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terça-feira, 23 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 5



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Agrupamento de Escolas de Esmoriz – Ovar Norte | Curso Técnico de Multimédia | Alice Caetano, Andreia Confusa, Belmiro Carvalho, Bruno Henriques, Cândida Jardim, Carlos Nuno Granja, Cristina Carvalho, Edgar Pedro, Fernando Soares, Joana Leitão, José Manuel Castanheira, Lúcia Bandeira, Madalena Sá Fernandes, Manuel Frias Martins, Marcelo Teixeira, Matilde Horta, Nuno Bernardo, Paula Margato, Pedro Reisinho, Rita Correia, Rui Couceiro, Rui Guedes, Rui Manuel Almeida, Sérgio Duarte, Teresa Carvalho, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vanessa Martins
Parque Urbano de Ovar, Centro de Artes de Ovar, Bar do CAO
21 Set 2025 | dom | 10:00 e 15:00


A décima primeira edição do Festival Literário de Ovar chegou ao fim e o balanço, feito na primeira pessoa por Carlos Nuno Granja, programador de conteúdos literários e, incontestavelmente, a alma e o coração do certame, resume-se numa frase: “Esta foi a melhor edição de sempre do Festival.” Uma ideia partilhada pelos indefectíveis do FLO, que o vêm acompanhando com renovado interesse, e que vêem nele o ponto de encontro perfeito no final de cada Verão. Durante cinco dias, Ovar foi a cidade da palavra e da cultura, com onze mesas literárias, quinze apresentações de livros, seis concertos e performances, oito oficinas, três sessões de teatro ambulante e uma curta-metragem em estreia mundial. Ainda na ressaca duma verdadeira maratona de celebração da palavra, a emoção prevalece, pela alegria da novidade e o reconhecimento da surpresa, pelo abraço de amigos de antes e de agora. Mas há também como que uma estranheza, uma quase sensação de orfandade, pelo fim deste ambiente acolhedor, vivo e livre, que sabe bem e faz bem.

De uma beleza ímpar, o Parque Urbano de Ovar foi o palco da manhã do último dia do Festival Literário de Ovar. A jornada não poderia ter começado melhor, com a apresentação de “O descabido caso dos livros desaparecidos”, uma obra de Carlos Nuno Granja, com ilustrações de Andreia Confusa. Matilde Horta dirigiu uma oficina de ilustração, Paula Margato trouxe para a Sessão de Conto “Um Lobo, Uma Capuchinho & Companhia Ilimitada” e houve igualmente lugar a uma mesa, a penúltima do programa, superiormente moderada por Rui Guedes e que contou com a participação de Vanessa Martins, Alice Caetano e Joana Leitão. A sessão resultou num vivo e enriquecedor momento em torno da literatura infantil, no qual se falou do processo criativo, de onde nascem as ideias para escrever, do acto da escrita como catarse e da dificuldade em provar aos mais novos, fascinados pelas novas tecnologias, que o livro é um objecto carregado de magia e sedução. A tarde teve o seu início no Bar do CAO e, logo a abrir, foi animada por uma excelente conversa moderada por Marcelo Teixeira, com Cristina Carvalho e José Manuel Castanheira ao seu lado na mesa, nela se falando da vasta obra dos dois convidados e, em particular, do livro que escreveram em parceria, “Fabulário ou o Pequeno Circo do Mundo”.

A apresentação dos livros “A Dança dos Pássaros Invisíveis”, de Edgar Pedro, e “O Rufo do Tambor que Levamos no Peito”, de Rui Guedes, prenderam igualmente a atenção dos presentes, bem como a Sessão de Contos, animada por Cândida Jardim, e a Oficina de Ilustração, com Rita Correia. O Auditório do Centro de Arte de Ovar abriu-se ao público para a última mesa do Festival, com Madalena Sá Fernandes, Manuel Frias Martins e Rui Couceiro, e moderada por Teresa Carvalho. Sob uma frase de Miguel Torga - “Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem” –, os convidados fizeram aquilo a que a moderadora chamou “esfregar sal na ferida que somos”. Também aqui se falou do processo de escrita, com Madalena Sá Fernandes a afirmar que “a literatura pode pouco, mas é esse pouco que a torna insubstituível” e Manuel Frias Martins a dizer que a base da escrita ficcional está no “não é, mas poderia ser”. Enfim, Rui Couceiro salientou que, “ainda que o futuro esteja sob a ameaça da Inteligência Artificial, haverá sempre uma literatura sem batota para nosso consolo.” A curta-metragem “Fui logo a Bela para Todos”, realizada por Belmiro Carvalho, e “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante”, por Trigo Limpo Teatro ACERT, colocaram um ponto final numa edição memorável do Festival. O FLO regressa daqui a um ano. Viva o FLO!

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Zorrinho, aRita, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Bruno M. Franco, Carla Pais, Cátia Cardoso, Cristina Marques, Diana de Oliveira, Elsa Teixeira, Filipa Amorim, Filipa Vera Jardim, Helena Ribeiro, Joana Nogueira, João B. Ventura, José Riço Direitinho, Joaquim Margarido, Lúcia Moniz, Luís Correia Carmelo, Miguel d’Alte, Minês Castanheira, Miriam Gonçalves, Nuno Alexandre Vieira, Paula Mendes Coelho, Pedro Lamares, Pedro Reisinho, Ricardo Santos, Raquel Patriarca, Rita Tormenta, Rodrigo Vieira Dias, Rui Sobral, Sara Dias Oliveira, Sílvia Lima, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vasco Prazeres, Vera Morgado, Vítor Gil Cardeira, Zetho Gonçalves
Parque do Buçaquinho, Museu Júlio Dinis, Jardim dos Campos, Centro de Artes de Ovar e Bar do CAO
20 Set 2025 | sab | 10:00, 14:00 e 21:30


Tradicionalmente o mais exigente, mas também o mais aliciante, o quarto dia do Festival Literário de Ovar voltou a prender a atenção dos amantes do livro e da leitura, pela sua rica e variada oferta. “Patrulha Raposa – Vigilantes da floresta”, escrito por Diana de Oliveira e apresentado por Pedro Reisinho, deu início a uma viagem que teve o seu início no Parque Ambiental do Buçaquinho e viria a terminar, mais de quinze horas depois, no Bar do Centro de Artes de Ovar. Num espaço dedicado à Literatura Infantil, a manhã foi preenchida com uma Oficina de Ilustração dinamizada por aRita, uma sessão de contos com Luís Correia Carmelo e ainda uma Mesa moderada por Helena Ribeiro e que teve num painel constituído por Miriam Gonçalves, Elsa Teixeira e Rodrigo Vieira Dias, três figuras muito especiais. Entre as estratégias para adormecer os mais novos e o poder das ideias em frente da folha em branco, os convidados falaram de livros, das fontes de inspiração dos seus trabalhos, da necessidade da literatura infantil para o crescimento e desenvolvimento infantil, mas também da importância do “aborrecimento” das crianças, da ausência de estímulos que muitas vezes deixam os pais exauridos, mas que as obriga a serem criativas.

Ao início da tarde, no Museu Júlio Dinis, procedeu-se à entrega de prémios da “III Edição do Concurso Literário e de Ilustração Júlio Dinis 2025”, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas Ovar Sul e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Ovar. A mais conhecida “Casa Ovarense” da cidade foi igualmente palco da apresentação do livro “O Flâneur de Paris”, de João B. Ventura, e de uma conversa com o escritor Bruno M. Franco sobre o género policial na literatura portuguesa contemporânea. Simultaneamente, no Jardim dos Campos, decorria a apresentação dos livros “Truz Truz, Abre a Porta, Avestruz”, de Vera Morgado, e “Agora sou capaz”, de Ricardo Santos e Joana Nogueira, com ilustração de Sílvia Lima, a par com uma bem participada Oficina de Ilustração com Nuno Alexandre Vieira e, no espaço fronteiro da Câmara Municipal de Ovar, uma nova representação de “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante” pelos actores da companhia Trigo Limpo - Teatro ACERT, de Tondela. A apresentação de livros teve ainda um último capítulo ao início da noite, num Centro de Artes de Ovar quase lotado, com as atenções a virarem-se para “Cartografia”, “poesia escrita a quatro mãos e dois corações” por Minês Castanheira e Raquel Patriarca, e que resultou num momento de generosa partilha de poemas, afectos e emoções.

