procurasse desesperadamente impor alguma ordem no caos das suas memórias e ser capaz de transformar a fragmentação psicológica numa narrativa emocionalmente coerente. “Os Cus de Judas” não procura reconstruir os acontecimentos da guerra segundo uma lógica histórica; prefere mergulhar na consciência fragmentada de um homem destruído, transformando a memória num labirinto de imagens, vozes e associações. O narrador não se apresenta como vítima pura nem como consciência iluminada. Pelo contrário, expõe sem piedade a sua cobardia, o seu cinismo, a sua impotência, a degradação afectiva e moral em que caiu. O romance transforma-se, assim, numa reflexão amarga sobre identidade, culpa e desenraizamento, mostrando como a guerra prolonga os seus efeitos muito para além do campo de batalha.

Direi, enfim, que são raros os livros portugueses que conseguem unir de forma tão lúcida a violência histórica e a invenção poética, a denúncia política e a vertigem íntima. “Os Cus de Judas” não é de leitura fácil, nem poderia sê-lo. Exige disponibilidade, concentração, entrega total à musicalidade irregular das frases, aos movimentos imprevisíveis da memória. Há momentos em que o leitor sente estar a atravessar um pesadelo febril, cercado por espectros, vozes e cadáveres que teimam em insinuar-se. O autor obriga-nos a olhar para aquilo que Portugal persiste em querer esquecer, do trauma da guerra colonial ao colapso moral do império, da violência subterrânea da ditadura ao abandono daqueles que regressaram mutilados, física ou mentalmente. E, ao fazê-lo, transforma a experiência individual de um homem arruinado numa meditação universal sobre a solidão, o medo e a fragilidade humana. No final, fica a sensação de se ter escutado um homem à deriva agarrado ao balcão de um bar como a um destroço no meio do mar, tentando salvar-se pela palavra. Um náufrago gritando na escuridão, enquanto a literatura, única forma possível de resistência, tenta ainda arrancar alguma beleza aos escombros. Obra-prima!

sábado, 9 de maio de 2026

LIVRO: “Entra-se na casa pelo pátio” | Carla Louro



LIVRO: “Entra-se na casa pelo pátio”,
de Carla Louro
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Março de 2026


“hoje o caminho tinha um cheiro que não era dele
mas da minha infância
era um cheiro a pão misturado com cheiro a chão
e não era nenhum deles
escrevi-o
como se os cheiros se escrevessem
como se escreve uma recordação
que por instantes nos coloca de novo
no princípio da nossa vida”

“Entra-se na casa pelo pátio” é um livro que convoca o espaço da casa, abrindo-lhe portas e janelas como quem abre um verso - e um verso que se percorre como uma casa. A ideia não é simples metáfora, mas uma arquitectura íntima onde cada divisão corresponde a um gesto de linguagem, e cada objecto guarda a memória de um corpo que o tocou. “Entra-se na casa pelo pátio / como no verso”, escreve Carla Louro, nessa equivalência ancorando toda a sua poética. Mais do que cenário, o espaço doméstico é aqui matéria activa da escrita. A cozinha, sobretudo, surge como o centro gravitacional desse universo, lugar onde o tempo se mede em fervuras e esperas, onde o “cheiro a torradas” ou o “refogado com cebola alho e tomate” instauram uma gramática sensorial que antecede a palavra. A casa respira - e ao respirar, dita. Há uma disciplina silenciosa nos gestos de arrumar, de limpar o pó que “está limpo e limpa-se outra vez”, como se a repetição fosse uma forma de permanência e a permanência uma tentativa de compreender a vida. Longe de ser banal, o quotidiano transforma-se no lugar onde o poema germina, discreto, quase invisível, como um soalho que treme e que, nesse abalo, anuncia o início do ciclo de centrifugação da máquina de lavar roupa.

A casa não existe sem as linhas que a cosem, e é aí que o poema se revela enquanto ofício. A herança do avô alfaiate prolonga-se num labor paciente: “alinhavo as palavras nas folhas / como se fossem poemas”. Escrever é coser, desmanchar, voltar a coser - “nos medos / faço alinhavos mais largos / e deixo a ponta da linha sem nó / para poder puxar por ela e desmanchá-los a todos”. Há, neste gesto, uma recusa da fixidez e uma aceitação do erro como parte do processo criativo. O poema não nasce inteiro: constrói-se ponto a ponto, como uma peça de roupa que precisa de corpo para existir. E, tal como na costura, há um saber táctil, uma inteligência das mãos que antecede a consciência plena do que se faz. “Procuro o peso certo das palavras”, e essa procura é quase física, exige medir o ar, a voz, o silêncio que envolve cada sílaba. A linguagem tem densidade, tem temperatura, tem som; e só quando encontra o seu equilíbrio pode pousar na folha. Assim, o poema é expressão, mas é também matéria trabalhada, objecto que se afina até caber no mundo.

Entre a casa e o poema, há ainda o fio invisível das relações da escritora, sobretudo com a filha, cuja presença reconfigura ambos os espaços. É ela quem pergunta “de que cor são os novelos”, transformando a vida em interrogação e o poema em resposta provisória. A infância introduz um olhar inaugural, capaz de ver pedras “em forma de televisão” ou de dizer que o azeite “é que liga tudo”, revelando, com desarmante clareza, a essência da criação. Há sempre um elemento que une, que dá coesão ao disperso. Nesse sentido, a casa torna-se também lugar de transmissão, onde se aprendem, não só gestos, mas modos de ver. E o poema, por sua vez, torna-se herança em construção, algo que se carrega “na mochila”, mesmo quando pesa. Os diálogos preenchem-se de ternura, ganham consciência de que escrever é também cuidar, como quem faz uma canja para uma garganta dorida, ou diz palavras “com o cheiro da roupa passada”. Terna e delicadamente, “Entra-se na casa pelo pátio” oferece a ideia de que habitar e escrever são actos indissociáveis, ambos feitos de paciência, de atenção e de uma delicada insistência em dar forma ao que, de outro modo, se perderia. É de mansinho que o faz, envolvendo o leitor num abraço e convidando-o a entrar nesta que é, também, a sua casa.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

LIVRO: "Orquestra" | Miqui Otero



LIVRO: “Orquestra”,
de Miqui Otero
Título original | “Orquesta” (© 2024, Miqui Otero)
Tradução | J. Teixeira de Aguilar
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2026


“Con dinero y sin dinero, hago siempre lo que quiero. Olha para o neto e vê-se no passado, o neto olha para ele e não se vê no futuro. Por isso o pequeno está só alegre e ele está alegre e triste. E raivoso, porque poderia aparecer o Ambipur, o cabrão que anda sempre as deslocar os marcos de pedra para cultivar um pedaço que não é dele. O que o Quasegiro não sabe é que neste preciso instante o Ambipur aproveita o facto de ele não estar para carregar uma a uma todas as garrafas de tutano e cortar todos os cabos do quadro elétrico da garagem que ele deixou aberta. O Quase giro não sabe, não, mas olha para o ato e sente pena e alívio porque ele não tem problemas como o seu, que hoje poderia acabar à pancada com um vizinho em plena Festa. Mas oferece outra rodada. E, quando a acaba, vai até ao centro do prado e, sem pedir licença ao neto, que faz uma coreografia em círculo com os seus amigos, agarra-o pela cintura, levanta-o e dá-he um abraço e um beijo com cheiro a genebra.”

