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domingo, 4 de janeiro de 2026

LIVRO: "O Último Avô" | Afonso Reis Cabral



LIVRO: “O Último Avô”,
de Afonso Reis Cabral
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Setembro de 2025


“Ao lembrar-me dele, ocorre-me que este país com a geografia fácil de um rectângulo, mais a porção das ilhas, não tem os quilómetros quadrados necessários para mistérios ou descobertas. Falta-nos espaço para estendermos os braços de lés-a-lés e, quando tentamos levantar-nos, batemos com a cabeça - só gente baixa consegue levantar-se num país de tecto baixo. Todavia, apesar de claustrofóbico, ainda tem dimensão para segredos: é que Portugal esconde um exército, o exército dos ex-combatentes.”

Li “O Último Avô” como uma demonstração do próprio processo de escrita, quase como se de um laboratório narrativo se tratasse. Nele Afonso Reis Cabral expõe, com notável segurança, os mecanismos da ficção, tornando o livro, de forma implícita, numa espécie de “manual”, menos no sentido didáctico ou prescritivo, mas como afirmação prática de como pode construir-se um livro a partir da dúvida, da ausência ou da obsessão. A ideia de um manuscrito perdido — talvez queimado, talvez não — funciona como motor simbólico da narrativa, colocando o leitor perante a instabilidade da verdade literária e biográfica. O confronto entre avô e neto, ambos escritores em estadios diferentes e com motivações muito distintas, ultrapassa o mero conflito geracional para se tornar num embate entre diferentes concepções da literatura, da memória e do poder. O jovem narrador escreve porque é empurrado para isso, quase coagido por uma herança que não pediu, e essa tensão inicial contamina todo o romance, fazendo dele uma reflexão subtil sobre o peso das expectativas e sobre a escrita como fardo e como vocação.

Afonso Reis Cabral opta por uma construção paciente, que entrega a história a conta-gotas, obrigando o leitor a avançar num terreno onde certezas e suspeitas se confundem. A guerra colonial surge menos como tema frontal e mais como presença fantasmática, alojada nos silêncios, nos gestos, nas personagens ocasionais e inocentes e na tirania doméstica de quem nunca saiu verdadeiramente de África. O autor mostra-se particularmente eficaz na representação da vida “dentro de portas”, num espaço familiar corroído por traumas não resolvidos, onde orbitam figuras que se aproximam por interesse, dependência ou admiração cega. Essa galeria de personagens contribui para um ambiente de permanente desconforto, no qual o afecto se mistura com a repressão e a devoção com a violência simbólica. Sem recorrer a excessos melodramáticos, o romance revela como a intimidade pode ser o palco mais cruel da memória histórica e sentimental, e como a literatura, longe de redimir, pode também servir para perpetuar feridas.

A arquitectura narrativa de “O Último Avô” revela um rigor que impressiona: cada fragmento parece colocado para preparar os momentos de revelação, culminando num desfecho que reconfigura tudo o que o leitor julgava saber. A ideia de um livro que nasce dentro do próprio livro — alimentando a narrativa e sendo por ela questionado — acrescenta densidade e confirma a ambição literária do projecto. Afonso Reis Cabral confirma a escrita madura, segura e inventiva dos anteriores “O Meu Irmão” e “Pão de Açúcar”, capaz de aliar criatividade formal a uma observação psicológica precisa. Sem depender do choque fácil, o romance constrói a sua força na acumulação e no detalhe, reservando para o final uma surpresa que é menos um truque do que uma consequência lógica do percurso traçado. “O Último Avô” afirma-se, assim, como uma obra de grande valor, que pensa a literatura num patamar de conflito e risco, e consolida o autor como uma das vozes mais consistentes e exigentes da ficção portuguesa contemporânea.

