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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

CINEMA: "NAZA" | Yuval Abraham, Rachel Szor



CINEMA: “NAZA”
Realização | Yuval Abraham, Rachel Szor
Argumento | Yuval Abraham, Rachel Szor
Fotografia | Rachel Szor
Montagem | Yuval Abraham, Rachel Szor
Interpretação | Yuval Abraham
Produção | Harry Davies, Lindsay Poulton, James Wilson
Reino Unido, Estados Unidos | 2026 | Documentário | 80 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 5
12 Out 2026 | seg | 14:25


Há uma legenda em “Naza”, de Yuval Abraham e Rachel Szor, que condensa a perturbadora economia moral do filme e nos vem lembrar que Gaza e Telavive distam escassos sessenta quilómetros entre si, pela linha da costa. A proximidade geográfica torna-se, porém, a medida de uma distância muito mais funda, a que separa quem morre de quem decide a morte, quem vê a destruição da segurança doméstica de quem a sofre, quem carrega no botão de quem morre esmagado sob os escombros. Partindo dos testemunhos de vinte e quatro antigos membros dos serviços de informações e das forças armadas israelitas, a dupla de realizadores constrói um documentário que dispensa a exibição directa do horror para nos obrigar a imaginá-lo. Não vemos os rostos dos entrevistados, obscurecidos ou digitalmente alterados; ouvimos, porém, as palavras de quem participou na engrenagem que tornou Gaza num território de devastação e horror. O dispositivo formal é austero, quase glacial, e a sua eficácia reside nessa contenção. “NAZA” não procura a comoção fácil nem se refugia na espectacularidade da ruína: expõe, antes, a linguagem, os procedimentos e as justificações através dos quais a morte de milhares de pessoas pode ser integrada numa rotina administrativa. O que começa por parecer uma investigação jornalística converte-se numa anatomia do poder contemporâneo, onde a distância deixou de ser uma questão geográfica, para passar a assumir uma tecnologia de irresponsabilidade, desumanização e imoralidade.

O título do documentário remete para a abreviatura hebraica de “Nezek Agavi”, expressão correspondente a “danos colaterais”, transformada, na lógica operacional descrita pelos entrevistados, numa unidade de cálculo das mortes civis consideradas aceitáveis para atingir determinado alvo. A violência adquire, deste modo, a aparência de uma equação: cada vida reduz-se a uma variável, cada edifício a uma coordenada, cada família a uma margem de erro. Os sistemas de vigilância e a inteligência artificial, nomeadamente através do programa Lavender, surgem como instrumentos de uma guerra em que a decisão humana se esconde atrás da autoridade aparente dos dados. Mas a máquina não absolve quem a concebe, alimenta ou utiliza; pelo contrário, torna mais urgente a pergunta pela responsabilidade. Quando um entrevistado afirma que desempenhava apenas uma função técnica, ou que outra pessoa teria executado a mesma tarefa, reconhecemos a velha gramática da obediência cega, agora actualizada pelo vocabulário asséptico da gestão algorítmica. A banalidade do mal, para convocar Hannah Arendt, não significa aqui ausência de inteligência ou de competência, mas a possibilidade de ambas operarem sem reflexão moral. Há algo de particularmente aterrador na naturalidade com que estes homens descrevem procedimentos susceptíveis de destruir famílias inteiras. A linguagem militar não se limita a ocultar a violência. Organiza a sua percepção, distribui responsabilidades até quase as fazer desaparecer e converte a morte de civis numa consequência previsível, logo administrável. É necessário lembrar, porém, que o algoritmo não mata sozinho e que são seres humanos que lhe atribuem autoridade para matar.

A opção de Yuval Abraham e Rachel Szor de filmar nos telhados nocturnos de Telavive, intercalando os depoimentos com movimentos de câmara pelas fachadas e janelas de apartamentos, introduz uma segunda dimensão crítica. Enquanto em Gaza se acumulam os escombros, a vida na cidade israelita parece prosseguir entre televisores ligados, rotinas familiares e interiores protegidos. A montagem não estabelece uma oposição simplista entre dois mundos estanques. Revela, antes, a coexistência entre a normalidade de uns e a destruição de outros, separados por uma distância que é simultaneamente física, política e moral. A evocação de “A Zona de Interesse”, de Jonathan Glazer, produtor executivo de “NAZA”, impõe-se: também aqui o horror se torna mais insuportável quando percebemos a facilidade com que pode permanecer fora de campo, sem interromper os gestos quotidianos. Todavia, a sobriedade do dispositivo comporta um risco. A sucessão de testemunhos, por vezes quase indiferentes à gravidade do que relatam, pode produzir uma saturação em que o horror, repetido e sistematizado, perde parte da sua capacidade de nos atingir. E a concentração quase exclusiva nas vozes israelitas, embora politicamente deliberada, deixa os palestinianos sobretudo na condição de vítimas descritas por terceiros. Quando, perto do final, a câmara abandona os panoramas nocturnos e nos confronta com um pai palestiniano à procura dos filhos entre as ruínas, a irrupção dessa presença humana adquire uma força que o filme até aí parecia suster. Não se trata de exigir emoção como ornamento, mas de reconhecer que a denúncia da desumanização não pode prescindir da restituição da humanidade aos desumanizados.

É precisamente nesta tensão entre rigor investigativo e insuficiência afectiva que “Naza” encontra os seus limites e a sua importância. O filme não revela, por si só, uma realidade desconhecida: jornalistas palestinianos, investigadores e órgãos de comunicação independentes documentam há anos a ocupação, a destruição de Gaza e os mecanismos que sustentam a violência israelita, frequentemente pagando um preço extremo por esse trabalho. O que os realizadores acrescentam é a possibilidade de escutar, do interior da estrutura militar, testemunhos que comprometem não apenas executantes individuais, mas um sistema de decisão política, tecnológica e institucional. A reacção furiosa das autoridades israelitas, acompanhada de ameaças contra os realizadores e de tentativas de transformar a denúncia em traição, confirma a dimensão política do gesto cinematográfico. “NAZA” é mais convincente a expor o funcionamento do horror do que a imaginar as condições da sua superação; mais incisivo a desmontar a máquina do que a devolver espaço àqueles sobre quem ela opera. Esta limitação, porém, não anula a urgência do filme. Num tempo em que o genocídio em Gaza continua a exigir denúncia, responsabilização e justiça, a distância entre Telavive e Gaza deixa de poder servir de álibi. O cinema, aqui, não substitui a acção nem absolve o espectador. Retira-lhe, isso sim, o conforto de alegar que não sabia.

domingo, 3 de maio de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #104



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #104
Com | Catarina Romano, Jorge Quintela, Francisco Mira Godinho
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
30 Abr 2026 | qui | 21:30


A sessão #104 do Shortcutz Ovar, a terceira da décima temporada, confirmou o fôlego e a pertinência de um projecto que se afirma como ponto de encontro privilegiado entre cinema e comunidade. Ainda o público se acomodava e já os acordes de “Grândola, Vila Morena” ecoavam na sala, prontamente acompanhados por vozes que, de forma espontânea, entoaram este verdadeiro hino nacional. Cravo rubro na lapela, Tiago Alves sublinhou a permanência viva desse símbolo de Abril, lembrando que liberdade e democracia exigem um cuidar contínuo. Com sala esgotada - e a presença de vários estreantes -, voltou a destacar-se um público atento, interventivo e generoso, que contribuiu activamente para o debate. As propostas juntaram o documental, a ficção e a imagem animada, com a noite a revelar-se coesa na diversidade de géneros, ideias e vontades e a ver-se atravessada por uma forte carga simbólica e política. No seu conjunto, os três filmes propuseram uma reflexão crítica sobre formas contemporâneas de alienação e resistência, convocando memória histórica, identidade colectiva e práticas culturais como territórios em conflito, e reinventando e persistindo nessa luta contra o apagamento e a redefinição da história que nos querem impor.

