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domingo, 8 de dezembro de 2024

LIVRO: "Inventor de Esquecimentos"



LIVRO: “Inventor de Esquecimentos”,
de António Canteiro
Ed. Gradiva Publicações, Outubro de 2024


“ (…) já disse, e repito: posso deixar no mundo um filho, um neto e promessas de bisnetos… mas a figura que se perde atrás de mim é um retrato, aos poucos esmaecido, longe da nitidez de outrora, a imagem que era minha, aquela que saiu nítida da câmara escura… a foto mais brilhante de mim turvou, e agora são estas manchas escuras, sombrias, que me cercam a face; só a memória não me abandona, ela é tudo o que tenho, é tudo o que me resta…”

Terceira incursão de António Canteiro no romance biográfico – depois de “Logo à Tarde Vai Estar Frio” e “Nocturno”, obras que se debruçam sobre as figuras do poeta António Nobre e do compositor e músico Antonio de Lima Fragoso, respectivamente –, “Inventor de Esquecimentos” leva-nos ao encontro de Eduardo Francisco Varela Pècurto. Das experiências marcantes da infância na Quinta do Pinheiro, em Ervedal, no concelho de Avis, aos nossos dias, o livro aborda um percurso de vida marcado pelo olhar e pela curiosidade, pela avidez da novidade, pela vontade de ver mais longe e mais largo, nisso se fundando a arte do decano dos fotógrafos portugueses. O reconhecimento da sua obra expressa-se em inúmeros prémios alcançados em salões nacionais e internacionais de arte fotográfica e, ainda, na atribuição do mais importante prémio internacional no âmbito da fotografia amadora de salão, o Excellence da Féderation Internationale d’Art Photographique, em Barcelona, em 1954.

Embora o cunho biográfico se afirme em “Inventor de Esquecimentos”, o livro escapa às convenções no que se refere ao género e às suas particularidades. Os acontecimentos marcantes de quase um século de vida (Varela Pècurto fará 100 anos no próximo dia 27 de Abril) vão-se sucedendo por ordem cronológica e servem de fio condutor ao livro, mas o olhar decisivo sobre o que deles resta, por diversas vezes materializados em fotografias que se desvanecem com o tempo, esse é o de António Canteiro. Um olhar delicado e sensível, esse olhar poético ao qual nos vem habituando ao longo de uma obra singular, vertido numa escrita elegante, visualmente apelativa, apostada em não deixar cair no esquecimento os vocábulos que fazem da nossa uma língua tão rica. Ao mesmo tempo, o autor amadurece o conceito de memória, aplicando-o à fotografia e levando-nos a ver nela uma ferramenta para a construção de passados. Nesse processo de trazer o passado para o presente através da imagem, a escrita de António Canteiro abraça a arte fotográfica de Varela Pècurto no que ambas têm de imaginário, emoção e poesia.

Só alguém com uma enorme sensibilidade e talento seria capaz de transformar um estreito postigo, esse “buraco emoldurado em pedra”, em visor de um aparelho fotográfico, como olho aberto, desperto, capaz de enxergar a luz amanhecida das plantas, o cordeiro devorando a dente as ervas, o eco da cal sobre o chão. O engenho e inventividade de Varela Pècurto encontra na escrita de António Canteiro uma feliz extensão, uma linguagem visual enraizada no realismo, mas que não descarta o abstracto e o surreal. Pelas mãos de ambos, somos levados ao encontro das verdejantes margens da Ribeira de Alcórrego, das casas imaculadas, sustidas em alvura, ladeadas por planícies, do pássaro grande e estranho, semelhante a uma cegonha, que guia Mariana e António a caminho da vila para a mulher dar à luz, dos andaimes, escadarias e avionetas onde o fotógrafo se encavalita de forma a fazer única e diferente, no futuro longo, a sua arte. Um livro distinguido com o Prémio Literário Joaquim Mestre 2024, uma iniciativa da Associação dos Escritores do Alentejo, que nele destaca a forma como o autor explora “uma visão singular da identidade humana”.

sábado, 29 de outubro de 2022

LIVRO: "Parede de Adobo"



