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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Painéis de Roma”



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Painéis de Roma”,
de Luís de Matos
Museu de Ovar
13 Jan > 30 Mar 2024


“Roma è un grande museo, un salotto da attraversare in punta di piedi.”
Alberto Sordi

Roma é uma cidade fascinante. Diz-se que uma vida não basta para a conhecer, quer pela vasta oferta em cultura, história, cinema, gastronomia ou futebol, quer pela riqueza dos seus monumentos, estátuas, igrejas, praças e fontes. Foi lá que, nos anos 60 do século passado, o escultor e pintor vareiro Luís de Matos viveu os tempos de exílio como opção para não ir para a Guerra do Ultramar e foi lá que se apaixonou pela cidade e pelo ambiente de liberdade e de democracia que vivenciou, dramaticamente contrastante com aquele, castrador e opressivo, da ditadura fascista de Oliveira Salazar. Como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, Luís de Matos viria a frequentar o curso de escultura da Escola Fazzini na Academia de Belas Artes de Roma, e o Circolo Romano di Cultura, onde fez pintura, estagiando depois na RAI – Rádio Televisão Italiana, na área da cenografia, em 1968. Desde então, terá regressado a Roma em inúmeras ocasiões, sempre com a mesma comoção, a mesma excitação, um renovado interesse.

Desta relação íntima de Luís de Matos com a Cidade Eterna resultou um corpo variado de desenhos e pinturas, uma parte dos quais se encontra patente ao público no espaço da Galeria dos Fundadores do Museu de Ovar. Sob o título “Painéis de Roma”, são mostrados vários painéis em acrílico sobre lona que, “sobrevivendo” individualmente, têm a particularidade de articular entre si, como peças de um puzzle que se encaixam umas nas outras, abrindo-se a novas e mais vastas visões. A peça mais significativa do conjunto designa-se “Roma 2015” e é um painel de grandes dimensões (4,0 x 2,35 metros), um óleo sobre lona policromático que o artista apresentou originalmente em 2016, na Galeria do Instituto Português de Santo António - que gere a famosa Igreja de Santo António dos Portugueses, na capital italiana –, e que entretanto já foi mostrado no nosso País por diversas ocasiões, até chegar à terra-natal do artista. 
 Imponente e chamativo, “Roma 2015” prende a nossa atenção.

Percorrendo com o olhar uma multiplicidade de elementos, vamos descortinando a cúpula da Basílica de S. Pedro, o Coliseu, a Villa Borghese, a ponte e castelo de Santo Ângelo, a Bocca della Verità, o Arco de Constantino, o Panteão, a Basílica de Santa Maria Maggiore. Um elefante prende a nossa atenção: é Hanno e integrava a embaixada enviada por D. Manuel I ao Papa Leão X, em 1514, que foi o maior acontecimento da Europa naquela época. Podemos também apreciar o reencontro entre S. Francisco de Assis e Santo António - representados na tela pelo Papa Francisco e por Monsenhor Agostinho Borges, actual reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses – e também uma figura do Papa João XXI com um olho tapado. E há mosaicos, sóis, espelhos, mármores, a guarda suiça do Vaticano, Alexandre Magno, Rómulo e Remo. Lá está, também, o portão verde da casa onde o próprio Luís de Matos viveu... Uma exposição em que as dimensões humana e artística se passeiam mão na mão.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

TERTÚLIA: "Conversas Úteis", com Itamar Vieira Junior



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com Itamar Vieira Junior
Museu de Ovar
04 Jun 2019 | ter | 21:30


Um dos paradigmas que mais se tem alterado nos últimos tempos tem a ver com uma cada vez maior proximidade entre escritores e leitores, fruto da promoção crescente de iniciativas que vão das apresentações de livros ou das comunidades de leitores, às grandes manifestações como os festivais literários ou as feiras do livro. Em Ovar, as tertúlias à roda dos livros são uma realidade cultivada desde 2013, muito por obra e graça de Carlos Nuno Granja, que teima em remar contra a corrente e em trazer ao encontro dos leitores importantes nomes ligados sobretudo às letras. Aqueles que amam os livros, reconhecem e valorizam este esforço e percebem que trazer às “Conversas Úteis” um autor da craveira de Itamar Vieira Junior, o vencedor do Prémio LeYa 2018, representa a possibilidade única de privar com um dos grandes escritores do nosso tempo.

Marcada pela informalidade, esta sessão deu a conhecer Itamar Vieira Junior nas suas dimensões enquanto escritor e enquanto pessoa. Profundamente envolvido com os grandes problemas sociais do nosso tempo, o escritor sabe que a literatura é uma arma poderosa e usa-a em busca da verdade, denunciando os abusos e combatendo as injustiças. É disto que trata o seu romance “Torto Arado”, na verdade a estrela da noite em Ovar. Protagonizado por mulheres, o livro foca-se em comunidades específicas do sertão brasileiro e que o escritor conheceu de perto, quer no âmbito da sua actividade profissional, quer também como parte do seu percurso académico como geógrafo de formação e doutorado em Estudos Étnicos e Africanos. “São comunidades de trabalhadores rurais que descendem de escravos. São pessoas que, apesar da abolição da escravatura, nunca deixaram de ser escravos de facto, indivíduos de terceira classe, sujeitos à servidão”, refere, acrescentando que “havia uma revolta em mim, precisava de contar esta história a partir da realidade destas pessoas, uma realidade ainda muito presente nos dias de hoje no Brasil e que os brasileiros desconhecem”. E conclui: “Este livro é um grito!”

Influenciado por escritores como Guimarães Rosa, Jorge Amado ou João Cabral de Melo Neto, Itamar Vieira Júnior começou a escrever ainda na adolescência. O projecto dum eventual primeiro livro, narrando as venturas e desventuras de duas irmãs, terminou ao fim de oitenta páginas. Dele chegou até hoje apenas o título, “Torto Arado”, que o escritor foi buscar à poesia de Tomás António Gonzaga. Ou talvez tenha chegado também algum pedacinho dessa ideia inicial, sobretudo quando percebemos que (quase) tudo se passa em torno das irmãs Bibiana e Belonísia. Escrito ao longo de um ano e meio, o livro foi submetido a concurso ao Prémio Leya e a expectativa quanto a uma eventual vitória nunca passou pelas cogitações do escritor. Daí que quando Itamar Vieira Junior, depois de ter sido informado da decisão do júri pelo próprio Manuel Alegre, ligou para a mãe a dar a notícia, a resposta não se fez esperar: “Deve ser trote, meu filho”. Não foi “trote” e, daí em diante, foi um nunca mais acabar de emoções, que tiveram o primeiro momento alto com a edição inaugural do livro em Portugal, em Fevereiro passado, e muito recentemente, quando o autor recebeu o Prémio, durante a Feira do Livro de Lisboa. Agora é a vez do Brasil acolher a publicação de “Torto Arado”, já no próximo mês de Agosto, e esse será, quiçá, o momento mais aguardado nesta viagem de sucesso: “Espero que o livro tenha um bom alcance junto dos leitores brasileiros”, diz.

Já na recta final da conversa, o público, que acorreu em número considerável ao Museu de Ovar, não se coibiu de colocar questões ao escritor, dele extraindo um conjunto de ideias que ajudaram a complementar toda a conversa inicial. Quanto ao Prémio LeYa, Itamar Vieira Junior reconhece que “tem uma chancela forte” e que “a responsabilidade quanto a próximas obras que possam vir a público aumenta”. Todavia, “escrever é um projecto de vida e eu continuaria a escrever, independentemente do prémio”, diz. Outro aspecto interessante ventilado pelo escritor refere-se às conexões entre “Torto Arado” e alguns títulos de autores portugueses, dando como exemplo José Saramago e “Levantado do Chão”. A propósito, diz: “Há aspectos comuns a ambos os livros que têm um enorme valor universal – o amor à terra, o pão que dela se extrai – e que acabam, forçosamente, por tocar os leitores”. E falou-se, claro, de política, essa entidade presente em tudo o que fazemos e mesmo no que não fazemos: “Num mundo imediatista, estarmos aqui reunidos, esquecidos da televisão ou do telemóvel, é um acto político. Uma subversão!” Uma bela subversão, diga-se, numa bela noite de conversa que, tão cedo, não se esquecerá.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

EXPOSIÇÃO: "Da Fotografia ao Azulejo"


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EXPOSIÇÃO: “Da Fotografia ao Azulejo”,
de José Luis Mingote Calderón
Maio do Azulejo 2019
Museu de Ovar
02 > 31 Mai 2019


No âmbito da 3ª edição do “Maio do Azulejo”, está patente ao público no Museu de Ovar, ao longo de todo o mês de Maio, uma mostra intitulada “Da Fotografia ao Azulejo”. Trata-se duma iniciativa do Serviço de Turismo da Câmara Municipal de Ovar, numa parceria com o Museu Nacional de Soares dos Reis, propondo um novo olhar sobre o azulejo enquanto expressão artística emblemática da paisagem cultural nacional, e as imagens que lhes estiveram na origem. Ressalve-se que esta é apenas uma parte do intenso trabalho de pesquisa de José Luis Mingote Calderón (Museo Nacional de Antropología – Madrid), exposto na íntegra em 2015 no Museu Nacional de Soares dos Reis, viajando posteriormente pelo Museo Etnográfico Provincial de León e pelo Museo Nacional de Antropología, em Madrid, e mais recentemente pelo Museu de Arte Popular, na reabertura daquele espaço, em Janeiro de 2017.