“Um Dia, Depois Outro”, de Catarina Romano, abriu a sessão sob o signo das palavra de Abril - “O Povo Unido Jamais Será Vencido” - para, de imediato, as colocar em tensão com um presente marcado pela automação, pela inteligência artificial, pela vigilância e controlo permanentes e por uma sensação difusa de colapso iminente. Trata-se de um filme enigmático, com uma forte carga política, cuja estrutura fragmentária parece nascer da urgência da dúvida e da denúncia. A narrativa de um operário que perde o passado e decide morrer funciona como alegoria de uma humanidade aprisionada entre o excesso de informação e a ilusão de liberdade. A realizadora recusa facilitar a leitura, exigindo do espectador um posicionamento activo, ainda que essa opção torne o objecto por vezes hermético. Contudo, é precisamente nessa fricção que o filme encontra a sua força, ampliada por uma animação de notável riqueza plástica, onde se pressentem ecos de Malevich, Hopper, Chaplin, Oscar Wilde ou George Orwell. No centro, permanece uma inquietação profunda: que espaço resta para a utopia num mundo saturado de controlo, propaganda e desigualdade?

Já “Stop – Salas de Ensaio Para um Materialismo Histórico”, de Jorge Quintela, propõe um mergulho documental na história e nas metamorfoses do mítico Centro Comercial Stop, na Rua do Heroísmo, no Porto, hoje símbolo da resistência cultural face à pressão uniformizadora do turismo de massas. Partindo de uma relação afectiva com o espaço - lugar de memórias de infância e de prática artística nas suas salas de ensaio -, o realizador constrói um objecto híbrido, na linha do foto-filme, assente em imagens de arquivo que ganham nova vida através de uma dramaturgia sonora particularmente expressiva. Inspirado pelo pensamento de Walter Benjamin, o filme lê o Centro Comercial Stop como ruína e como possibilidade, espaço onde diferentes temporalidades se sobrepõem e onde a cultura independente resiste às lógicas de mercantilização. Mais do que um exercício nostálgico, trata-se de um gesto político que denuncia processos de transformação urbana e social, afirmando o valor dos lugares enquanto territórios de criação e de comunidade.

A encerrar a sessão, “Antígona ou a História de Sara Benoliel”, primeira obra de Francisco Mira Godinho, mostrou-se com uma intensidade emocional difícil de ignorar. Inspirado pela tragédia clássica de Sófocles, o filme acompanha o percurso de Sara na tentativa de garantir um funeral digno ao irmão, vítima da pandemia de Covid-19, respeitando as tradições da cultura cabo-verdiana num contexto que tudo parecia interditar. A câmara fixa-se no rosto e nos gestos desta Antígona contemporânea, amplificando a dor, mas também a determinação que a move. Filmado em territórios como a Cova da Moura ou o extinto Bairro da Jamaica, o filme capta a verdade de comunidades ostracizadas, discriminadas e perseguidas, transformando o luto num acto colectivo de resistência e afirmação. O trabalho com não actores revela uma delicadeza rara, sustentada por uma ética de proximidade e partilha. Mais do que um retrato da pandemia, esta “Antígona” é uma ode à resiliência e à dignidade humana, que anuncia um olhar autoral promissor e que, pela sua autenticidade, dificilmente se apagará da memória de quem o viu. Por tudo isto - e o mais que podemos imaginar -, o filme caiu nas boas graças do público e viria a ser o mais votado da sessão.

sexta-feira, 27 de março de 2026

CINEMA: “Riefenstahl” | Andres Veiel



CINEMA: “Riefenstahl”
Realização | Andres Veiel
Argumento | Andres Veil
Fotografia | Toby Cornish
Montagem | Alfredo Castro, Stephan Krumbiegel, Olaf Voigtländer
Interpretação | Ulrich Noethen, Leni Riefenstahl, Albrecht Knaus, Raimund le Viseur, Ernest A. Ostro, Dieter Wild, Heinrich Breloer, Joseph Goebbels, Rudolf Hess, Adolf Hitler, Horst Kettner, Elfriede Kretschmer, Ray Müller, Hansjürgen Rosenbauer, Albert Speer, Willy Zielke
Produção | Sandra Maischberger
Alemanha | 2024 | Documentário | 115 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 17
23 Mar 2026 | seg | 13:25


A figura de Leni Riefenstahl permanece, quase vinte e cinco anos após a sua morte, como uma das mais inquietantes e ambíguas da história do cinema. Realizadora, actriz, bailarina e fotógrafa, a alemã construiu uma obra simultaneamente inovadora e profundamente comprometida com o regime nazi, circunstância que ensombra qualquer tentativa de avaliação puramente estética do seu legado. Filmes como “O Triunfo da Vontade” e “Olympia” não só redefiniram a linguagem cinematográfica através de técnicas de montagem, enquadramento e captação de massas, como também serviram de instrumento de exaltação ideológica. Ao longo da vida, Riefenstahl insistiu na separação entre arte e política, alegando desconhecimento dos crimes do regime que a financiou e promoveu. No entanto, essa narrativa defensiva, reiterada em entrevistas e memórias, revela-se frágil quando confrontada com documentos, imagens e testemunhos que sugerem uma proximidade efectiva com o poder nazi, incluindo relações directas com figuras como Adolf Hitler e Joseph Goebbels. A tensão entre génio artístico e cumplicidade política constitui, assim, o núcleo de uma controvérsia que nunca cessou de se reconfigurar.

É precisamente essa ambivalência que o documentarista Andres Veiel explora em “Riefenstahl”, obra apresentada fora de competição no Festival de Veneza, em Agosto de 2024, e construída a partir de um vasto espólio inédito, composto por cerca de 700 caixas de arquivos pessoais. Longe de uma biografia linear, o filme adopta uma estrutura fragmentária e situacional, cruzando excertos de entrevistas, telefonemas privados, cartas e imagens de arquivo com cenas dos próprios filmes da realizadora. Veiel opta por uma abordagem contida, deixando que as contradições de Riefenstahl emerjam das suas próprias palavras, frequentemente desmentidas pelas imagens que produziu. Ao invés de um julgamento explícito, o realizador propõe um confronto subtil entre discurso e evidência, revelando uma personalidade que oscila entre a auto-mitificação e a negação persistente. Episódios como a sua presença na Polónia em 1939 ou a utilização de figurantes ciganos em “Tiefland” são revisitados à luz de novos indícios, sugerindo níveis de conhecimento e responsabilidade mais profundos do que aqueles que a própria admitia.

Paralelamente, o filme traça o retrato de uma mulher que soube reinventar-se ao longo de décadas, mantendo um controlo rigoroso sobre a sua imagem pública. Da jovem actriz de filmes simples à cineasta consagrada do Terceiro Reich, passando pelas expedições fotográficas no Sudão ou pelos projectos subaquáticos na velhice, Riefenstahl encarnou uma modernidade inquietante, marcada pela capacidade de adaptação e pela recusa em abdicar de protagonismo. Mesmo nas suas incursões africanas, onde fotografou o povo Nuba com um olhar simultaneamente estético e problemático, reencontra-se a mesma lógica de idealização visual que marcou a sua obra anterior. Veiel sugere, assim, que a realizadora não só antecipou práticas contemporâneas de auto-promoção e financiamento artístico, como também ilustra, de forma paradigmática, os dilemas éticos da criação em contextos de poder autoritário. Entre verdade e ficção, memória e omissão, o retrato que emerge é o de uma artista que fez da própria vida uma encenação contínua. E cuja verdadeira face talvez permaneça, ainda hoje, irremediavelmente fora de campo.

quinta-feira, 5 de março de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #102



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #102
Com | Alice Eça Guimarães, André Silva Santos, Nuno Amorim, Patrícia Sobreiro, Rodrigo Alves
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
26 Fev 2026 | qui | 21:30


Franqueadas as portas da décima temporada, o Shortcutz Ovar continua a afirmar-se como um verdadeiro ponto de encontro da comunidade cinéfila vareira e de todos aqueles que encontram na sétima arte um território de descoberta e liberdade criativa. Lançado em 2017, o projecto encontrou em Ovar um espaço fértil para crescer, consolidando-se ao longo da última década como uma montra privilegiada do cinema português contemporâneo. Sessão após sessão, o certame tem dado palco a uma impressionante diversidade de propostas - do foto-filme ao documentário, da imagem animada à ficção pura e dura, sem esquecer as novas linguagens que cruzam cinema e inteligência artificial -, reflectindo a vitalidade e a constante reinvenção do formato curto. Ao longo do tempo, o Shortcutz Ovar soube catalisar as atenções e fidelizar um público cada vez mais atento e participativo, que não abdica da experiência colectiva da sala escura e que reconhece, com entusiasmo, o talento que cruza o ecrã. Celebrar esta nova temporada é, por isso, celebrar uma história de resistência cultural, de afirmação do cinema feito entre nós e de confiança num futuro onde as curtas continuam a ter, em Ovar, casa, voz e plateia. Assim foi, uma vez mais, nesta primeira sessão do ano, numa Escola de Artes e Ofícios a rebentar pelas costuras, tornada espaço de partilha e debate propícios à construção de uma relação de proximidade rara entre criadores e público.