LIVRO: “Parede de Adobo”,
de António Canteiro
Edição | João Carlos Costa Cruz
Edição de autor, 2005


“Trago comigo o corpo pesado, o ar pesado, a voz pesada. A respiração ofegante, lenta. Estou cansado e a minha garganta já não me deixa falar depressa. As minhas cordas vocais estão lassas, gastas, e o som da minha voz está a esvair-se. A minha cabeça não ajuda e já não me deixa falar depressa. O fôlego não permite que eu fale, consecutivamente, sem parar. Não consigo dizer tudo de carreira, alinhado, seguido. Não consigo dizer tudo o que quero e como quero. Por isso faço pausas… (reticências) Respiro… (reticências) Depois, falo outra vez. Corto as ideias a meio das palavras, retalho as frases. No intervalo de um fôlego, enquanto aguento, deixo espaços livres, (entre vírgulas), espaços em branco, à espera das palavras seguintes, que nascem lentamente, aparecem… e, às vezes, desaparecem.”

No regresso a António Canteiro e à sua escrita, os momentos de emoção e de puro prazer voltam a preencher-me por completo. Por estes dias, a atenção recaiu sobre “Parede de Adobo”, romance de estreia datado de 2005 e que acaba de conhecer uma muito saudada reedição. Nele se prefigura toda uma obra de forte pendor romântico, com um vocabulário rico a ritmar uma trama engenhosa, laboriosamente modelada, poesia vertida em prosa que voltará a impressionar nos livros subsequentes, muito particularmente nessas duas pérolas que são “A Luz Vem das Pedras” e “Vamos Então Falar de Árvores”. É a paisagem gandaresa que convoca o nosso olhar e que regressará, em simplicidade e beleza, a cada novo livro. São as gentes e os ambientes de aldeia a emergirem com a força da sua verdade, descritos com a paixão de quem tem, por desígnio, recuperar histórias e preservar memórias particularmente queridas.

Areia, cal, água, palha. Juntem-se os ingredientes nas proporções certas, amassem-se com esforço e muito trabalho, modelem-se e levem-se ao forno e veremos como se transformam em adobos, material de que eram feitos os muros e as casas gandaresas. Serão estes adobos o ponto de partida do romance, metáforas de um corpo outrora sólido, erodido pela acção dos elementos, incapaz de resistir aos castigos a que se sujeita. Porque é do tempo que “Parede de Adobo” nos fala, das marcas deixadas nas gentes pela sua lenta passagem. Gente simples, que entre o viver e o morrer nada mais conhece a não ser trabalho. Gente que, depois de rezar o terço, se senta à volta do borralho e tem no calor brando o seu único afago. Que à falta de riquezas maiores, procura deixar às gerações vindouras os seus valores e convicções, os seus ofícios, a sua arte. E que, na sucessão de dias que precedem a noite eterna, está segura de que “hoje é amanhã”.

Porque alguém disse que “os silêncios de Mozart ainda são Mozart”, escutemos os silêncios destes lugares e destas gentes. É comovente a forma como António Canteiro nos abre as portas das casas humildes e nos faz pousar o olhar numa lareira com trempe ao lume sobre a qual fervilha uma panela de sopa, nas paredes escuras de fumo, “os pratos na cantareira, alinhados do avesso, inclinados, a evitar o pó.” Ou nos pede que percorramos os areais da Praia de Mira ao encontro de José Areias e Maria Águas, “Maria, grande, Maria, branca. Debaixo das sobrancelhas, duas fontes de luz, uma luz cristalina, pura, a dizer-me: anda cá, vem comigo. Sempre tão frágil, tão doce, e eu ia.” Entre o embalo de uma criança ao colo do pai e a forma como, muitos anos passados, esse afago é retribuído, vai um tempo de dificuldades inescrutáveis, de sonhos desfeitos, de distâncias agravadas, de desesperança e conformismo, de sombras e silêncios, de punhos cerrados e gritos surdos. Vai o tempo de uma vida.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

LIVRO: "Nocturno"



