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domingo, 19 de julho de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão # 107 - Festa dos Premiados



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #107 
Festa dos Premiados 2025
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
17 Jul 2026 | sex | 21:30


Há um ano escrevia, neste mesmo espaço, sobre a Festa dos Premiados do Shortcutz Ovar, sublinhando a vitalidade de um projecto que, sessão após sessão, tem vindo a conquistar um público cada vez mais numeroso e fiel. Na noite da passada sexta-feira, a Escola de Artes e Ofícios voltou a encher-se para celebrar o melhor da 9.ª temporada, encerrando mais um ciclo de afirmação daquela que é, muito justamente, uma das maiores referências nacionais dedicadas ao cinema em versão curta que se faz entre nós. Ao longo do último ano passaram pelo Shortcutz Ovar vinte e quatro filmes, entre os quais sete primeiras obras e cinco filmes de imagem animada, numa programação marcada pela forte presença do documentário e por um número assinalável de comédias, sempre escolhidas com o rigor e a sensibilidade a que Tiago Alves e Ana Castro já nos habituaram. Num tempo em que ver cinema em comunidade se tornou quase um acto de resistência, o Shortcutz Ovar continua a oferecer um raro espaço de encontro entre realizadores, espectadores e filmes, contribuindo para formar um público atento e exigente. Muito desse mérito pertence também ao Município de Ovar e aos responsáveis pela área da Cultura, cujo apoio consistente tem permitido consolidar um projecto singular que, temporada após temporada, continua a afirmar o cinema português como património vivo, próximo e necessário.

Talvez não tenha sido por acaso que o palmarés deste ano tenha desenhado uma inesperada geografia da casa e da memória. Escolha do público, Maria, Maria, de Benjamim Quadros Costa, levou-nos até Belgais para descobrir não apenas a pianista Maria João Pires, mas também a intimidade de um lugar onde criação artística se confunde com afecto, heranças e liberdade, fazendo do diálogo entre neto e avó o verdadeiro coração do filme. Já Uma Mãe Vai à Praia, distinguido como Melhor Primeira Obra, confirmou Pedro Hasrouny como um realizador de enorme sensibilidade, desmontando com humor subtil e grande inteligência os preconceitos que recaiem sobre a maternidade, o corpo e os modelos familiares, num exercício cinematográfico onde Cláudia Jardim oferece uma interpretação de extraordinária contenção. Também T-Zero, de Vicente Niró, vencedor na categoria de Animação, encontrou na casa o centro da sua inquietação, transformando a crise da habitação numa poderosa alegoria sobre a gentrificação, a turistificação e a perda de identidade das cidades, lembrando-nos que a especulação imobiliária não destrói apenas edifícios: desfaz comunidades, memórias e modos de vida.

Se T-Zero denuncia uma cidade que expulsa quem nela sempre viveu, Amanhã Não Dão Chuva, distinguido com uma Menção Especial, recolhe os fragmentos de uma memória que lentamente se dissolve. Com um delicado trabalho de desenho a carvão, Maria Trigo Teixeira acompanha o percurso de uma mulher consumida pela demência, fazendo do próprio desenho uma metáfora das recordações que se esbatem sem nunca desaparecerem por completo. Num registo radicalmente distinto, mas igualmente marcado pela inquietação, Atom & Void, de Gonçalo Almeida, recebeu o Prémio Especial do Júri pela ousadia da sua proposta estética. Bastam nove minutos para transformar uma aranha na silenciosa protagonista de uma perturbadora fábula pós-apocalíptica, onde fotografia, desenho sonoro e luz convocam um universo entre o terror e a ficção científica, devolvendo ao espectador uma reflexão profundamente contemporânea sobre a fragilidade da condição humana e os limites de um progresso que insiste em ignorar as suas próprias consequências. A distinção unânime atribuída pelo júri reconheceu justamente uma visão artística invulgar, reveladora de um cineasta disposto a explorar caminhos pouco percorridos pelo cinema português.

O momento maior da noite chegaria com a atribuição do Prémio de Melhor Curta a Tão Pequeninas, Tinham o Ar de Serem Já Crescidas, de Tânia Dinis, talvez o filme que melhor sintetiza o espírito desta temporada. Fortemente ancorada no documentário, a realizadora devolve voz às mulheres que, ainda meninas, deixaram as aldeias do Norte para servir nas casas da cidade, resgatando uma memória colectiva demasiado tempo remetida ao silêncio. Entre fotografias, testemunhos e arquivos, revelam-se vidas de trabalho precoce, sacrifício e invisibilidade, mas também de uma extraordinária resistência e dignidade. O filme recusa olhar estas mulheres como figuras do passado; antes as aproxima do presente, lembrando que a exploração, o preconceito e a desigualdade apenas mudaram de rosto. Talvez por isso tenha reunido o consenso do júri, ao qual o público juntou o seu forte e prolongado aplauso. Mais do que distinguir os melhores filmes da temporada, a Festa dos Premiados voltou a demonstrar que a curta-metragem portuguesa atravessa um dos períodos mais criativos da sua história recente. O futuro de que tantas vezes se fala está aí e continua a encontrar, na última quinta-feira de cada mês, uma casa de portas abertas em Ovar. Após a pausa estival, lá estaremos de novo em Setembro.

domingo, 28 de junho de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #106



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #106
Com | Margarida Paias, Marcelo Pereira e Nevena Desivojević
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
25 Jun 2026 | qui | 21:30


Com a energia e a boa disposição que o caracterizam, o Shortcutz Ovar entrou na pausa estival da melhor forma, celebrando o cinema português em formato curto com a presença de três realizadores estreantes no certame. Explorando o imaginário, as emoções e as experiências associadas aos meses mais quentes do ano, Nevena Desivojević, Marcelo Pereira e Margarida Paias fizeram do Verão o verdadeiro protagonista da sessão, contaminando o ecrã e o espírito de um público atento e participativo que voltou a encher a acolhedora sala expande da Escola de Artes e Ofícios. Mais do que uma simples sessão competitiva, a noite transformou-se num espaço de encontro entre diferentes olhares sobre a memória, a identidade e a infância, convocando emoções e experiências partilhadas por todos. O entusiasmo do público, patente ao longo da sessão, confirmou, uma vez mais, a relevância que o Shortcutz Ovar assume no panorama cultural local, afirmando-se como um espaço privilegiado de diálogo entre criadores e espectadores e demonstrando a vitalidade de uma comunidade que continua a encontrar no cinema um pretexto para o convívio, a reflexão e a troca de ideias.

A abrir a sessão, “Dias de Verão” revelou a ambição de Nevena Desivojević em captar uma condição emocional e preservá-la para memória futura. O reencontro de duas irmãs, separadas durante anos, serve de ponto de partida para uma delicada reflexão sobre a forma como a distância transforma as relações e faz do passado o único território verdadeiramente comum. Filmado na Sérvia a partir da experiência pessoal da realizadora, o filme assume-se como uma obra feita longe de casa, mas extraordinariamente próxima do coração. A água percorre toda a narrativa como espaço simbólico onde memória, desejo e ausência se confundem. Discreta, a câmara aproxima cada plano de uma recordação em constante reconstrução, reforçando a natureza fragmentária da memória. Influenciada pelo cinema de Alexandr Sokurov - embora se percebam, entre outras, afinidades com a obra de Manoel de Oliveira, como uma espectadora, muito adequadamente, referiu -, Nevena Desivojević trabalha o tempo, o silêncio e a palavra com notável sensibilidade, construindo um filme subtil e contemplativo, onde aquilo que permanece por dizer adquire um peso que palavra alguma consegue substituir.

Se “Dias de Verão” assentou num registo intimista e contemplativo, “A Emancipação de Mimi”, primeira curta-metragem de Marcelo Pereira fora do contexto académico, imprimiu uma mudança de ritmo e conduziu a sessão para o território da comédia. Inteligente, mordaz e profundamente observadora, a obra parte das memórias de infância do realizador - antigo aluno de um colégio católico e, periodicamente, vendedor de calendários religiosos de porta em porta - para construir uma reflexão lúcida sobre os mecanismos da idolatria. Longe de ajustar contas com a educação religiosa que recebeu, Marcelo Pereira prefere olhar, com humor e inteligência, as fronteiras entre o sagrado e o profano, sugerindo que a devoção religiosa e o culto das celebridades respondem, afinal, a impulsos em tudo semelhantes. A irreverência da proposta motivou uma divertida provocação do moderador Tiago Alves - "Que heresia é esta?" -, sintetizando na perfeição o espírito do filme. Eleito pelo público como o melhor filme da sessão, “A Emancipação de Mimi” coloca a comédia no centro da narrativa - um género subestimado no panorama nacional - e confirma Marcelo Pereira como uma voz a ter em conta no seio da novíssima geração do cinema português.

