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domingo, 21 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Celebrar o Douro, Sempre" | Emerenciano



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Celebrar o Douro, Sempre”,
de Emerenciano
Biblioteca Municipal de Ovar
05 Mai > 04 Jul 2026


“O vinho é de moscatel, alvarelhão, penaguiota, malvasia fina, e mana das fragas à ordem de vozes imperiosas como a de Moisés quando feria a pedra de Horeb - a vara mágica do patriarca substituida agora por um alvião de saibramento.”
Miguel Torga

“Celebrar o Douro, Sempre – 20 Escritores / 20 Anos do Douro Património da Humanidade”, conjunto de trabalhos do artista plástico Emerenciano, é um exercício de memória cultural que procura revisitar a identidade de uma região através daqueles que a escreveram, interpretaram e eternizaram na literatura. Nascido de uma iniciativa conjunta da Associação dos Amigos do Museu do Douro, do Museu do Douro e da Tertúlia João de Araújo Correia, o projecto reúne vinte escritores cuja obra permanece indissociável da paisagem humana e física do Alto Douro Vinhateiro. A iniciativa encontra em Emerenciano Rodrigues o intérprete visual desta galeria literária, propondo uma leitura que ultrapassa a simples representação fisionómica. Os retratos revelam-se como construções simbólicas onde a figura humana é atravessada por signos, cores e elementos gráficos que remetem para o universo da escrita, entendida pelo artista como uma das mais extraordinárias invenções da humanidade. Cada rosto afirma a singularidade do escritor representado, mas o conjunto adquire uma unidade plástica que transforma a mostra num discurso coerente sobre a criação, a memória e o território. O Douro surge, assim, não apenas como paisagem, mas como matéria narrativa, espaço de trabalho, de sofrimento e de beleza, sucessivamente recriado pela literatura e agora devolvido ao olhar através da pintura.

A presença desta exposição em Ovar reveste-se de um significado particular. Ao longo dos anos, o projecto tem percorrido localidades ligadas afectivamente aos autores seleccionados, encontrando na cidade vareira razões históricas e culturais para integrar esse itinerário. Entre elas destaca-se a relação de João de Araújo Correia com Ovar e a admiração que manifestou pelo seu povo, bem como a defesa que fez da criação da Casa-Museu Júlio Dinis. Mas a ligação entre Ovar e o Douro é ainda mais profunda e antiga. Durante décadas, os vareiros estabeleceram intensas relações comerciais com a região duriense, levando para o interior o peixe que sustentava economias e aproximava comunidades. Essas afinidades ficaram registadas na literatura, na memória colectiva e até na toponímia local, constituindo uma herança comum que a exposição convoca de forma subtil. Ao mesmo tempo, a mostra recorda o papel determinante dos homens e mulheres que moldaram a paisagem duriense ao longo dos séculos, transformando um território agreste numa das mais notáveis paisagens culturais do mundo. Os retratos de autores como Guerra Junqueiro, Miguel Torga, Agustina Bessa-Luís ou José Régio funcionam, neste contexto, como pontos de entrada para uma reflexão mais ampla sobre a capacidade da literatura em preservar a memória dos lugares e sobre a forma como a arte pode reactivar esses legados junto de novos públicos.

Vale também a pena olhar para esta exposição e perceber de que forma se inscreve no percurso artístico de Emerenciano. Licenciado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, o pintor definiu, após o regresso da guerra colonial em Angola, uma linguagem singular baseada na aproximação da pintura à escrita, opção que marcou decisivamente mais de cinco décadas de criação. Tal como noutras séries recentes, também aqui as letras deixam de ser mero complemento visual para se tornarem matéria constitutiva da imagem. A escrita invade os rostos, percorre os espaços do desenho e estabelece uma rede de significados que obriga o observador a ultrapassar a superfície da representação. Esta dimensão conceptual, presente em exposições como “Querer Dizer”, “O Livro” ou “A Verdade Entre Mentiras”, regressa agora ao serviço da literatura duriense. Não se trata apenas de homenagear escritores, mas de questionar os mecanismos através dos quais a palavra se transforma em memória, identidade e património. A pintura de Emerenciano continua a afirmar-se como um território de diálogo entre ver e ler, entre imagem e pensamento, convocando o público para uma experiência que exige atenção e envolvimento. Num tempo marcado pela velocidade e pelo consumo instantâneo das imagens, “Celebrar o Douro, Sempre” propõe precisamente o contrário: uma contemplação demorada, onde arte, literatura e história convergem para recordar que os lugares sobrevivem enquanto houver quem os conte e quem os represente.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

TEATRO: “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante” | Trigo Limpo Teatro ACERT



TEATRO: “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante”
Texto e encenação | José Rui Martins
Colaboração dramatúrgica | João Maria André, José Saramago, Michel Séonnet
Cenografia e desenho gráfico | Zétavares
Música de cena | Mia Henriques
Figurinos | Eva Pereira
Interpretação | Afonso Cortês, José Abrantes, Maria Ferreira, Mia Henriques
Produção | Trigo Limpo Teatro ACERT
XI Festival Literário de Ovar
Biblioteca Municipal de Ovar (espaço exterior)
21 Set 2025 | dom | 19:30


“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. (…) Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa”.

Um avô doou em testamento a sua carrinha de cinema / biblioteca ambulante aos três netos para que continuem o seu legado. Artistas desempregados, cumprem a vontade do avô, ainda que não saibam todos os segredos do ofício. Entre muitas peripécias, darão conta do recado? Que fazer? Têm uma leve ideia do que lhes foi contado sobre o avô e de terem assistido a filmes e escutado, quando eram gaiatos, memórias soltas da vida dele contadas pelos pais. Para não defraudarem o público, vão manifestar o embaraço, pedindo-lhe ajuda. Acabam por interpretar teatralmente memórias imaginárias e fantásticas, sonhos, risos e inquietações onde a palavra é protagonista. Desejam “só uma casa com o tamanho do Mundo… Casa da Hospitalidade.”

Em 1958, a Fundação Calouste Gulbenkian substituiu-se ao Estado Novo que não estava muito interessado em cidadãos esclarecidos e informados e colocou em circulação as primeiras quinze bibliotecas itinerantes, chegando esse número a atingir as sessenta e duas unidades. Durante mais de quatro décadas, as bibliotecas levaram a todo o país livros e ajuda para os escolher, que chegou a ser prestada pelos poetas Herberto Hélder e Alexandre O’Neill. Desta maneira, milhões de pessoas puderam ter acesso a livros, o que de outra forma não teriam conseguido. O elemento inspirador deste espectáculo resulta das memórias das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, idealizando-se, para tal, um elemento cénico fundamental: Uma réplica das icónicas Citröen HY. Daí que o espaço seja palco e seja também memória, daí a escolha do mesmo modelo para dar vida ao engenho Ambulante, fazendo com que a Palavra continue a voar.