LIVRO: “Nocturno”,
de António Canteiro
Ed. Gradiva Publicações, Setembro de 2021


“(…) começara piano a música, a par com a entrada no palco de um pastorinho, meio derreado, segurando, com as mãos nas patas uma ovelha, às costas, levando o presente-cordeiro ao Menino que havia nascido, em Belém; outra figurante, saída de um vão de escadaria de fontanário, equilibrava à cabeça uma cânfora de barro, conduzindo-a até à gruta onde Ele nascera; por fim, três Reis Magos, encavalitados numa vassoura, com olhos levantados, postos numa estrela, caminharam ordeiramente para o centro do presépio vivo, alusivo à quadra; erguendo-se, por fim, os assistentes aclamaram com palmas, quando a luz da última estrela se apagou; (…)”

Pela sua singularidade, a voz que emana da escrita de António Canteiro mostra-se irresistível - e este será, porventura, o maior elogio que lhe posso deixar. Uma voz que me seduziu, desde logo, em “A Luz Vem das Pedras”, pelo trabalho de filigrana no tratamento dado às palavras, na forma de as arredondar, vestindo-as de emoção e poesia, que preenchem, tanto quanto saciam. Uma voz marcadamente romântica, que alcança o apogeu no sublime “Vamos Então Falar de Árvores”, e que encontra continuidade neste “Nocturno”, um livro que vai beber o seu título à peça culminante da obra instrumental do compositor António Fragoso, arrancado tragicamente à vida aos 21 anos de idade. Um drama inominável cujas marcas subsistem, indeléveis, até aos dias de hoje, na pequena aldeia da Pocariça, não longe de Coimbra, de onde o músico era natural.

Recuando ao primeiro quartel do século passado, o autor oferece-nos um retrato de época onde sobressai a vida na aldeia, pontuando-o de um lirismo de acento trágico que surpreende e fere. “Nocturno” mergulha nos tempos tenebrosos da “pneumónica”, uma pandemia de gripe de cariz extremamente maligno que tomou conta do mundo em 1918, ceifando a vida a mais de quarenta milhões de pessoas. Figura principal desta história, o compositor António de Lima Fragoso sucumbirá à doença e, com ele, três irmãos, duas primas e uma tia, todos debaixo do mesmo tecto e no curto espaço de uma semana. Carregados de negro, os primeiros quadros são cruéis na sua dimensão humana, remetendo para as ironias e injustiças escondidas nas dobras do destino e, ao mesmo tempo, obrigando-nos a pensar nos ciclos da História e em como a realidade de há cem anos se mostra tão viva e presente nos nossos dias.

Com o leitor “em ponto de rebuçado”, António Canteiro toma-o pela mão e convida-o a conhecer os lugares que marcaram a sua própria infância: os campos polvilhados de flores e frutos, de animais que pastam, de gente que deles cuida; as árvores que dão guarida aos pássaros e se agitam com o vento; os lameiros, as margens dos rios, a água a cantar nas fontes; um pequeno animal que se esgueira furtivo; os risos das crianças que brincam no adro da igreja sob o olhar das catequistas; ao longe o bramido do mar. Como ninguém, o autor sabe tirar partido dos elementos naturais, deles extraindo as notas de uma “partitura universal” onde se abrigam os sons e tonalidades que abraçam e inspiram a Humanidade. Vestindo a sua escrita desta musicalidade, António Canteiro acrescenta-lhe, delicadamente, a harmonia e a cadência próprias das grandes obras. O resultado é este “Nocturno”, dilacerante, comovente, que escutamos com admiração e aplaudimos de pé.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

LIVRO: "Vamos Então Falar de Árvores"



LIVRO: “Vamos Então Falar de Árvores”,
de António Canteiro
Ed. Edições Húmus e Autor, Novembro de 2020


“Desde há um tempo que moro em pleno aquário de silêncio, enfim, onde posso respirar ausência de tudo, menos de palavras, sei que há horas a mais, recolhimento bastante, recato de cela, de biblioteca, onde as palavras se libertam do cárcere; meia-dúzia de linhas que possa de vez em quando escrever refreiam a vontade de não disparar em louco este cérebro, porque enxergo diante de mim o caminho de dias por andar, mais do que aqueles que suportaria estando aqui parado; franqueio esta simples e única vontade: querer tornar-me escrevedor de mim...”