A encerrar a noite, “Rui Carlos” mergulhou os espectadores nas memórias de infância do pai da realizadora e, atrevo-me a dizer, nas suas próprias memórias. Primeira curta-metragem de Margarida Paias, o filme constrói um retrato delicado e profundamente evocativo dos verões dos anos 80, quando a rua era território de descoberta, liberdade e cumplicidade. Entre jogos de futebol e pequenas aventuras quotidianas, recorda-nos que, apesar de as crianças de ontem e de hoje partilharem a mesma curiosidade perante o mundo, os contextos em que crescem moldam experiências profundamente distintas. A aparente simplicidade da narrativa encerra uma subtil reflexão sobre o instante em que a infância se confronta, pela primeira vez, com o peso da responsabilidade, simbolizado pela bola furada que deixa o Carlinhos sozinho perante um problema que já não pode ser resolvido apenas com a ajuda dos amigos. O argumento, cuidadosamente construído, confere autenticidade ao episódio vivido por Rui Carlos e reforça a dimensão afectiva da obra, assumida como uma homenagem ao pai da realizadora e, por extensão, a todos aqueles que prolongam a memória familiar através das histórias que contam aos filhos. Imaginativo, emotivo, terno e muito divertido, “Rui Carlos” foi o fecho perfeito de uma noite que abraçou, com nostalgia e doçura, as memórias de um tempo mais puro e mais livre.

domingo, 31 de maio de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #105



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #105
Com | Marta Reis Andrade, Joãozinho da Costa, Diogo Salgado
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
28 Mai 2026 | qui | 21:30


Concluída que está a primeira metade da décima temporada, o Shortcutz Ovar continua a afirmar-se como um espaço privilegiado de descoberta do melhor cinema português em formato curto, seja ele de ficção ou documental, de imagem animada ou ancorado num território híbrido de nem sempre fácil catalogação. Para um público fiel e cúmplice, a última quinta-feira do mês reveste-se de um ritual de prazer cinéfilo que passa por reservar a noite, atravessar a cidade, deixar-se abraçar pelo aconchego da Escola de Artes e Ofícios e, entre conversas e risos, reforçar essa proximidade única que liga o ecrã à plateia. Curiosamente, o sentimento de deslocação, pertença e abrigo que move os espectadores do Shortcutz Ovar, encontrou nos filmes exibidos na passada quinta-feira linhas paralelas. “Cão Sozinho”, “Sabura” e “Vultosos Cumes”, as três curtas exibidas, tiveram a uni-las os encontros e reencontros, encruzilhadas e lugares, identidades e afectos, a deriva das personagens em busca de ser, repousar ou sonhar com um lugar a que possam chamar casa.

“Cão Sozinho”, de Marta Reis Andrade, abriu a sessão em tom de fábula, oferecendo uma narrativa intimista, marcada pela perda e o abandono. A história real de um cão deixado sozinho em casa, cruza-se com a viuvez do avô Adriano e com o regresso da realizadora de Londres, cidade onde experimentou uma solidão funda. A emotiva conversa que Marta Reis Andrade manteve com o público do Shortcutz Ovar foi ao encontro do antigo sonho de “ser personagem de desenho animado”, desejo que ganha corpo numa obra profundamente autobiográfica e emocionalmente desarmante, ancorada na memória, no medo e na necessidade urgente de apego. A referência a Andrei Tarkovski - “só vale a pena fazermos um filme se tivermos algo a acrescentar à vida” - surge como verdadeira declaração de princípios para uma curta-metragem que encontra no cuidar uma forma de resistência ao sofrimento. De solidão nos fala “Cão Sozinho”, mas também da possibilidade de sarar as feridas do mundo através do carinho, da proximidade e do gesto simples de um abraço. Uma homenagem comovente à velhice, à fragilidade e à importância de continuarmos a amar antes da inevitabilidade.

Depois de “Mistida”, em 2023, Falcão Nhaga regressou à competição do Shortcutz Ovar com “Sabura”, a história de amor de um casal guineense transformada em retrato maior das deslocações, pertenças e fracturas do ser migrante hoje. Tony e Cadija são esse corpo em trânsito que segue “de mala às costas à procura dos sonhos”, mas que encontra pelo caminho precariedade, invisibilidade e hostilidade. Falcão Nhaga filma rostos, silêncios e gestos com uma delicadeza rara, fazendo da cidade um espaço de encontros improváveis, onde convivem diferenças de género, religião, condição social e identidade cultural. A referência à mutilação genital feminina ou um ambiente cada vez mais hostil, alimentado pela ascensão da direita ultra-conservadora e da extrema-direita populista, são sombras que atravessam o filme. Ao mesmo tempo, o realizador filma com enorme sensibilidade uma Lisboa plural, mestiça, periférica e profundamente humana. Nesse gesto reside a força simbólica da obra, a insistência de criadores e actores luso-africanos em desbravar caminho e reclamar visibilidade para histórias que sempre fizeram parte da cidade, mas que raramente ocupam o centro da narrativa.

A sessão encerrou com “Vultosos Cumes”, a mais recente curta-metragem de Diogo Salgado. Cruzando o realismo social com uma dimensão quase fantasmática da memória, o realizador parte de uma experiência profundamente autobiográfica, marcada pela emigração e pela ausência masculina no seio familiar, para vincar a ideia de distância, seja ela física, afectiva ou imagética. O filme acompanha um jovem serralheiro na sua primeira viagem para França, integrando um universo laboral duro, cinzento e mecanizado. Há em “Vultosos Cumes” uma tentativa deliberadamente artificiosa de transformar a distância em linguagem cinematográfica, quer através da luz irreal e das sequências filmadas em estúdio, quer pela construção de um espaço suspenso entre o concreto e o imaginado, um verdadeiro “lugar-não lugar”, simultaneamente familiar e abstracto. O olhar inaugural dos mais novos sobre os Alpes, o encantamento pela beleza agreste e nevada da paisagem, contrasta com a dureza silenciosa do trabalho e da condição emigrante, incapaz ainda de reconhecer o peso dessa realidade. Um poema em forma de filme, feito de sonho, bilhete postal e fascínio, mas também de ausência, poeira e perda da inocência.

domingo, 3 de maio de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #104



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #104
Com | Catarina Romano, Jorge Quintela, Francisco Mira Godinho
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
30 Abr 2026 | qui | 21:30


A sessão #104 do Shortcutz Ovar, a terceira da décima temporada, confirmou o fôlego e a pertinência de um projecto que se afirma como ponto de encontro privilegiado entre cinema e comunidade. Ainda o público se acomodava e já os acordes de “Grândola, Vila Morena” ecoavam na sala, prontamente acompanhados por vozes que, de forma espontânea, entoaram este verdadeiro hino nacional. Cravo rubro na lapela, Tiago Alves sublinhou a permanência viva desse símbolo de Abril, lembrando que liberdade e democracia exigem um cuidar contínuo. Com sala esgotada - e a presença de vários estreantes -, voltou a destacar-se um público atento, interventivo e generoso, que contribuiu activamente para o debate. As propostas juntaram o documental, a ficção e a imagem animada, com a noite a revelar-se coesa na diversidade de géneros, ideias e vontades e a ver-se atravessada por uma forte carga simbólica e política. No seu conjunto, os três filmes propuseram uma reflexão crítica sobre formas contemporâneas de alienação e resistência, convocando memória histórica, identidade colectiva e práticas culturais como territórios em conflito, e reinventando e persistindo nessa luta contra o apagamento e a redefinição da história que nos querem impor.

“Um Dia, Depois Outro”, de Catarina Romano, abriu a sessão sob o signo das palavra de Abril - “O Povo Unido Jamais Será Vencido” - para, de imediato, as colocar em tensão com um presente marcado pela automação, pela inteligência artificial, pela vigilância e controlo permanentes e por uma sensação difusa de colapso iminente. Trata-se de um filme enigmático, com uma forte carga política, cuja estrutura fragmentária parece nascer da urgência da dúvida e da denúncia. A narrativa de um operário que perde o passado e decide morrer funciona como alegoria de uma humanidade aprisionada entre o excesso de informação e a ilusão de liberdade. A realizadora recusa facilitar a leitura, exigindo do espectador um posicionamento activo, ainda que essa opção torne o objecto por vezes hermético. Contudo, é precisamente nessa fricção que o filme encontra a sua força, ampliada por uma animação de notável riqueza plástica, onde se pressentem ecos de Malevich, Hopper, Chaplin, Oscar Wilde ou George Orwell. No centro, permanece uma inquietação profunda: que espaço resta para a utopia num mundo saturado de controlo, propaganda e desigualdade?