Acompanhando sempre os seus desempenhos artísticos e comunitários com a construção de engenhos cénicos de grande envergadura e forte impacto visual, a Trigo Limpo Teatro ACERT passa a ter, agora, um teatrinho em todas as localidades de acolhimento, onde a escuta do mundo é como o pão para a boca. Há muito que a ideia os perseguia. A fonte inspiradora era, por si, um elemento que, na actualidade, é mágico. Como imaginar que, há mais de sessenta anos, uma carrinha percorreu os lugares mais recônditos de Portugal para proporcionar à população do interior a leitura, transportando livros aos quais, de outro modo, as nossas gentes nunca teriam acesso? O caminho escolhido leva o espectador ao encontro de um conjunto de personagens que, não sabendo ler, inventaram formas de o fazer singelamente, lendo a vida e os sonhos com o passajar dos dedos pelas páginas dos livros. Um convite à aventura feliz, impulsionada pelos conhecimentos daqueles que, podendo não saber ler, souberam criar universos oníricos e sentimentais de grande autenticidade.

terça-feira, 25 de março de 2025

EXPOSIÇÃO DE AGUARELAS E DESENHOS: "Riscos Calculados" | Zé Maia



EXPOSIÇÃO DE AGUARELAS E DESENHOS: “Riscos Calculados”,
de Zé Maia
Biblioteca Municipal de Ovar
28 Fev > 26 Abr 2025


Podemos falar de uma actividade em expansão ao abordar o assunto “Desenho Urbano”, essa prática artística que vem chamando às ruas de cidades e vilas um número crescente de praticantes. Focados na arquitectura ou em cenas do quotidiano, nas pessoas que tomam o seu café numa esplanada ou num gato que dormita num beiral, os “urban sketchers”, como são universalmente conhecidos, mostram-se particularmente atentos, metódicos e expeditos na construção dos seus trabalhos, conectando mundos interiores e exteriores com engenho e arte, assim construindo narrativas de inegável valor educativo e artístico. Individualmente ou em conjunto, no respeito pelo seu próprio estilo e pelos materiais escolhidos para levar a cabo a sua actividade, replicam com minúcia as cenas que testemunham, fazendo de cada obra o registo muito especial de um tempo e de um lugar específicos. Depois, tirando o melhor partido das redes sociais, partilham os desenhos produzidos, dando a ver ao mundo verdadeiras pérolas.

José António Maia de Almeida, conhecido como Zé Maia, não será o único desenhador urbano da cidade de Ovar, mas é, seguramente, o mais carismático. Ao talento inato, alia a paixão pela sua Ovar natal, olhando com renovada dedicação a forma como a cidade cresce e se transforma. Mas o seu olhar vai mais longe, ultrapassa as fronteiras do concelho, poisa na fachada de uma igreja em Cacela Velha ou nos muros de uma fortaleza em Sesimbra, no edifício que acolhe a Biblioteca Municipal de Vouzela ou numa vista de S. Jacinto. Deixemos que a imaginação voe ao encontro do artista, sentado no seu banquinho desdobrável ali na Rua Dr. Manuel Arala, na frontaria daquele que foi o Café Paraíso e, mais tarde, a Relojoaria Ovarense. Sentemo-nos também e vejamos como poisa no colo o caderno de desenho e dispõe à mão o lápis, a borracha e a caneta com tinta indelével. O estojo com tintas de aguarela e os pincéis aguardarão a sua hora, bem como o carimbo com a efígie do seu pai, a partir de um desenho que dele fez em 1982 e que é a sua forma simples de o homenagear. Para já, vemos como nasce o esboço dos edifícios, com o desenho a lápis e os primeiros contornos a tinta carbono (indelével); de seguida, intensificam-se os contornos e o desenho ganha detalhe, cresce. Com as primeiras “aguareladas” entra-se na fase da cor e a magia acontece.

Se conseguiu imaginar Zé Maia a sós com os seus rabiscos, agora tem a possibilidade de apreciar este trecho particularmente belo de uma das ruas centrais de Ovar na exposição intitulada “Riscos Calculados” e que ocupa a galeria de exposições temporárias da Biblioteca Municipal de Ovar. Lá encontrará um conjunto de olhares sobre a nossa frente citadina, mas também de um Ovar rural, do interior da Igreja Matriz a um largo de Sande. Particularmente belos são três trabalhos que retratam outras tantas Alminhas, assim como um pormenor do final da Rua Castilho, muito próximo das traseiras da Capela dos Campos. Zé Maia manifestou desde sempre interesse pelas diversas formas de Arte, muito por influência paterna - o pai, José Augusto de Almeida, foi fundador e primeiro director do Museu de Ovar. Por essa razão, nunca descarta a possibilidade de levar à prática a sua veia criativa, nomeadamente o “urban sketching”, tendo no seu caderno, lápis, tintas e pincéis, uma companhia constante. Regressa agora à Biblioteca com este novo conjunto de trabalhos, alguns deles inéditos, e outros que, pertencendo a colecções particulares, só tinham sido divulgados através das redes sociais. Para ver até 26 de Abril.

sábado, 21 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (III)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Carlos Nuno Granja, Eduardo Sá, Elisa Costa Pinto, Francisco Duarte Mangas, Joaquim Margarido, Luís Filipe Sarmento, Marta Hugon, Pedro Reisinho, Rui David, Sara Ludovico, Sílvia Sacadura
Biblioteca Municipal de Ovar | Escola de Artes e Ofícios
20 Set 2024 | sex | 18:00 e 21:00


Diversidade, intensidade e muita qualidade marcaram o programa do terceiro dia do Festival Literário de Ovar, “o irmão do meio”, como alguém observou. Apresentações de livros, uma conversa que juntou três editores e se debruçou sobre os novos desafios que se colocam à edição, uma mesa temática e ainda um concerto, foram momentos de conhecimento e partilha fortemente intensos e emotivos, que não deixaram indiferente um público que acorreu ao Festival em bom número. Começando pelo período da tarde, Eduardo Sá fez uma curta viagem desde Aveiro para apresentar “O Medo é um Bicho Mau”, numa edição da Livros Horizonte. Numa linguagem simples, fortemente empática, o autor colocou a tónica na importância de sabermos lidar com os nossos medos, independentemente da idade de cada um. “Todas as crianças e todas as pessoas crescidas têm medos. O medo é só uma questão de sabedoria. Quanto mais velhos, mais medos temos. Não por sermos mais frágeis, mas por sermos mais sábios”, disse. A abordagem à edição e aos seus novos desafios contou com a participação de Sílvia Sacadura, Pedro Reisinho e Sara Ludovico, numa conversa moderada por Carlos Nuno Granja. Da dificuldade em conquistar leitores no segmento dos 8 aos 16 anos, aos condicionamentos de ordem financeira que obrigam a descartar muitos e bons textos ou à recusa de qualquer tipo de censura, de tudo um pouco se falou nesta conversa onde, acima de tudo, se quis vincar a ideia de que importa, acima de tudo, “que os leitores redescubram e descubram o prazer de ler.”