Conheci António Canteiro através desse genial “A Luz Vem das Pedras”, um livro que “é barro e chão e terra e vento e rocha viva”, como na altura escrevi. Depois disso cruzei-me com a sua escrita em momentos sempre intensos e delicados, embora aquém do fulgor daquele encontro primeiro, dessa “visão encantatória de vida amargurada, de pobreza e solidão”. Até hoje, dia em que pousei o olhar sobre “Vamos Então Falar de Árvores” e o vi escoar-se para dentro de mim linha após linha, palavra após palavra. A mesma força que afaga e esmaga, o mesmo apego às vidas que teimam em perder-se, a mesma poesia feita prosa em doida correria, o mesmo coração a fugir para fora do peito. Mas vamos então falar de árvores...

Situando a estória nos ermos do Barroso, “entre Boticas e Montalegre”, António Canteiro fala-nos de Tadeu, “zé ninguém, pobre, de saquitel no ombro, mas, de bordão firme no pulso”, daqueles que “d’antes quebrar que torcer”. A miséria por moldura, o seu retrato de vida é o mesmo de tantos outros Tadeus, homens que nunca foram meninos, “tremendo na terra fria os pés gretados”, “roendo o trancanaz do pão sem conduto”, como único contento roubar os ovos dos ninhos, comer os mais passadinhos da figueira pingo-de-mel, escutar o foguetório pela vinda dos emigrantes, dar um mergulho na albufeira da Barragem do Alto Rabagão, ir a Vinhais à Feira do Fumeiro ou saltar o Entrudo a mailos caretos. Isso e um passeio de mãos dadas com Olga, a prima Olga.

Contemplando dois momentos distintos mas complementares entre si, a narrativa dá prova do engenho de António Canteiro em cuidar das palavras como pedras preciosas que são. As suas frases – “a corda que se ergue na barca e incita a quilha na tesoura das águas” – são poemas visuais. Na terra lavrada vemos “as arvéolas a andarem de cá para lá, saltitantes, a ciscarem seus bichos” e com a tempestade trememos, “as árvores, abrigos e outros ventos a seguirem com força, a caírem, a ficarem destelhadas as casas”. E depois há toda uma riqueza de vocabulário que nos faz bem, seja numa tardada de gente ou no dar à tramela, nas norças dos dedos ou no ir às sortes, no de-comer, nos lomedros e pegamasso e engaranhado e zamborrada, nos rinzes. No antes e no agoramente.

Termino referindo o quanto este livro vale por si só, mas também pelo que representa no conjunto da obra do autor, no que tem de coerência, apuro e lucidez. Se Carlos de Oliveira é uma referência importante em “Parede de Adobo” ou se António Nobre tem honras de personagem em “Logo À Tarde Vai Estar Frio”, se Mia Couto se passeia pelas páginas de “Ao Redor dos Muros” ou se um poema de Pedro Tamen oferece o título a “A Luz Vem das Pedras”, também aqui há João Luís Barreto Guimarães e a sua poesia para nosso deleite. Os ambientes concentracionários – uma torre, uma prisão, um sanatório, as paredes de um quarto – voltam a ser palcos da acção, neles se espelhando o recolhimento do escritor no seu “aquário de silêncio”. Acrescentaria a estranheza das palavras a pedir glossário ou uma recorrente folha de papel de trinta e cinco linhas, para concluir o quanto de profuso e criativo há neste livro, súmula e parcela de uma obra suficientemente vasta e rica e que precisa de ser desvendada com urgência.

domingo, 3 de maio de 2020

LIVRO: "Logo À Tarde Vai Estar Frio"



LIVRO: “Logo À Tarde Vai Estar Frio”, 
de António Canteiro 
Edição | Guilherme Valente 
Ed. Gradiva Publicações, Abril de 2016


“Há ovelhas tolhidas de nuvens em volta, um cão felpudo, espreguiçando-se nas nuvens em volta; mulheres, com xailes negros de nuvens em volta, têm na mão uma roca de fiar com novelos gigantes de nuvens em volta; e homens, espadaúdos, de cigarro ao canto dos lábios, que lançam fumaradas para as nuvens em volta, reparam na sombra as mãos crestadas, olham as redes de nuvens em volta, para lançar no mar e no céu...”