Contrariando a lógica dominante de reservar à imagem animada o arranque da temporada, o Shortcutz Ovar abriu este novo ano com a quietude inquieta de “J’existe - Porto”, um quase foto-filme documental de Patrícia Sobreiro. Em pouco mais de dez minutos, a realizadora compõe um testemunho biográfico e intimista que nasce das suas viagens à Invicta e que transforma a cidade em matéria sensível. Sob o seu olhar, o Porto surge como casa e espelho interior, território afectivo onde cada rua parece guardar um vestígio de memória e cada rosto convocado teima em resistir ao apagamento. Num gesto assumidamente artesanal, de recusa do ruído da indústria e da voragem da produção formatada, o filme constrói-se na fricção entre a contemplação e a denúncia, entre a beleza plástica das imagens e a inquietação que as atravessa. Há enquadramentos que evocam a luz difusa de Turner, como se o casario e o rio pairassem suspensos numa névoa romântica. É sob essa superfície diáfana que pesa a consciência de uma cidade ameaçada pela gentrificação e pela turistificação, fenómenos que diluem identidades e empurram para as margens figuras genuínas que ajudam a compor o rosto da cidade e a representam. O que Patrícia Sobreiro nos oferece com esta sua curta é um acto de resistência delicada, um sussurro visual que reivindica o direito de olhar e de se demorar num mundo demasiado apressado. O direito de existir.

Amplamente aguardado - ou não fosse Alice Eça Guimarães um nome consagrado da animação portuguesa e uma realizadora querida do público do Shortcutz Ovar -, “Porque Hoje É Sábado” não frustrou as expectativas. O público distinguiu-o como melhor filme da sessão, o que se percebe não só pela verdade que se derrama da abordagem a um tema pleno de actualidade, como pela qualidade e colorido da animação, nalguns quadros a fazer lembrar um enigma de Escher. Aqui, o sábado - palavra roubada ao “Dia da Criação”, de Vinicius de Moraes - despe a ideia de repouso para voltar a ser rotina. A realizadora constrói um filme que é como um grito contido, um eco que vibra nas paredes da casa e no interior da protagonista, cercada por tarefas que se repetem com a obstinação de um castigo mitológico. Há, na coreografia exaustiva do quotidiano, qualquer coisa de sísifo moderno, o limpo que volta a sujar-se, o dia que recomeça sem que o anterior tenha nunca chegado ao fim. Vibrante e inquieta, a animação traduz a vertigem da chamada “carga mental”, esse trabalho invisível que organiza o mundo enquanto consome quem o sustenta. Entre filhos, refeições e listas intermináveis, a mulher tenta oferecer a si própria a dádiva de um tempo que se fragmenta, lhe escorre das mãos e nunca é seu. “Porque Hoje É Sábado” transforma essa frustração num retrato sensível da sobrecarga que ainda marca tantas mulheres, contrariando a ideia de uma igualdade tão apregoada, mas ainda distante da realidade.

A finalizar a sessão, “Sol Menor”, primeira obra de ficção de André Silva Santos, desenha-se como uma elegia contida às paisagens urbanas de São João da Madeira, um município que carrega em si as marcas de uma pós-industrialização silenciosa, feita de fábricas desactivadas e memórias que ecoam como notas longínquas. É Primavera, mas a estação não irrompe; insinua-se apenas numa sonata tocada em surdina, numa carta por abrir, nos vasos com plantas que respiram sobre os parapeitos das janelas. A câmara acompanha a progressão lenta do “Vouguinha”, como se o tempo tivesse aprendido a caminhar sobre carris gastos. Samuel, 38 anos, professor de flauta, move-se entre o sopro que ensina e o silêncio que o habita, repetindo rituais de luto pela falta de Luísa, companheira de música e de vida. Cada gesto é um compasso suspenso; cada parte do dia, uma pauta onde a ausência escreve a sua própria melodia. A visita do irmão virá abrir uma fractura discreta na rotina, um desvio possível no seu itinerário imóvel. Contudo, Samuel permanece figura cristalizada, homem-estação à espera de um comboio que talvez nunca chegue a partir. E, ainda assim, é dessa suspensão que brota um sentido de comunidade: das ruas que se enchem de pessoas para ver passar a procissão, das janelas que aos poucos se acendem com o anoitecer, dos pequenos rituais partilhados que tecem o sentido de pertença. Como a cidade, Samuel resiste, feito acorde menor que, na sua tristeza, guarda uma promessa ténue de redenção.

domingo, 30 de novembro de 2025

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #100 Expandida



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #100 Expandida
Com | Ana Castro e Rosalina Macieira de Castro
Apresentação | Tiago Alves
120 Minutos | Maiores de 12 Anos
Escola de Artes e Ofícios
28 Nov 2025 | sex | 21:30


Em tempo de festa e de celebração da sua sessão n.º 100, o Shortcutz Ovar quis expandir o momento a um conjunto de novos filmes, reafirmando o compromisso que, desde 2017, sustenta a relação entre o certame e o seu público. Menos participada do que o habitual, esta edição especial construiu-se em torno do tema “Corpo & Memória”, fazendo dessa promessa um gesto concreto ao colocar em diálogo duas obras que investem na forma como o tempo se inscreve em nós e nos transforma. Em “Salto”, de Ana Castro, e “Kora”, de Cláudia Varejão, o corpo surge como arquivo vivo, território onde a memória se movimenta, resiste e se reinventa. Juntas, as duas curtas foram um convite ao espectador a pensar no que permanece e no que se perde, no que se recorda através do gesto ou da palavra, mas também no que a imagem cinematográfica guarda quando tudo o resto ameaça desaparecer. Uma escolha que sublinha a maturidade do projecto e a sua capacidade de continuar a interrogar o presente, e cujas reflexões partilhadas com um público particularmente interveniente fizeram do serão um dos mais gratificantes momentos de cinema na vida do Shortcutz Ovar.

“Salto”, da realizadora Ana Castro, abriu a sessão, levando os espectadores a acompanhar o processo de revisitação das memórias da avó da cineasta, Rosalina Macieira de Castro, uma das primeiras paraquedistas civis portuguesas. Investigação íntima transformada em gesto político, o filme constrói-se como uma ponte entre gerações, cruzando imagens de arquivo pessoal, testemunhos directos e filmagens contemporâneas, que recuperam a determinação daquelas que ousaram desafiar os céus de um país marcado por uma visão redutora e retrógrada do papel da mulher. No cuidado balanço entre o peso da história e a leveza da lembrança, “Salto” afirma-se não apenas como retrato de uma época, mas como reflexão sobre o legado feminino, as ausências que persistem e o que continua por dizer. Na sessão expandida do “centenário” do Shortcutz Ovar, a presença da avó Rosalina reforçou a dimensão viva desse legado, alimentando um diálogo vibrante sobre coragem, determinação e a força de ser mulher, mas também sobre a experiência nas antigas colónias portuguesas, onde, paradoxalmente, se respirava um ar mais livre. “Salto” revela-se, assim, como o próprio gesto da realizadora: Um mergulho nas raízes e na identidade, um movimento de busca que prova que certas memórias, mesmo herdadas, continuam a pulsar no presente.