Convidando a uma viagem pelo país, com paragem em estações de caminho de ferro de norte a sul, “Da Fotografia ao Azulejo” toma como ponto de partida o azulejo e a imagem fotográfica que nele se reproduz ou, em muitos casos, se reinventa. Ao longo de duas dezenas e meia de painéis explicativos e ricamente ilustrados, o visitante contacta com a variada gama de opções de artistas e artesãos na abordagem aos seus modelos, que vão da cópia fiel à alteração drástica do original. As fontes gráficas incluem livros, revistas e postais e têm assinatura dos mais conceituados fotógrafos da época, de Joshua Benoliel a Carlos Relvas, de Emilio Biel a Domingos Alvão. Um trabalho em vídeo, da autoria de Carla Correia, serve de complemento – extraordinário, diga-se – ao material expositivo, concretizando a forma como foram pensados e executados os painéis de azulejos.

Mas porque o azulejo é um dos elementos diferenciadores do nosso território e uma das principais características do centro urbano da cidade de Ovar, nada melhor do que complementar a visita a esta exposição com um passeio pelo centro da cidade ao encontro das fachadas ricamente decoradas, culminando com a apreciação dos painéis de azulejo patentes nas paredes exteriores da estação de caminhos de ferro. A par da produção dos anos 80, inspirada em trabalhos da pintora vareira Beatriz Campos e criados por Fernando Gonçalves, do Atelier Razamonte, de Gaia, aí pode o visitante apreciar os painéis pintados entre 1917 e 1919 pelos conceituados artistas Licínio Pinto e Francisco Pereira, da Fábrica Fonte Nova, de Aveiro, e que se inspiraram nos cenários bucólicos dos fotógrafos Ricardo Ribeiro e António Ribeiro. Tudo motivos de sobra para celebrar mais um “Maio do Azulejo”, ajudando a valorizar e preservar o nosso património.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: Roberto Chichorro


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: Roberto Chichorro
Colaboração | Galeria Ap'arte
Museu de Ovar
20 Jan > 30 Mar 2019


Com todas as cautelas, o homem cinzento subiu a íngreme escadaria e virou à esquerda. Como uma onda, a cor atingiu-o em cheio e soube que era ali. “Rua 9”, confirmou, ao mesmo tempo que procurava disfarçar o embaraço por se sentir observado. Debruçada sobre a janela, uma mulher muito jovem e muito bela olhava distraída. A pele chocolate e o cabelo crespo, risco levemente ao lado a dividir a cabeça em dois hemisférios incertos, denunciavam-lhe a origem. “Moçambique, Lourenço Marques, Bairro da Mafalala”, pensou o homem, de Google Maps aberto na mente, a particular geografia a detalhar-se num zoom instantâneo. Viu-se a perder o pé nos olhos amendoados dela, na sua face rosada, na blusa azul tão leve e tão decotada, na promessa de beijos e tudo a dar-se daquela boca vermelha e carnuda. Quis falar-lhe, mas percebeu que a coragem ficara em casa. Fitou-a uma última vez, o olhar a resvalar pelo vaso de flores carmim antes de se estilhaçar na geometria do chão. Retomou o passo e seguiu em frente.

Atraído pelos trinados que se espalhavam no ar em alegres melodias, o homem cinzento dobrou a esquina e quase tropeçou no pequeno “Passarinheiro”, sentado entre sóis e luas, o olhar envergonhado, na mão esquerda uma enorme fisga de cor verde. Na pose adivinhou-lhe a ilusão no arremesso da pedra; no olhar vivo dos pássaros encontrou a certeza de um final feliz. Pareceu-lhe ouvir um “Rodar de pião em telhado de zinco”, mas talvez fosse só impressão. Voltou-se. O som tomava forma. Com redobrada cautela desceu a escadaria íngreme, virou de novo à esquerda e de novo se viu num mergulho de mil cores, de mil tons, de mil amores. Com o coração acelerado, escutou. Era uma “Serenata para beija flor em noite de Arlequim”. Cerrou os olhos, aspirou o aroma da canela e do gengibre que perfumava o ar e teve a certeza que a felicidade morava ali. No mesmo instante, o burro azul e o pássaro verde estremeceram com o clarão. O homem despira o cinzento e tomava as cores do arco-íris. Do interior da gaiola, um peixe acenava.

Patente no Museu do Ovar, com o inestimável contributo da Galeria Ap'arte, a exposição de pintura de Roberto Chichorro tem esta capacidade de nos fazer sonhar. Cada quadro é uma festa de cor, uma carícia na alma, um poema à vida. Cada detalhe, a ponta de um fio desse novelo grande e macio a que chamamos felicidade. A pintura de Chichorro é um convite permanente à brincadeira e ao riso. É um saltar à macaca. É uma corrida de bicicleta. É um bando de miúdos a correr atrás duma bola no areal sem fim da Praia da Catembe. Não vou alongar-me mais, mas arrisco em dizer que estamos perante um dos mais importantes acontecimentos culturais do Concelho de Ovar no ano corrente. Absolutamente a não perder!

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: João Galamba



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: João Galamba
Museu de Ovar
20 Jan > 30 Mar 2019


Jurista de profissão, João Galamba chegou a Timor-Leste em Maio de 2013, aí permanecendo durante cinco anos e meio. A par da actividade profissional, dedicou muito do seu tempo a sentir a realidade de um dos mais jovens países do mundo, registando-a com a ajuda de uma máquina fotográfica. Palmilhou o país de lés a lés, atravessou zonas completamente afastadas da civilização, desafiou o risco duma natureza imprevisível, mergulhou no azul mais profundo, debateu-se com a barreira da língua... e apaixonou-se. Pelas montanhas que se alongam para os céus e pelo mar infinito, pela cultura e pelos risos das crianças, pelas portas que se abrem e por aqueles que se desculpam de nada terem para oferecer.

Olhadas com a brandura do coração, são doze as imagens captadas em Timor-Leste que o artista nos mostra por estes dias no Museu de Ovar. De Maubessi a Dili, de Atauro a Tibar ou Liquiçá, João Galamba convida-nos a ler naquelas imagens a inocência nos sorrisos das crianças e a esperança no olhar dos mais velhos. Nas cenas do quotidiano como nas cerimónias ancestrais, é toda a alma de um povo que se abre ao nosso olhar, altiva mas sem soberba, apaziguada mas digna, com o orgulho de quem tanto sofreu mas com a humildade de quem sabe que o caminho se faz caminhando.

