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quinta-feira, 5 de março de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #102



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #102
Com | Alice Eça Guimarães, André Silva Santos, Nuno Amorim, Patrícia Sobreiro, Rodrigo Alves
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
26 Fev 2026 | qui | 21:30


Franqueadas as portas da décima temporada, o Shortcutz Ovar continua a afirmar-se como um verdadeiro ponto de encontro da comunidade cinéfila vareira e de todos aqueles que encontram na sétima arte um território de descoberta e liberdade criativa. Lançado em 2017, o projecto encontrou em Ovar um espaço fértil para crescer, consolidando-se ao longo da última década como uma montra privilegiada do cinema português contemporâneo. Sessão após sessão, o certame tem dado palco a uma impressionante diversidade de propostas - do foto-filme ao documentário, da imagem animada à ficção pura e dura, sem esquecer as novas linguagens que cruzam cinema e inteligência artificial -, reflectindo a vitalidade e a constante reinvenção do formato curto. Ao longo do tempo, o Shortcutz Ovar soube catalisar as atenções e fidelizar um público cada vez mais atento e participativo, que não abdica da experiência colectiva da sala escura e que reconhece, com entusiasmo, o talento que cruza o ecrã. Celebrar esta nova temporada é, por isso, celebrar uma história de resistência cultural, de afirmação do cinema feito entre nós e de confiança num futuro onde as curtas continuam a ter, em Ovar, casa, voz e plateia. Assim foi, uma vez mais, nesta primeira sessão do ano, numa Escola de Artes e Ofícios a rebentar pelas costuras, tornada espaço de partilha e debate propícios à construção de uma relação de proximidade rara entre criadores e público.

Contrariando a lógica dominante de reservar à imagem animada o arranque da temporada, o Shortcutz Ovar abriu este novo ano com a quietude inquieta de “J’existe - Porto”, um quase foto-filme documental de Patrícia Sobreiro. Em pouco mais de dez minutos, a realizadora compõe um testemunho biográfico e intimista que nasce das suas viagens à Invicta e que transforma a cidade em matéria sensível. Sob o seu olhar, o Porto surge como casa e espelho interior, território afectivo onde cada rua parece guardar um vestígio de memória e cada rosto convocado teima em resistir ao apagamento. Num gesto assumidamente artesanal, de recusa do ruído da indústria e da voragem da produção formatada, o filme constrói-se na fricção entre a contemplação e a denúncia, entre a beleza plástica das imagens e a inquietação que as atravessa. Há enquadramentos que evocam a luz difusa de Turner, como se o casario e o rio pairassem suspensos numa névoa romântica. É sob essa superfície diáfana que pesa a consciência de uma cidade ameaçada pela gentrificação e pela turistificação, fenómenos que diluem identidades e empurram para as margens figuras genuínas que ajudam a compor o rosto da cidade e a representam. O que Patrícia Sobreiro nos oferece com esta sua curta é um acto de resistência delicada, um sussurro visual que reivindica o direito de olhar e de se demorar num mundo demasiado apressado. O direito de existir.

Amplamente aguardado - ou não fosse Alice Eça Guimarães um nome consagrado da animação portuguesa e uma realizadora querida do público do Shortcutz Ovar -, “Porque Hoje É Sábado” não frustrou as expectativas. O público distinguiu-o como melhor filme da sessão, o que se percebe não só pela verdade que se derrama da abordagem a um tema pleno de actualidade, como pela qualidade e colorido da animação, nalguns quadros a fazer lembrar um enigma de Escher. Aqui, o sábado - palavra roubada ao “Dia da Criação”, de Vinicius de Moraes - despe a ideia de repouso para voltar a ser rotina. A realizadora constrói um filme que é como um grito contido, um eco que vibra nas paredes da casa e no interior da protagonista, cercada por tarefas que se repetem com a obstinação de um castigo mitológico. Há, na coreografia exaustiva do quotidiano, qualquer coisa de sísifo moderno, o limpo que volta a sujar-se, o dia que recomeça sem que o anterior tenha nunca chegado ao fim. Vibrante e inquieta, a animação traduz a vertigem da chamada “carga mental”, esse trabalho invisível que organiza o mundo enquanto consome quem o sustenta. Entre filhos, refeições e listas intermináveis, a mulher tenta oferecer a si própria a dádiva de um tempo que se fragmenta, lhe escorre das mãos e nunca é seu. “Porque Hoje É Sábado” transforma essa frustração num retrato sensível da sobrecarga que ainda marca tantas mulheres, contrariando a ideia de uma igualdade tão apregoada, mas ainda distante da realidade.

A finalizar a sessão, “Sol Menor”, primeira obra de ficção de André Silva Santos, desenha-se como uma elegia contida às paisagens urbanas de São João da Madeira, um município que carrega em si as marcas de uma pós-industrialização silenciosa, feita de fábricas desactivadas e memórias que ecoam como notas longínquas. É Primavera, mas a estação não irrompe; insinua-se apenas numa sonata tocada em surdina, numa carta por abrir, nos vasos com plantas que respiram sobre os parapeitos das janelas. A câmara acompanha a progressão lenta do “Vouguinha”, como se o tempo tivesse aprendido a caminhar sobre carris gastos. Samuel, 38 anos, professor de flauta, move-se entre o sopro que ensina e o silêncio que o habita, repetindo rituais de luto pela falta de Luísa, companheira de música e de vida. Cada gesto é um compasso suspenso; cada parte do dia, uma pauta onde a ausência escreve a sua própria melodia. A visita do irmão virá abrir uma fractura discreta na rotina, um desvio possível no seu itinerário imóvel. Contudo, Samuel permanece figura cristalizada, homem-estação à espera de um comboio que talvez nunca chegue a partir. E, ainda assim, é dessa suspensão que brota um sentido de comunidade: das ruas que se enchem de pessoas para ver passar a procissão, das janelas que aos poucos se acendem com o anoitecer, dos pequenos rituais partilhados que tecem o sentido de pertença. Como a cidade, Samuel resiste, feito acorde menor que, na sua tristeza, guarda uma promessa ténue de redenção.

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