Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Nuno Granja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Nuno Granja. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 5



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Ágata Pereira, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Carlos Nuno Granja, Cristiana Rodrigues, Hélder Bruno, Iuri Oliveira, João Pedro Vala, Jorry, José J. Cabral, Mara Domingues, Maria Martins, Marisa Lemos, Miguel Gouveia, Rafael Gallo, Rui Guedes, Surma, Teresa Carvalho, Zetho Cunha
Parque Urbano de Ovar, Bar do CAO e Centro de Artes de Ovar
20 Set 2026 | dom | 10:00 e 15:00


Há sempre uma espécie de melancolia no último dia de um Festival. Em Ovar, no passado domingo, ela foi-se insinuando devagar, entre livros, desenhos, histórias e conversas, como se ninguém se atrevesse a dar por adquirido que a festa estava a chegar ao fim. O Parque Urbano recebeu as primeiras palavras do dia, com a apresentação de “Sr. Loisas - A biblioteca itinerante é bastante extravagante”, de Carlos Nuno Granja, ilustrado por Yana Marques. Seguiu-se uma oficina de ilustração de Cristiana Rodrigues e uma conversa moderada por Rui Guedes e dedicada à mediação da leitura. Marisa Lemos, Ágata Pereira e Mara Domingues, as convidadas desta penúltima mesa do FLO, falaram da escrita como lugar de humildade, da leitura como encontro e das histórias como instrumentos capazes de nos tocar antes mesmo de sabermos exactamente porquê. “A criança lê pelos ouvidos”, lembrou Marisa Lemos. Ágata Pereira haveria de dizer que, mesmo se tivesse escrito vinte livros, não abdicaria nunca de ser professora. E Mara Domingues deixou uma ideia particularmente bonita: um livro pode ser apenas uma história que nos soube bem; não tem necessariamente de carregar consigo uma moral. Depois, os contos de Miguel Gouveia prolongaram essa manhã em que as palavras ainda hesitavam em despedir-se.

À tarde, já no Bar do CAO, a literatura ganhou outros contornos. “Cinzas & Sudário”, de Aurelino Costa, abriu caminho para uma “Poesia A Meias”, partilhada pelo próprio autor, com Zetho Cunha Gonçalves e Aurora Gaia, num encontro em que a palavra poética encontrou uma particular dimensão de voz, respiração e presença. Mas seria na última mesa do Festival, moderada por Teresa Carvalho, que a conversa haveria de se deter sobre esse território onde a literatura respira entre o íntimo e o colectivo. João Pedro Vala falou de uma literatura mais próxima da vírgula do que do ponto de exclamação, um espaço de respiração e não de exaltação. Rafael Gallo lembrou o perigo dos pontos de exclamação quando se pretende dar demasiado peso às frases e falou do medo de perder a casa ou o emprego de que se alimentam as narrativas neofascistas. José J. Cabral reclamou para os escritores a responsabilidade de reflectirem a verdade dos seus países e contrariarem as narrativas institucionais: nem tudo o que vemos, disse, é postal ilustrado. Entre o manguito e a vírgula, entre a História que herdámos e aquilo que ainda precisamos de reinventar, ficou a literatura como lugar de confronto, mas também de conforto e transformação.

A música reservava uma surpresa para o final de um programa que, ao longo de cinco dias, teve tudo para agradar a todos. “Ether Sculptures”, de Hélder Bruno, encerrou o Festival Literário de Ovar como se o fim pudesse, afinal, ser uma outra forma de começo. No palco, piano, baixo eléctrico, teclados, guitarra, sintetizadores, bateria, percussões e violoncelo construíram uma matéria narcadamente sensorial. Hélder Bruno, acompanhado por Jorri, Surma, Iúri Oliveira e Maria Redes Martins, levou o público para esse território onde o som deixa de ser apenas som e passa a ser paisagem, memória, emoção. Foi, em grande medida, a despedida perfeita para um Festival feito de palavras: depois de tantos livros, autores, leitores, perguntas e respostas, restava aquilo que talvez seja mais difícil de nomear. Uma atmosfera. Uma vibração. Qualquer coisa que permaneceu dentro de nós quando as cadeiras começaram a esvaziar-se e as luzes se apagaram. Se uma imagem vale mil palavras, como dizia a apresentação do espectáculo, talvez uma música possa valer mil imagens. E naquela última hora, Ovar pareceu guardar dentro de si todas elas.

Foi assim que terminou a XII edição do Festival Literário de Ovar: sem um verdadeiro ponto final, porque os livros não sabem terminar assim, nem as histórias, nem as conversas que ficam a trabalhar dentro de quem as ouviu ou nelas participou. Escritores e leitores despediram-se da cidade, guardando consigo aquilo que os festivais verdadeiramente deixam: frases impossíveis de esquecer, outras tantas perguntas, encontros que continuam para lá destes dias inesquecíveis e a sensação rara de ter pertencido, por instantes, a uma comunidade reunida em torno da palavra. Depois, começa o silêncio. A cidade regressa ao seu ritmo habitual, os lugares onde durante dias se ouviram vozes ficam novamente à espera, instala-se aquele vazio agridoce que acompanha todas as despedidas felizes. O festival acaba, mas Ovar fica com a memória do que aconteceu e com a longa, quase insuportável espera pelo dia em que os livros voltarão a ocupar a cidade, as palavras tornarão a atravessar praças e ruas e alguém voltará a dizer que é hora de recomeçar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Alberto Pereira, Alice Brito, Ana Rute Elias Lopes, Ana Zorrinho, Andreia Baptista, António Cabrita, Caius, Carlos Nuno Granja, Carlos Querido, Celina Lopes, Cláudia Pena, Cristina Carvalho, Cristina Marques, Daniel Completo, Elisa Costa Pinto, Filipa Mota Nesbitt, Francisco Mota Saraiva, Gonçalo Serras, Katya Delimbeuf, Luís Filipe Sarmento, Helena Ribeiro, José Fanha, Manuella Bezerra de Melo, Marco Neves, Maria Cláudia Rodrigues, Miguel Bonneville, O Poeta da Cidade, Paola d’Agostino, Rute Campanha, Sara Dias de Oliveira, Wake Up Sleep
Parque Urbano de Ovar, Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, Centro de Artes de Ovar
19 Set 2026 | sab | 09:30, 14:30 e 21:00


Por tradição o dia mais preenchido do Festival Literário de Ovar, o passado sábado voltou a servir de teste à vontade e persistência dos muitos adeptos do Festival e a fazê-los sentir os mais variados momentos não como um programa, mas como uma viagem. O quarto dia do FLO foi, assim, uma longa viagem entre livros, vozes, rostos, memórias, perguntas e reflexões, começada por volta das nove da manhã e só finalizada quando no relógio da torre da Matriz se escutaram as doze badaladas. Entre o Parque Urbano, o Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense e o Centro de Artes de Ovar, escritores, leitores ou simples curiosos foram-se movendo entre uma palavra e outra, uma mesa e outra, como quem muda de sala no interior da sua própria casa. Apresentações de livros, oficinas, contos, poesia e cinco mesas de conversas constituíram, mais do que uma autêntica maratona, um exercício de resistência à voracidade dos dias. Porque se há coisa que a literatura nos pede é, justamente, que paremos. Que olhemos. Que abramos uma porta, mesmo não sabendo onde ela nos irá levar. E, por uma vez, que não tenhamos pressa de chegar ao outro lado.

A manhã começou com os livros a falarem para aqueles que estão ainda a descobrir o mundo, mas rapidamente se percebeu que falar de literatura infantil é falar de todos nós. Ana Rute Elias Lopes lembrou que, quando conta a história de um livro, conta também a sua própria história, fazendo com que essa humanidade aproxime o pequeno leitor daquilo que tem diante de si. Celina Lopes falou de uma ferida antiga transformada em livro. Andreia Baptista lembrou que mediar a leitura não é simplesmente contar uma história, mas criar condições para que ela seja descoberta com prazer, fruição e surpresa. Talvez seja por isso que a literatura para os mais novos tenha uma responsabilidade tão grande: porque pode ser o primeiro lugar onde alguém percebe que as palavras não servem apenas para dizer o mundo, mas também para inventar outros mundos, quiçá mais maravilhosos e fantásticos. Entre a oficina de ilustração de Cláudia Pena e os contos de Daniel Completo e José Fanha, a manhã foi deixando essa impressão bonita de que um livro começa muito antes de ser aberto e continua muito depois de dobrada a última página.