Deixando para trás a Biblioteca, percorremos a margem direita do Rio Cáster numa breve caminhada até nos depararmos com o bonito e bem cuidado espaço da Escola de Artes e Ofícios, onde tiveram lugar as três iniciativas que preencheram o serão. Elisa Costa Pinto chamou a si a tarefa de apresentar “Ácido”, o mais recente livro de poemas de Luís Filipe Sarmento, chamando a atenção para as duas vertentes - prosa e poesia - que habitam a criação literária do escritor. Sobre o seu livro, Sarmento afirmou tratar-se de “uma homenagem a essa trip que a vida me proporcionou, que é a grande viagem de quem nasce numa ditadura, de quem é educado para uma guerra e que à beira de vestir o camuflado há uma revolução que me liberta.” A noite encerrou com “Censurados: A Música que Desafiou a Ditadura”, um espectáculo poético e musical que Rui David, autor e intérprete, definiu como “um exercício de memória e de trazer as vozes daqueles que se interpuseram entre nós e 48 anos de ditadura”. Às músicas de autores bem conhecidos como Adriano Correia de Oliveira e José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho ou Chico Buarque, juntaram-se a poesia de Sophia de Mello Breyner, José Carlos Ary dos Santos, António Gedeão, José Saramago, Egito Gonçalves e outros, juntamente com registos em vídeo que dão testemunho dos homens e mulheres que sofreram no corpo e na alma a violência, o medo, a repressão e a tortura nas cadeias do Estado Novo.

“Descarto de mim a parte menos positiva do crítico e a parte mais positiva do divulgador, que às vezes são uma e a mesma coisa. É como leitor que estou aqui e como leitor que eu quero inquietar os meus interlocutores nesta mesa, sabendo que as minhas inquietações são as inquietações deles, porque são leitores como eu.” Foi com estas palavras que Joaquim Margarido começou por saudar o público presente e os dois convidados desta terceira mesa temática do FLO 10, como se de uma carta de intenções se tratasse. Dos livros que se lêem à forma como se escrevem, da lente sobre o mundo ou de um espelho interior que um livro pode ser para quem o lê ou escreve, ou ainda da importância de ler Camões nos dias de hoje ou daquilo que o 25 de Abril acrescentou à liberdade da escrita, de tudo um pouco se falou numa mesa com tanto de informalidade como de generosidade. “Não quero cair no lugar que nos diz que ficou para trás aquilo que era bom e que para a frente já não é nada. E eu quero acreditar, até bater as colheres, que há coisas a esperar e, sobretudo, que há coisas a fazer e que cada um à nossa escala pode fazer a diferença na vida dos outras”, partilhou Marta Hugon, acrescentando que “cada um de nós tem que ter muito presente que tem que se fazer. Pensar, dizer, escrever, fazer, fazer, fazer. E escrever é uma forma de fazer.” Fazendo a ligação com o concerto que viria a encerrar a noite, este foi um dos muitos momentos excelentes de mais uma mesa de grande qualidade neste Festival Literário de Ovar.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Verdade Entre Mentiras"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Verdade Entre Mentiras”,
de Emerenciano
Biblioteca Municipal de Ovar
05 Abr > 08 Jun 2024


Depois das recentes exposições “Querer Dizer” e “O Livro”, Emerenciano volta a mostrar os seus trabalhos em Ovar, de onde é natural. Apresentada na galeria de exposições temporárias da Biblioteca Municipal de Ovar, “Verdade Entre Mentiras” é constituída por cerca de três dezenas de obras profundamente inscritas no ideário do artista, quer de um ponto de vista conceptual, quer na agudeza da mensagem que insiste em fazer passar. Uma observação rápida das assinaturas diz-nos que estamos perante um conjunto de obras produzidas entre 2020 e 2023, anos marcantes de um ponto de vista económico, social e político, dominados por uma devastadora pandemia que virou do avesso o mundo e a ideia que dele tínhamos. É neste contexto que a máscara se impõe como denominador comum à série de trabalhos apresentados, remetendo para a sua obrigatoriedade (leia-se, “omnipresença”) em contexto pandémico, ao mesmo tempo que explora o seu valor enquanto metáfora da criação artística num espaço dominado pela ilusão e fantasia, pelos desejos e inquietações.

Se num cenário de pandemia é obrigatório manter a máscara, por outro lado é importante que ela caia e que cada um possa mostrar aquilo que verdadeiramente é. Pensada neste contexto, “Verdade Entre Mentiras” levanta questões de ordem ética e moral verdadeiramente significantes. No catálogo da exposição, Emerenciano escreve que o título “é justificado pela aproximação da Arte à Vida e às guerras, onde o desenho e a pintura estão com uma mistura de mentiras verdadeiras e verdades falsas”. O artista tem esta capacidade de olhar o mundo e de, através da sua Arte, colocar em cada obra uma chamada de atenção para “a instabilidade associada à irreflexão e à mentira por onde passam as romarias a confundir a Verdade”. Por isso, não é apenas a máscara que se impõe em cada trabalho de forma tão óbvia, mas também a serpente, símbolo da mentira, da tentação e do pecado. As questões morais subjacentes a este tipo de figuração são levantadas de forma directa, pedindo envolvimento e convidando à acção.

Igualmente fracturantes são as razões éticas que a pintura de Emerenciano insiste em questionar. Deixemos de parte máscaras e serpentes e atentemos nas linhas que se estendem na mesma caligrafia estilizada de há cinquenta anos – “o poeta é um animal longo desde a infância”, escreve Luiza Neto Jorge –, também elas parte integrante da verdade como da mentira. Intrínsecas aos objectos ou externas a eles, as letras não se conformam às margens que o artista impõe, antes mergulham no verso do desenho, acompanhando as suas derivações escherianas enquanto causa e efeito de si mesmas, num eco penetrante que prende e liberta. Com estas letras se contrói o mais belo poema de liberdade, mas não é menos verdade que são estas as mesmas letras que desenham discursos de ódio e intolerância. Naquilo que importa ver, Emerenciano está lá para conversar, dizendo-nos que a Arte é isto mesmo: Irreverente e imprevista na sua vocação para estimular os sentidos e lançar o diálogo, estabelecer pontes e ajudar na construção de um mundo melhor. 

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Imposto Rosa: O Preço de Nascer Mulher"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Imposto Rosa: O Preço de Nascer Mulher”,
de Ana Maia
Curadoria | António Melo Rosa
Biblioteca Municipal de Ovar
20 Out > 30 Dez 2023


“Mulher… liberta a música que há em ti e que flui na tua ESSÊNCIA e que, vibrando em frequências mudas, se faz ouvir no infinito do SER LIVRE! Os teus olhos refletem o brilho sideral, herdado das estrelas, e a tua beleza transforma-se em grito de AMOR e LIBERDADE.”