Já “Stop – Salas de Ensaio Para um Materialismo Histórico”, de Jorge Quintela, propõe um mergulho documental na história e nas metamorfoses do mítico Centro Comercial Stop, na Rua do Heroísmo, no Porto, hoje símbolo da resistência cultural face à pressão uniformizadora do turismo de massas. Partindo de uma relação afectiva com o espaço - lugar de memórias de infância e de prática artística nas suas salas de ensaio -, o realizador constrói um objecto híbrido, na linha do foto-filme, assente em imagens de arquivo que ganham nova vida através de uma dramaturgia sonora particularmente expressiva. Inspirado pelo pensamento de Walter Benjamin, o filme lê o Centro Comercial Stop como ruína e como possibilidade, espaço onde diferentes temporalidades se sobrepõem e onde a cultura independente resiste às lógicas de mercantilização. Mais do que um exercício nostálgico, trata-se de um gesto político que denuncia processos de transformação urbana e social, afirmando o valor dos lugares enquanto territórios de criação e de comunidade.

A encerrar a sessão, “Antígona ou a História de Sara Benoliel”, primeira obra de Francisco Mira Godinho, mostrou-se com uma intensidade emocional difícil de ignorar. Inspirado pela tragédia clássica de Sófocles, o filme acompanha o percurso de Sara na tentativa de garantir um funeral digno ao irmão, vítima da pandemia de Covid-19, respeitando as tradições da cultura cabo-verdiana num contexto que tudo parecia interditar. A câmara fixa-se no rosto e nos gestos desta Antígona contemporânea, amplificando a dor, mas também a determinação que a move. Filmado em territórios como a Cova da Moura ou o extinto Bairro da Jamaica, o filme capta a verdade de comunidades ostracizadas, discriminadas e perseguidas, transformando o luto num acto colectivo de resistência e afirmação. O trabalho com não actores revela uma delicadeza rara, sustentada por uma ética de proximidade e partilha. Mais do que um retrato da pandemia, esta “Antígona” é uma ode à resiliência e à dignidade humana, que anuncia um olhar autoral promissor e que, pela sua autenticidade, dificilmente se apagará da memória de quem o viu. Por tudo isto - e o mais que podemos imaginar -, o filme caiu nas boas graças do público e viria a ser o mais votado da sessão.

terça-feira, 28 de abril de 2026

CONCERTO: Diogo Zambujo



CONCERTO: Diogo Zambujo
Com | Diogo Zambujo (guitarra, teclados, voz), Afonso Albuquerque (guitarra), Rogério Pitomba (bateria)
Escola de Artes e Ofícios
24 Abr 2026 | sex | 21:30


O primeiro concerto de apresentação de “Vir a Ser”, trabalho discográfico de Diogo Zambujo com estreia prevista “para depois do Verão”, assumiu-se, desde os primeiros instantes, como um exercício de afirmação estética e identitária. Perante uma plateia curiosa e atenta, o jovem cantautor apresentou um alinhamento que, respeitando a ordem prevista do álbum, funcionou quase como uma escuta integral antecipada, revelando uma obra em fase de consolidação, mas que mostra já uma forte coesão estilística e artística. Tema de abertura do concerto, “Amor Sem Nome” estabeleceu de imediato o tom confessional e melancólico que atravessa boa parte do repertório, com versos que exploram a erosão afectiva e a fragilidade das relações. Há, na escrita de Diogo Zambujo, uma economia de meios que privilegia a palavra de forte intenção poética, mas sem ornamento excessivo, próxima de um diário íntimo. Musicalmente, a matriz minimalista revela-se nos arranjos depurados, centrados na voz e na harmonia, abrindo espaço à respiração das canções. Esta contenção funciona, no caso de Diogo Zambujo, como uma procura consciente de autenticidade num panorama frequentemente saturado de artifício.

A inevitável comparação com António Zambujo surge não apenas pela filiação, mas pela proximidade tímbrica e pela inclinação para uma certa dolência rítmica de matriz brasileira. Contudo, seria redutor encerrar Diogo Zambujo nesse espelho genealógico. Se o pai habita um território já consolidado entre o fado, a música ligeira e a bossa nova, o filho parece procurar um espaço mais fragmentário, onde o rock das primeiras escutas - dos Beatles aos Rolling Stones - ainda ecoa de forma difusa, sobretudo na construção melódica e na atitude interpretativa. Temas como “Pisa a Poça” introduzem uma dimensão quase programática, com versos que apelam ao risco, ao erro e à descoberta, num registo que contrasta com a introspecção mais sombria de outras canções. Já “O Mundo Sou Eu” destaca-se como um dos momentos mais conseguidos do concerto, não só pela força do refrão, mas pela capacidade de sintetizar uma inquietação geracional, entre o desencanto e a auto-descoberta. Uma palavra para a forma contida e cúmplice como Afonso Albuquerque e Rogério Pitomba assumiram o suporte musical, abrindo um amplo espaço para que Diogo Zambujo pudesse brilhar.

Em vésperas do Dia da Liberdade, foi já no “encore” que o concerto encontrou o seu momento de maior simbolismo, com Diogo Zambujo a assumir uma escolha particularmente significativa ao convocar o universo de José Afonso. A interpretação de “Cobradores de Impostos”, numa ponte indirecta com a releitura contemporânea de Allen Halloween, e a “Canção do Desterro” a fechar o concerto, levaram a que o músico inscrevesse o seu nome numa linhagem de intervenção que transcende o mero gesto revivalista. Mais do que homenagem, o momento representou um acto de continuidade, reactivando a memória colectiva através de uma voz nova, em claro processo de definição, mas já consciente do peso e da responsabilidade do legado que convoca. A recepção do público, marcada por um silêncio atento seguido de aplausos prolongados, confirmou a eficácia desse gesto. Num tempo em que a canção tende a refugiar-se no individualismo, a evocação de Zeca Afonso surge como um sinal de que a música pode - e, sem dúvida, deve - ser também lugar de resistência e de liberdade, aberto às inquietações de todos e, em particular, das novas gerações.

domingo, 29 de março de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #103



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #103
Com | Carlos Lobo, Rodrigo Lavorato e Jo Castro
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
26 Mar 2026 | qui | 21:30


As noites Shortcutz Ovar são momentos incomparáveis de festa e celebração do cinema português em versão curta. À qualidade da programação, junta-se a presença de um público entusiasta e conhecedor, o que faz da Escola de Artes e Ofícios o ponto de encontro ideal para quem aprecia e valoriza as pequenas pérolas que, mês após mês, vão sendo dispensadas na tela. Assim foi, uma vez mais, na noite da passada quinta-feira, numa sessão que contou com três filmes de ficção verdadeiramente desafiantes no seu pendor de inquietação e provocação. Ainda que diversas, as propostas convergiram numa mesma atenção ao íntimo como espaço político e sensível. Explorando territórios de transição - corpos, faixas etárias, geografias -, os três filmes mostraram que a identidade não é um dado adquirido, antes algo construído a partir do contacto com o outro, com o espaço e com o próprio desejo. No gesto de uma certa errância, de permanência em trânsito, percebeu-se de forma clara o quanto as narrativas viveram daquilo que as uniu, muito mais do que o que tiveram a separá-las. Entre a fusão e o deslocamento, entre a distância e a descoberta, a sessão foi ao encontro do público, instigando-o a encontrar respostas para uma mesma inquietação: como habitar o mundo, o corpo e o outro, quando nada parece definitivo?

Depois de aqui ter estado em Setembro de 2023 a apresentar “Aos Dezasseis”, o seu filme de estreia, Carlos Lobo abriu a sessão com “Ofélia”, insistindo numa certa ideia poética de juventude e na necessidade de percepção do “eu” como condição de sobrevivência. O realizador mostrou a sua atracção pela contemplação e o silêncio, estabelecendo o filme no instável território do desejo, aqui a emergir como força motriz, mas também como campo de tensão, risco e transformação. De mera figurante em “Aos Dezasseis”, a figura de proa neste “Ofélia”, Ofélia Oliveira é o espelho de uma narrativa inspirada na obra do artista visual Ovartaci (1894 – 1985) e escrita com as palavras do amor e da liberdade: liberdade a sério, “liberdade de mudar e decidir”. Uma semana após a aprovação de três projectos-lei para alterar a lei da identidade de género - um marcado retrocesso social e civilizacional que mostra o quanto esta nova direita odeia os corpos livres, porquanto odeia a liberdade como um todo -, “Ofélia” veio provar a sua enorme delicadeza no que tem de belo e livre, mas também a sua actualidade e pertinência na chamada de atenção para os riscos que, de forma crescente, se erguem como uma ameaça à democracia e aos valores de Abril. O filme foi eleito pelo público como o melhor da sessão.