“Orquestra”, de Miqui Otero, funda-se numa ambição rara na narrativa contemporânea: a de capturar, num só gesto, o pulso íntimo de uma pequena comunidade, fazendo dela espelho do mundo inteiro. Longe de ser um mero artifício, a escolha de uma voz narradora difusa - essa “música” que atravessa corpos, tempos e consciências - assume-se como dispositivo central de um romance que pretende dissolver fronteiras entre o sujeito e o colectivo, a memória e o presente. Mais do que geográfico, o lugar de Valdeplata, fulcro da acção, é apresentado como espaço simbólico onde a ressaca de uma noite de festa expõe a vasta trama de vestígios físicos e emocionais que cruzam espaços e gentes. Miqui Otero ergue, assim, uma espécie de fresco social que recusa facilitismos, preferindo antes uma tessitura densa de afectos, segredos e tensões. Do Conde agonizante ao camionista Ventura, é de ecos de uma tradição oral reinventada que a trama se constrói, cada personagem transportando consigo uma narrativa própria, inevitavelmente contaminada pelas demais.

O que faz de “Orquestra” um objecto único não é apenas a multiplicidade das suas vozes, mas a forma como estas se entrelaçam sob a égide de uma sensibilidade musical que organiza o caos aparente. A metáfora do tempo como um lenço amarfanhado, no qual coexistem infância, idade adulta e velhice, traduz bem a lógica interna do romance: uma recusa da linearidade em favor de uma simultaneidade emocional. O autor demonstra uma particular destreza na articulação de episódios que, podendo resvalar para o fragmentário, acabam por compor uma unidade orgânica, ainda que por vezes desigual. Se, por um lado, a profusão de personagens enriquece o retrato colectivo, por outro, gera momentos de dispersão que se transformam num verdadeiro desafio à atenção do leitor. Ainda assim, é precisamente nesse excesso de histórias, nesse caos de referências musicais e de camadas temporais, que reside a força do livro, evocando uma memória partilhada que ultrapassa o espaço ficcional e convoca experiências reconhecíveis no tecido social.

Há, finalmente, uma dimensão profundamente nostálgica que atravessa o romance, sem cair nunca numa idealização ingénua do passado. A festa popular, com os seus cheiros, refrões e rituais, as suas barracas de comes e bebes, o seu palco precário onde toca a Orquestra, surge como campo privilegiado de revelação: é ali, sob a aparência de comunhão, que se expõem fracturas, desejos reprimidos e fantasmas comuns. Simultaneamente narradora e personagem, a “música” funciona como fio condutor dessa revelação, lembrando que a identidade individual é sempre permeável ao outro. “Orquestra” é, nesse sentido, uma celebração e um lamento, um gesto de pertença e de perda. Miqui Otero afirma-se como um autor capaz de transformar o quotidiano em matéria literária de uma grande intensidade e emoção, embora se deva reconhecer que nem sempre consegue domar plenamente a força e amplitude do seu projecto. O resultado é uma obra que peca por irregular, mas, a espaços, vibrante e que perdura no íntimo do leitor muito depois de virada a última página.

sábado, 4 de abril de 2026

LIVRO: "A Educação Física" | Rosario Villajos



LIVRO: “A Educação Física”,
de Rosario Villajos
Texto original | “La educación física”, © Rosario Villajos, 2023
Tradução | Rui Elias
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Janeiro de 2026


“Ao virar-se para o espelho, Catalina viu um rapaz. Um rapaz bonito. Um com quem talvez gostasse de sair e a quem deixaria deitar as cinzas do cigarro na bebida, porque algumas raparigas da escola dizem que isso é afrodisíaco, e ela gostaria de experimentar na pele o que é ter líbido. Olhou-o bem, tentando penetrar naqueles olhos através do seu reflexo, e apercebeu-se de que era um rapaz sem qualquer desejo sexual. Um que não cheirava mal dos pés nem escondia a Playboy debaixo da cama.”

Há romances que se leem como quem atravessa uma cálida tarde de Outono; e há outros, como “A Educação Física”, de Rosario Villajos, que se instalam no íntimo do leitor como um corpo estranho, insistente, doloroso, recusando à leitura o seu carácter apaziguador, quase terapêutico. Situada na indistinta periferia de uma qualquer cidade espanhola dos anos noventa, a narrativa condensa-se nas poucas horas de um trajecto à boleia, mas dilata-se na espessura interior de uma adolescência sitiada. Aos dezasseis anos, Catalina não sente as horas e os minutos apenas com a pressa de quem precisa urgentemente de chegar a casa. Nas suas memórias e na sua presença, é de vigilância, de medo e de culpa o lugar que atravessa, o tempo medido por um toque de recolher e o espaço pelo risco constante de existir num corpo feminino. Simultaneamente crua e lírica, a escrita constrói-se neste ambiente de suspensão, como se cada gesto pudesse precipitar uma queda. E, com precisão cirúrgica, convoca o rumor social de uma época marcada por silêncios cúmplices e pânicos colectivos.

O que torna esta obra particularmente incisiva não é apenas o retrato geracional, mas a forma como o corpo emerge, campo de muitas batalhas e território pronto a ser invadido. Nesta viagem ao coração da adolescência, ler “A Educação Física” é reconhecer a engrenagem de um sistema que transforma o corpo da mulher num perigo a conter, num problema a corrigir, num erro a justificar. Catalina não habita o seu corpo: arrasta-o, como se lhe tivesse sido imposto, alvo de indecifráveis expectativas, violências alheias e olhares que dele se apropriam. A família, a escola, a rua, enfim, as mais diversas instâncias, participam dessa expropriação subtil e brutal, na qual o desejo masculino se impõe e se esbate a subjectividade feminina. Sem ornamentos nem eufemismos, Rosario Villajos expõe a pedagogia informal do medo: a menstruação como tabu, o sexo como ameaça, a liberdade como imprudência. E, no entanto, é nessa mesma asfixia que a narrativa encontra a sua força crítica, revelando como a culpa se infiltra de forma persistente e se instala como mecanismo de controlo e repressão.

Há, contudo, uma dimensão mais funda, quase elegíaca, que atravessa o romance e que se condensa na consciência de uma perda, não apenas da inocência, mas de uma possibilidade de habitar o mundo sem medo. Rosario Villajos escreve com uma lucidez que recusa a nostalgia fácil, preferindo antes raspar com as unhas as fissuras de uma educação sentimental feita de interditos e equívocos. Neste apontar de dedo à família, à escola e à sociedade, o resultado é um texto incómodo, por vezes sufocante, mas necessário, que ecoa para além da sua época e interpela o presente com rara nitidez. No limite, Catalina não é apenas uma adolescente dos anos noventa. É uma figura recorrente, quase arquetípica, que persiste enquanto o corpo feminino continuar a ser disputado, interpretado e disciplinado por vozes que não são as suas. Na recusa em oferecer uma redenção fácil, obrigando-nos antes a permanecer, vigilantes, dentro dessa inquietação, encontra “A Educação Física” o seu lado mais cru e duro, mas também o mais belo e urgente.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

LIVRO: "Coração Sem Medo" | Itamar Vieira Júnior



LIVRO: “Coração Sem Medo”,
de Itamar Vieira Junior
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Janeiro de 2026


“Esses breves encontros renovavam seu ânimo para as batalhas cotidianas: trabalhar para ganhar o necessário para a vida, guiar seus filhos por bons caminhos, manter alguma integridade diante da desesperança. Acreditar num mundo mais justo, que talvez não desponte pleno nesta geração ou na seguinte, mas que algum dia desabrochará, assim como tudo o que é semeado. Um mundo que não se pareça com o sonho dos alienados, mas que possa mais unir do que dividir.”

