Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Falcão Nhaga. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Falcão Nhaga. Mostrar todas as mensagens

domingo, 31 de maio de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #105



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #105
Com | Marta Reis Andrade, Joãozinho da Costa, Diogo Salgado
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
28 Mai 2026 | qui | 21:30


Concluída que está a primeira metade da décima temporada, o Shortcutz Ovar continua a afirmar-se como um espaço privilegiado de descoberta do melhor cinema português em formato curto, seja ele de ficção ou documental, de imagem animada ou ancorado num território híbrido de nem sempre fácil catalogação. Para um público fiel e cúmplice, a última quinta-feira do mês reveste-se de um ritual de prazer cinéfilo que passa por reservar a noite, atravessar a cidade, deixar-se abraçar pelo aconchego da Escola de Artes e Ofícios e, entre conversas e risos, reforçar essa proximidade única que liga o ecrã à plateia. Curiosamente, o sentimento de deslocação, pertença e abrigo que move os espectadores do Shortcutz Ovar, encontrou nos filmes exibidos na passada quinta-feira linhas paralelas. “Cão Sozinho”, “Sabura” e “Vultosos Cumes”, as três curtas exibidas, tiveram a uni-las os encontros e reencontros, encruzilhadas e lugares, identidades e afectos, a deriva das personagens em busca de ser, repousar ou sonhar com um lugar a que possam chamar casa.

“Cão Sozinho”, de Marta Reis Andrade, abriu a sessão em tom de fábula, oferecendo uma narrativa intimista, marcada pela perda e o abandono. A história real de um cão deixado sozinho em casa, cruza-se com a viuvez do avô Adriano e com o regresso da realizadora de Londres, cidade onde experimentou uma solidão funda. A emotiva conversa que Marta Reis Andrade manteve com o público do Shortcutz Ovar foi ao encontro do antigo sonho de “ser personagem de desenho animado”, desejo que ganha corpo numa obra profundamente autobiográfica e emocionalmente desarmante, ancorada na memória, no medo e na necessidade urgente de apego. A referência a Andrei Tarkovski - “só vale a pena fazermos um filme se tivermos algo a acrescentar à vida” - surge como verdadeira declaração de princípios para uma curta-metragem que encontra no cuidar uma forma de resistência ao sofrimento. De solidão nos fala “Cão Sozinho”, mas também da possibilidade de sarar as feridas do mundo através do carinho, da proximidade e do gesto simples de um abraço. Uma homenagem comovente à velhice, à fragilidade e à importância de continuarmos a amar antes da inevitabilidade.

Depois de “Mistida”, em 2023, Falcão Nhaga regressou à competição do Shortcutz Ovar com “Sabura”, a história de amor de um casal guineense transformada em retrato maior das deslocações, pertenças e fracturas do ser migrante hoje. Tony e Cadija são esse corpo em trânsito que segue “de mala às costas à procura dos sonhos”, mas que encontra pelo caminho precariedade, invisibilidade e hostilidade. Falcão Nhaga filma rostos, silêncios e gestos com uma delicadeza rara, fazendo da cidade um espaço de encontros improváveis, onde convivem diferenças de género, religião, condição social e identidade cultural. A referência à mutilação genital feminina ou um ambiente cada vez mais hostil, alimentado pela ascensão da direita ultra-conservadora e da extrema-direita populista, são sombras que atravessam o filme. Ao mesmo tempo, o realizador filma com enorme sensibilidade uma Lisboa plural, mestiça, periférica e profundamente humana. Nesse gesto reside a força simbólica da obra, a insistência de criadores e actores luso-africanos em desbravar caminho e reclamar visibilidade para histórias que sempre fizeram parte da cidade, mas que raramente ocupam o centro da narrativa.

A sessão encerrou com “Vultosos Cumes”, a mais recente curta-metragem de Diogo Salgado. Cruzando o realismo social com uma dimensão quase fantasmática da memória, o realizador parte de uma experiência profundamente autobiográfica, marcada pela emigração e pela ausência masculina no seio familiar, para vincar a ideia de distância, seja ela física, afectiva ou imagética. O filme acompanha um jovem serralheiro na sua primeira viagem para França, integrando um universo laboral duro, cinzento e mecanizado. Há em “Vultosos Cumes” uma tentativa deliberadamente artificiosa de transformar a distância em linguagem cinematográfica, quer através da luz irreal e das sequências filmadas em estúdio, quer pela construção de um espaço suspenso entre o concreto e o imaginado, um verdadeiro “lugar-não lugar”, simultaneamente familiar e abstracto. O olhar inaugural dos mais novos sobre os Alpes, o encantamento pela beleza agreste e nevada da paisagem, contrasta com a dureza silenciosa do trabalho e da condição emigrante, incapaz ainda de reconhecer o peso dessa realidade. Um poema em forma de filme, feito de sonho, bilhete postal e fascínio, mas também de ausência, poeira e perda da inocência.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #69



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #69
Escola de Artes e Ofícios
135 Minutos | Maiores de 14 anos
23 Fev 2023 | qui | 21:30


