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domingo, 31 de maio de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #105



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #105
Com | Marta Reis Andrade, Joãozinho da Costa, Diogo Salgado
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
28 Mai 2026 | qui | 21:30


Concluída que está a primeira metade da décima temporada, o Shortcutz Ovar continua a afirmar-se como um espaço privilegiado de descoberta do melhor cinema português em formato curto, seja ele de ficção ou documental, de imagem animada ou ancorado num território híbrido de nem sempre fácil catalogação. Para um público fiel e cúmplice, a última quinta-feira do mês reveste-se de um ritual de prazer cinéfilo que passa por reservar a noite, atravessar a cidade, deixar-se abraçar pelo aconchego da Escola de Artes e Ofícios e, entre conversas e risos, reforçar essa proximidade única que liga o ecrã à plateia. Curiosamente, o sentimento de deslocação, pertença e abrigo que move os espectadores do Shortcutz Ovar, encontrou nos filmes exibidos na passada quinta-feira linhas paralelas. “Cão Sozinho”, “Sabura” e “Vultosos Cumes”, as três curtas exibidas, tiveram a uni-las os encontros e reencontros, encruzilhadas e lugares, identidades e afectos, a deriva das personagens em busca de ser, repousar ou sonhar com um lugar a que possam chamar casa.

“Cão Sozinho”, de Marta Reis Andrade, abriu a sessão em tom de fábula, oferecendo uma narrativa intimista, marcada pela perda e o abandono. A história real de um cão deixado sozinho em casa, cruza-se com a viuvez do avô Adriano e com o regresso da realizadora de Londres, cidade onde experimentou uma solidão funda. A emotiva conversa que Marta Reis Andrade manteve com o público do Shortcutz Ovar foi ao encontro do antigo sonho de “ser personagem de desenho animado”, desejo que ganha corpo numa obra profundamente autobiográfica e emocionalmente desarmante, ancorada na memória, no medo e na necessidade urgente de apego. A referência a Andrei Tarkovski - “só vale a pena fazermos um filme se tivermos algo a acrescentar à vida” - surge como verdadeira declaração de princípios para uma curta-metragem que encontra no cuidar uma forma de resistência ao sofrimento. De solidão nos fala “Cão Sozinho”, mas também da possibilidade de sarar as feridas do mundo através do carinho, da proximidade e do gesto simples de um abraço. Uma homenagem comovente à velhice, à fragilidade e à importância de continuarmos a amar antes da inevitabilidade.

Depois de “Mistida”, em 2023, Falcão Nhaga regressou à competição do Shortcutz Ovar com “Sabura”, a história de amor de um casal guineense transformada em retrato maior das deslocações, pertenças e fracturas do ser migrante hoje. Tony e Cadija são esse corpo em trânsito que segue “de mala às costas à procura dos sonhos”, mas que encontra pelo caminho precariedade, invisibilidade e hostilidade. Falcão Nhaga filma rostos, silêncios e gestos com uma delicadeza rara, fazendo da cidade um espaço de encontros improváveis, onde convivem diferenças de género, religião, condição social e identidade cultural. A referência à mutilação genital feminina ou um ambiente cada vez mais hostil, alimentado pela ascensão da direita ultra-conservadora e da extrema-direita populista, são sombras que atravessam o filme. Ao mesmo tempo, o realizador filma com enorme sensibilidade uma Lisboa plural, mestiça, periférica e profundamente humana. Nesse gesto reside a força simbólica da obra, a insistência de criadores e actores luso-africanos em desbravar caminho e reclamar visibilidade para histórias que sempre fizeram parte da cidade, mas que raramente ocupam o centro da narrativa.