Se “Ofélia” exibiu uma dimensão política apreciável, “Quem se Move”, uma primeira obra da brasileira Stephanie Ricci, ergueu-a de forma explícita, quase contundente. Nesta história de uma imigrante brasileira em Lisboa que “enfrenta a difícil escolha entre permanecer ilegal numa cidade que se torna cada vez mais estranha ou retornar ao lar do qual fugiu”, percebemos a ligação directa entre a repressão do corpo e a ilegalização dos imigrantes, enquanto componentes articulados de uma cartilha muito mais vasta, apostada no cercear dos direitos, liberdades e garantias que, cada vez mais, são só para alguns. Aqui, o desejo desloca-se. Deixa de se dirigir apenas ao outro para se expandir numa procura mais difusa: de pertença, de estabilidade, de lugar. Ao longo de uma noite errante, a protagonista move-se entre espaços, línguas e afectos, confrontando-se com a impossibilidade de fixação. A intimidade surge fragmentada, assente em encontros breves que tentam enganar essa instabilidade, enquanto o corpo carrega o peso da condição migrante e provisória, questionando-se sobre aquilo que trás consigo e o que foi obrigado a deixar para trás. Um filme, também ele, essencial, num momento particularmente difícil para as comunidades migrantes, vítimas de barreiras estruturais que agridem e de práticas intolerantes que excluem e desumanizam.

Dissolvente, intensamente físico e exploratório, “Crua + Porosa”, um filme de Ágata de Pinho, fechou a sessão e, paradoxalmente, abriu-a em carne viva num “after-session” que prolongou as sensações de uma invulgar experiência de cinema. Prémio para Melhor Primeira Obra na 7.ª temporada do Shortcutz Ovar, “Azul”, o anterior trabalho da realizadora, encontra eco neste “Crua + Porosa”, espécie de “segundo tomo de uma história complexa”, um filme que começa onde “Azul” termina. Intenso, excessivo, nele o “work in progress” é matéria e desejo. Ágata de Pinho e Jo Castro escrevem o filme na pele, nos fluidos, nos gestos, fazendo do exercício interpretativo uma experiência sensorial capaz de dissolver as fronteiras entre o ser e o estar, entre um corpo e outro corpo. Em “Crua + Porosa”, o sentir precede o pensar, a imagem torna-se quase táctil. Amar é desafiar os próprios limites, é substituir o ardor por uma ideia de fusão. Performativo, orgânico, visceral, o filme escapa a todas as formas de classificação. Do fascínio da cor à beleza dos enquadramentos, dos códigos implícitos a uma estética provocadora, das referências ao sempiterno David Cronenberg às visitas ao universo de Nagisa Oshima, mas também de Julia Ducournau, “Crua + Porosa” não se explica. Oferece-se apenas, num convite a que o habitemos. Um momento extraordinário de cinema, a provar que vale a pena correr riscos.

sábado, 14 de março de 2026

CONCERTO: “O Lado Vazio do Sofá” | Rodrigo Alarcon



CONCERTO: “O Lado Vazio do Sofá”,
Rodrigo Alarcon
Escola de Artes e Ofícios
12 Mar 2026 | qui | 21:30


Na noite desta quinta-feira, o espaço acolhedor da Escola de Artes e Ofícios voltou a abrir as portas a Rodrigo Alarcon, dois anos depois da sua primeira passagem por um palco que parece feito à medida das suas canções. Integrado na digressão que celebra uma década de “O Lado Vazio do Sofá”, o concerto foi como que um reencontro, o regresso a uma casa onde já se foi feliz. Acima de tudo, o momento resultou numa conversa demorada entre cantor e público, daquelas que se fazem com voz sussurrada e de coração aberto. Desde o primeiro instante percebeu-se que a sala estava habitada por ouvintes cúmplices, alguns deles conhecedores atentos da obra do compositor paulista, que acompanharam versos inteiros com a delicadeza de quem sabe que há letras que nasceram para serem cantadas. Entre histórias simples, pequenas confissões e momentos de humor desarmante, Alarcon desenhou a paisagem emocional que faz dele um dos nomes mais singulares da nova geração da música popular brasileira. Simultaneamente frágil e firme, a sua voz foi atravessando a sala em tons delicados e subtis, reacendendo memórias colectivas e mostrando a relação rara de um artista que não apenas canta para quem o escuta, mas parece cantar com quem o escuta.

O alinhamento do concerto desenhou uma verdadeira narrativa sentimental, como se cada canção fosse um capítulo de um romance discreto. Tudo começou com a doçura literária de “Amor Acidente”, o amor como um acontecimento inesperado à volta do qual se junta gente curiosa, a metáfora perfeita para os encontros que mudam tantas vidas. Seguiram-se momentos de despedida e recomeço, como em “O Dia Seguinte”, a rotina doméstica transformada em despedida silenciosa, ou na ternura inquieta de “Frágil Coração”. A narrativa avançou entre feridas abertas e pequenas epifanias: “Onde Mora Deus” transformou um olhar num lugar sagrado, enquanto “Dama da Noite” fez florescer um amor súbito, desses que nascem numa escada e permanecem no peito. Pelo caminho surgiram confissões de erro e saudade — “Você Nunca Prometeu”, “15B” — como páginas arrancadas de um diário íntimo. O concerto tornou-se assim uma viagem pelas geografias do afecto, das paixões repentinas, das despedidas mal resolvidas e das lembranças que regressam sem aviso. O público revelou a sua cumplicidade em cada uma dessas estações emocionais, reconhecendo nas histórias cantadas fragmentos das suas próprias memórias.

O que torna Rodrigo Alarcon tão particular reside justamente nessa capacidade de transformar pequenas fragilidades em poesia quotidiana. As suas canções habitam o território delicado onde o humor, a melancolia e a ternura se encontram sem pedir licença. Em palco, essa escrita ganha corpo através de uma interpretação desarmante: a voz nunca se impõe, antes se oferece, como quem partilha uma confidência. Em momentos como “Menino Amor”, “O Óbvio Sobre o Amor” ou “Passageiro”, percebe-se que o compositor constrói as suas histórias com matéria profundamente humana, feita de dúvidas, saudades e pequenos desastres sentimentais que todos reconhecemos. Há também um cuidado evidente com as composições musicais, nas quais a simplicidade nunca é descuido, antes escolha estética, cada melodia uma clareira a abrir-se para que a palavra respire. Talvez seja essa a chave do seu encanto junto do público: Rodrigo Alarcon escreve como quem observa o mundo pela janela de casa, atento aos gestos mínimos da vida. No final, quando regressou inevitavelmente a “O Lado Vazio do Sofá”, a sala parecia suspensa entre nostalgia e gratidão. E percebeu-se então que certas canções não são apenas de quem as compôs. Elas pertencem, também, àqueles que, numa noite tranquila em Ovar, as quis devolver na emoção da voz.

quinta-feira, 5 de março de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #102



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #102
Com | Alice Eça Guimarães, André Silva Santos, Nuno Amorim, Patrícia Sobreiro, Rodrigo Alves
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
26 Fev 2026 | qui | 21:30


Franqueadas as portas da décima temporada, o Shortcutz Ovar continua a afirmar-se como um verdadeiro ponto de encontro da comunidade cinéfila vareira e de todos aqueles que encontram na sétima arte um território de descoberta e liberdade criativa. Lançado em 2017, o projecto encontrou em Ovar um espaço fértil para crescer, consolidando-se ao longo da última década como uma montra privilegiada do cinema português contemporâneo. Sessão após sessão, o certame tem dado palco a uma impressionante diversidade de propostas - do foto-filme ao documentário, da imagem animada à ficção pura e dura, sem esquecer as novas linguagens que cruzam cinema e inteligência artificial -, reflectindo a vitalidade e a constante reinvenção do formato curto. Ao longo do tempo, o Shortcutz Ovar soube catalisar as atenções e fidelizar um público cada vez mais atento e participativo, que não abdica da experiência colectiva da sala escura e que reconhece, com entusiasmo, o talento que cruza o ecrã. Celebrar esta nova temporada é, por isso, celebrar uma história de resistência cultural, de afirmação do cinema feito entre nós e de confiança num futuro onde as curtas continuam a ter, em Ovar, casa, voz e plateia. Assim foi, uma vez mais, nesta primeira sessão do ano, numa Escola de Artes e Ofícios a rebentar pelas costuras, tornada espaço de partilha e debate propícios à construção de uma relação de proximidade rara entre criadores e público.