À tarde, no Museu Júlio Dinis, a conversa tornou-se mais densa, como se a literatura tivesse tirado o casaco leve da manhã e entrado noutra estação. Carlos Querido, Marco Neves e Elisa Costa Pinto falaram da complexidade e da simplificação, dessa tendência contemporânea para tornar tudo imediatamente compreensível, arrumado, consumível. Mas a literatura, talvez porque conhece demasiado bem a vida, desconfia das respostas fáceis. “Quem conhece a aldeia, conhece o mundo”, disse Carlos Querido, e ficou-me a frase. Porque é exactamente isso que os livros fazem, ao abrirem para nós um pequeno postigo e mostrarem-nos uma paisagem que não sabíamos que pudesse estar ali. Marco Neves lembrou que reduzir a língua à oposição entre simples e complexo é diminuir aquilo que ela nos oferece. Elisa Costa Pinto falou de uma Escola que não deve simplificar o mundo, mas dar-nos ferramentas para entrar no que ele tem de mais difícil. E ficou a sensação de que, num tempo que tantas vezes nos pede atalhos, a literatura continua a preferir o caminho menos fácil e menos óbvio. O caminho mais longo.

Foi também no Museu Júlio Dinis que Samuel Beckett apareceu, não como estátua literária, mas como homem. Alberto Pereira apresentou um livro que procura imaginar esse Beckett que poderia ter sido outra coisa, ter encontrado outras pessoas, vivido outra vida. Um homem entre a lucidez e o desequilíbrio, acompanhado pelo absurdo, pela espera, por Shakespeare, Joyce, Nietzsche, Hélia Correia, Dante, Saramago. Foram ideias através das quais se assistiu a uma das mais bonitas reflexões do dia, já que “falar de Beckett é falar de nós”. Porque também nós esperamos. Por um amor, por uma mudança, por alguma coisa que ainda não chegou, pela morte. Esperamos enquanto corremos. E corremos tanto que já quase não vemos os lugares por onde passamos. “A palavra fulcral é a velocidade”, ouviu-se. Talvez seja. Mas nessa tarde, em Ovar, tentou-se contrariá-la. Na mesa moderada por Ana Zorrinho, António Cabrita falou da paixão como força capaz de incendiar a escrita, para o bem e para o mal. Luís Filipe Sarmento encontrou na obscuridade da notícia o gatilho para escrever e a literatura apareceu, uma vez mais, como o lugar possível para chegar ao ponto cego, a esse cruzamento improvável entre diferentes maneiras de olhar.

Depois veio a memória, e com ela tudo aquilo que ainda não passou inteiramente. A última mesa da tarde trouxe para o centro da conversa os cinquenta anos da nossa democracia e os vestígios de um país que não se evaporam só porque o calendário avança. Paola d’Agostino falou de uma censura que pode terminar depressa, mas de uma auto-censura cujo desaparecimento é muito mais lento. Francisco Mota Saraiva evocou a reverência antiga ao patriarcado, à autoridade, ao “senhor”, e falou de um país onde ainda permanecem formas de desconfiança e desamor. Miguel Bonneville deixou uma pergunta difícil: nascer depois de Abril significa necessariamente ter nascido em liberdade? Talvez a literatura seja também isto: não deixar que as perguntas envelheçam. À noite, Cristina Carvalho e Alice Brito voltaram a essa memória através de “Perdeu-se Relógio de Senhora”, romance que olha para o fascismo no quotidiano, para aquilo que pode parecer pequeno, doméstico, quase invisível, e que, justamente por isso, se torna tão perigoso. “Esquecer”, disse Alice Brito, “é compactuar com um passado que não queremos que volte”.

Quando a última mesa começou, já o dia pesava no corpo, mas não na conversa tão habilmente moderada por Cristina Marques. Maria Cláudia Rodrigues falou da escrita como uma tentativa de iluminar aquilo que permanece na obscuridade. Filipa Mota Nesbitt lembrou a literatura como algo que resiste ao tempo, da leitura como lugar de encontro com o outro e da necessidade de escrever porque não basta viver: é preciso testemunhar. Katya Delimbeuf lembrou a força quase inexplicável desse acto que é escrever, essa tentação de deixar alguma coisa para além de nós. O verdadeiro fio de todo o dia estava encontrado: deixar. Deixar uma frase, uma imagem, uma pergunta, uma memória. Deixar qualquer coisa no outro. Na voz d'O Poeta da Cidade, “Metafisicamente d’Outro Mundo” veio fechar a noite com poesia. E assim se chegou ao final do quarto e penúltimo dia do FLO, após quase quinze horas de literatura, com a sensação paradoxal de cansaço e de fome. Cansaço no corpo, certamente. Mas fome de continuar. Porque estamos à beira do último dia e há viagens que, quando estão quase a terminar, nos dizem que não queremos realmente que cheguem ao fim. O Festival Literário de Ovar é uma dessas viagens.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 3



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Ana Cláudia Santos, Ana Oliveira Cardoso, Ana Rita Gomes, Anabela Carrazedo, Carlos Nuno Granja, Dina Pereira, Joana Afonso, João Albano Fernandes, Joaquim Margarido, José Paulo Santos, José Saro, Julio Machado Vaz, Manuela Lobo Vieira, Marcelo Teixeira, Pedro Albuquerque, Rogério Charraz, Sérgio Luís de Carvalho
Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2026 | sex | 21:00


O terceiro dia da 12.ª edição do Festival Literário de Ovar começou quando a noite ainda vinha longe. Entre oficinas, formação creditada para professores e uma sessão sobre as virtualidades pedagógicas da biblioteca escolar, desde manhã cedo que as palavras começaram a multiplicar-se pelas salas da Escola Secundária Júlio Dinis. Ao fim da tarde, no Museu Júlio Dinis, Anabela Carrazedo apresentou “A Crença do Desamor” e, depois, Carlos Nuno Granja juntou João Albano Fernandes, Manuela Lobo Vieira, José Paulo Santos e Pedro Albuquerque numa mesa de conversa que tomou como ponto de partida uma frase de José Cardoso Pires: “Sei, todos nós sabemos, como pesa o tempo vencido sobre quem se aventura a recompô-lo. É um eco a sublinhar as palavras, uma ironia que nos contempla de longe, um aviso.” Um aviso, pois, numa jornada que viria a ser feita de memória e inquietação, de livros que pareceram ir à procura do que ficou para trás e de vozes que se empenharam em compreender o presente. Quando a noite chegou à Escola de Artes e Ofícios, o festival já trazia muitas horas de palavras dentro de si.

Foi com o pão que a noite se sentou à mesa. Sérgio Luís de Carvalho, com “Almanaque do Pão”, acompanhado pelas ilustrações de Dina Pereira e pela memória de séculos de tradição, mostrou que há alimentos que são também territórios, histórias, gestos e afectos. “O pão não é só pão. É história e é memória”, disse a ilustradora, autora de sessenta e cinco desenhos que procuraram acompanhar, com o mesmo cuidado e paciência, a matéria escrita. O autor trouxe mais de meio milhar de provérbios, receitas, lendas, referências bíblicas e tradições populares, da padeira de Aljubarrota à Festa dos Tabuleiros, das migas às açordas, lembrando que muitas das tradições dos pobres são aquelas que o tempo se encarregou de guardar mais ciosamente. O pão foi, assim, uma espécie de metáfora perfeita para esta noite: algo que se amassa, se transforma e se partilha. Mais tarde, “Palavra Puxa Palavra” levou essa partilha para outro lugar. Rogério Charraz e Júlio Machado Vaz fizeram da poesia e da música uma conversa sem mapa, uma espécie de carta aberta em que se sabe onde se começa, mas nunca onde se acaba. O’Neill, Ramos Rosa, Sophia, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires, Jorge Palma, Luís Represas, Elis Regina. A palavra foi puxando a palavra, até a sessão ficar suspensa da última nota.

A mesa moderada por Joaquim Margarido fez com que a noite encontrasse o seu centro em três Anas - Ana Cláudia Santos, Ana Oliveira Cardoso e Ana Rita Gomes -, três percursos, três escritas, três maneiras de olhar o mundo sem aceitar que alguém lhes entregue uma legenda pronta a engolir. A frase de José Cardoso Pires - “Mas o pior dos piores sabe o que é? É cada qual obrigar-me a fazer uma ideia do mundo a seu gosto. Vem um, diz: Isto está certo porque assim é que deve ser. Toma nota, ó cego” - serviu de chave para abrir uma conversa sobre literatura, mulheres, identidade, linguagem e liberdade. Ana Cláudia Santos falou da escrita como exercício de passagem, afirmando que é a sua maneira de “traduzir os outros, traduzir ideias e traduzir-me a mim própria”. Ana Oliveira Cardoso, autora de “Ontem”, romance onde o mar, a ilha e a memória se encontram, deixou uma frase que parece conter uma poética inteira: “A escrita leva-me a não tomar as coisas à letra.” E Ana Rita Gomes, autora de “A Bicicleta Açoriana”, trouxe consigo uma história que parecia fechar um círculo: veio para Ovar aos 14 anos “para fugir das letras” e regressou aos 50 para um Festival Literário. Entre o humor, a intimidade e a reflexão, as três convidadas foram mostrando que a literatura começa muitas vezes quando deixamos de aceitar que as coisas sejam apenas aquilo que parecem.