A sessão encerrou com “Vultosos Cumes”, a mais recente curta-metragem de Diogo Salgado. Cruzando o realismo social com uma dimensão quase fantasmática da memória, o realizador parte de uma experiência profundamente autobiográfica, marcada pela emigração e pela ausência masculina no seio familiar, para vincar a ideia de distância, seja ela física, afectiva ou imagética. O filme acompanha um jovem serralheiro na sua primeira viagem para França, integrando um universo laboral duro, cinzento e mecanizado. Há em “Vultosos Cumes” uma tentativa deliberadamente artificiosa de transformar a distância em linguagem cinematográfica, quer através da luz irreal e das sequências filmadas em estúdio, quer pela construção de um espaço suspenso entre o concreto e o imaginado, um verdadeiro “lugar-não lugar”, simultaneamente familiar e abstracto. O olhar inaugural dos mais novos sobre os Alpes, o encantamento pela beleza agreste e nevada da paisagem, contrasta com a dureza silenciosa do trabalho e da condição emigrante, incapaz ainda de reconhecer o peso dessa realidade. Um poema em forma de filme, feito de sonho, bilhete postal e fascínio, mas também de ausência, poeira e perda da inocência.

domingo, 3 de maio de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #104



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #104
Com | Catarina Romano, Jorge Quintela, Francisco Mira Godinho
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
30 Abr 2026 | qui | 21:30


A sessão #104 do Shortcutz Ovar, a terceira da décima temporada, confirmou o fôlego e a pertinência de um projecto que se afirma como ponto de encontro privilegiado entre cinema e comunidade. Ainda o público se acomodava e já os acordes de “Grândola, Vila Morena” ecoavam na sala, prontamente acompanhados por vozes que, de forma espontânea, entoaram este verdadeiro hino nacional. Cravo rubro na lapela, Tiago Alves sublinhou a permanência viva desse símbolo de Abril, lembrando que liberdade e democracia exigem um cuidar contínuo. Com sala esgotada - e a presença de vários estreantes -, voltou a destacar-se um público atento, interventivo e generoso, que contribuiu activamente para o debate. As propostas juntaram o documental, a ficção e a imagem animada, com a noite a revelar-se coesa na diversidade de géneros, ideias e vontades e a ver-se atravessada por uma forte carga simbólica e política. No seu conjunto, os três filmes propuseram uma reflexão crítica sobre formas contemporâneas de alienação e resistência, convocando memória histórica, identidade colectiva e práticas culturais como territórios em conflito, e reinventando e persistindo nessa luta contra o apagamento e a redefinição da história que nos querem impor.

“Um Dia, Depois Outro”, de Catarina Romano, abriu a sessão sob o signo das palavra de Abril - “O Povo Unido Jamais Será Vencido” - para, de imediato, as colocar em tensão com um presente marcado pela automação, pela inteligência artificial, pela vigilância e controlo permanentes e por uma sensação difusa de colapso iminente. Trata-se de um filme enigmático, com uma forte carga política, cuja estrutura fragmentária parece nascer da urgência da dúvida e da denúncia. A narrativa de um operário que perde o passado e decide morrer funciona como alegoria de uma humanidade aprisionada entre o excesso de informação e a ilusão de liberdade. A realizadora recusa facilitar a leitura, exigindo do espectador um posicionamento activo, ainda que essa opção torne o objecto por vezes hermético. Contudo, é precisamente nessa fricção que o filme encontra a sua força, ampliada por uma animação de notável riqueza plástica, onde se pressentem ecos de Malevich, Hopper, Chaplin, Oscar Wilde ou George Orwell. No centro, permanece uma inquietação profunda: que espaço resta para a utopia num mundo saturado de controlo, propaganda e desigualdade?

Já “Stop – Salas de Ensaio Para um Materialismo Histórico”, de Jorge Quintela, propõe um mergulho documental na história e nas metamorfoses do mítico Centro Comercial Stop, na Rua do Heroísmo, no Porto, hoje símbolo da resistência cultural face à pressão uniformizadora do turismo de massas. Partindo de uma relação afectiva com o espaço - lugar de memórias de infância e de prática artística nas suas salas de ensaio -, o realizador constrói um objecto híbrido, na linha do foto-filme, assente em imagens de arquivo que ganham nova vida através de uma dramaturgia sonora particularmente expressiva. Inspirado pelo pensamento de Walter Benjamin, o filme lê o Centro Comercial Stop como ruína e como possibilidade, espaço onde diferentes temporalidades se sobrepõem e onde a cultura independente resiste às lógicas de mercantilização. Mais do que um exercício nostálgico, trata-se de um gesto político que denuncia processos de transformação urbana e social, afirmando o valor dos lugares enquanto territórios de criação e de comunidade.