Copiosa, repentina, a chuva cai sobre a cidade, apanhando desprevenidas as muitas pessoas que, àquela hora, se dirigem para o trabalho. Entre elas vamos encontrar Rita Preta, operadora de caixa de um supermercado, dividida entre a necessidade de enfrentar a intempérie rumo ao emprego e a vontade de regressar a casa. Enquanto espera que a chuva abrande, os olhos acompanham a força da correnteza que forma autênticos rios à sua frente. O fluxo torna-se então o rio da sua infância, local de brincadeiras, mas também de tragédia. Ali começam a formar-se os lugares de Água Negra, Caxangá, Chapada Velha ou Paraguaçu e as figuras do velho Zeca Chapéu Grande, de Donana e Carmelita, das irmãs Bibiana e Belonísia, de Luzia e Moisés. É “Torto Arado” e “Salvar o Fogo” que se insinuam, os dois primeiros volumes da “Trilogia da Terra” que agora se fecha com este “Coração Sem Medo”, obra do multipremiado escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior. Com habilidade rara, o autor tece neste seu livro uma forte ligação entre passado e presente, ao mesmo tempo que “pensará nos que ficaram pelo caminho, nos que sofreram para viver dia após dia, nos que cantaram e dançaram para afastar o destino, nos que se ergueram para defender o considerado justo.”

Em “Coração Sem Medo”, Itamar Vieira Junior desloca a terra para o asfalto e, nesse gesto, amplia o mapa afectivo e político da sua já incontornável obra literária. Se em “Torto Arado” o chão era rasgado por enxadas, aqui ele pulsa nos pavimentos escaldantes da cidade de Salvador, onde, como em tantas outras cidades do Brasil, a periferia é território de luta e vertigem. A estranheza inicial - ver um Itamar “urbano” – converte-se muito rapidamente em assombro fértil: o autor mantém intacta a subtileza e elegância da sua linguagem, mas faz com que ela reverbere por entre autocarros sobrelotados, corredores de supermercado, esquadras de polícia, hospitais, necrotérios ou becos esconsos, perdidos numa noite eterna. É num cenário de caos que a figura de Rita Preta emerge como força motriz de um romance que funciona quase como um thriller social, não pelo suspense artificioso, mas pelo medo estrutural que se infiltra como personagem. O desaparecimento de Cid, o filho mais velho de Rita Preta, não inaugura apenas uma busca desesperada; escancara um país onde as suspeitas antecedem os factos e a culpa tem menos a ver com os actos e mais com a cor da pele. A cada novo desenvolvimento, percebemos o quanto a engrenagem racista normaliza este e outros crimes e faz das muitas ausências um ruído ensurdecedor.

Rita Preta, caixa de supermercado, mãe que cria sozinha os seus três filhos, carrega no corpo os genes da perda e da resistência. Neta e bisneta de mulheres que aprenderam a sobreviver, nela se condensa a memória de um Brasil que atravessa o tempo sem conseguir libertar-se da violência fundadora. A cada porta que se fecha na sua cara, a cada agente da polícia que a desacredita, a cada político que a ignora, a narrativa cose passado e presente, mostrando que, para as mães da periferia, as pobres e desvalidas, os tempos da ditadura nunca deixaram de existir. Há algo de épico nessa odisseia íntima: não a epopeia dos heróis celebrados, mas a das mulheres anónimas que ousam enfrentar a insensibilidade de sistemas altamente burocratizados, instituições corrompidas e comunidades silenciadas. Sem concessões, Itamar Vieira Júnior constrói personagens densas e oferece-lhes uma linguagem com tanto de lirismo como de acidez. O romance é sufocante porque é real; dói porque tudo nele é reconhecível. O medo do desconhecido, o não ter um corpo para enterrar, o saber-se pequeno diante de um sistema corrupto, tudo isso é narrado sem melodrama, com uma poesia que não pretende suavizar a ferida, antes iluminá-la. Convidado a acreditar - ou não (!) - na inocência de Cid, o leitor percebe-se cúmplice de um imaginário social que culpabiliza e pune, antes de acolher e entender.

Nos capítulos finais, a recusa de um desfecho pacificador transforma-se em gesto ético. Não há justiça plena, apenas a insistência radical em prosseguir o caminho. Rita Preta aprenderá que sobreviver é também negar ao ódio a última palavra. É retirar do peito a lama espessa do rancor para que a violência não a consuma por dentro. A ambiguidade que paira sobre a sua trajectória, essa espécie de suspensão entre morte e permanência, tem o condão de ampliar a sua dimensão simbólica: Rita Preta torna-se memória activa, presença que resiste. A educação dos filhos que ficam, a descoberta tardia de uma neta, o trabalho de casa em casa como podologista, todos os pequenos movimentos que compõem o seu quotidiano, são peças que trazem sentido ao que antes foi apenas vazio. A terra, agora coração, é espaço inviolável e ainda assim magoado. Itamar Vieira Júnior encerra a trilogia sem curar as feridas; como Donana e Zeca Chapéu Grande, ele prefere semear perguntas. Num país que normaliza o desaparecimento dos seus jovens negros, “Coração Sem Medo” é denúncia e oração, é luto e ressurgimento. Lê-lo é aceitar o desconforto de encarar um Brasil na sua essência mais crua e reconhecer que, enquanto houver Ritas, haverá também a teimosa esperança de que possamos dar um novo rumo à História.

sábado, 17 de janeiro de 2026

LIVRO: “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” | Luísa Sobral



LIVRO: “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”,
de Luísa Sobral
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2025 (12.ª edição, Novembro de 2025)


“Há plantas que rasgam o asfalto. Deixam para trás uma fissura como prova da sua força, do caminho percorrido, da agonia que sufoca antes da golfada de ar. Com o passar do tempo, a planta que fura o asfalto torna-se também ela asfalto. Fica a fissura para nos relembrar de que é possível dançar em contramão. É possível a terra ser o início e não o fim.”

A estreia de Luísa Sobral na ficção com “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” diz-nos que a sua voz autoral vai além do território da música, encontrando na literatura um espaço igualmente firme, expressivo e livre. Figura mediática consagrada enquanto compositora e intérprete, Luísa Sobral tem para oferecer um romance intimista, narrado na primeira pessoa, de revisitação de um dos períodos mais sombrios da História do século XX: A divisão da Alemanha no contexto da Guerra Fria. A construção do Muro de Berlim surge não apenas como acontecimento histórico, mas como ferida simbólica que atravessa gerações e condiciona destinos individuais. A protagonista, identificada apenas por M., cresce na Alemanha de Leste, separada da mãe e da tia, num espaço político e emocional delimitado pela propaganda do regime socialista. Sem recorrer a excessos didácticos, a autora inscreve o drama pessoal no quadro mais vasto da oposição entre Leste e Ocidente, mostrando como as grandes decisões geopolíticas se refletem silenciosamente na vida quotidiana dos cidadãos comuns.