E houve ainda a inteligência artificial, essa presença cada vez mais inevitável, a pairar sobre o futuro da palavra. Ana Cláudia Santos lembrou que uma ferramenta generativa poderá imitar a linguagem, mas nunca será capaz de substituir as emoções e os sentimentos que um escritor deposita no que escreve; Ana Rita Gomes acrescentou que “quanto mais coisas sentidas partilhares, mais vais combater a inteligência artificial”. Pelo meio ficou também a questão das barreiras que ainda atravessam o caminho das mulheres, mas sem que a conversa se deixasse aprisionar por respostas fáceis: “Não é importante se se trata de ser homem ou mulher. O mais relevante é sermos boas pessoas”, afirmou Ana Rita Gomes. Nisso residiu o verdadeiro fio da noite: a recusa de uma única forma de ver, a desconfiança perante quem chega com certezas embaladas, o direito à dúvida e à diferença. Depois, Rogério Charraz e Júlio Machado Vaz levaram tudo isso para a música e para a poesia. “Quando os Deuses brincam é para magoar”, ouviu-se. Mas, naquela noite, talvez as palavras tenham feito o contrário: em vez de ferirem, encontraram-se. E, encontrando-se, fizeram companhia umas às outras. Palavra puxou palavra, a noite puxou a memória e a salvação veio pela música, pelos livros, pela partilha entre escritores e leitores.

sábado, 19 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 2



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Ana Maria Ferreira, Carla Louro, Carlos Nuno Granja, Francisco Coelho Neves, João Rasteiro, Rui Oliveira, Rui Sobral
Escola de Artes e Ofícios
17 Set 2026 | qui | 21:00


Noite de sonho e de magia. Noite das palavras vertidas em poesia, que ajuda a preencher os lugares, a respeitar os silêncios, a iluminar a memória de uma frase que regressa quando já ninguém a espera. Foi assim a segunda noite da 12.ª edição do Festival Literário de Ovar, uma noite inteiramente dedicada às palavras e aos poemas. Na bonita Sala Expande da Escola de Artes e Ofícios, fizeram-se anunciar de rompante, a ameaçar a queda, mas foram-se firmando e ocupando o espaço, como quem entra na casa pelo pátio com a familiaridade das coisas nossas. Poemas houve que trouxeram consigo o cheiro das batatas e do pão, do chão da infância. Outros que falaram da queda, da memória, do vazio, do que somos quando escrevemos, daquilo em que nos transformamos quando o poema começa a existir. Houve ainda palavras ditas e palavras cantadas, acompanhadas por sons nascidos do instante. Sucessão de ideias e reflexões, de questionamento e emoções, a noite foi um longo encontro com a poesia, capaz de nos fazer parar, de nos inquietar e, por breves instantes, de nos devolver ao princípio da nossa própria vida.

João Rasteiro abriu este segundo dia com “A Beleza da Queda”, um livro onde tudo parece estar em desequilíbrio e, paradoxalmente, ainda assim guardar um fulgor: o corpo, o amor, a memória, a linguagem, Portugal, a Europa, a própria ideia de permanência. Moderado por Carlos Nuno Granja, o encontro deixou palavras que ficaram a pairar na sala. “A poesia é, e continua a ser, a mais útil de todas as inutilidades”, disse o poeta, antes de lhe reconhecer a capacidade de retardar a nossa “queda colectiva”. Essa ideia de resistência pela palavra viria a encontrar continuidade, ao fim da noite, em “As Palavras”, de Rui Oliveira. Com uma presença cénica forte, desarmante e profundamente cúmplice, o músico e cantor transformou a Sala Expande numa espécie de sala de estar comum, onde deixou de haver espectadores para passar a haver convidados. António Gedeão, Natália Correia, Maria Velho da Costa, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa e Almada Negreiros encontraram-se com José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Rui Reininho e Carlos do Carmo. E, com a sua viola e uma caixa de loop, Rui Oliveira foi construindo as paisagens sonoras de cada poema e de cada canção, num exercício de mestria que fez do instante algo de sublime e de verdadeiramente irrepetível.

Na mesa moderada por Ana Maria Ferreira, uma das vozes mais reconhecíveis e persistentes do FLO, encontrou a noite o seu centro de gravidade. Carla Louro, Prémio de Poesia Nuno Júdice 2025, Francisco Coelho Neves e Rui Sobral sentaram-se à volta de uma pergunta antiga e sempre renovada: quem é esse outro que aparece quando escrevemos? A frase de José Cardoso Pires - “Espantoso como bruscamente o meu eu se transformou ali noutro alguém” - abriu caminho para uma conversa onde autobiografia, ficção, memória e criação se confundiram sem nunca perderem uma saudável e profícua tensão. Rui Sobral lembrou que “o sujeito poético não sou eu, ainda que eu esteja todo lá” e que a memória é a matéria primeira que a escrita transforma, acrescentando novos significados aos acontecimentos. Carla Louro falou dos seus vários “eus”: o da inspiração, o da matéria do poema, o do vazio e aquele outro, inquietante, que surge depois de um livro publicado e que a leva a perguntar: “E agora?”. Francisco Coelho Neves encontrou na escrita uma maneira de montar “fragmentos” de si próprio que desconhecia. E talvez tenha sido precisamente aí que a conversa tocou uma verdade essencial: escrever não é apenas dizer o que somos; é descobrir, no acto de dizer, aquilo que ainda não sabíamos de nós.

A poesia de Carla Louro ajudava, quase silenciosamente, a responder à pergunta. Em “Entra-se na casa pelo pátio”, a casa não é apenas lugar: é linguagem, memória, corpo. Entra-se nela como se entra num verso, percorrendo divisões onde cada objecto parece guardar a marca de quem o tocou. Há cheiros que escrevem recordações, uma cozinha que respira, mãos que alinham palavras como quem cose tecido, uma filha que olha o mundo com a surpresa inaugural de quem ainda sabe que uma pedra pode ter a forma de uma televisão e que o azeite “é que liga tudo”. Talvez tenha sido essa atenção ao pequeno, ao quase invisível, que atravessou também a mesa e, de certo modo, toda a noite: a certeza de que qualquer coisa pode ser matéria de poema, como lembrou Carla Louro, e de que até uma batata, nas palavras de Rui Sobral, pode ser uma infinidade de coisas. No final, depois dos livros, das vozes, dos poemas e das canções, ficaram as palavras - esses pequenos milagres que alguém escreve para que algo não se perca. E por momentos, a memória foi casa, a casa poema e o poema porta escancarada que convida a entrar. E a ficar.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 1



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Alexandra Gondin, Ana Paula Tavares, António França, Aurora Gaia, Bruno Henriques, Carlos Nuno Granja, Domingos Silva, Filipa Leal, Hélder Ventura, João Martins, Joaquim Arena, José Ferreira, José Ferreira Soares (Zé da Vesga), Lourdes Lara, Óscar Graça
Museu Júlio Dinis, Centro de Artes de Ovar
16 Set 2026 | qua | 18:00 e 21:00


Vivo, dinâmico, alegre, disponível e recheado de propostas irrecusáveis, o Festival Literário de Ovar abriu as portas da sua décima segunda edição na passada quarta-feira. Entre o Museu Júlio Dinis e o Centro de Artes de Ovar, o FLO começou a desenhar o seu território, preenchendo-o de livros, de vozes, de memórias, de música e, sobretudo, de encontros. Primeiro, Aurora Gaia, 87 anos de uma vida entregue às artes, foi estrela em cena através da exposição “Aurora – (Com)Vivências… Teatro, Cinema, Televisão e Literatura”, como que regressada a uma casa onde persistem tantos pedaços de si. Depois, na abertura oficial do certame, Carlos Nuno Granja lembrou que o FLO é essa utopia que se tornou realidade e que não desiste de aproximar os escritores dos leitores, a cidade dos livros. Domingos Silva, Presidente do Município, falou de um espaço de encontros que o tempo tornou necessário, evocando a contradição de um presente em que “preferimos o resumo ao ensaio, a legenda ao artigo”. E talvez o FLO exista para contrariar isso mesmo, afirmando-se como uma espécie de resistência tranquila à voragem dos dias, um lugar onde ainda se pode parar. Parar para ouvir. Parar para pensar. Parar, simplesmente, para estar.

Foi nesse lugar de encontro que se escutou o “Grito Calado”, de Zé da Vesga, livro onde a poesia se mistura com as canções e onde uma vida inteira parece procurar palavras para serem contadas. Lourdes Lara disse-o com uma imagem feliz: “[Zé da Vesga] aprendeu a falar com a vida através das palavras, a falar com o coração através da música”. Nisto reside a essência de um livro que reúne poemas, inquietações e memórias, mas também muitas das canções que escreveu para o Cantar os Reis, guardando nas suas páginas uma parte da memória colectiva da cidade. Aos 87 anos, o autor entrou na noite sem a solenidade dos que chegam para falar de uma obra acabada. Chegou com desassombro, as dúvidas à flor da pele: “Porque não brincam os homens ao pião em vez de se preocuparem em brincar às mortes?”. E depois deixou uma frase que podia ser lema, desejo ou oração: “Menos armas, mais poesia”. Quando a música e a poesia tomaram finalmente o palco, Filipa Leal, João Martins e Óscar Graça fizeram exactamente isso: procuraram um lugar onde as palavras pudessem encontrar ninho. Entre silêncios, piano, teclados e sopros, os poemas foram deixando de ser apenas palavras para se tornarem matéria sonora. Num gesto cúmplice, os instrumentos souberam acompanhar a voz sem nunca a aprisionar, respeitando-lhe as pausas, prolongando-lhe os silêncios, sublinhando uma frase mais emotiva ou apenas sussurrada, acrescentando camadas de sentido aos poemas.