Concluída a leitura de “Logo À Tarde Vai Estar Frio”, sobra um sentimento contraditório, um doce amargo que é, ao mesmo tempo, satisfação e desconforto, desalento e júbilo. Publicado no ano anterior ao sublime “A Luz Vem das Pedras”, este livro é a afirmação da voz harmoniosa e sensível do autor, do seu dom natural de extrair beleza até das coisas mais simples, do seu talento em transformar pequenos nadas de delicada prosa em exaltantes poemas, guiando o leitor por caminhos do sonho e do prazer. Mas António Canteiro quis ir mais longe. Ambicionou mover mundos paralelos, encontrar-lhes semelhanças e diferenças, tomar o leitor pelo braço e convidá-lo a fazer com ele essa destrinça. O resultado não é feliz. 

Estruturado em três capítulos, o livro encerra um sincero e sentido tributo ao poeta António Nobre, figura ímpar das letras em Portugal e, assumidamente, uma das mais fortes influências de António Canteiro. Prolongando, com este livro, o cariz encantatório da obra de António Nobre – da qual respiga breves trechos, que introduz com naturalidade na narrativa -, o autor percorre os meandros de uma vida tornada breve pela doença. Dos versos primeiros, “no adro, ainda, escritos na cal”, ao fim do sofrimento, a caminhar para a cova, para um “hotel de ossos”, acompanhamos o poeta no seu traje bizarro, eivado de melancolia, comovido com as sumarentas laranjas que, esmagadas em gotas, escorrem pelo muro, enojado com a vaidade dos estudantes de Coimbra, encerrado na Torre de Anto, escrevendo versos que são orações, caminhando entre as luzes de Paris, duzentas páginas escritas, dactilografadas, debaixo do braço, SÓ. 

Um recuo no tempo situa o leitor na mesma Coimbra, com o mesmo amarelo-ocre das paredes, o mesmo enrugado dos paralelepípedos de granito no chão, a mesma decadência, a mesma inspiração. Tudo igual como há cem anos atrás, apenas um outro António. Com foros de epidemia, também a doença é outra. E aqui o livro perde-se, mas isto sou eu a dizê-lo, que talvez o tenha lido não da melhor maneira. O estilo muda e, com ele, a subtileza esvai-se. Deixa de ser possível comparar o incomparável. O capítulo final retoma o fio à meada, mas sobra essa espécie de mancha, que contamina e desfeia. Quero esquecê-la. Quero apenas guardar a imagem de mulheres esculpidas na calçada, de um menino deitado à sombra de seios e de lágrimas, dos gemidos do vento, dos rugidos do mar. Arremessar, à força de braços, uma concha redonda onde cabe a terra e o mar e acompanhá-la com os olhos até a ver mergulhar, enfim, exausta, na profundeza escura das águas. Sonhar com a praia e com uma onda galgando a areia e vindo aninhar-se ao meu lado...

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

LIVRO: "Ao Redor dos Muros"



LIVRO: “Ao Redor dos Muros”,
de António Canteiro
Editor | Guilherme Valente
Ed. Gradiva, Fevereiro de 2010


Os muros a que o título do livro alude são os de uma prisão, em redor dos quais gravita um punhado de pessoas que cumpre pena, a liberdade suprimida, a dignidade manchada, o orgulho ferido, a vida em suspenso. É nesta espécie de limbo, onde a mente tende a dar-se à preguiça e se perde a conta ao fio dos dias, que vamos encontrar Constâncio Fraga, indivíduo de etnia cigana condenado por um crime de sangue que o próprio repudia, mas imperativo por questões de honradez fundadas na tradição. Com ele, entre muitos outros ocupantes do espaço da cadeia, tomaremos contacto com um angolano e um indivíduo do Leste, outro cigano ainda ou um pequeno delinquente marcado pela toxicodependência.