O romance distingue-se pela forma como retrata a experiência de viver sob uma ditadura, sob vigilância constante da polícia política e sentindo de que forma a repressão do pensamento crítico condiciona comportamentos, afectos e relações familiares. A máquina ideológica do Estado exalta os valores do colectivo e demoniza o capitalismo ocidental, criando uma realidade paralela que M. aceita como única possível durante grande parte da sua vida. Este choque de culturas, omnipresente mas nunca ostensivo, é trabalhado com subtileza narrativa, permitindo ao leitor apreender o absurdo e a violência do sistema sem que esse seja o tema explícito do livro. A meio da obra, a introdução de cartas trocadas entre personagens funciona como um dispositivo narrativo eficaz para preencher silêncios, expandir pontos de vista e aprofundar conflitos interiores. Embora não seja um recurso inovador, revela-se particularmente feliz numa história que atravessa várias décadas e exige uma gestão rigorosa do ritmo e da progressão psicológica das personagens.

Outro elemento singular do romance tem a ver com a presença recorrente de um vasto conjunto de plantas medicinais, cujos desenhos abrem cada um dos capítulos e que remetem para a preparação de tisanas e remédios caseiros. Aparentemente decorativo, este detalhe ganha densidade simbólica, associando-se à ideia de cuidado, resistência e sobrevivência em ambientes de uma grande hostilidade. Tal como as árvores evocadas no título, nem todas resistem de pé, mas algumas persistem, adaptam-se e encontram formas de continuar a viver. Luísa Sobral demonstra uma notável capacidade de construir personagens psicologicamente consistentes, em especial figuras femininas marcadas pela desilusão, pela perda e pelo silêncio imposto. O resultado é um romance contido, empático e maduro, que evita o maniqueísmo e convida o leitor a refletir sobre memória, identidade e liberdade. Uma estreia literária segura, que transforma a história recente num exercício de escuta atenta das vidas que ficaram presas entre muros, as mais das vezes invisíveis.

domingo, 4 de janeiro de 2026

LIVRO: "O Último Avô" | Afonso Reis Cabral



LIVRO: “O Último Avô”,
de Afonso Reis Cabral
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Setembro de 2025


“Ao lembrar-me dele, ocorre-me que este país com a geografia fácil de um rectângulo, mais a porção das ilhas, não tem os quilómetros quadrados necessários para mistérios ou descobertas. Falta-nos espaço para estendermos os braços de lés-a-lés e, quando tentamos levantar-nos, batemos com a cabeça - só gente baixa consegue levantar-se num país de tecto baixo. Todavia, apesar de claustrofóbico, ainda tem dimensão para segredos: é que Portugal esconde um exército, o exército dos ex-combatentes.”

Li “O Último Avô” como uma demonstração do próprio processo de escrita, quase como se de um laboratório narrativo se tratasse. Nele Afonso Reis Cabral expõe, com notável segurança, os mecanismos da ficção, tornando o livro, de forma implícita, numa espécie de “manual”, menos no sentido didáctico ou prescritivo, mas como afirmação prática de como pode construir-se um livro a partir da dúvida, da ausência ou da obsessão. A ideia de um manuscrito perdido — talvez queimado, talvez não — funciona como motor simbólico da narrativa, colocando o leitor perante a instabilidade da verdade literária e biográfica. O confronto entre avô e neto, ambos escritores em estadios diferentes e com motivações muito distintas, ultrapassa o mero conflito geracional para se tornar num embate entre diferentes concepções da literatura, da memória e do poder. O jovem narrador escreve porque é empurrado para isso, quase coagido por uma herança que não pediu, e essa tensão inicial contamina todo o romance, fazendo dele uma reflexão subtil sobre o peso das expectativas e sobre a escrita como fardo e como vocação.

Afonso Reis Cabral opta por uma construção paciente, que entrega a história a conta-gotas, obrigando o leitor a avançar num terreno onde certezas e suspeitas se confundem. A guerra colonial surge menos como tema frontal e mais como presença fantasmática, alojada nos silêncios, nos gestos, nas personagens ocasionais e inocentes e na tirania doméstica de quem nunca saiu verdadeiramente de África. O autor mostra-se particularmente eficaz na representação da vida “dentro de portas”, num espaço familiar corroído por traumas não resolvidos, onde orbitam figuras que se aproximam por interesse, dependência ou admiração cega. Essa galeria de personagens contribui para um ambiente de permanente desconforto, no qual o afecto se mistura com a repressão e a devoção com a violência simbólica. Sem recorrer a excessos melodramáticos, o romance revela como a intimidade pode ser o palco mais cruel da memória histórica e sentimental, e como a literatura, longe de redimir, pode também servir para perpetuar feridas.

A arquitectura narrativa de “O Último Avô” revela um rigor que impressiona: cada fragmento parece colocado para preparar os momentos de revelação, culminando num desfecho que reconfigura tudo o que o leitor julgava saber. A ideia de um livro que nasce dentro do próprio livro — alimentando a narrativa e sendo por ela questionado — acrescenta densidade e confirma a ambição literária do projecto. Afonso Reis Cabral confirma a escrita madura, segura e inventiva dos anteriores “O Meu Irmão” e “Pão de Açúcar”, capaz de aliar criatividade formal a uma observação psicológica precisa. Sem depender do choque fácil, o romance constrói a sua força na acumulação e no detalhe, reservando para o final uma surpresa que é menos um truque do que uma consequência lógica do percurso traçado. “O Último Avô” afirma-se, assim, como uma obra de grande valor, que pensa a literatura num patamar de conflito e risco, e consolida o autor como uma das vozes mais consistentes e exigentes da ficção portuguesa contemporânea.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

LIVRO: “Quem Tem Medo dos Santos da Casa” | Sara Duarte Brandão



LIVRO: “Quem Tem Medo dos Santos da Casa”,
de Sara Duarte Brandão
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Março de 2025


“O passado e o futuro são meras construções do presente: Muitas vezes ficamos presos ao que nunca existiu ou ao que acreditamos que se perdeu para sempre. Mas viver é aprender a conjugar os tempos. Os santos que se exibiam nesta igreja contavam uma narrativa que se aliava ao sofrimento que aquela vila já padecera. Eram um retrato de dor cravado em esperança, nunca a procura da desordem que atearam.”

Há uma névoa que sobe do rio, um murmúrio de vento que parece arrastar consigo preces antigas, uma casa ao pé da qual todos evitam passar. É neste ambiente sombrio que vamos encontrar Maria Teresa, a “louca”, a “bruxa” da Afurada. Entre o rigor das paredes familiares e a inquietação doce dos livros ao colo do avô, a sua juventude foi um tempo de descoberta — de um amor secreto, da vontade de não se deixar calar, de uma voz que pedia quem a escutasse. Porém, foram as mãos dos homens — de um pai austero em nome da fé, de um marido prepotente em nome do dever — que tentaram esculpir nela uma estátua muda, feita à imagem de promessas, na procura de a juntar ao rol imenso de mulheres que, separadas do seu mundo, se viram obrigadas a caber em moldes que não lhes serviam. Maria Teresa não se deixou imolar no altar do sacrifício. Um dia atravessou o rio e, nesse gesto simples, quase bíblico, rompeu com o preconceito. Abandonou uma vida de clausura e escolheu a margem onde o barro da vida prometia ser mais denso. Mas também mais livre, mais seu.