Contrariando a lógica dominante de reservar à imagem animada o arranque da temporada, o Shortcutz Ovar abriu este novo ano com a quietude inquieta de “J’existe - Porto”, um quase foto-filme documental de Patrícia Sobreiro. Em pouco mais de dez minutos, a realizadora compõe um testemunho biográfico e intimista que nasce das suas viagens à Invicta e que transforma a cidade em matéria sensível. Sob o seu olhar, o Porto surge como casa e espelho interior, território afectivo onde cada rua parece guardar um vestígio de memória e cada rosto convocado teima em resistir ao apagamento. Num gesto assumidamente artesanal, de recusa do ruído da indústria e da voragem da produção formatada, o filme constrói-se na fricção entre a contemplação e a denúncia, entre a beleza plástica das imagens e a inquietação que as atravessa. Há enquadramentos que evocam a luz difusa de Turner, como se o casario e o rio pairassem suspensos numa névoa romântica. É sob essa superfície diáfana que pesa a consciência de uma cidade ameaçada pela gentrificação e pela turistificação, fenómenos que diluem identidades e empurram para as margens figuras genuínas que ajudam a compor o rosto da cidade e a representam. O que Patrícia Sobreiro nos oferece com esta sua curta é um acto de resistência delicada, um sussurro visual que reivindica o direito de olhar e de se demorar num mundo demasiado apressado. O direito de existir.

Amplamente aguardado - ou não fosse Alice Eça Guimarães um nome consagrado da animação portuguesa e uma realizadora querida do público do Shortcutz Ovar -, “Porque Hoje É Sábado” não frustrou as expectativas. O público distinguiu-o como melhor filme da sessão, o que se percebe não só pela verdade que se derrama da abordagem a um tema pleno de actualidade, como pela qualidade e colorido da animação, nalguns quadros a fazer lembrar um enigma de Escher. Aqui, o sábado - palavra roubada ao “Dia da Criação”, de Vinicius de Moraes - despe a ideia de repouso para voltar a ser rotina. A realizadora constrói um filme que é como um grito contido, um eco que vibra nas paredes da casa e no interior da protagonista, cercada por tarefas que se repetem com a obstinação de um castigo mitológico. Há, na coreografia exaustiva do quotidiano, qualquer coisa de sísifo moderno, o limpo que volta a sujar-se, o dia que recomeça sem que o anterior tenha nunca chegado ao fim. Vibrante e inquieta, a animação traduz a vertigem da chamada “carga mental”, esse trabalho invisível que organiza o mundo enquanto consome quem o sustenta. Entre filhos, refeições e listas intermináveis, a mulher tenta oferecer a si própria a dádiva de um tempo que se fragmenta, lhe escorre das mãos e nunca é seu. “Porque Hoje É Sábado” transforma essa frustração num retrato sensível da sobrecarga que ainda marca tantas mulheres, contrariando a ideia de uma igualdade tão apregoada, mas ainda distante da realidade.

A finalizar a sessão, “Sol Menor”, primeira obra de ficção de André Silva Santos, desenha-se como uma elegia contida às paisagens urbanas de São João da Madeira, um município que carrega em si as marcas de uma pós-industrialização silenciosa, feita de fábricas desactivadas e memórias que ecoam como notas longínquas. É Primavera, mas a estação não irrompe; insinua-se apenas numa sonata tocada em surdina, numa carta por abrir, nos vasos com plantas que respiram sobre os parapeitos das janelas. A câmara acompanha a progressão lenta do “Vouguinha”, como se o tempo tivesse aprendido a caminhar sobre carris gastos. Samuel, 38 anos, professor de flauta, move-se entre o sopro que ensina e o silêncio que o habita, repetindo rituais de luto pela falta de Luísa, companheira de música e de vida. Cada gesto é um compasso suspenso; cada parte do dia, uma pauta onde a ausência escreve a sua própria melodia. A visita do irmão virá abrir uma fractura discreta na rotina, um desvio possível no seu itinerário imóvel. Contudo, Samuel permanece figura cristalizada, homem-estação à espera de um comboio que talvez nunca chegue a partir. E, ainda assim, é dessa suspensão que brota um sentido de comunidade: das ruas que se enchem de pessoas para ver passar a procissão, das janelas que aos poucos se acendem com o anoitecer, dos pequenos rituais partilhados que tecem o sentido de pertença. Como a cidade, Samuel resiste, feito acorde menor que, na sua tristeza, guarda uma promessa ténue de redenção.

domingo, 30 de novembro de 2025

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #100 Expandida



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #100 Expandida
Com | Ana Castro e Rosalina Macieira de Castro
Apresentação | Tiago Alves
120 Minutos | Maiores de 12 Anos
Escola de Artes e Ofícios
28 Nov 2025 | sex | 21:30


Em tempo de festa e de celebração da sua sessão n.º 100, o Shortcutz Ovar quis expandir o momento a um conjunto de novos filmes, reafirmando o compromisso que, desde 2017, sustenta a relação entre o certame e o seu público. Menos participada do que o habitual, esta edição especial construiu-se em torno do tema “Corpo & Memória”, fazendo dessa promessa um gesto concreto ao colocar em diálogo duas obras que investem na forma como o tempo se inscreve em nós e nos transforma. Em “Salto”, de Ana Castro, e “Kora”, de Cláudia Varejão, o corpo surge como arquivo vivo, território onde a memória se movimenta, resiste e se reinventa. Juntas, as duas curtas foram um convite ao espectador a pensar no que permanece e no que se perde, no que se recorda através do gesto ou da palavra, mas também no que a imagem cinematográfica guarda quando tudo o resto ameaça desaparecer. Uma escolha que sublinha a maturidade do projecto e a sua capacidade de continuar a interrogar o presente, e cujas reflexões partilhadas com um público particularmente interveniente fizeram do serão um dos mais gratificantes momentos de cinema na vida do Shortcutz Ovar.

“Salto”, da realizadora Ana Castro, abriu a sessão, levando os espectadores a acompanhar o processo de revisitação das memórias da avó da cineasta, Rosalina Macieira de Castro, uma das primeiras paraquedistas civis portuguesas. Investigação íntima transformada em gesto político, o filme constrói-se como uma ponte entre gerações, cruzando imagens de arquivo pessoal, testemunhos directos e filmagens contemporâneas, que recuperam a determinação daquelas que ousaram desafiar os céus de um país marcado por uma visão redutora e retrógrada do papel da mulher. No cuidado balanço entre o peso da história e a leveza da lembrança, “Salto” afirma-se não apenas como retrato de uma época, mas como reflexão sobre o legado feminino, as ausências que persistem e o que continua por dizer. Na sessão expandida do “centenário” do Shortcutz Ovar, a presença da avó Rosalina reforçou a dimensão viva desse legado, alimentando um diálogo vibrante sobre coragem, determinação e a força de ser mulher, mas também sobre a experiência nas antigas colónias portuguesas, onde, paradoxalmente, se respirava um ar mais livre. “Salto” revela-se, assim, como o próprio gesto da realizadora: Um mergulho nas raízes e na identidade, um movimento de busca que prova que certas memórias, mesmo herdadas, continuam a pulsar no presente.

No segundo filme da noite, a curta-metragem “Kora”, Cláudia Varejão parte do gesto ancestral de fixar uma sombra na parede para iluminar a vida de mulheres refugiadas que reconstroem o presente em Portugal, trazendo no bolso o retrato de quem amam e no corpo as marcas do que deixaram para trás. Produzido pela Terratreme Filmes, o documentário convoca a mitologia grega para sublinhar a origem íntima da imagem: guardar alguém para que não desapareça. É a partir dessas fotografias, frágeis âncoras de identidade, que o filme desenha a silhueta de mulheres vindas de territórios em conflito - a Ucrânia e o Afeganistão, o Sudão, a Rússia e a Síria -, muitas delas instaladas em contextos precários, em trânsito, tentando integrar-se num país que ainda lhes oferece escasso amparo. Para quem enfrentou a travessia em condições extremas ou viu a família destruída, revisitar memórias pode ser insuportável, mas o que dizem, as ideias que partilham, continuam a ressoar em nós como um verdadeiro manifesto político. Abandonar o próprio país é “ser um jogador de futebol sem pernas”, enquanto continuar significa carregar o passado, não apagá-lo. No subtexto, impõe-se a pergunta que o filme não resolve, mas devolve ao espectador: E aqueles que não têm como fugir e acabam por sucumbir ao genocídio — como em Gaza?

sábado, 29 de novembro de 2025

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #100



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #100
Com | Sara Naves Sousa, Daniel Soares e Gonçalo Almeida
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
27 Nov 2025 | qui | 21:30