A encerrar a sessão, “Antígona ou a História de Sara Benoliel”, primeira obra de Francisco Mira Godinho, mostrou-se com uma intensidade emocional difícil de ignorar. Inspirado pela tragédia clássica de Sófocles, o filme acompanha o percurso de Sara na tentativa de garantir um funeral digno ao irmão, vítima da pandemia de Covid-19, respeitando as tradições da cultura cabo-verdiana num contexto que tudo parecia interditar. A câmara fixa-se no rosto e nos gestos desta Antígona contemporânea, amplificando a dor, mas também a determinação que a move. Filmado em territórios como a Cova da Moura ou o extinto Bairro da Jamaica, o filme capta a verdade de comunidades ostracizadas, discriminadas e perseguidas, transformando o luto num acto colectivo de resistência e afirmação. O trabalho com não actores revela uma delicadeza rara, sustentada por uma ética de proximidade e partilha. Mais do que um retrato da pandemia, esta “Antígona” é uma ode à resiliência e à dignidade humana, que anuncia um olhar autoral promissor e que, pela sua autenticidade, dificilmente se apagará da memória de quem o viu. Por tudo isto - e o mais que podemos imaginar -, o filme caiu nas boas graças do público e viria a ser o mais votado da sessão.

terça-feira, 23 de abril de 2024

CINEMA: "O Poder da Terra"



CINEMA: “O Poder da Terra” / “Chlopi”
Realização | DK Welchman, Hugh Welchman
Argumento | DK Welchman, Hugh Welchman
Fotografia | Szymon Kuriata, Radek Ladczuk, Kamil Polak
Montagem | Beata Hincke, Patrycja Piróg, Miki Wecel, DK Welchman
Interpretação | Kamila Urzedowska, Robert Gulaczyk, Miroslaw Baka, Sonia Mietielica, Ewa Kasprzyk, Cyprian Grabowski, Mateusz Rusin, Cezary Lukaszewicz, Dorota Stalinska, Helena Korczycka, Andrzej Mastalerz, Andrzej Konopka, Sonia Bohosiewicz
Produção | Sean M. Bobbitt, Hugh Welchman
Polónia | 2023 | Animação, Drama, História | 114 Minutos | Maiores de 14 anos
UCI Arrábida 20 - Sala 7
22 Abr 2024 | seg | 16:05


“O Poder da Terra” é um filme de animação e, simultaneamente, uma ficção histórica sobre a vida na Polónia rural no início do século XX. A história centra-se em Jagna, uma mulher pobre que vive na aldeia de Lipce. Dotada de uma grande sensibilidade, gosta de fazer recortes em papel, mas sabe que a arte não é caminho viável num meio onde a ambição não vai além de uma boa colheita e a desconfiança e a tacanhez se impõe nas conversas e nas atitudes. Acabado de enviuvar, o primeiro agricultor, de entre todos o mais rico, acaba por despojar Jagna, cujo coração pende para um dos enteados. Numa cidade pequena e coscuvilheira, são poucos os segredos que podem permanecer ocultos e Jagna acaba por ser apanhada pelo marido e o castigo não tarda em chegar. Entretanto, a aldeia vive momentos de crise, com a perda das colheitas, e é necessário encontrar um bode expiatório. Jagna será maltratada e vilipendiada, acabando por ser expulsa da aldeia.

É difícil ver “O Poder da Terra” como um filme de animação, de tal forma estamos habituados ao estilo específico de uma Disney ou de uma Pixar. Animação é sinónimo de desenho animado, feito para ser algo que claramente não tem base no realismo. Mas olhamos para este filme e estamos, obviamente, no domínio da animação. Cada fotograma parece uma pintura exibida nas paredes de um museu que, como por magia, ganha vida. Um rubor nas bochechas de Jagna, um brilho nos olhos de Antek, um sorriso nos lábios, falam-nos de arte em movimento entendida de uma forma literal. As personagens não parecem ter sido criados apenas para o filme. Os seus movimentos são naturais, há emoção no seu olhar, e isto deve-se à rotoscopia, um processo de animação utilizado com maestria pela dupla de cineastas DK e Hugh Welchman. Um processo lento e meticuloso que permite recriar rostos e ambientes, roupas e movimentos, e que resulta num deleite visual absolutamente cativante.