Ao ler “Quem Tem Medo dos Santos da Casa”, percebemos as palavras de Sara Duarte Brandão quando diz que “há muita magia no acto de honrar quem se admira”. Estamos perante um livro extraordinário, tecido com a brandura dos afectos e a força do não-dito, que celebra a memória daqueles que, no seu exemplo, fizeram de nós o que somos hoje. Intensas, emotivas, as palavras perfilam-se ao olhar do leitor como se de imagens num álbum de fotografias muito antigo se tratasse, em cada plano, em cada rosto, o passado e o presente de mãos dadas. Ao fazer de uma história que abalou a comunidade de São Pedro da Afurada o pano de fundo do romance, a autora faz dos “santos pretos” metáfora maior daquilo que uma comunidade escolhe calar. Tal como os santos, expulsos da Igreja e lançados ao rio, também a protagonista carrega em si o peso da exclusão e o brilho da transgressão. Na sua marginalidade, porém, abriga-se uma enorme beleza e integridade, reafirmação da certeza de que enquanto houver alguém para contar uma história — mesmo que em fragmentos, mesmo que em silêncio — a memória não morrerá.

Terna e sensível, de uma enorme força e coragem, a escrita de Sara Duarte Brandão ergue-se num clamor surdo para nos dizer que só pode ter medo dos santos da casa quem receia a audácia de uma mulher que, digna e livre, ousou atravessar o rio. Neste tecido narrativo, a força de Maria Teresa afirma-se pela recusa do lugar que lhe estava destinado, pelo fazer da solidão um refúgio e não uma punição, pelo ensinar Joana – agora menina, mais tarde mulher – a pensar, sentir e agir. Tida como assombrada, a casa sobre o rio é, na verdade, um lugar de esperança e recomeço, onde os fios do passado se entrelaçam com os do futuro. E é nesse espaço feminino — de partilha, de criação, de escuta — que se opera a verdadeira revolução: não a da força, mas a da transformação silenciosa de quem está a herdar uma forma de estar no mundo, a aprender a resistir e a combater a submissão. Talvez seja essa a beleza maior do romance: mostrar que a emancipação começa quando uma mulher tem coragem de olhar o medo nos olhos e continuar, mesmo que sozinha. Até que outra mulher, e outra, e mais outra, e muitas outras mais, a ela se cheguem e juntas façam o caminho.

domingo, 24 de agosto de 2025

LIVRO: "Mudar de Ideias" | Aixa de la Cruz



LIVRO: “Mudar de Ideias”,
de Aixa de la Cruz
Título original | “Cambiar de Idea” (© 2019, Aixa de la Cruz)
Tradução | Pedro Rapoula
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Junho de 2025


“Depois de escrever as minhas confissões, pensei que não tinha mais nada de substancial para recordar, mas continuo a resgatar cenas que estavam intocadas, sem análise recente, como a primeira entrevista que me fizeram aos dezanove anos, publicada num grande meio de comunicação social com todo o tipo de pormenores embaraçosos sobre a minha vida pessoal, ou o moderador que me apresentou numa mesa-redonda fazendo piadas sobre as minhas pernas. No dia seguinte, recusei um convite do pelouro da igualdade da Câmara Municipal para participar num colóquio sobre o machismo no mundo literário. Foi uma das poucas vezes em que a indignação se sobrepôs à minha necessidade de ser educada a todo o custo, e pronunciei-me com veemência contra estes dramas de vitimização. Eu não tinha sofrido qualquer tipo de tratamento discriminatório devido ao meu diagnóstico de género. Quando muito, tinha beneficiado com isso, afinal será que teria sido publicada tão cedo se não fosse uma jovem moderadamente atraente? Tinha a certeza de que não.”

De camionistas e rufias, assédio e violações, lesbianismo e servos do Estado Fálico, mas também de dúvida e culpa acumulada, se faz “Mudar de Ideias”, livro de Aixa de la Cruz, escrito em 2019 e que chega agora às nossas livrarias. Entre biografia, ensaio e auto-ficção, o livro leva-nos a percorrer um caminho que é o da autora, repleto de referências pessoais que não pretendem alimentar tendências voyeuristas ou polémicas estéreis, antes são ponto de partida para a reflexão e o auto-questionamento. Um livro escrito em modo urgente, os assuntos muitas vezes deixados pela metade ante a emersão de novas ideias, novos traumas e mágoas, novas perdas e ganhos. Do Hospital de Basurto, onde uma amiga convalesce de um grave acidente de viação, à história de um casamento falhado, “Mudar de Ideias” vai ao osso dos problemas estruturais que intoxicam as nossas sociedades, partindo da célula familiar - “o que fazer com o legado dos nossos pais, quando é um legado que humilha mas é o único que nos resta?” - e estendendo-se à violência sexual na prisão iraquiana de Abu Ghraib, à onda de feminicídios na cidade mexicana de Puebla ou à exploração sexual de mulheres oriundas da Roménia rural.

Em “Mudar de Ideias”, o leitor é confrontado com uma exposição vincada da intimidade, um pouco à semelhança do que podemos encontrar em Virginie Despentes, por exemplo, mas filtrada por uma linguagem mais ensaística, que dialoga com o feminismo contemporâneo, os estudos de género e a cultura millennial. Se em Despentes a raiva é motor narrativo, em de la Cruz a tensão vem da dúvida, da análise constante, do entrelaçamento entre memória pessoal e construção discursiva. Incisiva e combativa, a autora oferece uma contribuição relevante para o pensamento feminista graças a uma escrita como espaço de exposição e problematização do corpo, do trauma, da sexualidade e da identidade, temas que não são apenas representados, mas activados como zonas de conflito e resistência. Há uma clara recusa em idealizar as mulheres como figuras moralmente redentoras ou essencialmente vulneráveis. São sujeitos contraditórios, muitas vezes encurralados no próprio corpo, marcados por experiências de violência em sociedades vincadamente patriarcais, mas também por uma lucidez crítica que subverte os papéis tradicionais atribuídos ao feminino.

“Mudar de Ideias” é a prova de que um livro não tem de ser forçosamente sórdido, chocante ou sensacionalista quando é de experiências pessoais contrárias a uma moral conservadora que se trata. Íntima e política, a escrita de Aixa de la Cruz desconstrói as normas de género, ao mesmo tempo que aponta o dedo às violências estruturais. Introspectiva, a sua abordagem a um conjunto de assuntos polémicos é pautada pelo desassombro, vestindo de ironia fina o desfiar de uma grande diversidade de histórias que ajudam a perceber o pensamento da autora, a sua sensibilidade, a firme posição de denúncia dos movimentos e contextos que conduzem à objectificação da mulher, mas também das contradições do “eu” feminino nas sociedades neoliberais. Reflexão pessoal, intertextualidade e análise sociocultural, aliam-se ao rigor, solidez e inteligência, abrindo-se em confissão e problematização num caminho evolutivo cada vez mais empático e próximo do outro. Entre o íntimo e o político, entre o eu e o todo, “Mudar de Ideias” é um grande livro, cujo valor de representação do feminino se abre num campo activo de inquietação, combate e criação.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