As Artes Plásticas voltam a afirmar-se como veículo privilegiado de questionamento, oposição e resistência face aos males de que enferma a nossa sociedade. “Imposto Rosa: O Preço de Nascer Mulher”, de Ana Maia, é prova disso, deixando alertas “para a violência a que a mulher é (ainda) sujeita, no local de trabalho, em locais públicos e, até, na sua própria casa, que deveria ser o local mais seguro, fruto de antigos (pre)conceitos da sociedade. A violência doméstica, a violência psicológica, a violência moral e a violência patrimonial são padrões repetitivos de relacionamentos, permanecendo a cultura machista e patriarcal, que não se compreende em pleno séc. XXI.” São palavras da artista que pretende, com as suas obras, “pôr a descoberto os problemas sociais decorrentes desta circunstância e contribuir para que os ultrapassemos.”

Percorrer com os sentidos o conjunto de obras de Ana Maia é mergulhar num mundo de aparências que retém na sombra a dor e o sofrimento, o repúdio, o desdém, a exclusão, a arbitrariedade, a submissão, o recalcamento, a solidão. A normalização dos padrões de beleza, incutida na mulher desde a mais tenra idade, está bem patente na instalação que ocupa o centro da sala e que mostra um “cacho” de barbies, daqueles que fariam as delícias de qualquer criança. Há uma profunda intencionalidade em colocar esta peça em destaque, já que ela é ponto de partida e chegada de um conjunto de normas de conduta pelos quais a mulher se deve reger: a cintura fina numa figura esbelta e alongada, o rosto sem mácula, os cabelos compridos e sedosos, um sorriso que denota o charme e o glamour de uma mulher que se quer com “M” grande. Ser jovem e ser branca nem se questiona. Mas quanto de banalização da imagem da mulher há nisto? Voltemos às barbies e façamos repousar o nosso olhar sobre cada uma delas: São todas iguais!

Fazendo da colagem uma das técnicas de base dos seus trabalhos, Ana Maia estabelece um conjunto de composições cuja mensagem se estende muito além daquilo que um primeiro olhar faria supor. Subliminarmente, as pistas vão sendo desvendadas como cartas saídas de um baralho, seja numa revista de lavores ou nos rostos que se abrigam por detrás de um véu ou de uma cortina, seja num jornal árabe, no corte de umas calças, no enigma de um número com quatro dígitos, numas cartas de amor ou nos porta-moedas, abertos e vazios, alinhados num “S” sibilante, de silêncio e de súplica. Mais do que a qualidade (inegável) dos trabalhos, é o seu significado e alcance que marcam esta exposição, convidando-nos a espreitar a multiplicidade dos “eus” de cada mulher - mãe, dona de casa, estudante, professora, pintora - e a percorrer “caminhos cruzados”, da “fada do lar” aos “horizontes indefesos”. Neste combate que travamos por um mundo mais justo, igualitário e melhor, “Imposto Rosa: O Preço de Nascer Mulher” afirma-se como uma exposição de causas que importa abraçar. Está tudo lá. É impossível não ver!

sábado, 18 de fevereiro de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Histórias de Encantar"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Histórias de Encantar”,
de Gina Marrinhas
Biblioteca Municipal de Ovar
10 Fev > 22 Abr 2023


Depois de, em finais de 2019, nos ter oferecido a sua visão sobre essa obra maior da literatura portuguesa e universal que é “Os Lusíadas”, Gina Marrinhas regressa à Biblioteca Municipal de Ovar com um conjunto de trabalhos que apelam à imaginação e ao sonho. São “histórias de encantar” que praticamente se inscrevem no nosso código genético de tanto as termos ouvido contar da boca dos nossos pais, tios ou avós e de tanto as termos contado aos nossos filhos. Histórias que teimam em aquecer, embalar e enriquecer. Que não cessam de aguçar a curiosidade e a imaginação, de despertar o lado lúdico de quem as ouve, de fazer com que o mundo possa ser mais facilmente entendido, de se mostrarem fundamentais para melhor lidar com as emoções. Todos passámos por isto e, de igual modo, a pintora; que, com a sua arte, quis prestar homenagem a um conjunto de figuras que cresceram com ela e que continuam a fazer-lhe companhia.

Do coração para a tela e da tela ao nosso olhar e sentir, “Histórias de Encantar” é um tempo de partilha e de dádiva que nos coloca à prova num duplo sentido. Por um lado, as partes conhecidas de cada história que despontam de cada quadro, o lobo bem apessoado, a apetecível maçã por sobre a mesa, casinhas feitas de doces, um nariz a crescer, um sapatinho deixado para trás, meninas e príncipes que se apaixonam, casam e vivem felizes para sempre. Há um lado subliminar, porém, que Gina Marrinhas faz questão de trazer ao de cima na forma de um relógio, uma espada, um anjo, uma flor, uma velha (uma bruxa?) à espreita, uma criança à espera, uma abóbora, um coelho, uma chávena de café. E pássaros, sempre. Signos como ecos de um tempo, de um lugar, de uma voz cada vez mais distante. A sua forma de devolver uma história sonhada mil vezes.

Exercício de reinterpretação de enorme significado, “Histórias de Encantar” reparte-se entre Lewis Carroll e Charles Perrault, Gabrielle-Suzanne de Villeneuve e Hans Christian Andersen, os Irmãos Grimm e Carlo Collodi, a tradição oral japonesa e alemã, Maria Judite de Carvalho, Rubem Alves, Antoine de Saint-Exupéry. Há histórias que são “património universal”, como “Alice no País das Maravilhas”, “Pinóquio”, “O Principezinho”, “A Bela Adormecida”, “Branca de Neve e os Sete Anões” ou “A Menina do Capuchinho Vermelho”. Outras serão menos conhecidas mas, ainda assim, histórias de encantar. E há, enfim, Gina Marrinhas, com a beleza da sua pintura, o seu traço muito pessoal na forma como pinta, sem vincar em demasia os objectos da sua atenção, antes deixando-os envoltos numa relativa indefinição. As cores prendem-se aos elementos essenciais, recaindo nos azuis em todos os tons e nos ocres. A tela é despojada daquilo que é acessório, os espaços deixados livres para que possam ser preenchidos por quem observa. Para ver na Biblioteca Municipal de Ovar, espaço de livros e de esperança. De histórias de encantar.

sexta-feira, 19 de março de 2021

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "O Olhar que Vê" | Rosa Bela Cruz


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “O Olhar que Vê”,
de Rosa Bela Cruz
Biblioteca Municipal de Ovar
15 Mar > 15 Mai 2021


É sempre com redobrada emoção que vemos surgir a oportunidade de apreciar o trabalho de alguém que muito admiramos. Mais emocionante ainda é poder fazê-lo depois de um angustiante período de restrição de liberdades, os espaços de conhecimento e saber há tanto tempo encerrados, a cultura amordaçada. Agora que vamos desconfinando a conta-gotas, que as livrarias e bibliotecas voltam a abrir as suas portas ao público e o contacto com um sem-número de actividades nelas centralizadas volta a ser uma realidade, é tempo de dirigir os passos para a Biblioteca Municipal de Ovar, ao encontro de “O Olhar que Vê”. Ao encontro de Rosa Bela Cruz e da sua pintura. Das suas mulheres.