Baseado numa obra em quatro volumes de Władysław Reymont, escritor e romancista polaco galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1924, “O Poder da Terra” lança um olhar sobre a liberdade da mulher no início do século XX. Ambiciosa, a adaptação cinematográfica procura abranger os acontecimentos dos quatro volumes, o que fatalmente joga contra si. Parece faltar alma às personagens, órfãs de um desejo profundo que explique as suas motivações. Há folclore a mais, e momentos introspectivos de construção e desenvolvimento das personagens a menos. Apesar destes problemas estruturais, seria injusto não valorizar o filme, sobretudo naquilo que ele tem de labor artístico. Foram mais de duzentas mil horas a criar as pinturas a óleo que dão origem ao movimento que o público vê no ecrã. Artistas da Polónia, Lituânia, Ucrânia e Sérvia juntaram-se para tornar possível este filme, e a experiência visual de “O Poder da Terra” é algo de verdadeiramente inesquecível.

quinta-feira, 28 de março de 2024

CINEMA: "Mataram o Pianista"



CINEMA: “Mataram o Pianista” / “They Shot the Piano Player”
Realização | Javier Mariscal, Fernando Trueba
Argumento | Fernando Trueba
Direcção artística | Javier Mariscal
Montagem | Arnau Quiles
Interpretação (vozes) | Jeff Goldblum, Tony Ramos, Abel Ayala, Roberta Wallach, Ângela Rabello, Stephen Hughes, Alejandra Flechner, Vinicius de Moraes, Malena Barreto, Chico Buarque, Gilberto Gil, João Gilberto, Edu Lobo, Milton Nascimento, Roberto Menescal
Produção | Cristina Huete
França, Holanda, Espanha, Portugal, Peru, Reino Unido | 2023 | Drama, Animação | 103 Minutos | Maiores de 12 anos
Vida Ovar
24 Mar 2024 | dom | 19:35


Nova Iorque, 2009. É numa livraria da cidade que decorre a apresentação do livro “Mataram o Pianista”, da autoria do jornalista e escritor Jeff Harris. Falando da obra e da forma como se foi desenrolando o processo de escrita, Harris convida-nos a acompanhá-lo nas suas pesquisas, centradas inicialmente no período dourado da Bossa Nova, mas que acabaram por se focar, de forma quase obsessiva, na personagem de Francisco Tenório Júnior, um excepcional pianista brasileiro, desaparecido misteriosamente no dia 18 de março de 1976, depois de um concerto em Buenos Aires, onde actuara ao lado de Toquinho e Vinícius de Moraes. Seis dias depois, um golpe de estado levava à queda de Isabel Perón e o Tenente-General Jorge Rafael Videla assumia a Presidência da Argentina, dando início a sete anos de uma sangrenta ditadura militar, período classificado como um “processo genocida” e marcado por crimes contra a humanidade, que se saldaram por mais de 30.000 pessoas mortas ou desaparecidas, sobretudo jovens oponentes ao regime.

Filme de animação ao ritmo do Jazz e da Bossa Nova, “Mataram o Pianista” tem por detrás uma particularidade, visto ter sido filmado como um documentário e posteriormente ter-lhe sido acrescentada a animação por um processo que vem dos primórdios do cinema e se designa por rotoscopia (desenho de imagens sobre película ou filme digital). Aos realizadores Fernando Trueba e Javier Mariscal terá parecido que esta solução servia melhor os seus propósitos, depois de uma estreia auspiciosa da dupla no género com “Chico & Rita”, filme de 2010 que recebeu a nomeação para o Óscar de Melhor Longa-Metragem de Animação e que triunfou nos Prémios do Cinema Europeu. É, pois, um filme de carácter histórico, com datas e personagens reais, mas que integra muito bem a ficção mediante a presença de temas habituais na filmografia de Trueba, do seu amor pela Nouvelle Vague (com um piscar de olho a Truffaut e Godard) à denúncia das ditaduras que assumiram os destinos de muitos países da América Central e do Sul ao longo de décadas.