LIVRO: "Despedidas Impossíveis" | Han Kang



LIVRO: “Despedidas Impossíveis”,
de Han Kang
Título original: 작별하지 않는다 (© Han Kang, 2021)
Tradução | Maria do Carmo Figueira e Ana Saragoça, a partir da tradução inglesa de e. yaewon e Paige Aniyah Morris, 2024
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Janeiro de 2025


“Fiquei sem saber o que fazer. Nos nossos vinte anos de amizade, Inseon nunca me tinha pedido um favor tão despropositado. Quando dissera na mensagem para eu trazer comigo um documento de identificação, presumi que era uma situação urgente, que precisava que eu assinasse um formulário de autorização para uma cirurgia ou qualquer coisa do género. Foi por isso que apanhei logo um taxi, sem sequer passar por casa. Seria o sofrimento e o choque do que lhe tinha acontecido aquilo que estava a levar Inseon a agir de uma forma diferente? Estaria a responsabilizar-me pelo que tinha acontecido, por estar a trabalhar no projeto que eu tinha sugerido? Ou seria eu realmente a única pessoa a quem ela poderia fazer aquele pedido? A única pessoa que poderia largar tudo de um momento para o outro e passar quase um mês em Jeju a tomar conta de um pássaro, por já não ter emprego, nem família, nem uma rotina diária com algum sentido? Independentemente da razão, uma coisa era certa. Eu não podia recusar.”

Folheamos as primeiras páginas ao encontro de Kyungha, personagem principal de “Despedidas Impossíveis”, que parece mergulhada num processo de auto-destruição. A inacção tomou conta dela, praticamente não se alimenta e passa os dias enroscada sobre si mesma no pântano em que a sua cama se tornou. Nesse estado de abandono, é assaltada por um pesadelo recorrente no qual um vasto conjunto de troncos pintados de negro, semelhantes a lápides, vai sendo arrastado pelo mar. Pressentindo o fim próximo, decide escrever o seu testamento e nesse momento recebe uma chamada de Inseon, uma velha amiga, que lhe pede que a vá ver ao hospital. Fotógrafa e documentarista, Inseon sofreu um grave acidente e passa por um delicado e doloroso processo de recuperação. Num transe de dor e sofrimento, implora à amiga que lhe salve o pássaro de estimação, encerrado na sua gaiola sem ninguém que o alimente. Incapaz de recusar o pedido, Kyungha parte para a distante ilha de Jeju, onde se vê confrontada com uma violenta tempestade de neve que irá atrasar a chegada à casa isolada da amiga.

Temas recorrentes da escrita de Han Kang, a vida e a morte, a dor e a dádiva, preenchem as páginas do livro, marcando de forma intensa duas histórias indissociáveis uma da outra: A da personagem principal e a do povo coreano, sujeito ao terror de sucessivos regimes ditatoriais cujas práticas violentas resultaram em centenas de milhares de mortos. Através de Inseon, das suas memórias e de um conjunto de documentos de época, Kyungha irá ser confrontada com o massacre de Jeju, em 1948, aquando da declaração de lei marcial do presidente Syngman Rhee e da campanha anticomunista e de contrainsurgência dela resultante, levando à morte de 30.000 pessoas, cerca de dez por cento da população da ilha. Execuções sumárias, valas comuns, a repressão e o silêncio que se abateu sobre os massacres pesam, ainda hoje, sobre uma História negligenciada, mas na qual persiste a firme determinação dos familiares das vítimas em manter vivo um passado de luto e de dor e em reclamar o direito a enterrar os seus mortos.

Enquanto nos anteriores “Atos Humanos” ou “O Livro Branco”, a narrativa corria entre as múltiplas perspectivas das personagens, “Despedidas Impossíveis” sustenta o olhar de Kyungha do início ao fim do livro, levando a que o leitor sinta com maior intensidade o peso cumulativo de tamanha violência. Parte do que torna a prosa de Han Kang tão magnética é a justaposição do terno, do delicado e do grotesco. Contrapor a neve e a luz aos pequenos crânios perfurados por balas ou a um aglomerado de ossos e restos de tecidos empilhados no fundo de uma mina de cobalto é de uma crueza insuportável, mas que parte da tremenda consciência da autora sobre o corpo em sofrimento. Ao evocar as nossas fragilidades e a finitude da vida, o que Han Kang faz é lembrar a responsabilidade colectiva, estendendo-a ao cuidar dos que partiram. Começando com a dor da separação e fechando com a dignidade da preservação da memória, “Despedidas Impossíveis” surge como a mais angustiante, mas também a mais ambiciosa obra de Han Kang até ao momento.

sábado, 11 de janeiro de 2025

LIVRO: "O Livro Branco"



LIVRO: “O Livro Branco”,
de Han Kang
Título original | 흰, (© Han Kang, 2016)
Tradução | Maria do Carmo Figueira, a partir da tradução inglesa de Deborah Smith
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Junho de 2019 (3.ª edição, Novembro de 2024)


“A mulher de vinte e dois anos fica novamente sozinha em casa, ainda está deitada. É sábado de manhã e, com a primeira geada ainda colada às ervas, o marido, de vinte e cinco anos, sobe a montanha com uma pá para enterrar a bebé que nasceu ontem. A mulher não consegue abrir bem os olhos inchados, por mais que tente. Não há articulação nenhuma no corpo todo que não lhe doa, e os nós dos dedos inchados pulsam de sofrimento. E é então que, pela primeira vez desde o parto, sente algum calor inundar-lhe o peito. Senta-se e aperta desajeitadamente o seio. Primeiro, uma gotas aguadas, amareladas, depois um fio contínuo de leite branco.”

O branco de um cobertor de bebé, da espuma das ondas, do sal ou da neve, de um grão de arroz ou de um torrão de açúcar. O branco da lua, da flor da magnólia, das penas de um papagaio, dos cabelos de uma idosa, de uma folha de papel. O branco de umas fraldas ou de uma mortalha. Tendo a cor branca como denominador comum de um conjunto de objectos ou de imagens, Han Kang constrói um livro a partir das memórias íntimas de uma infância passada na ilha de Jeju, na longínqua Coreia do Sul, cruzando-as com um quotidiano bem diferente, em Varsóvia, onde se refugiou temporariamente para escrever um romance. Em torno de um acontecimento trágico - o nascimento e morte da sua irmã mais velha -, a autora tece algumas breves reflexões entre o “eu” e o “ela”, fazendo do processo de escrita um meio para exprimir as suas dúvidas e inquietações, transformando a dor em promessa e, no limite, libertando-se da “maldição” daquilo que é e do que poderia ter sido, fazendo enfim o luto.

“A cada item que colocava na lista invadia-me um estremecimento, uma agitação. E senti que, sim, precisava de escrever este livro, e que o processo de escrita iria ser regenerador, tornando-se com o tempo algo parecido com uma pomada branca espalhada sobre um inchaço, ou com gaze protegendo uma ferida. Com uma coisa que eu precisava.” Numa escrita feita de serenidade e doçura, empática e fortemente poética, Han Kang traz de volta à vida esta “onni” (“irmã mais velha” em coreano), imaginando-a a pôr o casaco pelos ombros e a ir à farmácia quando a mãe de ambas estivesse doente, a pôr o dedo à frente dos lábios pedindo-lhe que não fizesse barulho, a escrever equações no livro de exercícios de matemática para que praticasse, a tirar-lhe uma farpa espetada no pé, usando uma agulha que esterilizaria na chama do bico do fogão. Uma “onni” cuja história é também a história de Han Kang, de como nasceu e cresceu no lugar dessa morte, de como olha o mundo através dos seus olhos.