domingo, 14 de junho de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #1



1. Com a exibição dos três filmes correspondentes à nona sessão, chegou ao fim o Shortcutz Ovar na sua versão online. Fazendo incidir a sua atenção sobre as obras exibidas ao longo da temporada de 2019, a iniciativa permitiu ver ou rever um total de vinte e nove curtas-metragens, muitas delas de enorme qualidade e que atestam bem o valor do cinema português neste particular formato. Destaque para os superlativos “Agouro”, de David Doutel e Vasco Sá, “Red Hill”, de Laura Carreira e “Sleepwalk”, de Filipe Melo, todos eles galardoados na mostra ovarense. Mas o bom cinema não se quedou por aqui e ao júri terá cabido a ingrata tarefa de deixar de fora dos prémios os notáveis “California”, de Nuno Baltazar, “A Era das Ovelhas”, de Eva Mendes, Joana de Rosa e Sara Augusto, “Náufragos”, de Pedro Neves, “Calipso”, de Paulo Oliveira e Pedro Martins, “Pixel Frio”, de Rodrigo Areias e sobretudo “Declive”, de Eduardo Brito. De regresso às salas e ao público, a quarta temporada do Shortcutz Ovar é retomada já na próxima quinta-feira, dia 18 de Junho, devendo os interessados inscrever-se na página do evento em https://www.facebook.com/events/266746531203497/.

2. Chama-se “Manual de Sobrevivência de Um Escritor” e é o mais recente livro de João Tordo. Partindo das suas memórias do ofício, nele o autor esboça uma espécie de manual para todos aqueles que se interessam pelo mundo da escrita — sejam escritores a dar os primeiros passos ou leitores curiosos. “Esta viagem pelos meandros de um ofício que recusa deixar-se ensinar — e de muitas das suas vertentes e consequências, como a técnica, o enredo, as personagens, a edição, a crítica, o fracasso, a sobrevivência — é também uma incursão no lado mais íntimo de um escritor entregue à sua mais dilacerante paixão”, pode ler-se na sinopse. Editado pela Companhia das Letras, o livro foi lançado na passada terça feira, em formato online, com a presença do autor, do jornalista João Gobern e da editora Clara Capitão, das quais destaco as palavras elogiosas. Para adoçar a boca, assista à conversa em https://www.facebook.com/joaotordoescritor/videos/557750588257335/. E depois vá a correr comprar o livro. 

3. Autor de “O Meu Irmão” (Prémio Leya 2014) e “Pão de Açúcar” (Prémio José Saramago 2019), Afonso Reis Cabral percorreu os quase 739 quilómetros da Estrada Nacional 2, numa caminhada de 24 dias por aquela que é uma das maiores estradas do mundo. Entre Abril e Maio de 2019, Afonso cruzou montanhas e planícies, mergulhou em rios, caminhou debaixo de tempestades e sob sol ardente. Mas sobretudo parou para conversar com quem encontrava. No fim de cada dia, publicava na sua página do Facebook um diário escrito no telemóvel relatando os principais eventos da viagem. Com milhares de leitores, comentários e partilhas, os seus textos geraram grande entusiasmo, vindo a ganhar a forma de livro em 2019. Agora, a experiência do escritor na maior estrada do país ganha uma nova dimensão com o documentário “Leva-Me Contigo”, produzido por Vasco Galhardo Simões e realizado por João Pedro Félix, o qual reúne filmagens inéditas do percurso e testemunhos de algumas das pessoas com quem Afonso Reis Cabral se cruzou. Para ver na RTP Play, em https://www.rtp.pt/play/p7368/leva-me-contigo-o-documentario.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

TERTÚLIA: "Conversas Úteis", com Afonso Reis Cabral



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com Afonso Reis Cabral
Museu de Ovar
10 Out 2018 | qua | 21:30


A provar que todos os momentos são bons quando o assunto é falar de livros, Afonso Reis Cabral esteve na noite de ontem no Museu de Ovar para um novo capítulo de “Conversas Úteis”. Moderada por Carlos Nuno Granja, esta foi mais uma sessão que resultou num excelente serão, com tanto de interessante como de enriquecedor. Numa altura em que acaba de lançar o seu segundo romance, o jovem autor apresentou-se perante uma plateia ávida de o ouvir falar da sua relação com a literatura, o novíssimo “Pão de Açucar” a capitalizar uma boa parte das atenções mas a deixar espaço suficiente a “O Meu Irmão”, obra de estreia deveras marcante, o Prémio Leya 2014 a coroar uma escrita sólida, madura e de enorme beleza.