Como que em complemento a esta exposição, o livro “Timor-Leste - À luz do Sol Nascente” permite prolongar o prazer da viagem pela fotografia de João Galamba, vivendo e sentindo a vida como ela é na remota ilha a meio mundo daqui. No prefácio que escreveu, Xanana Gusmão refere-se, sentidamente, ao conjunto de imagens que integram o livro: “Nelas reconhecemos as cores que só aqui existem. Nelas sentimos o remoto, que para nós é muito mais que uma distância. Nelas vemos os sorrisos que, como os fatos de domingo, esperavam uma oportunidade para se fazerem ver”. Mais palavras para quê? Fica o convite a uma visita ao Museu de Ovar. Até 30 de Março, há um povo à sua espera de coração aberto.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

TERTÚLIA: "Conversas Úteis", com Afonso Reis Cabral



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com Afonso Reis Cabral
Museu de Ovar
10 Out 2018 | qua | 21:30


A provar que todos os momentos são bons quando o assunto é falar de livros, Afonso Reis Cabral esteve na noite de ontem no Museu de Ovar para um novo capítulo de “Conversas Úteis”. Moderada por Carlos Nuno Granja, esta foi mais uma sessão que resultou num excelente serão, com tanto de interessante como de enriquecedor. Numa altura em que acaba de lançar o seu segundo romance, o jovem autor apresentou-se perante uma plateia ávida de o ouvir falar da sua relação com a literatura, o novíssimo “Pão de Açucar” a capitalizar uma boa parte das atenções mas a deixar espaço suficiente a “O Meu Irmão”, obra de estreia deveras marcante, o Prémio Leya 2014 a coroar uma escrita sólida, madura e de enorme beleza.

E foi com “Pão de Açucar” que a conversa começou, Afonso Reis Cabral a afirmar ser este o romance que o torna escritor. Concretizando: “Comecei a escrever ‘O Meu Irmão’ com 22 anos, numa altura em que estava a tirar um mestrado, às voltas com uma bolsa de investigação e ainda um trabalho em part-time. Foi muito difícil conciliar todos os afazeres com a escrita e cheguei a ter dias em que só me apetecia dar um tiro em alguém. Talvez por isso é que demorei três anos e meio a escrevê-lo. Já ‘Pão de Açucar’ foi escrito em menos de sete meses, o dinheiro do Prémio Leya a dar-me a segurança necessária para deixar o emprego e dedicar-me por inteiro à escrita”.

Debruçando-se sobre “Pão de Açucar”, o escritor revelou tratar-se de um romance baseado na história de Gisberta, transsexual violentada e assassinada por um grupo de adolescentes num prédio em construção na cidade do Porto, um tema que abalou a sociedade à data dos acontecimentos, em Fevereiro de 2006. Escrever o livro correspondeu a um impulso na sequência de uma reportagem que viu sobre o caso, alicerçado em “investigação, entrevistas e muito trabalho de campo”, daí nascendo a necessidade de resolver um hiato neste caso que lhe pareceu claro: “Como é que um grupo de rapazes encontra Gisberta numa cave, a sua primeira reacção é ajudar e depois se passa disto para a violência com o resultado que conhecemos? Não é atacar um desconhecido, é atacar alguém com quem se tinham estabelecido laços”, refere, ao mesmo tempo que alude a “O Senhor das Moscas” para vincar a ideia.

Focando-se no processo de escrita, Afonso Reis Cabral volta-se agora para “O Meu Irmão”, a dificuldade maior residindo na criação da figura do narrador: “Na vida real, o meu irmão tem Síndrome de Down e não foi difícil desenhar a personagem com base na minha própria experiência. Difícil foi criar a figura do narrador, até porque eu não tinha nada de interessante na minha vida para contar”, confessa. Já o desafio de escrever “Pão de Açucar” foi muito diferente, a figura do narrador sendo um rapaz de 12 anos, uma situação social muito complicada, institucionalizado… e é ele que encontra Gisberta: “São realidades que me passavam ao lado e foram as conversas com outras pessoas que me permitiram definir as personagens. É de conseguir descobrir essas realidades e pô-las na pele das personagens que vive o livro, mas eu não consigo analisá-las e nem tenho de o fazer”, diz. Já quanto ao narrador, “ele conta uma história na qual é parte interessada, sendo, por isso, um narrador não fiável. No limite, não serei eu a manipular o leitor mas sim o Rafa”, conclui.


A conversa prossegue animada e aborda-se a força do real face à ficção, em particular no livro “Pão de Açucar”: “Este livro é sobre o mal. A partir do Capítulo 40 as coisas passaram-se exactamente assim. Há diálogos que são retirados textualmente do processo. É uma angústia saber que aquilo aconteceu daquela forma. Cheguei a ter pesadelos com o livro”, conta. Tempo também para falar dessa ideia errada de que a escrita é resultado da inspiração, com o escritor a referir que “95% do livro é trabalho, trabalho e mais trabalho” e a dar o exemplo de José Saramago, um homem que “escrevia como quem lavra a terra”. Fala-se ainda na relação com o leitor, a pessoa para quem o livro é escrito, em quem se pensa enquanto se escreve, ou não fosse a escrita dialógica: “Tem de haver alguém do lado de lá”, afirma. E ainda uma palavra de agradecimento para a sua editora, Maria do Rosário Pedreira, por ter mitigado as inseguranças em relação à escrita, ajudado a amenizar a solidão inerente ao acto de escrever e ter sabido ler e aconselhar em todos os momentos.


A conversa aproxima-se do fim e o espaço é agora de diálogo com os presentes. Não se furtando às questões que lhe foram sendo colocadas, Afonso Reis Cabral expôs a sua visão do escritor enquanto voz interveniente e moderadora perante a sociedade, falou das dificuldades em fazer passar a mensagem, contou de que forma lida com a crítica e de como o magoa a falta de honestidade intelectual, para regressar a “Pão de Açucar” e dizer que não há explicação para o mal, para a forma como ele se dissemina e para as variantes que assume. O final foi, como sempre, de confraternização, a troca de palavras com o leitor a estender-se pelo tempo das dedicatórias e autógrafos. Esta foi mais uma excelente tertúlia no espaço do Museu de Ovar, local onde se desenrolará novo capítulo já na noite de amanhã, dia 12 de Outubro, quando o escritor Silvério Manata e o escultor Alves André estiverem frente a frente com o público. A não perder!

segunda-feira, 16 de julho de 2018

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Negative Underground"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Negative Underground”,
de Filipe P. Neto
Museu de Ovar
30 Jun > 01 Set 2018


Roland Barthes referiu-se à arquitectura como sendo “sempre sonho e função, expressão de uma utopia e instrumento de conveniência”. Verdadeiro campo de batalha do espírito, ela constitui uma fonte inesgotável de histórias magníficas à espera de serem imaginadas, visualizadas e construídas. A arquitectura é um objecto tão intensamente físico e visível no espaço que a sua presença acaba, inevitavelmente, por influenciar cada um de nós. Talvez por isso, na cultura contemporânea, arte e arquitectura partilhem cada vez mais questões comuns, estreitando as suas fronteiras disciplinares para compor um complexo maior, cujo sentido nos ajuda a entender melhor o mundo em que vivemos.

Neste linha de acção, Filipe P. Neto traz ao Museu de Ovar uma exposição de fotografia que parece ilustrar na perfeição este cruzamento de interesses entre arte e arquitectura. “Negative Underground” tem como enfoque o edifício sede da EDP do Porto, em particular a zona envolvente ao Auditório, e nela o artista desenvolve uma série fotográfica a preto e branco, utilizando o negativo das fotografias para transformar as sombras em luz e vice-versa. Deste modo, propõe uma realidade alternativa que ultrapassa a simples informação que o espectador recebe através dos sentidos, dando a ver uma outra forma de percepcionar o espaço.

O resultado desta abordagem à margem das convenções é espantoso, resultando numa sequência de imagens de enorme beleza, a luz a desempenhar um papel primordial e a conferir ao conjunto um toque de suave harmonia. Ondulantes, as linhas acentuam a noção de espaço como se de verdadeiras zonas de fronteira se tratassem, o todo contrastado em nuances de luz e sombra. Ainda que perfeitamente identificável, o objecto fotografado é assumidamente manipulado, deixando-se ao espectador a liberdade de o descodificar ou de fruir dele assim mesmo. Mais uma excelente exposição que aporta ao belíssimo espaço da Sala dos Fundadores do Museu de Ovar e que pode ser vista até ao próximo dia 01 de Setembro de 2018.