No segundo filme da noite, a curta-metragem “Kora”, Cláudia Varejão parte do gesto ancestral de fixar uma sombra na parede para iluminar a vida de mulheres refugiadas que reconstroem o presente em Portugal, trazendo no bolso o retrato de quem amam e no corpo as marcas do que deixaram para trás. Produzido pela Terratreme Filmes, o documentário convoca a mitologia grega para sublinhar a origem íntima da imagem: guardar alguém para que não desapareça. É a partir dessas fotografias, frágeis âncoras de identidade, que o filme desenha a silhueta de mulheres vindas de territórios em conflito - a Ucrânia e o Afeganistão, o Sudão, a Rússia e a Síria -, muitas delas instaladas em contextos precários, em trânsito, tentando integrar-se num país que ainda lhes oferece escasso amparo. Para quem enfrentou a travessia em condições extremas ou viu a família destruída, revisitar memórias pode ser insuportável, mas o que dizem, as ideias que partilham, continuam a ressoar em nós como um verdadeiro manifesto político. Abandonar o próprio país é “ser um jogador de futebol sem pernas”, enquanto continuar significa carregar o passado, não apagá-lo. No subtexto, impõe-se a pergunta que o filme não resolve, mas devolve ao espectador: E aqueles que não têm como fugir e acabam por sucumbir ao genocídio — como em Gaza?

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

CINEMA: “Ernest Cole: Perdido e Achado” | Raoul Peck



CINEMA: “Ernest Cole: Perdido e Achado” / “Ernest Cole: Lost and Found”
Realização | Raoul Peck
Argumento | Ernest Cole, Raoul Peck
Fotografia | Wolfgang Held, Moses Tau
Montagem | Alexandra Strauss
Interpretação | LaKeith Stanfield, Ernest Cole, Leslie Matlaisane, Jürgen Schadeberg, Gerrie Hugo, Joe Mamasela, Benzien Jeffrey, Ashley Forbes, Helen Joseph
Produção | Raoul Peck, Tamara Rosemberg
França, Estados Unidos | 2024 | Documentário, Biografia, História | 105 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 19
25 Set 2025 | qui | 16:00


“Na África do Sul tinha medo de ser preso, nos Estados Unidos tinha medo de ser morto.”

Ernest Cole foi uma figura seminal na história da fotografia documental, sendo o primeiro fotógrafo negro freelancer a emergir da África do Sul durante o regime brutal do apartheid. As suas imagens não só documentam as condições opressivas e desumanas impostas pelos poderes segregacionistas, mas também rompem o silêncio global em torno da injustiça racial naquele país. A sua coragem em capturar a realidade sem filtros fez dele um alvo do regime, forçando-o ao exílio nos Estados Unidos, onde continuou a sua luta pela justiça através da arte. O documentário de Raoul Peck, “Ernest Cole: Perdido e Achado”, não apenas celebra a obra artística de Cole, mas também revela a complexidade da sua vida pessoal e o impacto duradouro das suas fotografias, que permanecem tão poderosas hoje quanto na altura em que foram captadas. A descoberta recente de cerca de sessenta mil negativos guardados num cofre em Estocolmo adiciona uma dimensão inédita à sua narrativa, permitindo um olhar mais amplo sobre o seu legado e a profundidade do seu olhar crítico.

A construção do filme é uma verdadeira obra-prima do storytelling documental, combinando habilmente imagens de arquivo, fotografias inéditas e a narração emotiva de LaKeith Stanfield, que dá voz ao próprio Cole. Esta escolha narrativa permite que o espectador mergulhe não só nas condições sociais e políticas da África do Sul do século XX, mas também nos pensamentos íntimos do fotógrafo, que escreveu e reflectiu profundamente sobre o seu trabalho e as dificuldades do exílio. Peck cria um retrato multifacetado, onde o documento visual se torna também uma introspecção sobre identidade, perda e resistência. O filme transcende a mera biografia, convertendo-se numa reflexão poderosa sobre a arte como instrumento de denúncia e transformação social, e sobre o preço pessoal que a criação artística pode acarretar quando confrontada com regimes opressores.

Além do seu valor artístico e histórico, “Ernest Cole: Perdido e Achado” é uma análise dolorosa das consequências do apartheid, não só para o fotógrafo, mas para toda uma geração de sul-africanos negros que enfrentaram a repressão, o deslocamento e a invisibilidade. O documentário ilumina as tensões da vida no exílio, o sentimento de nostalgia e a luta pela preservação da memória num mundo que, a cada novo dia, parece obstinado em reescrever a História e em passar um pano sobre os factos mais incómodos. A redescoberta dos negativos esquecidos dá voz a um arquivo silenciado e celebra a importância da memória cultural na resistência contra a opressão. Apesar de algumas irregularidades no ritmo narrativo, sobretudo na sua parte final, o filme é uma peça fundamental para entender a intersecção entre arte, história e direitos humanos, tornando-se uma obra indispensável para quem valoriza o poder da fotografia como forma de justiça social e como testemunho eterno da humanidade.

sábado, 27 de setembro de 2025

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #98



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #98
Com | Alexandra Ramires, André Gil Mata, Frederico Lobo, Laura Gonçalves, Silvana Torricella
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
25 Set 2025 | qui | 21:30


Na entrada para a recta final da 9.ª temporada do Shortcutz Ovar, a Escola de Artes e Ofícios abriu as portas ao público para a apresentação de um novo ciclo de três curtas-metragens. Com sala cheia, a sessão decorreu sob o signo do documentário, expressando de forma clara a inquietação dos realizadores face à deriva social, económica e política crescente, que paira sobre todos como uma nuvem ameaçadora prestes a pôr em causa as conquistas de Abril. Fazem-no através de um cinema rico e vivo, fundado na memória, disposto a derrubar os muros que se erguem entre as pessoas, a exaltar a ancestralidade das relações do homem com a natureza ou a defender o direito ao lugar a que se pertence em vez da turistificação que vai empurrando para bem longe os mais vulneráveis e desprotegidos. Na qualidade de apresentador e moderador, Tiago Alves voltou a estar em foco ao chamar para o debate questões candentes como as políticas migratórias, a exploração de recursos ou a globalização e a gentrificação. Os convidados não se furtaram ao repto e fizeram valer as suas visões, enquanto o público fez também questão de intervir e animar o debate, daqui resultando mais uma extraordinária noite de cinema em versão curta.

O eclodir da Guerra Civil Espanhola, um dos conflitos mais sangrentos e ideologicamente polarizados do século XX, levou à debandada de milhares de defensores do ideal republicano. Face à ameaça da prisão ou da morte, foram muitas as pessoas que procuraram refúgio em Portugal, entre as quais se conta Eudosia Diz Lorenzo, uma jovem mulher que, juntamente com a família, encontrou abrigo na pequena e fechada comunidade de Castro Laboreiro. Embora a sua história não acabe aqui, na vertente nordeste da Serra da Peneda, é sobre este particular momento que “A Mestra” se debruça. Realizado por Silvana Torricella no âmbito da residência cinematográfica “Plano Frontal” do Festival Internacional de Documentário de Melgaço, o filme encontra na empatia e na solidariedade entre as gentes de um e outro lado da fronteira a sua âncora, partindo ao encontro de refugiados e migrantes do presente, para nos falar de princípios e valores que se sobrepõem à cegueira das leis e aos ditames da ordem. Subtilmente, Silvana Torricella carrega na tecla da esperança, oferecendo-nos um filme muito belo e pleno de significado. 