Nas paredes da Sala de Exposições são muitos os olhos que nos olham. Olhos que nos confrontam, nos interrogam, nos advertem. Mas, sobretudo, que nos confortam e nos animam. Para percebermos melhor este aparente paradoxo, talvez seja preciso recuar no tempo a este mesmo espaço onde, em finais de 2017, a pintora apresentou “Eterno Retorno”. Ou voltar a “escutar” os “Murmúrios” que, em tempos mais recentes, povoaram a Sala Júlio Resende do Auditório Municipal de Gondomar; ou ainda (e sobretudo) recordar a exposição marcante que foi “À Flor da Pele”, patente na ÁRVORE – Cooperativa de Actividades Artísticas. Em todos estes momentos, a pintura fez-se no feminino. Uma pintura íntima, visceral, militante nos seus propósitos de denúncia desse estigma que marca o “ser mulher”, essa espécie de fardo, de espinho, de cárcere. Algo muda, porém.

Sendo as mesmas, as mulheres que agora nos olham são diferentes. Os tons sombrios abandonaram os seus rostos, os véus deixaram de servir de resguardo, os queixos ergueram-se e as poses fizeram-se causa e razão, vigor e altivez. Não há dúvida de que estas mulheres mudaram. A sua atitude mudou. Também a sua vontade e a sua confiança. São mulheres mais conscientes dos seus direitos, mais fortes, mais audazes. Logo, mais elegantes e graciosas, mais harmoniosas, mais belas. Rosa Bela Cruz tem este dom: o de, com a sua arte, expressar as emoções mais vivas no que o “ser mulher” tem de íntimo e precioso. Percorremos com o olhar cada trabalho. Lá encontramos, ainda, uns olhos enormes e penetrantes que parecem não nos querer largar. Eles dizem-nos que há ainda muito por fazer no que aos direitos das mulheres e à igualdade de género diz respeito. Mas o olhar destas mulheres é, hoje, o olhar que vê!

domingo, 13 de setembro de 2020

CERTAME: Festival Literário de Ovar 2020


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CERTAME: Festival Literário de Ovar 2020
Ana Torrie, Ângela de Almeida, António Carlos Cortez, Bruno Henriques, Carlos Nuno Granja, Clara Oliveira, Cláudia Andrade, Cristina Marques, Dina Sachse, Elsa Serra, Emanuela Nicoli, Francisco Moita Flores, Gonçalo M. Tavares, Inês Severino, Isabel Nery, Isabel Ricardo, João Rasteiro, Lauro António, Leandro Ribeiro, Luís Filipe Sarmento, Luís Portugal, Manuella Bezerra de Melo, Marcelo Teixeira, Marta Nunes, Miguel Carvalho, Pedro-Guilherme Moreira, Pedro Lamares, Raquel Ramos, Ricardo Coelho, Rui David, Rui Guedes, Rui Vilhena, Sara F. Costa, Sílvia Mota Lopes, Vítor de Sousa
Vários locais
09 > 13 Set 2020


Edifício literário de inegável valor e alcance, o Festival Literário de Ovar viu cumprida a sua sexta edição. Com oito mesas desenhadas para cinco dias de intensa actividade literária, o certame centrou-se em três equipamentos culturais de referência da cidade – Centro de Arte de Ovar, Escola de Artes e Ofícios e Biblioteca Municipal de Ovar –, estendendo-se ainda ao Polo de Capacitação e Inovação Social de S. João de Ovar e ao Auditório da Junta de Freguesia de Cortegaça. Reunindo quase quatro dezenas de convidados, entre escritores, ilustradores, editores, tradutores, músicos, contadores de histórias, declamadores, artistas plásticos, actores e até um cineasta, esta edição viu a sua oferta ampliada com exposições, oficinas, lançamentos de livros, teatro, contos, poesia, música, visitas guiadas e um espaço livro, num trabalho de programação intenso e cuidado, ao encontro de um público cada vez mais atento e conhecedor. Mérito de Carlos Nuno Granja, um verdadeiro lutador, aquela pessoa que teima e resiste, que insiste, fazendo com que estas preciosas pérolas continuem a acontecer numa cidade cuja vida cultural deixa imenso a desejar.

Porque não é possível estar em mais do que um sítio ao mesmo tempo, apenas me foi dada a possibilidade de marcar presença no FLO 2020 em três momentos. Um deles teve lugar na manhã de hoje e revelou-se absolutamente precioso. Tratou-se da visita orientada pela artista plástica Ana Torrie à sua exposição “Onde a Erva Murmura”, patente no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense e acerca da qual falarei separadamente em artigo aqui no blogue. Também detalharei o espectáculo do Centro de Arte que encerrou o certame e que reuniu Pedro Lamares e Rui David em torno do livro de poemas de Manuel António Pina, “Como se Desenha uma Casa”. Só peço um pedacinho de paciência, mas promete ser breve.

A noite de ontem, na Escola de Artes e Ofícios, começou com a apresentação do livro “Poética Não Oficial, Poesia Contemporânea Chinesa”, um trabalho de selecção e tradução de Sara F. Costa, editado pela Labirinto. Sobre ele, a autora revelou estar ali reunida obra de trinta e três poetas, a maior parte dos quais traduzidos pela primeira vez no estrangeiro com este trabalho. São poetas que emergem de movimentos pós-revolução cultural e pós-Tiananmen, cuja estética e conteúdos se mostram “desalinhados” do discurso oficial, sem que isso signifique, necessariamente, tratar-se de uma poesia anti-sistema. Com este livro, Sara F. Costa vem colmatar uma lacuna, uma vez que a poesia chinesa publicada no nosso país quase se resume aos poetas clássicos, excluindo todos os restantes. Momento particularmente saboroso, a declamação de um poema em mandarim serviu de pretexto para a autora explicar a dificuldade de dominar um vasto universo de mais de dois mil caracteres, numa língua rica em trocadilhos e duplos significados, exemplificando com a tradução de um mesmo poema por si e pelo conceituado escritor e historiador António Graça de Abreu, onde se percebe que ambos os tradutores dão o mesmo sentido ao poema mas a organização das palavras é substancialmente diferente.

A noite prosseguiu com a Mesa 6, moderada por Cristina Marques e na qual tomou parte, para além de Sara F. Costa, a ficcionista Cláudia Andrade. Foi uma conversa onde ficámos a conhecer duas décadas de trabalho literário de Cláudia Andrade, um trabalho que, verdadeiramente, só se fez notar nos dois últimos anos, primeiro com a publicação de “Quartos de Final e Outras Histórias” e entretanto, no passado mês de Março, com “Caronte à Espera”, ambos com a chancela da Elsinore. Foi interessante perceber algum pragmatismo nas palavras de autora – “passo a ser escritora no dia em que me pagarem para não ter de fazer outra coisa”, disse –, mas também um pouco do seu processo criativo, “um universo onde ninguém mais entra”, a escrita como forma de libertação pessoal, “uma brincadeira comigo mesma, uma catarse”. A fechar o dia, Elsa Serra veio contar uma mão cheia de saborosas histórias, nomeadamente ao encontro do “primeiro contador de histórias do mundo”, um homem que no mesmo sítio, à mesma hora, esticava o seu tapete, pousava o seu pote de barro, puxava do seu banco de madeira e contava, contava, contava...