E foi com “Pão de Açucar” que a conversa começou, Afonso Reis Cabral a afirmar ser este o romance que o torna escritor. Concretizando: “Comecei a escrever ‘O Meu Irmão’ com 22 anos, numa altura em que estava a tirar um mestrado, às voltas com uma bolsa de investigação e ainda um trabalho em part-time. Foi muito difícil conciliar todos os afazeres com a escrita e cheguei a ter dias em que só me apetecia dar um tiro em alguém. Talvez por isso é que demorei três anos e meio a escrevê-lo. Já ‘Pão de Açucar’ foi escrito em menos de sete meses, o dinheiro do Prémio Leya a dar-me a segurança necessária para deixar o emprego e dedicar-me por inteiro à escrita”.

Debruçando-se sobre “Pão de Açucar”, o escritor revelou tratar-se de um romance baseado na história de Gisberta, transsexual violentada e assassinada por um grupo de adolescentes num prédio em construção na cidade do Porto, um tema que abalou a sociedade à data dos acontecimentos, em Fevereiro de 2006. Escrever o livro correspondeu a um impulso na sequência de uma reportagem que viu sobre o caso, alicerçado em “investigação, entrevistas e muito trabalho de campo”, daí nascendo a necessidade de resolver um hiato neste caso que lhe pareceu claro: “Como é que um grupo de rapazes encontra Gisberta numa cave, a sua primeira reacção é ajudar e depois se passa disto para a violência com o resultado que conhecemos? Não é atacar um desconhecido, é atacar alguém com quem se tinham estabelecido laços”, refere, ao mesmo tempo que alude a “O Senhor das Moscas” para vincar a ideia.

Focando-se no processo de escrita, Afonso Reis Cabral volta-se agora para “O Meu Irmão”, a dificuldade maior residindo na criação da figura do narrador: “Na vida real, o meu irmão tem Síndrome de Down e não foi difícil desenhar a personagem com base na minha própria experiência. Difícil foi criar a figura do narrador, até porque eu não tinha nada de interessante na minha vida para contar”, confessa. Já o desafio de escrever “Pão de Açucar” foi muito diferente, a figura do narrador sendo um rapaz de 12 anos, uma situação social muito complicada, institucionalizado… e é ele que encontra Gisberta: “São realidades que me passavam ao lado e foram as conversas com outras pessoas que me permitiram definir as personagens. É de conseguir descobrir essas realidades e pô-las na pele das personagens que vive o livro, mas eu não consigo analisá-las e nem tenho de o fazer”, diz. Já quanto ao narrador, “ele conta uma história na qual é parte interessada, sendo, por isso, um narrador não fiável. No limite, não serei eu a manipular o leitor mas sim o Rafa”, conclui.


A conversa prossegue animada e aborda-se a força do real face à ficção, em particular no livro “Pão de Açucar”: “Este livro é sobre o mal. A partir do Capítulo 40 as coisas passaram-se exactamente assim. Há diálogos que são retirados textualmente do processo. É uma angústia saber que aquilo aconteceu daquela forma. Cheguei a ter pesadelos com o livro”, conta. Tempo também para falar dessa ideia errada de que a escrita é resultado da inspiração, com o escritor a referir que “95% do livro é trabalho, trabalho e mais trabalho” e a dar o exemplo de José Saramago, um homem que “escrevia como quem lavra a terra”. Fala-se ainda na relação com o leitor, a pessoa para quem o livro é escrito, em quem se pensa enquanto se escreve, ou não fosse a escrita dialógica: “Tem de haver alguém do lado de lá”, afirma. E ainda uma palavra de agradecimento para a sua editora, Maria do Rosário Pedreira, por ter mitigado as inseguranças em relação à escrita, ajudado a amenizar a solidão inerente ao acto de escrever e ter sabido ler e aconselhar em todos os momentos.