Narrados com intensidade e ritmo, os acontecimentos levam-nos a cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo ou Buenos Aires, ao encontro das pessoas que privaram com Tenório Jr. e que podem contribuir para o aclarar do mistério. Desta forma, o espectador vai recebendo pistas que lhe permitem juntar as várias peças do puzzle e fazer o seu próprio juízo. A música e a cultura brasileiras são tratadas com imenso carinho – geniais as conversas mantidas com Chico Buarque ou Caetano Veloso, Milton Nascimento ou Gilberto Gil –, assim como os pormenores do Beco das Garrafas, de um cartaz do filme de Glauber Rocha “Deus e o Diabo na Terra do Sol” ou de uma Ella Fitzgerald, descalça, a pisar o palco de um pequeno clube de Jazz. A forma como os realizadores partem de uma tragédia individual para a denúncia da Operação Condor e da intromissão dos Estados Unidos na política latino-americana é particularmente inteligente. O resto são as animações vivas e uma paleta de cores muito rica, fazendo com que o filme se torne apelativo, estimulante e visualmente deslumbrante.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #71



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #71
Escola de Artes e Ofícios
120 Minutos | Maiores de 14 anos
27 Abr 2023| qui | 21:30


Mais uma grande noite Shortcutz Ovar. À enorme qualidade dos filmes exibidos – o que vem sendo uma constante na competição desta temporada -, juntou-se de novo a presença de um público entusiasta e conhecedor, fazendo da sessão um momento incontornável de festa e celebração do cinema curto português. Pondo de lado este aparte, a sessão #71 abriu com uma surpresa. Fora da competição, foi exibido “Janeiro”, (provavelmente) a primeira curta desenvolvida com recurso a Inteligência Artificial. Apesar de se encontrar disponível na plataforma youtube há cerca de três meses, o filme foi apresentado em sala pela primeira vez e contou com a presença do realizador, Bruno Carnide, o homem por detrás da ideia. “Nenhuma imagem foi capturada, desenhada ou modelada. Nenhum texto foi escrito ou gravado. Nenhuma música foi composta ou executada. O ser humano precisou apenas de fornecer as pistas e juntar as peças”, pode ler-se no início de um filme “que se fez a si mesmo em 24 horas”. Levar ao questionamento dos riscos que a supremacia da tecnologia sobre a criatividade acarreta, ou a frustração e os ressentimentos que a Inteligência Artificial pode gerar nos artistas, são aspectos nos quais importa atentar. Preparados para o que aí vem?

A competição abriu com “Sónia”, um documentário que bem poderia ser uma ficção. Através dele, Maria Moreira dá-nos a ver os bastidores do seu desporto de eleição, o badminton, acompanhando a campeã nacional Sónia Gonçalves e o seu trajecto com vista a garantir uma presença nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Em plena pandemia, a atleta ficou a três lugares da qualificação para os Jogos, teve de lidar com uma gravidez inesperada e o nascimento do filho, mas não desistiu nem desiste. No horizonte está Paris em 2024 e no presente acolhe um projecto lindíssimo em torno do badminton adaptado. Enquanto isso, vai gerindo a ambição de compatibilizar a sua condição de atleta, com a de estudante, trabalhadora e mãe. Se a vida, na figura de um recém-nascido, é um dos grandes vectores de “Sónia”, em “Palma” é a morte que emerge, carregando consigo a angústia e o sofrimento, mas também, paradoxalmente, uma enorme atracção, uma quase obsessão por aquilo que o além esconde. Sara (espantosa Mafalda Banquart) é uma jovem mulher que resiste a aceitar a morte da mãe e se deixa contaminar pelo peso de uma entidade que encerra o grande mistério da humanidade. Filme de época, “Palma” apoia-se num texto marcadamente romântico, quase “camiliano”, tirando partido do requinte dos espaços, da beleza dos planos, da subtileza dos pormenores e de uma estética apurada que o torna fascinante aos olhos do espectador.