Mas houve um momento em que o FLO se agigantou e que correspondeu à primeira de onze mesas que, até ao final da tarde do próximo domingo, assumirão o papel de protagonistas numa programação rica e variada. Sentados frente a frente, sob a moderação inteligente e bem humorada de Bruno Henriques, Ana Paula Tavares e Joaquim Arena falaram de viagens que nem sempre precisam de estrada ou geografias e que, mesmo quando ficam para trás, continuam a viver dentro de quem parte. Ana Paula Tavares, Prémio Camões 2025, falou de Angola como se fala de uma ausência que nunca se ausenta. “Estar fora de Angola tira muito mais do que acrescenta”, disse. A distância não lhe resolveu a relação com os lugares de nascimento e crescimento; pelo contrário, devolveu-os na forma de solidão, memória e escrita. Mas a memória, sabe-o a historiadora, não é imóvel. É fugaz, reconstrói-se, reinventa-se. “A memória da guerra, numa Angola onde 75 por cento da população tem hoje vinte anos, já não é necessariamente memória vivida: é memória reconstruída, recebida, retrabalhada”, afirma. É contra a possibilidade da perda que a sua escrita se ergue. A memória da mãe, da avó, das vozes antigas, das formas de dizer e de entender o mundo, tudo isso se reúne nesse “fio da memória” que a poeta procura tecer no laboratório da poesia. Escrever é, para Ana Paula Tavares, uma forma de não deixar morrer. Uma maneira de trazer para o presente aquilo que o presente, tantas vezes, parece querer esquecer.

Joaquim Arena acrescentou à conversa outra geografia da ausência. Cabo Verde, os que partem e os que ficam, as famílias que aprendem a viver separadas, a diáspora, a saudade que se torna matéria de escrita. “Movimento é literatura. A minha escrita é uma escrita em trânsito”, disse. E, por momentos, Angola e Cabo Verde pareceram encontrar-se nesse lugar sem fronteiras onde a literatura transforma a distância em presença e a ausência em memória. Joaquim Arena falou da literatura como “um dos poucos espaços da nossa liberdade”; Ana Paula Tavares falou da poesia como espaço capaz de recuperar formas de vida ameaçadas pela voragem do mundo moderno. Houve, nas palavras de ambos, uma inquietação comum: o que acontece quando se perde a memória? O que acontece quando se perde a capacidade de ler, de reflectir, de pensar? Falaram de controlo, de vigilância, do incómodo que o pensamento livre provoca nos que detêm o poder. E falaram do escritor como alguém que permanece na linha da frente dessa batalha silenciosa. “O escritor é uma espécie de ‘frente de combate’ contra aqueles que querem cercear a nossa liberdade”, afirmou Joaquim Arena. Ana Paula Tavares lembrou que os poderes não gostam de ser incomodados. E foi nesse cruzamento entre memória e liberdade, entre identidade e escrita, que a conversa ganhou uma dimensão maior do que a própria literatura, obrigando-nos a reflectir sobre o que ainda queremos ou podemos preservar de nós mesmos.

Talvez por isso, noite alta, quando as luzes do Centro de Artes se desvaneceram e Filipa Leal começou a descobrir lugares para as suas palavras, os resistentes da sessão encontraram um lugar cinestésico, imune às leis da gravidade, da cor do arco-íris, que foi colo, afago, doçura e amor. Porque as palavras tinham passado toda a tarde e noite a procurar esse lugar: na vida de Aurora Gaia, nas memórias e canções de Zé da Vesga, nas palavras de dois autores que escreveram a partir da distância, da história e da ausência, e finalmente na música que João Martins e Óscar Graça lhes ofereceram como espaço de escuta. “Ouvir é a maneira mais pura de calar”, dizia o projecto. Terá sido essa a última lição da noite inaugural do FLO: compreender que há palavras que não pedem respostas, pedem presença. Que há memórias que só sobrevivem se forem ditas. Que há viagens que começam muito depois de regressarmos. E que a literatura, quando assim acontece, não termina no momento em que o leitor fecha o livro, nem quando o poema acaba, nem quando a música deixa de se ouvir. Fica. Algures entre a memória e o silêncio. Agora que a cidade dorme, as palavras dormem com ela, certas de terem encontrado o seu lugar.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 5



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Agrupamento de Escolas de Esmoriz – Ovar Norte | Curso Técnico de Multimédia | Alice Caetano, Andreia Confusa, Belmiro Carvalho, Bruno Henriques, Cândida Jardim, Carlos Nuno Granja, Cristina Carvalho, Edgar Pedro, Fernando Soares, Joana Leitão, José Manuel Castanheira, Lúcia Bandeira, Madalena Sá Fernandes, Manuel Frias Martins, Marcelo Teixeira, Matilde Horta, Nuno Bernardo, Paula Margato, Pedro Reisinho, Rita Correia, Rui Couceiro, Rui Guedes, Rui Manuel Almeida, Sérgio Duarte, Teresa Carvalho, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vanessa Martins
Parque Urbano de Ovar, Centro de Artes de Ovar, Bar do CAO
21 Set 2025 | dom | 10:00 e 15:00


A décima primeira edição do Festival Literário de Ovar chegou ao fim e o balanço, feito na primeira pessoa por Carlos Nuno Granja, programador de conteúdos literários e, incontestavelmente, a alma e o coração do certame, resume-se numa frase: “Esta foi a melhor edição de sempre do Festival.” Uma ideia partilhada pelos indefectíveis do FLO, que o vêm acompanhando com renovado interesse, e que vêem nele o ponto de encontro perfeito no final de cada Verão. Durante cinco dias, Ovar foi a cidade da palavra e da cultura, com onze mesas literárias, quinze apresentações de livros, seis concertos e performances, oito oficinas, três sessões de teatro ambulante e uma curta-metragem em estreia mundial. Ainda na ressaca duma verdadeira maratona de celebração da palavra, a emoção prevalece, pela alegria da novidade e o reconhecimento da surpresa, pelo abraço de amigos de antes e de agora. Mas há também como que uma estranheza, uma quase sensação de orfandade, pelo fim deste ambiente acolhedor, vivo e livre, que sabe bem e faz bem.

De uma beleza ímpar, o Parque Urbano de Ovar foi o palco da manhã do último dia do Festival Literário de Ovar. A jornada não poderia ter começado melhor, com a apresentação de “O descabido caso dos livros desaparecidos”, uma obra de Carlos Nuno Granja, com ilustrações de Andreia Confusa. Matilde Horta dirigiu uma oficina de ilustração, Paula Margato trouxe para a Sessão de Conto “Um Lobo, Uma Capuchinho & Companhia Ilimitada” e houve igualmente lugar a uma mesa, a penúltima do programa, superiormente moderada por Rui Guedes e que contou com a participação de Vanessa Martins, Alice Caetano e Joana Leitão. A sessão resultou num vivo e enriquecedor momento em torno da literatura infantil, no qual se falou do processo criativo, de onde nascem as ideias para escrever, do acto da escrita como catarse e da dificuldade em provar aos mais novos, fascinados pelas novas tecnologias, que o livro é um objecto carregado de magia e sedução. A tarde teve o seu início no Bar do CAO e, logo a abrir, foi animada por uma excelente conversa moderada por Marcelo Teixeira, com Cristina Carvalho e José Manuel Castanheira ao seu lado na mesa, nela se falando da vasta obra dos dois convidados e, em particular, do livro que escreveram em parceria, “Fabulário ou o Pequeno Circo do Mundo”.

A apresentação dos livros “A Dança dos Pássaros Invisíveis”, de Edgar Pedro, e “O Rufo do Tambor que Levamos no Peito”, de Rui Guedes, prenderam igualmente a atenção dos presentes, bem como a Sessão de Contos, animada por Cândida Jardim, e a Oficina de Ilustração, com Rita Correia. O Auditório do Centro de Arte de Ovar abriu-se ao público para a última mesa do Festival, com Madalena Sá Fernandes, Manuel Frias Martins e Rui Couceiro, e moderada por Teresa Carvalho. Sob uma frase de Miguel Torga - “Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem” –, os convidados fizeram aquilo a que a moderadora chamou “esfregar sal na ferida que somos”. Também aqui se falou do processo de escrita, com Madalena Sá Fernandes a afirmar que “a literatura pode pouco, mas é esse pouco que a torna insubstituível” e Manuel Frias Martins a dizer que a base da escrita ficcional está no “não é, mas poderia ser”. Enfim, Rui Couceiro salientou que, “ainda que o futuro esteja sob a ameaça da Inteligência Artificial, haverá sempre uma literatura sem batota para nosso consolo.” A curta-metragem “Fui logo a Bela para Todos”, realizada por Belmiro Carvalho, e “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante”, por Trigo Limpo Teatro ACERT, colocaram um ponto final numa edição memorável do Festival. O FLO regressa daqui a um ano. Viva o FLO!