Além do momento da manhã referido anteriormente, o programa teve para oferecer mais três mesas de conversa, duas das quais no Museu Júlio Dinis. Rico, vivo, apaixonante, o primeiro desses momentos contou com a moderação de Cátia Cardoso e deu a escutar as impressões de Rita Tormenta, Filipa Vera Jardim e Vítor Gil Cardeira sobre a vaidade e a inveja no seio do complexo mundo da escrita. Em termos muito gerais, Vitor Cardeira falou da escrita como uma doença da qual não é possível livrar-se, no que foi acompanhado por Filipa Vera Jardim, ciente de que “sem livros morreria”. Rita Tormenta admitiu que “ninguém escreve sem um pouco de vaidade” e Filipa Vera Jardim acrescentou que “é preciso saber distinguir a inveja da admiração: narcisos somos todos”. Enfim, sobre o acto da escrita, Vítor Gil Cardeira afirmou que “o escritor constrói e destrói mundos” e que “escrever é uma luta brutal contra a auto-censura”. Uma frase de Agustina Bessa-Luís - “Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia.” - serviu de mote à segunda mesa da tarde. Com moderação de Sara Dias de Oliveira, para quem “escrever é um processo doloroso e um acto de amor”, Miguel D’Alte, José Riço Direitinho e Vasco Prazeres abordaram os temas da amizade e da inveja, do interesse e da distração que as redes sociais constituem (para o bem e para o mal) e, naturalmente, do amor, nas suas mais variadas vertentes. A conversa estendeu-se ao público, com a escritora Raquel Patriarca a fazer notar que “os livros dão algo aos leitores que estes nunca irão pagar”.

A mesa da noite, no Centro de Artes de Ovar, foi beber o tema a uma citação de Raúl Brandão: “Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros.” Foi sobre o ofício da escrita e as muitas reflexões que suscita que se debruçaram as escritoras Carla Pais, Filipa Amorim, Ana Zorrinho, numa conversa moderada por Cristina Marques. Ofício da escrita onde se cruzam os episódios do quotidiano, as personagens saídas de um imaginário fácil de contextualizar mas difícil de explicar, a surpresa com aquilo que vai passando para o papel e um certo grau de loucura. Numa mesa que abriu espaço à leitura de excertos dos livros das autoras, o destaque vai para o conto “O Louco”, de Ana Zorrinho, lido superiormente pela autora e sobre o qual Carla Pais afirmou: “Quem não se arrepiou com este momento, não percebe nada acerca do poder da Literatura”. Outro ponto alto do serão foi a performance “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, com Lúcia Moniz e Pedro Lamares a cruzarem a poesia de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen com as cartas que ambos trocaram ao longo de dezoito anos e que constituem um impressionante retrato social, histórico e moral do Portugal dos anos 60 e 70, o retrato de um país roubado. Já a noite ía adiantada quando, no Bar do CAO, “Poesia A Meias”, de Aurelino Costa & Zetho Cunha Gonçalves, com Aurora Gaia, fechou da melhor forma o penúltimo dia do Festival.

domingo, 21 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 3



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Abel Mota, Ana Carvalho, Ana Sofia Marçal, António Cabrita, António Carlos Santos, Carlos Coutinho, Carlos Nuno Granja, Joana Alegre, Joaquim Margarido, José Fialho Gouveia, José Saro, Luís Correia Carmelo, Mafalda Rocha, Nuno Artur Silva, Paulo Freixinho, Pedro Guilherme-Moreira, Rogério Charraz, Sofia Paulino, Trigo Limpo – Teatro ACERT
Escola Secundária Júlio Dinis, Biblioteca Municipal de Ovar, Museu Júlio Dinis, Escola de Artes e Ofícios
19 Set 2025 | sex | 10:30, 14:30, 18:00 e 21:30

Foi gigante, o terceiro dia do Festival Literário de Ovar, não apenas pela sua dimensão no tempo, mas também pela quantidade de momentos preciosos que encerrou. A companhia Trigo Limpo Teatro ACERT abriu as hostilidades, levando à Escola Secundária Júlio Dinis, a meio da manhã, a peça “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante”. Ao início da tarde, na Biblioteca Municipal de Ovar, Paulo Freixinho orientou uma oficina de leitura e escrita intitulada “Palavras Cruzadas”, e pelas 18h00, o Museu Júlio Dinis foi palco da apresentação do livro “Um Pouco Mais de Sol”, de Abel Mota, uma edição da Guerra e Paz. Neste mesmo espaço, a fechar uma tarde bem preenchida, Pedro Guilherme-Moreira moderou a quarta mesa do Festival, na qual participaram Carlos Nuno Granja, Carlos Coutinho e Ana Sofia Marçal. Incidindo sobre “O Festival Literário e a relação com o território e sua comunidade”, a conversa permitiu partilhar factos, números e curiosidades e reflectir sobre os desafios em torno de Festivais como a Maratona de Leitura da Sertã, o FÓLIO - Festival de Literatura de Óbidos e o FLO - Festival de Literatura de Ovar.

Após o jantar, os passos encaminharam-se para a Escola de Artes e Ofícios onde, a abrir a sessão, Ana Carvalho apresentou o livro “PHOSPHOROS (100 amorfos)", de António Carlos Santos, momento que teve na declamação “comunitária” de poemas do livro um dos seus pontos fortes. Seguiu-se a Mesa 5 do FLO, com os escritores António Cabrita e Nuno Artur Silva a pesarem as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen - “A cultura é uma das formas de libertação do homem. Por isso, perante a política, a cultura deve sempre ter a possibilidade de funcionar como antipoder”. Com moderação de Joaquim Margarido, os convidados debruçaram-se sobre a escrita como acto político, olharam para o livro como um agente interventivo capaz de suscitar o debate público e político, analisaram um tempo de polarização política e a forma como isso influencia a aceitação da obra dos escritores de hoje e concordaram que, mesmo que o discurso político se faça, muitas vezes, nas redes sociais, também aí pode haver lugar para a literatura. Nuno Artur Silva particularizou a sua experiência enquanto Presidente do canal público de televisão para avaliar os media actuais como espaços culturais e António Cabrita comentou o papel da diáspora e das migrações na redefinição da literatura moçambicana, num país onde o mercado do livro é praticamente inexistente e os jovens escritores cedem facilmente às novas tendências do mercado, abdicando da singularidade da sua escrita.

O concerto “ANÓNIMOS de Abril” fechou a noite da melhor forma, trazendo consigo um conjunto de canções originais e inéditas que trazem para um plano central o nome de mulheres e homens que tiveram a coragem e a ousadia de enfrentar e fragilizar um regime que, durante quarenta e oito anos, explorou e oprimiu o nosso povo. Estreado em de Janeiro de 2024 e inserido nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, o projecto é baseado em textos de José Fialho Gouveia, Aurora Rodrigues (um relato arrepiante da sua experiência de prisão e tortura) e Miguel Carvalho, jornalista e sobrinho de Branca Carvalho (outra das homenageadas do projeto) e conta com a música de Rogério Charraz e as vozes do próprio Charraz e de Joana Alegre. Procurando preservar a memória colectiva do nosso país e ampliá-la com as histórias menos conhecidas daqueles que, nalguns casos, pagaram com a própria vida a luta pelos ideias de liberdade e democracia, o colectivo trouxe-nos palavras fortes e vivas que lembraram  Celeste Caeiro e Aurora Rodrigues, Jorge Alves e o Padre Alberto, Arajaryr Campos e Francisco Sousa Mendes, entre várias outras figuras. O concerto fechou com a sala em pé, irmanada nos ideais de liberdade que nortearam todo o serão, a cantar o hino dos Hinos, “Grândola Vila Morena”.