Apresentar dois filmes a concurso numa mesma sessão do Shortcutz Ovar é algo praticamente inédito, mas que aconteceu ontem pela terceira vez em sete temporadas do certame. Mónica Santos foi a “reincidente” e o filme exibido, “O Casaco Rosa”, voltou a fechar a noite sob o signo do cinema de animação, tal como acontecera na sessão de Março com “Ice Merchants”, de João Gonzalez. Com uma estética muito própria ligada ao filme musical, o filme tem um cunho marcadamente político ao fazer incidir a história na figura de António Rosa Casaco, o homem que chefiou a brigada da PIDE responsável pelo assassínio do general Humberto Delgado no dia 13 de fevereiro de 1965, perto de Badajoz. Partindo das “façanhas” do torcionário fascista, Mónica Santos propõe-nos um “Casaco Rosa” que, no conforto doméstico, conspira e tortura, com recurso à linha e costura, contra os opositores do sistema. O ponto de partida terá sido um artigo de José Pedro Castanheira no jornal Expresso, mas o desenvolvimento do tema é absolutamente único e brilhante. De arma carregada, a realizadora não desperdiçou um único tiro. Aqui silenciam-se “amanhãs que cantam”, a censura, o saco azul e a cadeia são casas do “Monopólio”, a história acoita-se num livro com a lombada virada para dentro. Alfinetes, tesouras, ferros de engomar e bastidores são instrumentos de tortura. Os versos são de uma ironia avassaladora, o humor impera, mas nada é “a brincar”. Exibido dois dias após celebrarmos o 49º aniversário do 25 de Abril, “O Casaco Rosa” é a pedra de toque de uma democracia que se quer com memória. Um filme obrigatório!

sábado, 22 de maio de 2021

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #46



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #46
Escola de Artes e Ofícios
90 Minutos | Maiores de 16 anos
20 Mai 2021 | qui | 21:00


Sensivelmente meio ano após a sua última sessão competitiva, o Shortcutz Ovar regressou às salas na noite da passada quinta-feira, marcando o arranque da quinta temporada. Noite de festa e de celebração, pois claro! Noite de emoções, também, por tudo aquilo que representa este reencontro com o cinema e com a cultura em geral, quer pela evolução positiva da pandemia que vai permitindo algum desconfinamento, ainda que cauteloso e com regras, quer pela presença de público na plateia, aproximando do desejável os momentos de oferta e de partilha que são marcas distintivas desta festa do cinema em versão curta. Sabendo o quanto isto é importante na dinâmica do Shortcutz Ovar, foi particularmente saboroso “estar de volta, reunir de novo a malta e voltar à Escola... de Artes”, conforme sublinhou Tiago Alves, verdadeiro mestre de cerimónias num evento de todos e para todos.

Nesta sessão inaugural da nova temporada, o público viu-se confrontado com a exibição de duas curtas-metragens apenas, em vez das habituais três ou mesmo quatro obras, situação que se prende com a necessidade de encerrar o espaço às 22h30 e de conciliar os constrangimentos de tempo com um dos grandes trunfos do Shortcutz Ovar: a presença dos realizadores ou de elementos ligados à produção dos filmes e a interacção com os espectadores mediante a abertura de espaços de conversa que se revelam, sempre, extraordinariamente enriquecedores. Assim foi uma vez mais, com três ilustres convidados a pisarem o palco da Escola de Artes, a “repetente” Alexandra Ramires (em 2018 tinha aqui apresentado “Água Mole”, uma primeira obra co-realizada por Laura Gonçalves) e os “estreantes” José Mazeda e Vítor Norte. A própria Laura Gonçalves também por cá passou, assim como Salvador Malheiro, presidente da autarquia, para quem a importância da cultura como parte integrante dos grandes desafios estratégicos do Município é incontornável, deixando a garantia de que “o Shortcutz Ovar é para continuar”.

Animação com a duração de onze minutos, “Elo” foi a primeira curta da sessão, trazendo-nos a história de dois seres que, de forma simbiótica, procuram encontrar espaço na sua relação para, abraçando diferenças e imperfeições, conseguirem transpor os seus limites. Verdadeira viagem ao princípio do ser, “Elo” fala-nos da importância de vivermos este mundo tirando o maior partido daquilo que ele tem para nos oferecer, a sua matéria-prima. Metáfora da forma como nos adaptamos e interagimos uns com os outros, o filme é um hino às relações humanas no seu sentido mais construtivo e harmonioso, lembrando-nos que todos dependemos de todos para existirmos e fazermos da vida uma doce melodia. Primeira obra a solo de Alexandra Ramires, com produção de David Doutel (que assina também a montagem, ao lado do inevitável Vasco Sá e da própria realizadora) e animação de Dimitri Mihajlovic, Inês Teixeira, Laura Gonçalves e Vitor Hugo Rocha, “Elo” conta com a preciosa colaboração de Regina Guimarães no argumento, matéria fundamental na comunhão perfeita entre a imagem e a palavra e cujo resultado estará plasmado num livro a publicar muito em breve.