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Filipe P. Neto nasceu no Porto, em 17 de Abril de 1967. Licenciado em Engenharia Electrónica e trabalhando nessa área, é um amante da fotografia desde muito novo, tendo concluido em 2010 o curso de “Fotografia Digital” no Instituto Português de Fotografia. Participou nos livros internacionais “No words”, 1xInnovations AB and photographers, 2012 e “Mono”, 1xInnovations AB and photographers, 2014. Colectivamente expôs no porto, Sulaymaniyah (Iraque, 2012) e Portland (estados Unidos, 2015). Individualmente, a sua exposição fotográfica “Transições” passou pelo Porto, Santa Maria da Feira e Monção. Já a exposição “Sonoridades”, composta por fotografias da Casa da Música, pôde ser vista em Vila do Conde, Felgueiras, Valongo e Porto. Foi por duas vezes finalista do International Photography Award – EMERGENT DST – 2012 e 2013, integrado nos Encontros da Imagem e no concurso de fotografia “Objectivamente Gaia”, 2013, promovido pelo Turismo de Gaia. Recebeu também três Menções Honrosas no IPA – International Photography Awards – 2014, com a série “Stairs Variations”.

domingo, 27 de maio de 2018

TERTÚLIA: "Conversas Úteis", com Eugenia Rico



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com Eugénia Rico
Museu de Ovar
26 Mai 2018 | sab | 21:30


Eugenia Rico foi a convidada de Maio das “Conversas Úteis”, conjunto de tertúlias literárias promovidas pelo Museu de Ovar e particularmente vocacionadas para o campo das letras. Como habitualmente, a moderação esteve a cargo de Carlos Nuno Granja e, uma vez mais, o saldo foi deveras positivo, de tal forma a escritora abriu ao público a sua cumplicidade e encanto, o seu requintado sentido de humor e a sua visão clara e acutilante sobre o mundo actual, e em particular no que à literatura diz respeito.

Nascida em Oviedo, Eugenia descobriu que queria ser escritora com cinco anos de idade, tendo publicado o seu primeiro conto aos onze. Os estudos em Direito e Relações Internacionais levaram-na a França e à Bélgica, mas os livros acabaram por falar mais alto e, em 2000, publica o seu primeiro romance, “Los Amantes Tristes”, o primeiro duma trilogia que prosseguiria com “La Muerte Blanca” (2002) e “La Edad Secreta” (2004). Tem, até hoje, nove livros publicados, quatro dos quais traduzidos para português, sendo “Los Amantes Tristes” / “Os Amantes Tristes”, a sua publicação mais recente no nosso País. Apresentado na Fundação José Saramago no passado dia 23 de Maio de 2018, “Os Amantes Tristes” estiveram na origem da vinda da escritora a Portugal e, num programa recheado de grandes acontecimentos, a passar pela nossa cidade para uma agradável troca de impressões e partilha de algumas curiosidades e experiências com o público ovarense. A acompanhá-la esteve Marcelo Teixeira, dirigindo também ele algumas palavras ao público e enriquecendo a tertúlia com a sua visão de tradutor e editor desta obra.

“Há muitas maneiras de matar um homem, mas uma das mais tremendas é impedi-lo de dormir. O homem não morre por não poder descansar, mas sim por não poder sonhar. Sempre que uma Nação conquista a sua independência, é dos artistas que se socorre para que sonhem os seus jovens ideais. Precisamos de artistas que sonhem o sonho dos povos.” Com estas palavras, Eugenia Rico começou por colocar-se a si e ao conjunto da sua obra no campo dos sonhos e explicou por que é que pensa poder oferecer-se a si própria o “luxo” de escrever: “Durante muito tempo não me foi fácil entender o sentido de escrever quando há tanta gente que não sabe sequer ler. Com o tempo acabei por perceber que tudo o que escrevemos é para sempre, existirá para lá de nós. Escrever é parte dum caminho de evolução para a Humanidade.”

Quanto à sua escrita, dum ponto de vista formal, Eugenia Rico gosta de se comparar a um argumentista (talvez ao facto não sejam alheios os seus estudos em Arte Dramática e Guionismo para Cinema, que cursou sob a direcção de Fernando Trueba). “O escritor faz o guião mas é ao leitor que cabe o papel de realizador. É ele quem determina que os tempos sejam mais lentos ou mais breves, quem faz o casting. Quando escrevo, deixo espaços no livro para que o leitor os possa completar. O verdadeiro detective é o leitor porque só o leitor sabe o que acontece verdadeiramente”, revela a escritora. Particularmente em relação a “Os Amantes Tristes”, Eugenia Rico confessou que, antes de o publicar, tinha páginas e páginas escritas guardadas na gaveta, associando a decisão de avançar com a sua publicação a um episódio marcante na sua vida, uma infeção num pé que resultou num delicado regresso a Madrid e numa intervenção complexa. Num mercado enorme e particularmente competitivo como o espanhol, foram muitas as portas que, no início, se fecharam à escritora. Mas a sua persistência acabou por dar frutos e ela é hoje um dos nomes importantes das letras no país vizinho, com obra editada na Alemanha, Itália, Grécia, Bulgária, Holanda, Rússia, Estados Unidos, México e Brasil.


P. S. - Para a parte final da tertúlia estava guardada uma enorme surpresa, a da descoberta em Ovar do primeiro leitor português de “Os Amantes Tristes”. Importará aqui referir que o leitor sou eu e que a minha recensão crítica ao romance de Eugenia Rico será publicada já de seguida. Aí se desvendará um pouco daquilo que constituiu uma particular conversa com a escritora, um momento privilegiado de partilha e conhecimento e que guardarei com especial carinho.

domingo, 13 de maio de 2018

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Figurado de Estremoz"



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Figurado de Estremoz”,
de Jorge da Conceição
Museu de Ovar
12 Mai > 02 Jun 2018


Patente numa das salas do Museu de Ovar, a exposição “Figurado de Estremoz “, do ceramista Jorge da Conceição, proporciona ao visitante momentos únicos de fruição e deleite por vários motivos. Desde logo, pelo próprio tema da mostra, o “Figurado de Estremoz”, cuja produção está classificada pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade, o que constitui um motivo de orgulho mais a acrescentar ao nosso vasto e riquíssimo património. Depois, pela técnica inerente à feitura de cada uma das peças – modeladas à mão, em barro vermelho, cozido e policromado -, um processo minucioso e que se prolonga no tempo por largos dias. Mas sobretudo pela paixão que o artista coloca em cada uma das peças que produz, peças únicas, de expressões únicas, umas vezes mais alegres, outras vezes mais sérias, circunspectas, mas sempre diferentes, como diferentes são os homens entre si.

É esta a base do trabalho de Jorge da Conceição e do qual uma parte nos rende agora visita, numa mostra constituída por 65 figuras de diferentes tipologias. Contrariando a ideia feita de que o Figurado de Estremoz são só “Primaveras” e “O Amor é Cego”, Jorge da Conceição traz-nos igualmente presépios, imagens de Santo António, de Nossa Senhora e da vida e paixão de Cristo, figuras alegóricas e contemporâneas, ofícios rurais e tradicionais, quotidiano doméstico, portugalidades e mesmo assobios. Extasiados, demoramo-nos em cada uma das peças, atentamos nos pequenos detalhes, admiramos a riqueza de pormenores, a delicadeza dos elementos compositivos de cada um dos quadros, a simplicidade e pureza que se derramam dumas mãos postas, duns joelhos em terra, duns braços que se estendem e se dão. E percebemos que não é todos os dias que temos a oportunidade única de ver quanta beleza se derrama duma superior inspiração e... dum par de mãos!

Admirável e tocante, o trabalho de Jorge da Conceição vem das mãos – as suas! - que modelam o barro e que, com o pincel, desenham delicadas linhas e formas de cores subtis. Mas vem, sobretudo, do coração. E isso sente-se. Há nele muito do que havia já no seu avô, Mestre Mariano da Conceição, um homem que na década de 30 do século passado contribuiu decisivamente para recuperar a arte, nessa época quase perdida, de produzir os “Bonecos de Estremoz”. E que se prolongou depois na avó Liberdade (que nome delicioso para quem trabalha estas peças, e não só), mas também na sua tia Sabina Santos e na sua mãe, Maria Luísa da Conceição. Embora S. Tomé não integre o lote de peças patentes ao público, apetece dizer que esta exposição de “Figurado de Estremoz” é “ver para crer”. Mas porque o tempo voa e três semanas passam a correr, o melhor é não deixar para amanhã o que pode ver e crer (ou querer) ainda hoje. Vá ao Museu de Ovar, admire o trabalho de Jorge da Conceição e confirme que há coisas neste mundo que valem verdadeiramente a pena!

domingo, 29 de abril de 2018

TERTÚLIA: "Conversas Úteis", com Rodrigo Costa



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com Rodrigo Costa
Museu de Ovar
28 Abr 2018 | sab | 15:00


Em mais um momento de “Conversas Úteis”, a tertúlia que teve lugar na tarde de hoje trouxe ao encontro do público o pintor Rodrigo Costa, cuja exposição “Entre a Síntese e o Detalhe” pode ser presentemente apreciada na Sala dos Fundadores do Museu de Ovar. Ainda que o artista tenha na literatura um dos focos da sua atenção, a conversa decorreu à margem dos livros o que, não sendo inédito, é pouco usual num espaço de conhecimento e debate que tem sabido promover e consolidar, junto do público ovarense, o gosto pelas artes e pela leitura, em particular. Inédito, sim, como fez questão de salientar o Diretor do Museu de Ovar, Professor Manuel Cleto, foi o facto de termos tido Joaquim Margarido no papel de moderador, ao invés de Carlos Nuno Granja, a alma e o rosto habitual destas conversas.