Na tarde de hoje, o Centro de Arte de Ovar abriu as portas ao derradeiro acto do certame. Homenageando Amália, no centenário do seu nascimento, a mesa 8 contou com a presença do jornalista Miguel Carvalho e do cineasta Lauro António, tendo a moderá-la o editor Marcelo Teixeira. Foi uma conversa riquíssima, tanto pelas memórias partilhadas por Lauro António que, por motivos profissionais, conviveu com a cantora, como pelos elementos de pesquisa de Miguel Carvalho e que se encontram compilados em “Amália – Ditadura e Revolução”, considerada já por muitos como a biografia definitiva desse enorme vulto da nossa cultura. Foi interessante ouvir Lauro António afirmar que Amália “não teve sorte com os realizadores [que a dirigiram], foi muito mal aproveitada no cinema”. Mas sobretudo louvar Amália como alguém que “buscava poetas de grande qualidade, sem olhar à sua cor política” e elogiar o “notável trabalho de pesquisa [de Miguel Carvalho], que faz de Amália o fio condutor para dar a ver a história do País, tanto no tempo do Estado Novo como no período que se seguiu ao 25 de Abril de 1974.

Miguel Carvalho encantou ao falar de “Amália – Ditadura e Revolução”, criando uma enorme expectativa naqueles que ainda não tiveram a oportunidade de o ler. As palavras de José Saramago, em 1999, sobre a ligação de Amália aos movimentos de esquerda no tempo da ditadura serviram de ponto de partida para um projecto de investigação jornalística. E se hoje temos à nossa disposição esta biografia, muita coisa aconteceu entretanto, a mais decisiva das quais terá sido mesmo a bolsa de investigação jornalística atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian e que lhe possibilitou levar o projecto a bom porto. Do trabalho árduo e exaustivo – “fui à procura de uma estante e saiu-me uma montanha”, disse –, o jornalista partilhou um conjunto de descobertas, sendo o facto de Amália estar muito mal estudada uma das mais surpreendentes. Depois foram os textos de Miguel Esteves Cardoso a desmistificar a questão do fado ser uma arte menor, colocando Amália ao nível de um Lou Reed; de Rão Kyao, com o notável “Fado Bailado”, ter dado a ver Amália como nunca até então (foi o primeiro LP de platina atribuído a discos portugueses, com mais de 200 mil cópias vendidas); e do “ovni” António Variações nos vir dizer que “todos nós temos Amália na voz”, fazendo com que a democracia se reconciliasse, definitivamente, com Amália. E é isto, que a crónica vai longa. Para o ano há mais, esperando que todos possamos voltar a juntar-nos de novo. E, como disse Carlos Nuno Granja, “sem máscaras, mais próximos”!

sábado, 2 de novembro de 2019

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Lusíadas, a Alma da (Nossa) Gente"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Lusíadas, a Alma da (Nossa) Gente”,
de Gina Marrinhas
Biblioteca Municipal de Ovar
20 Set > 09 Nov 2019


— "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

A Sala de Exposições da Biblioteca Municipal de Ovar acolhe, até ao próximo dia 09 de Novembro, “Lusíadas, a Alma da (Nossa) Gente”, conjunto de trabalhos da pintora Gina Marrinhas por onde perpassam os versos de Luís de Camões, seu fundamento e brisa inspiradora. O primeiro quadro invoca a musa Calíope e nele se intuem caminhos de sabedoria, eloquência e poesia feitos. Entre as boas graças dos deuses e o canto de belas ninfas, é atravessando-os que visitamos uma parte importante da nossa alma, o clamor das batalhas, a dor da partida, os amores para sempre adiados, “tantas vezes a morte apercebida!”

Como refere Sérgio Azeredo num texto intitulado “As Emoções no Silêncio” e que acompanha esta exposição, “a pintura de Gina Marrinhas conta-nos uma história de emoções profundas, que exprime o inconsciente-consciente pessoal. Apologia sensorial que valoriza a imagem, de impacto visual assumido, e mergulha nas águas de um oceano turbulento, cheio de belezas inocentes, que parecem atingidas pela tristeza, em meios sorrisos interrogativos e plenos de ironia esboçada, sussurrando segredos. Gina Marrinhas confronta-nos com a intemporalidade cósmica, num diálogo tenso, de aspectos intangíveis, em traços de uma austeridade serena e de amor sentido.”

Singela nas cores esmaecidas, imensamente bela no desenho, intensa na mensagem, “Lusíadas, a Alma da (Nossa) Gente” é uma exposição que cala fundo em nós. Uma boa parte da nossa herança histórica de quase nove séculos cabe inteira neste conjunto de trabalhos, nos quais, inevitavelmente, nos revemos. Com “Batalha de Aljubarrota”, “Episódio de Inês de Castro”, “Velho do Restelo” ou “Vasco da Gama”, é da nossa cultura e da nossa civilização como memória, vida e futuro, que Gina Marrinhas nos fala. Fala-nos de sóis e de ventos, de promontórios que se erguem como gigantes e da imensidão do mar, do concílio dos deuses e da fé dos mortais. Fala-nos do pão que sacia a fome aos homens e dos seus feitos gloriosos, mas também nos lembra o quanto torturaram e mataram. Fala-nos da beleza, da grandiosidade e da dádiva, mas fala-nos também da ignomínia e da vergonha, que não podem ser esquecidas para que jamais voltem a acontecer.

sábado, 11 de maio de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Acordo Fotográfico"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Acordo Fotográfico”,
de Sandra Barão Nobre
Biblioteca Municipal de Ovar
10 Mai > 15 Jun 2019


No caso de Sandra Barão Nobre, ter nascido em França foi determinante. Não apenas pela consciência do “ser português”, que desde cedo tomou conta de si, como pelas inúmeras deslocações entre França e Portugal, que ajudaram a moldar o seu gosto pelas viagens. Depois há - talvez (?!) - a questão do “gene do viajante”, uma mutação que a autora terá no seu ADN, de tal forma é enorme a sua paixão por viajar. E temos ainda a questão dos livros, algo muito marcante desde tenra idade, a Mafaldinha a dizer-lhe que iria tirar o curso de Relações Internacionais e ser diplomata. Não foi diplomata (descobriu no 2º ano do Curso que não tinha perfil), mas tirou o curso da sua vida, com ele adquiriu uma enorme cultura geral e, juntando todos os ingredientes – inatos e adquiridos –, abraçou uma série de projectos que têm neste “Acordo Fotográfico” uma das suas expressões mais interessantes.