“Quando a Terra Foge”, de Frederico Lobo, leva-nos ao encontro das zonas montanhosas do norte do país, fonte de cobiça das empresas de exploração de lítio. O filme começa com duas sequências impactantes e que acabarão por marcá-lo de forma indelével. Na primeira delas, vemos um pastor no meio do nada a partir em pedaços a raiz de uma torga que irá usar no lume. Na outra, uma máquina perfura o subsolo, recolhendo amostras que possam atestar a validade de uma exploração mineira em larga escala. Entre passado e presente, este é um filme “ao correr do tempo”, que pousa um olhar sem pressas numa natureza intocada e se debruça sobre o delicado equilíbrio que o homem, desde tempos imemoriais, com ela soube estabelecer. Aqui, a vaca que se tresmalhou e está prestes a parir ou a urgência em pô-la em segurança são as únicas preocupações. Assim mesmo, de forma simples, como simples é o modo de vida das gentes da montanha, que vêem o céu olhá-las do alto e sentem que a terra está prestes a fugir-lhes debaixo dos pés. Deste tempo aparentemente suspenso, como que parado antes da chegada da tempestade que tudo destruirá à sua passagem, nos fala “Quando a Terra Foge”, testemunho vivo do que pode o progresso às mãos do homem, da sua violência sobre o meio, da imposição das suas leis sobre o indivíduo e o seu espaço.

A fechar a sessão, Alexandra Ramires e Laura Gonçalves deram a ver “Percebes”, esses crustáceos tão especiais que vivem nas rochas expostas a águas agitadas e que são de grande importância na preservação da biodiversidade marinha. Da sua enorme resistência às investidas do mar e de um ciclo de vida que termina à mesa, iguarias gastronómicas que são, retiram as realizadoras matéria suficiente para falarem do Algarve e dos seus habitantes, pressionados por um turismo que lhes rouba espaço e tempo, lhes inflaciona os custos de bens e serviços essenciais, os reduz a mão de obra barata num contexto de sazonalidade. Num registo de imagem animada de enorme beleza, com recurso à aguarela, Alexandra Ramires e Laura Gonçalves regressam aos temas fortes com grande acutilância, chamando a atenção para um Algarve que já ninguém reconhece, galinha dos ovos de ouro moribunda, castelo de cartas que se desmorona a cada dia que passa, deixando atrás de si um amontoado de destroços do qual todos quererão fugir. Em raiva e desconforto, os escorraçados regressarão para o reerguer, e eis que a história se repete. “Percebes” foi eleito o melhor filme da sessão e é, desde já, um dos mais fortes candidatos ao Prémio do Público desta temporada do Shortcutz Ovar.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

CINEMA: “Com a Alma na Mão, Caminha” | Sepideh Farsi



CINEMA: “Com a Alma na Mão, Caminha” / “Put Your Soul on Your Hand and Walk”
Realização | Sepideh Farsi
Argumento | Sepideh Farsi
Fotografia | Sepideh Farsi
Montagem | Sepideh Farsi, Farahnaz Sharifi
Interpretação | Sepideh Farsi, Fatma Hassona
Produção | Sepideh Farsi, Javad Djavahery
França, Territórios Palestinianos Ocupados, Irão | 2025 | Documentário, Drama, Guerra | 113 Minutos | Maiores de 12 Anos
Vida Ovar – Castello Lopes
19 Set 2025 | sex | 14:10


Quão atual pode ser um documentário? “Com a Alma na Mão, Caminha”, selecionado em Abril de 2024 para o Festival de Cannes, é disto o mais extraordinário exemplo, tornando-se tragicamente profético logo no dia seguinte à sua escolha: a protagonista, a fotógrafa palestiniana Fatma Hassona, foi morta num bombardeamento israelita, juntamente com seis membros da sua família, no noroeste de Gaza. Pouco antes da estreia nos cinemas, as últimas fotografias da também fotógrafa Mariam Abu Dagga circularam nos meios de comunicação — ela foi assassinada enquanto documentava mais um ataque em Khan Younis. Desde o início da guerra, a 07 de outubro de 2023, mais de duzentos jornalistas perderam a vida, entre eles três dezenas de mulheres, o maior número alguma vez registado num conflito armado. É um dado que não se fixa em estatísticas. É um grito. No passado dia 01 de setembro, centenas de órgãos de comunicação em todo o mundo silenciaram-se simbolicamente — capas negras, páginas em branco — num protesto uníssono: sem jornalistas, Gaza desaparece. E é justamente contra esse apagamento que o filme se ergue, não como obra apenas, mas como documento essencial de uma tragédia em curso. Um filme que, ao invés de terminar, continua a ser escrito no sangue dos que ousam contar.

Sepideh Farsi, realizadora iraniana, parte de um impulso quase ingénuo: queria filmar o quotidiano em Gaza, entre ruínas e rotinas, mostrando que a vida, mesmo sob cerco, persiste. Impedida de entrar no território pelas forças expansionistas e genocídas de Israel, encontra outra forma de atravessar muros: os olhos e as palavras de Fatma Hassona, com quem estabelece uma ligação íntima por videochamadas entrecortadas e silenciadas de forma inesperada. Farsi fala a partir de Itália, Marrocos, Canadá — lugares onde o tempo corre noutro ritmo —, enquanto Fatma, entre sirenes, drones, os F16 que atroam os ares com a potência dos seus motores ou o impacto das explosões, diz sempre: “estou em casa”. Mesmo quando obrigada a mudar de lugar, mesmo quando tudo à volta desaba, Gaza permanece nela. O contraste entre a mobilidade da realizadora e o enraizamento forçado da fotógrafa nunca soa a desigualdade, mas a duas formas de resistência que se encontram, se tornam cúmplices e solidárias. E é, paradoxalmente, Fatma quem consola Sepideh, quando esta se sente impotente: “É suficiente que me escutes”, diz-lhe. Nessa escuta, nasce algo mais forte do que o mero registo. Nasce uma amizade atravessada pelo horror, mas iluminada por uma humanidade invencível.

As chamadas interrompidas por bombas misturam-se com imagens das aberturas dos telejornais dando conta da escalada do conflito e com as fotografias captadas por Fatma, retratos de um quotidiano insuportável: rostos que não gritam, mas olham com uma calma que fere, como se a dor já não precisasse de ser expressa. Famílias entre escombros, crianças entre ferros retorcidos, uma criança que lava o sangue espalhado no pátio, ruínas que ainda guardam restos de dignidade. Há uma beleza quase insuportável nestas imagens, tiradas entre explosões, como se cada disparo fosse um desafio ao silêncio imposto. Fatma diz: “Tirar fotos em Gaza é como pôr a alma nas mãos e caminhar pelas ruas”. E essa frase é o coração do filme, um gesto de entrega absoluta, de coragem serena. Mas talvez o mais comovente seja o seu sorriso, uma luz suave e persistente que atravessa a câmara. Um sorriso que não nega o horror, mas o enfrenta. Quando lhe perguntam de onde vem tanta força, responde: “Não importa se nos matam, nós vamos sorrir e viver”. E é nesse sorriso — que resiste à morte, à perda, ao esquecimento — que o documentário encontra o seu verdadeiro sentido.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

CINEMA: "A Mulher que Morreu de Pé" | Rosa Coutinho Cabral



CINEMA: “A Mulher que Morreu de Pé”
Realização | Rosa Coutinho Cabral
Argumento | Rosa Coutinho Cabral
Fotografia | Susana Gomes
Montagem | Francisco Costa, Rosa Coutinho Cabral, Rui Pedro Mourão
Interpretação | Alexandra Sargento, Carolina Bettencourt, Hugo Mestre Amaro, João Araújo, João Cabral, Joana Seixas, Leonor Cabral, Leonor Coutinho Cabral, Lídia Franco, Maria Galhardo, Mariana Pacheco Medeiros, Milagres Miranda Paz, Paula Guedes, Soraia Chaves
Produção | Rosa Coutinho Cabral
Portugal | 2025 | Documentário, Biografia | 113 Minutos | Maiores de 12 Anos
Vida Ovar - Castello Lopes
14 Set 2025 | dom | 19:00


Filha das ilhas e da insubmissão, Natália Correia nasceu em 1923, na graça atlântica de São Miguel, nos Açores. O mar ensinou-lhe, desde cedo, a vastidão do espírito, um traço vincado da sua personalidade, reforçado quando, ainda jovem, se fixou em Lisboa. Eram os anos de chumbo da ditadura e Natália trazia consigo a força telúrica dos vulcões e um verbo pronto a incendiar consciências, fazendo da palavra uma espada e da poesia, refúgio e revolta. Espírito indomável, desafiou as normas sociais e culturais da sua época e abraçou sempre a luta pela liberdade e pelos direitos humanos. A sua acção política e cívica fez dela a autora portuguesa mais censurada pela ditadura. Figura incendiária, tão mítica quanto lúcida, fez do Botequim um quartel boémio e da Assembleia da República um palco político, onde a sua verve cortante desconcertou os medíocres. Deputada entre 1980 e 1991, foi sempre maior do que os partidos — livre como os que sabem que a pátria é o poema. Morreu em 1993, mas ficou a sua chama: um rasto de paixão, lucidez e rebeldia cravado na pele da literatura portuguesa.