Inaugurada no passado dia 14 de Abril, “Entre a Síntese e o Detalhe” permitiu comprovar as naturais expectativas criadas em torno da exposição, confirmadas uma semana mais tarde com a realização dum workshop de pintura com modelo, ao longo do qual foi possível ao público perceber a forma como razão e emoção coexistem na génese e decurso do processo criativo. Daí que esta conversa com Rodrigo Costa, direccionada para o artista e a sua obra, se tenha revelado particularmente útil, dando a possibilidade de completar muito do que ficou por dizer nos dois importantes momentos anteriores e revelando, no fascínio da Arte, o fascínio da própria Vida.

A leitura de “... Em Aranjuez... Em Aranjuez, Meu Amor!...”, poema da autoria do artista, superiormente declamado pela poetisa Aurora Gaia, serviu de mote para o arranque da conversa, ao encontro do processo de criação artística e do rejuvenescimento do olhar do pintor a cada dia que passa, convocando a eterna juventude. Ainda no domínio do etéreo, sem confundir espiritualidade com religiosidade, o pintor assumiu sem rodeios a sua fé na existência duma entidade superior - “chamemos-lhe Deus, se quisermos”, disse –, perturbadora porque imaterial mas profundamente presente na sua pintura. Uma entidade que, à revelia da razão, dita decisivamente o nascimento e desenvolvimento da obra, dirigindo a cor e orientando o traço.

Entre “chamados” e “escolhidos” - com Joaquim Margarido a citar o Evangelho Segundo S. Mateus para lançar novas questões -, o artista teve a oportunidade de contextualizar aquilo que é para si a inspiração e de, recordando os primórdios da sua carreira, falar da inquietação que, desde muito cedo, tomou conta de si e das dúvidas que, em matérias tão importantes como o ensino da arte, a sua promoção e o seu comércio, nunca se desfizeram, antes se avolumaram. “Para se elevar, basta ao artista valer-se da sua obra, sem precisar de apoucar o outro”, é apenas uma de várias afirmações de Rodrigo Costa, reveladoras do seu desconforto face à incompreensão, aos interesses instalados, ao servilismo e à mediocridade que tomou conta da sociedade em geral.

A parte final desta interessante conversa ficou marcada pelas questões colocadas pelo público mas, sobretudo, pelos testemunhos de Eulália Gonçalves, autora do texto de apresentação do catálogo da exposição “Entre a Síntese e o Detalhe”, Aurora Gaia, Medeia - modelo “respeitosamente desrespeitado”, e ainda Elizabeth Leite, pintora em ascensão e admiradora confessa da obra de Rodrigo Costa. Perante figura tão singular, tão rica de experiências, tocante de sinceridade e frontalidade, tão apaixonada pela vida, foi muito o que ficou por dizer. Mas sosseguem-se os espíritos porque a história não acaba aqui. Até ao próximo dia 12 de Maio, data do encerramento da exposição, lugar ainda a dois workshops de pintura com modelo, o primeiro dedicado à técnica de pintura a carvão (5 de Maio) e o segundo dedicado à técnica a óleo (dia 12 de Maio). Neles, o espaço de diálogo será sempre privilegiado e a conversa útil voltará, certamente, a acontecer. A não perder, portanto!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Entre a Síntese e o Detalhe"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Entre a Síntese e o Detalhe”,
de Rodrigo Costa
Museu de Ovar
14 Abr > 12 Maio 2018


Toda a intuição artística autêntica ultrapassa o que os sentidos captam e, penetrando na realidade, esforça-se por interpretar o seu mistério escondido. O seu fluxo brota das profundezas da alma humana, lá onde a aspiração de dar um sentido à própria vida se une com a percepção fugaz da beleza e da unidade misteriosa das coisas. Foi isto que Rodrigo Costa conseguiu transmitir no workshop de pintura que ministrou no Museu de Ovar no passado sábado, 21 de Abril, e que serve de base a uma leitura mais rica e detalhada do conjunto de obras que compõem a exposição “Entre a Síntese e o Detalhe”, da sua autoria.

Das paisagens amplas duma natureza que, na sua placidez aparente, encerra o germe da fúria e da destruição, à calma do atelier, espaço de conforto transformado em desconforto pelo impulso criador, o conjunto expositivo contempla uma viagem entre o real e o imaginário, abrindo ao espectador a possibilidade de fruir o que é dito e de intuir o tanto que fica por dizer em cada uma das obras apresentadas. A dimensão da arte de Rodrigo Costa transcende o belo e coloca-se além do juízo estético de cada um. Cada obra sua revela que o artista é pensamento, inteligência, razão, mas também é emoção. O meio envolvente, a natureza, o que observa “sob céu de silêncios” ou num “poema do princípio sem fim”, é transmitido ao espectador de forma emocional, lançando-o nas mesmas dúvidas e certezas perante emoções de prazer ou desagrado, gosto ou tristeza, beleza ou fealdade.

Rodrigo Costa não é alguém preocupado em criar rupturas, porque, como o próprio afirma, nunca viu na Pintura, ou na Arte em geral, mais do que poesia, espaço de expressão do que se sente, contando segredos tornados histórias que não quer deixar caladas. Que há de novo, então, que possa oferecer, se não o move o interesse de percorrer caminhos diferentes ou, mesmo, fazê-los ao contrário? A resposta não poderia ser mais eloquente e está nas palavras do artista: “Novo é o caminho que fizermos, sendo o nosso; é o destino que desenharmos com o nosso gesto; é a integridade com que nos aceitamos, sem nos desvirtuar a obsessão por um lugar na História... Novo é o que fizermos ser nosso reflexo – que a História está farta de quem não se aceita na imagem que o espelho mostra”. É esta carga de verdade que atravessa “Entre a Síntese e o Detalhe”, conjunto de dezasseis trabalhos de enorme beleza e alcance e que pode ser apreciado até ao próximo dia 12 de Maio na Sala dos Fundadores do Museu de Ovar.

domingo, 22 de abril de 2018

WORKSHOP DE PINTURA: "Entre a Síntese e o Detalhe"



WORKSHOP DE PINTURA: “Entre a Síntese e o Detalhe”,
de Rodrigo Costa
Museu de Ovar
21 Abr 2018 | sab | 15:00


Inaugurada no passado dia 14 de Abril, a exposição de pintura “Entre a Síntese e o Detalhe”, de Rodrigo Costa, não se esgota nas dezasseis belíssimas composições patentes ao público no Museu de Ovar e sobre as quais procurarei pronunciar-me em breve aqui no Blogue. O programa inclui, ainda, uma conversa com o artista, que terá lugar na tarde do próximo sábado, dia 28 de Abril, para além dum workshop de pintura que decorreu na tarde de ontem e que chamou à Sala dos Fundadores do Museu de Ovar um numeroso grupo de amigos ou simples admiradores do pintor, para três horas de partilha de experiências, conhecimento e deleite. Tendo por tema “Medeia”, a tragédia grega de Eurípedes, e contando com a actriz Aurora Gaia a servir de modelo, o workshop teve um particular enfoque na parte emocional da pintura enquanto forma de expressão, na sua vertente essencialmente subjectiva, acabando por se revelar, desse ponto de vista, inusitadamente intenso, ao mesmo tempo perturbador e fascinante.