sábado, 20 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 2



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Abigail Ascenso, Ana Deus, Ana Maria Ferreira, Cláudia Lobo, Daniel Maia Pinto-Rodrigues, Lília Tavares, Luca Argel, Maria Toscano, Nuno Gomes, Vítor Pinto Basto
Escola Secundária José Macedo Fragateiro, Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2025 | qui | 21:00 


Depois de um arranque recheado de emoções, o Festival Literário de Ovar enfrentou com renovada ilusão um novo dia, tendo para oferecer um programa em versão curta, mas nem por isso menos aliciante. Entre portas abertas à leitura e azulejos vestidos de poesia, por esta ocasião a cidade reforça o seu abraço às letras. As palavras soltam-se dos livros e revolteiam no ar, dispostas a verter-se em conversas íntimas e em concertos em que a música se curva perante a poesia. Como velhos cúmplices de um segredo partilhado, escritores cruzam de novo olhares e ideias com leitores. Em palcos de pensamento e emoção, a cada novo dia, os livros falam mais alto, os corpos dizem textos, os sons desenham imagens e o FLO cumpre-se no seu desígnio de celebrar a palavra, orgulhoso da escrita de mais um capítulo de uma história com final feliz.

A Escola de Artes e Ofícios foi o epicentro de um programa que atraiu um público leitor entusiasta, disposto a reforçar os laços que, através dos livros, busca estabelecer com o escritor. E quase apetece dizer que o milagre aconteceu de novo, com a bonita Sala Expande a transformar-se, no breve espaço de um serão, num mundo de partilha, imaginação e ideia cúmplice. Lília Tavares, Vítor Pinto Basto e Maria Toscano animaram a terceira mesa do FLO, dispondo-se, sob a moderação de Ana Maria Ferreira, a dissecar uma frase de Fernando Namora: “A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade.” Numa conversa emotiva, interventiva e viva, abanão vigoroso às consciências dos mais distraídos, falou-se da poesia como “o território da pura liberdade” (Lília Tavares), de democracia como elemento-chave de uma trilogia onde se inclui a literatura e a liberdade (Maria Toscano) e da função social da literatura (Vítor Pinto Basto).

“O Corredor Interior”, romance de Daniel Maia Pinto-Rodrigues, editado pela Exclamação e apresentado por Nuno Gomes, tinha aberto o serão, cabendo a Ana Deus e Luca Argel fechar a noite com um concerto intitulado “Canções para beber com Pessoa”. Nele, os artistas revisitaram as “Canções de beber" (ou Rubaiyat), do poeta-astrónomo Omar Khayyam e que, desde a Pérsia do Século XI, inspiraram Fernando Pessoa a traduzir de forma muito livre (do inglês, baseado em Edward Fitzgeral) cerca de duas centenas de quadras. Foi sobre esses poemas que o concerto incidiu, aos quais a dupla acrescentou um conjunto de temas extraídos de “Ruído Vário – Canções com Pessoa”, álbum de estúdio de 2017, uma encomenda da Casa Fernando Pessoa. Ao transformar e atualizar o génio de Fernando Pessoa – “passando por diversas das suas facetas, da solenidade trágica ao escárnio humorístico” –, Ana Deus e Luca Argel ofereceram a possibilidade de escutar a palavra de uma outra forma – igualmente celebrativa, jubilosa e livre. E que siga o FLO!

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 1



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Freijo, Bruno Henriques, Capicua, Carlos Alberto Moniz, Carlos Nuno Granja, CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, Gabriel Pinto, Hugo Carvalhais, João Martins, José Ferreira, Luís Portugal, Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl
Museu Júlio Dinis, Centro de Artes de Ovar
17 Set 2025 | qua | 18:00 e 21:30


Recuemos no tempo, a 03 de Setembro de 2015, dia em que o Festival Literário de Ovar nascia para o mundo sob os melhores auspícios. Nesse início de um fim-de-semana prolongado, a cidade vivia um primeiro grande momento à volta dos livros, numa união franca e aberta entre escritores e leitores, ilustradores, livreiros e demais agentes ligados à escrita e à leitura. Se há loucura na escrita e ousadia na literatura, se os sentimentos se revelam mais facilmente no universo literário, se é possível fugir às contradições da sociedade, foram questões, de então e de sempre, às quais Miguel Real, Carlos Campaniço, Pedro Guilherme-Moreira, Jaime Rocha, Margarida Fonseca Santos, Afonso Valente Batista, Filipa Leal, João de Melo e vários outros escritores souberam responder, num verdadeiro exercício de “dar cultura às nossas gentes”, como afirmou Salvador Malheiro, Presidente da autarquia à data. Dez anos depois, o FLO pode orgulhar-se de um currículo invejável, assente em muito trabalho e perseverança, dedicação e crer, que fazem dele um dos mais relevantes Festivais Literários do nosso país.

Passada uma década, quantos livros, quantas palavras, quantos autores? Quantas memórias? Quantas pessoas? Quantos momentos? Não haverá, no contexto do FLO, pessoa mais indicada para responder a esta questão do que Carlos Nuno Granja, a mais importante figura do certame, alguém que acredita, desde sempre, no poder inabalável da leitura para a construção do pensamento crítico, autonomia e profundidade interior da pessoa, mas também na oportunidade que os livros oferecem de desacelerar, reflectir e desenvolver uma visão mais ampla e fundamentada do mundo, ajudando a formar indivíduos mais conscientes e íntegros, menos influenciáveis. Ele, a par de uma pequena mas valiosa equipa, são os responsáveis pela manutenção de um verdadeiro selo de qualidade que o Festival detém, e que volta a programar, de forma sólida e segura, um conjunto de actividades que, ao longo de cinco ininterruptos dias – entre conversas, concertos, teatro, apresentações de livros, cinema e muito mais –, prometem transformar a cidade numa imensa e apaixonante biblioteca.

O pontapé de saída do FLO 2025 teve lugar ao final da tarde no Museu Júlio Dinis com a inauguração de “Mais tempo por aqui…”, Instalação Sonora da autoria de Tiago Schwäbl, inserida no projecto “Inovar as Letras – À Escuta da Literatura”. Oportunidade única para escutar os sons de uma casa e as palavras de um escritor, sabiamente escrutinadas na obra dinisiana e abertas ao público com sensibilidade e emoção. Seguiu-se a primeira mesa do Festival, dedicada a debater “O processo de criação artística e a obra literária”. Moderada por Carlos Nuno Granja e com Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl, Ana Freijo e José Ferreira como convidados, a conversa foi ao encontro da Literatura e do Teatro, da Pintura, do Som e da Música, recuperando o ambiente acolhedor e familiar de uma casa ovarense e lançando a discussão em torno do processo criativo, suas dificuldades e condicionalismos, seus desafios e recompensas. A tarde encerrou com a performance “Pela Janela do Olhar”, encenada por José Ferreira e interpretada por um leque de actores da CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, numa homenagem sentida aos autores que, desde 2008, passaram pelo Festival Escritaria, e que nos olham das paredes do Museu em belíssimas pinturas da autoria de Mafalda Rocha.