Desta mulher irreverente, crítica, visionária e livre, nos fala Rosa Coutinho Cabral em “A Mulher que Morreu de Pé”, ensaio cinematográfico através do qual a autora, também ela natural de S. Miguel, lhe rende uma sentida homenagem. Presente nas primeiras imagens, o cunho documental do filme depressa abre espaço à ficção, graças à reunião de um conjunto de actores que, a pretexto de um casting para uma peça de teatro centrada em Natália Correia, se reúnem para falar dela, encontrar-lhe particularidades menos evidentes, declamar a sua poesia, reproduzir os seus gestos e enriquecê-la com o seu olhar sensível e espírito acutilante. Eis, precisamente, o que Rosa Coutinho Cabral pretende para um filme que procura a presença invisível trazida pela câmara, pelo som, pela luz do cinema, para ir escavando as dores, os mitos, os fantasmas nascidos na vida e na obra da poetisa. Iguais a si próprios, os actores convocam para o seu modo de representar a figura de Natália, embora as personagens sejam o que menos importa à realizadora. Aquilo que realmente interessa é criar imagens que evoquem situações, deixando o caminho livre ao espectador para que, também ele, sinta a necessidade de “desenhar” a sua própria Natália.

Com “A Mulher que Morreu de Pé”, Rosa Coutinho Cabral assina um filme notável que foge aos moldes tradicionais do documentário, oferecendo uma abordagem ousada e profundamente sensível sobre a figura multifacetada de Natália Correia. Ao cruzar investigação documental, teatro, recriação ficcional e instalação visual, a realizadora propõe um exercício de cinema que ilumina, desconstrói e ressuscita a poetisa. O filme torna-se numa obra multidisciplinar, refletindo tanto sobre Natália como sobre o próprio acto de filmar, num registo íntimo de diário de bordo. Rosa Coutinho Cabral está presente ao longo de toda a narrativa: recorta, lê, entrevista, dirige, observa – como se costurasse memórias e imagens numa tentativa comovente de manter viva a presença e o pensamento da escritora. O casting de actores para a peça “Colheres de Prata” - que a autora / encenadora apresentou ao público nos Açores e na Madeira -, os testemunhos de amigos e estudiosos, as imagens de arquivo e as intervenções fantasmagóricas de Natália, constroem uma atmosfera única, só possível graças ao notável trabalho de realização. Ao dar palco às múltiplas “Natálias”, Rosa Coutinho Cabral celebra a sua imortalidade literária e humana, provando que o legado de Natália Correia ainda pulsa, tão urgente quanto necessário.

sábado, 19 de julho de 2025

CINEMA: "Lindo"



CINEMA: “Lindo”
Realização | Margarida Gramaxo
Fotografia | Hugo Azevedo
Montagem | Grazie Pacheco
Interpretação | Lindo (Manuel da Graça), Regina Lopes, Márcia da Graça, Nataniel da Graça
Produção | Portugal | 2023 | Documentário | 90 Minutos | Maiores de 6 Anos
Vida Ovar - Castello Lopes
18 Jul 2025 | sex | 13:05


Também conhecida como Tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), a tartaruga Sada é a última espécie de tartaruga marinha em reprodução na costa oeste africana, tendo São Tomé e Príncipe como seu último refúgio reprodutivo. Trata-se de uma das cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no arquipélago, quatro da quais inscritas na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. Criticamente ameaçada de extinção, a espécie enfrenta diversas ameaças como a captura indiscriminada para consumo e uso da carapaça, a urbanização das praias, as mudanças climáticas ou a captura ilegal. Projectos como o Programa SADA, da Universidade do Algarve, ou o Programa Tatô, têm-se mostrado preciosos para a sua protecção e conservação. No entanto, apesar dos esforços, a Tartaruga-de-pente continua a enfrentar sérios riscos e a preocupar os ambientalistas face ao aumento da prática de caça furtiva. O envolvimento das comunidades locais e de diversos actores sociais mostra-se fundamental para garantir a sobrevivência a longo prazo desta espécie.

É esta realidade que “Lindo” aborda, abrindo uma nova frente no amplo debate sobre o difícil equilíbrio entre o Homem e a Natureza. Rodado integralmente na Ilha do Príncipe ao longo de quase uma década, esta primeira longa-metragem de Margarida Gramaxo segue os passos de Lindo (Manuel da Graça) que durante mais de vinte anos caçou tartarugas como meio de subsistência. Depois de um encontro com uma tartaruga inesperadamente dócil, decidiu mudar de vida para começar a proteger o animal contra os seus predadores, com o homem à cabeça. Juntamente com outros caçadores de tartarugas começou a colaborar num projecto de desenvolvimento sustentável da ilha e trabalha actualmente em conservação marinha. O processo de mudança leva-o a mergulhar no seu passado em busca de pistas que lançam o debate sobre o futuro de uma ilha com uma frágil base de sustentação social e económica e cuja natureza luxuriante começa a sofrer as pressões de um turismo até aqui praticamente inexistente. Para o futuro a comunidade tem, inevitavelmente, de conciliar tradição e mudança.

Sensível a uma realidade de mudança no seio de uma comunidade frágil, Margarida Gramaxo desenvolve um documentário que é um verdadeiro poema visual. Em uma hora e meia de filme, a realizadora sabe tirar partido das vivências intergeracionais ainda em estado puro, do modo de vida das populações, da forte dependência daquilo que a floresta e o mar tem para oferecer. Respeitado no seio da comunidade, Lindo é o pivot da história, a figura que Margarida Gramaxo segue de perto e através da qual nos leva ao encontro das relações familiares e grupais, das tradições locais, do pensar dos habitantes ou da beleza ímpar de uma natureza intocada. Apaixonada pela natureza da Ilha e ciente das ameaças que sobre ela pendem, transforma uma simples fábula marinha num grito de alerta sobre a extinção das espécies, a poluição marinha ou o turismo de massas. O resto é esse olhar, terno e púdico, sobre a figura de Lindo, o deslumbrante bailado de quem mergulha no mar em busca de sustento, uma tartaruga que, depois da postura de uma noite, regressa ao mar e a uma vida no fio da navalha.

terça-feira, 8 de julho de 2025

CINEMA: "Estou Aqui" | Zsófi Paczolay, Dorian Rivière



CINEMA: “Estou Aqui”
Realização | Zsófi Paczolay, Dorian Rivière
Fotografia | Dorian Rivière
Montagem | Joana Góis, Dorian Rivière, Zsófi Paczolay
Interpretação | Plácido, Maria Teresa Bispo, Tiago
Produção | Terratreme Filmes
Portugal | 2024 | Documentário | 79 Minutos | Maiores de 14 Anos
Vida Ovar – Castello Lopes
07 Jul 2025 | seg | 13:55


Em março de 2020, sob a pressão da emergência da pandemia de COVID-19, o maior complexo desportivo de Lisboa, o Casal Vistoso, viu-se transformado numa estrutura multifuncional temporária com capacidade para cem pessoas em situação de sem-abrigo. Sob a liderança de Maria Teresa Bispo e com uma filosofia única baseada na comunicação, inclusão e empoderamento, os residentes foram capazes de restaurar uma cultura de cuidado e apoio mútuo e de encontrar uma voz e um sentido de pertença neste lugar de soluções, apesar do desprezo da vizinhança e do alheamento de uma sociedade à beira do colapso. Pese embora as muitas dificuldades, o centro revelou-se um lugar seguro, graças a uma escolha estratégica de proporcionar a maior equidade possível entre todos e devolver a confiança a um conjunto de pessoas a viver há demasiado tempo nas ruas. Foi lá que Zsófi Paczolay e Dorian Rivière, realizadores de “Estou Aqui”, começaram a fazer voluntariado, distribuindo cafés, comida e cigarros, comendo com os outros técnicos, funcionários de limpeza e voluntários, conhecendo muitas pessoas que aceitaram partilhar as suas histórias e tornando-se lentamente parte desta comunidade em crescimento.