Rodrigo Costa começou por evidenciar a importância do dramatismo do objecto artístico e a forma como isso é determinante para o envolvimento do artista com a sua obra. Pintar é todo um processo profundamente íntimo – toda uma “paixão”, nas palavras do artista – que tem o seu início quando se escolhe o tema e cujo desenvolvimento decorre à margem da vontade consciente. “Tenho de me guiar por aquilo que me vem de dentro”, confessa o artista, a voz embargada pela emoção. Desde o esqueleto, traçado a aguarela em pinceladas rápidas e decididas, até aos detalhes finais, com o pastel a ser a opção para vincar a força das formas e da cor, Rodrigo Costa mostra o quanto a pintura é um trabalho complexo, fonte de dor e prazer, ditado pela razão mas, sobretudo, pelo coração. Ainda que suportado em princípios minimamente concertados, é um processo conduzido por cada pincelada, um trajecto eminentemente emocional. O público sente isso e mostra-o com um silêncio quase reverencial.

O olhar recai sobre o papel e, paulatinamente, o desenho vai adquirindo definição. O espectador vê a aguarela fluir e percebe como que uma espécie de fuga à identificação dos detalhes. A preocupação deixou de ser o modelo para recair agora sobre a própria identidade do artista, o seu grafismo. As ideias surgem a uma velocidade alucinante, são demasiadas as dúvidas para tão poucas certezas. O pintor angustia-se, debate-se. É fundamental ouvir-se, escutar-se a si próprio, sentir a cada momento quando é que pode avançar, como é que pode avançar. E é isso que irá fazer. As palavras não são mais dirigidas ao público, de quem o artista se alheou. Recolhido sobre si mesmo, ensaia um solilóquio no qual se intuem respostas. Os sussurros são audíveis, o sentido das palavras escapa ao entendimento - “dão-me estas pancadas...”, “ok, ok, óptimo...”, “talvez o diabo nunca tenha estado num cenário destes...”. O gesto alarga-se. Há desespero e há fúria. Aquela personagem irrequieta, que reparte o seu olhar entre a tela e o modelo, que recua dois passos para avaliar o progresso do seu trabalho, que se afoita na escolha da cor ideal, do pincel ideal, que se lança sobre a obra para esbater com o dedo uma mancha de tinta ou para soprar o papel libertando-o do pó que o pastel deixou é, afinal, duas, e não uma pessoa. O Rodrigo Costa racional sabe que não pode contrariar o Rodrigo Costa emocional e deixa-se ir ao sabor dum apelo que passou a dominá-lo.

Não interessa se é ou não é; se não é, passa a ser”. Entre avanços e recuos, a determinação com que ataca a obra mostra que soube escutar o seu íntimo. Há traços e linhas e elementos estruturais que deixaram de ser vistos como incómodos acidentes de percurso e se transformaram em pepitas caídas no sítio certo e que irão ser preservadas. O trabalho está praticamente concluído. Agora o cérebro começa a brincar e surgem coisas que já pouco acrescentam à composição final. Entra-se na fase perigosa, quando o bom é inimigo do óptimo. “Acho que é isso!”, diz com determinação o artista, recuando dois passos e baixando lentamente os braços. Com a sala suspensa, Rodrigo Costa parece saído dum transe quando encara o público. A voz adquiriu a normalidade. Divide o olhar entre a obra e os presentes na sala. “Assim, de repente, para que as pessoas percebam minimamente, acho que a situação está resolvida”, serão as suas palavras finais. Ainda inquieto, a recuperar da emoção, o público aplaude com vigor. “Medeia” desce do seu trono e observa aquilo que é a sua representação. “Que lindo”, exclama, feiticeira tomada pelo feitiço da forma e da cor. Mas a história não acaba aqui!...

domingo, 15 de abril de 2018

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Olhares"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Olhares”,
de José Eduardo Elvas
Museu de Ovar
14 Abr > 05 Mai 2017


Aqueles que conhecem o José Eduardo Elvas há mais tempo, associam-no desde sempre ao Atletismo e, em particular, às provas de fundo, de resistência, onde o crer e a vontade vão de mãos dadas com o estoicismo e o sofrimento. A sua carreira prolongou-se por quase cinco décadas e foi pontuada por enormes resultados desportivos, tantos que nem o próprio deve saber contá-los. Foi sempre, naturalmente, um homem habituado a traçar objectivos, a sofrer para os alcançar e a colher, as mais das vezes, os louros da vitória. No desporto como na vida, é um homem que não gosta de perder. Eu diria que “nem a feijões”. Falem-lhe do Sporting e perceberão imediatamente aquilo que quero dizer. É pois deste homem duro, lutador e habituado a “não mostrar o jogo”, que nos chega uma belíssima exposição de fotografia, “Olhares”, patente desde ontem e até ao próximo dia 05 de Maio no Museu de Ovar. Uma exposição que, há muito pouco tempo atrás, não estaria nas cogitações do artista. Só que a vida dá muitas voltas e as voltas na vida de José Eduardo Elvas levaram-no ao encontro duma máquina fotográfica.

Importa dizer que este encontro só aconteceu porque os problemas de saúde aconselharam-no, primeiro, a abrandar e, pouco depois, a parar em definitivo. Não fosse isso e o plano era para seguir à risca: o José Eduardo Elvas continuaria a correr – e a ganhar! -, até colocar um ponto final na sua carreira quando, aos 80 anos de idade, corresse a Maratona de Nova Iorque. Continuaria a treinar no seu território favorito – o vasto espaço florestal das Dunas de Ovar -, a correr veloz por sobre picadas com nomes tão bizarros como das “maias”, do “Brandão Marques”, das “árvores marrecas” ou o “sobe e desce grande” e... a não ver a beleza que se abria ali mesmo à sua frente. Parafraseando-o, “quando corremos e corremos para ganhar não olhamos, não vemos”. E foi quando deixou de correr e começou a caminhar que passou a ver. E a dar-nos a ver os seus “olhares”, que gentilmente foi partilhando na sua página no Facebook [AQUI]. Aí o descobri e, desde logo, me senti deslumbrado pelo seu talento e intuição, pela sua qualidade, pelo seu olhar. Aí continuo a ir diariamente, atraído por esse olhar, um olhar inspirador. Um olhar onde há, sobretudo, uma enorme sensibilidade, que toca profundamente e emociona.

É isso que se pode perceber da apreciação destes seus “Olhares”, agora expostos no Museu de Ovar. São doze fotografias que espelham bem, a par da enorme paixão que nutre pelos seus “habitats naturais” - o mar e a floresta -, o desejo de os tornar conhecidos e de os estender a outras paisagens do nosso território. Totalmente amador, recusando-se a si mesmo o título de fotógrafo e confessando não haver nenhum nome que lhe sirva de referência, José Eduardo Elvas coloca a estética e o gosto pessoal acima da técnica. Caminha, tira umas fotografias e isso são os seus olhares. Essa abordagem espiritual da fotografia, essa pureza no gesto que se intui quando observa, numa floresta a ressumar a caruma molhada e a resina, o chapéu dum cogumelo que acaba de romper à superfície, esse amor com que olha as “esculturas” deixadas pelo mar na maré vaza ou pelo vento na orla das dunas, dão nota duma pessoa invulgar e que é, ao mesmo tempo, um fotógrafo invulgar. Já se disse que José Eduardo Elvas foi obrigado a parar de correr, virando-se para a fotografia. Seria cruel da minha parte dizer que “há males que vêm por bem”, mas ele não me leva a mal se partilhar com ele uma das minhas máximas: “Quando se fecha uma porta, abre-se logo uma janela”. Neste caso, uma janela de horizontes vastos e belos. Uma janela aberta aos mais belos e vastos olhares. Do Zé, naturalmente!

domingo, 25 de fevereiro de 2018

TERTÚLIA: "Conversas Úteis", com Álvaro Domingues



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com Álvaro Domingues
Museu de Ovar
24 Fev 2018 | sab | 21:30


Se de utilidade falamos quando falamos de “Conversas Úteis” - conjunto de tertúlias promovidas com espantosa regularidade pelo Museu de Ovar em torno de livros, autores e leitores -, então o capítulo mais recente destes encontros terá batido aos pontos os demais. Tendo o seu novo livro, “Volta a Portugal”, como ponto de partida, Álvaro Domingues deu uma verdadeira aula sobre o território português, desconstruindo a ideia do país-mosaico e desmontando os clichés habituais que concorrem para a ideia (impingida) de unidade territorial. Fê-lo apoiando-se num discurso esclarecido e extraordinariamente acessível e ainda em fotografias da sua autoria, convidando o público a refletir sobre o muito que se esconde por detrás de cada imagem, de cada mensagem.