Com a presença em palco de Carlos Nuno Granja e do Presidente do Município de Ovar, Domingos Silva, a abertura oficial do FLO 2025 teve lugar ao início da noite, nela se falando de ousadia e utopia, de sonho e muito querer, elementos determinantes de afirmação de um Festival que constitui “uma das marcas identitárias de Ovar”. As palavras de Vergílio Ferreira, “Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer” deram o mote à segunda mesa do Festival. Bruno Henriques moderou uma conversa que teve como convidados Luís Portugal e Capicua e que resultou, entre o sério e o irónico, num extraordinário momento de reflexão e partilha. De Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto ou Zeca Afonso como fontes de inspiração para a escrita de canções, à dificuldade crescente em romper com o “establishment” e assumir a música como um acto de resistência, ambos os convidados coincidiram na ideia de que “a liberdade [para criar], ou é total, ou não é liberdade”. O primeiro dia do Festival encerrou com o concerto “Na Primeira Pessoa”, de Carlos Alberto Moniz. Em palco, na companhia de Gabriel Pinto (piano), Hugo Carvalhais (contrabaixo) e João Martins (bateria), o cantor ofereceu, em graça e beleza, a força da música açoriana, numa celebração da palavra de alguns dos seus maiores poetas.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (V)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Adriano Cerqueira, Alexandre Rosas, Ana Isabel Gonçalves, Carlos Nuno Granja, Dénis Conceição, Elisabete Pinho, Eltânia André, Jorge Reis-Sá, José Pereira Pinto, José Vaz Nunes, Luísa Sobral, Mafalda Mota, Mantraste, Marcelo Teixeira, Maria Saraiva de Menezes, Miguel Marques, Ozías Filho, Patrícia Furtado, Paula Pina, Pedro Guilherme-Moreira, Rosário Alçada Araújo, Teresa Carvalho
Parque Urbano de Ovar, Centro de Artes de Ovar
22 Set 2024 | dom | 10:00 e 14:30


“Esta décima edição do FLO foi a melhor de sempre”. Proferida no discurso de encerramento do Festival Literário de Ovar, a afirmação é de Carlos Nunos Granja, a alma (e uma boa parte do corpo) do FLO. Uma afirmação que exprime o sentimento geral de quem acompanhou o Festival ao longo de cinco longos dias, deliciando-se com uma oferta rica, variada e de enorme qualidade, apreciando a sua dinâmica, vivendo as histórias de Ozías Filho, a poesia de Lauren Mendinueta, os contos de Marta Hugon, os livros infantis de Rosário Alçada Araújo ou a música de Jorge Névoa, da mesma forma que se emocionou com Camões, Pessoa ou Agostinho da Silva, no sentir e nas palavras de António Manuel Ribeiro e Maria José Quintela, Ana Isabel Marques e José Emílio-Nelson, Aurora Gaia e Jorge Reis-Sá, entre tantos outros. Numa altura em que se começa a construir a edição que assinalará uma década de Festival Literário de Ovar, o sucesso destes dias constitui o maior estímulo para quem vem pugnando, ano após ano, por mais e melhor FLO. Numa óptica de crescimento do Festival, a tão falada internacionalização já no próximo ano encerra enormes desafios, mas é uma aposta ganha à partida dada a forma como a marca FLO se soube afirmar e consolidar no circuito dos grandes festivais literários do país.

No último dia do Festival, o Parque Urbano de Ovar abriu-se aos mais pequenos “com sol entre os dedos, com estrelas nos olhos, e o vento aos segredos”. Histórias de encantar, desenhos mil, apresentações de livros e uma mesa temática preencheram um tempo de reflexão e partilha sobre aquilo que a literatura dita infantil pode significar no crescimento e desenvolvimento da pessoa e na sua forma de ver o mundo. José Vaz Nunes, Mafalda Mota e Luísa Sobral tiveram oportunidade de falar dos seus livros, com esta última a referir-se ao peso esmagador de certas palavras quando dirigidas a alguém de forma pejorativa ou maldosa. São as “palavras-elefante” que tantos estragos provocam na concepção que temos de nós próprios e do mundo e que muitos acabam por carregar toda uma vida. Com moderação de Carlos Nuno Granja, a mesa temática juntou Dénis Conceição, Rosário Alçada Araújo, Patrícia Furtado e Maria Saraiva de Menezes, quatro escritores dedicados à literatura infantil que, muito generosamente, partilharam a sua visão de um mundo particular no qual as palavras e as ilustrações se passeiam de mãos dadas. Um mundo de livros, reunido numa só frase por Rosário Alçada Araújo: “Um livro para crianças é um livro para todas as idades.”

A tarde dividiu-se pelo espaço exterior do Centro de Artes de Ovar, o Bar do CAO e o seu Auditório. Lá fora, as actividades continuaram a visar um público mais jovem com a apresentação do livro “Eureka! As descobertas que mudaram a ciência”, de Adriano Cerqueira, mas também uma sessão de contos com Ana Isabel Gonçalves e Paula Pina e ainda uma oficina de ilustração por Mantraste, artista visual com uma ligação estreita à Arte Urbana. Enquanto isso, o espaço do Bar mostrava-se pequeno para escutar a conversa com os escritores Ozías Filho e Eltânia André, na qual o moderador, Marcelo Teixeira, fez questão de manifestar o seu apreço por um festival que consegue reunir autores consagrados e muitos outros que dão os primeiros passos nas letras, sem esquecer “o apoio à actividade local”. E mais pequeno ainda ficou com o público que acorreu em grande número para ouvir José Pereira Pinto falar do segundo volume do livro “Associação Desportiva Ovarense - Clube Centenário: Uma Chama que Resiste”. Moderada por Teresa Carvalho, a última mesa do Festival juntou os escritores Pedro Guilherme-Moreira e Jorge Reis-Sá, voltando a chamar Camões para falar de vida e morte. Por fim, os “Sangue Suor”, projecto musical que junta as baterias de Ricardo Martins, Rui Rodrigues e Susie Filipe e que carregou de energia o Auditório do Centro de Artes. Um final em grande, sincopado e bem batido, feito de música que soube passear-se entre a alucinação da prosa e o fulgor da poesia.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (IV)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Ana Cristina Silva, Ana Isabel Marques, António Canteiro, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Beatriz Francisco, Carlos Nuno Granja, Célia Correia Loureiro, Cristina Marques, David Pintor, Diogo Carvalho, Dora Maria Nunes Gago, Emerenciano Rodrigues, Fernanda Cunha, Helena Ribeiro, Inês Viegas Oliveira, Jorge Valentim, João Eduardo Ferreira, José Emílio-Nelson, Lara Xavier, Lauren Mendinueta, Leandro Ribeiro, Luís Aguiar, Manuel Halpern, Patrícia Ribeiro Martins, Paulo Romão Brás, Pedro Almeida Maia, Renata Bueno, Rosário Alçada Araújo, Susana Amaro Velho, Victor Oliveira Mateus, Yana Marques, Zetho Cunha Gonçalves
Parque Ambiental do Buçaquinho | Museu Júlio Dinis | Jardim dos Campos | Centro de Artes de Ovar
21 Set 2024 | sab | 10:00, 14:30 e 21:00


Dia grande. Dia em grande. Por tradição, o sábado é aquele dia que mais dilemas coloca ao público do Festival Literário de Ovar, já que a sua programação é um verdadeiro non-stop de apresentações de livros, conversas, oficinas, histórias contadas e mesas temáticas. Deste dia fizeram parte, ainda, a apresentação da terceira edição do concurso literário e de ilustração Júlio Dinis, uma visita guiada e encenada à antiga vila histórica de Ovar, uma peça de teatro e, a encerrar catorze horas intensas à volta dos livros e da leitura, um sarau de poesia “a meias”. A cafetaria do Parque do Buçaquinho abriu as suas portas ao público para a apresentação do livro “A Arte de Gostar de Ler”, de Carlos Nuno Granja, com a qual teve início o quarto dia do FLO10. Seguiu-se uma mesa temática dedicada à literatura infantil com as autoras Ana Isabel Marques, Inês Viegas Oliveira e Lara Xavier, moderada por Helena Ribeiro. Nela se falou do valor e dos valores que a escrita encerra e se partilharam histórias sobre a arte e o engenho de escrever para os mais novos. Enquanto isso, no verde e fresco espaço exterior, a escritora e artista visual Renata Bueno orientava uma oficina de ilustração na qual crianças e adultos davam asas à sua criatividade. A fechar o período da manhã, as atenções recaíram numa conversa com David Pintor sobre a arte da ilustração e ainda numa sessão de contos pela dupla “O Som do Algodão”.