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Zorrinho, aRita, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Bruno M. Franco, Carla Pais, Cátia Cardoso, Cristina Marques, Diana de Oliveira, Elsa Teixeira, Filipa Amorim, Filipa Vera Jardim, Helena Ribeiro, Joana Nogueira, João B. Ventura, José Riço Direitinho, Joaquim Margarido, Lúcia Moniz, Luís Correia Carmelo, Miguel d’Alte, Minês Castanheira, Miriam Gonçalves, Nuno Alexandre Vieira, Paula Mendes Coelho, Pedro Lamares, Pedro Reisinho, Ricardo Santos, Raquel Patriarca, Rita Tormenta, Rodrigo Vieira Dias, Rui Sobral, Sara Dias Oliveira, Sílvia Lima, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vasco Prazeres, Vera Morgado, Vítor Gil Cardeira, Zetho Gonçalves
Parque do Buçaquinho, Museu Júlio Dinis, Jardim dos Campos, Centro de Artes de Ovar e Bar do CAO
20 Set 2025 | sab | 10:00, 14:00 e 21:30


Tradicionalmente o mais exigente, mas também o mais aliciante, o quarto dia do Festival Literário de Ovar voltou a prender a atenção dos amantes do livro e da leitura, pela sua rica e variada oferta. “Patrulha Raposa – Vigilantes da floresta”, escrito por Diana de Oliveira e apresentado por Pedro Reisinho, deu início a uma viagem que teve o seu início no Parque Ambiental do Buçaquinho e viria a terminar, mais de quinze horas depois, no Bar do Centro de Artes de Ovar. Num espaço dedicado à Literatura Infantil, a manhã foi preenchida com uma Oficina de Ilustração dinamizada por aRita, uma sessão de contos com Luís Correia Carmelo e ainda uma Mesa moderada por Helena Ribeiro e que teve num painel constituído por Miriam Gonçalves, Elsa Teixeira e Rodrigo Vieira Dias, três figuras muito especiais. Entre as estratégias para adormecer os mais novos e o poder das ideias em frente da folha em branco, os convidados falaram de livros, das fontes de inspiração dos seus trabalhos, da necessidade da literatura infantil para o crescimento e desenvolvimento infantil, mas também da importância do “aborrecimento” das crianças, da ausência de estímulos que muitas vezes deixam os pais exauridos, mas que as obriga a serem criativas.

Ao início da tarde, no Museu Júlio Dinis, procedeu-se à entrega de prémios da “III Edição do Concurso Literário e de Ilustração Júlio Dinis 2025”, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas Ovar Sul e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Ovar. A mais conhecida “Casa Ovarense” da cidade foi igualmente palco da apresentação do livro “O Flâneur de Paris”, de João B. Ventura, e de uma conversa com o escritor Bruno M. Franco sobre o género policial na literatura portuguesa contemporânea. Simultaneamente, no Jardim dos Campos, decorria a apresentação dos livros “Truz Truz, Abre a Porta, Avestruz”, de Vera Morgado, e “Agora sou capaz”, de Ricardo Santos e Joana Nogueira, com ilustração de Sílvia Lima, a par com uma bem participada Oficina de Ilustração com Nuno Alexandre Vieira e, no espaço fronteiro da Câmara Municipal de Ovar, uma nova representação de “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante” pelos actores da companhia Trigo Limpo - Teatro ACERT, de Tondela. A apresentação de livros teve ainda um último capítulo ao início da noite, num Centro de Artes de Ovar quase lotado, com as atenções a virarem-se para “Cartografia”, “poesia escrita a quatro mãos e dois corações” por Minês Castanheira e Raquel Patriarca, e que resultou num momento de generosa partilha de poemas, afectos e emoções.

Além do momento da manhã referido anteriormente, o programa teve para oferecer mais três mesas de conversa, duas das quais no Museu Júlio Dinis. Rico, vivo, apaixonante, o primeiro desses momentos contou com a moderação de Cátia Cardoso e deu a escutar as impressões de Rita Tormenta, Filipa Vera Jardim e Vítor Gil Cardeira sobre a vaidade e a inveja no seio do complexo mundo da escrita. Em termos muito gerais, Vitor Cardeira falou da escrita como uma doença da qual não é possível livrar-se, no que foi acompanhado por Filipa Vera Jardim, ciente de que “sem livros morreria”. Rita Tormenta admitiu que “ninguém escreve sem um pouco de vaidade” e Filipa Vera Jardim acrescentou que “é preciso saber distinguir a inveja da admiração: narcisos somos todos”. Enfim, sobre o acto da escrita, Vítor Gil Cardeira afirmou que “o escritor constrói e destrói mundos” e que “escrever é uma luta brutal contra a auto-censura”. Uma frase de Agustina Bessa-Luís - “Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia.” - serviu de mote à segunda mesa da tarde. Com moderação de Sara Dias de Oliveira, para quem “escrever é um processo doloroso e um acto de amor”, Miguel D’Alte, José Riço Direitinho e Vasco Prazeres abordaram os temas da amizade e da inveja, do interesse e da distração que as redes sociais constituem (para o bem e para o mal) e, naturalmente, do amor, nas suas mais variadas vertentes. A conversa estendeu-se ao público, com a escritora Raquel Patriarca a fazer notar que “os livros dão algo aos leitores que estes nunca irão pagar”.

A mesa da noite, no Centro de Artes de Ovar, foi beber o tema a uma citação de Raúl Brandão: “Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros.” Foi sobre o ofício da escrita e as muitas reflexões que suscita que se debruçaram as escritoras Carla Pais, Filipa Amorim, Ana Zorrinho, numa conversa moderada por Cristina Marques. Ofício da escrita onde se cruzam os episódios do quotidiano, as personagens saídas de um imaginário fácil de contextualizar mas difícil de explicar, a surpresa com aquilo que vai passando para o papel e um certo grau de loucura. Numa mesa que abriu espaço à leitura de excertos dos livros das autoras, o destaque vai para o conto “O Louco”, de Ana Zorrinho, lido superiormente pela autora e sobre o qual Carla Pais afirmou: “Quem não se arrepiou com este momento, não percebe nada acerca do poder da Literatura”. Outro ponto alto do serão foi a performance “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, com Lúcia Moniz e Pedro Lamares a cruzarem a poesia de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen com as cartas que ambos trocaram ao longo de dezoito anos e que constituem um impressionante retrato social, histórico e moral do Portugal dos anos 60 e 70, o retrato de um país roubado. Já a noite ía adiantada quando, no Bar do CAO, “Poesia A Meias”, de Aurelino Costa & Zetho Cunha Gonçalves, com Aurora Gaia, fechou da melhor forma o penúltimo dia do Festival.

domingo, 21 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 3



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Abel Mota, Ana Carvalho, Ana Sofia Marçal, António Cabrita, António Carlos Santos, Carlos Coutinho, Carlos Nuno Granja, Joana Alegre, Joaquim Margarido, José Fialho Gouveia, José Saro, Luís Correia Carmelo, Mafalda Rocha, Nuno Artur Silva, Paulo Freixinho, Pedro Guilherme-Moreira, Rogério Charraz, Sofia Paulino, Trigo Limpo – Teatro ACERT
Escola Secundária Júlio Dinis, Biblioteca Municipal de Ovar, Museu Júlio Dinis, Escola de Artes e Ofícios
19 Set 2025 | sex | 10:30, 14:30, 18:00 e 21:30

Foi gigante, o terceiro dia do Festival Literário de Ovar, não apenas pela sua dimensão no tempo, mas também pela quantidade de momentos preciosos que encerrou. A companhia Trigo Limpo Teatro ACERT abriu as hostilidades, levando à Escola Secundária Júlio Dinis, a meio da manhã, a peça “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante”. Ao início da tarde, na Biblioteca Municipal de Ovar, Paulo Freixinho orientou uma oficina de leitura e escrita intitulada “Palavras Cruzadas”, e pelas 18h00, o Museu Júlio Dinis foi palco da apresentação do livro “Um Pouco Mais de Sol”, de Abel Mota, uma edição da Guerra e Paz. Neste mesmo espaço, a fechar uma tarde bem preenchida, Pedro Guilherme-Moreira moderou a quarta mesa do Festival, na qual participaram Carlos Nuno Granja, Carlos Coutinho e Ana Sofia Marçal. Incidindo sobre “O Festival Literário e a relação com o território e sua comunidade”, a conversa permitiu partilhar factos, números e curiosidades e reflectir sobre os desafios em torno de Festivais como a Maratona de Leitura da Sertã, o FÓLIO - Festival de Literatura de Óbidos e o FLO - Festival de Literatura de Ovar.