Esta utilidade foi tanto mais útil, passe o pleonasmo, quanto a leitura que havia feito do livro não gerara em mim grandes entusiasmos. Houve, assim, a possibilidade de perceber um objectivo fundamental de Álvaro Domingues ao escrever o livro: Transportar o leitor para uma determinada ambiência, oferecer-lhe ferramentas para compreender aquilo que se esconde por detrás das palavras e das imagens, conceder-lhe total liberdade para relacionar as coisas entre si e esperar que seja ele a encontrar a unidade do livro. “Volta a Portugal” é, pois, uma “obra aberta”, aberta a várias leituras, a vários sentidos, assente numa escrita hipertextual, visto ser esta a que melhor se adapta ao estilo e aos motivos do livro. Entendidas assim as coisas, importa um regresso à leitura de Volta a Portugal” para tirar teimas.

Ao longo de duas horas que passaram num ápice falou-se, entre muitas outras coisas, da estranheza desta nova vida na esfera dos livros - “tenho alguma dificuldade em ouvir as pessoas dizerem que sou escritor” - e do desassossego dum professor de Geografia a dar aulas numa Faculdade de Arquitectura. Falou-se de textos que remontam ao Século XVI e de fotografias ao encontro dos “emissores de sinais” que são “aquelas gentes que habitam aquelas terras”. Falou-se da relação poética “cidade-campo” ser, na realidade, uma relação de “poder-dominação” e da urbanização ser, à escala planetária, “o grau zero da condição humana”. Também de toiros bravos e de puro Ribatejo, de framboesas e de Nepaleses, de burros que já não puxam carroças e passaram a ser meros elementos decorativos, de faianças e camelos, de papoilas e morangos e ópio e Beatles. Ainda de globalização e de desterritorialização - “essa palavra estranha para um geógrafo” -, do rural versus o neo-rural, duma paisagem que existe para ser mudada e dum Portugal pós-moderno que nunca chegou a ser moderno. E falou-se de “Entre nós... da auto-estrada”, um livro que vem a caminho e onde iremos “tentar perceber como é que um dispositivo socio-técnico tão performativo influencia o território, o espaço e a paisagem”. Vamos estar atentos!

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA, de Jorge Bacelar



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA
de Jorge Bacelar
Museu de Ovar
03 Fev > 03 Mar 2018


Está patente desde o passado dia 3 de Fevereiro, no Museu de Ovar, a Exposição de Fotografia de Jorge Bacelar, série de 39 retratos que fazem incidir o olhar sensível do artista sobre uma ruralidade na qual faz questão de se incluir. Veterinário de profissão na Murtosa, em pleno coração da região do Baixo Vouga Lagunar, Jorge Bacelar estabelece com as gentes do campo uma rara cumplicidade, retratando-as de forma a sublinhar o que de mais puro existe na sua essência e acrescentando dignidade e solenidade a cada rosto, a cada gesto.

Jorge Bacelar tem esse raro dom de combinar o olhar realista com a utilização dramática da luz. Deste ponto de vista, o artista está para a fotografia como Michelangelo Merisi da Caravaggio está para a pintura. As suas obras propõem um naturalismo estrito, assente em ambientes entre o real e o encenado e numa cuidada observação física dos sujeitos retratados – as mãos, por exemplo, são superiormente evidenciadas pela sua fotografia. Esta teatralidade particular dos “quadros”, é reforçada pelo excepcional domínio do claro-obscuro - Caravaggio, precisamente -, fazendo com que as zonas de sombra se “esbatam” por completo, ao mesmo tempo que os sujeitos são trespassados por uma luz divina.

Há na fotografia de Jorge Bacelar uma dimensão eminentemente bíblica. No gesto de pegar ao colo um galo ou de colocar aos ombros um cabrito, no afagar com as mãos calosas o rosto duma criança, no levar à boca uma fatia de melancia ou no partir a broa, não há qualquer nostalgia ou fatalismo, apenas ternura. É a natureza a dar largas ao seu livre curso, fundado nos mistérios da Criação. O que Bacelar dá a ver é, tão somente, o profundo respeito do homem pela terra de onde retira os seus proventos, o que remete para um ideal de pureza que o (nos) aproxima de Deus. Mas o melhor é cada um tomar o rumo do Museu de Ovar e avaliar por si. As obras estarão expostas por um período de tempo reduzido e convém anotar sem demora na agenda esta quase obrigação, sob pena de se vir a perder aquele que será, sem sombra de dúvida, um dos grandes momentos culturais de 2018 no Concelho de Ovar!

domingo, 21 de janeiro de 2018

TERTÚLIA: "Conversas Úteis", com António Canteiro



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com António Canteiro
Museu de Ovar
20 Jan 2018 | sab | 21:30


Com a festa na rua em noite de abertura do Carnaval de Ovar, foi no aconchego da Sala dos Fundadores do Museu de Ovar que se fez a verdadeira festa, a da palavra, a que alimenta o espírito e faz viver. António Canteiro foi o convidado de honra desta primeira sessão de 2018 do “Conversas Úteis”, tertúlia à roda dos livros, como de costume moderada por Carlos Nuno Granja. Nela, o autor falou dos seus romances, do processo criativo que a eles preside, mas sobretudo das suas experiências de vida, dos momentos de alguma forma marcantes e que se encontram na génese das suas histórias, da sua poesia. “Os escritores são ladrões”, referiu a este propósito, dando como exemplo o seu último romance, “A Luz vem das Pedras”, nascido em 2012, em grande medida surgido de uma história escutada a uma idosa de S. Caetano, Cantanhede, a sua terra natal. Outro exemplo advém do seu trabalho como Técnico Superior de Reinserção Social no Estabelecimento Prisional de Aveiro, com a consulta das peças processuais a poderem dar um valioso contributo à ficção que faz. “O António Canteiro vive muito do João Cruz enquanto Técnico”, remata.

“Escrevo os livros aos bocados e depois junto-os todos e dou-lhes lógica, coerência”, refere o autor a propósito dum processo de escrita que pode, nesta fase crucial de, “das partes, dar forma ao todo”, “demorar um mês, um mês e meio”. “A escrita vai-se fazendo; o labor é infinito, sublinha. Mas é nas partes que se detém, relevando a importância de ouvir as histórias e de ajustar por palavras aquilo que é o dia a dia. Designa isso por “invenção a partir do real” e, da mesma forma, define a sua escrita como “ficção para além do real”, confessando que “um romance escreve-se ao longo dos anos e a partir de muitas experiências de vida”.

Com a sessão a caminhar para o fim, tempo para falar de poesia, um assunto tão grato ao escritor. E logo uma revelação: “Tento meter poesia na prosa, sob a forma de uma carta escrita, por exemplo.” Como que a sublinhar as suas palavras, lê um excerto de “A Luz vem das Pedras”, precioso pedacinho de prosa que acabou por ganhar a sua “emancipação”, indo integrar “Na Luz das Janelas Pestanejam as Sombras”, o seu livro de poemas que, em 2015, foi galardoado com o Prémio de Poesia Bocage. Tempo ainda para confidenciar ao auditório que “ouvir as histórias aos outros é uma forma de os libertar dum peso que carregam, da mesma maneira que verter essas mesmas histórias nas páginas dos meus livros funciona, para mim, como uma libertação”. Daí que, um dia, não irá perder tempo a escrever as suas memórias: “Os meus livros são as minhas memórias, todos eles são um registo das coisas que me acompanham”, conclui.