O Shortcutz Ovar assinalou na noite da passada quinta-feira a sua centésima sessão. Trata-se de um marco simbólico para um certame que, nascido a 26 de Janeiro de 2017, tem dado um importante contributo para a afirmação da vitalidade do cinema português em formato curto. Primeiro no Museu Júlio Dinis e, desde Junho de 2020, na Escola de Artes e Ofícios, o projecto soube conquistar e fidelizar um público a rondar os vinte mil espectadores, transformando cada sessão num momento lúdico e didáctico, onde ver bom cinema e discutir a sua relevância são as duas pedras de toques. Ao longo destas cem sessões, o Shortcutz Ovar tornou-se ponto de passagem obrigatório para realizadores emergentes e para amantes de cinema que souberam reconhecer aqui uma programação consistente, feita de risco, experimentação e espírito crítico. “Make Movies Great Again”, apetece dizer, no momento de celebrar cem oportunidades de contacto directo com a criação cinematográfica, cem possibilidades de formar público, de abrir horizontes e estimular o pensamento. A vitalidade do projecto, sustentada por uma comunidade que cresce a cada edição, sugere que as próximas cem sessões têm todas as condições para continuar a surpreender pela positiva e a provar que, em Ovar, o cinema curto é uma causa duradoura e uma festa contínua.

Passando aos filmes propriamente ditos, a sessão abriu com “O Estado de Alma”, uma curta-metragem de imagem animada com assinatura de Sara Naves Sousa, professora da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Nela, o desconforto assume forma física e brutal numa narrativa que acompanha Alma, uma jovem que acorda diariamente transformada, espelho das suas inseguranças e da dificuldade em corresponder a um ideal de normalidade. Em Ovar pela primeira vez, a realizadora mostrou um filme que se destaca pela ousadia estética e emocional com que traduz a ansiedade social, os medos de encarar ou de se relacionar com o outro, a sensação de inadequação que corrói a personagem por dentro e por fora. Até a casa, tradicional refúgio e porto de abrigo, surge aqui como espaço caótico, incapaz de oferecer segurança a um processo de crescente apatia que culmina no colapso. Só no fundo desse abismo Alma encontrará a possibilidade de renascer, reconhecendo nas diferenças dos outros a prova de que ninguém está realmente só.

“Bad For a Moment”, de Daniel Soares, foi o filme que preencheu o período intermédio da sessão, impondo-se como espelho incómodo sobre a função social da arquitectura e o preço oculto do “progresso”. Filmada no Bairro da Alfazina, esplêndido miradouro natural sobre Lisboa e o Tejo, o filme expõe as tensões latentes da gentrificação e a dureza das vidas que ela empurra para fora do mapa. Há, no centro da narrativa, o desconforto e o dilema moral do arquitecto de contribuir para um mundo melhor o que, na prática, acarreta o desmoronar do mundo de muitos, vítimas que são da voracidade imobiliária. Rebelar-se contra o sistema parece ser um “não assunto”, sabendo que uma eventual escusa  não é sinónimo de travão a tudo o que está em marcha, porquanto haverá sempre alguém pronto a ocupar o lugar. Distinguida com o Prémio Especial do Júri do Festival de Cannes, a obra confirma, à semelhança dos anteriores “Please Make It Work” e “O Que Resta”, já exibidos no Shortcitz Ovar, o rigor estético e a sensibilidade para as causas sociais do realizador luso-alemão e questiona até quando é possível resistir num cenário onde o idealismo cede, quase sempre, ao peso das consequências.

A encerrar a sessão - e a 9.ª temporada -, “Atom & Void”, de Gonçalo Almeida, seguiu as pisadas das curtas anteriores e voltou a instalar o espectador no lugar do desconforto. Filmado no interior de uma garagem alentejana, o filme transforma uma aranha na protagonista silenciosa de uma fábula pós-apocalíptica. Desafiando o poder e sedução da alta tecnologia, a obra devolve à artesania a sua capacidade expressiva, convertendo-se num lúcido tratado sobre a condição humana - mesmo sem humanos em cena - e numa reflexão inquietante sobre o rumo civilizacional num antropoceno onde os efeitos da acção do homem sobre o planeta são evidências que os líderes das grandes potências teimam em negar. Enquanto se mascaram os danos do progresso sob a bandeira do avanço científico, a corrida pelo domínio geopolítico permanece a fonte de todos os conflitos. Não por acaso, “Atom & Void” abre com uma advertência de Yuri Gagarin: “There never has been a bloodless victory over nature”. Ela lembra-nos que cada conquista exige um preço, e que a imaginação, quando alimentada por meios mínimos e uma lente comprada à custa de todo o orçamento de um filme, é capaz de revelar abismos que preferimos não enfrentar.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Bandopipo: Da Aduela ao Brinde" | Mário Lisboa



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde”,
de Mário Lisboa
Videoarte | Carla Varanda
Escola de Artes e Ofícios
15 Out > 31 Dez 2025


Surgida no âmbito do Ovar Expande, “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde” é uma exposição sobre “a fusão da tanoaria com a música”, e que pode ser vista por estes dias na Escola de Artes e Ofícios. Nela, o fotógrafo Mário Lisboa desloca-se do gelo primordial para o calor íntimo da madeira trabalhada e do dedilhar das cordas de um instrumento musical, trocando a vastidão hipnótica do extremo sudoeste da Sibéria pela respiração concentrada das tanoarias, onde o ferro e as madeiras dialogam entre si e o artefacto se faz música. Depois de décadas a cartografar geografias exteriores — povos, paisagens, rituais, atmosferas — o fotógrafo volta-se agora para o espaço interior, onde a escala se reduz mas a intensidade permanece. O que aqui se vê é menos a representação das artes e ofícios e mais a revelação de uma alquimia que transforma matéria em som. Na Escola de Artes e Ofícios, as imagens constroem um percurso que acompanha a génese do Bandopipo, esse híbrido improvável nascido de um pipo e destinado ao convívio com a família do bandolim. Lisboa observa o fazer e o ensaiar, o gesto paciente do tanoeiro e a precisão do luthier, como quem acompanha o amadurecimento de um fruto raro. Entre fotografias, estações sonoras, videoarte e entrevistas, o visitante percorre um território onde as fronteiras entre artes e ofícios se dissolvem, e onde cada imagem parece conter, adormecido, o primeiro sopro de música.

Aquilo que começou como instrumento torna-se pretexto, e aquilo que se apresenta como exposição converte-se em narrativa de criação, partilhada em camadas de luz e som. O diálogo entre tanoaria e luteria, registado com a minúcia de quem deduz os ritmos secretos da matéria, surge aqui transfigurado em composição visual. Herdeiro de cinco gerações de fotógrafos, Mário Lisboa conhece a gramática própria que cada ofício encerra: o fogo que curva a aduela, o metal que fixa o arco da forma, a lâmina que afina o corpo ressonante, a corda que vibra em embalos sublimes. As suas vinte imagens percorrem esses gestos como quem decifra uma pauta, revelando o paralelismo entre fabricar pipos, construir instrumentos de corda e dar a ver as muitas sonoridades que neles se encerram. Se a madeira é a mesma, também é semelhante a tensão interna que conduz ao som: Primeiro contida, depois liberta, é a vibração que dá voz ao Bandopipo, acrescentando-lhe o pressentimento de uma ressonância futura. A instalação multissensorial acentua este parentesco: A videoarte de Carla Varanda devolve o ritmo dos gestos à orquestra; as estações de escuta expandem a Suite Bandopipo para além da imagem; as entrevistas restituem o timbre humano à técnica. No centro, como um coração que pulsa em silêncio, está o instrumento conceptualizado por Eurico Silva e materializado por Agostinho Rodrigues, meio bandolim, meio pipo, inteiro na ousadia de assumir o lugar de benjamim na distinta família dos cordofones.