“Acordo Fotográfico” traz-nos histórias de pessoas enquanto leitores e da sua relação com os livros. Inaugurada na Biblioteca Municipal de Ovar ao início da tarde de ontem, a exposição integra um conjunto de imagens que constituem uma homenagem ao acto de ler. Dos jardins do Palácio de Cristal à Praça Azul de Pangim, do Starbucks da Avenida das Estrelas em Hong Kong ao Jardim Luis de Camões em Macau, são cerca de cinquenta retratos que nos revelam que a leitura é universal. Mas Sandra Barão Nobre vai mais longe, fazendo questão de complementar cada fotografia com uma pequena história onde, para além da identidade do retratado, se inclui o nome do livro e uma breve contextualização da fotografia [os mais curiosos poderão encontrar as histórias completas no excelente blogue “Acordo Fotográfico”]. E aí tropeçamos em livros já lidos, cada um de nós reflexo da pessoa retratada, mas também noutros que estão na nossa lista e que, subitamente, se tornam uma prioridade. E depois há os livros que não nos dizem nada mas que, pelo simples facto de merecerem a atenção de alguém com quem, enquanto leitor, nos identificamos, passam a ser alvo da nossa curiosidade (e aqui deixem-me citar “A Incrível Viagem do Faquir Que Ficou Fechado Num Armário do IKEA”, de Romain Puértolas).

Sensível e inspirador, “Acordo Fotográfico” é a prova do quanto a leitura está inculcada na vida das pessoas, independentemente da raça, género, credo, origem ou concepção de vida. No aconchego do lar ou no meio da multidão que se acotovela à espera do metro em hora de ponta, isoladamente ou partilhando a leitura com outros, à roda da Bíblia ou do Alcorão, duma Banda Desenhada ou dum livro para crianças, da “Cozinha Confidencial” de Anthony Bourdain ou de “Os Maias” de Eça de Queirós, o acto de ler é sempre um refúgio e uma viagem interior. Esta exposição é a prova disso, convidando o visitante a viajar pelo interior de si mesmo e a buscar pontos de contacto com todos aqueles que amam os livros e a leitura. Talvez, por isso, esta seja menos uma exposição de fotografia e mais uma mostra de livros, pessoas e lugares. Aqui, as imagens não são um fim em si mesmas, mas antes um meio para atingirem um propósito: o de nos agregar numa comunidade universal irmanada em torno da leitura e que faz de cada leitor uma pessoa mais culta e sensível, uma pessoa melhor!

terça-feira, 24 de julho de 2018

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Postais Ed. Silva Cerveira, Furadouro, princípio séc. XX”


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Postais Ed. Silva Cerveira, Furadouro, princípio do séc. XX”
Biblioteca Municipal de Ovar
Jul > Set 2018


O nº 572 da “Ilustração Portugueza” – edição semanal do jornal “O Século” -, datado de 5 de Fevereiro de 1917 [AQUI], presenteia-nos com um delicioso artigo de A. de C. sobre o bilhete postal, numa altura em que esta forma de comunicação conhecia um verdadeiro “boom”. Nele podemos ler que “quem o inventou – e o bilhete postal não tem mais de cincoenta anos de edade – descobriu, simultaneamente, a correspondencia dos que teem pressa e o flirt postal dos delicados. (…) O bilhete postal é a graça, o sorriso, a banalidade e o perfume, postos ao serviço da saudade, do negocio, da sociabilidade e do amor.”

A história mostra que o postal ilustrado foi criado com propósitos fundamentalmente comunicativos. A primeira proposta de oficialização ocorreu em 1865, no V Congresso Postal em Paris, e em 1869 foi admitida a sua circulação enquanto formato legítimo de difusão de mensagens. Em Portugal, tudo indica que a autorização ocorreu em Outubro de 1877 e o sucesso do postal ilustrado foi quase instantâneo. Sobretudo nas duas primeiras décadas do século XX, o postal ilustrado foi difundido com grande afinco, o que fez deste período uma fase emblemática da história dos postais. O seu baixo custo, a enorme versatilidade temática e o desenvolvimento das técnicas de impressão de imagens fizeram com que também a publicidade reconhecesse o potencial dos postais ilustrados como ferramenta na comunicação de mensagens comerciais.

É nesta linha que se inscrevem as séries postais que, no início do século passado, foram postas a circular um pouco por toda a parte, atingindo na pacata vila de Ovar uma expressão deveras significativa. De inegável valor documental e histórico são as séries com as chancelas “Ramos & Camarão”, “Casa Carvalho”, “Santos Cunha”, “Casa Santos”, “Casa Delmar” ou “Silva Cerveira”, a última das quais apresentando colecções datadas de 1909 e 1913 e que constituem o objecto desta exposição patente na Biblioteca Municipal de Ovar. São quinze reproduções em grande formato que nos mostram um Furadouro muito diferente daquilo que é hoje, mas onde se percebem, a título de referências, alguns edifícios que ainda se encontram de pé e que ajudam o espectador a situar-se.

Os mais estudiosos procurarão ver naquelas imagens a verdadeira dimensão das comunidades piscatórias de outrora e as suas peculiaridades sociais e culturais; os mais nostálgicos escutarão os pregões das peixeiras, o rufar da caixa do Melindra, os gritos “à recaxia” das companhas do Maçaroca ou do Marage, o clamor da multidão com um lanço formidável ou a lengalenga do licitador; os sonhadores verão as proas dos barcos recortadas no horizonte, as artes de pesca a desenharem arabescos no areal, os bois mansos a puxar as redes ou os palheiros a servir de sentinelas ao crepúsculo; os mais atentos identificarão o edifício do Hotel Cerveira, verdadeira “jóia da coroa” do pequeno império de José Luis da Silva Cerveira, natural da Curia, um jovem que aos 20 anos inaugurava no Furadouro este magnífico prédio para a época e que oferecia, complementarmente aos serviços de hotelaria, “um restaurante, sauna, banhos frios e quentes com água do mar, café, uma muito procurada sala de jogos e até uma mercearia”. E que é o grande responsável por este legado que nos convida a recuarmos cem anos e a percebermos um pouco mais da nossa história.

sábado, 19 de maio de 2018

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Retratos de Autores Portugueses"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Retratos de Autores Portugueses”,
de Do Carmo Vieira
Biblioteca Municipal de Ovar
18 Mai > 23 Jun 2018


Espraiamos o olhar por estes “retratos” como quem folheia com desvelo um livro querido, voltando pausadamente cada uma das páginas, as linhas impressas no papel a encontrarem correspondência na tela, nas linhas dos rostos dos retratados, marcas de vida intensa, imensa, plena. Na aparente serenidade da pose, Natália Correia esconde a vontade de gritar bem alto que “a desordem é necessária”, enquanto as rugas de Miguel Torga nos dizem “que belo é ter um amigo!”. E se o olhar de Zeca Afonso clama que “venham mais cinco”, a bondade no olhar de Sophia de Mello Breyner faz-nos sorrir ao lembrar que “mesmo que eu morra o poema encontrará uma praia onde quebrar as suas ondas”. Eugénio de Andrade, esse, diz-nos com veemência que “é urgente o amor”.