A encerrar a sessão, “Para Cá do Marão”, curta-metragem de ficção realizada por José Mazeda e baseada num relato verídico, transporta-nos ao coração de Gralhas, pequena aldeia da Terra Fria, no Concelho de Montalegre, no terceiro quartel do século passado. De costumes e tradições que se vão esboroando nos fala o filme, mas também da honra e do facto de ser mais fácil a um transmontano perdoar um crime do que um roubo. Memórias marcantes do realizador, ele próprio transmontano de Mirandela, o roubo de águas de um lameiro e o desfecho trágico destes actos serve aqui de referência a uma obra que deve ser vista como uma homenagem à infância de José Mazeda e à cultura transmontana. Com João Lagarto, Vítor Norte e Adriano Carvalho no elenco, o filme tem fotografia de Aurélio Vasques, montagem de Ricardo Sobral e argumento de Daniel Pereira e do próprio José Mazeda que é, igualmente, o produtor do filme. Quanto a José Mazeda, importa vincar a enorme paixão que se derrama das suas palavras quando o assunto é cinema, bem como a grande amizade que o prende aos agentes com quem trabalhou ao longo de quase cinco décadas, nomeadamente os realizadores António Reis e Margarida Cordeiro, João César Monteiro, António Campos, Paulo Rocha, Rita Azevedo Gomes, Imanol Uribe e Roman Polanski, entre outros. “Para Cá do Marão” é um filme cuja projecção as gentes de Montalegre aguardam ansiosamente mas que, entretanto, passou já entre nós. Um belo filme, sublinhe-se.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #17



1. A Casa da Arquitectura – Centro Português Arquitectura comemora, a partir do dia 17 de novembro, o seu 3º aniversário no Quarteirão da Real Vinícola, em Matosinhos, com uma programação que oferece entrada gratuita na Exposição até dia 22 de novembro e conteúdos online nas suas redes sociais. De 17 a 20 de novembro, a Casa abre com horário alargado até às 20h00. No fim-de-semana de 21 e 22 de novembro, as portas estão abertas até às 12h30, permitindo visitas à exposição sem aglomerados de pessoas. Devido às restrições motivadas pela pandemia covid-19, as comemorações deste ano vão privilegiar também as iniciativas online para diferentes públicos, com transmissão a partir das páginas de Facebook e Youtube da Casa da Arquitectura. Seja presencialmente ou nas redes sociais, o convite é para que se junte às celebrações. Saiba mais em https://casadaarquitectura.pt/.

2. Entre os próximos dias 18 e 21 de Novembro, a Casa das Artes, no Porto, acolhe o OLHO Animation Film Festival, certame de referência no panorama português do Cinema de Animação. Constituídas sobretudo por filmes de autor produzidos entre 2017 e 2020, as sessões destinam-se maioritariamente ao público em geral, havendo uma dedicada exclusivamente a um público infanto-juvenil. A competição atribuirá prémios nas categorias melhor curta nacional, melhor curta internacional, melhor curta escola nacional e melhor curta escola internacional, sendo 66 os filmes a concurso no conjunto destas quatro categorias. Fortíssima, a categoria de melhor-curta nacional permitirá ver ou rever obras de nomes consagrados como os de Mónica Santos, Alice Guimarães, David Doutel, Vasco Sá e Bruno Caetano, entre outros. O programa pode ser consultado em https://olho.pt/.

3.  Durante o mês de novembro, o Centro Comercial Alameda Shop & Spot acolhe uma exposição virtual de caricaturas que homenageiam Pablo Picasso, o pintor das "infinitas distorções". Através de um conjunto de 40 desenhos pertencentes ao Prémio Especial de Caricatura, integrado na 19.ª edição do Porto Cartoon World Festival - uma parceria com o Museu Nacional da Imprensa - a mostra virtual reúne diferentes perspetivas do aclamado pintor espanhol, também ele um caricaturista. Evocando o humor através da arte, a exposição integra trabalhos de artistas de cerca de trinta países, da Bulgária à Ucrânia, do Egipto à Costa Rica. As obras podem ser apreciadas na galeria situada no Piso 2 ou virtualmente, na página oficial do Centro Comercial portuense, em https://alamedashopping.pt/art-spot/picasso-na-caricatura-internacional/.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