O Shortcutz Ovar regressou ao convívio dos amantes do melhor cinema em versão curta para a sua sétima temporada. Numa noite particularmente fria, foram muitos aqueles que trocaram o aconchego do lar pela bonita sala espande da Escola de Artes e Ofícios, sendo brindados com uma sessão que teve para oferecer animação, cinema documental, ficção e uma primeira obra. Mas antes, algumas novidades para esta nova temporada, a começar pelo júri Shortcutz que, para além do “residente” Leandro Ribeiro, dramaturgo e actor, contará com as contribuições da cantora Laura Rui e da criadora e intérprete Maria Leite. Também o Júri Jovem sofre mexidas, com a saída de Jorge Azevedo e as chegadas de Maria Manarte e Beatriz Santos. Um aspecto importante vincado por Tiago Alves corresponde a uma velha ambição e tem a ver com a possibilidade de vir a ser atribuído um prémio monetário ao vencedor do Shortcutz Ovar, eventualmente traduzido na rodagem de uma curta-metragem na nossa região. Mudança relevante para quem faz questão de aproveitar o momento de convívio após a exibição dos filmes, em 2023 a cidra e a cerveja tenderão a desaparecer e passará a haver espumante. Posto isto, vamos às curtas!

Muito distintos entre si de um ponto de vista formal, em termos substantivos há um elo a unir os três filmes exibidos e que pode resumir-se num “fazer do longe perto”. Seja através da memória, em conversas à volta da mesa ou numa caminhada de regresso a casa, seja pelo poder de uma lente de longo alcance, trazer para o presente aquilo que são as nossas histórias, os nossos lugares, aqueles que nos são queridos, é um compromisso que atravessa por igual as obras desta primeira sessão de 2023. Este aspecto torna-se particularmente evidente no filme que marcou o arranque da sessão, “O Homem do Lixo”, animação em 2D escrita e realizada por Laura Gonçalves, que documenta uma reunião familiar, o cruzamento das memórias de cada um a incidir nessa figura consensual que foi o tio Botão, um homem amado e admirado por todos. Explorando um mundo muito pessoal, fazendo da memória a força motriz deste seu filme, Laura Gonçalves aborda, com enorme sensibilidade, uma vida onde cabem a pobreza em tempos de ditadura, a guerra do ultramar, a emigração “a salto” para França, as férias em Belmonte onde cada dia era uma aventura. Combinado com uma deliciosa animação, o lado afectivo da história toca fortemente o espectador e faz de “O Homem do Lixo” um verdadeiro tesouro.

De um lado o cinema, o teatro e a performance; do outro a pesquisa, o ensaio, a escrita. É nestas áreas que se move “2ª Pessoa”, segunda obra com a assinatura de Rita Barbosa. Objecto difícil de classificar, algures entre o documentário e a ficção, o filme encerra um olhar intrusivo sobre a cidade e as pessoas que a constituem, pondo a nu a profunda solidão em que se encontram, reféns do passado e das memórias, umas boas, outras nem por isso. Em dezasseis minutos angustiantes, quase sufocantes, a realizadora envolve-nos numa enorme estranheza ao mostrar-nos a cidade como nunca a vimos, ao mesmo tempo que desfia um conto (narrado em “off” por Márcia Breia) que exalta o empoderamento da mulher e faz tábua rasa de todas as convenções. O texto que subjaz ao filme é precioso, levando o espectador a reflectir sobre o seu próprio presente e a concluir, como pode ler-se na sinopse, que “o cogumelo é o futuro”. Enfim, Rita Barbosa, uma realizadora interventiva, insubmissa, metediça, incómoda, avessa ao “certinho”, que importa seguir.

A fechar a noite, Falcão Nhaga trouxe-nos “Mistida”, filme de final de curso da Escola Superior de Teatro e Cinema e uma primeira obra com a qual esteve presente em Cannes na secção Cinéfondation, um panorama das escolas de cinema de todo o mundo. Com Bia Gomes e Welket Bungué nos principais papéis, o filme conta a história de um filho que ajuda a mãe a carregar para casa os sacos com as compras. Ao longo do caminho, as memórias vêm ao de cima e, com elas, as clivagens geracionais entre quem, na diáspora, vive e sente as suas origens de forma muito diferente. Fortemente metafórico, o filme faz deste caminho trilhado por mãe e filho um exemplo do que Guiné e Cabo Verde podem esperar do futuro se todos unirem esforços e apontarem na mesma direcção. Nesse sentido, o filme de Falcão Nhaga tem um significado político muito intenso, assente numa ambicionada cooperação intergeracional, a energia e a sabedoria de mãos dadas como motores de uma nova e progressiva sociedade. A cultura é outro factor de união entre todos, com a língua a desempenhar aqui um papel fundamental (o filme é falado em crioulo, espalhando o perfume de uma língua tão bela). Na paisagem urbana da periferia de uma grande cidade, num sítio que não foi feito para que as pessoas se sintam bem, aquela mãe à janela seduz-nos com o seu cântico de verdade e esperança e aponta caminhos de futuro.