Após o almoço, o FLO10 deixou o espaço verde do Buçaquinho e mudou-se para o Jardim dos Campos e para o Museu Júlio Dinis com mais uma mão cheia de propostas irrecusáveis. A tarde começou com a apresentação da terceira edição do concurso literário e de ilustração Júlio Dinis, seguindo-se uma mesa temática moderada por Jorge Valentim e que reuniu os escritores Dora Maria Nunes Gago, Lauren Mendinueta e Luís Aguiar para um exercício de reflexão em torno da escrita enquanto espaço de liberdade e de vida. Fernanda Cunha, João Eduardo Ferreira, Manuel Halpern e Paulo Romão Brás apresentaram, de forma brilhantemente encenada, excertos do volume 7 de “A Morte do Artista”, uma “revista literária de periodicidade eventual. José Emílio-Nelson falou do seu livro de poemas “Rosa Canina”, tendo ao seu lado o artista plástico Emerenciano Rodrigues, autor das ilustrações do livro, o poeta e dizedor Aurelino Costa que leu um escrito de Maria Estela Guedes e a poetisa Aurora Gaia que declamou dois poemas. Victor Oliveira Mateus conduziu uma nova mesa temática que juntou Ana Cristina Silva, António Canteiro e Pedro Almeida Maia em torno do processo de transformação de uma folha em branco em livro. Entretanto, no espaço exterior ao Museu, Carlos Nuno Granja apresentava o livro “Tralhas e Coisas do Sr. Loisas”, com ilustrações de Yana Marques, e Rosário Alçada Araújo falava de “Quem Me Dera Ser Assim”, ilustrado por Beatriz Francisco. Uma oficina de ilustração orientada por Nic e Inês e uma visita guiada e encenada à vila histórica de Ovar, por Leandro Ribeiro, fecharam as contas da tarde.

À noite, todos os passos foram dar ao Centro de Artes de Ovar. Diogo Carvalho foi o primeiro protagonista ao apresentar o seu livro “Sol”, vincando que a Banda Desenhada não é um género, antes é um meio de comunicação.” Presença assídua nas andanças do Festival desde a primeira hora, Cristina Marques moderou a quarta e última mesa temática do dia. Sob o mote de Camões e daquilo a que o nosso maior poeta chamou “caminho da virtude”, o “alto e fragoso” caminho da escrita, as jovens escritoras Célia Correia Loureiro e Susana Amaro Velho partilharam as suas ideias sobre a escrita de ontem e de hoje, com a primeira a afirmar que “estamos a viver uma época dourada no sentido em que há muito interesse por parte dos leitores portugueses na literatura portuguesa” e a considerar iniciativas como o FLO a prova disso mesmo pela possibilidade que oferece aos leitores de “estar perante autores vivos, autores que ainda podem discutir a sua obra”. Perante uma sala completamente esgotada, a Yellow Star Company representou a peça “A Noite”, de José Saramago, com encenação e adaptação de Paulo Sousa Costa. Através dela, o público recuou à noite de 24 para 25 de Abril de 1974, mergulhando no espaço da Redacção do “Jornal de Lisboa” e vivendo os sentimentos opostos daqueles que manifestavam a sua fidelidade ao regime fascista e dos outros que sentiam nascer ali “o dia inicial inteiro e limpo”. Com os ponteiros do relógio muito para lá da meia noite, Aurora Gaia, Aurelino Costa e Zetho Cunha Gonçalves encerraram o programa com um momento de “Poemas a Meias”.

sábado, 21 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (III)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Carlos Nuno Granja, Eduardo Sá, Elisa Costa Pinto, Francisco Duarte Mangas, Joaquim Margarido, Luís Filipe Sarmento, Marta Hugon, Pedro Reisinho, Rui David, Sara Ludovico, Sílvia Sacadura
Biblioteca Municipal de Ovar | Escola de Artes e Ofícios
20 Set 2024 | sex | 18:00 e 21:00


Diversidade, intensidade e muita qualidade marcaram o programa do terceiro dia do Festival Literário de Ovar, “o irmão do meio”, como alguém observou. Apresentações de livros, uma conversa que juntou três editores e se debruçou sobre os novos desafios que se colocam à edição, uma mesa temática e ainda um concerto, foram momentos de conhecimento e partilha fortemente intensos e emotivos, que não deixaram indiferente um público que acorreu ao Festival em bom número. Começando pelo período da tarde, Eduardo Sá fez uma curta viagem desde Aveiro para apresentar “O Medo é um Bicho Mau”, numa edição da Livros Horizonte. Numa linguagem simples, fortemente empática, o autor colocou a tónica na importância de sabermos lidar com os nossos medos, independentemente da idade de cada um. “Todas as crianças e todas as pessoas crescidas têm medos. O medo é só uma questão de sabedoria. Quanto mais velhos, mais medos temos. Não por sermos mais frágeis, mas por sermos mais sábios”, disse. A abordagem à edição e aos seus novos desafios contou com a participação de Sílvia Sacadura, Pedro Reisinho e Sara Ludovico, numa conversa moderada por Carlos Nuno Granja. Da dificuldade em conquistar leitores no segmento dos 8 aos 16 anos, aos condicionamentos de ordem financeira que obrigam a descartar muitos e bons textos ou à recusa de qualquer tipo de censura, de tudo um pouco se falou nesta conversa onde, acima de tudo, se quis vincar a ideia de que importa, acima de tudo, “que os leitores redescubram e descubram o prazer de ler.”

Deixando para trás a Biblioteca, percorremos a margem direita do Rio Cáster numa breve caminhada até nos depararmos com o bonito e bem cuidado espaço da Escola de Artes e Ofícios, onde tiveram lugar as três iniciativas que preencheram o serão. Elisa Costa Pinto chamou a si a tarefa de apresentar “Ácido”, o mais recente livro de poemas de Luís Filipe Sarmento, chamando a atenção para as duas vertentes - prosa e poesia - que habitam a criação literária do escritor. Sobre o seu livro, Sarmento afirmou tratar-se de “uma homenagem a essa trip que a vida me proporcionou, que é a grande viagem de quem nasce numa ditadura, de quem é educado para uma guerra e que à beira de vestir o camuflado há uma revolução que me liberta.” A noite encerrou com “Censurados: A Música que Desafiou a Ditadura”, um espectáculo poético e musical que Rui David, autor e intérprete, definiu como “um exercício de memória e de trazer as vozes daqueles que se interpuseram entre nós e 48 anos de ditadura”. Às músicas de autores bem conhecidos como Adriano Correia de Oliveira e José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Chico Buarque, juntaram-se a poesia de Sophia de Mello Breyner, José Carlos Ary dos Santos, António Gedeão, José Saramago, Egito Gonçalves e outros, juntamente com registos em vídeo que dão testemunho dos homens e mulheres que sofreram no corpo e na alma a violência, o medo, a repressão e a tortura nas cadeias do Estado Novo.

“Descarto de mim a parte menos positiva do crítico e a parte mais positiva do divulgador, que às vezes são uma e a mesma coisa. É como leitor que estou aqui e como leitor que eu quero inquietar os meus interlocutores nesta mesa, sabendo que as minhas inquietações são as inquietações deles, porque são leitores como eu.” Foi com estas palavras que Joaquim Margarido começou por saudar o público presente e os dois convidados desta terceira mesa temática do FLO 10, como se de uma carta de intenções se tratasse. Dos livros que se lêem à forma como se escrevem, da lente sobre o mundo ou de um espelho interior que um livro pode ser para quem o lê ou escreve, ou ainda da importância de ler Camões nos dias de hoje ou daquilo que o 25 de Abril acrescentou à liberdade da escrita, de tudo um pouco se falou numa mesa com tanto de informalidade como de generosidade. “Não quero cair no lugar que nos diz que ficou para trás aquilo que era bom e que para a frente já não é nada. E eu quero acreditar, até bater as colheres, que há coisas a esperar e, sobretudo, que há coisas a fazer e que cada um à nossa escala pode fazer a diferença na vida dos outras”, partilhou Marta Hugon, acrescentando que “cada um de nós tem que ter muito presente que tem que se fazer. Pensar, dizer, escrever, fazer, fazer, fazer. E escrever é uma forma de fazer.” Fazendo a ligação com o concerto que viria a encerrar a noite, este foi um dos muitos momentos excelentes de mais uma mesa de grande qualidade neste Festival Literário de Ovar.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (II)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Ana Maria Ferreira, Ana Moreira, Elisabete Pinho, Jorge Névoa, José Ferreira, Josefa de Maltezinho, Leocádia Regalo, Maria José Quintela, Paulo Félix
Escola de Artes e Ofícios
19 Set 2024 | qui | 21:00