Quando chegaram ao Casal Vistoso, os dois realizadores perceberam imediatamente a singularidade e o poder de um projecto inovador. Contrariando a lógica do “cada um por si” como resposta ao evoluir da situação sanitária e ao alarme social crescente, o centro propunha uma abordagem oposta, incentivando a inclusão e o cuidado aos mais excluídos, encorajando-os a participar, a dar a sua opinião e a construir uma organização evolutiva e democrática. Após algumas semanas no abrigo, Zsófi Paczolay e Dorian Rivière perceberam haver dois residentes que se destacavam dos restantes, revelando-se muito sociais e ativos dentro da comunidade. Com naturalidade, Tiago e Plácido tornaram-se os protagonistas deste documentário, guiando o espectador através das suas rotinas diárias, mas também dos seus momentos mais íntimos, já que o centro assumiu o lugar de uma nova “casa” para todos. Aceitando o desafio de filmar num lugar assim, com todos os cuidados em relação ao bem-estar e à aprovação das pessoas, bem como às questões éticas implicadas no processo, a dupla de cineastas soube combinar na perfeição o cuidar e o filmar, contando para tal com a aceitação e o reconhecimento de todos.

Construído com enorme sensibilidade, o documentário mostra como é possível estabelecer um sistema onde os mais carenciados se possam sentir seguros, obter comida e uma cama, num mesmo sítio que lhes possibilita o acesso a diferentes organizações de apoio, com soluções ao nível da saúde, alojamento permanente e possibilidades de trabalho, dependendo da situação de cada um. Ao contrário de outros abrigos, aqui qualquer pessoa necessitada era bem acolhida: casais, jovens ou idosos, locais ou estrangeiros, pessoas LGBTQ+, pessoas com animais de estimação, problemas de adição, saúde mental ou com passado criminal. O que era tão especial naquele lugar era que não estava apenas focado numa resposta a curto prazo para a falta de habitação, mas realmente desenvolveu-se numa iniciativa a longo prazo para encontrar trabalho e casas para os residentes, com apoio personalizado. E, sim, o filme mostra que as pessoas começaram a acreditar que desta vez poderia ser diferente, que teriam hipótese de construir uma nova vida. Mas também põe a nu a fragilidade e as incertezas dos programas de reintegração sustentável sem o cuidado e os recursos adequados. Infelizmente, devido às mudanças políticas, o programa deixou de ter apoio e já não existe nestes moldes. Para ver e reflectir!

terça-feira, 1 de julho de 2025

CINEMA: "Mississipis" | António-Pedro



CINEMA: “Mississipis”
Realização | António-Pedro
Fotografia | António-Pedro, Miguel Canaverde, Vasco Saltão
Montagem | António-Pedro, Cláudia Rita Oliveira
Interpretação | Filipa Francisco, Susana Gaspar, António Torres, Ricardo Freitas, Pietro Romani
Produção | António-Pedro, Caroline Bergeron, João Matos, João Moreira, Leonor Noivo, Luísa Homem, Pedro Pinho, Susana Nobre, Tiago Hespanha
Portugal | 2024 | Documentário | 88 Minutos | Maiores de 12 Anos
Vida Ovar - Castello Lopes
27 Jun 2025 | sex | 13:05


Antes de falarmos de “Mississipis”, o documentário, falemos de “A Viagem”, espectáculo de dança. “A Viagem” começou com uma viagem que a coreógrafa e artista transdisciplinar Filipa Francisco fez a Ramallah, na Palestina, para trabalhar com Carlos Pez e com a El-Funoun, companhia de dança tradicional e contemporânea desta cidade. Trabalhar sobre as danças tradicionais, para esta companhia, é uma questão de afirmação de identidade e de sobrevivência a uma colonização brutal, um acto de resistência, de reconstrução e de sobrevivência deste país. Quando Filipa Francisco regressou a Portugal, quis perceber as danças tradicionais, o que tinham de identidade e de resistência. E, com o impulso de um desafio do cineasta Tiago Guedes, iniciou um projecto de investigação e criação que mistura a dança tradicional com a contemporânea, ao qual decidiu chamar “A Viagem”. Daí em diante, quase podemos intuir o convite a outros artistas para integrarem o projecto, o trabalho em residência artística com os grupos folclóricos, o envolvimento de todos os participantes em matéria de co-criação, o desenho das partituras coreográficas e musicais, enfim, a apresentação do trabalho num tão aguardado espectáculo final.

Neste cruzamento de grupos de desconhecidos que, no interior de Portugal, embarcam numa viagem artística e existencial, vamos encontrar António-Pedro, artista multidisciplinar e autor da música da peça, alguém cuja sensibilidade o levou a fixar a viagem humana que foi acontecendo em cada uma das residências, desde o início do projecto, em 2011. Durante cerca de dez anos, o realizador foi registando estes processos em vinte e cinco locais diferentes, em Portugal, no Brasil e no País de Gales. Fazendo incidir o seu olhar sobre o ponto de junção dos que chegam da cidade e do “contemporâneo”, com os que são do campo e da “cultura popular”, o realizador conta histórias, convoca memórias e dialoga com a vida, ao mesmo tempo que espreita o insondável de si próprio e de cada personagem. As imagens são a prova de que “A Viagem” só se conquista no espaço não formal, no encontro entre o que pessoas tão diferentes podem ter de comum. Entre outras coisas e sintetizando: ter um corpo. Um corpo que dança, que consegue e não consegue, que se cansa, que envelhece, que trabalha, que se diverte, que deseja, que quer, que se transforma. E que, ocasionalmente, consegue ligar-se e formar um corpo comum.

Tentando segurar o tempo, “Mississipis” é, nesse desígnio do prolongar “A Viagem”, um manifesto sobre a importância vital do encontro, das relações de confiança que cada um estabelece com os outros, mas também consigo próprio. Atento às várias fases de um processo intensificado pela necessidade de levantar um espetáculo num período demasiado curto, António-Pedro mostra-nos de que forma o espaço e o tempo são explicados e partilhados. Trabalha-se a liberdade de fazer com o corpo. Improvisa-se. Num chão que é palco, as quedas são tudo menos acidentes. Propõem-se imagens que possam ajudar a criar quadros na dança. Descobrem-se coisas novas. Soltam-se emoções, risos, sussurros e histórias contadas baixinho. Ensaia-se em casa e no campo, na farmácia, no posto médico, no corredor da fábrica. Há sempre medo, mas quando as máscaras caem, sente-se uma liberdade enorme e uma vibração comum a todos. “Mississipis” é um documentário muito belo, que nos vem falar de uma espécie de utopia, a possibilidade de uma verdadeira união entre um grupo de indivíduos, capazes de criar, em conjunto, novos passos, novas relações entre si, novos futuros.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

CINEMA: "Coro"