Técnico superior de Reinserção Social do Estabelecimento Prisional Regional de Aveiro, António Canteiro sabe do que fala neste “Ao Redor dos Muros”, ao qual foi outorgado o Prémio Literário Alves Redol 2009, instituído pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. De forma objectiva, sem se tornar fastidioso, o autor dá a ver o interior duma cadeia, as suas celas e grades, os seus corredores, pátios e muros, as regras e rotinas, a forma como os presos expiam a sua pena sob o olhar vigilante dos guardas. Mas dá a ver, sobretudo, as pessoas que coabitam naquele espaço, pessoas que um dia perderam a liberdade mas que não deixam de ser pessoas, algumas encontrando ali um meio de se reabilitarem, nomeadamente através da leitura e da escrita.


Não sem estranheza, encontramos em “Ao Redor dos Muros” um tom de apaziguamento que contrasta com a ideia feita duma cadeia enquanto espaço castrador, concentracionário, de enorme violência física e psicológica. Longe de glorificar o sistema prisional mas, tão pouco, de o anatemizar, o autor revela, através duma escrita sóbria e equilibrada, uma enorme empatia com as pessoas que estão presas e uma grande solidariedade com o seu sofrimento. Centrando-se na figura de Constâncio, é com ele e por ele que a narrativa se desenvolve, António Canteiro elegendo a população prisional como interlocutor privilegiado neste seu livro. De leitura fácil, “Ao Redor dos Muros” confere uma nota de brandura a um ambiente marcadamente hostil, sendo merecedor da devida atenção. Talvez o único reparo vá mesmo para a opção do autor em ser o mais fiel possível ao linguajar cigano, plasmando-o na sua escrita. O resultado soa estranho, mais brasileiro (será?) do que romani, numa mistura que distrai o leitor daquilo que é essencial e que pouco diz, pouco acrescenta.

domingo, 21 de janeiro de 2018

TERTÚLIA: "Conversas Úteis", com António Canteiro



TERTÚLIA: “Conversas Úteis”,
com António Canteiro
Museu de Ovar
20 Jan 2018 | sab | 21:30


Com a festa na rua em noite de abertura do Carnaval de Ovar, foi no aconchego da Sala dos Fundadores do Museu de Ovar que se fez a verdadeira festa, a da palavra, a que alimenta o espírito e faz viver. António Canteiro foi o convidado de honra desta primeira sessão de 2018 do “Conversas Úteis”, tertúlia à roda dos livros, como de costume moderada por Carlos Nuno Granja. Nela, o autor falou dos seus romances, do processo criativo que a eles preside, mas sobretudo das suas experiências de vida, dos momentos de alguma forma marcantes e que se encontram na génese das suas histórias, da sua poesia. “Os escritores são ladrões”, referiu a este propósito, dando como exemplo o seu último romance, “A Luz vem das Pedras”, nascido em 2012, em grande medida surgido de uma história escutada a uma idosa de S. Caetano, Cantanhede, a sua terra natal. Outro exemplo advém do seu trabalho como Técnico Superior de Reinserção Social no Estabelecimento Prisional de Aveiro, com a consulta das peças processuais a poderem dar um valioso contributo à ficção que faz. “O António Canteiro vive muito do João Cruz enquanto Técnico”, remata.

“Escrevo os livros aos bocados e depois junto-os todos e dou-lhes lógica, coerência”, refere o autor a propósito dum processo de escrita que pode, nesta fase crucial de, “das partes, dar forma ao todo”, “demorar um mês, um mês e meio”. “A escrita vai-se fazendo; o labor é infinito”, sublinha. Mas é nas partes que se detém, relevando a importância de ouvir as histórias e de ajustar por palavras aquilo que é o dia a dia. Designa isso por “invenção a partir do real” e, da mesma forma, define a sua escrita como “ficção para além do real”, confessando que “um romance escreve-se ao longo dos anos e a partir de muitas experiências de vida”.