Em velocidade de cruzeiro, o Festival Literário de Ovar fez da Escola de Artes e Ofícios a sua base para duas noites de partilha e conhecimento à roda dos livros e da leitura. Numa edição - a décima - que evoca os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, mas também os 50 anos do 25 de Abril, a liberdade foi o assunto que dominou a mesa temática, com o mote a surgir nas palavras de Bernardo Soares / Fernando Pessoa: “Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.” E foi precisamente por aqui que a moderadora Ana Maria Ferreira começou, acrescentando o natural complemento à frase escolhida para tema de conversa e contextualizando-a no registo do “Livro do Desassossego”: “Passar dos fantasmas da fé para os espectros da razão é somente ser mudado de cela. A arte, se nos liberta dos manipansos assentes e obsoletos, também nos liberta das ideias generosas e das preocupações sociais — manipansos também.” Um apontamento pleno de oportunidade que nos vem dizer que “o conceito de liberdade que temos na frase inicial tem muito que se lhe diga”. Estava dado o mote para a conversa.


Numa mesa que juntou três escritoras, três poetisas, três mulheres, o tema da liberdade conjugou-se com as ideias de solidão, espanto e poder, de paisagens interiores, da urgência da escrita. Enfermeira de profissão, “mas essencialmente leitora”, Maria José Quintela partilhou um texto que escreveu especificamente para este momento e que acabou por dominar a sessão. Nas suas palavras, podemos escutar, entre outras inquietações próprias de quem se pensa a si e ao espaço em volta, o seguinte: “A liberdade é um rumor de asas no interior de quem se arrisca a pensar, sem medo de perder o chão ou se perder de si. Olhar a partir de dentro clarifica a nossa posição no Universo e nada tão desastroso como perder a noção de espaço que ocupamos: Um pequenino quintal, cercado de intrigas e representações no limite da ocupação”. Pegando neste assunto, Leocádia Regalo afirmou que nos “interessamos, às vezes, mais com a opinião dos outros do que com as nossas vivências, com os nossos sonhos, com os riscos que temos de correr”, acrescentando que “não é artista aquele que pensa que só a arte deve agradar ou deve vender.” Josefa de Maltezinho observou que “estamos subjugados a determinados pontos que, quer queiramos quer não, iremos seguir” e que “quem quer chegar aos leitores, encontra na liberdade uma certa prisão.”

Ana Maria Ferreira fechou a mesa com a leitura de um poema de Maria José Quintela, do seu livro “Morrer e Depois”, como “homenagem às três convidadas”, e que termina assim: “(…) desbridam o firmamento, / avaliam a escala das formas luminosas, / escalam as marés e os montes lunares, / e, como cálidos incensos, / ardem a ansiedade nos meteoritos / e alargam a dança de roda a cada um que passa. / afinal, já todos foram todos.” Um belíssimo momento, que abriu espaço a outro momento não menos belíssimo, trazendo na voz e na música de Jorge Névoa, acompanhado ao piano por Ana Moreira, a poesia de Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Miguel Torga, Natália Correia, Alfred Tennyson e António Aleixo. Feitas de sensibilidade e emoção, as baladas deram a ouvir, de forma incomum, poemas tão queridos, vincando a sua riqueza e versatilidade e tornando-os mais queridos ainda. Particularmente emotivo, o momento de declamação por José Ferreira de dois poemas de Manuel Ramos Costa, poeta ovarense recentemente desaparecido, calou fundo no coração de todos os presentes. Uma última nota para a apresentação do livro “O Pêndulo - Nenhum Segredo é Eterno”, de Elisabete Pinho, por Paulo Felix, que abriu o segundo dia do FLO e que, nas palavras da escritora, é “essencialmente um drama familiar”, envolto no ritmo do suspense e do thriller, “para dar mais vontade ao leitor de não perder a história.” O FLO10 regressa mais logo, pelas 18h00, estendendo-se pela noite fora com uma mão cheia de propostas imperdíveis.

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (I)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
António Manuel Ribeiro, Bruno Henriques, Carlos Nuno Granja, Diogo Pinto, João Melo, José Ferreira, Luís Ribeiro, Manuel de Queiroz, Margarida Carvalho, Maria Bocchichio, Milton Pacheco, Sara Barros Leitão
Biblioteca Municipal de Ovar | Centro de Artes de Ovar
18 Set 2024 | qua | 18:00 e 21:15


De pé desde 2015, o Festival Literário de Ovar cumpre este ano a sua 10ª edição. Ao longo do tempo, como dá nota Carlos Nuno Granja, o programador de conteúdos literários do Festival e o seu rosto mais visível, Ovar tem vivido “momentos de alegria, de sintonia, de sorrisos, de sensibilidade e reflexão”, graças à dinâmica do Festival e de quem soube erguê-lo e consolidá-lo, quer pelo valor das iniciativas, quer pelo ambiente de enriquecimento e partilha que une escritores, leitores, ilustradores, editores, contadores de histórias, críticos literários, investigadores, livreiros e público em geral em torno dos livros e da leitura. Envolvendo 104 convidados – na sua maioria do género feminino, sublinhe-se –, a presente edição vê reforçada a sua qualidade, diversidade e abrangência, tendo para oferecer meia centena de eventos que vão das mostras bibliográficas às apresentações de livros, das tertúlias, oficinas e conversas às sessões de contos e de poesia, concursos literários e de ilustração e visitas guiadas e encenadas. Cinema, teatro, concertos, jornadas literárias (formação creditadas para professores) e nove mesas temáticas, completam um programa com tudo para agradar a todos.

A assinalar os 500 anos do Nascimento de Luís de Camões, a inauguração da mostra bibliográfica patente ao público no átrio da Biblioteca constituiu o primeiro dos muitos momentos do FLO que se oferecem ao longo dos próximos cinco dias. Nela é possível apreciar um vasto conjunto de exemplares pertencentes ao espólio da própria Biblioteca e do Museu Escolar Oliveira Lopes, desde exemplares raros que fazem parte de um acervo camoniano à guarda da Biblioteca Municipal de Ovar, ao muito recente “Fortuna, Caso, Tempo e Sorte”, trabalho biográfico da autoria de Isabel Rio Novo. Acto contínuo, José Ferreira, Diogo Pinto e Luís Ribeiro, actores da CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, declamaram cinco sonetos do maior poeta da nossa língua, nomeadamente “em prisões baixas fui um tempo atado” e “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, entre outros. “Camões Ultrapassa as Fronteiras do Mito!”, tertúlia que encerrou o período do final da tarde, colocou frente a frente a professora, investigadora e ensaísta Maria Bocchichio e o investigador e historiador de arte Milton Pacheco, e deu a ver de que forma, nos dias de hoje, criadores das mais variadas expressões artísticas vivem e se relacionam com o universo camoniano.