Após o jantar, os passos encaminharam-se para a Escola de Artes e Ofícios onde, a abrir a sessão, Ana Carvalho apresentou o livro “PHOSPHOROS (100 amorfos)", de António Carlos Santos, momento que teve na declamação “comunitária” de poemas do livro um dos seus pontos fortes. Seguiu-se a Mesa 5 do FLO, com os escritores António Cabrita e Nuno Artur Silva a pesarem as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen - “A cultura é uma das formas de libertação do homem. Por isso, perante a política, a cultura deve sempre ter a possibilidade de funcionar como antipoder”. Com moderação de Joaquim Margarido, os convidados debruçaram-se sobre a escrita como acto político, olharam para o livro como um agente interventivo capaz de suscitar o debate público e político, analisaram um tempo de polarização política e a forma como isso influencia a aceitação da obra dos escritores de hoje e concordaram que, mesmo que o discurso político se faça, muitas vezes, nas redes sociais, também aí pode haver lugar para a literatura. Nuno Artur Silva particularizou a sua experiência enquanto Presidente do canal público de televisão para avaliar os media actuais como espaços culturais e António Cabrita comentou o papel da diáspora e das migrações na redefinição da literatura moçambicana, num país onde o mercado do livro é praticamente inexistente e os jovens escritores cedem facilmente às novas tendências do mercado, abdicando da singularidade da sua escrita.

O concerto “ANÓNIMOS de Abril” fechou a noite da melhor forma, trazendo consigo um conjunto de canções originais e inéditas que trazem para um plano central o nome de mulheres e homens que tiveram a coragem e a ousadia de enfrentar e fragilizar um regime que, durante quarenta e oito anos, explorou e oprimiu o nosso povo. Estreado em de Janeiro de 2024 e inserido nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, o projecto é baseado em textos de José Fialho Gouveia, Aurora Rodrigues (um relato arrepiante da sua experiência de prisão e tortura) e Miguel Carvalho, jornalista e sobrinho de Branca Carvalho (outra das homenageadas do projeto) e conta com a música de Rogério Charraz e as vozes do próprio Charraz e de Joana Alegre. Procurando preservar a memória colectiva do nosso país e ampliá-la com as histórias menos conhecidas daqueles que, nalguns casos, pagaram com a própria vida a luta pelos ideias de liberdade e democracia, o colectivo trouxe-nos palavras fortes e vivas que lembraram  Celeste Caeiro e Aurora Rodrigues, Jorge Alves e o Padre Alberto, Arajaryr Campos e Francisco Sousa Mendes, entre várias outras figuras. O concerto fechou com a sala em pé, irmanada nos ideais de liberdade que nortearam todo o serão, a cantar o hino dos Hinos, “Grândola Vila Morena”.

sábado, 20 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 2



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Abigail Ascenso, Ana Deus, Ana Maria Ferreira, Cláudia Lobo, Daniel Maia Pinto-Rodrigues, Lília Tavares, Luca Argel, Maria Toscano, Nuno Gomes, Vítor Pinto Basto
Escola Secundária José Macedo Fragateiro, Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2025 | qui | 21:00 


Depois de um arranque recheado de emoções, o Festival Literário de Ovar enfrentou com renovada ilusão um novo dia, tendo para oferecer um programa em versão curta, mas nem por isso menos aliciante. Entre portas abertas à leitura e azulejos vestidos de poesia, por esta ocasião a cidade reforça o seu abraço às letras. As palavras soltam-se dos livros e revolteiam no ar, dispostas a verter-se em conversas íntimas e em concertos em que a música se curva perante a poesia. Como velhos cúmplices de um segredo partilhado, escritores cruzam de novo olhares e ideias com leitores. Em palcos de pensamento e emoção, a cada novo dia, os livros falam mais alto, os corpos dizem textos, os sons desenham imagens e o FLO cumpre-se no seu desígnio de celebrar a palavra, orgulhoso da escrita de mais um capítulo de uma história com final feliz.

A Escola de Artes e Ofícios foi o epicentro de um programa que atraiu um público leitor entusiasta, disposto a reforçar os laços que, através dos livros, busca estabelecer com o escritor. E quase apetece dizer que o milagre aconteceu de novo, com a bonita Sala Expande a transformar-se, no breve espaço de um serão, num mundo de partilha, imaginação e ideia cúmplice. Lília Tavares, Vítor Pinto Basto e Maria Toscano animaram a terceira mesa do FLO, dispondo-se, sob a moderação de Ana Maria Ferreira, a dissecar uma frase de Fernando Namora: “A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade.” Numa conversa emotiva, interventiva e viva, abanão vigoroso às consciências dos mais distraídos, falou-se da poesia como “o território da pura liberdade” (Lília Tavares), de democracia como elemento-chave de uma trilogia onde se inclui a literatura e a liberdade (Maria Toscano) e da função social da literatura (Vítor Pinto Basto).

“O Corredor Interior”, romance de Daniel Maia Pinto-Rodrigues, editado pela Exclamação e apresentado por Nuno Gomes, tinha aberto o serão, cabendo a Ana Deus e Luca Argel fechar a noite com um concerto intitulado “Canções para beber com Pessoa”. Nele, os artistas revisitaram as “Canções de beber" (ou Rubaiyat), do poeta-astrónomo Omar Khayyam e que, desde a Pérsia do Século XI, inspiraram Fernando Pessoa a traduzir de forma muito livre (do inglês, baseado em Edward Fitzgeral) cerca de duas centenas de quadras. Foi sobre esses poemas que o concerto incidiu, aos quais a dupla acrescentou um conjunto de temas extraídos de “Ruído Vário – Canções com Pessoa”, álbum de estúdio de 2017, uma encomenda da Casa Fernando Pessoa. Ao transformar e atualizar o génio de Fernando Pessoa – “passando por diversas das suas facetas, da solenidade trágica ao escárnio humorístico” –, Ana Deus e Luca Argel ofereceram a possibilidade de escutar a palavra de uma outra forma – igualmente celebrativa, jubilosa e livre. E que siga o FLO!

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 1



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Freijo, Bruno Henriques, Capicua, Carlos Alberto Moniz, Carlos Nuno Granja, CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, Gabriel Pinto, Hugo Carvalhais, João Martins, José Ferreira, Luís Portugal, Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl
Museu Júlio Dinis, Centro de Artes de Ovar
17 Set 2025 | qua | 18:00 e 21:30


Recuemos no tempo, a 03 de Setembro de 2015, dia em que o Festival Literário de Ovar nascia para o mundo sob os melhores auspícios. Nesse início de um fim-de-semana prolongado, a cidade vivia um primeiro grande momento à volta dos livros, numa união franca e aberta entre escritores e leitores, ilustradores, livreiros e demais agentes ligados à escrita e à leitura. Se há loucura na escrita e ousadia na literatura, se os sentimentos se revelam mais facilmente no universo literário, se é possível fugir às contradições da sociedade, foram questões, de então e de sempre, às quais Miguel Real, Carlos Campaniço, Pedro Guilherme-Moreira, Jaime Rocha, Margarida Fonseca Santos, Afonso Valente Batista, Filipa Leal, João de Melo e vários outros escritores souberam responder, num verdadeiro exercício de “dar cultura às nossas gentes”, como afirmou Salvador Malheiro, Presidente da autarquia à data. Dez anos depois, o FLO pode orgulhar-se de um currículo invejável, assente em muito trabalho e perseverança, dedicação e crer, que fazem dele um dos mais relevantes Festivais Literários do nosso país.

Passada uma década, quantos livros, quantas palavras, quantos autores? Quantas memórias? Quantas pessoas? Quantos momentos? Não haverá, no contexto do FLO, pessoa mais indicada para responder a esta questão do que Carlos Nuno Granja, a mais importante figura do certame, alguém que acredita, desde sempre, no poder inabalável da leitura para a construção do pensamento crítico, autonomia e profundidade interior da pessoa, mas também na oportunidade que os livros oferecem de desacelerar, reflectir e desenvolver uma visão mais ampla e fundamentada do mundo, ajudando a formar indivíduos mais conscientes e íntegros, menos influenciáveis. Ele, a par de uma pequena mas valiosa equipa, são os responsáveis pela manutenção de um verdadeiro selo de qualidade que o Festival detém, e que volta a programar, de forma sólida e segura, um conjunto de actividades que, ao longo de cinco ininterruptos dias – entre conversas, concertos, teatro, apresentações de livros, cinema e muito mais –, prometem transformar a cidade numa imensa e apaixonante biblioteca.