No encontro entre matéria e metáfora, atinge a exposição a sua plenitude. O Bandopipo, instrumento improvável que faz passar a música para o vinho, reintroduz o visitante num território onde criação e celebração são indissociáveis. Se o pipo amadurece o líquido, aqui é a música que o acompanha no estágio, como se cada nota depositasse no néctar uma memória adicional. Mário Lisboa capta essa ideia com subtileza: as garrafas especiais — colheitas musicais que evocam os concertos da Orquestra de Bandolins de Esmoriz — erguem-se como testemunhos de uma alquimia final, onde a imagem se faz memória, o som se torna sabor e o gesto artesanal se converte em rito coletivo. A exposição culmina, assim, num brinde simbólico à tradição reinventada, à persistência dos ofícios e à imaginação que os reconfigura. O fotógrafo, habituado a percorrer o mundo em busca do extraordinário, encontra-o agora na intimidade da madeira, no sopro quente da tanoaria, na vibração que se faz música. E ao fazê-lo, confirma que a verdadeira viagem nunca depende da distância percorrida, mas da capacidade de olhar. Em “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde”, Mário Lisboa devolve-nos esse olhar: preciso, sensível e profundamente enraizado na convicção de que a arte — como o vinho — se faz de tempo, gesto e partilha.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

CONCERTO: “Na Natureza de Júlio Dinis” | Solange Azevedo | FRA Ensemble



CONCERTO: “Na Natureza de Júlio Dinis”,
de Solange Azevedo
FRA Ensemble
Direcção musical | Marco Pereira
Interpretação | Ana Rosa (soprano), Eduardo Seabra (clarinete), Rodrigo Allen Pinho (percussão), Marta Nabeiro (violoncelo)
INoVAR AS LETRAS
Escola de Artes e Ofícios
15 Nov 2025 | sab | 17:00


“Repara: — a imóvel crisálida
Já se agitou inquieta,
Cedo, rasgando a mortalha,
Ressurgirá borboleta.”
Julio Dinis, in “Metamorfose”

Música, palavra e performance marcaram o encerramento das II Jornadas Dinisianas. Como quem rasga uma fenda no tecido do tempo, o FRA Ensemble caminhou rumo ao interior da natureza de Júlio Dinis, numa viagem que abriu ao romantismo oitocentista a possibilidade de respirar no peito da contemporaneidade. Nos passos do poeta que em Ovar encontrou prazeroso refúgio, o agrupamento fez da Escola de Artes e Ofícios um prolongamento vivo do Museu Júlio Dinis, projectando um corredor invisível ao longo do qual palavra e música se ergueram em graça e beleza. Perspicaz e audaciosa, Solange Azevedo soube cruzar a leveza da poesia dinisiana com a matéria silenciosa de um herbário, os vestígios do pólen secular com o sopro vivo de uma escrita impetuosa. Entre palavras e folhas, as suas composições foram ao encontro de uma vida muito jovem mas já marcada pela doença, fazendo alternar os momentos de êxtase criativo com os frémitos sombrios da incurável tuberculose. A tradução de estados de alma tão díspares teve no FRA Ensemble um interlocutor de excelência, capaz de estabelecer um diálogo improvável da voz e dos instrumentos convencionais, com o rumor subtil dos objectos recolhidos no Museu, transformando um momento de vincada improvisação numa forma de arqueologia sensorial fortemente inspiradora.

Na sua riqueza e complexidade sonora, o concerto revelou-se precioso no que encerrou de risco artístico, oferecendo às Jornadas Dinisianas uma última e tão necessária respiração. Laboratório fecundo, Ovar foi palco do cruzamento do gesto plástico e compositivo de Solange Azevedo com o pensamento curatorial de Ana Isabel Freijo, das sonoridades subterrâneas de Tiago Schwäbl com a pulsação exploratória do FRA Ensemble. Um a um, criadores e músicos pareceram escutar o interior de cada objecto antes de o tocar, interrogando-se que histórias guardariam, que ressonâncias carregariam em si na viagem entre o Museu e a Escola. Desse diálogo do convencional com o inesperado, do instrumento com o artefacto, emergiu uma espécie de metamorfose sonora, talvez anunciada pelo poema homónimo que incendiou toda a segunda metade do concerto. A cada nota do clarinete ou do violoncelo, a cada som arrancado aos objectos do Museu ou a cada inflexão vocal, era o próprio Júlio Dinis que observava, discreto, a reinvenção da sua natureza. Ainda que por instantes, a literatura fez-se música, a música fez-se imagem e a imagem fez-se reminiscência, o todo fluindo como um rio que cava novos leitos sem nunca perder a noção da nascente.

E porque a cultura se faz arriscando, criando e renovando, o concerto não se limitou à simples apresentação de uma obra enquanto resultado de uma residência artística no âmbito desse projecto maior que é o INoVAR AS LETRAS, com curadoria de Ana Isabel Freijo e que se estenderá até finais de Março do próximo ano. Ele foi antes um gesto de escuta profunda, as raízes do passado como manancial criador de novos conceitos e linguagens. A residência artística foi estufa onde se cultivaram possibilidades, onde o realismo dinisiano repousou ao lado do romantismo, as crónicas conversaram com a poesia e o silêncio, esse lugar de espera e de suspeita, se viu convertido em impulso criativo. Apesar da sua juventude enquanto agrupamento, o FRA Ensemble mostrou que a improvisação pode ser, não uma ruptura, antes um modo de continuar o tanto que há por dizer. Do cruzamento dos espaços, do entrelaçar dos tempos, uma verdade simples parece aflorar à superfície: Há obras que só se cumprem quando ousam atravessar fronteiras. “Na Natureza de Júlio Dinis” é uma delas, dando a ver o instante em que o escritor se desvela e mostra que a leveza da sua escrita não é ausência de peso, mas algo de mais profundo que só a consciência de uma vida breve saberá explicar.

sábado, 1 de novembro de 2025

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #99



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #99
Com | Chico Noras, Diogo Costa e João Antunes
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
30 Out 2025 | qui | 21:30


Pé ante pé, muito ao de leve, como quem se compraz em saborear a jornada e não tem pressa de chegar ao fim, o Shortcutz Ovar atingiu, na noite da passada quinta-feira, a bonita soma de noventa e nove sessões. Uma marca relevante, a prova provada do empenho em dar a ver cinema português de qualidade, em fazer da inovação peça-chave de uma programação cuidada e atenta ao detalhe e que persiste em conquistar espectadores, encontrando neles os guardiões de uma identidade própria e particularmente bem-sucedida. Em vésperas de Halloween, a programação voltou-se, uma vez mais, para o cinema de género ligado ao fantástico e ao terror, brindando o público com três curtas-metragens que tiveram na morte - gentil e reconfortante para uns, um mal inimaginável para outros - um denominador comum. Presentes pela primeira vez no Shortcutz Ovar, um deles de forma virtual, os três realizadores mantiveram animadas conversas com o público, satisfazendo a sua curiosidade, revelando os pormenores que se escondem, por vezes, nas dobras de uma sequência aparentemente simples e fazendo da sessão mais um momento privilegiado de comunhão de interesses e partilha de conhecimentos.

Pela quinta vez na presente temporada, o cinema de imagem animada voltou a marcar presença no Shortcutz Ovar graças ao filme “A Caçada”, de Diogo Costa. Perdidos na floresta, três soldados vêem-se obrigados a gerir os traumas do passado, ao mesmo tempo que procuram escapar às forças malignas que os perseguem. Embora possa não ser claro, a narrativa alimenta-se de uma forte componente autoficcional (o rosto de uma das personagens indica estarmos perante o próprio realizador) e encontra inspiração nos ambientes tensos e densos dos videojogos. Este é um universo muito querido a Diogo Costa - ele próprio artista conceptual e ilustrador que vem estendendo as suas colaborações à produtora Lucasfilm e à série Star Wars –, entendido como perfeito para abordar a natureza dos conflitos e a forma como lidamos com eles. Fortemente estilizado, o filme é revelador de um realizador criativo e perfeccionista, que aposta na componente visual para impactar o espectador, ao mesmo tempo que rende homenagem a um conjunto de filmes de culto onde poderemos ver “Carrie”, “Full Metal Jacket”, “A Noite dos Mortos Vivos” ou a saga “Alien”. Entre a Guerra do Vietname e a ameaça de uma III Guerra Mundial, Diogo Costa mostra como o cinema pode ser uma arma poderosa no confronto com os nossos fantasmas.

Coube a João Antunes e ao filme “Os Terríveis” assumirem o segundo momento da sessão, trazendo consigo uma história de vingança no seio de uma família. Franco e Agostinho são dois irmãos ligados pela violência e que guardam na memória o suicídio da sua mãe. Ao fim de décadas na sombra, o confronto com o pai, a fonte dos seus pesadelos, irá pôr em causa a natureza das suas convicções. “Filme de escola” com a marca da Lusófona Filmes, “Os Terríveis” vai beber ao “western” o seu formalismo, expandindo o género por terrenos do drama familiar, do thriller e do terror. Ao invés de o fragilizar, a desconstrução do género é sabiamente explorada por João Antunes para se aproximar do espectador, envolvendo-o na trama do filme e levando-o a, também, ele, a fazer escolhas. O cunho operático, nas sequências de maior tensão, é outro dos pontos fortes do filme, tirando partido da música de Verdi e Delibés, sobretudo, e trazendo à memória cenas icónicas de algum do melhor cinema que realizadores como Francis Ford Coppola, Brian De Palma, Peter Greenaway ou Quentin Tarantino nos legaram. Uma última palavra para a excelente fotografia de João “Pepe” Pereira e para a superior interpretação de David Medeiros e Eduardo Frazão no papel dos dois irmãos.