CINEMA: Shortcutz Ovar 2020 | Sessão #41



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #41
Escola de Artes e Ofícios
90 Minutos | Maiores de 16 anos
15 Out 2020 | qui | 22:00


Circularidade. Linearidade. Infinito. Espaço, espaço, espaço. E tempo. E gente. A forma como as pessoas se relacionam com o espaço e o tempo foi, de um ponto de vista conceptual, o elemento aglutinador da 41ª sessão do Shortcutz Ovar, levada ao ecrã da Escola de Artes e Ofícios na noite de ontem e perante uma moldura humana, sólida amálgama de entusiasmo e resiliência, deveras significativa. Habitual moderador destas sessões, Tiago Alves fez questão de vincar isso mesmo, saudando aqueles que, em tempos de indefinição e incerteza, teimam em seguir de braço dado com as artes, em sair de casa e, responsavelmente, em ocupar as cadeiras das salas, dando sentido a todo um esforçado trabalho de programação e organização e alimentando o querer e os sonhos de todos quantos vivem de e para a cultura.

Nestor. É este o nome da personagem que dá título ao primeiro filme da noite, uma curta de animação já apresentada em finais do ano passado no Cinanima, onde foi galardoada com o Prémio António Gaio para Melhor Filme (competição nacional). Com realização, animação e montagem de João Gonzalez, “Nestor” é o resultado do projecto final do primeiro ano de mestrado em animação no Royal College of Art de Londres e dá-nos a conhecer o solitário habitante de um barco no meio do oceano e as suas obsessões pela arrumação e pela ordem face aos constantes abanões a que a sua casa é sujeita. Com um forte sentido metafórico entre a oscilação do mar e a instabilidade do quotidiano, o filme é ritmado por uma música também ela obsessiva, da autoria do próprio João Gonzalez, induzindo no espectador um estado de tensão emocional que o leva a confrontar-se com o seu eu. Magníficos os cartões animados, com uma forte componente esquemática e que acentuam o carácter obsessivo-compulsivo da personagem. 
 
Ellen. Assim se chama a solitária protagonista de “Ursula”, terceira curta-metragem de Eduardo Brito, filmada entre Longyearbyen, no arquipélago norueguês de Svalbard, para lá do Círculo Polar Ártico, e a praia de S. Jacinto, espécie de “finisterra” portuguesa, abraçada pelo mar e pela Ria de Aveiro. Valorizando, em partes iguais, o texto e a fotografia, Brito oferece-nos um olhar delicado e sensível sobre este planeta que habitamos, no preciso ponto onde a estrada acaba e se torna impossível ir mais além. Filmado em condições profundamente adversas, em parte sob os rigores do Inverno Ártico, este é um filme contemplativo, de uma enorme beleza, criando no espectador a ilusão de estar próximo do sonho, apanágio e razão de ser do próprio cinema. Com montagem e produção de Rodrigo Areias, “Ursula” seguiu um curioso processo criativo, as palavras a surgirem das imagens, sem guião prévio, sem balizas nem guardas, aberto e livre. Na imensidão dos espaços, fustigada pelo vento e pelo frio, Ellen é, tal como as palavras, a guardiã do tempo e da sua marcha inexorável.

Mário. É este o nome do solitário faroleiro numa recôndita ponta das Flores, no arquipélago dos Açores. Ali, no espaço concentracionário de uma ilha, tendo apenas um gato e uma vaca por companhia, o sentir da passagem do tempo parece ser mais pesado, o isolamento torna-se quase sufocante. No seu ideal de circularidade, o farol lá está para nos lembrar que a cada dia se sucede outro. E outro. E outro... Misto de documentário e ficção, “Há Alguém na Terra” é uma produção da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa e dá-nos a ver o trabalho de Francisca Magalhães, Joana Tato Borges e Maria Canela, três jovens realizadoras que não escondem o seu fascínio pela natureza e decidem partir em busca de respostas para a eterna questão: “Porque estamos aqui?”. “Engolidas” pela identidade florentina e pela profunda comunhão do homem com o lugar que habita, as autoras traçam um retrato pungente dos ciclos da vida e da solidão que se oferece num abraço que é prenúncio de fim. Só a luz ofuscante do farol teima em alumiar os passos em volta. Sempre os mesmos.