O pontapé de saída do FLO 2025 teve lugar ao final da tarde no Museu Júlio Dinis com a inauguração de “Mais tempo por aqui…”, Instalação Sonora da autoria de Tiago Schwäbl, inserida no projecto “Inovar as Letras – À Escuta da Literatura”. Oportunidade única para escutar os sons de uma casa e as palavras de um escritor, sabiamente escrutinadas na obra dinisiana e abertas ao público com sensibilidade e emoção. Seguiu-se a primeira mesa do Festival, dedicada a debater “O processo de criação artística e a obra literária”. Moderada por Carlos Nuno Granja e com Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl, Ana Freijo e José Ferreira como convidados, a conversa foi ao encontro da Literatura e do Teatro, da Pintura, do Som e da Música, recuperando o ambiente acolhedor e familiar de uma casa ovarense e lançando a discussão em torno do processo criativo, suas dificuldades e condicionalismos, seus desafios e recompensas. A tarde encerrou com a performance “Pela Janela do Olhar”, encenada por José Ferreira e interpretada por um leque de actores da CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, numa homenagem sentida aos autores que, desde 2008, passaram pelo Festival Escritaria, e que nos olham das paredes do Museu em belíssimas pinturas da autoria de Mafalda Rocha.

Com a presença em palco de Carlos Nuno Granja e do Presidente do Município de Ovar, Domingos Silva, a abertura oficial do FLO 2025 teve lugar ao início da noite, nela se falando de ousadia e utopia, de sonho e muito querer, elementos determinantes de afirmação de um Festival que constitui “uma das marcas identitárias de Ovar”. As palavras de Vergílio Ferreira, “Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer” deram o mote à segunda mesa do Festival. Bruno Henriques moderou uma conversa que teve como convidados Luís Portugal e Capicua e que resultou, entre o sério e o irónico, num extraordinário momento de reflexão e partilha. De Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto ou Zeca Afonso como fontes de inspiração para a escrita de canções, à dificuldade crescente em romper com o “establishment” e assumir a música como um acto de resistência, ambos os convidados coincidiram na ideia de que “a liberdade [para criar], ou é total, ou não é liberdade”. O primeiro dia do Festival encerrou com o concerto “Na Primeira Pessoa”, de Carlos Alberto Moniz. Em palco, na companhia de Gabriel Pinto (piano), Hugo Carvalhais (contrabaixo) e João Martins (bateria), o cantor ofereceu, em graça e beleza, a força da música açoriana, numa celebração da palavra de alguns dos seus maiores poetas.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (V)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Adriano Cerqueira, Alexandre Rosas, Ana Isabel Gonçalves, Carlos Nuno Granja, Dénis Conceição, Elisabete Pinho, Eltânia André, Jorge Reis-Sá, José Pereira Pinto, José Vaz Nunes, Luísa Sobral, Mafalda Mota, Mantraste, Marcelo Teixeira, Maria Saraiva de Menezes, Miguel Marques, Ozías Filho, Patrícia Furtado, Paula Pina, Pedro Guilherme-Moreira, Rosário Alçada Araújo, Teresa Carvalho
Parque Urbano de Ovar, Centro de Artes de Ovar
22 Set 2024 | dom | 10:00 e 14:30


“Esta décima edição do FLO foi a melhor de sempre”. Proferida no discurso de encerramento do Festival Literário de Ovar, a afirmação é de Carlos Nunos Granja, a alma (e uma boa parte do corpo) do FLO. Uma afirmação que exprime o sentimento geral de quem acompanhou o Festival ao longo de cinco longos dias, deliciando-se com uma oferta rica, variada e de enorme qualidade, apreciando a sua dinâmica, vivendo as histórias de Ozías Filho, a poesia de Lauren Mendinueta, os contos de Marta Hugon, os livros infantis de Rosário Alçada Araújo ou a música de Jorge Névoa, da mesma forma que se emocionou com Camões, Pessoa ou Agostinho da Silva, no sentir e nas palavras de António Manuel Ribeiro e Maria José Quintela, Ana Isabel Marques e José Emílio-Nelson, Aurora Gaia e Jorge Reis-Sá, entre tantos outros. Numa altura em que se começa a construir a edição que assinalará uma década de Festival Literário de Ovar, o sucesso destes dias constitui o maior estímulo para quem vem pugnando, ano após ano, por mais e melhor FLO. Numa óptica de crescimento do Festival, a tão falada internacionalização já no próximo ano encerra enormes desafios, mas é uma aposta ganha à partida dada a forma como a marca FLO se soube afirmar e consolidar no circuito dos grandes festivais literários do país.

No último dia do Festival, o Parque Urbano de Ovar abriu-se aos mais pequenos “com sol entre os dedos, com estrelas nos olhos, e o vento aos segredos”. Histórias de encantar, desenhos mil, apresentações de livros e uma mesa temática preencheram um tempo de reflexão e partilha sobre aquilo que a literatura dita infantil pode significar no crescimento e desenvolvimento da pessoa e na sua forma de ver o mundo. José Vaz Nunes, Mafalda Mota e Luísa Sobral tiveram oportunidade de falar dos seus livros, com esta última a referir-se ao peso esmagador de certas palavras quando dirigidas a alguém de forma pejorativa ou maldosa. São as “palavras-elefante” que tantos estragos provocam na concepção que temos de nós próprios e do mundo e que muitos acabam por carregar toda uma vida. Com moderação de Carlos Nuno Granja, a mesa temática juntou Dénis Conceição, Rosário Alçada Araújo, Patrícia Furtado e Maria Saraiva de Menezes, quatro escritores dedicados à literatura infantil que, muito generosamente, partilharam a sua visão de um mundo particular no qual as palavras e as ilustrações se passeiam de mãos dadas. Um mundo de livros, reunido numa só frase por Rosário Alçada Araújo: “Um livro para crianças é um livro para todas as idades.”

A tarde dividiu-se pelo espaço exterior do Centro de Artes de Ovar, o Bar do CAO e o seu Auditório. Lá fora, as actividades continuaram a visar um público mais jovem com a apresentação do livro “Eureka! As descobertas que mudaram a ciência”, de Adriano Cerqueira, mas também uma sessão de contos com Ana Isabel Gonçalves e Paula Pina e ainda uma oficina de ilustração por Mantraste, artista visual com uma ligação estreita à Arte Urbana. Enquanto isso, o espaço do Bar mostrava-se pequeno para escutar a conversa com os escritores Ozías Filho e Eltânia André, na qual o moderador, Marcelo Teixeira, fez questão de manifestar o seu apreço por um festival que consegue reunir autores consagrados e muitos outros que dão os primeiros passos nas letras, sem esquecer “o apoio à actividade local”. E mais pequeno ainda ficou com o público que acorreu em grande número para ouvir José Pereira Pinto falar do segundo volume do livro “Associação Desportiva Ovarense - Clube Centenário: Uma Chama que Resiste”. Moderada por Teresa Carvalho, a última mesa do Festival juntou os escritores Pedro Guilherme-Moreira e Jorge Reis-Sá, voltando a chamar Camões para falar de vida e morte. Por fim, os “Sangue Suor”, projecto musical que junta as baterias de Ricardo Martins, Rui Rodrigues e Susie Filipe e que carregou de energia o Auditório do Centro de Artes. Um final em grande, sincopado e bem batido, feito de música que soube passear-se entre a alucinação da prosa e o fulgor da poesia.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (IV)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Ana Cristina Silva, Ana Isabel Marques, António Canteiro, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Beatriz Francisco, Carlos Nuno Granja, Célia Correia Loureiro, Cristina Marques, David Pintor, Diogo Carvalho, Dora Maria Nunes Gago, Emerenciano Rodrigues, Fernanda Cunha, Helena Ribeiro, Inês Viegas Oliveira, Jorge Valentim, João Eduardo Ferreira, José Emílio-Nelson, Lara Xavier, Lauren Mendinueta, Leandro Ribeiro, Luís Aguiar, Manuel Halpern, Patrícia Ribeiro Martins, Paulo Romão Brás, Pedro Almeida Maia, Renata Bueno, Rosário Alçada Araújo, Susana Amaro Velho, Victor Oliveira Mateus, Yana Marques, Zetho Cunha Gonçalves
Parque Ambiental do Buçaquinho | Museu Júlio Dinis | Jardim dos Campos | Centro de Artes de Ovar
21 Set 2024 | sab | 10:00, 14:30 e 21:00


Dia grande. Dia em grande. Por tradição, o sábado é aquele dia que mais dilemas coloca ao público do Festival Literário de Ovar, já que a sua programação é um verdadeiro non-stop de apresentações de livros, conversas, oficinas, histórias contadas e mesas temáticas. Deste dia fizeram parte, ainda, a apresentação da terceira edição do concurso literário e de ilustração Júlio Dinis, uma visita guiada e encenada à antiga vila histórica de Ovar, uma peça de teatro e, a encerrar catorze horas intensas à volta dos livros e da leitura, um sarau de poesia “a meias”. A cafetaria do Parque do Buçaquinho abriu as suas portas ao público para a apresentação do livro “A Arte de Gostar de Ler”, de Carlos Nuno Granja, com a qual teve início o quarto dia do FLO10. Seguiu-se uma mesa temática dedicada à literatura infantil com as autoras Ana Isabel Marques, Inês Viegas Oliveira e Lara Xavier, moderada por Helena Ribeiro. Nela se falou do valor e dos valores que a escrita encerra e se partilharam histórias sobre a arte e o engenho de escrever para os mais novos. Enquanto isso, no verde e fresco espaço exterior, a escritora e artista visual Renata Bueno orientava uma oficina de ilustração na qual crianças e adultos davam asas à sua criatividade. A fechar o período da manhã, as atenções recaíram numa conversa com David Pintor sobre a arte da ilustração e ainda numa sessão de contos pela dupla “O Som do Algodão”.