Chico Noras colocou um ponto final no serão com “O Procedimento”, uma comédia negra que faz girar a narrativa em torno da morte, mas neste caso medicamente assistida, vulgo “eutanásia”. A acção decorre num futuro que se pretende (?) próximo, no qual o suicídio e a morte assistida são procedimentos moralmente aceites, introduzidos com naturalidade no nosso quotidiano. De forma bem humorada, o filme funciona como um mediador entre o pensamento e a emoção, ajudando-nos a reflectir sem dogmatismos. Ao transformar um tema sério em comédia, Chico Noras não está a banalizá-lo, antes a convidar-nos a abordá-lo com leveza crítica, desarmando preconceitos e pondo em evidência o absurdo da vida e da morte. Mais provocador do que moralista, o filme é de uma enorme riqueza nas camadas que o compõem, da problemática religiosa em momentos decisivos da nossa existência ao negócio que se abriga à sombra das clínicas de “ajuda” na aproximação ao momento derradeiro. No papel de Maria Eugénia, Paula Só é um espectáculo dentro do espectáculo e o uso da cor, ao evidenciar o kitsch que o nacional foleirismo encerra, é outro dos trunfos do filme. As sequências estão recheadas de momentos divertidos e, para animar a festa, não falta sequer a música de José Pinhal. Um belo filme, a merecer o voto do público como a melhor curta da noite.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande '25 (IV)



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande ’25 (IV)
Com Agostinho Rodrigues, Eurico Silva, Mário Lisboa e Joaquim Margarido
Escola de Artes e Ofícios
15 Out 2025 | qua | 21:30


Depois das emoções em torno dos oito concertos que fizeram a sexta edição do Ovar Expande, esta última mensagem tem como foco uma das várias conversas que atravessaram o evento. Mas antes, é tempo de olhar para trás e fazer um breve balanço de cinco dias extraordinários, com a figura do “cantautor” em pano de fundo. Tal como nos anos anteriores, a organização primou pelo ecletismo e qualidade das propostas, mantendo a preocupação em elevar o padrão de proximidade com o público, o que resultou em três noites de concertos com salas cheias e uma forte adesão às conversas e formações que ocuparam uma parte importante do programa. Daí que o mais caloroso aplauso seja devido a Gil Godinho, figura destacada no trabalho de preparação e concretização do evento, apoiado na sólida, empenhada, conhecedora e imensamente disponível equipa Ovar / Cultura, chefiada por José Licínio Pimenta. Ano após ano, a eles se deve o conhecimento de uma variedade gigante de projectos relevantes no panorama da nova música portuguesa, geralmente inacessíveis ao público em geral.

O envolvimento da comunidade, com a criação do coro que acompanhou a cantora Bia Maria, foi um momento de enorme relevância nesta edição do Ovar Expande, reunindo dez vozes a quem foi dada a oportunidade de ser parte integrante de um projecto enriquecedor a muitos títulos. Conhecimento, dádiva e partilha foram vectores essenciais de um processo formativo que culminou com a presença do Coro em palco, acompanhando com brio a preciosa música de Bia Maria e mostrando que “qualquer um pode cantar”. Outros momentos fundamentais desta edição do certame foram as formações e masterclasses. “Palavra cantada: Compor é cantar”, com Luca Argel, e “Palavras para outras vozes”, com Carlos Tê, ofereceram aos participantes a possibilidade de mergulhar no universo da escrita e da composição musical, conhecer os bastidores dos processos criativos e explorar as palavras, melodias e narrativas que transformam histórias pessoais em canções universais. Houve ainda lugar a um showcase de Luca Argel, no espaço exterior da Escola de Artes e Ofícios, no qual o cantor encetou uma “conversa de fila” com o público, cantando numa voz límpida e harmoniosa e encantando com as histórias da vida real transformadas em belíssimas canções.

Num evento recheado de grandes momentos, destaque para a conversa que juntou os músicos Manel Cruz e Mazela e esse enorme comunicador que é Fernando Alvim, numa emissão do programa Prova Oral transmitido em directo na Antena 3. Enfim, a conversa que justifica este texto reuniu o luthier Agostinho Rodrigues, o instrumentista Eurico Silva e o fotógrafo Mário Lisboa. Intitulado “A fusão das artes, dos ofícios e a música”, o momento assentou num cordofone “multidisciplinar” designado bandopipo, um exemplo perfeito de como a tradição e a experimentação podem dialogar entre si de forma criativa e significativa. Com sala cheia e em ambiente informal, a conversa foi precedida da inauguração da exposição de fotografia “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde”, da autoria de Mário Lisboa, viagem fotográfica ao interior de uma tanoaria transformada em palco num concerto da Orquestra de Bandolins de Esmoriz. No centro da fusão entre as artes e os ofícios está o Bandopipo — meio bandolim, meio pipo —, cordofone conceptualizado por Eurico Silva e construído por Agostinho Rodrigues. O percurso expositivo inclui ainda videoarte de Carla Varanda, entrevistas aos protagonistas e a presença física do instrumento.

Com o Bandopipo como elemento orientador, a conversa juntou música e vinho, elementos indissociáveis num percurso milenar, entrelaçados em celebrações religiosas, festas populares e rituais sociais. E porque esta relação se exprime de forma ímpar como um mecanismo de coesão e identidade comunitária, nada melhor do que um brinde com vinho servido directamente do próprio instrumento para dar início à conversa. Assumindo-se como um “experimentalista”, mais do que “um luthier, um violeiro ou o que me queiram chamar”, Agostinho Rodrigues afirmou a sua emoção em dar corpo e vida a um objecto carregado de simbolismo, algo que “foi construído para ser tocado, que não é um brinquedo”. Falando dos desafios à sua construção, “Tico” referiu as “questões de escala do objecto, a sua ergonomia”, acrescentando que o Bandopipo “tem o braço ligeiramente mais comprido que o dos bandolins convencionais, aproximando-o da bandola”. Mas também a parte acústica levantou questões de ordem vária, o problema a ser ultrapassado “com a criação de uma caixa de ressonância exterior, com uma membrana que, ao vibrar, permite que as cordas se façam ouvir.

O paralelismo entre a construção de pipos e de instrumentos musicais, aliado ao facto da Orquestra de Bandolins de Esmoriz ter vindo a desenvolver, desde 2013, uma série de concertos no interior de uma tanoaria da cidade, está na origem da concepção do Bandopipo. “De um momento para o outro, um espaço de trabalho transformou-se num espaço de um concerto”, lembra Eurico Silva, para quem esses momentos foram um “lançar da semente”, o impulso para a criação de um instrumento que homenageia “a fusão de duas artes, de dois ícones de Esmoriz”. Entre o popular e o erudito, a polivalência do instrumento permite a criação de sonoridades diversas em função dos diferentes ambientes, do cuidar das cepas ao copo que vai à boca. Um conceito novo que, para o instrumentista e médico de profissão, “permitirá chegar a mais públicos, curiosos de ver, sentir e provar a música estagiada num recipiente tradicionalmente ligado ao acondicionamento e conservação do vinho.

Já Mário Lisboa começou por referir o privilégio que é poder fotografar numa tanoaria e viver um ambiente muito particular, feito de objectos, sons e aromas invulgares. Para o fotógrafo, a exposição traça um percurso sensorial que documenta o nascimento de um instrumento, mas é também um embate entre o mundo da música e do vinho, entre o terreno e o celestial: “Senti aqui, por instantes, como se tivesse saído de mim próprio, como se a fotografia me transcendesse e tomasse, ela própria, conta do trabalho.” Falando das imagens mais marcantes, Mário Lisboa refere uma fotografia de grupo – “ainda hoje não sei como é que consegui pôr na imagem aquelas pessoas todas e todas felizes” – e uma outra da tanoaria, com uma janela em fundo, “como se fossem os vitrais de uma catedral”. A terminar, refira-se que a exposição de fotografia “Bandopipo: Da Aduela ao Brinde” irá permanecer patente ao público até ao final do ano e que o ciclo experimental de criação de novos instrumentos não se fecha com o Bandopipo. Com efeito, Eurico Silva anunciou estar na calha um instrumento à base de azulejo, ainda sem nome definido e que poderá ser ouvido na 24.ª edição do CONCORDAS, no dia 22 de Novembro, no Centro de Artes de Ovar.

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/ovarcultura]