Depois do extraordinário “Atos Humanos”, a minha admiração por Han Kang e pela sua escrita sai reforçada com este “O Livro Branco”. Uma escrita biselada como um pingente de gelo, suave como um campo coberto por um manto branco depois das primeiras neves a anunciar o Inverno, aconchegante como uma colcha de lã imaculadamente branca, da cor da paz. Uma escrita que, em si mesma, carrega todas as cores, dedilhando as cordas dos sentidos de cada leitor através de reflexões profundamente comoventes, delicadas e puras. No final, vemos como a autora constrói uma espessa e complexa mortalha de palavras, com a qual cobre a sua “onni”. Pode, enfim, aceitar a sua partida e despedir-se, mergulhando o olhar apaziguado no frio da meia-lua que se ergue ao início da tarde, no silêncio de uma floresta de bétulas brancas, na quietude da janela por onde entra o sol de inverno, nas partículas brilhantes de pó agitando-se nos feixes de luz que se prolongam obliquamente até ao tecto. “Dentro desse branco, de todas essas coisas brancas, sorverei o último sopro de ar que exalaste.”

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

LIVRO: "Diário Incontínuo"



LIVRO: “Diário Incontínuo”,
de Mário Cláudio
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Julho de 2024


“Porto, Terça-feira, 13 de Abril de 2010
O José Carlos Vasconcelos pede-me alguns fragmentos deste diário para publicar no seu Jornal de Letras, e vejo-me em dificuldades porque ora os encontro demasiado íntimos, ora demasiado anódinos, ora demasiado perigosos.”

Íntimas, anódinas, perigosas! Não encontro melhor definição para o conjunto de entradas que dão forma, entre os dias 1 de Janeiro de 1958 e 10 de Setembro de 2019, àquilo que Mário Cláudio designa por “diário incontínuo”. Nele, o escritor revela-se por inteiro, num percurso de vida onde cabem amores e embirrações, conquistas e frustrações, decisões adiadas e murros na mesa, nada assim tão distante das riquezas e misérias que condimentam o quotidiano de cada um de nós. Apenas com uma diferença, bem avultada, por sinal: Os actores que com Mário Claúdio contracenam no palco da vida são figuras maiores das artes e das letras deste país – de Júlio Resende, Manuel Alegre, José Rodrigues e Eugénio de Andrade, a Vasco Graça Moura, Agustina Bessa-Luís, Manuel António Pina e Maria do Rosário Pedreira, entre tantos, tantos outros -, também eles com as suas grandezas e misérias. Gente que, as mais das vezes, oferece entendimento, mas se mostra escassa no tocante a Humanidade, o que leva o autor a confessar ser infinito “o espectro das pessoas que me interessam, como infinito é o daqueles que aborreço”.

Entre manhãs claríssimas e nítidas, tardes de chuva e noites a ouvir a mastigação dos bichos da madeira, vamos acompanhando Mário Cláudio no que um homem pode ter, em partes iguais, de selvagem, apaixonado e cívico. É divertida a forma como, a partir de dada altura, assume prosseguir ondulantemente com uma dieta no horizonte, enquanto peregrina pelo Solar do Moinho de Vento, o Tripeiro, a Nanda, o Dom Tonho, o Pap’Açorda ou a Cozinha da Maria Eugénia. Entre os momentos dedicados à escrita de obras tão importantes como “Peregrinação de Barnabé das Índias”, “Ursamaior”, “Camilo Broca” ou “Retrato de Rapaz” e as viagens - o pesadelo de poeira e ferros torcidos de Manchester, as hordas de turistas de Veneza, Frankfurt e a incontornável Feira do Livro -, tempo para olhar o Douro em Entre-os-Rios, contemplar a Nazaré vista do Sítio, lamentar a “parda e seca” charneca alentejana ou dar um passeio junto à praia em Vila do Conde. Percebe-se, como o autor afirma, “uma impossibilidade de se circunscrever à obrigação”. Tudo é sugestão e atractivo, visões de que o próprio Mário Cláudio é o centro.

Para quem, como eu, aprecie biografias, um livro como “Diário Incontínuo” é uma fonte inesgotável de prazer e fascínio. A grande política faz-se ausente, mas avultam sentimentos fortes numa sonata de Kodaly, num prelúdio de Chopin ou na “Sinfonia do Mar” de Vaughan Williams. A explosão do génio de Turner torna ainda maior o vazio de duas exposições em Serralves. Uma comunidade de leitores pode ser o melhor antídoto à outorga de um prémio literário e uma tristeza revoltada faz-se presente face à inexistência de uma pluralidade de vozes críticas no seio dos escritores portugueses. Há muitos livros - sempre! - e muitos museus, a goiabada da tia Justina e as andorinhas que regressam aos ninhos à entrada da casa, um cilindro que rebenta “mas ninguém se afoga” e o protesto em fúria das hemorróides contra a mostarda japonesa, um ataque traiçoeiro do Jasão e o esquecimento de fechar a braguilha. Há tuias e juníperos, narcisos azuis, japoneiras, agapantos, a magnólia dos Congregados. E há, claro, Venade e a verdejante paisagem em redor, a Dona Maria Alice, o Joaquim, o Mike, o Rui e o Puck, a casa por arrumar e as obras por fazer, o vizinho Silvério com as suas dádivas habituais de feijão e ovos, a visita do compasso pascal, a adopção de dois gatinhos de mama, a casa sempre aberta para receber os amigos. Ide ler. Este diário é pão!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

LIVRO: "Visitar Amigos e Outros Contos"



LIVRO: “Visitar Amigos e Outros Contos”,
de Luísa Costa Gomes
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Setembro de 2024


“Que é do Homem do Taco? Não estava na altura de entrar em cena? Não se lhe deu a deixa? Percebe-se que o personagem meteu outra obra no interim. É como se faltasse o actor ao abrir do pano. Eu quero saber quando virá, ao certo. Mais valia querer saber a que horas se dará o fim do mundo. Há um primeiro pequeno desentendimento com o responsável da obra que não aceita ser responsável pelos operários que ele mesmo contrata. É o momento em que a História se decide por uma ou outra narrativa. Quem manda na verdade? Se o Homem do Taco não aparece, de quem é a culpa? Minha, que contratei quem o contratou, ou de quem o contratou?”

Com o ano a chegar ao fim, cai-me no regaço este “Visitar Amigos e Outros Contos”, conjunto de treze textos que se abrem para um quotidiano com tanto de risonho e promissor como de castrador e mesquinho. Com um notável sentido do ritmo, Luísa Costa Gomes convida o leitor a olhar em volta e a atentar naquilo que, directa ou indirectamente, o afecta, seja dentro de portas, seja no espaço longínquo. Objectiva na definição dos personagens e na forma como os distribui pelo espaço em volta, rigorosa nas marcações como se de uma peça de teatro se tratasse, a autora mete verdades e consequências no mesmo saco, levando o leitor ao encontro de si e daqueles que o rodeiam. Do social ao indissociável, os amigos fazem-se presentes no virar de cada página, mostrando-se naquilo que são, delicados e sensíveis uns, oportunistas e sacanas outros. Face a face com cada um deles, somos o que somos e o que não somos, numa sequência de malabarismos e de golpes de rins que nos endurecem e enrugam a couraça e nos tornam mais conscientes de nós, mas também mais impacientes e rabugentos, mais velhos.