Momento inaugural do período da noite, a Cerimónia de Abertura do FLO trouxe com ela as palavras emocionadas de Carlos Nuno Granja ao lembrar o percurso do Festival e aqueles que estiveram sempre ao seu lado, mas também, pela voz de Domingos Silva, presidente da edilidade ovarense, a promessa de uma aposta reforçada num Festival que “é já uma marca identitária de Ovar”, mediante a sua abertura a autores estrangeiros. Moderada pelo “jovem conservador de direita” Bruno Henriques, a primeira mesa temática do Festival contou com a presença do músico, cantor, poeta e líder da banda portuguesa de rock UHF, António Manuel Ribeiro, e do arquitecto e escritor Manuel de Queiroz. Com as palavras de Agostinho da Silva bem presentes – “a liberdade só existe quando todos os nossos actos concordam com todo o nosso pensamento” –, os convidados discorreram sobre a forma como a literatura cabe em vidas tão ocupadas com outros afazeres, as preocupações com a intemporalidade ou com a premência dos assuntos sobre os quais se escreve, as referências literárias ou a liberdade que Abril nos trouxe. O serão terminou com “Guião Para um País Possível”, uma peça escrita e encenada por Sara Barros Leitão e interpretada por João Melo e Margarida Carvalho, e que aborda esse particular espaço que é a casa da democracia através do olhar de dois funcionários que têm a missão de transcrever tudo o que ali é dito [a análise crítica da peça pode ser lida AQUI]. Hoje à noite há mais.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

CERTAME: Festival Literário de Ovar FLO 2022


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

CERTAME: Festival Literário de Ovar FLO 2022
Afonso Cruz, Alberto Pereira, Alexandre Rampazo, Álvaro Laborinho Lúcio, Ana Paula Jardim, Ângela de Almeida, Bento Ramires, Carla Cruz, Carlo Giovani, Carlos Campaniço, Carlos Marta, Carlos Nuno Granja, Catarina Gomes, Cláudia Lopes, Cristina Marques, D. H. Machado, Danuta Wojciechowska, Eduarda Lima, Elisa Scarpa, Elisabete Rosa-Machado, Estefânia Surreira, Filipe L. S. Monteiro, Francisco Silva, Frederico Pedreira, Isabel Nery, João Garcia Miguel, João Rasteiro, João Reis, João Só, José Carlos Barros, José Mário Silva, Lúcia Vicente, Luis Filipe Sarmento, Luis Miguel Rainha, Maja Stojanovska, Manuel Halpern, Marcelo Teixeira, Marcus Pamplona, Maria José Santana, Miguel Marques, Minês Castanheira, Mónia Camacho, Patrícia Carreiro, Paulo Salvador Lopes, Pedro Guilherme-Moreira, Pedro Podre, Ricardo Namora, Rui Guedes, Rui Oliveira, Sandy Gageiro, Sara de Almeida Leite, Sónia Borges, Susana Cardoso Ferreira, Susana Piedade, Teresa Carvalho
Vários locais
14 Set > 18 Set 2022


“É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.” Se me fosse dado eleger uma frase de um livro de José Saramago para uma conversa que bisbilhotasse aquilo que foi a oitava edição do Festival Literário de Ovar, sentando à mesma mesa escritores, editores, cronistas, romancistas, poetas, críticos literários, ilustradores, declamadores e estimado público leitor, talvez fosse justamente esta a eleita, extraída do magnífico “Viagem a Portugal”. Talvez esta, porque remete para um caminho de passos repisados, passos que, sendo os mesmos, são sempre outros a cada nova edição. Também porque a abnegação e a coragem de pôr de pé um evento desta natureza, numa sociedade que preza tão pouco o livro e a leitura, é sempre imensa. E ainda, porque as marcas do labor, do empenho e da resiliência, de mãos dadas com a delicadeza de quem faz questão de bem receber, se veem e sentem a cada nova viagem. [Porquê Saramago? Porque estamos em ano de centenário do Nobel da Literatura e porque, entre a cegueira e a lucidez, foi dos seus livros que se respigaram as frases que serviram de mote a nove mesas, qual delas a mais interessante e enriquecedora].

Tornando a um modelo com provas dadas, Carlos Nuno Granja e a sua equipa puseram de pé um conjunto de actividades que se estenderam do Teatro e da Dança, à Música e às Exposições, com Contos, Oficinas e Visitas de permeio, que “nem só de mesas vive o homem”. Ao longo de cinco dias, o difícil foi conciliar uma tão vasta oferta com as exigências de um quotidiano já de si sobrecarregado, o que vale por dizer que, no meu caso concreto, fiquei-me por quatro mesas e ainda pelo belíssimo “Ensaio Sobre a Cegueira”, pela Companhia de Dança Contemporânea de Évora, pelo Recital com a pianista Maja Stojanowska e palavras de Pedro Guilherme-Moreira, pela apresentação de “Homens Livro”, de Bento Ramires, Rui Guedes e Carlos Marta e ainda pelo concerto de João Só, a encerrar o Festival. Começando justamente pelo fim, uma palavra para o cantor e para a forma bem disposta de estar em cima do palco, para os seus dotes de comunicador e para as belíssimas canções que nos trouxe. Para quem, como eu, julgava desconhecer o seu trabalho, foi espantoso perceber que músicas como “Não Sou Eu”, “Bad Boy”, “Próxima Estação”, “Não É Verdade”, “Olha Para Mim” ou “Sorte Grande” andavam a bailar cá dentro, “sem dono”, há já muito tempo.

Quanto às mesas, destacaria aquela que abriu o Festival e que, moderada por Cristina Marques, nos trouxe a riqueza de ideias e o humor fino de Álvaro Laborinho Lúcio. Das viagens da carreira entre a Nazaré e as Caldas da Rainha, menino ainda, à dimensão mais íntima de cada um de nós que habita nas nossas interrogações e inquietações, o escritor de “As Sombras de Uma Azinheira” e “O Beco da Liberdade” ofereceu-nos a visão lúcida de quem, aos 80 anos, se afirma “um jovem, com um grande futuro atrás de mim”. Pedro Guilherme-Moreira lembrou que “o primeiro acto das ditaduras é queimar e fazer desaparecer livros”, Afonso Cruz veio dizer-nos que “qualquer tentativa de abraçar uma utopia é, em si mesma, uma distopia” e Minês Castanheira contrapôs ao afirmar que “acredita em utopias”, dando como exemplo o sonho constante que é o “seu” Bairro dos Livros. Numa mesa moderada por Isabel Nery, denunciar ou não foi a primeira questão. Se para Carlos Campaniço é imperioso denunciar - “falar do homem explorador do próprio homem” -, já José Carlos Barros diz que escreve “olhando para as coisas e trazendo-as à superfície, sem o propósito da denúncia”. Com João Reis a ver em Saramago e Pessoa “duas vacas sagradas”, que “atingiram a dimensão do sabonete” e Luís Raínha, resignado, a dizer que o seu livro [Luz / Negra] “está condenado a não ganhar um prémio literário, desde logo porque é bem escrito”, chegámos ao fim de um Festival que foi imenso e nos deixou, uma vez mais, de coração cheio.

domingo, 19 de setembro de 2021

CONCERTO: "Onde" | Paulo Praça



CONCERTO: “Onde” | Paulo Praça
Festival Literário de Ovar 2021
Centro de Arte de Ovar
12 Set 2021 | dom | 19:00


“(…) Corria o ano de 1975 e a revolução era ainda um bebé com poucos meses. Fernando, o meu irmão mais velho, tinha treze anos e, para além da sua beleza, levava sempre consigo a rebeldia de quem estava a começar uma das mais turbulentas viagens. Se por dentro já não havia limites, por fora esta desconhecida liberdade tornava possíveis todos os seus sonhos, toda a sua loucura. E fumar um cigarro na rua era apenas uma das suas pequenas conquistas (…).”

Foram em número pouco expressivo os resistentes de uma longa tarde à roda dos livros que se mostraram disponíveis para escutar Paulo Praça e “Onde”, o filme-concerto que colocou um ponto final na sétima edição do Festival Literário de Ovar. Quem porfiou, contudo, terá sentido aquela escassa hora como um momento extraordinariamente curto de tão precioso e sincero, o projecto abrindo-se em palavras e acordes ao público num gesto de amor e homenagem do autor à sua cidade-natal, Vila do Conde. Com Eurico Amorim nos teclados e programações, Andrés Malta no baixo e Pedro Martins na bateria, Paulo Praça deu voz a um conjunto de textos soltos, uma boa parte deles musicados, o todo complementado com um videodisco de Paulo Pinto. Indissociáveis no conjunto deste trabalho de fôlego, texto, música e imagem foram um convite a viajar pelos recantos da memória, ao encontro “do lugar onde o coração se esconde”.

“Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! / Ninguém me peça definições! / Ninguém me diga: “vem por aqui”!”. O “Cântico Negro”, na voz de José Régio, uma gravação original da Orfeu datada de 1958, rasga o palco. Presos às palavras, reféns da beleza que delas emana, sentimos que o corpo fica mais leve, que levita ante as imagens que vão passando no ecrã, a partilha como catarse de um tempo colado à pele. Sem que a razão seja para aqui chamada, temos a certeza que “Onde” nasce e cresce num lugar preciso do qual não pode escapar. Um lugar único tornado referencial por todos quantos o fizeram e fazem, um lugar mitificado, glorificado, louvado em cânticos que se perdem na noite dos tempos, que fazem dele o santo e senha de corpos e almas. Nesta voragem, que tudo pede e tudo oferta, “Onde” inscreve uma marca indelével “entre pinhais, rio e mar” com a beleza das coisas simples.

Com contribuições de Jorge Cruz, Renato Maia, Simão Praça, Valter Hugo Mãe, Ruy Belo, Artur Cunha Araújo, José Coutinhas, José Cid, Fausto Bordalo Dias e o apoio e amizade de tantos outros, “Onde” é um objecto fascinante na forma como abraça um tempo outro. Recusando um revivalismo serôdio, Paulo Praça trata a sua cidade com paixão e enlevo, lembrando que “tem tudo, só não tem comparação”. A jogar à bola com os amigos da rua ou a andar à beira-mar, ouvindo o som das plainas que vem do estaleiro ou vendo o vento norte cortar luas brancas no azul do mar, Praça é cada um de nós, gente da beira-mar que partilha um legado comum que, no amor e na dor, a todos une. Se nesse cunho imaterial se encontra a chave para guardar “Onde” junto daquilo que mais amamos, não sei. Sei que amei tudo quanto vi e ouvi, como amo aquilo que vejo quando folheio o livro-disco com o mesmo nome, uma fotografia entre as mãos com as barracas de praia que podem ter sido as do meu Furadouro, as quatro crianças em cima do muro, uma das quais poderia ser eu.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

CERTAME: Festival Literário de Ovar (IV)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2021
Ana Bárbara Pedrosa, Ana Cássia Rebelo, Ana Ferreira, Ana Sofia Marçal, Ana Ventura, Anabela Pedrosa, Bento Ramires, Bru Junça, Bruno Henriques, Carla Mühlhaus, Carlos Fiolhais, Carlos Marta, Carlos Nuno Granja, César Rodrigues, Cristina Marques, Daniel Lemos, Daniela Onis, Diogo Leite de Castro, Dora Batalim, Fernando Ribeiro, Fernando Soares, Joana M. Lopes, João Manuel Ribeiro, João Morales, João Tordo, Joaquim Jorge Carvalho, Jorge Ferreira, Jorge Melícias, José Saro, Judite Canha Fernandes, Licínio Pimenta, Luca Argel, Maja Stojanovska, Manuela Pargana Silva, Manuella Bezerra de Melo, Marcelo Teixeira, Maria Almira Soares, Marília Lopes, Marta Pais Oliveira, Minês Castanheira, Paulo Praça, Pedro Guilherme-Moreira, Pedro Podre, Rodolfo Castro, Rodrigo Guedes de Carvalho, Ruben Alves, Rui Guedes, Rui Manuel Amaral, Rui Pedro Lamy, Tânia Clímaco, Vasco Gato, Virgínia Millefiori, Wagner Merije
Vários locais
08 Set > 12 Set 2021


A sétima edição do Festival Literário de Ovar chegou ao fim no passado domingo, o dia em que se cumpriram precisamente 150 anos sobre o desaparecimento do escritor Júlio Dinis. A manhã foi de festa com a inauguração da Biblioteca Júlio Dinis, na Escola Secundária com o mesmo nome, à qual se seguiram a entrega de prémios do Concurso Literário e de Ilustração “Júlio Dinis em Ovar”, uma Oficina de Ilustração por Anabela Pedrosa e uma mesa moderada por José Saro, com a Coordenadora Nacional da Rede de Bibliotecas Escolares, Manuela Pargana Silva e com Ana Sofia Marçal, rosto maior da Maratona de Leitura da Sertã. No recém-inaugurado espaço, houve ainda lugar a uma sessão de contos, com os quais Virgínia Millefiori encantou miúdos e graúdos. E foi ainda a figura tutelar de Júlio Dinis a fazer a ponte com o período da tarde, o Centro de Artes de Ovar a servir de palco a um conjunto de actividades diversificadas, a palavra de mãos dadas com o cinema, a fotografia, a ilustração ou a música.

A primeira mesa desta maratona de quase seis horas viu Vasco Gato e Jorge Melícias falarem de literatura, sob a moderação de João Morales. Foi um momento extraordinário de partilha, sobretudo pela luz que Jorge Melícias lançou sobre o mundo dos livros, pesem embora certas afirmações “politicamente menos correctas”. Falando de poesia, Melícias chamou a atenção para aqueles que confundem poesia com sentimento. “Poesia não é sentimento, é conhecimento”, disse, apontando o dedo ao poema “Na hora de pôr a mesa éramos cinco”, de José Luís Peixoto. “Quando quero emocionar-me vejo os “Contos da Lua Vaga”, do Mizoguchi, ou vou ao Prado ver o “Ixión”, do Ribera”, disse. Chamando a atenção para o “gritante empobrecimento da linguagem” nos nossos dias, o poeta lembrou que “a poesia não se faz com ideias, mas com palavras”, acrescentando que “essas palavras têm de ser duras”. Por seu lado, Vasco Gato referiu “a hipótese das palavras ou da linguagem abrirem portas, cadafalsos, para aquilo que não sei” como o grande motor da sua escrita.

A segunda mesa foi integralmente dedicada a Júlio Dinis, com três estudiosos do romancista à conversa: Maria Almira Soares, Ana Ferreira e Joaquim Jorge Carvalho. Moderada por Marcelo Teixeira, esta última mesa do Festival proporcionou momentos belíssimos, Maria Almira Soares a dar o mote com esta pertinente interrogação: “Como é que um ser tão melancólico, triste, constantemente ameaçado pelo estigma da tuberculose, pôde escrever uma obra tão solar?”.  Uma observação que levou Ana Ferreira a citar Vítor Hugo: “A melancolia é a felicidade de se ser triste”. Baseando-se na sua própria experiência, Joaquim Jorge Carvalho afirmou que “para quem trabalha para criar hábitos de leitura, enquanto professor, Júlio Dinis é absolutamente precioso.” Maria Almira Soares deixou ainda uma observação plena de oportunidade e sentido: “São necessárias novas leituras de Júlio Dinis. Ele era um amigo da terra e dos que lhe eram próximos. Hoje enchemos a boca com o ambiente, com o salvar a Natureza. É por aí que temos de ir”.

A tarde ficou completa com a apresentação do “teaser” do documentário “Júlio Dinis em Ovar”, espécie de resultado preliminar da residência artística de Rui Pedro Lamy no Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense. Com o actor Pedro Damião a incarnar a personagem do escritor, o breve excerto que foi dado a ver traz consigo a promessa de um belíssimo trabalho, o cruzamento dos factos com a ficção a conferirem ao projecto consistência e interesse. Ainda antes de Paulo Praça e da apresentação de “Onde”, um trabalho que é, em simultâneo, livro, vídeo e concerto, coube a José Licínio Pimenta apresentar a edição comemorativa da novela “O Canto da Sereia”, obra que conta com ilustrações de Pedro Podre e um ensaio de Ana Ferreira. Ilustrador e ensaísta, juntamente com o editor Jorge Ferreira, deram o seu testemunho sobre os desafios que envolveram uma edição que pretende“dessacralizar e democratizar a obra de Júlio Dinis e o seu espaço”, tornando-a acessível ao público, conforme afirmou José Licínio Pimenta. Quanto a “Onde” e a Paulo Praça, a invulgar qualidade do trabalho apresentado merecerá apontamento à parte aqui no blogue.