No realismo com que Maria do Carmo Vieira retrata cada um destes vultos da cultura portuguesa – pessoas que a acompanharam no seu percurso, que a influenciaram, que a inspiraram – reside a chave para que cada um possa ver para lá da simples composição pictórica. Fazendo uso das palavras da artista, aquilo que se evidencia em cada um destes oito retratos é a tentativa de “restituir à imagem visível, o invisível duma personalidade, num complexo conjunto de sinais como a força de um olhar, a passagem de um tempo que contém vivências, afectos... memórias”. Isso sente-se de forma clara na força com que aqueles olhos – todos os olhos (!) -, fitando-nos, convocam a emoção dum poema guardado num recanto querido da memória, dum concerto para sempre adiado ou dum encontro fugaz numa sala de teatro, as imponentes esculturas da “Yerma” a crescerem do palco e a invadirem os nossos corações.

Refira-se, enfim, que esta é a exposição certa no sítio certo. Locais inclusivos por definição, as Bibliotecas são pólos centralizadores das comunidades, espaços abertos à diversidade, fontes do saber por excelência. Ali se cultivam valores humanos fundamentais, se trocam experiências, se adquirem competências. Nesta homenagem que Maria do Carmo Vieira rende a estes grandes nomes das nossas artes e das letras (que podiam ser mais, que podiam ser outros), há uma homenagem implícita a todas as sedes do conhecimento e do desenvolvimento humano. Aqueles rostos ali retratados envolvem-nos com a força duma presença quase física, com a emoção do seu enorme humanismo, lembrando-nos o quão importante é o saber. Em fundo, a guitarra de Carlos Paredes tudo embala, estreitando público e artista(s) num abraço fraterno, emotivo, caloroso. Um abraço de agradecimento, também, a Maria do Carmo Vieira, pela sua arte e inspiração, pela dádiva da partilha. A ver, absolutamente, até 23 de Junho, na Biblioteca Municipal de Ovar!

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

EXPOSIÇÃO DE CARTOONS: "Ensaios sobre a atualidade"



EXPOSIÇÃO DE CARTOONS: “Ensaios sobre a Atualidade”,
de Vasco Gargalo
Biblioteca Municipal de Ovar
19 Jan > 24 Fev 2018


Simbolismo, excesso, irreverência, ironia e um olhar apurado sobre o mundo. Estes são alguns dos predicados que presidem aos cartoons de Vasco Gargalo, uma parte dos quais pode agora ser apreciada na Biblioteca Municipal de Ovar. Trata-se de um conjunto de 46 obras subordinadas ao tema “Ensaios sobre a Atualidade” e que abarcam os útimos três anos da carreira deste ilustrador e autor de banda desenhada, nascido em Vila Franca de Xira em 1977.

Terá sido o seu cartoon “Alepponica” - que assinala cinco anos de guerra sanguinária na Síria e que colhe a sua inspiração na Guernica, de Pablo Picasso - que o notabilizou, lançando uma carreira que não pára de crescer e que, em 2017, lhe valeu o título de cartoonista do ano, atribuído  pela Cartoon Home Network International. A obra, que exibe Vladimir Putin, Barack Obama e Bashar al-Assad como verdugos dum território devastado pela guerra, ocupa o lugar central da exposição, mas encontra-se extraordinariamente secundada por exemplares que fazem recair o olhar e a reflexão sobre o que se vai passando nos Estados Unidos e na Coreia do Norte, na Catalunha, em França, na Venezuela ou no Reino Unido. Portugal está igualmente presente, com a política e os incêndios na ordem do dia.

Fazer-nos sorrir e, ao mesmo tempo, fazer-nos pensar, aqui residirá, porventura, o grande desígnio do cartoon. Verdadeiro embaixador dessa arte de falar de coisas sérias a brincar, projetando a atualidade com inusitada força e perspicácia mas sempre com um sorriso, assim se assume Vasco Gargalo. Um sorriso que, não poucas vezes, fica preso na garganta, tal a acutilância da mensagem. Percebe-se nas obras expostas muito trabalho e dedicação, muita persistência e perseverança, mas acima de tudo um enorme cuidado e bom gosto. Motivos de sobejo, pois, para visitar esta exposição patente na Biblioteca Municipal de Ovar até ao próximo dia 24 de Fevereiro, admirar o génio de Vasco Gargalo, recordar alguns dos momentos cruciais da nossa história recente e sorrir.

[Para saber mais sobre Vasco Gargalo e a sua obra, visite o blogue do artista em http://ilustragargalo.blogspot.pt/]

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Eterno Retorno"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Eterno Retorno”,
de Rosa Bela Cruz
Biblioteca Municipal de Ovar
24 Nov 2017 > 06 Jan 2018


O olhar é doce, de um azul-água cristalino. Na cabeça, um lenço igualmente azul, como que prolonga o rosto e o torna ainda mais belo. Levemente cerrados, os lábios carmim oferecem-se, aveludados. A pele adivinha-se macia na suave curva do pescoço. Mas logo o desconforto dum ombro coberto por uma blusa às riscas azul-cinza, a remeter para estrelas de seis pontas, comboios que avançam na noite, tempos sombrios, soluções finais. Na penumbra, sobre o lado direito, há grades que ensombram ainda mais o quadro, intrometendo-se entre a figura da mulher e o espectador. Só o olhar trespassa a hedionda barreira, recusando o conformismo. É triste, aquele olhar.

A pintura de Rosa Bela Cruz tem esta capacidade de dar a ver para além das aparências. É assim com este quadro que se acaba de descrever – uma obra que a artista levou recentemente à 2ª Bienal de Arte de Gaia, onde integrou o núcleo “Artistas pela Paz”. Como o é com as restantes obras expostas neste “Eterno Retorno”, num total de 31, de tamanhos e formatos variados, em diferentes suportes, e que podem ser agora vistas na Biblioteca Municipal de Ovar. Uma exposição feita de emoções, onde a tristeza se mescla com a interrogação, a dor com o desafio.

Limitando a representação das suas figuras ao género feminino - “emaranhado de mulheres, onde me procuro”, declamou a poetisa Aurora Gaia no ato de inauguração da exposição - adivinha-se em Rosa Bela Cruz uma tentativa de combater a intersecção das questões de género com outro tipo de discriminações, ainda tão presentes na nossa sociedade. Num permanente jogo de olhares, a artista coloca o espectador no papel de interlocutor, convocando a reflexão e o diálogo. No limite, é uma “pintura de intervenção”, assumindo de forma clara o papel da arte como instrumento de denúncia. Independentemente desta sua dimensão interventiva, “Eterno Retorno” é uma exposição que se sorve com redobrado prazer. Do conjunto exposto emana uma subtil harmonia. Os quadros são duma beleza imensa, sobrelevando a qualidade técnica da artista e o seu enorme bom gosto na forma como tira partido da cor. Uma exposição imperdível e que pode ser vista até ao próximo dia 06 de Janeiro.