CINEMA: “Coro”
Realização | Edgar Ferreira
Argumento | Edgar Ferreira, Mafalda Almeida, Andrea Lupi
Fotografia | João Biscaia
Montagem | Edgar Ferreira, Steven Nascimento
Interpretação | Verónica Milagres da Silva, Filipa Passos, Miguel La Féria, Rui Aleixo, Marisa Figueira, Lucília de Jesus, Mónica Santos, Rui Gonçalo Fernandes, Lucinda Gerhardt, Inês Martins, Maria Fátima Nunes, Manon Marques, Sara Afonso, Rui Miranda, Ariana Russo
Produção | Mafalda Almeida, André Vieira
Portugal | 2025 | Documentário | 86 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 7
06 Abr 2025 | dom | 14:20


Esforço, entrega, cumplicidade, resiliência, vulnerabilidade, sacrifício, emoção, paixão... Mil palavras não chegariam para descrever o objecto filmico que dá pelo nome de “Coro”, documentário encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian à produtora Galope Films, no 60.º aniversário do Coro Gulbenkian. Da primeira apresentação pública, sob a direcção de Olga Violante, a 27 de Maio de 1964, até aos nossos dias, o filme traça o percurso de um agrupamento de uma coesão inabalável, muito justamente reconhecido e aclamado, tanto dentro de portas como além-fronteiras. Realizado por Edgar Ferreira, o filme surge na sequência do excelente “Soma das Partes”, documentário sobre a Orquestra Gulbenkian, e de um outro menos conhecido intitulado “A música é bela, os aeroportos são tristes”, dedicado ao maestro Michel Corboz, personalidade ímpar do mundo da música e que dirigiu o Coro Gulbenkian ao longo de cinquenta anos, até 2019.

Em “Coro”, Edgar Ferreira decidiu abordar o Coro Gulbenkian através dos olhares, das vozes e das emoções dos seus elementos. Ao longo de quase uma hora e meia, ele mostra que por detrás de um som inconfundível, dos inúmeros concertos, trabalhos discográficos e distinções que o Coro vem coleccionando, existe um grupo de pessoas com vidas paralelas, nem sempre ligadas à música, onde se incluem professores, engenheiros, advogados, atletas, actores, médicos, enfermeiros, terapeutas da fala, musicólogos e até um enólogo. No cair da noite, de muitas noites, vemos como se reúnem e trabalham no exercício permanente de criar um corpo artístico de uma só voz. Desta arte de conciliar a vida pessoal com a verdadeira paixão que é pertencer ao Coro, retira o filme os maiores proventos. Ao desviar o foco dos factos históricos, de uma certa cronologia ou das personalidades que nele deixaram a sua marca - sobretudo Michel Corboz, mas também Fernando Eldoro e Jorge Matta -, o realizador humaniza o filme, trazendo o espectador para o seu interior.

Filmado com uma grande proximidade, “Coro” consegue transmitir o ambiente de absoluta confiança que reina no seio do grupo, algo que é reforçado no dia a dia pelo que cada um trás de fora e que, na sua vivência única, se torna parte do todo. A partilha torna-se palpável à medida que o filme avança e vamos percebendo o envolvimento de cada um no processo de filmar o “seu” Coro e fazer com que daqui venha a sair (mais) um objecto de que todos se possam orgulhar. O resultado não poderia ser mais feliz, já que o processo de realização espelha o funcionamento do Coro Gulbenkian: aproximação, contacto, trabalho colectivo. A lógica do trabalho artístico em conjunto, razão de ser do agrupamento, aplica-se à construção do documentário, daqui resultando aquilo a que se poderá chamar “um filme coral”. Por muitas diferenças que possam existir entre os vários elementos do Coro, o empenho de todos vai no caminho da perfeição.“Coro” poderá não ser um documentário perfeito, mas andará lá perto.

terça-feira, 11 de março de 2025

CINEMA: "No Other Land"



CINEMA: “No Other Land”
Realização | Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdan Ballal, Rachel Szor
Argumento | Basel Adra, Rachel Szor, Hamdan Ballal, Yuval Abraham
Fotografia | Rachel Szor
Montagem | Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdan Ballal, Rachel Szor
Interpretação | Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdan Ballal
Produção | Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdan Ballal, Fabien Greenberg, Bård Kjøge Rønning, Rachel Szor
Palestina, Noruega | 2024 | Documentário | 92 Minutos | Maiores de 12 Anos
Cinema Trindade - Sala 1
10 Mar 2025 | seg | 16:15


À medida que vamos sendo testemunhas dos horrores que vitimam as populações dos territórios palestinianos sob ocupação israelita e as tragédias gritantes que a ofensiva sionista provoca, percebemos um quotidiano de dor e sofrimento, com deslocações constantes, todo o tipo de perseguições, privações e genocídio. A questão, porém, não se limita a Gaza, que vem sofrendo com uma guerra criminosa há mais de um ano, mas também a toda a presença palestiniana nas terras que, de um ponto de vista histórico, são as suas. Daí a importância de um filme como “No Other Land”, de Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal e Rachel Szor, recentemente galardoado com o Óscar da Academia de Hollywood para Melhor Documentário. Produzido por um grupo israelo-palestiniano, o filme documenta a destruição de Masafer Yatta, localidade do sul da Cisjordânia que inclui várias aldeias e comunidades herdeiras das antigas tribos beduínas. As habitações originais eram cavernas escavadas na rocha e sobreviveram até aos nossos dias, mas nos últimos tempos as condições de vida dos habitantes melhorou substancialmente com a mudança para habitações um pouco melhores, a chegada da electricidade e da água potável e mesmo a construção de uma escola e de um parque infantil.

Basel Adra, jovem advogado que há muito tempo documenta as violações do exército israelita e as atrocidades contra a população palestiniana, cresceu e vive precisamente numa dessas comunidades. Nos últimos anos, pode contar com a companhia do jornalista israelita Yuval Abraham na recolha e publicação de notícias, daqui resultando uma sólida amizade entre os dois. Mas enquanto Yuval tem a liberdade de conduzir o seu carro, cruzar a fronteira e regressar a Israel sempre que quiser, Basel está impedido de o fazer depois de lhe terem sido confiscados os documentos de identificação. Na mesma situação dramática vivem os habitantes da região e de outras terras vizinhas, pelo facto de Israel ter declarado a área como zona especial de treino militar. A qualquer hora do dia ou da noite, as terras são confiscadas e as demolições começam de imediato, sem que um tecto seja providenciado a famílias inteiras forçadas a deixar as suas casas. As canalizações são arrancadas ou os tubos cortados, os geradores eléctricos destruídos e a escola terraplanada. Vendo os colonatos a crescerem à sua volta e sem sítio onde ficar, o povo de Masafer Yatta é forçado a mudar-se para a sobrelotada Faixa de Gaza. Não há outra terra para onde ir. Nenhuma outra terra, na verdade.

Heroína absoluta do filme, a câmara regista a fuga da população civil, o afã destruidor das escavadoras, os soldados que empurram os jornalistas e os impedem de fazer o seu trabalho, até que uma mão israelita bloqueia o fluxo de imagens e os fotógrafos são forçados a fugir, ficando apenas o registo dos gritos e da sua respiração ofegante. Numa prova de activismo pacífico, Basel Adra e Yuval Abraham mostram que, por muito improvável que seja, é possível uma saída para o conflito: Longe das violações, longe das vítimas, longe dos sentimentos de vingança, o caminho para uma possível coexistência existe, e a amizade e cooperação entre advogado e jornalista são disso a mais forte das evidências. As últimas filmagens do quarteto de realizadores e argumentistas datam do Verão de 2023, antes do ataque do Hamas a Israel, a 07 de Outubro desse ano. A opressão e a violência sofridas pelas famílias de Masafer Yatta não se relacionam de forma directa com estes acontecimentos, mas são o resultado da anos e anos de abuso do poder por parte de Israel, de forma completamente arbitrária e injusta sobre os territórios que decidiu ocupar. Este pequeno e corajoso documentário torna isso bem claro.