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António Canteiro, pseudónimo literário de João Carlos Costa da Cruz, nasceu em 11 de Outubro de 1964 na freguesia de S. Caetano, concelho de Cantanhede. Técnico Superior de Reinserção no Estabelecimento Prisional de Aveiro, inicia atividade literária em 2005, com “Parede de Adobo”, Menção Honrosa do Prémio Carlos de Oliveira; “Ao Redor dos Muros”(Gradiva) venceu o Prémio Alves Redol, em 2009; “Largo da Capella” (Gradiva) obteve a Menção Honrosa do Prémio João Gaspar Simões, em 2011; “O Silêncio Solar das Manhãs” (Gradiva) foi Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, em 2013; “Logo À Tarde Vai Estar Frio” (Gradiva) foi Menção Especial do Júri, no Prémio João José Cochofel / Casa da Escrita de Coimbra, em 2013, e acabaria por vencer o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, em 2015; “Na Luz das Janelas Pestanejam as Sombras” (ed. LASA) foi Prémio de Poesia do Bocage, em 2015; o seu último romance, “A Luz Vem das Pedras” (Gradiva), publicado em 2017, venceu em 2015 o Prémio Alves Redol.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Anjos Caídos"



EXPOSIÇÃO: “Anjos Caídos”,
de Celeste Ferreira
Museu de Ovar
25 Nov > 30 Dez 2017


Celeste Ferreira está de regresso ao Museu de Ovar onde dá a ver, sob o título “Anjos Caídos”, um conjunto de trabalhos a óleo sobre tela e de técnica mista sobre papel, realizados entre 2011 e 2017. São obras que têm como objecto comum a figura feminina, enleada numa formidável teia de cores e dores dum tempo de hoje e sempre, cativa de estereótipos que a condenam a uma vivência mais ou menos figurativa, reduzida a um rosto belo e triste, à formosura de um seio, de um ventre fecundo, de uns joelhos que se dobram, contritos.

Aqueles “retalhos” de mulheres configuram os “anjos caídos” que dão título à Exposição. Na sua dimensão bíblica, a mulher está na base do pecado original graças à cobiça de um maior conhecimento, de mais poder, acabando por se ver lançada num mundo de trevas e de pecado, subalternizada perante o homem por determinação divina. Tal como os nove anjos afastados da comunhão com Deus – dos quais Lucifer é o “rosto” mais vincado -, ela é um “anjo caído”. Mas Celeste Ferreira imprime uma força maior à figura do “anjo”, representando-o igualmente de forma explícita – abandonado sobre umas asas cor de sangue, travando um duelo mortal ou reduzido a um corpo decepado –, assim reforçando o eterno conflito entre o bem e o mal.

Mais do que a interpretação que se possa dar a cada um dos trabalhos expostos ou ao seu conjunto – ao contrário de outros, penso que é importante encontrarmos nas coisas um referente, sem com isso remetermos tudo à nossa volta para uma esfera única de racionalidade -, aquilo que de mais relevante há nesta Exposição é a sua beleza plástica, a poesia que se desprende de cada uma das obras. É fascinante a disposição dos elementos num suporte tornado tridimensional por obra e graça das colagens, os diferentes planos (ou deverei dizer “níveis de espiritualidade”) da composição, a forma como as cores se harmonizam e definem estados de alma, os motivos que se repetem aqui e além e conferem coerência ao conjunto, tanto dum ponto de vista formal como conceptualmente. Celeste Ferreira nada impõe, apenas mostra. Contida, intimista, esta é uma Exposição de enorme relevância duma artista que tem esse dom imenso de transformar as cores em sonhos, as linhas em emoções. Para ver até ao próximo dia 30 de Dezembro.

domingo, 10 de dezembro de 2017

TERTÚLIA: "Conversas Úteis" com João Tordo



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com João Tordo
Museu de Ovar
09 Dez 2017 | sab | 21:30


Continuando a apostar na diversificação da oferta cultural da cidade, o Museu de Ovar trouxe até nós o escritor João Tordo para um momento único de “conversas úteis”. Mais uma oportunidade para conhecermos o homem e o escritor, naquilo que tem de metódico e de racional no que à escrita diz respeito, e que admitiu ter na preguiça um dos seus grandes defeitos. Carlos Nuno Granja foi, de novo, o moderador desta tertúlia, naquela que constituiu a segunda presença do escritor entre nós, uma vez que já nos tinha dado o prazer da sua companhia em 12 de Abril de 2014, a propósito do romance “Biografia Involuntária dos Amantes”. Entretanto, João Tordo teve a oportunidade de publicar uma trilogia composta pelos romances “O Luto de Elias Gro” e “O Paraíso Segundo Lars D”, ambos de 2015 e, já em Maio deste ano, “O Deslumbre de Cecília Fluss”. Ora, foi precisamente este último livro o pretexto para a presença do escritor entre nós na noite de sábado. Conforme veremos, porém, nem só do “Deslumbre...” se falou neste serão que se prolongou para lá da meia noite.

Perante uma plateia atenta, conhecedora e interventiva, ainda que escassa em número, João Tordo começou por se afirmar um “romancista” e por fazer a distinção entre os romancistas e os escritores de outros géneros da literatura. Para tal, socorreu-se duma parábola do antigo Japão, segundo a qual dois amigos caminham até ao Monte Fuji para comprovar a sua grandiosidade. Finalmente chegados ao sopé, um dos amigos olha para cima e, convencido da grandiosidade e imponência do Monte, prepara-se para regressar. O outro, porém, não ficou convencido e, enfrentando toda a sorte de desafios, escalou o Monte, só então se rendendo à evidência. “O romancista é aquele que sobe o monte”, concluiu João Tordo, acrescentando que tal propósito perante os livros implica “inteligência lenta e uma enorme resistência para continuar a escrever romances”.

Para João Tordo, “os livros são o momento”, admitindo que “se tivesse de voltar ao princípio das coisas já não seria capaz de escrevê-las da mesma maneira”. “Quando se fala de romances, fala-se de histórias; mas eu acho que, mais do que histórias, deveríamos falar de vozes”, diz, acrescentando que “escrever é deixar que todas as vozes que temos dentro de nós venham ao de cima e falem”. Considerando que “temos em Portugal literatura que é só linguagem e livros que são só história, sendo estes os best-sellers, os que vendem”, João Tordo vinca que “o mais difícil de alcançar é aquilo que está no meio, o equilíbrio entre uma história que se quer contar e o domínio da linguagem”. Já no período de perguntas e respostas, viria a enunciar Afonso Cruz, David Machado, Gonçalo M. Tavares, Alexandra Lucas Coelho, Patrícia Portela, o incontornável José Saramago e, “para mim o maior de todos”, José Cardoso Pires, como exemplos de escritores que conseguem alcançar este equilíbrio. João Tordo falou ainda do Prémio Literário José Saramago, em 2009, um marco importante na sua vida literária, um autêntico ponto de viragem em termos de projeção e de livros vendidos (com as mãos faz um gesto que indica que, se antes vendia “oito”, passou a vender “oitenta”), mas também um Prémio que fez dele, demasiado de repente, uma figura pública, para a qual não estava preparado.

Mas porque “O Deslumbre de Cecília Fluss” era o pretexto para estarmos ali, o romancista levantou uma pontinha do véu e confidenciou que “o eixo da história é um tio, Elias – que não é o Elias Gro do primeiro livro da trilogia -, um tipo enlouquecido que vive com dois cães, o Vivo e o Morto e que tem um hamster chamado Coma. Elias tem uma relação muito forte com o sobrinho, de 14 anos, e que é o narrador desta história. As partes em que o livro toca a relação entre tio e sobrinho são as partes emocionais do livro”. Não deixa de ser curioso que o livro abra com a citação “pequena é a parte da vida que vivemos”, de Séneca, e que motiva uma última reflexão: “É fácil fugir ao caminho. O Facebook e o Futebol são coisas que fazem parte da vida, mas não são fundamentais. Se lhes damos demasiada importância, corremos o risco de passarmos a vida na periferia daquilo que ela deveria ser. É por isso que digo a mim mesmo que a vida é curta e que um dia vou morrer. E eu, que sou estóico, lá volto para a secretária de regresso à escrita, em vez de ficar para ali a ver o Trio de Ataque”.

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Nascido em Lisboa em 28 de Agosto de 1975, João Tordo formou-se em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa e estudou Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e Nova Iorque. Estreou-se na escrita em 2004 com o romance “O Livro dos Homens Sem Luz”, tendo sido galardoado com o Prémio Literário José Saramago 2009 com “As Três Vidas”, o seu terceiro romance, publicado no ano anterior. Da lista de livros publicados em 14 anos de dedicação à escrita, fazem parte ainda “Hotel Memória” (2007), “O Bom Inverno” (2010), “Anatomia dos Mártires” (2011), “O Ano Sabático” (2013) e “Biografia Involuntária dos Amantes (2014), para além dos livros da trilogia anteriormente mencionados.