É de renovação que nos fala “A Ditadura do Proletariado”, o conto que abre o livro. O gosto pela metáfora e pelos trocadilhos revela-se logo no título e estende-se pelas páginas seguintes, revelando uma autora em grande forma, exímia na arte de alinhavar as palavras que vão do sonho ao pesadelo, segura na descrição das dores de cabeça que quaisquer obras dentro de casa implicam, delineando com saudável humor as relações entre quem contrata (a burguesia) e quem é contratado (o proletariado) e pontuando de ironia a deriva entre a escolha das loiças sanitárias e um novo buraco que se abre no tecto. Fazendo da elegância da escrita e da verosimilhança das situações elos comuns ao conjunto de contos, o livro leva-nos ao encontro dos amigos, dos que se mostram reféns dos impulsos primários de um gato aos que se insinuam com a promessa de acender uma boa lareira, dos que fizeram fortuna e se debatem no momento de lavrar o testamento aos que transformam um simples telefonema numa estopada à volta dos dilemas amorosos de Kierkegaard.

Na linha sempre delicada que separa a realidade da ficção, Luísa Costa Gomes revela um pouco de si, deixando adivinhar-se em certezas e reservas, alegrias e medos, conquistas e frustrações. Ternos ou duros, o seus contos mostram-na no andar distraído, na facilidade em alterar os planos, na rotina do lanche com as amigas, na embirração com gatos. O tempo tanto pode ser o de agora, numa pastelaria na Guia ou numa praça em Berlim, como o de outrora, num combóio a vapor que rasga a noite na Cabreira ou no isolamento de uma cela em Caxias, que o olhar da autora permanece o mesmo, de lucidez e liberdade feito. Nesse olhar segue o leitor ao encontro de si mesmo, perscrutante e inquieto, medindo o que de comum se perfila no virar de cada página, revendo condutas, definindo prioridades, pesando fragilidades, visitando amigos. Amigos de agora e de sempre, amigos que foram, amigos que o são, amigos que tornam o seu dia a dia mais leve ou o carregam de dilemas, o suavizam ou o complicam. Amigos que são “o nosso bolo de natal” ou, simplesmente, a fava desse mesmo bolo.

domingo, 22 de dezembro de 2024

LIVRO: "O Meu Pai Voava"



LIVRO: “O Meu Pai Voava”,
de Tânia Ganho
Edição | Carmen Serrano
Ed. Publicações Dom Quixote, Julho de 2024


“A rapariga da agência perguntou se ele tinha um pacemaker. Se tivesse, seria preciso abri-lo, desligar não sei o quê, uns fios?, porque podia explodir, será que foi explodir que ela disse? Estávamos à mesa. Abri-lo? O corpo? Por instantes, não compreendi o que o meu irmão dizia. Mas abriram-no? Ele não tinha um pacemaker, pois não? Confusa, revendo os meus ficheiros mentais para perceber a que procedimentos o meu pai se sujeitara depois do enfarte. Há partes da minha vida que apaguei ou que são turvas, desfocadas. Quando o meu pai foi operado à coluna, onde é que eu estava, que não me lembro de o ter visitado no hospital? A ausência de recordações choca-me. Como é que eu, a filha querida, a menina do papá, não me recordo de ter estado à cabeceira dele quando o operaram à coluna?”

Tânia Ganho perdeu o pai no dia 24 de Fevereiro de 2024. O óbito foi declarado às 11 horas e 11 minutos. Chamava-se Edmiro e era urologista. Dizia a brincar que passava o dia “a ver pilas” e, nas impressões que trocava com a filha, a autora deste livro, tratava o corpo por tu, estabelecendo com ele “uma familiaridade saudável, sem tabus”. Tinha fama de despistado, mas gabava-se de nunca se ter esquecido de uma compressa dentro de um doente. Foi cinturão negro de karaté, astrónomo amador, inventor medalhado. Fazia pequenas reparações em casa, desmontava electrodomésticos, soldava peças, era um exímio arrombador de fechaduras. Ouvia Maria Callas em altos berros, sabia a “Tabacaria” de cor, louvava Zeca Afonso, idolatrava Salgueiro Maia. Escalava montanhas, dava pontapés na lua e voava. A memória começou a traí-lo alguns anos antes da sua morte, o Alzheimer a “fincar as gavinhas” na sua mente, o seu “lado cru, tão feio, tão triste” a tomá-lo aos poucos. Morreu sem conhecer ninguém, sem se conhecer a si próprio. Tânia Ganho quis que permanecesse vivo, que o conhecêssemos.

Adeus e encontro, distância e abraço, luto e celebração da vida. “O Meu Pai Voava” é um mergulho no mais fundo do eu, nesse território habitado por emoções desiguais e sentimentos contraditórios, no momento em que tudo se afigura “triste e ermo” com a partida do pai da escritora. “É o meu pai em cada palavra, e a realidade da sua ausência engole-me e revolve-me, sou roupa aos tombos no tambor de uma máquina de lavar”, lê-se nas páginas iniciais, o tom confessional posto em cada frase, a intimidade e cumplicidade com o leitor a revelar-se necessária e urgente. Nesta súmula de reflexões assente em (muitas) dúvidas e (poucas) certezas, Tânia Ganho porfia na busca de apaziguamento e reconciliação consigo própria: “Será possível falarmos de luto sem falarmos de nós?”, interroga-se. Dedica o livro à mãe, a mulher que do pai cuidou ao longo de seis décadas de vida em comum e que terá, como ninguém, sofrido com a perda, o não ter mais de lhe indicar onde estavam as camisas, as calças, o escolher de véspera o fato, a gravata, os sapatos, o acordar antes dele para lhe fazer um pequeno-almoço de café com leite, torradas e um ovo estrelado.

“Não sei para quem escrevo estas palavras. Para ele, talvez”. Mergulhada na dúvida, tendo como certo apenas o facto de se ter lançado num processo ininterrupto de escrita desde a morte do pai, Tânia Ganho perdoar-me-á a ousadia de lhe dizer que é para mim - para a pessoa que há em mim, não para o leitor que sou - que escreve. Demorei muito tempo, não a chegar a esta conclusão, mas a ter a certeza de que poderia, sem perda de outras reflexões que o livro suscita, partilhar com a autora e com os leitores do blogue este meu sentir. Ao abraçar a memória deste pai, vejo nele o meu próprio pai. Ao acompanhar Tânia Ganho na sua ânsia “para recuperar o fulgor com que ele viveu”, sinto essa mesma vontade de guardar ainda mais fundo as memórias de uma história de muitas décadas, certo do carácter finito da nossa existência. É nesta relação de proximidade com o leitor que as palavras de Tânia Ganho se erguem em amor e verdade, em humanidade e dádiva. No que encerra de conhecimento e experiência partilhada, “O Meu Pai Voava” revela-se fundamental no processo de preparação para o dia em que serei confrontado com a notícia da morte do meu próprio pai. Daí não haver limites para a admiração e profunda gratidão que devo à autora, pela sua coragem e generosidade, pelos caminhos que abre. Tânia Ganho sou eu e eu sou Tânia Ganho.