Com a sessão a caminhar para o fim, tempo para falar de poesia, um assunto tão grato ao escritor. E logo uma revelação: “Tento meter poesia na prosa, sob a forma de uma carta escrita, por exemplo.” Como que a sublinhar as suas palavras, lê um excerto de “A Luz vem das Pedras”, precioso pedacinho de prosa que acabou por ganhar a sua “emancipação”, indo integrar “Na Luz das Janelas Pestanejam as Sombras”, o seu livro de poemas que, em 2015, foi galardoado com o Prémio de Poesia Bocage. Tempo ainda para confidenciar ao auditório que “ouvir as histórias aos outros é uma forma de os libertar dum peso que carregam, da mesma maneira que verter essas mesmas histórias nas páginas dos meus livros funciona, para mim, como uma libertação”. Daí que, um dia, não irá perder tempo a escrever as suas memórias: “Os meus livros são as minhas memórias, todos eles são um registo das coisas que me acompanham”, conclui.


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António Canteiro, pseudónimo literário de João Carlos Costa da Cruz, nasceu em 11 de Outubro de 1964 na freguesia de S. Caetano, concelho de Cantanhede. Técnico Superior de Reinserção no Estabelecimento Prisional de Aveiro, inicia atividade literária em 2005, com “Parede de Adobo”, Menção Honrosa do Prémio Carlos de Oliveira; “Ao Redor dos Muros”(Gradiva) venceu o Prémio Alves Redol, em 2009; “Largo da Capella” (Gradiva) obteve a Menção Honrosa do Prémio João Gaspar Simões, em 2011; “O Silêncio Solar das Manhãs” (Gradiva) foi Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, em 2013; “Logo À Tarde Vai Estar Frio” (Gradiva) foi Menção Especial do Júri, no Prémio João José Cochofel / Casa da Escrita de Coimbra, em 2013, e acabaria por vencer o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, em 2015; “Na Luz das Janelas Pestanejam as Sombras” (ed. LASA) foi Prémio de Poesia do Bocage, em 2015; o seu último romance, “A Luz Vem das Pedras” (Gradiva), publicado em 2017, venceu em 2015 o Prémio Alves Redol.

domingo, 14 de janeiro de 2018

LIVRO: "A Luz Vem das Pedras"



LIVRO: “A Luz Vem das Pedras”,
de António Canteiro
Edição de Guilherme Valente
Ed. Gradiva, Junho de 2017


... E, de repente, vejo-me desejoso de chegar a casa ainda mais depressa para voltar a virar cada uma das suas folhas, a sorver-lhe cada palavra, de tão intenso, de tão rico de imagens e de cores e de gostos e de cheiros, de inquietações e de tristeza, de tão meu que é. Quero beber as suas expressões, os seus gestos, a sua poesia de novo e outra vez ainda. Vem isto a propósito de António Canteiro e do seu mais recente romance, “A Luz Vem das Pedras”, visão encantatória de vida amargurada, de pobreza e solidão, duma mulher que tem na escrita “numa folha de papel de trinta e cinco linhas”, nos livros que lhe servem de companhia e nos cães os únicos lenitivos.

É a suprema felicidade termos alguém que partilhe algo de tão sublime assim, onde tudo o que nos é dado a ler se adequa aos olhos da imaginação, ganha forma e cor, ganha vida. Vida que convoca a nossa própria vida, o nosso percurso desde que nos conhecemos, neste continuum do sermos, existirmos, escrevermos, dormirmos e amarmos. No seu jeito delicado de contar as coisas, António Canteiro consegue esse milagre de nos tornar parte integrante do livro, de tal forma a descrição dos sentimentos e estados de alma nos apazigua ou nos fere.

“A Luz Vem das Pedras” é, seguramente, um dos livros que, até hoje, mais me impressionou pela qualidade da escrita. Aquilo é orgânico, sente-se, vive-se. É barro e chão e terra e vento e rocha viva. Aquilo é o toque duns braços de mãe enleados à volta do meu pescoço para entalar o pano, que há-de servir de guardanapo, babete, para não sujar o pijama dos restos de sopa. Aquilo é a cor doce dos bolos na boca, é Deus a escrever direito por linhas tortas, são adjectivos estranhamente familiares (vagarosolenta, chuvernoso, esperandante, estreluzente), são lágrimas duma dor feita de desassossego, ódio e raiva, é tanta coisa que já nem tenho a certeza do que é. Duma coisa, porém, estou certo: A história não acaba aqui. “A Luz vem das Pedras” é um livro que me vai acompanhar por muito tempo, pelos anos, pelo sempre!