Após o almoço, o FLO10 deixou o espaço verde do Buçaquinho e mudou-se para o Jardim dos Campos e para o Museu Júlio Dinis com mais uma mão cheia de propostas irrecusáveis. A tarde começou com a apresentação da terceira edição do concurso literário e de ilustração Júlio Dinis, seguindo-se uma mesa temática moderada por Jorge Valentim e que reuniu os escritores Dora Maria Nunes Gago, Lauren Mendinueta e Luís Aguiar para um exercício de reflexão em torno da escrita enquanto espaço de liberdade e de vida. Fernanda Cunha, João Eduardo Ferreira, Manuel Halpern e Paulo Romão Brás apresentaram, de forma brilhantemente encenada, excertos do volume 7 de “A Morte do Artista”, uma “revista literária de periodicidade eventual. José Emílio-Nelson falou do seu livro de poemas “Rosa Canina”, tendo ao seu lado o artista plástico Emerenciano Rodrigues, autor das ilustrações do livro, o poeta e dizedor Aurelino Costa que leu um escrito de Maria Estela Guedes e a poetisa Aurora Gaia que declamou dois poemas. Victor Oliveira Mateus conduziu uma nova mesa temática que juntou Ana Cristina Silva, António Canteiro e Pedro Almeida Maia em torno do processo de transformação de uma folha em branco em livro. Entretanto, no espaço exterior ao Museu, Carlos Nuno Granja apresentava o livro “Tralhas e Coisas do Sr. Loisas”, com ilustrações de Yana Marques, e Rosário Alçada Araújo falava de “Quem Me Dera Ser Assim”, ilustrado por Beatriz Francisco. Uma oficina de ilustração orientada por Nic e Inês e uma visita guiada e encenada à vila histórica de Ovar, por Leandro Ribeiro, fecharam as contas da tarde.

À noite, todos os passos foram dar ao Centro de Artes de Ovar. Diogo Carvalho foi o primeiro protagonista ao apresentar o seu livro “Sol”, vincando que “a Banda Desenhada não é um género, antes é um meio de comunicação.” Presença assídua nas andanças do Festival desde a primeira hora, Cristina Marques moderou a quarta e última mesa temática do dia. Sob o mote de Camões e daquilo a que o nosso maior poeta chamou “caminho da virtude”, o “alto e fragoso” caminho da escrita, as jovens escritoras Célia Correia Loureiro e Susana Amaro Velho partilharam as suas ideias sobre a escrita de ontem e de hoje, com a primeira a afirmar que “estamos a viver uma época dourada no sentido em que há muito interesse por parte dos leitores portugueses na literatura portuguesa” e a considerar iniciativas como o FLO a prova disso mesmo pela possibilidade que oferece aos leitores de “estar perante autores vivos, autores que ainda podem discutir a sua obra”. Perante uma sala completamente esgotada, a Yellow Star Company representou a peça “A Noite”, de José Saramago, com encenação e adaptação de Paulo Sousa Costa. Através dela, o público recuou à noite de 24 para 25 de Abril de 1974, mergulhando no espaço da Redacção do “Jornal de Lisboa” e vivendo os sentimentos opostos daqueles que manifestavam a sua fidelidade ao regime fascista e dos outros que sentiam nascer ali “o dia inicial inteiro e limpo”. Com os ponteiros do relógio muito para lá da meia noite, Aurora Gaia, Aurelino Costa e Zetho Cunha Gonçalves encerraram o programa com um momento de “Poemas a Meias”.

sábado, 21 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (III)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Carlos Nuno Granja, Eduardo Sá, Elisa Costa Pinto, Francisco Duarte Mangas, Joaquim Margarido, Luís Filipe Sarmento, Marta Hugon, Pedro Reisinho, Rui David, Sara Ludovico, Sílvia Sacadura
Biblioteca Municipal de Ovar | Escola de Artes e Ofícios
20 Set 2024 | sex | 18:00 e 21:00


Diversidade, intensidade e muita qualidade marcaram o programa do terceiro dia do Festival Literário de Ovar, “o irmão do meio”, como alguém observou. Apresentações de livros, uma conversa que juntou três editores e se debruçou sobre os novos desafios que se colocam à edição, uma mesa temática e ainda um concerto, foram momentos de conhecimento e partilha fortemente intensos e emotivos, que não deixaram indiferente um público que acorreu ao Festival em bom número. Começando pelo período da tarde, Eduardo Sá fez uma curta viagem desde Aveiro para apresentar “O Medo é um Bicho Mau”, numa edição da Livros Horizonte. Numa linguagem simples, fortemente empática, o autor colocou a tónica na importância de sabermos lidar com os nossos medos, independentemente da idade de cada um. “Todas as crianças e todas as pessoas crescidas têm medos. O medo é só uma questão de sabedoria. Quanto mais velhos, mais medos temos. Não por sermos mais frágeis, mas por sermos mais sábios”, disse. A abordagem à edição e aos seus novos desafios contou com a participação de Sílvia Sacadura, Pedro Reisinho e Sara Ludovico, numa conversa moderada por Carlos Nuno Granja. Da dificuldade em conquistar leitores no segmento dos 8 aos 16 anos, aos condicionamentos de ordem financeira que obrigam a descartar muitos e bons textos ou à recusa de qualquer tipo de censura, de tudo um pouco se falou nesta conversa onde, acima de tudo, se quis vincar a ideia de que importa, acima de tudo, “que os leitores redescubram e descubram o prazer de ler.”

Deixando para trás a Biblioteca, percorremos a margem direita do Rio Cáster numa breve caminhada até nos depararmos com o bonito e bem cuidado espaço da Escola de Artes e Ofícios, onde tiveram lugar as três iniciativas que preencheram o serão. Elisa Costa Pinto chamou a si a tarefa de apresentar “Ácido”, o mais recente livro de poemas de Luís Filipe Sarmento, chamando a atenção para as duas vertentes - prosa e poesia - que habitam a criação literária do escritor. Sobre o seu livro, Sarmento afirmou tratar-se de “uma homenagem a essa trip que a vida me proporcionou, que é a grande viagem de quem nasce numa ditadura, de quem é educado para uma guerra e que à beira de vestir o camuflado há uma revolução que me liberta.” A noite encerrou com “Censurados: A Música que Desafiou a Ditadura”, um espectáculo poético e musical que Rui David, autor e intérprete, definiu como “um exercício de memória e de trazer as vozes daqueles que se interpuseram entre nós e 48 anos de ditadura”. Às músicas de autores bem conhecidos como Adriano Correia de Oliveira e José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Chico Buarque, juntaram-se a poesia de Sophia de Mello Breyner, José Carlos Ary dos Santos, António Gedeão, José Saramago, Egito Gonçalves e outros, juntamente com registos em vídeo que dão testemunho dos homens e mulheres que sofreram no corpo e na alma a violência, o medo, a repressão e a tortura nas cadeias do Estado Novo.

“Descarto de mim a parte menos positiva do crítico e a parte mais positiva do divulgador, que às vezes são uma e a mesma coisa. É como leitor que estou aqui e como leitor que eu quero inquietar os meus interlocutores nesta mesa, sabendo que as minhas inquietações são as inquietações deles, porque são leitores como eu.” Foi com estas palavras que Joaquim Margarido começou por saudar o público presente e os dois convidados desta terceira mesa temática do FLO 10, como se de uma carta de intenções se tratasse. Dos livros que se lêem à forma como se escrevem, da lente sobre o mundo ou de um espelho interior que um livro pode ser para quem o lê ou escreve, ou ainda da importância de ler Camões nos dias de hoje ou daquilo que o 25 de Abril acrescentou à liberdade da escrita, de tudo um pouco se falou numa mesa com tanto de informalidade como de generosidade. “Não quero cair no lugar que nos diz que ficou para trás aquilo que era bom e que para a frente já não é nada. E eu quero acreditar, até bater as colheres, que há coisas a esperar e, sobretudo, que há coisas a fazer e que cada um à nossa escala pode fazer a diferença na vida dos outras”, partilhou Marta Hugon, acrescentando que “cada um de nós tem que ter muito presente que tem que se fazer. Pensar, dizer, escrever, fazer, fazer, fazer. E escrever é uma forma de fazer.” Fazendo a ligação com o concerto que viria a encerrar a noite, este foi um dos muitos momentos excelentes de mais uma mesa de grande qualidade neste Festival Literário de Ovar.