A conversa aproxima-se do fim e o espaço é agora de diálogo com os presentes. Não se furtando às questões que lhe foram sendo colocadas, Afonso Reis Cabral expôs a sua visão do escritor enquanto voz interveniente e moderadora perante a sociedade, falou das dificuldades em fazer passar a mensagem, contou de que forma lida com a crítica e de como o magoa a falta de honestidade intelectual, para regressar a “Pão de Açucar” e dizer que não há explicação para o mal, para a forma como ele se dissemina e para as variantes que assume. O final foi, como sempre, de confraternização, a troca de palavras com o leitor a estender-se pelo tempo das dedicatórias e autógrafos. Esta foi mais uma excelente tertúlia no espaço do Museu de Ovar, local onde se desenrolará novo capítulo já na noite de amanhã, dia 12 de Outubro, quando o escritor Silvério Manata e o escultor Alves André estiverem frente a frente com o público. A não perder!

terça-feira, 2 de outubro de 2018

LIVRO: "Pão de Açucar"



LIVRO: “Pão de Açucar”,
de Afonso Reis Cabral
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Publicações Dom Quixote, Setembro de 2018


Saio da leitura de “Pão de Açucar” com a ideia reforçada de que há palavras, actos, situações que, pela sua natureza, não podem cair no esquecimento. Sobretudo quando assentam na crueldade e na ignomínia e constituem um ataque aos valores pelos quais a sociedade se deve reger. Levando a ficção a beber no real, a literatura tem encontrado aqui um campo fértil, dando como exemplo mais recente o extraordinário “Hoje Estarás Comigo no Paraíso”, de Bruno Vieira Amaral. E este será, porventura, o grande mérito do livro, o de recuperar uma história que nos compele a manter a guarda alta contra as Urban Beach, Esquadras de Alfragide, acordãos de penas suspensas para violadores de jovens inconscientes, vigilantes da STCP e demais monstruosidades deste pequeno jardim à beira mar plantado.

“Pão de Açucar” narra o caso de Gisberta Salce Junior, transexual que acabou afogada no poço dum prédio em construção, no Porto. Ocorrido em Fevereiro de 2006, o crime foi particularmente mediatizado, até porque perpetrado por um grupo de 14 menores institucionalizados e revestindo-se duma maldade doentia e gratuita que não terá nunca perdão. Estamos perante um caso que despertou as consciências para a crua realidade da intolerância e do ódio contra os homossexuais e que levou à criação de legislação que fez com que um grande número de homens e mulheres passassem a ser aceites pela sociedade. Recorrendo à ficção, foi este o desafio que o autor ousou enfrentar, o de contar uma história que estava contada por natureza.

Segundo romance de Afonso Reis Cabral, “Pão de Açucar” surge com uma décalage de quase quatro anos em relação ao aclamado “O Meu Irmão” – obra com a qual o escritor ganhou o Prémio Leya 2014 –, sendo legítimo estabelecer uma comparação entre ambos. E aí “Pão de Açucar” sai a perder, a ficção vergada ao peso duma realidade que, de tão brutal, a ultrapassa. A confirmá-lo está a brilhante peça jornalística de Catarina Marques Rodrigues, publicada no Observador em 21 de Fevereiro de 2016 (dez anos volvidos sobre os acontecimentos), que bebe da fonte processual tal como o livro e que reforça precisamente a ideia de quão ténue pode ser a linha entre o real e a ficção. Ainda assim, “Pão de Açucar” resiste, afirmando-se como uma obra que não dá o tempo do leitor por mal empregue.

De muito bom no livro temos o traçado do mapa onde os pequenos predadores se movimentam, a caracterização das instituições onde se recolhem e os momentos aí passados, os diálogos que soam genuínos e todo o desvendar da história de Gisberta, da descoberta da sua natureza feminina à glória nas passereles do Porto e ao declínio, o inferno numa cave dum prédio embargado, o corpo doente moído de pancada por um bando de miúdos cujo fascínio era ver um gajo de mamas. Sem desculpabilizar os autores do crime, Afonso Reis Cabral encontra atenuantes para os actos cometidos e aposta na humanização das suas personagens, daqui decorrendo as maiores fragilidades do livro. Caminhando na linha de fronteira entre o racional e o emocional, o fio narrativo de “Pão de Açucar” arrisca, de alguma forma, a cair na lamechice. No final, fico com um sentimento de desconforto e até de alguma conflitualidade interior, o que não terá apenas a ver com uma história deveras chocante.